Cinco Câmeras Quebradas

Para legendas em português, clicar no botão no canto inferior direito do vídeo.

“Imagine que não houvesse nenhum país

Não é difícil imaginar

Nenhum motivo para matar ou morrer

E nem religião, também

Imagine todas as pessoas

Vivendo a vida em paz” (John Lennon)

Impressionou-me muito assistir “5 Broken Cameras“, o primeiro documentário palestiniano nomeado para um Oscar. É documento histórico, pois coloca o expectador dentro da cena, criando uma verdadeira empatia com o documentarista e seus conterrâneos.

Ele mostra a violência do exército israelense contra os residentes de uma aldeia chamada Bilin na Cisjordânia. Para ocupar o território conquistado à força, colonos israelitas se mudam para os novos apartamentos nos cumes vizinhos a Bilin. Não só os habitantes de Bilin são atacados, como até mesmo as oliveiras que lhes restam são queimadas por colonos ou arrancadas pelo exército usando máquinas de construção blindadas.

Com início em 2005, Emad Burnat, um camponês tornado cineasta amador, foi  filmando ao longo de um período de cinco anos com cinco máquinas de filmar danificadas uma após outra por soldados ou colonos israelitas. Ele documentou os protestos contra as confiscações de terras pelo governo israelita e a construção do muro que ocupa as suas terras cultivadas e os irá separar delas.

Apesar do grande risco pessoal, ele continuou a filmar com um sentimento de obrigação moral para com o seu povo e o desejo de alertar o mundo sobre a luta para salvar a sua terra. Em 2009, Burnat conseguiu o auxílio do ativista e realizador israelita Guy Davidi para o ajudar a montar o filme. Continue reading “Cinco Câmeras Quebradas”

A Jogada do Século = A Grande Aposta

Oscar Pilagallo (Valor, 02/02/16) publicou uma resenha sobre o livro “A Jogada do Século” de autoria de Michael Lewis (tradução de Adriana Ceschin Rieche. 322 págs., R$ 45,00; Best Business). Como pretendo submeter o filme que ele inspirou a uma discussão em sala-de-aula, compartilho abaixo sua resenha.

“Uma maneira de tornar interessante uma história conhecida é contá-la a partir de um novo ângulo. Foi essa a bem- sucedida estratégia narrativa de Michael Lewis ao abordar a gênese e os bastidores do colapso financeiro americano de 2008 em “A Jogada do Século“, relançado por ocasião da estreia do filme “A Grande Aposta”, que se baseia no livro.

[FNC: como em quase todos os filmes sobre a crise financeira de 2008, exceto “Margin Call”, especialistas apreciam, leigos detestam. Leia a respeito a monografia que orientei: CAROLINA AFONSO – Monografia – Crise Vista no Cinema]

O relato convencional da crise é centrado nos prejuízos bilionários do sistema bancário e na operação de salvamento das grandes instituições americanas, que perderam fortunas em arriscadas operações no mercado de crédito imobiliário, o que teve forte impacto sobre a economia mundial.

No livro, o autor buscou o avesso dessa perspectiva. Garimpou casos de um punhado de investidores excêntricos e contou como eles, após detectar a irracionalidade do mercado, amealharam milhões de dólares apostando contra a tendência ditada por um otimismo inexplicável que fez disparar artificialmente os preços das casas nos Estados Unidos.

Estima-se que apenas 15 investidores tenham enfrentado o consenso do mercado. Lewis se concentra em dois deles: Michael Burry e Steve Eisman.

Burry é o mais improvável: formado em medicina, tem um olho de vidro, trabalha de bermuda, ouve heavy metal para se acalmar e, como autista, desenvolveu um interesse obsessivo pelo mercado de títulos, que o levou a ler os extensos e obscuros contratos que estabelecem as regras de cada um deles. Sua condição psicológica, que o afasta das pessoas, lhe dava extraordinária capacidade de concentração no objeto do seu interesse e o tornava quase imune à reprovação alheia, o que foi fundamental durante os vários meses em que esteve na contramão do que parecia lógico.

Quanto a Eisman, é fã de super-heróis de histórias em quadrinho e, quando criança, estudou o Talmud apenas para apontar contradições internas do texto sagrado judaico. Sua trajetória ideológica é ainda mais surpreendente. Tendo participado de organizações de direita na juventude, assumiu posições de esquerda após chegar a Wall Street. “Eisman estava a caminho de se tornar o primeiro socialista do mercado financeiro”, diz Lewis. “Ele se considerava um paladino, defensor dos fracos e oprimidos, [e] se achava o próprio Homem-Aranha.”

De forma independente, Burry e Eisman chegaram à mesma conclusão, cerca de três anos antes de a crise estourar, em setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers: tratava-se de um típico esquema Ponzi, insustentável no médio prazo. Ou seja, quem estivesse na ponta contrária da aposta do mercado multiplicaria o capital quando a corrente arrebentasse. Com essa convicção, arriscaram milhões de dólares, deles próprios e de seus investidores. E ganharam.

O lucro excepcional de poucos e a penúria de muitos, que logo seriam afetados pela crise, tiveram uma origem comum: a falta de regulamentação do setor. Uma pergunta formulada após 2008 foi por que os bancos de investimento atuavam sem restrições no mercado de títulos, ao contrário do que acontecia no mercado de ações.

Lewis tem uma boa resposta: “A presença de milhões de pequenos investidores havia politizado o mercado de ações. Ele fora legislado e regulado para, pelo menos, parecer justo. O mercado de títulos, por consistir principalmente em grandes investidores institucionais, não sofreu pressão política populista semelhante”.

Longe do olhar das autoridades monetárias, o mercado estava livre para fazer o que bem entendesse. Foi assim que, em 2005, surgiram os títulos hipotecários subprime, uma ideia de Burry que, além de ter a função de hedge para os empréstimos mais duvidosos, servia de instrumento para viabilizar apostas contra o mercado. Com a disseminação desse título e de outros derivativos mais opacos para os leigos, os bancos de investimento passaram a se comportar como cassinos.

O modelo assentava-se sobre empréstimos a pessoas que queriam comprar casas mesmo sem renda para isso, por ganharem pouco ou até estarem desempregadas. Os pretendentes eram atraídos por taxas baixas e fixas, que dois anos mais tarde se tornariam altas e flutuantes. O pulo do gato era que, quando os mutuários não conseguissem mais pagar as prestações, o risco já teria sido transferido dos bancos para investidores que compravam os títulos subprime.

Mas como é possível que ninguém enxergasse na época o que depois seria óbvio? Lewis tem uma boa resposta também para essa pergunta: a fraude contava com o papel vergonhoso das agências de classificação de risco, como a Moody’s e a Standard & Poor’s. O autor simplesmente demole as agências.

Para começar, são instituições que não conseguem acompanhar o nível salarial de Wall Street e, portanto, não seguram profissionais de talento. Além disso, eram claramente manipuladas pelos bancos de investimento, avaliando como seguros títulos sem chances de serem honrados. O comportamento de seus diretores variava entre o de bandido e o de idiota, observa um analista citado por Lewis. “As agências de classificação de risco eram a escória, o que havia de pior no setor”, afirma o autor.

Mas quem as levava a sério? “Os alemães idiotas”, diz um corretor do Deutsche Bank. No período que precedeu o desmoronamento do esquema, investidores de Düsseldorf foram os grandes compradores desses títulos fadados à inadimplência. “Os alemães levam as agências de classificação a sério. Eles acreditam nas regras.”

Egresso de Wall Street, onde trabalhou entre 1985 e 1988 no Salomon Brothers, Michael Lewis tem autoridade para tratar o assunto. Mestre pela prestigiosa London School of Economics, ele é também autor de “O Pôquer dos Mentirosos”, em que descreve sua decepcionante experiência no mercado financeiro.

“A Jogada do Século” tem poucos problemas. Alguma redundância, desnecessária porque muitos casos tratados são equivalentes, e um vai e vem cronológico nem sempre bem resolvido. No mais, trata-se talvez da mais didática e atraente abordagem da anatomia de uma crise cujos efeitos ainda não se dissiparam.”

Leia mais: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/12/22/a-crise-vista-no-cinema/

Documentário sobre a Vida de Frank Sinatra

Boa dica para o feriadão. Assisti logo que foi lançado no Netflix. Agora, li (Valor, 30/10/15) a boa resenha habitual em Amir Labaki, diretor­ fundador do É Tudo Verdade Festival Internacional de Documentários. Na verdade, o mais interessante do documentário sobre a vida de Frank Sinatra é que ele mostra os contextos de suas distintas fases de vida de maneira admirável. É a história norte-americana do século XX que visualizamos em uma recuperação extraordinária de imagens. Faz lembrar a série sobre Jazz de Ken Burns, o melhor documentário sobre a maior expressão da cultura popular nos Estados Unidos.

“Desde a semana passada está oficialmente aberta, também por aqui, a comemoração do centenário de nascimento de Frank Sinatra (1915-1998), a ser completado em 12 de dezembro. A partir de então é possível assistir pela Netflix ao documentário em duas partes “All or Nothing At All“, de Alex Gibney, lançado nos EUA pela HBO em abril. Em pouco mais de quatro horas, Gibney resume o essencial da obra e da vida do mais admirado, influente e perfeccionista cantor de música popular do século XX. Como esqueleto dramático, ele se apoia nas filmagens do show de despedida de Sinatra em junho de 1971, em Los Angeles. Sim, dois anos mais tarde ele já estava de volta aos estúdios e palcos, vindo mesmo ao Brasil para uma apresentação histórica no Maracanã em 1980 e uma série de shows mais intimistas no Maksoud Plaza, em São Paulo, em agosto do ano seguinte. Continue reading “Documentário sobre a Vida de Frank Sinatra”

Ensina-me a Investir (e a Ver Bons Filmes, senão a Viver)

Filmes sobre FinançasLuciana Seabra (Valor, 27/07/15) publicou uma reportagem que se relaciona com o tema do meu curso Economia no Cinema.  Reproduzo-a abaixo e, desde logo, destaco que meu drama favorito sobre a Crise Financeira de 2008 é o Margin Call: O Dia Antes do Fim” (tem no Netflix). Sugiro ler a monografia de Carolina Alonso que orientei. Está para download em: A Crise vista no Cinema.

Assistir à saga da família de Fabiano em meio à seca nordestina no filme “Vidas Secas” ensina ao investidor que ele deve ser resiliente. De forma mais concreta, por meio de referências à crise de 2008, “Grande Demais para Quebrar” também dá seu recado: nunca se deixe levar por promessas de ganhos fáceis. Os filmes, dirigidos por Nelson Pereira dos Santos e Curtis Hanson, são duas das oito obras que, na opinião de quatro renomados gestores brasileiros, trazem lições para o investidor.

Os sócios-fundadores da Gávea Investimentos, Arminio Fraga; da IP Capital Partners, Roberto Vinhaes; da SPX, Rogério Xavier; e da Teorema Gestão de Ativos, Guilherme Affonso Ferreira, mandaram suas sugestões, a pedido do Valor, para a videoteca do investidor.

Continue reading “Ensina-me a Investir (e a Ver Bons Filmes, senão a Viver)”

Que horas ela volta? – Excelente roteiro, diálogos, intérpretes, fotografia, etc. Tudo de bom! Filme imperdível!

Sob o ponto de vista marxista, o ótimo filme brasileiro – “Que horas ela volta?” – poderia ser sumariamente definido com um roteiro que retrata “a luta de classes a la brasileira”. O que é isso?! O tradicional populismo esnobe da burguesia herdeira paulistana que trata seus empregados nordestinos com aparente condescendência, isto é, uma atitude deferente, atenciosa (sincera ou não) de um “superior” (em poder ou dignidade social, econômica, institucional, política etc.) para com um “inferior” ou pessoa assim considerada.

Mas como dizia aquela propaganda de transportadora imobiliária: “o mundo gira, a Lusitana roda”. Na conjuntura política atual, o filme mostra a razão mais profunda do ódio da burguesia ao lulismo. Nele pode ser vista a origem do discurso de ódio antipetista.

Mostra a chegada de imigrantes nordestinos pelo aeroporto de Guarulhos – “virou uma rodoviária” –, não mais para servir de mão-de-obra explorada e submissa, mas sim para disputar (e ganhar) vaga no vestibular da USP. O filho da patroa não estuda, suficientemente, para enfrentar essa nova leva social e estranha a pretensão da filha da empregada querer estudar na FAU. Acomodado, ele vai disputar vaga em Universidade paga de pior qualidade… Continue reading “Que horas ela volta? – Excelente roteiro, diálogos, intérpretes, fotografia, etc. Tudo de bom! Filme imperdível!”

Curta “Omelete”… E vote nele!

Minha filha, Nina Torres Costa, e sua turma do segundo ano do curso de Audiovisual, na ECA-USP, filmaram em equipe um curta-metragem para concorrer em Concurso Internacional.

Ela enviou-me mensagem irrecusável!

pai querido,

você pode divulgar nosso curta e a página de votação no seu blog, por favor?

http://www.rode.com/myrodereel/watch/entry/1053

estamos na décima oitava posição (de 1186 inscritos do mundo todo). o prêmio é 100 mil dólares em equipamentos profissionais de cinema. qualquer voto é uma super ajuda.

obrigada! (:

beijos.

FNC: solicito a colaboração dos queridos seguidores deste modesto blog. Vejam o curta (3 minutos) e o making-off e, por favor, votem nele. Agradeço antecipadamente.

PS: Nina acrescentou mais esclarecimentos:

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Rússia: Controle de Grande Território por Líderes Autoritários

Hoje à noite, em meu curso Economia no Cinema 2015, faremos um seminário sobre a Rússia, motivados por ter assistido o filme Alexandre Nevsky. É um épico sobre a vida do príncipe russo Alexander Nevsky que venceu os cavaleiros Teutónicos. Sergei Eisenstein fez uma analogia entre 1242, quando o príncipe pescador Alexander Nevsky da Rússia reage contra a invasão dos teutônicos (alemães), na Batalha do Gelo, e 1938, véspera da II Guerra Mundial, quando a URSS está na iminência de ser atacada por Hitler. Porém, neste ano, Stalin firma o pacto de não-agressão Germânico-Soviético, talvez para ganhar tempo na preparação da defesa militar.

Com este filme, Eisenstein superou (incorporando) o seu trabalho experimental de montagens, partindo para seu primeiro trabalho para o grande público. Após um longo período de fracassos e de uma longa estadia no exterior, este filme trouxe-lhe a glória que há tanto tempo lhe era devida. Neste trabalho conjunto com Sergei Sergeyevich Prokofiev (23 April 1891 — 5 March 1953 — leia  Prokofiev), ele aprofunda-se na integração do som e da imagem. Embora com roteiro ideológico ultranacionalista, é um espetáculo estético de fotografia, posicionamentos da câmara, montagem e trilha sonora. A tela se transforma em arte plástica, quase pictórica.

Leia mais: Revolução no Cinema: O Encouraçado Potemkin; Outubro de 1917 de Sergei Eisenstein

Humberto Saccomandi é Editor Internacional. Publicou artigo (Valor, 08/05/2015) no dia seguinte ao que o líder russo, Vladimir Putin, completou 15 anos no poder, com um breve balanço de sua Era. Ele é satanizado no Ocidente, mas aprovado em seu país. “Os primeiros 15 anos”, ironizam muitos russos, já que ninguém acredita que Putin deixará de dar as cartas em Moscou tão cedo. Ele terá desafios internos, em especial na economia. Mas provavelmente continuará sendo por muito tempo um desafio para o resto do mundo. Continue reading “Rússia: Controle de Grande Território por Líderes Autoritários”