Finanças Comportamentais adotadas para Aconselhamentos Financeiros

Adriana Cotias (Valor, 10/06/19) narra: dois macacos-pregos são recompensados desigualmente ao executar a tarefa de devolver pedrinhas para o cientista. Um deles recebe uvas, alimento preferido da espécie, que costuma viver em grupo. O outro é pago com fatias de pepino. Ao ver esse sistema se repetir, o animal que ganha o vegetal e vê o seu par agraciado com a frutinha reage à injustiça. Balança raivosamente a divisória que o separa da pessoa que o alimenta, atira o pepino de volta, bate no patamar fora do cercado, mostrando a sua contrariedade (o vídeo pode ser visto acima).

O experimento, feito pelo professor alemão Frans de Waal, especialista em comportamento de primatas da Universidade de Emory, em Atlanta (EUA), dá pistas a respeito das reações emocionais e o senso de justiça não serem características exclusivas da espécie humana.

São vieses cognitivos, isso ilustra bem a aversão a perdas e mostra mesmo os macaquinhos estarem sujeitos a vieses. Errar não é só humano, faz parte da evolução biológica da espécie.

Há evidências de decisões irracionais serem tomadas por pessoas o tempo todo. O excesso de confiança ou a aversão a perdas acabam tendo influência muito grande na tomada de decisão e têm influência nos preços dos ativos.

A partir de 2002, quando o psicólogo israelense Daniel Kahneman ganhou o Nobel de Economia, as Finanças Comportamentais ganharam popularidade. Essa linha de pesquisa coloca em xeque a teoria econômica tradicional. Esta considera as tomadas de decisões, capazes de moverem as forças de mercado, serem essencialmente racionais. Para Kahneman, há duas formas de pensar:

  1. uma rápida, intuitiva e emocional; e
  2. a outra, mais lenta, examinada e mais lógica.

Os desvios sistemáticos de racionalidade identificam as várias tendências humanas. Ao tomar consciência delas, é possível traçar estratégias para evitar certas armadilhas mentais. Continuar a ler

Flash Crash de 2010

Nick Bostrom, no livro “Superinteligência: Caminhos, perigos, estratégias”, narra: na tarde do dia 6 de maio de 2010, os mercados de ações dos Estados Unidos já apresentavam uma queda de 4% em virtude da preocupação com a crise de endividamento europeia.

Às 14h32, um grande vendedor (um conglomerado de fundos de investimento) iniciou um algoritmo de venda para liquidar um grande número de contratos futuros E-Mini S&P 500 a uma taxa de venda relacionada à liquidez medida minuto-a-minuto na transação.

Esses contratos foram comprados por algoritmos de negociação de alta frequência programados para eliminar rapidamente suas posições longas temporárias, vendendo os contratos para outros negociadores.

Com uma fraca demanda por parte de compradores fundamentais, os algoritmos de negociação começaram a vender E-Minis principalmente para outros algoritmos de negociação, criando um efeito de “batata quente”. Ele elevou o volume das negociações e isso foi interpretado pelo algoritmo de venda como um indicador de alta liquidez, induzindo o aumento da taxa com a qual os contratos E-Mini eram colocados no mercado, elevando a tendência de queda.

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Cinco Perfis Psicológicos conforme nossa relação com O Dinheiro

Francesc Miralles (El País, 26/05/2019) é escritor e jornalista, especialista em Psicologia Comportamental. Afirma nosso extrato bancário refletir mais fielmente quem somos em vez de muitos testes de personalidade.

Embora na nossa cultura o dinheiro seja quase um tabu, um assunto sobre o qual muitos evitam falar, certo é o dinheiro falar de nós. A forma de usá-lo revela se somos reflexivos ou impulsivos. As coisas com as quais gastamos mostram nossas prioridades vitais.

Segundo o espanhol Joan Antoni Melé, promotor da ética nos bancos e da economia consciente, o extrato bancário permite fazer uma radiografia das motivações da pessoa e dos seus pontos fracos. Esse é um dos temas abordados em Money Mindfulness, um ensaio de Cristina Benito. Ele foi traduzido a sete idiomas (não ao português). A economista traça cinco perfis psicológicos conforme nossa relação com o dinheiro.

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Investimentos Financeiros de Idosos

Gustavo Ferreira (Valor Investe, “onda conservadora” política desde as últimas eleições para as finanças pessoais dos brasileiros, esse povo sem educação financeira e dinheiro para buscar uma alternativa à caderneta de poupança. Dizer isso ser “um traço de personalidade” é uma idiotia — o conservadorismo em finanças pessoais é uma virtude, ao contrário de ser conservador ou direitista em política. Para quem já passou dos 60 anos, então, é quase a regra.

Levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra: apenas 58,7% dos brasileiros acima dos 60 têm algum tipo de investimento. Dessa parcela, 90,1% têm suas economias aplicadas na poupança – bem acima dos 75% de quando consideramos investidores brasileiros de todas as idades.

Dos demais idosos (são apenas 10%), a maior parte se divide entre aplicações em títulos privados, como debênturesCDBs letras de crédito (2,9% do total); fundos de investimentos, como multimercados, cambial e de ações (2,8%); e planos de previdência privada (2,8%).

Quem escolhe aplicar em papéis de empresas listadas em bolsa, sem ser via fundos, ou em títulos públicos vendidos pelo Tesouro Direto são muito poucos, 0,8% e 0,7%, respectivamente. Ora, são os ricos acionistas! Confira o quadro acima elaborado por mim (FNC).

Acho incrível um jornalista especializado, assim como a própria ANBIMA, falar de investimentos financeiros pessoais sem se referir à estratificação social por renda e/ou riqueza. Fala em “Os Brasileiros”! Ora, quem são eles?! 121 mil pessoas ricaças (média per capita de R$ 9,2 milhões) de 56 mil famílias, cuja média per capita de riqueza financeira no primeiro trimestre de 2019 estava em R$ 19,9 milhões!

Tamanho “conservadorismo” em Finanças Pessoais, antes de ser um problema, reflete os vários anos de vida corridos. Nesta altura da vida, já acumulou (ou não) o patrimônio financeiro para sua aposentadoria.
Pode ser explicado por dois fatores, de acordo com a Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar):
  1. Várias crises econômicas ao longo de décadas. As entradas e saídas de planos econômicos e novas moedas, além de uma inflação muito elevada, cristalizaram a cautela ou prudência como a principal característica desse público;
  2. Horizonte restrito de tempo pela frente. O investidor acima dos 60 anos, em geral, já formou o seu patrimônio. Como o período de esperança de vida é menor para reverter eventuais prejuízos, se comparados aos anos de juventude, acaba abandonando as alternativas mais arriscadas.

A ignorância dos analistas a respeito da estratificação social necessária para se analisar riqueza é tamanha a ponto de não saberem o seguinte.

  • A renda média dos trabalhadores brasileiros (+/- R$ 2.300) recebe quem tem o Ensino Médio completo e se situa no decil entre 70% e 80% da pirâmide de riqueza.
  • A mediana é R$ 1.171, ou seja, 50% dos trabalhadores não têm nem o Ensino Fundamental completo e recebem menos de 17% acima do salário mínimo.
  • Quem tem Ensino Superior já se situa entre os 10% mais ricos ao ganhar mais de R$ 5 mil.
  • Quem tem Doutorado passa dos R$ 10 mil e fica entre os 5% mais ricos.
  • Quem tem uma carreira completa poderá chegar ao 1% mais rico ao receber acima de R$ 27 mil. Continuar a ler

Rendimentos de Fundos de Previdência Privada

Gustavo Ferreira (Valor Investe, e você contratou um dos dez maiores fundos de previdência privada do Brasil administrados por EAPC (Entidades Abertas de Previdência Complementar) e está feliz com o retorno, das duas uma:

  1. ou está desinformado,
  2. ou gosta de perder dinheiro.

Pode ler a respeito no Valor Investe – clicar aqui para conferir: os dez fundos de previdência privada com maior patrimônio acumulado no Brasil rendem abaixo do CDI, indicador referente à taxa de juros básica.

Por acompanhar a Selic, a taxa CDI é considerada “livre de risco”. É um piso aceitável de retorno para qualquer aplicação: investimentos rendendo abaixo dela garantem menos retorno se comparadas às aplicações mais básicas oferecidas pelo mercado, como os títulos Tesouro Selic do Tesouro Direto. Mas não têm maior liquidez, i.é, facilidade de resgate?

Além disso, PGBL tem uma “curva de impostos”, declinando 5 pontos percentuais de 2 em 2 anos até o piso de 10% no décimo ano. E o incentivo fiscal de investir até 12% da renda bruta é anual.

Mas quem investe em previdência privada pode conseguir com ela retornos acima do CDI se quiser sofrer mais risco.

O Valor Investe levantou os 30 fundos de previdência com os maiores rendimentos do Brasil no período de 12 meses (o que não significa serem os melhores disponíveis, mas apenas render acima do CDI). Veja a lista abaixo, mas avalie o risco de cada qual e sua liquidez em termos de prazo para resgate: Continuar a ler

Seis em cada dez brasileiros não se preparam para Aposentadoria

O aumento da expectativa de vida do brasileiro impõe desafios, principalmente porque a maioria ainda não se planeja para garantir um futuro financeiro ao deixar de trabalhar. É o que revela pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com o Banco Central do Brasil (BCB). Os dados apontam que seis em cada dez brasileiros (59%) admitem não se preparar para a hora de se aposentar, enquanto apenas 41% têm se preocupado com essa fase da vida – percentual que chega a 55% nas classes A e B.

Entre os que não fazem qualquer tipo de plano financeiro para a aposentadoria, 36% alegam não sobrar dinheiro no orçamento e 18% atribuem à ausência de um plano ao fato de estarem desempregados. Para 17% não vale a pena guardar o pouco dinheiro que sobra no fim do mês. “Estima-se que a participação da população acima de 65 anos na sociedade brasileira passe dos atuais 9% para 25% em 2060, segundo projeções do IBGE. Será cada vez mais importante começar a pensar em uma complementação ainda jovem e não apenas quando se aproxima do momento de parar de trabalhar”, avalia a Economista-Chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti.

A pesquisa também identificou os meios mais comuns de se preparar para a aposentadoria. São eles as aplicações financeiras (42%), principalmente a previdência privada (20%), e outros ativos financeiros, como ações, títulos ou fundos (20%). Para 35%, os recursos do INSS servirão de renda e 16% dizem que dependerão de terceiros, tais como cônjuges, filhos ou outras pessoas da família. Já 37% dos pesquisados disseram que, ao se aposentar, pretendem continuar ativos no mercado de trabalho. Continuar a ler

Economia de Compartilhamento: Abertura de Capital da Uber

Emily Nery e Guilherme Blanco Muniz (Valor, 26/04/19) informam: a Uber confirmou pretender abrir seu capital, ou seja, se tornará uma empresa com ações na Bolsa de Nova York. A empresa deve divulgar a quanto suas ações devem chegar no mercado, porque as vendas estão previstas para este mês de maio de 2019. Com isso, o aplicativo pretende se tornar uma das maiores empresas do setor de tecnologia com capital aberto.

As 368 páginas da documentação apresentadas pela empresa à Comissão de Títulos e Câmbio dos EUA, em dezembro de 2018, só se tornaram públicas agora. Elas revelam vários detalhes sobre a companhia até então considerados misteriosos . Entre todas as informações divulgadas no relatório, duas chamam mais atenção.

A primeira delas é que o Brasil é o segundo melhor mercado para a empresa atualmente. O faturamento por aqui no ano passado atingiu US$ 959 milhões (R$ 3,7 bilhões), o que representa um aumento de 115% em relação a 2017. A Uber soma 22 milhões de usuários no Brasil e 600 mil motoristas trabalhando em mais de cem cidades. Continuar a ler