Digitalização da Moeda

A digitalização financeira iniciada na década passada acelerou na pandemia com a massificação de meios eletrônicos e tecnologias como pagamento instantâneo, por aproximação ou em comércio eletrônico. O Pix é a melhor tradução. Em menos de dois anos, movimentou R$ 10 trilhões, com 478 milhões de chaves cadastradas. “É o melhor exemplo da desmaterialização do dinheiro”, diz Bruno Magrani, presidente da Zetta, associação que congrega empresas de serviços financeiros digitais.

Simplicidade e gratuidade do uso foram chaves do sucesso. Outro empurrão foi a inserção de 38 milhões de pessoas no mercado financeiro com o auxílio emergencial pelo aplicativo Caixa Tem. O sistema de cartão de débito virtual desenvolvido com base em QR code, em parceria com a Elo, permitiu pagar contas e compras sem contato, custo do plástico ou necessidade de celulares sofisticados, diz Luciana Bassani, superintendente nacional de estratégia cartões da Caixa.

Continuar a ler

Bancarização

Cerca de um terço dos adultos em todo o mundo, ou 1,7 bilhão de pessoas, não tem conta corrente, de acordo com estudo da consultoria global Capco. No Brasil, a parcela de usuários fora do setor bancário caiu de 30%, em 2017, para 16% em 2021. Para acelerar esse ritmo, segundo a análise, as fintechs podem funcionar como portas de entrada no sistema financeiro.

“A digitalização [dos serviços] é fator chave para a inclusão financeira no Brasil, principalmente por conta da extensão territorial, que limita a quantidade de agências bancárias para atendimento”, diz Aline Lemos, consultora da Capco Brasil. “Ao mesmo tempo, temos em média dois celulares para cada brasileiro e os bancos digitais já alcançaram boa parte do público.”

O ano de 2021 terminou com 18.302 agências no país, 2.351 a menos do que o registrado no início de 2020, conforme dados do Banco Central. Números da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de junho de 2022 mostram que o Brasil acumula 259 milhões de celulares, uma densidade de 120,6 aparelhos por cem habitantes. “Essa estrutura digital também torna o serviço financeiro mais barato”, lembra.

Continuar a ler

Moeda Abstrata ou Dinheiro do Futuro

Martha Funke (Valor, 26/08/22) avalia: o dinheiro do futuro será múltiplo, mais abstrato, com bases diversificadas, digitais e sem fronteiras. Papel moeda, cartões e suas representações não desaparecerão do dia para a noite, mas pagamentos poderão ser feitos por presença física ou virtual (via um avatar, por exemplo), com suporte de inteligência artificial para transferir valores mediante um contexto ou comportamento, como entrar em um ambiente ou abrir uma latinha de cerveja.

Mesmo pagamentos eletrônicos por cartões de crédito, débito ou Pix verão pela frente carteiras digitais com respaldo automático do saldo em conta-corrente, perfil de crédito e ativos como parcela de uma safra de grãos, pedacinhos de debêntures, moedas digitais ou aluguel recebido por contrato inteligente, entre outras possibilidades que o mundo digital já desenha para ancorar trocas.

“O dinheiro será mais acessível, barato e instantâneo”, diz Armando Castelar, do FGV- IBRE. Um exemplo é o Pix, fluido e sem burocracia. Sistemas deste tipo ainda são limitados por fronteiras, mas poderiam ultrapassá-las com políticas econômicas e acordos de governança monetária mundial. “Nossa vida digital já é global e instantânea, a financeira, não”, compara André Portilho, do BTG Pactual.

A base tecnológica já existe. Nasceu com a criptomoeda, com rede segura, inalterável e criptografada, como uma enorme planilha com as transações realizadas. Por ser descentralizada, ganhou o nome de tecnologia de registro distribuído (DLT, em inglês) ou cadeia de blocos (blockchain). A representação digital do ativo inscrito nestas redes, o token, é suportada por contratos inteligentes (smart contracts), regras para executar transações automaticamente sem intermediação, como pagamento e confirmação de recebimento de um valor para entrega de um bem. No mundo analógico, um exemplo são máquinas de refrigerantes, programadas para receber valores e dispensar produtos e troco.

Continuar a ler

Rever Conceitos… e Preconceitos

A tendência deflacionária, ocorrida nas três últimas décadas, com a tendência de queda da taxa de salário pelo aumento massivo da força de trabalho explorada, em escala global, possibilitou fase de baixa na taxa de inflação e, em consequência, na taxa de juro. Por isso, houve fuga da renda fixa para a renda variável (ações) ou imóveis.

Inflou bolhas especulativas até suas explosões. Para a não diluição das participações acionárias, houve financiamento de recompra de ações através de emissão de dívida corporativa (debêntures) com pagamento de juros nesses títulos de dívida direta.

Meus companheiros de esquerda, críticos como eu da ideia de as desigualdades serem naturais e insuperáveis, ficaram muito impressionados com a concentração da riqueza financeira. No entanto, para superar a desigualdade social, é necessário rever os (pre)conceitos contra o subsistema financeiro, integrado ao sistema capitalista e interativo com o subsistema produtivo.

Continuar a ler

Ciclo de Financeirização ou de Desalavancagem Financeira?

Também na Ciência Econômica temos de nos colocar contra o negacionismo científico. Seu método – observação, questionamento, hipótese, experimentação, análise dos resultados dos testes e conclusão – tem de ser praticado inclusive contra o dito até por companheiros de esquerda, no caso, autores e/ou adeptos da literatura da chamada “financeirização”.

Os cientistas seguem o Método Científico ao tentarem se aproximar da verdade (transitória ou configurada) e, para tanto, partindo da observação empírica. Uma convincente narrativa lógico-causal pode contar uma estória convincente à primeira vista, porém falsa perante outros conceitos teóricos ou alongamento histórico da visão.

Por exemplo, o fenômeno da “financeirização” não descreveria apenas um ciclo transitório ou uma configuração periódica a ser logo superado(a), quando passar essa fase de desalavancagem financeira, onde “a política monetária empurra corda”? A taxa de juro ficou baixa, face a uma inflação sob controle em todos os países avançados, apesar do longo “afrouxamento monetário” e… nada de recuperação ou retomada do crescimento econômico sustentado em longo prazo!

Aí, quando a economia ultrapassar a fase de normalização, haverá nova alavancagem financeira, bolha, auge, depressão até outra fase de desalavancagem financeira. Em Finanças, alavancagem designa a elevação da rentabilidade patrimonial sobre o capital próprio através de endividamento. Resulta em maior economia de escala (e lucro) com a participação de capital de terceiros na estrutura do capital da empresa.

Continuar a ler

Pagamento para Tratamento Personalizado como Ricaço

Álvaro Campos (Valor, 15/08/22) informa: em um movimento ousado para a indústria financeira, mas que ao mesmo tempo já ocorre há muito tempo em outros setores, o Santander decidiu abrir a possibilidade de qualquer cliente contratar um atendimento de alta renda, sem precisar comprovar renda ou patrimônio, como acontece até então. A ideia de ampliar o atendimento, que deixará de ser “exclusivo” e se tornará “inclusivo”, é baseada na premissa de que não cabe ao banco decidir se o cliente pode ou não ter acesso àquele serviço – assim como uma loja não tem um departamento separado onde só os ricos podem comprar.

Hoje, os clientes pessoa física do Santander têm três segmentações de renda. A faixa de entrada, o Van Gogh (para renda acima de R$ 4 mil por mês) e o Select (renda de R$ 10 mil ou patrimônio acima de R$ 100 mil investido no banco), sendo que esse último grupo tem 600 mil membros. Além desses quesitos, o Select tem uma tarifa mensal de R$ 96,90.

Agora, qualquer um poderá pagar essa quantia e contratar o serviço, que dá acesso a uma série de benefícios, como atendimento 24 horas por dia e sete dias por semana, agências exclusivas, assessoria profissional de investimentos, diferenciais e isenção de tarifas em serviços internacionais, e descontos e entradas em áreas VIPs de eventos.

Continuar a ler

Private Banking com Renda Variável perde para Varejo com Renda Fixa

Adriana Cotias (Valor, 03/08/22) informa: com uma série de incertezas no horizonte, a pessoa física deve seguir na toada de privilegiar a renda fixa, a exemplo do que se observou no primeiro semestre e ao longo do ano passado. Em meio ao ciclo de aumento de juros no Brasil, tendo levado a Selic de 2% em março de 2021 para os 13,25% de hoje – e com chance de subir mais hoje -, o comportamento do investidor foi de buscar proteção nas alternativas mais conservadoras. O mau desempenho dos ativos de risco também consumiu a rentabilidade (e a paciência) do investidor que tinha feito um movimento rumo à diversificação.

De janeiro a junho, os investimentos nos segmentos de varejo, alta renda e de private banking alcançaram R$ 4,65 trilhões, um aumento de 2,8%. Na faixa de clientes mais endinheirados, mais expostos às classes internacionais e a alternativas de maior risco, o patrimônio encolheu 1,7%, para R$ 1,75 trilhão, enquanto o varejo de alta renda teve incremento de 5,4%, com R$ 1,29 trilhão. Na base, o varejo tradicional reunia R$ 1,61 trilhão, com alta de 5,9% no primeiro semestre.

No conjunto, a renda fixa passou a representar 61,3% dos volumes da pessoa física, em comparação aos 57,1% de dezembro, retomando os níveis do fim de 2019. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Continuar a ler

Renda Fixa de Longo Prazo: Risco é Volatilidade sem Compensação no Retorno

Adriana Cotias (Valor, 20/07/22) informa: superar o CDI, referência de juros de curto prazo, é mais do que esperado quando se investe em títulos públicos atrelados à inflação. Mas costumam ter mais volatilidade na marcação-a-mercado, mas não ofereceram maior potencial de retorno.

No Brasil da última década, esse tipo de exposição foi vantajoso para quem ficou numa cesta de ativos com vencimento em até cinco anos. Acima disso, sobraram chacoalhadas equivalentes às de bolsa e com retornos sensivelmente menores do que o posicionamento mais conservador.

Esta foi a dedução de um estudo feito pela Sparta, casa especializada na gestão de fundos de renda fixa com crédito privado. A asset considerou o índice de títulos públicos indexados ao IPCA mais conhecido do mercado, o IMA-B, que é composto por dois subíndices: o IMA-B 5, que acompanha o desempenho dos títulos públicos indexados com vencimento em até cinco anos; e o IMA-B 5+, dos papéis com prazo superior a isso, e que no Tesouro Direto se estendem até 2055.

Entre junho de 2012 e junho de 2022, o IMA-B 5 teve um retorno acima do CDI de 2,2% ao ano, com volatilidade anualizada de 3,1%. O IMA-B teve valorização de 1,9% e volatilidade de 7,6%, mais que o dobro de risco. Num momento em que os diversos vencimentos do Tesouro IPCA+ (ou Notas do Tesouro Nacional – série B) asseguram inflação mais um adicional fixo superior a 6,2%, essa é uma informação que pode ser útil para o investidor fazer a sua escolha, em meio às incertezas à frente, embora não haja nenhuma garantia de que o futuro vá repetir o passado.

Continuar a ler

Falta de Confiança em Criptomoeda: Prudência quanto a Ativo Especulativo

Ricardo Bonfim (Valor, 11/07/22) informa: bitcoin, ethereum e outras criptomoedas somam bilhões de dólares em valor de mercado – apesar da forte queda recente – e são considerados os pilares de novas tecnologias como web 3.0 e metaverso. No entanto, esses ativos, apesar de serem chamados de moedas digitais, ainda patinam em um ponto básico de todas as moedas: funcionar como meio de troca, ou seja, de pagamento.

Um estudo da FIS revelou que 34% das pessoas da geração Z (entre 18 e 24 anos) têm interesse em um dia adotar criptomoedas como meio de pagamento, assim como 40% dos millenials (entre 25 e 40 anos). Globalmente, no entanto, só 5% das pessoas já usaram realmente criptomoedas para pagarem por algum bem ou serviço, aponta a pesquisa.

O gap geracional também fica evidente no estudo, uma vez que apenas 11% dos boomers (mais de 57 anos) demonstraram interesse na utilização de criptomoedas. A pesquisa entrevistou 4 mil consumidores entre julho e agosto de 2021 em cinco países: Austrália, Brasil, Cingapura, Estados Unidos e Reino Unido.

Continuar a ler

Explosão da Bolha de Criptomoedas

Na sexta-feira (08/07/22), três artigos foram publicados no principal jornal brasileiro de Economia (Valor Econômico) a respeito do mesmo tema: a explosão da Bolha de Criptmoedas. No entanto, cada (co)autor adotou um ponto-de-vista distinto.

Economia é o único conhecimento propício a duas pessoas ganharem um Prêmio Nobel dizendo exatamente coisas opostas. O economista socialdemocrata sueco Gunnar Myrdal dividiu, em 1974, o Prêmio Nobel de Economia com Friedrich von Hayek, conservador da Escola Austríaca.

Reinaldo Le Grazie foi diretor de Política Monetária do Banco Central e se tornou gestor de riqueza. Pedro Eroles é advogado e especialista em regulação financeira e de pagamentos.

Ambos começam bem seu artigo com uma análise etimológica. O termo “fides” é oriundo do latim e significa “fé”, “confiança”, do qual também derivam termos como “fidúcia”, “fiduciário” e “fiança”.

Eles entenderam a sigla “FiDes” se encaixaria perfeitamente para traduzir do inglês a sigla “DeFi” (Decentralized Finance, ou, em português, Finanças Descentralizadas). Como neoliberais, passam a defender a descentralização financeira.

Ela traz como seu maior desafio a confiabilidade, pilar esse tanto do bom funcionamento do sistema financeiro como da utilização de moeda fiduciária pela sociedade. Não por acaso, o termo ‘fiduciária’, derivado de ‘fides’, se reapresenta.

Continuar a ler

Lei do Superendividamento

Os consumidores que não estão conseguindo arcar com suas despesas básicas porque as dívidas fugiram do controle têm, desde julho de 2021, uma nova aliada. Ainda pouco difundida, a chamada Lei do Superendividamento altera o Código de Defesa do Consumidor com a intenção de aumentar a proteção aos cidadãos com muitas dívidas, evitar o assédio ou pressão pelas instituições financeiras aos consumidores mais vulneráveis e criar uma nova opção para renegociação e quitação das dívidas já existentes.

A lei traz a possibilidade de o consumidor superendividado solicitar uma audiência conciliatória com a presença de todos os seus credores. Nela, ele poderá apresentar uma proposta de plano para pagamento das dívidas com prazo máximo de cinco anos, preservando o que a lei chama de “mínimo existencial“.

Esse mínimo ainda deve ser regulamentado, mas, segundo Marco Antônio Araújo Júnior, advogado especialista em direito do consumidor, há um consenso que já está sendo posto em prática.

Até o momento, os juízes têm entendido o mínimo existencial como sendo correspondente a 30% da renda da pessoa. Essa questão ainda será regulada, mas, ao que tudo indica, esse valor deve ser mantido.

Continuar a ler

Fundos “Fora-da-Curva” e Captações em Debêntures para Carregamento de Subscritores (IF e FIF CP)

Captacao liquida acumulada da industria de fundos.png

Segundo a ANBIMA, mo primeiro semestre de 2022, a indústria de fundos alcançou R$ 8 bilhões em captação líquida, bem abaixo do registrado no mesmo período nos últimos cinco anos.

A classe de renda fixa apresentou R$ 88,8 bilhões em captação líquida de janeiro a junho de 2022. Com um cenário de aversão a risco e juros elevados, esses fundos tornaram-se atrativos. Entretanto, há também uma migração de pessoas físicas dos fundos para outros produtos de renda fixa, sobretudo para investimentos isentos de imposto de renda.

Os fundos de ações e multimercados totalizaram R$ 111,3 bilhões em saídas líquidas nos primeiros seis meses de 2022. Com a expectativa de que os juros permaneçam por mais tempo em níveis elevados, parte dos recursos dessas duas classes migrou para fundos de renda fixa, de perfil mais conservador.

Da classe das ações, saíram R$ 49,5 bilhões líquidos no primeiro semestre, fruto de um movimento pulverizado: cerca de 51% dos fundos apresentaram resgates no período. A maior contribuição veio do tipo ações livres, com captação líquida negativa de R$ 20 bilhões.

Continuar a ler