Economia de Bolhas à Americana: Aqui-e-Agora?!

Dada a obsessão do tzar do ministério da Economia, um “posto Ipiranga” com todos os poderes econômicos estatais centralizados sob si para transformar à força a economia de endividamento bancário à brasileira em economia de mercado de capitais à americana, vale colocar em debate público no Brasil as principais características dessa última. Em contexto de grande desigualdade social, caberá implantar o jogo de perde-e-ganha de fortunas sem nenhuma cautela? Adotar voluntariamente um regime de capitalização face ao desmantelamento do regime de repartição da Previdência Social será prudente?

A New York Stock Exchange (NYSE) é a Bolsa de Valores de Nova Iorque, localizada em Manhattan, na Wall Street. Foi criada em 1792, seis anos após a Independência dos Estados Unidos. Por que?

Somente depois dos mercadores norte-americanos pioneiros começarem a voltar sua atenção para a ideia de fornecer/tomar dinheiro emprestado ou se associar para criar novos empreendimentos, a ideia de negociar ações e títulos e valores mobiliários se tornou atrativa. Um mercado secundário para esses ativos já existia na Europa, inicialmente na Holanda, há mais de cem anos. A ideia demorou a atravessar o Atlântico.

As bolsas de valores (bourses) europeias foram estabelecidas, no século XVII, como lugares onde os governos poderiam vender seus próprios títulos de dívida pública e as grandes empresas comerciais poderiam arrecadar dinheiro para suas aventuras no exterior. Os holandeses foram os primeiros, em 1611, a desenvolver suas incursões ultramarinas com base em corporações com capital em ações. A bolsa de valores de Londres remonta sua história a 1697, quando um escritório no Coffee-House of Johnatan listou os preços das ações e as cotações das matérias primas.

Além de negociar commodities vitais para o desenvolvimento comércio mercantilista, as duas bolsas de mercadorias começaram a negociar ativamente novos conceitos em financiamento: ações e empréstimos via títulos de dívida direta. Governos e empresas privadas começaram a considerar os investidores privados como fontes de capital. Continuar a ler

Ouro, Droga e Madeira: Conquista da Amazônia com Estado Mínimo

Marcos de Moura e Souza (Valor, 06/09/19) informa: contratos de ouro na bolsa brasileira (B3) têm alta de 28,32% do início do ano até o dia 5 de setembro de 2019. É o segundo investimento mais rentável entre as aplicações financeiras em 2019, atrás apenas do índice imobiliário (Imob), com alta de 31,89%. Em 12 meses, os contratos subiram 28,32%.

O grama do ouro fechou nessa última data em R$ 203,00. Os contratos negociados são equivalentes a 250 gramas. Segundo a B3, de janeiro a agosto foram negociados R$ 324 milhões em contratos de ouro.

Na B3 não ocorre negociação de ouro em barras, apenas de ouro ativo financeiro, em formato de certificados. Esses certificados são lastreados em lingotes em posse da única instituição credenciada na B3 como depositária de ouro: o Banco do Brasil. Este não se pronunciou quando questionado sobre a origem do metal.

A B3 disse: “a identificação da origem do ouro mercadoria [usado como lastro] faz parte de etapa anterior à sua transformação em ativo financeiro e à custódia dos certificados de ouro na B3, ficando a cargo das empresas fundidoras esta função”.

A fundidora Marsam faz barras no padrão de mercado. Diz, em seu site, estar comprometida em assegurar que não processa ouro de zonas de conflitos, de onde haja abusos de direitos humanos ou de áreas com restrições ambientais. A empresa presta serviço a quem compra ouro em garimpos ou minas. Outra fundidora, a Umicore, diz não prestar serviços ao mercado de ouro financeiro no Brasil.

Entre as empresas vendedoras ouro em barras, a Parmetal diz seguir normas para prevenção à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e risco socioambiental e que busca não incorrer em aquisições de ouro ilegal. A Ourominas diz pautar-se pela lei e por isso a responsabilidade dos dados sobre a procedência do ouro é do garimpeiro. Rompeu contrato com um franqueado acusado de irregularidades no Pará e intensificou políticas de compliance. 🙂

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Elevação do Valor do Acionista pela Compra das Próprias Ações pelas Empresas

Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é Professor Titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreveu em sua coluna (Valor, 03/09/19) o artigo reproduzido abaixo. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Orgulho-me de ser um ex-aluno dele.

“O site Project Syndicate patrocinou um debate entre economistas. Joseph Stiglitz, Michael Spence e Katharina Pistor foram convocados para avaliar um mea culpa dos CEOs americanos. Na American Business Roundtable, os bacanas das grandes corporações bateram no peito para purgar os pecados cometidos em nome da maximização do “valor do acionista”.

Em 1962, um dos sacerdotes do Deus-Mercado, Milton Friedman, publicou o livro Capitalism and Freedom. O livro foi crucial para a defesa da primazia dos acionistas: as corporações não devem ter outro propósito, senão maximizar os lucros para seus acionistas. “Poucas tendências”, Friedman escreveu, “poderiam minar tão completamente os fundamentos de nossa sociedade livre quanto a aceitação da responsabilidade social pelos gestores corporativos. Suas obrigações devem se restringir a ganhar dinheiro para seus acionistas”.

A expressão “valor do acionista” sintetiza as práticas de gestão empresarial que buscam maximizar a extração de valor de um ativo já existente em detrimento da criação de valor mediante o investimento em um novo ativo reprodutivo. É impressionante a evolução da saída líquida de grana das grandes empresas para remunerar os acionistas e recomprar as próprias ações. No período 1976-1985 as transferências de valor para os acionistas chegaram a US$ 290 bilhões (0,4% do PIB americano). Entre 1986 e 1995 alcançaram a casa dos trilhões, US$ 1,54 trilhão, para avançar entre 1996-2005 para US$ 4,46 trilhões (2,6% do PIB) no período 2006-2015. Continuar a ler

Mitificação da Economia de Mercado de Capitais

O editor-executivo do jornal Valor Econômico, Cristiano Romero, exulta em sua coluna do dia 04/09/2019 com o advento da “Era da Pessoa Física” na bolsa de valores brasileira. Seu argumento é usual na servidão voluntária ao colonialismo cultural: “o que é bom para os States, naturalmente, é adequado a Terrae Brasilis”.

Afirma: “O mercado acionário é uma das fortunas do capitalismo americano. Por meio dele, grandes companhias floresceram, afinal, em qualquer lugar, é muito mais barato financiar um negócio com dinheiro de acionistas anônimos do que com crédito bancário. A cultura do investimento em bolsa sedimentou, nas famílias americanas, a noção de risco, a percepção de que não se constrói riqueza sem trabalho, esforço, sacrifício, suor.”

Para defender essa hipótese oficiosa tão cara ao ex-banqueiro de negócios no comando do ministério da Economia, Romero não compara as histórias econômicas (e distribuições de renda e riqueza) dos dois países para entender a razão de lá ser economia de mercado de capitais e aqui predominar uma economia de endividamento bancário. Ele só arrola os seguintes dados. “No início deste século, cerca de cem milhões de americanos investiam no mercado acionário. Há 20 anos, portanto, um em cada três cidadãos possuía ações de empresas negociadas nas bolsas daquele país. Em 2016, segundo o Federal Reserve, 51,9% das famílias da maior economia do planeta tinham dinheiro aplicado em ações, direta ou indiretamente (por meio de fundos)”.

Embora bancos, seguradoras, corretoras, gestoras, fundos de pensão, empresas de todos os portes e milhões de pessoas, muitos aposentados, tenham perdido fortunas subitamente, nem a crise em meados de setembro de 2008 desiludiu o colunista. Regozija: o centenário banco Lehman Brothers quebrou e o índice Dow Jones caiu mais de 50%, mas mesmo assim não foram capazes de decretar o fim do capitalismo ou de uma das fontes de seu dinamismo: o mercado de capitais. Não conseguiu afastar os americanos das bolsas por muito tempo. Com juros baixos, quem investe em renda fixa?!

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Conservadorismo em Finanças Pessoais, Liberalismo em Postura Política e Costumes

Roseli Loturco (Valor, 27/08/19) o encaminhamento da votação da reforma da Previdência no Congresso Nacional tem beneficiado direta e indiretamente a entrada de investimentos na Previdência Complementar por conta própria. Os números do primeiro semestre de contratação e captação líquida dos planos de previdência privada. O setor vinha desacelerando o ritmo de crescimento nos dois últimos anos, mas deu uma arrancada nos meses de maio e junho.

Foi o suficiente para inverter a curva e mostrar melhores resultados. As
contribuições até junho totalizaram R$ 55,7 bilhões, e a captação líquida
atingiu R$ 20,4 bilhões, 20,1% acima do igual período de 2018. Até o fim do ano a carteira total de investimentos do setor deve saltar de R$ 890 bilhões para atingir seu primeiro trilhão de reais.

A aprovação da reforma na Câmara colocou uma transparência maior sobre o que vai acontecer na Previdência Social com relação a idade, tempo de contribuição e valor dos benefícios. Logo, as pessoas com mais condições financeiras, começam a procurar a indústria privada. Neste cenário, as 67 seguradoras e as plataformas de investimentos têm feito esforços adicionais de vendas e oferecido mais opções de fundos. Os fundos multimercados têm despontado na preferência dos ativos de previdência.

Hoje, já representam 12,08% dos recursos aplicados. Em 2016, eram 5,7%. Já a renda fixa, apesar de representar ainda 84,5% do total, vem perdendo espaço. Em 2016, detinha 91% das aplicações. Continuar a ler

Era dos Juros Baixos e Aversão ao Risco de Renda Variável

Adriana Cotias (Valor, 09/08/19) avalia: o investidor brasileiro tem intuito de diversificar o risco para além da rotina da renda fixa. Com a Selic na mínima histórica, em 6% ao ano, têm ganhado peso progressivamente ativos de renda variável, fundos imobiliários e debêntures. Isso é mostrado pelos dados do primeiro semestre referentes às aplicações dos segmentos de varejo, alta renda e private banking da Anbima. Ela representa o mercado de capitais e de investimentos.

Como um todo, os investimentos da pessoa física alcançaram R$  3,1 trilhões em junho, um incremento de 5% em relação a dezembro de 2018, e de 11,2% na comparação com janeiro a junho do ano passado. No mesmo intervalo em 2017, o setor tinha crescido 3,3%.

Os números da primeira metade do ano ficaram acima da variação da Selic, de 3,1% no período, mas abaixo do IMA-Geral, índice que mede o desempenho de uma cesta de títulos públicos, com alta de 7,9%. O Ibovespa ganhou 14,9%.

No varejo, o saldo dos investidores chegou a R$ 1,9 trilhão, com alta de 2,7% no semestre, mesmo ritmo observado de janeiro a junho de 2017. A alta renda passou a representar 51,5% do conjunto varejo, com R$ 968,7 bilhões, em comparação à fatia de 47,6% de dezembro. Continuar a ler

Estresse Financeiro

Ana Conceição (Valor, 20/08/19) informa: mais de um quarto dos consumidores de baixa renda estão sob estresse financeiro, ou seja, se endividando ou “queimando” reservas para pagar contas do dia a dia, como de água e luz, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV).

Em julho, 26% dos consumidores com salários de até R$ 2.100 mensais estão nessa condição, mostra o Indicador de Estresse Financeiro, apurado mensalmente pela instituição.

Entre os com salário acima de R$ 9.600, o percentual é menor, de 16,3%. Nas faixas intermediárias, o indicador variou de 27% (até R$ 4.800) a 24% (até R$ 9.600).

Na média, 23% dos consumidores estavam se endividando ou reduzindo poupança para pagar despesas correntes em julho, ante 24% no mesmo período do ano passado, contra uma média histórica de 19,6%. Continuar a ler