Aberração do Depósito Compulsório no Brasil por Ricardo Bergamini

Recebi solicitação de comentários por parte de minha amiga Ceci Juruá a respeito se estão corretas as afirmações abaixo do Prof. Bergamini. O depósito compulsório tão elevado é para evitar o excesso de liquidez?

Dado o didatismo do post do Prof. Bergamini, eu o reproduzo abaixo, para depois tecer meus comentários. Continue reading “Aberração do Depósito Compulsório no Brasil por Ricardo Bergamini”

Dor no Bolso dói mais que no Coração: Efeito Temer sobre O Mercado 3O

Alexandre Póvoa é presidente Canepa Asset Brasil e autor de “Valuation, Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor“. Deu seu testemunho ocular sobre aquilo que poderia ser filmado como o “Margin Call – O Dia Antes do Fim” brasileiro (Valor, 26/05/17). Para registro histórico, reproduzo-o abaixo. Enquanto isso, eu estava palestrando no Pint of Science em um bar em Barão Geraldo…

Quarta-feira, 17 de maio de 2017, às 19h30. Alguns gestores já haviam deixado o trabalho, mas a velocidade da comunicação via agência on-line de notícias, WhatsApp e demais meios digitais lançou uma bomba — o vazamento da delação (super) premiada dos controladores da JBS — no nosso colo, quase que simultaneamente.

A primeira reação foi de incredulidade — basta lembrar que, naquele momento, o governo vinha se fortalecendo na área política, muito à base de concessões a parlamentares para a obtenção do quórum qualificado de 308 votos para a aprovação da reforma da Previdência dali a duas semanas. O jogo do presidencialismo de coalizão (eufemismo para fisiologismo ou troca de votos por vantagens) parecia caminhar de forma desinibida.

Naquele dia especificamente, as renovadas “barbeiragens” políticas do presidente Trump haviam elevado a aversão a risco. Nada muito preocupante, o que pode ser constatado na incrível e inabalável força das bolsas americanas, desde as eleições nos EUA. O dólar ao redor de R$ 3,10, a bolsa caminhando para 70 mil pontos e o mercado de DI já precificando queda de 125 pontos na próxima reunião do Copom (com importantes casas revisando a taxa Selic, ao final de 2017, para patamar abaixo de 8% ao ano) refletiam o relativo otimismo dos investidores. Não havia euforia, mas prevalecia a sensação crescente de tranquilidade, lastreada pelo fato de que, até aquela ocasião, a Operação Lava Jato não havia recaído ainda diretamente sobre o presidente Temer. Continue reading “Dor no Bolso dói mais que no Coração: Efeito Temer sobre O Mercado 3O”

Aprendendo com Estudo de Caso Real: Especulando Contra o Real

Fernando Torres (Valor, 09/06/17) informa que, preocupada com um pedido de bloqueio cautelar do resultado financeiro obtido por ela em operações no mercado futuro de dólar, apresentado no dia 5 de junho pelos autores da ação popular contra ela que corre na 5a Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, a JBS decidiu se antecipar à citação e a uma eventual decisão liminar e se posicionou previamente sobre o caso ao juiz Tiago Bitencourt de David.

Dizendo que soube do processo por notícias da internet, a JBS afirma, em manifestação à Justiça, que o bloqueio de uma ou outra operação sua no mercado futuro “compromete a capacidade de crédito da companhia” e a impede de fazer novos contratos que a protejam da variação cambial, o que seria danoso a seus negócios.

No dia 30 de maio, o juiz da 5a Vara Cível atendeu parcialmente o pedido apresentado por Hugo Fizler Chaves Neto e Cristiane Sousa da Silva em ação popular e determinou o bloqueio de R$ 800 milhões em bens de Joesley Batista, um dos controladores indiretos da JBS.

A ação questiona as transações da empresa com o BNDES, as operações de compra de dólar futuro pela JBS em maio e a venda de ações da empresa pelos controladores em abril, além do programa de recompra de papéis conduzido pela JBS na bolsa.

O caso corre em paralelo ao processo administrativo, já transformado em inquérito, que a Comissão de Valores Mobiliários conduz sobre suposto uso de informação privilegiada pela JBS e seus controladores. Continue reading “Aprendendo com Estudo de Caso Real: Especulando Contra o Real”

Advogado-do-Diabo em favor da “Financeirização”

Aqui, atuarei como advogado-do-diabo de uma velha dama mal afamada perante os religiosos, difamada por ateus, e mal-amada por muitos que usufruem – ou não, talvez por isso mesmo – de seus encantos: a “financeirização”.

A usura é uma bruxa condenada desde o século XIII, quando a difusão da economia monetária ameaçava os velhos valores cristãos. Um sistema econômico complexo – o capitalismo – estava prestes a emergir plenamente séculos adiante. Para interagir seus componentes necessitava, além de novas técnicas, do uso massivo de práticas condenadas desde sempre pela santa (e rica) Igreja. Uma luta encarniçada, assinalada por proibições religiosas articuladas a valores morais e mentalidades retrógradas, tinha por objetivo a legitimação do que se considerava “lucro lícito”, obtido a partir da submissão dos trabalhadores à nova ordem que iniciava seu longo parto. Crentes distinguiam “a legítima exploração direta do trabalho alheio” da “usura ilícita”.

O asceticismo no cristianismo e em todas as outras grandes religiões – judaísmo e islamismo –, passou a designar um conjunto de práticas austeras, comportamentos disciplinados e prevenções morais prescritos aos fiéis, tendo em vista a realização de desígnios divinos e leis sagradas. Ascese significa dedicação ao exercício das mais altas virtudes tal como a exigência de perfeição ética do protestantismo, nos primórdios do capitalismo, quando ainda não havia se constituído uma economia de endividamento.

Sem crédito massivo, era o caso de se fazer “poupança” ou ter parcimônia, segundo a sabedoria convencional econômica. Até hoje esta é divulgada como uma virtude moral. Abstém-se do consumo presente em nome da promessa do paradisíaco “reino dos céus”, ou seja, maior consumo futuro. Choca-se com o consumismo presente no mundo. Continue reading “Advogado-do-Diabo em favor da “Financeirização””

O Brasileiro Poupador? Eu Quem, Cara-Pálida?

Mercado de Trabalho no Brasil: População Ocupada: 89 milhões (MM); Formal com carteira: 34 MM (38%); Servidores públicos: 11 MM; Subtotal: 45 MM (51%). Conta própria:  22 MM; Informal sem carteira: 10 MM; Doméstica: 6 MM; Empregadores:  4 MM; Auxiliares familiares: 2 MM; Subtotal: 44 MM (49%).

Segundo a Pnad 2015, somente 8,4% da população ocupada (89 milhões no 1º. Trimestre de 2017) ou 7,476 milhões de pessoas ganhavam acima de 5 de salários mínimos (R$ 4.150,00 em 2017). A classe média era composta de 5 milhões pessoas, a média alta, 2 milhões,  e a alta 0,5 milhão.

Segundo as DIRPF 2016 – AC 2015, “ricaços” eram 0,1% dos declarantes (27.518 pessoas) com renda média mensal de R$ 135 mil e a renda do contribuinte com maior Renda Tributável Bruta da faixa era R$ 12,608 milhões / mês; Bens e Direitos (Ativos Financeiros, Imobiliários e Automotores) per capita: R$ 15,141 milhões.

Classe Rica – A (0,9%): 275.188 – 27.518 = 247.670 declarantes com renda média de R$ 34.165 e maior da faixa R$ 60.117; Bens e Direitos per capita: R$ 2,143 milhões.

Classe Média Alta – B (9%): 2,477 milhões; renda média: R$ 13.669; maior renda da faixa: R$ 26.361; Bens e Direitos per capita: R$ 565 mil.

Classe Média Média – C (40%): 11 milhões; renda média: R$ 4.660; maior renda da faixa: R$ 8.721; Bens e Direitos per capita: R$ 182 mil.

Classe Média Baixa – D (50%): 13,759 milhões; renda média: R$ 1.640; maior renda da faixa: R$ 2.812; Bens e Direitos per capita: R$ 154 mil.

Não-declarantes: 61,5 milhões da PO e os da PIA que receberam rendimentos tributáveis anuais inferiores a R$ 28.123,91 em 2015 (ano-base para a declaração do IR deste ano) ou mensal de R$ 2.163; contribuintes que receberam rendimentos isentos, não-tributáveis ou tributados exclusivamente na fonte, cuja soma tenha sido inferior a R$ 40 mil no ano de 2015.

Segundo dados da ANBIMA, em dezembro de 2016, a Concentração Riqueza Financeira per capita era CMA = 3,5 CMB; PB = 151 CMB; PB = 42,5 CMA.

Em dezembro de 2015, existiam 62 milhões depositantes de poupança com saldo acima de R$ 100, cujo saldo médio per capita era R$ 9.706.

Em FIFs e TVMs, o varejo tradicional (CMA) era 6,3 milhões investidores com saldo médio per capita de R$ 46 mil.

O varejo de alta renda (CMB) era composto por 3,1 milhões investidores com saldo médio per capita de R$ 160 mil.

O Private Banking (PB) era composto por 110 mil investidores com saldo médio per capita de R$ 6,483 milhões.

E ainda tem gente que fala de O Brasileiro! Mas quem é, hein? Você viu o arquétipo do brasileiro por aí? Eu nunca vi…

É possível falar em um indivíduo representativo de uma sociedade tão desigual? O que significa média da renda do trabalho (PNAD) quando 75% (ou 3 quartis) estão abaixo dela? A mediana (50% abaixo e 50% acima) é menos de ⅔ da renda média! A renda per capita do trabalho do 95o. percentil é 3 vezes a renda média, enquanto a do 99o. percentil é 6,7 vezes!

Aquiles Mosca é estrategista de investimentos pessoais e superintendente executivo comercial do Santander Asset Management. É autor dos livros “Investimentos sob medida” e “Finanças Comportamentais“. Preside o Comitê de Educação de Investidores da Anbima. Publicou artigo (Valor, 02/05/17). Ele fala de O Brasileiro como poupador. Pasmem… Está se dirigindo a quem: aos 10,2 milhões que já fazem investimentos financeiros em FIF/TVM? Ou aos 62 milhões depositantes de poupança com média per capital em torno de R$ 10 mil?! Continue reading “O Brasileiro Poupador? Eu Quem, Cara-Pálida?”

Quem Ganha com a Volatilidade de O Mercado ou o Risco de Renda Variável?

Jorge Simino é diretor de investimentos e patrimônio da Fundação Cesp, patrocinada pelo Tucanistão (estado de São Paulo) há décadas. Ele se apresenta como um porta-voz contratado, diretamente, pela casta dos mercadores-financistas.

Diz que “os dois gráficos ajudam a explicar as dúvidas e recomendam também um certo cuidado com as inferências para a evolução do índice no futuro próximo.

Começando pelo gráfico 1; nele é possível constatar, a partir de janeiro de 2015, quando a desaceleração econômica já ficava mais forte, a presença de choques exógenos devidamente correlacionados: a correção dos preços administrados e a desvalorização da taxa de câmbio. No caso dos preços administrados, foi a implantação do realismo tarifário (mais fortemente no caso da energia elétrica, mas não só). E, no caso da taxa de câmbio, as dúvidas sobre quais seriam os rumos do governo reeleito (apesar da nomeação do ministro Joaquim Levy)”.

[Não é risível este eufemismo — toda palavra, enunciado ou maneira delicada ou suavizada que se usa para expressar certos fatos, ideias e verdades, em substituição a uma forma mais direta, menos agradável e menos polida e cuja sinceridade ou crueza poderia chocar ou agredir alguém — “realismo tarifário“, quando Joaquim Levy deu um choque tarifário a partir de sua crença ideológica neoliberal de que “preços livremente estipulados levariam a um equilíbrio geral dos preços relativos” como prognostica o único modelinho aprendido por ele no mestrado da EPGE-FGV?]

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Como Planejar a Vida Profissional e Financeira de “Pejotizado”

No substitutivo da Reforma da Previdência Social, proposta pelo governo golpista, em um oportunismo político aproveitado pela casta dos mercadores em prejuízo da casta dos trabalhadores, a fórmula de cálculo do valor da aposentadoria se modificou: para receber 100% dos salários de contribuição, o trabalhador agora terá que contribuir por 40 anos para a Previdência!

Isso acontecerá porque o cálculo passará a contabilizar 70% da média de contribuições e o peso das contribuições será maior e progressivo (1,5% para cada ano que superar 25 anos de contribuição, 2% quando for superado 30 anos e 2,5% para os que superarem 35 anos). O cálculo do benefício vai considerar a média de 100% dos salários recebidos desde 1994 – e não 80% como é atualmente, em que se elimina os salários mais baixos, tipicamente no início da carreira profissional.

Em um ano há 365 dias e, durante suas 52 semanas, há 252 “dias úteis”, descontando 102 dias de fim de semana e 9 feriados. Descontando 22 dias úteis de férias, sobrariam 230 dias X 8 horas = 1.840 horas de trabalho por ano. Considerando 30 anos de trabalho, antes, eram no mínimo (para as mulheres) 55.200 horas trabalhadas na vida ativa.

Se a Reforma da Previdência aumentar cinco anos de vida ativa, serão mais 9.200 horas de trabalho até se aposentar com 65 anos, totalizando 64.400 horas, pagando mais contribuições, e tendo menos vida inativa até o falecimento. Os trabalhadores só perderão.

Uma contrapartida justa seria o Congresso aprovar 48 semanas X 36 horas = 1.728 horas anuais. Considerando 35 anos de trabalho, seriam 60.480 horas trabalhadas na vida ativa. Assim, elevaria em 5.280 horas face à carga de trabalho anterior, mas os trabalhadores teriam mais um dia livre na semana. Seriam 9 horas de trabalho em 4 dias por semana, mantendo-se a remuneração mensal, diminuindo o trabalho alienante e elevando o trabalho criativo!

O que ocorrerá, na prática, caso sejam aprovadas as Reformas Trabalhistas e Previdenciárias em benefício da casta dos mercadores e prejuízo da casta dos trabalhadores? Como se virarão os trabalhadores “pejotizados” que recebem acima do teto do INSS em 2017: R$ 5.531,31?

O valor médio das aposentadorias urbanas, em março de 2017, era R$ 1.530,83. No caso de aposentadoria por idade (60 anos para mulheres e 65 anos para homens), era R$ 1.129,28, ou seja, 21% a mais do que o salário mínimo de R$ 937,00. Por tempo de contribuição aumentava para R$ 1.947,40.

Quanto às faixas de valor por salários mínimos (pisos previdenciários), 66% dos beneficiários (não só os aposentados) recebiam um salário mínimo. Até três salários mínimos (R$ 2.811,00) já estavam 92% deles; até cinco salários mínimos (R$ 4.685,00) encontravam-se 99,3% de todos os 33,8 milhões de beneficiários. Ora, para a casta dos sábios-universitários, a aposentadoria no INSS pode ser considerada complementar aos rendimentos de outras fontes

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