Endividamento de Risco

Estevão Taiar (Valor, 30/06/2020) informa: era relativamente baixo o percentual, de pessoas físicas chegaram às vésperas da pandemia com uma situação de endividamento de risco. Depois, o quadro financeiro das famílias pode ter se tornado ainda mais delicado. De acordo com estudo do Banco Central (BC) com download abaixo, 4,6 milhões de pessoas tinham endividamento de risco em dezembro do ano passado. O número, segundo o Sistema de Informação de Crédito (SCR), representa 5,4% dos 85 milhões de brasileiros com empréstimos abertos.

O diretor de relacionamento, cidadania e supervisão de conduta do BC, Maurício Moura, admite a possibilidade de piora da situação desde o início da pandemia. Ele destaca, por exemplo, que o índice de inadimplência das pessoas físicas passou de 5% em dezembro de 2019 para 5,5% em maio de 2020. Mesmo assim, evita traçar cenários mais precisos a respeito de como esse quadro pode ter mudado desde o início da pandemia. “Há alguma mudança vinda com a pandemia, mas ainda é cedo” para uma avaliação mais detalhada, afirma.

São consideradas pessoas com endividamento de risco aquelas atendedo, simultaneamente, a dois ou mais dos seguintes critérios:

  1. inadimplência (atraso de mais de 90 dias);
  2. exposição concomitante a cheque especial, crédito pessoal não consignado e rotativo do cartão;
  3. comprometimento de renda acima de 50%; e
  4. renda disponível abaixo da linha da pobreza após o pagamento de dívidas. Continuar a ler

BCB X CNC-PEIC: Crédito Bancário versus Crédito ao Consumidor

Martha Funke (Valor, 29/06/2020) informa: a dificuldade de honrar pagamentos atingiu recordes com a recessão e o desemprego. Mas o avanço dos índices de inadimplência foi atenuado por iniciativas dos credores para amenizar o impacto das crises sanitária e econômica.

Dados da Serasa apontaram, em março de 2020, 64,8 milhões de consumidores inadimplentes no país, recorde para o período. No mês seguinte, já com vigência das políticas de isolamento, pesquisa da Boa Vista com 600 brasileiros indicou: 52% se consideravam incapazes de pagar todas ou pelo menos metade das contas e 56% acreditavam poder deixar as contas em dia por no máximo dois meses.

Em junho de 2020, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimou em 67,1% o total de famílias endividadas, com uma em cada quatro em atraso e 11,6% sem condições de pagamento.

[Fernando Nogueira da Costa: suspeito muito desse dado de duas em cada três das famílias estarem endividadas. Quando investiguei, a CNC subestimava o universo total das famílias (71 milhões domicílios) e da população (211,7 milhões pessoas) no Brasil. Seus números diferem muito dos dados do Banco Central. Não há comparação estatística entre o crédito comercial e o crédito bancário. Exemplo de dificuldade: pagamento de compra a prazo em parcelas sem juros com cartão de crédito é classificado como crédito pelo BCB, mas é assim registrado pela CNC-PEIC?]

As empresas também foram afetadas. Segundo o Banco Central, a inadimplência em operações de crédito do sistema financeiro subiu 0,2 pontos percentuais no segmento PJ entre março e abril. Continuar a ler

Crédito Avesso ao Risco de Inadimplência

Roseli Loturco (Valor, 29/06/2020) informa: motivados pelos programas emergenciais de auxílio do governo federal, os bancos elevaram em mais de 21% o total de concessões de crédito para empresas e famílias desde o início da pandemia. As operações somaram R$ 833,5 bilhões entre novos empréstimos, renovações e alongamento de dívidas entre 16 de março e 19 de junho, de acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Desse total, R$ 570,6 bilhões são relativos a financiamentos novos, sendo que as grandes empresas ficaram com a maior fatia, de R$ 290,5 bilhões – duas vezes e meia o total concedido a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Esses indicadores, porém, começaram a desacelerar em maio, com recuo de 2,5%, ante o mês anterior. O setor considera natural porque o volume logo após o início do isolamento avançou muito acima da média. A soma do dinheiro para as companhias, de R$ 406,7 bilhões, é 27,6% superior à registrada em igual período de 2019. Continuar a ler

Aversão Bancária ao Risco de Refinanciamento com Recursos de Terceiros

Ana Paula Ragazzi (Valor, 19/06/2020) informa: a crise do coronavírus deverá elevar em pelo menos três vezes a taxa de defaults corporativos na América Latina. A previsão é da agência de avaliação de risco Moody’s. Ela espera esse indicador sair de 2,2% no acumulado de 12 meses até maio para um intervalo entre 6,8% e 10,2% no final de 2020.

Dois terços dos emissores acompanhados pela Moody’s na região estão sediados na Argentina, no Brasil e no México, países que geralmente concentram a maior parte desses eventos na região. Mas a Moody’s, nesta crise, também espera que o estresse corporativo aumente em outros países, incluindo Chile, Colômbia e Panamá.

Especificamente sobre o Brasil, a Moody’s aponta: o risco de liquidez para empresas não financeiras tende a continuar “baixo ou estável” até 2021, ressaltando que agora elas dependem mais do acesso a crédito e das relações bancárias do que dos fundamentos ou da capacidade de geração de caixa.

A maioria da empresas da amostra da Moody’s acessou linhas de crédito já comprometidas ou emitiu dívida para reforçar o caixa. Uma vez que a maioria dos setores apresentará resultados operacionais mais baixos, manter liquidez robusta será essencial para evitar risco de refinanciamento. Continuar a ler

Paralisia Política Devido à Polarização Intolerante

Nos três capítulos anteriores, Atif Mian e Amir Sufi avaliaram as políticas em potencial possíveis de os governos implementar quando ocorrer uma crise de perdas alavancadas. Salvar os bancos a qualquer custo é contraproducente.

A política monetária e a política fiscal ajudam, mas são inferiores a um ataque direto à dívida das famílias. Este é, afinal, o principal problema nos Estados Unidos – não no Brasil. Aqui, o problema maior é a alavancagem financeira das empresas não-financeiras. A reestruturação da dívida impulsionará de maneira mais eficaz uma economia em dificuldades.

Embora seja útil discutir quais políticas econômicas são melhores, quando ocorre uma crise, essa discussão ignora ‘o enorme elefante na sala’. Se aprendemos alguma coisa sobre política nos últimos anos, devemos saber como os conflitos partidários envenenam governos durante severos contrações econômicas.

Quando é mais necessária, a política econômica a ser aprovada pelo Congresso Nacional se torna inviável politicamente. Aqui, no Brasil golpista, lembre das “pautas-bombas” para sabotar todas as políticas públicas enviadas pelo Poder Executivo para o Poder Legislativo.

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E a Alternativa Fiscal?

 

Man Lifting House — Image by ?Images.com/CORBIS

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): diferentemente das teorias “keynesianas”, a estrutura de perdas alavancadas, cuja análise foi desenvolvida por eles, enfoca a fonte do choque da demanda. Isso leva naturalmente a políticas de modo a atacarem diretamente o problema da dívida excessiva das famílias.

No entanto, os gastos do governo, durante uma crise econômica grave, ajudam porque aumentam a demanda agregada. A maioria dos economistas concorda: em tempos normais, os gastos do governo têm pouco efeito sobre a economia:

  1. porque aglomera em conjunto com os gastos privados e
  2. porque as famílias entendem a “Equivalência Ricardiana”, no futuro, terão de pagar impostos mais altos para financiar os gastos.

De qualquer forma, os gastos do governo podem prejudicar, em tempos normais, porque distorcem os incentivos através da tributação. Mas quando atritos como o limite inferior zero mantêm a economia deprimida, os gastos do governo financiados com dívida podem ter efeitos econômicos positivos. Evidências substanciais mostram os benefícios de curto prazo do estímulo fiscal, especialmente quando a economia está acima do limite inferior zero.

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Expectativas de Aumento de Inflação Durante Grande Crise Deflacionária

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): quando os banqueiros centrais expandem as reservas bancárias, em uma recessão com perdas alavancadas, não há aumento nos empréstimos quando ocorre uma grave e longa queda econômica.

Mas, eventualmente, a economia pode se recuperar e, se o Banco Central mantiver as taxas de juros muito baixas, os bancos retomarão os empréstimos e isso provocará inflação. Alguns argumentam, se o público em geral esperar inflação no longo prazo, a economia pode se beneficiar mesmo no curto prazo.

De acordo com essa visão, as expectativas de inflação podem gerar um aumento nos gastos, mesmo quando a economia está acima do limite inferior zero. No capítulo 4 do citado livro, Atif Mian e Amir Sufi afirmam: as taxas de juros podem precisar ser negativas para induzir algumas famílias a gastar mais.

Em outras palavras, para induzir as famílias a gastarem, elas precisam ser cobradas por economizar, em vez de gastar. Aumentar as expectativas de inflação ajuda a obter uma taxa de juros negativa.

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Canal da Taxa de Juros: Inoperante Durante Fase de Desalavancagem Financeira

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): aumentar a base monetária não é a única maneira de os banqueiros centrais tentarem estimular a atividade econômica em uma crise. Eles também podem colocar as taxas de juros mais baixas de modo a não estar acima do limite inferior zero.

Por exemplo, durante a Grande Recessão e depois, o Federal Reserve comprou agressivamente títulos lastreados em hipotecas para reduzir as taxas de juros das famílias. A crença era de as taxas mais baixas de hipotecas pendentes e outros empréstimos para consumo, através dos quais as famílias gastariam, impulsionariam a economia.

No entanto, as famílias normalmente com a maior propensão marginal a consumir com empréstimos não podem ou não querem tomar mais emprestado. Lembre-se, em um episódio de perdas alavancadas, os mutuários experimentam um choque maciço com perda de sua riqueza.

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Política Monetária e Fiscal

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): nos primeiros quatro anos da Grande Depressão, os preços e os salários caíram notáveis ​​30%. As famílias acumularam enormes dívidas e essa rápida deflação devastou a economia em geral.

Os salários caíram vertiginosamente, mas as obrigações de dívida permaneceram as mesmas em termos de dólar. Assim, as famílias, antes já cortando os gastos devido ao alto endividamento, foram forçadas a cortar ainda mais. Durante a Depressão, dívida e deflação criaram uma mistura mortal. Ela ampliou as forças de perdas alavancadas discutidas pelos coautores.

Dívida e deflação são cúmplices naturais no “crime”. Quando famílias endividadas cortam gastos, as lojas cortam preços para aumentar as vendas em geral. No entanto, isso é sustentável apenas se as empresas ao abaixarem preços também baixarem salários para reduzir custos.

Assim, uma demanda menor se traduz em salários mais baixos, o que agrava ainda mais o problema, aumentando o peso da dívida das famílias em comparação com sua renda. Isso força as famílias a reduzir ainda mais os gastos. E assim por diante.

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Estamos Juntos Nisto: ‘tamo junto, Mano!

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): quando os devedores diminuem drasticamente os gastos das famílias, atritos como o limite inferior zero impedem os poupadores compensarem o déficit.

Mas os efeitos econômicos desastrosos da menor demanda não são suportados exclusivamente pelos devedores. Eles se espalham por toda a economia. As perdas alavancadas afetam mesmo aqueles prudentes sem nunca terem assumido dívidas durante o boom.

O efeito arrasador mais devastador da menor demanda impulsionada por perdas alavancadas é um aumento maciço no desemprego. Mesmo os trabalhadores, vivendo em áreas completamente imunes à crise imobiliária, perdem seus empregos por causa do declínio nos gastos das famílias.

Por exemplo, o norte de Indiana não tinha altos níveis de dívida nem um grande colapso nos preços das casas. Por qual razão seus trabalhadores perderam os empregos?

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Como a economia tenta reagir à Grande Depressão Deflacionária?

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014),  a primeira maneira pela qual a economia tenta evitar uma catástrofe econômica, quando as famílias endividadas cortam seus gastos, é através de uma forte redução nas taxas de juros.

À medida que os mutuários reconstroem seus balanços, reduzindo os empréstimos, a demanda por economizar na economia aumenta. Isso empurra as taxas de juros para baixo, se o dinheiro fluir para o sistema financeiro, onde ninguém empresta.

Eventualmente, as taxas de juros devem ficar baixas o suficiente para induzir as empresas a tomar empréstimos e investir. Isso deve ajudar a compensar os gastos mais baixos dos consumidores.

Além disso, os poupadores da economia, os menos afetados pelo declínio dos preços das casas, devem ser induzidos a gastar mais – taxas de juros extremamente baixas devem incentivar os poupadores a comprar um carro novo ou a reformar sua cozinha.

Esse processo é auxiliado pelo Banco Central. Este, normalmente, responde a uma crise pressionando as taxas de juros de curto prazo para baixo. Os gastos dos poupadores e os investimentos das empresas devem preencher a lacuna deixada pelos mutuários. Desse modo ideal, a economia agregada deve escapar ilesa.

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Estrutura de Perdas Alavancadas

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014), o primeiro ingrediente da estrutura de perdas alavancadas são as diferenças entre a população devido a dívidas.

Existem mutuários e poupadores/investidores na economia, e os mutuários têm alavancagem substancial. Eles tomam empréstimos sob a forma de contratos de dívida junto a poupadores, intermediados por bancos. Esses contratos de dívida exigem pagamento de juros a cada período.

O contrato de dívida dá ao poupador a reivindicação senior [direito à garantia oferecida como colateral dos empréstimos] acima de todos sobre os ativos do tomador. Em outras palavras, no caso de o mutuário não pagar, o poupador tem o direito de excluir os ativos do mutuário.

Se o preço da habitação cair e o mutuário vender, ele ainda deve pagar o valor total da hipoteca. O mutuário tem a reivindicação júnior na casa. Portanto, sofre as primeiras perdas associadas a qualquer queda nos preços da habitação.

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