Grau de Desenvolvimento do Mercado de Capitais Brasileiro X BNDES


Quanto ao desenvolvimento dos mercados de capitais locais, a visão de política industrial em defesa da intervenção estatal na economia brasileira afirma que a ação governamental no âmbito setorial será especialmente útil quando o subdesenvolvimento dos mercados de capitais, ainda restritos, impedir a ação empresarial privada.

Quando se desenvolverem os mercados de capitais no Brasil, os benefícios dos investimentos do governo em participações minoritárias em empresas privadas provavelmente diminuirão. As empresas terão acesso crescente a financiamentos externos e a alternativas de capitalização, como ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês), debêntures negociadas em Bolsas de Valores e recibos de depósito.

Aldo Musacchio e Sergio G. Lazzarini, no livro “Reinventando o Capitalismo de Estado”, entendem o modelo do Leviatã como investidor minoritário ser mais apropriado nos estágios intermediários de desenvolvimento do mercado de capitais. Mas eles não fazem uma análise do atual estágio do mercado de capitais brasileiro para avaliar se esse modelo está apropriado ou não. É prudente a recente retirada de cena do BNDES?

Leticia Magalhães é mestre em Economia pela EPGE-FGV e Gilberto Borça Jr. é mestre em Economia pelo IE-UFRJ. Publicaram artigo (Valor, 09/08/18) sobre o papel recente do mercado de capitais. Compartilho-o abaixo para analisar essa questão-chave: é possível as empresas não-financeiras se financiarem sem endividamento externo? Continue reading “Grau de Desenvolvimento do Mercado de Capitais Brasileiro X BNDES”

Fundos de Pensão Fechados: de BD para CD

Juliana Schincariol (Valor, 16/07/18) adverte: os fundos de pensão fechados no Brasil passam por uma segunda onda de mudanças nos planos de benefício definido. Estes garantem aposentadoria vitalícia.

Há dois movimentos distintos.

Um deles é liderado pelas fundações que se preparam para deixar de aceitar novos participantes nesses planos, como fez a maioria há 20 anos.

Há ainda um outro grupo de entidades que já fechou seus planos de benefício definido (BD) e agora buscam convencer os participantes a migrarem para planos de contribuição definida (CD), assumindo o risco das aplicações – nessa modalidade, a aposentadoria será resultado do valor acumulado durante a vida.

Na Funcesp, fundo de pensão da empresas de energia do Estado de São Paulo, e na Fapes, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os planos de benefício definido (BD) ainda estão abertos a novas adesões, mas o processo de fechamento já foi iniciado.

Já na Petros (Petrobras) e no Postalis (Correios), os planos BD foram fechados há algum tempo, mas mantidos os direitos daqueles que já participavam dos fundos. A ideia agora é que as pessoas mudem para novos planos. Nenhuma das duas fundações, contudo, apresentou propostas ao participantes até o momento.

Segundo dados da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), ao fim de 2017, o país tinha 323 planos de benefício definido, que administravam R$ 536 bilhões ou 64% dos ativos do sistema. Os planos de contribuição variável eram 357 (R$ 193 bilhões) e os de contribuição definida, 428 (R$ 113 bilhões). O rendimento médio do sistema em 2017 foi de 11,52%. Os planos BD renderam 11,68%, um pouco abaixo dos planos CD, com 11,90%. Continue reading “Fundos de Pensão Fechados: de BD para CD”

Previdência Aberta: Rendimentos Brutos em Curto Prazo X Rendimentos Líquidos em Longo Prazo

Fernando Torres (Valor, 25/07/18) pergunta: o que farias se, todo mês, te pagassem só 90% do teu salário?

Ele não sabe dizer se o motivo é religioso, cultural ou uma combinação das duas coisas. E nem se é um comportamento exclusivo dos brasileiros.

Mas fato é que damos valor diferente para a renda proveniente do trabalho, em comparação com a renda oriunda do capital.

“Ninguém reagiria bem se, ao fim de um mês de trabalho duro, o empregador depositasse na conta apenas 70%, 80% ou 90% do salário combinado. Seria motivo para revolta. Os funcionários procurariam o setor de recursos humanos, o sindicato e a Justiça, nessa ordem, se a falha não fosse corrigida imediatamente.

Mas com dinheiro, com capital, é diferente. As pessoas veem suas aplicações rendendo 70%, 80% ou 90% do mínimo que deveriam com uma passividade assustadora, sem tomar nenhuma providência.

Em excelente reportagem da jornalista Adriana Cotias publicada pelo Valor (leia abaixo e confira tabela acima), os brasileiros ficamos sabendo que os cinco maiores bancos do país — Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa e Santander — tem R$ 676 bilhões sob gestão em fundos de previdência, o que equivale a 90% do setor.

Poderia ser apenas uma boa notícia, de que o brasileiro finalmente está, por conta própria, reservando algum dinheiro para sua aposentadoria, diante da constatação de que não poderá contar com o INSS. E essa notícia é verdadeira, embora o volume aplicado devesse ser bem maior.

O porém é que a reportagem revela que, apenas nas maiores carteiras de cada uma das cinco instituições, há um patrimônio somado de R$ 120 bilhões que está rendendo 90% do CDI desde o lançamento dos fundos. Continue reading “Previdência Aberta: Rendimentos Brutos em Curto Prazo X Rendimentos Líquidos em Longo Prazo”

História dos Fundos de Investimento X Fechados e Exclusivos Sem Tributação

Manoel Aparecido Rodrigues é gerente de divisão de fundos de renda fixa indexados da BB DTVM. Em artigo (Valor, 27/07/18), resgata a história dos fundos de investimento.

“Ela remonta o século XIX, período em que foram constituídos na Europa. De lá para cá, os fundos evoluíram e se disseminaram pelas principais economias do mundo, tendo como objetivo oferecer administração financeira profissional aos investidores.

No Brasil, os primeiros fundos de investimento surgiram na década de 1950, entre os quais os fundos Crescinco e Deltec e, posteriormente, os fundos 157, de incentivos fiscais. Mas foi a partir do processo de estabilização econômica, em 1994, que a indústria brasileira de fundos inicia o seu desenvolvimento de maneira mais significativa, não apenas em termos de tamanho, mas fundamentalmente no que diz respeito a sua estrutura, regulação e autorregulação.

Nos últimos 24 anos, o volume de recursos sob gestão multiplicou-se rapidamente, superando R$ 4,1 trilhões, em junho de 2018, valor que representa em torno de 60% do PIB. Com toda essa expansão, os fundos se tornaram importantes canais de geração de funding para os mais variados setores da economia, tanto no âmbito público quanto privado [?!]. Além de contribuir na formação de preços, na liquidez dos ativos, na geração de empregos e na arrecadação de impostos.

Atualmente, a indústria de fundos, incluindo os investidores institucionais, são detentores de mais de 50% dos títulos públicos federais. Além disso, do total de seu patrimônio líquido, 15% aproximadamente são compostos por títulos privados de renda fixa e 9% em ações, o que demonstra sua relevância no financiamento da dívida mobiliária federal e dívidas corporativas.

De acordo com dados da Anbima referente a junho de 2018, somente o segmento de varejo de fundos de investimento contabilizou cerca de 5,4 milhões de clientes [3,5 milhões de varejo tradicional e 1,9 milhões de varejo de alta renda em março de 2018], clara evidência de sua capacidade de acumular recursos de pequenos investidores para a compra de ativos [R$ 557 bi em FIFs]. [Private Banking em março de 2018: 57.975 grupos familiares ou 120.384 clientes com R$ 481 bilhões em Fundos] No último levantamento divulgado, o Tesouro Direto contava com apenas 609 mil clientes ativos, enquanto a B3 [Bolsa de Valores] anotava 710 mil pessoas físicas cadastradas. Continue reading “História dos Fundos de Investimento X Fechados e Exclusivos Sem Tributação”

Análise da Proposta de Refinanciamento das Dívidas dos Consumidores

Em março 2005, o estoque de endividamento em relação à renda acumulada nos últimos 12 meses por pessoa física era 19,3%. Descontando o crédito habitacional, apenas 16,6%. Passam-se dez anos sob governo progressista e a relação entre o saldo endividamento e a renda acumulada dispara para 46,4% (+27,1 pp). Como descontando o crédito habitacional, a relação cai para 27,7% (+ 11,1 pp em relação à de 2005), percebe-se esses onze pontos percentuais terem sido o endividamento familiar para consumo e quase dezenove (18,7 pp) pontos percentuais serem correspondentes à tomada de financiamento habitacional.

Em maio 2018, sem política de crédito, essa relação endividamento / renda acumulada últimos 12 meses caiu para 41,6% (-4,8 pp) e sem considerar o crédito habitacional cai para 23,3% (-4,4 pp). Mas isso se refere ao estoque de dívida. Não é o gasto mensal das pessoas físicas com juros e amortizações.

O Banco Central do Brasil também tem série temporal registrando o comprometimento da renda das famílias com serviço da dívida ter crescido, em dez anos, de 15,8% em março de 2005 a 22,0% em abril de 2015. A partir deste auge, caiu em três anos para 20,3%.

Mas se desconsiderar o crédito habitacional, cuja finalidade é um investimento na aquisição da própria residência, o comprometimento da renda das famílias não tinha muita diferença (15,4%) em 2005. No entanto, nos dez anos seguintes do governo social-desenvolvimentista, cresceu para 19,7% (+4,3 pp). Nos três anos seguintes, com a volta da Velha Matriz Neoliberal, caiu para 17,8% (-1,9 pp).

Em outros termos, o grau de fragilidade financeira das famílias, analisado em termos macroeconômicos, não é um problema impeditivo para retomada do crescimento da renda e do emprego através de novo ciclo de endividamento familiar. Continue reading “Análise da Proposta de Refinanciamento das Dívidas dos Consumidores”

Torcida Política (e Distorcida Financeira) de O Mercado

Adriana Cotias (Valor, 26/08/18) informa: os especialistas em investimentos recomendam paciência e conservadorismo em Finanças Pessoais — e não em Política e Costumes! A percepção é que o suspiro dos ativos visto em julho de 2018 está longe de tirar de cena um período tenso para os mercados, um jogo mais para profissionais do que para o investidor individual.

Nesse ambiente, as sugestões se dividem entre títulos atrelados ao IPCA, um porto-seguro contra a inflação, fundos multimercados, pela agilidade dos gestores, e os fundos imobiliários, que ficaram para trás nessa reação recente dos ativos. Na bolsa, a recomendação é dosar a posição conforme o perfil, sem sobrealocações.

Depois de cair abaixo dos 70 mil pontos entre o fim de maio e meados de junho, o Ibovespa voltou a ganhar fôlego em julho, com valorização de 8,88%, a 79.220 pontos. A renda fixa também se recuperou com ganhos de 1,47% para o IRF-M, índice que representa uma cesta de títulos públicos. O dólar, que ainda lidera em retorno no ano (13,27%), perdeu 3,18% no mês.

A redução do risco é fundamental para fazer a travessia até as eleições. Embora não seja desprezível a escalada recente do Ibovespa, com resultados trimestrais fortes das empresas, a atividade econômica ainda não reagiu, o que desencoraja o investimento em ações. Continue reading “Torcida Política (e Distorcida Financeira) de O Mercado”

Sentimento do Investidor 2018

Adriana Cotias (Valor, 14/06/18) informa: pela primeira vez em pelo menos cinco anos, o brasileiro mostra disposição para revisar sua tolerância a riscos e partir para investimentos menos conservadores. A diversificação para ativos como ações, fundos de gestoras independentes ou aplicações no exterior é mais natural entre os mais jovens, de 25 e 34 anos, a despeito da menor capacidade de poupança na fase inicial no mercado de trabalho. Já aqueles na faixa entre 55 e 64 anos ainda têm certa resistência ao carregar na sua trajetória um passado de crises financeiras, memória inflacionária e juros nas alturas. Mas mesmo nesse grupo, há uma maior inclinação a diminuir a parcela na renda fixa e o relacionamento com o canal bancário tradicional.

Essa dinâmica coincide com o significativo corte da Selic desde outubro de 2016, conforme aponta a pesquisa “Sentimento do Investidor 2018“, feita pela gestora Franklin Templeton no Brasil, como parte de um levantamento global do grupo americano, que reúne US$ 750 bilhões em ativos mundo afora.

Quase 70% dos entrevistados abaixo de 34 anos afirmam ter conta investimento em corretoras, percentual que não passa de 40% entre aqueles com mais de 45 anos. Mais de 80% dos mais jovens dizem ter investimentos em ações, percentual que descresce gradativamente nas demais idades, até chegar a um terço na faixa entre 55 e 64 anos. Os mesmos percentuais são observados em alocações no exterior.

Questionados se diversificam seus investimentos, mais de 73% dos entrevistados entre 25 e 34 anos afirmam que sim, ante 56% entre os que têm entre 55 e 64 anos. Além disso, quase 75% das pessoas no primeiro grupo diz saber a diferença entre o fundo de um banco convencional e o de uma gestora independente, percentual que não chega à metade no segundo caso.

Em sua quinta edição, a coleta da Franklin Templeton, feita com 510 pessoas com pelo menos R$ 50 mil em aplicações financeiras, foi realizada entre 28 de março e 3 de abril. Não captura, portanto, se houve alguma mudança de percepção decorrente do revés dos mercados a partir da manutenção inesperada da Selic em 6,5% ao ano, seguida pela greve dos caminhoneiros com a saída de Pedro Parente do comando da Petrobras, e uma maior aversão a emergentes com o processo de alta de juros nos EUA. Continue reading “Sentimento do Investidor 2018”