O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Herói do Brasil

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881. Faleceu, em 1922, aos 41 anos, também no Rio. Era filho de João Henriques de Lima Barreto, filho de uma antiga escrava e de um madeireiro português, e de Amália Augusta, filha de escrava e agregada da família Pereira Carvalho. Suas duas avós eram escravas.

Ao nascer, a familia morava próxima ao Largo do Machado, e seu pai ganhava a vida como tipógrafo. Aprendeu a profissão no Imperial Instituto Artístico, que imprimia o periódico “A Semana Ilustrada“. Sua mãe foi educada com esmero, sendo professora da 1ª à 4ª série. Ela faleceu quando ele tinha apenas 6 anos e João Henriques trabalhou muito para sustentar os quatro filhos do casal.

João Henriques era monarquista, ligado ao visconde de Ouro Preto, padrinho do futuro escritor. Talvez suas lembranças saudosistas do fim do Período Imperial no Brasil, bem como as remotas lembranças da Abolição da Escravatura, na infância, tenham vindo a exercer influência sobre a visão crítica de Lima Barreto sobre o regime republicano. Continue reading “O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”

Sistema Complexo e Interações Entre Seus Componentes: Visão em Escalas Macroscópica e Microscópica

A propósito de um comentário do estimado seguidor deste modesto blog pessoal, Reinaldo Cristo, sobre um viés que funciona como uma falsa representação do foco, ideia ou tentativa de resolver um problema apresentado, trocamos ideias que desejo compartilhar com todos os leitores. Antes, não deixe de ver o vídeo acima, enviado por meu irmão, Eduardo Nogueira da Costa.

Reinaldo pergunta: como procurar uma agulha no palheiro, ou um gato numa pilha de entulhos? Se fizermos a pergunta, onde devemos procurar primeiro ou quem deve procurar?

A falsa representação ocorre quando pensamos (ou memorizamos): sou “eu” que devo procurar. Mas este é o primeiro erro cometido pelo simples fato: “não sou eu”, mas sim meu cérebro. Esta diferença é crucial. Para resolvermos determinados problemas de representação, antes o foco deve estar em nosso cérebro e não em nossa personalidade ou personificação.

O mesmo princípio pode ser aplicado na técnica de montagem de um quebra-cabeça, não adianta simplesmente ficar procurando as peças antes de termos um quadro formado em nosso cérebro. Quando esse quadro estiver pronto, a velocidade na montagem do quebra cabeça será impressionante, na realidade, não são nossos olhos que estão procurando as peças, é nosso cérebro, com base na imagem formada. Continue reading “Sistema Complexo e Interações Entre Seus Componentes: Visão em Escalas Macroscópica e Microscópica”

O Que Você Faria? El Método

Assisti o extraordinário filme-teatral, O Que Você Faria? / El Método, há dez anos, no cinema localizado no aeroporto de Brasília, quando ainda lá trabalhava. Já o revi e comentei com turma de alunos, pois se trata de uma experiência que a maioria dos recém-formados enfrentará: um método de seleção de pessoal pelo RH (Recursos Humanos) de empresas ou, no politicamente correto, “gestão de pessoas”

Sete executivos disputam uma vaga em uma empresa em Madri (Espanha). No mesmo dia, uma reunião do G-8 faz com que as ruas da capital espanhola sejam ocupadas por violentos manifestantes. Mesmo assim, os candidatos participam da seleção, cujas provas são elaboradas baseadas no chamado Método Grönholm. Fechados em uma sala, os candidatos têm de descobrir quem é o agente da empresa infiltrado entre eles, entre outras provações.

Seu roteiro é baseado em uma peça teatral, então, tudo praticamente se desenrola em um único ambiente. O confronto de ideias é intrigante!

Veja acima o longa metragem (1h52min).

Título no Brasil: O Que Você Faria?
Título Original: El Método
País de Origem: Argentina / Espanha / Itália
Gênero: Drama
Classificação etária: 14 anos
Tempo de Duração: 117 minutos
Ano de Lançamento: 2005
Estreia no Brasil: 18/08/2006
Estúdio/Distrib.: Art Films
Direção: Marcelo Piñeyro

Documentário “Destruição a Jato” e o Problema das Finanças Públicas

A memória humana é curta. Por isso, é bom registrar todos os fatos recentes através de um documentário (veja acima), mesmo que ele seja realizado “no calor da hora”, i.é, sem o distanciamento histórico para efetuar uma análise mais “fria”, abrangente e racional da experiência vivenciada.

O documentário mostra que éramos felizes até 2014 — e sabíamos, pois votamos na reeleição da Presidenta Dilma. Porém, a pressão midiática e empresarial, depois de uma campanha eleitoral acirrada, a levou a cometer um “estelionato eleitoral”: a volta da Velha Matriz Neoliberal, o “tripé macroeconômico”. Com todos os seus erros (e acertos), a chamada pejorativamente pela mídia e colunistas neoliberais de Nova Matriz Macroeconômica — desoneração fiscal, depreciação da moeda nacional, cruzada contra os juros mais elevados do mundo –, adotava um gradualismo muito mais adequado à regulação do que o tratamento de choque neoliberal da política econômica levyana: uma overdose de choques (fiscal, tarifários, cambial e de juros) em simultâneo.

Os números oficiais abaixo registram a Grande Depressão, gerada em 2015 e aprofundada em 2016, com o processo golpista do Parlamento brasileiro, inclusive aprovando “pautas-bombas” com medidas para sabotagem do Poder Executivo. Isto sem contar o locaute golpista dos industriais da FIESP.

Então, a economia brasileira parou não só por causa da Operação Lava-Jato, como sugere a tese defendida no documentário, embora a prisão das cúpulas das empresas corruptoras tenha paralisado todas as iniciativas particulares. Um fenômeno macroeconômico, social e político tem sempre multi-causas. Apresento abaixo alguns números que permitem analisá-lo com maior frieza.

Pela estatística apresentada recentemente pelo IBGE, é inegável que já em 2014 havia um grave problema de Finanças Públicas a ser enfrentado. Questiono a forma pela qual buscou-se sua solução: rápido tratamento de choque e não lento gradualismo. A dosagem é a diferença entre o remédio e o venenoContinue reading “Documentário “Destruição a Jato” e o Problema das Finanças Públicas”

Jornalismo Investigativo no Cinema

Reportagens no Cinema

Elaine Guerini (Valor, 02/09/16) conta que, quando filmava “Se Beber, Não Case! Parte II” (2011), em Bangcoc, o cineasta Todd Phillips recebeu um artigo que seria publicado na revista “Rolling Stone“. Escrito por Guy Lawson, a reportagem “Arms and the Dudes” (As Armas e os Caras) contava a trajetória de dois negociantes inexperientes que fizeram fortuna com contrato assinado com o Pentágono para fornecimento de armas na Guerra do Iraque. “Percebi na hora que o caso precisaria ser retratado nas telas. Contando, ninguém acreditaria”, diz o diretor americano.

Batizada de “Cães de Guerra“, a adaptação dos eventos ocorridos em 2007 reforça uma tendência da indústria de cinema em procurar tramas no jornalismo. “Mark Gordon, o produtor que me enviou o artigo da ‘Rolling Stone’, é um caçador de histórias. Não sei como ele consegue ler as reportagens antes de chegarem às bancas”, diz Phillips, ao Valor, em Las Vegas.

Cães de Guerra” encabeça uma nova leva de filmes hollywoodianos inspirados em textos jornalísticos. A prática já resultou em produções de sucesso, como “Argo” (2012), vencedor do Oscar de melhor filme, “O Informante” (1999), “Os Gritos do Silêncio” (1984) e “Um Dia de Cão” (1975), indicados ao prêmio máximo da Academia (veja quadro acima com as principais produções).

A demanda por histórias “de impacto, emocionantes e provocadoras” encorajou a dupla de jornalistas americanos Joshua Davis e Joshuah Bearman a criar uma revista digital. Concebida como plataforma para histórias reais com potencial de adaptação, “Epic” foi lançada em 2013, após a consagração de “Argo” – dirigido por Ben Affleck, o filme foi inspirado em artigo escrito por Bearman. A operação para resgatar clandestinamente seis diplomatas americanos de Teerã, durante a Revolução Islâmica (1979), foi narrada no texto “The Great Escape” (A Grande Fuga), publicado na “Wired“, em 2007.

“A ‘Epic‘ foi a maneira que encontramos de apoiar o jornalismo investigativo“, diz Joshua Davis. Mais de 25 artigos da dupla já ganharam adaptações. “Todas as histórias podem ser lidas gratuitamente no nosso site [http://epicmagazine.com], para o qual não vendemos assinaturas ou mesmo espaço publicitário. Para o cinema, nosso acervo é visto em primeira mão pelo estúdio da Fox. Para TV, temos acordo com o canal A&E.”

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Melhores Séries Adultas da TV

Atualmente, em conversa de classe média, checamos uns com outros quais séries de TV cada qual assistiu ou está assistindo.

Já assisti tantas que minha memória periférica (para nomes) costuma falhar quando tento lembrar das melhores. Resolvi agora pesquisar na web e sistematizar para minha memória sistêmica (para temas entrelaçados).

O site Oficina da Net lista as 10 melhores séries disponíveis na Netflix, segundo nota do IMDb. Utiliza a avaliação do IMDb como parâmetro, por ele ser um dos maiores sites do mundo sobre cinema e produções televisivas, onde milhares de usuários e críticos dão notas ao que estão assistindo.

Mas a definição de “melhor” é muito subjetiva. Das séries de TV que já assisti com temas adultos, envolvendo política, geopolítica e costumes sociais de época,  poucas das que eu recomendo estão na avaliação do IMDb que apresento depois de minha lista abaixo.

Dica: veja na Netflix – Séries – TV Britânica Continue reading “Melhores Séries Adultas da TV”

Era do Aquarius

E quem me ofende, humilhando, pisando,

Pensando que eu vou aturar…

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida,

Duvida que eu vá revidar…

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

A “geração 68” é composta pelos filhos do baby-boom do pós-guerra. No Estados Unidos, foi a primeira geração a conquistar o direito à massificação do Ensino Superior. A casta dos guerreiros – os oficiais da II Guerra Mundial – foi recompensada com o ensino público gratuito. Mas a aliança das castas dos sábios-tecnocratas e dos trabalhadores contra essa casta dos guerreiros se fez valer: depois do warfare-state veio o wellfare-state.

O Estado de Bem-Estar da Europa, lá conquistado pela aliança de lideranças sindicalistas com lideranças políticas socialdemocratas, passou a ser um modelo (“sonho”) almejado pela juventude das Américas. Parte era crítica ao “reformismo” e desejava “pular etapa”, saltando diretamente para a revolução socialista: Cuba é aqui! Outra parte percebeu que a defesa da democracia é o maior valor face ao totalitarismo ou autoritarismo.

A “geração hippie” foi um protesto pacifista contra a sociedade materialista-consumista e a nova convocação para “a morte pela pátria”, nos anos 60, pela casta dos guerreiros, desta vez aliada com a casta dos sábios-tecnocratas. Esta golpeou, como é praxe, a aliança anterior.

Dessa ruptura, no entanto, nasceu a dissidência de uma casta de trabalhadores criativos na indústria de informática – a geração Apple – que almejava não o fim da sociedade do consumo, mas sim o respeito ao direito dos consumidores a comprar produtos úteis. Criou a rede social de inter-relacionamentos mundiais. Na casta dos comerciantes também há dissidentes, que com tolerância e liberalismo cultural, podem se aliar às castas dos trabalhadores com ceticismo face ao livre-mercado e sábios-pregadores não conservadores que buscam autonomia e autoexpressão.

Para entender a geração censurada, nos anos 1964-1984, tem de se perceber como ela se expressava através de letras de músicas brasileiras e o som do rock internacional. Sua trilha-sonora é fundamental. Simbólica daquela geração foi a ópera-rock Hair. Quem viveu os anos 70 não se esquece da gravação de Aquarius/Let’s The Sunshine In pelo grupo The Fifth Dimension. Cantavam:

Harmonia e compreensão

Simpatia e confiança em abundância

Não mais falsidade ou escárnio

Visões de sonhos vivos e dourados

Revelação do cristal místico

E a verdadeira libertação da mente

Aquarius!

Aquarius!

Quando mudava o ritmo e a letra para Let’s The Sunshine In, sentia-se um frio na espinha, tremor na pele e quase lágrimas nos olhos…

Oh, deixe-o brilhar, c’mon

Agora todo mundo só canta junto

Deixe o sol entrar

Abra seu coração e deixe-o nele brilhar

Quando você estiver sozinho, deixe-o brilhar

Tem que abrir seu coração e deixá-lo nele brilhar

E quando você sente como se tivesse sido maltratado

E seus amigos se afastam

Basta abrir o seu coração e deixá-lo nele brilhar

aquarius1

Minha leitura do imperdível filme de Kleber Mendonça – Aquarius –, aliás seu segundo longa-metragem e na mesma trilha do brilhante primeiro (“O Som ao Redor”), é que ele não só é um retrato social do Brasil contemporâneo, mas também é uma amostra da superação do conflito de gerações pelo verdadeiro conflito de interesses reais entre as castas brasileiras. Continue reading “Era do Aquarius”