Jogo do Dinheiro

Meu passatempo ontem foi assistir o filme “Jogo do Dinheiro” [Money Monster; 2016], estrelado por George Clooney e Julia Roberts e com direção de Jodie Foster. George Clooney interpreta um midiático conselheiro de Finanças Pessoais, Lee Gates, o “mago das finanças” do programa Money Monster, que dá aconselhamentos levianos em busca de um pouco mais de audiência. Patty Fenn, a diretora de TV interpretada por Julia Roberts é a sua consciência, colocando-se entre o apresentador e Kyle Budwell (Jack O’Connell), o desesperado investidor “homem-comum” que invade o cenário com uma arma em mãos e dois coletes recheados de bombas. O verdadeiro alvo é Walt Camby (Dominic West), magnata que acaba de perder US$ 800 milhões em função de uma suposta falha nos algoritmos de sua estratégia de investimentos.

Ninguém sabe bem do que se tratam os algoritmos, mas os investidores amadores não se acautelam, ainda mais sob o impulso de alguma “celebridade descerebrada”, dando “os argumentos de autoridade” para aqueles que necessitam de alguma justificativa para confirmar decisões já tomadas, inspiradas apenas na pura ganância. Alguns ganharam alguma coisa – ou conhecem alguém que também deu sorte em aposta de renda variável – e seguem a tendência. O comportamento de manada dá a valorização para algum dado ativo. Com oferta delimitada, sua cotação sobe e transforma-se em profecia auto-realizada!

Na hora da perda, os pobres investidores reclamam. Por que não na hora do ganho?

Bem, a moral da história, para investidores das castas brasileiras, é que “somos felizes e sabemos”! Nada melhor do que capitalizar nossos investimentos financeiros em renda pós fixada com o maior juro real do mundo sem risco ! Continue reading “Jogo do Dinheiro”

Ciclos de Política Monetária do Banco Central: “Enchendo as Burras”

Estratégia dos Fundos Multimercados

Adriana Cotias (Valor, 08/08/16) publicou matéria sobre a estratégia dos Fundos Multimercados que é didática para os investidores e os estudiosos de Finanças.

O desempenho deles é melhor quando o ciclo de política monetária é de baixa de juros. É nesses períodos, quando retém títulos prefixados com juros mais elevados, que conseguem obter desempenho acima do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), que funciona como um referencial para o setor de gestão de recursos em geral. É o custo de oportunidade de “tomar” ou “doar” dinheiro no mercado interbancário. E o pós-fixado em % de CDI, lastreado em Títulos de Dívida Pública Federal, é o investimento com menor risco para os investidores: sem MtM (“marcação-a-mercado”) e com risco soberano. Ao investir em Fundos Multimercados abre-se mão desse investimento em Fundos DI Pós-Fixados.

Já na fase pré-aperto monetário, os profissionais à frente das decisões de investimentos têm mais dificuldade de entregar retornos satisfatórios aos cotistas, apesar de, pelo mandato, poder investir em múltiplos ativos. É assim tão difícil a estratégia de mudar preferência entre pré e pós de acordo com a tendência de queda ou alta da taxa de juros sinalizada pelo COPOM-BCB?!

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Risco da Previdência Privada em Planejamento Sucessório: ITCMD

Tabela Regressiva

É um absurdo o arbítrio governamental, típico em época de fragilidade democrática, com uma intervenção súbita de entes federativos em uma instituição financeira brasileira que necessita de regras estáveis em longo prazo. Ela recebe investimentos em toda a vida ativa (35 anos) dos profissionais que necessitam de Previdência Complementar.

Agora, alguns Estados, que tomaram decisões equivocadas, durante a bolha de commodities, particularmente, em petróleo (Estado do Rio) e minérios de ferro (Minas Gerais), face ao prenúncio de crise quando ela explodisse, recorrem ao aumento do Imposto sobre Transmissão, Causa Mortis e Doação (ITCMD), “mudando as regras no transcorrer do jogo”!

Os trabalhadores, que recebem acima do teto do INSS (R$ 5.200), usam durante toda sua vida ativa o incentivo de investir 12% de sua renda bruta em PGBL para ao final dela, após 35 anos, poder resgatar livremente o dinheiro investido pagando imposto de renda de 10% sobre todo o patrimônio. Se passarem a pagar mais 8% de ITCMD, no caso de transmissão para seus dependentes, qual será o incentivo para continuar a investir durante esse longo prazo? Investindo durante dois anos, em qualquer fundo, ele seria menos tributado com 15% apenas sobre o rendimento!

Daniela Meibak (Valor, 26/07/16) alerta que a busca dos Estados brasileiros por fontes adicionais de receita está hoje entre um dos fatores de preocupação de muitos investidores que usam Fundos Abertos de Previdência Privada como instrumento no planejamento sucessório. A mudança na legislação em dezembro de 2015 trouxe o Rio de Janeiro para o lado de Minas Gerais e do Paraná como Estados que cobram o Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) sobre o saldo dos planos. São Paulo mantém a isenção. Então, eu me aposentarei, mas não mudarei nem para meu Estado natal nem para a Cidade Maravilhosa! Minha “fortuna” (sic) aqui ficará!🙂

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Overshooting: Crônica do Crash Anunciado

Carry-trade

Volta de PF à Bovespa

A pessoa física começa a voltar ao mercado acionário. Com a recente escalada da bolsa brasileira, que levou o Ibovespa a subir mais de 30% neste ano, a participação do investidor individual no volume negociado no segmento de ações da BM&FBovespa atingiu 19,6% no fim de julho de 2016, parcela que não se via desde meados de 2012. Em dezembro, o percentual era de 11,9%. O maior interesse se reflete na busca pelos serviços de home broker, de negociação de ativos pela internet, e tem mobilizado corretoras e plataformas de investimentos. No total, a BM&FBovespa contabilizava, no fim de junho de 2016, 559,5 mil CPFs cadastrados, ante 610,9 mil no auge em 2010.

Overshooting é um “tiro acima da linha de equilíbrio” que atingiria o alvo. Este, supostamente, seria o valor de mercado determinado por fundamentos adequados. Porém, aqui há uma disparidade da taxa de juros interna em relação à internacional que provoca, ao mesmo tempo, entrada de capital estrangeiro especulativo e desemprego.  Isso é lá “equilíbrio bem fundamentado”?!

Um dos lugares-comuns sobre mercado de ações é que ele tem alta com o boato e tem queda com o fato. Os fundamentos macroeconômicos não se alteraram antes e depois do golpe parlamentarista, mas Lucinda Pinto e José de Castro (Valor, 05/08/16) noticiam a especulação na Bolsa de Valores — aquele mundo de simulação especulativa, habitado não por gente que precisa ser persuadida a acreditar, mas por gente que quer uma desculpa por acreditar — como fosse uma alta sustentável!

Afirmam que a (falsa) perspectiva de que o Brasil possa receber fluxos de recursos expressivos, após a finalização do golpe parlamentarista, entrou de vez no radar de investidores e ajuda a explicar boa parte da queda recente do dólar para cotações mínimas em mais de um ano. “Mesmo o mercado de juros futuros, que vinha resistindo a melhorar, deu sinais de que não conseguirá ir contra a maré de otimismo, calcada ainda na expectativa de cumprimento de promessas fiscais no Brasil”. Quero crerMas não sou crente de O Mercado como um deus…🙂

O movimento dos ativos locais, contudo, está longe de ser isolado e faz parte de um quadro global de liquidez farta e ávida busca por retornos, que têm beneficiado os mercados emergentes de forma geral. O índice MSCI de moedas emergentes subiu a uma máxima em um ano.

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Condenação da “Cruzada da Dilma” contra Juros Altos

Rentabilidade Mensal DP X IPCADepósitos de Poupança 2013-jun 2016

Um argumento golpista tem sido a chamada “Cruzada da Dilma” contra os juros altos na economia brasileira. Há anos, tanto os nominais, quanto os reais, se localizam no “topo do mundo”, isto é, nos primeiros lugares do ranking mundial. Não é uma desfaçatez – falta de vergonha, de pejo – apresentar esse argumento, um dito próprio de indivíduo descarado?!

Essa “cruzada” se constituiu em uma experiência inédita na história econômica recente do Brasil. No entanto, os economistas midiáticos logo saíram em defesa da riqueza financeira, pois ganham muito mais com a renda do capital financeiro do que com a renda do trabalho. Na defesa ideológica da “liberdade de O Mercado e contra a intervenção governamental” se apresenta um interesse particular concreto: o enriquecimento pessoal da maneira mais fácil, ganhando os maiores juros do mundo!

Contraditoriamente, este juro superior ao do resto do mundo é fruto de uma intervenção arbitrária da diretoria do Banco Central do Brasil, que constitui o COPOM (Comitê da Política Monetária), no mercado do dinheiro! Continue reading “Condenação da “Cruzada da Dilma” contra Juros Altos”

Perfil do Endividamento Público

Relação Dívida X PIB

Segundo Ana Cláudia Além, as evidências internacionais mostram que é mais importante se analisar o perfil do endividamento que, propriamente, o tamanho da dívida pública. O perfil do endividamento se define por:

  1. o custo da dívida;
  2. a composição da dívida; e
  3. a maturidade (o prazo de vencimento).

Como se sabe, a dívida brasileira está longe de ser a maior do mundo. Vale destacar, inclusive, que é inferior à dívida dos EUA. Se a principal questão fosse o tamanho relativo, seria de esperar que, nos países que possuem a dívida superior ao próprio PIB, a taxa de juro fosse muito superior à brasileira. Entretanto, como se observa há anos, esse não é o caso.

O problema maior está no perfil da dívida pública brasileira, que, apesar de já ter melhorado significativamente, ainda é desfavorável na comparação internacional. Isso se deve, em primeiro lugar, ao seu custo elevado para os padrões internacionais. Apesar de os juros terem estado em uma forte trajetória de queda desde 31 de agosto de 2011 até 10 de dezembro de 2012, quando alcançou 7,25%, taxa que manteve até 17 de abril de 2013, o Brasil segue liderando nesse “quesito” em termos mundiais com a retomada da Velha Matriz Neoliberal.

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Juros Nominais, Dívida Pública e Finanças Públicas Brasileiras

Fatores Condicionates da DLSP 2007-2016

A relação dívida pública líquida/PIB, matemática e economicamente, cairá se houver o aumento do denominador, isto é, do PIB. Antes da volta da Velha Matriz Neoliberal havia uma tendência de redução desse indicador, que vinha desde 2003, pois o social-desenvolvimentismo rejeitava o ajuste fiscal depressivo e, então, havia crescimento econômico, interrompido em 2009 pela Grande Depressão Mundial, e com queda de ritmo depois da explosão da bolha de commodities em setembro de 2011.

Senão, vamos analisar a evolução histórica recente da relação dívida pública líquida/PIB.

Segundo Ana Cláudia Além (Visão do BNDES n. 32), “a assinatura do acordo com o FMI em 1998, no final do primeiro mandato do Governo FHC, marcou o início de uma mudança na condução da política fiscal no Brasil. O maior controle das contas públicas passou a ser visto como indispensável para a obtenção de credibilidade e consolidação de uma trajetória de crescimento sustentada ao longo do tempo. A necessidade de redução da relação dívida pública líquida/ PIB tornou-se uma prioridade”. Isto ocorreu há quase duas décadas. O mundo girou, mas o regime fiscal não mudou?!

Desde que se comprometeu com resultados fiscais com o FMI em 1998, o Brasil superou ano após ano as metas de resultado primário até 2014. Continue reading “Juros Nominais, Dívida Pública e Finanças Públicas Brasileiras”