Concentração de Capital e Desalavancagem Financeira das Empresas Não Financeiras

Grafico_destaque.jpg

Segundo o Boletim da ANBIMA, referente ao Mercado de Capitais, as empresas brasileiras captaram no mercado doméstico de valores mobiliários R$ 155,4 bilhões até novembro de 2017. O volume tanto no segmento de renda fixa como no de renda variável superou o montante captado em todo o ano de 2016 e de 2015, sinalizando que o ano de 2017, a partir do cenário de queda das taxas de juros e da inflação, representou um ponto de virada para as companhias locais face ao locaute golpista do ano anterior.

As captações com ações até novembro somaram R$ 31,7 bilhões, um crescimento de 195,2% em comparação ao ano de 2016. Houve equilíbrio entre as operações distribuídas com esforços amplos, pela ICVM 400, (R$ 15,9 bilhões) e as distribuídas com esforços restritos, pela ICVM 476, (R$ 15,8 bilhões) e um forte direcionamento para as ofertas primárias de ações, que somaram R$ 22,1 bilhões, indicando a entrada de recursos novos para as companhias.

A maior parte das operações, 45,8%, foi para a aquisição de ativos, de operações ou de participações acionárias, o que também reforça o aumento da parcela voltada para novos investimentos. Em 2016, essa parcela havia sido de apenas 15,5%. Ao mesmo tempo, aumentou o volume direcionado para redução de passivo, que respondeu por 33,5% do total (versus 20,3% em 2016) e houve queda do montante para capital de giro, que caiu de 58,5% em 2016 para 20,7% até novembro de 2017.

Grafico_RV.jpg Continue reading “Concentração de Capital e Desalavancagem Financeira das Empresas Não Financeiras”

Endividamento e Comprometimento da Renda das Famílias

Hyman Minsky é conhecido com o grande teórico dos passivos. O que significa isso?

Ele tratou das decisões de portfólio de maneira original. Focalizou, conjuntamente, como escolher e reter ativos – formas de manutenção de riqueza –, referente à economia de mercado de capitais, e como financiar a retenção ou a propriedade desses ativos, referente à economia do endividamento. Focou também o lado dos passivos.

A principal causa da instabilidade financeira estaria nas alterações em relação ao contexto da decisão quanto à composição e financiamento do portfólio de cada agente com novas informações e mudanças de cenários do futuro. A composição do portfólio se dá em estado de incerteza quanto ao futuro. Este será resultante de decisões da pluralidade de agentes econômicos tomadas de modo descentralizado, descoordenado, e com desconhecimento das outras.

Entre essas, há decisões cruciais daqueles agentes de maior peso e/ou influência. Estas alteram o contexto de maneira irreversível – a não ser à custa de muito prejuízo.

Na hora das decisões, cada agente econômico tem de imaginar como irá compatibilizar seus fluxos de entrada e de saída de caixa (dinheiro), ou seja, quais são suas expectativas face a contratos estabelecidos em condições alteráveis. Os retornos dos ativos são incertos, pois dependem de condições futuras. Já os pagamentos dos passivos são certos, pois haverá penalidades caso não sejam efetuados. Levam ao risco de bancarrota ou falência. E no caso de pessoa física, o que ocorre?

Pode-se falar em fragilidade financeira de pessoa física? Esta indicaria o grau de prudência no endividamento de todos os clientes que compõem o complexo sistema financeiro, seja por critério de liquidez (disponibilidade de caixa), seja por solvência (capacidade de pagamento com ativos de garantia superiores aos passivos de terceiros). Continue reading “Endividamento e Comprometimento da Renda das Famílias”

Setor Financeiro: “A Vaca Sagrada da Economia”

Carlos Luque é professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP. Roberto Zagha, no Banco Mundial a partir de 1980, encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Tenho apreciado a séries de artigos de Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha no Valor, porém, do último (Valor, 11/10/17), data venia, discordo.

Data venia é uma expressão latina que significa “dada a licença” ou “dada a permissão“. É uma forma educada e polida de iniciar uma frase de discordância sobre o que disse ou escreveu o interlocutor. A expressão corresponde a dizer “com o devido respeito” ou “com a devida vênia” para argumentar contra o posicionamento de outrem.

Em próximo post, farei exposição de meus pontos de discordância a respeito de um medieval antissemitismo, que se transformou em um contemporâneo antirrentismo, mas que continua como discurso de ódio não bem fundamentado contra o sistema bancário. Erra-se, inclusive, porque, com base na equivocada Lei de Say, define-se que “bancos devem ser meros intermediários financeiros para canalizar, exatamente, a poupança prévia para o investimento posterior”. Assim, manter-se-ia equilibrada a demanda com a oferta agregada, já que esta criaria, na medida exata, o valor daquela demanda. De acordo com essa visão pré-keynesiana, o “crédito excessivo” que provocaria a perene inflação de demanda.

Para entender o debate, inicialmente, reproduzo abaixo o artigo de Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha. Continue reading “Setor Financeiro: “A Vaca Sagrada da Economia””

BNDES terá recursos para combater o desemprego?

Alex Ribeiro (Valor, 03/10/17) comete um equívoco em sua análise contábil. Ele parece não saber a diferença entre um contador e um economista: a hipótese. Aquele registra fatos do passado ao presente, este imagina cenários do presente ao futuro.

Então, a pergunta macro-sistêmica não é “se o caixa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é suficiente para fazer o pagamento antecipado de R$ 180 bilhões de empréstimos ao Tesouro Nacional ao longo deste e do próximo ano, de acordo com as demonstrações contábeis do banco federal”. É sim se ele ajudará a combater no futuro próximo o imenso desemprego atual na população brasileira.

Olha a ingenuidade de sua afirmação: “só faltariam recursos para fazer o pré-pagamento à União na hipótese de o BNDES promover uma aceleração nas concessões de crédito até 2018. A discussão sobre o pagamento antecipado ao Tesouro Nacional, portanto, é na essência sobre o tamanho que o BNDES terá nos próximos anos”. Assim, acriticamente, assume tudo que seu patrão (O Globo) mandou seu editor (Valor) publicar em favor do plano maquiavélico do governo golpista: destruir os bancos públicos desenvolvimentistas para, supostamente, abrir espaço para O Mercado privado. Continue reading “BNDES terá recursos para combater o desemprego?”

Se não fossem os Bancos Públicos o BRIC seria apenas RIC

Alex Ribeiro (Valor, 06/10/17) mostra que os neoliberais do governo golpista levou os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a níveis abaixo dos anteriores à Era Social-Desenvolvimentista, quando a instituição financeira ainda não havia sido transformada em um instrumento desenvolvimentista pelo governo Lula de maneira similar ao uso dos bancos públicos pelos demais países do BRIC.

Levantamento feito pelo Valor mostra que, nos 12 meses encerrados em agosto de 2017, os desembolsos do BNDES somaram R$ 77,7 bilhões, cifra que se aproxima muito da média de R$ 78,4 bilhões observada entre 2000 e 2005, em valores atualizados pela inflação. Em 2005, ocorreu o pico de desembolsos do período, com um volume de R$ 90,250 bilhões.

Essa é apenas uma das métricas possíveis de comparação. Os valores em proporção do Produto Interno Bruto (PIB) dão uma ideia dos desembolsos em relação ao tamanho da economia. As liberações chegaram a cerca de 1,2% do PIB nos 12 meses até agosto, algo como 40% menores do que a média de 2,1% do PIB de 2000 a 2005.

Os dados dão uma dimensão histórica do BNDES nesse momento em que o tamanho da instituição está sob ataque dos economistas neoliberais inconsequentes com a história do Brasil. São cúmplices do governo temeroso em relação ao pagamento antecipado de R$ 180 bilhões ao Tesouro Nacional de empréstimos feitos ao banco para evitar o impeachment do Temer pela “regra de ouro”. Continue reading “Se não fossem os Bancos Públicos o BRIC seria apenas RIC”

O Raquítico Mercado de Capitais Brasileiro como Substituto do BNDES?!

Como eu disse em outro post, não admiro praticamente ninguém entre os colunistas midiáticos pró-O Mercado. Eles abundam na “grande” imprensa brasileira. Mas em toda a regra há exceções.

Pela pesquisa quantitativa, em cima de balanços de sociedades abertas e fechadas, mas não pela análise qualitativa, i.é, ortodoxa e sem originalidade, acompanho o Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec) do Instituto Ibmec. Porém, discordo das opiniões apriorísticas dele.

Por exemplo, em seminário entre os mesmos economistas midiáticos de sempre (Valor 11/10/17), ele disse que “não há dúvida que o BNDES sobreviverá sem os R$ 180 bilhões retornados ao Tesouro. O BNDES já diminuiu sensivelmente a participação dele [no financiamento do investimento de longo prazo]”, diz Rocca.

Os dados consolidados pela equipe do Cemec (ver quadro 1) mostram que a parcela do banco no financiamento dos investimentos (medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo – FBCF) rondava o nível dos 3% do PIB entre 2009 e 2014 e hoje está em 0,8%. É também verdade que a própria FBCF caiu do nível dos 18% para 14% do PIB com a Grande Depressão provocada pela volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015. Continue reading “O Raquítico Mercado de Capitais Brasileiro como Substituto do BNDES?!”

Gênios da Profissão: Economistas Oniscientes Pró-Mercado

Depois de 43 anos após minha formatura continuo com o mesmo sentimento pessoal: gosto muito de estudar Economia, porém, não aprecio a companhia da maioria ortodoxa dos economistas. Corresponde à impressão popular: gente insensível ao drama popular! Só enxerga O Mercado Onisciente, Onipotente e Onipresente, como esse ser sobrenatural foi possível — e não uma contradição lógica…

José de Castro (Valor, 10/10/17) dá um bom exemplo disso. Conforme cálculos de Departamentos Econômicos de bancos privados, compostos naturalmente só de economistas louvadores de O Mercado 3 O’s, a taxa de juros de equilíbrio da economia brasileira pode ficar até 2,2 pontos percentuais menor quando a Taxa de Longo Prazo (TLP) estiver totalmente implementada, o que se espera que aconteça num prazo de até cinco anos.

[Fernando Nogueira da Costa: Ah, é? Guardemos a notícia e vamos conferir daqui a cinco anos. Quem viver, verá algo muito distinto. Quer apostar?]

Dessa forma, a Selic poderá testar patamares ainda mais baixos que o previsto por O Mercado financeiro, que hoje trabalha com juro de até 6,5% já para o ano que vem. A taxa de equilibrio é aquela que, teoricamente, permite máximo crescimento econômico ao mesmo tempo que mantém a inflação na meta.

[Fernando Nogueira da Costa: taxa natural é uma taxa hipotética que nenhum economista conhece ex-ante; só ex-post ele reconhece que aquela foi a taxa de equilíbrio com a taxa de mercado, mas aí já era…] Continue reading “Gênios da Profissão: Economistas Oniscientes Pró-Mercado”