China Desenvolvida com Alavancagem Financeira X Brasil Decadente com Desalavancagem Financeira

O debate econômico apresentado na imprensa brasileira é parcial, porque apresenta apenas um viés ortodoxo (“Economia da Confiança”), segregando o ponto de vista heterodoxo. A consequência pior da ausência de pluralismo não é só a discriminação contra a vanguarda teórica, mas também levar a erros, tanto dos empresários na análise de contextos, cenários e alternativas, quanto de eleitores na hora do voto. Ambos mal-informados cometem muita burrice, por exemplo, terem acreditado no mito neoliberal encarnado no “Posto Ipiranga”.

Agora, outro mito está se propagando com a louvação do mercado de capitais e a demonização dos bancos públicos, em particular o BNDES. Confira a diferença de perspectiva entre o capitalismo de compadrio no Brasil e o capitalismo de Estado na China.

Claudia Safatle (Valor, 21/06/19) avalia haver boas e más notícias sobre a possibilidade de expansão dos investimentos do setor privado no país. Esta será a base da retomada do crescimento econômico em algum momento no futuro. Esmiuçando os dados dos balanços de 319 grandes companhias de capital aberto não financeiras, identifica-se:

  1. acentuada queda do nível de endividamento,
  2. aumento da rentabilidade e
  3. redução do custo de capital.

Ao mesmo tempo há uma “revolução” em curso no financiamento das empresas. De 2005 para cá 1.369 novas companhias, na maioria (62,8%) fechadas, entraram no mercado de dívidas corporativas.

A situação das pequenas e médias empresas, porém, contrasta frontalmente com a das grandes, o que é um fator negativo. Em dezembro de 2017, havia 4,937 milhões de pequenas e médias empresas inadimplentes. No ano passado esse número já era de 5,305 milhões. Continuar a ler

Ciclos de Endividamento: Alavancagem e Desalavancagem Financeira

O segredo do negócio capitalista é dar escala ao investimento e multiplicar sua rentabilidade com a alavancagem financeira. Este é termo usado para designar a obtenção de recursos de terceiros, somando-os aos recursos próprios, e fornecer uma composição passiva capaz de lastrear maiores valores nos ativos do empreendimento.

Pode-se formular os seguintes indicadores da alavancagem financeira:

  1. a utilização de recursos provenientes de terceiros na composição da estrutura do capital de uma empresa, objetivando obter economia de escala:
    [R3º / (R3º + RP) ou R3º / PT] onde R3º significa Recursos de Terceiros, RP, Recursos Próprios, e PT, Passivo Total;
  2. a compra de títulos e/ou bens com recursos de terceiros (R3º / AT), onde AT são Ativos Totais, iguais aos Passivos Totais (PT);
  3. a participação percentual dos empréstimos contraídos em relação à estrutura de capital da empresa (P3º / PL), onde PL é Patrimônio Líquido (Capital + Reservas).

Gosto de dar um exemplo simples. Caso você tenha 100 mil reais para investir em algum ativo (forma de manutenção de riqueza) com firme tendência de alta, por exemplo, 25% a cada dois anos, você aplica o seu dinheiro para o comprar ainda barato e vender mais caro no fim desse período. Você ganha R$ 25 mil apenas com esse capital inicial.

Com recursos de terceiros, isto é, dos outros depositados em bancos, em vez de investir 100 mil reais, você pode fazer um investimento de 400 mil reais. Você toma emprestados os 300 mil reais restantes de um banco. Após dois anos, com a mesma valorização de 25%, você o vende por 500 mil reais. Aí amortiza o empréstimo ao banco e sai do negócio com aproximadamente 200 mil reais, descontados os juros.

Em vez de ganhar meros 25%, você dobrou o seu dinheiro ao usar o dinheiro dos outros. Teria rentabilidade de 100% sobre o capital inicial em caso de juro zero. O limite do juro a ser pago tem de ser inferior à rentabilidade patrimonial inicial (25%) para valer a pena.

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Economia do Brasil: desindustrialização e governo inerte

Enquanto a economia brasileira cai pelas tabelas, o governo neoliberal de extrema-direita fica inerte em termos de ações para o desenvolvimento. Aliás, só colabora com a decadência nacional ao colocar com base no favoritismo — ser amigo de um dos filhos do clã do capitão miliciano — um jovem com a missão de presidir a destruição do BNDES! Mais um crime lesa-pátria!

Arícia Martins (Valor, 14/06/19) informa: mesmo mantendo sua nona posição entre as dez maiores potências industriais mundiais, o Brasil perdeu ainda mais participação no mercado global de manufaturas e caminhou em sentido contrário à tendência de crescimento da indústria observada na média de todas as economias. As informações estão no relatório de 2019 da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido).

A fatia brasileira no valor adicionado da indústria mundial, que já chegou a 2,81% em 2005, recuou ligeiramente entre 2017 e 2018, de 1,9% para 1,8%, segundo dados compilados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). A virtual estagnação foi suficiente para que o país se mantivesse como nono maior parque industrial do mundo, atrás da França, com 2,2%.

Caso a trajetória de perda de relevância do parque fabril brasileiro persista, o setor nacional tem “riscos consideráveis” de ser ultrapassado pelo da Indonésia, atualmente a décima maior potência industrial do mundo, avalia Rafael Cagnin, economista do IEDI e autor do levantamento feito a partir de números da Unido. Continuar a ler

Caixa: Banco do Estado brasileiro, não do Governo Militar

Edna Simão (Valor, 28 e 29/05/19) informa algo para se registrar: para tentar dar um estímulo à economia brasileira, a Caixa Econômica Federal anunciou não só o início da renegociação de dívidas de quase três milhões de pessoas física e jurídica como também, em até 30 dias, fazer algo semelhante com os financiamentos imobiliários.

A expectativa da Caixa é recuperar R$ 1 bilhão em dívidas já lançadas a prejuízo pela instituição financeira, ou seja, 25% da dívida considerando o desconto médio de 85,7% (R$ 4,1 bilhões). A dívida total, já retirada do balanço, soma R$ 28,624 bilhões, sendo R$ 15,654 bilhões de pessoa física e R$ 12,969 bilhões de pessoa jurídica.

Essa renegociação é a primeira de cinco medidas populistas. “Somos um banco de Estado. Não um banco de governo”, frisou o presidente do banco, Pedro Guimarães. O objetivo “é fazer anúncios toda a semana”. “Vamos fazer uma outra renegociação na parte imobiliária”, disse, sem dar detalhes. Continuar a ler

Participações dos Componentes do Crédito Ampliado

Os novos dados do BCB comprovam: a economia brasileira é uma economia de endividamento e está longe de se converter em uma economia de mercado de capitais à americana, porque títulos privados emitidos no mercado doméstico (debêntures e notas comerciais) são apenas 4% do crédito ampliado, só superando os securitizados (CRI/CRA) com 3%, mas muito abaixo do endividamento externo (21%), do endividamento público (35%) e dos empréstimos e financiamentos do SFN e outros (37%).

A partir deste mês, passam a ser divulgadas mensalmente pelo Banco Central do Brasil as estatísticas de crédito ampliado ao setor não financeiro. Essa nova estatística inclui, além dos saldos das operações de crédito do SFN, empréstimos e financiamentos concedidos pelos demais setores institucionais residentes; os estoques dos títulos públicos, privados e instrumentos securitizados; e os empréstimos e emissões de títulos cujos credores são não residentes (dívida externa).

As novas séries permitem a compilação do total de crédito que financia os agentes não financeiros da economia – governo geral (administração pública federal, estadual e municipal), empresas (públicas e privadas) e famílias, conforme metodologia internacional de compilação das estatísticas monetárias e financeiras, permitindo a comparação com as estatísticas similares de outros países e organismos internacionais.

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Entraves na Desalavancagem Financeira das Empresas Não-Financeiras

Arícia Martins (Valor. 03/05/19) informa: o cenário de reação fraca da atividade em 2018 teve reflexo na rentabilidade das empresas industriais. Elas mostraram resultados inferiores aos de outros ramos da economia, tendência a se repetir este ano, se a retomada não deslanchar. Segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), os indicadores de lucratividade do setor melhoraram no ano passado, mas de forma concentrada e insuficiente para dar início a um novo ciclo de investimentos produtivos.

No agregado de 318 companhias não financeiras com dados contábeis disponíveis, a margem líquida de lucro (relação entre lucro líquido e receita líquida) subiu de 4,3% para 7,6% entre 2017 e 2018, superando com folga o percentual de 2,7% registrado em 2014, ano anterior à recessão. Mesmo excluindo Petrobras, Eletrobras e Vale da amostra – que, pelos seus tamanhos, distorcem os resultados -, a margem líquida aumentou 1,4 ponto na passagem anual, para 5,9%, também acima do patamar de cinco anos atrás (5,6%).

Para a indústria, porém, a melhora foi bem mais tímida. No conjunto de 131 empresas do setor, desconsiderando Petrobras e Vale, o indicador avançou 0,9 ponto em 2018 sobre o ano anterior, para 4,6%. Com essa evolução, a margem líquida das companhias industriais ainda está 1,1 ponto abaixo do nível de 2014. Continuar a ler

Estatística de Crédito Ampliado ao Setor Não Financeiro

Há muitos anos tenho somado a relação crédito/PIB à relação dívida mobiliária em poder do mercado / PIB para comparar essa soma com o funding gerado pelo M4 (agregados monetários e financeiros) mais o déficit do balanço de transações correntes. Conceitualmente, sempre se aproximam uma da outra, mas o importante é destacar o sistema financeiro nacional ter a capacidade de captação de recursos e financiamento muito superior ao expresso apenas pela relação crédito/PIB.

Finalmente, a Autoridade Monetária segue minha orientação! Talvez, graças ao meu ex-orientando, Fernando Alberto Sampaio Rocha, ter sido nomeado chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central…  🙂

O boxe do Relatório de Economia Bancária do Banco Central do Brasil 2018 apresenta a estatística de crédito ampliado ao setor não financeiro. Ele compreende:

  1. as operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) – empréstimos e financiamentos concedidos por bancos e outras instituições financeiras –,
  2. as operações de crédito dos demais setores institucionais residentes,
  3. os títulos de dívida públicos e privados e
  4. os créditos concedidos por não residentes (dívida externa).

A estatística passa a ser divulgada mensalmente pelo Banco Central do Brasil (BCB) a partir de maio de 2019 na Nota para a Imprensa – Estatísticas Monetárias e de Crédito e no Sistema Gestor de Séries Temporais (SGS). A série histórica tem início em janeiro de 2013.

Nota para a imprensa – 29/5/2019

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