Interpretações do Brasil: Conciliação e/ou Fisiologia

No livro Conciliação e Reforma no Brasil, José Honório Rodrigues defende uma tese: o segredo de como fizemos e continuamos a fazer nossa história, ou seja, a chave para entender-nos, é a conciliação. Não se deve, contudo, confundir sempre conciliação com conformismo.

Às massas populares o País deve a integridade territorial, a unidade linguística, a mestiçagem, a tolerância racial, cultural e religiosa, e as acomodações que acentuaram e dissolveram muitos dos antagonismos grupais e fizeram dos brasileiros um só povo. Como tal se reconhece – e tem sua autoestima. Porém, não se deve ver nessas massas populares apenas o conformismo religioso, pois elas também ofereceram as melhores lições de rebeldia contra uma ordem social injusta e estagnada.

A conciliação deu-se no cotidiano das relações humanas, mas foi frequentemente substituída pela inconformidade, a contestação e a revolta nas relações políticas, econômicas e sociais. O que caracteriza o nosso itinerário no tempo é um permanente divórcio entre a Nação e o Poder, entre o que a sociedade quer e o que o governo faz ou, na verdade, deixa de fazer…

A paz entre os donos do Poder acerta-se, geralmente, pelo adiamento do debate, sua redução aos termos mais simples, ou a ocultação dos problemas.

Em nome da concórdia, protela-se. Por exemplo, o então presidente Sarney dizia que havia apenas dois tipos de problemas no mundo: aqueles que o tempo resolve… e os insolúveis! Continue reading “Interpretações do Brasil: Conciliação e/ou Fisiologia”

Interpretações do Brasil Urbano-Industrial: Castas dos Guerreiros e Mercadores X Casta da Aristocracia Oligárquica Regional

O livro A Revolução Burguesa no Brasil de autoria de Florestan Fernandes foi publicado em 1974, sendo pouco entendido por causa de seu hermetismo teórico-metodológico. Seja para o mal (academicismo), seja para o bem (rigor científico), demarca a entrada no debate político brasileiro da casta de sábios-universitários, isto é, docentes de um Ensino Superior um pouco mais massificado em comparação com a elite formada outrora no exterior.

Florestan, em sua “Sociologia histórica de longa duração” sobre a revolução burguesa no Brasil, analisa a particular configuração histórica  de um processo que é, simultaneamente, econômico, político, social, cultural e se estende até à estrutura da personalidade e às formas de condutas individuais. Esse processo multidimensional ocorre em múltiplas escalas e com diversas interconexões entre seus componentes. Reconstruir esses níveis de análise nas suas diferenças e nas suas articulações em cada fase do processo é a principal tarefa de sua análise. Continue reading “Interpretações do Brasil Urbano-Industrial: Castas dos Guerreiros e Mercadores X Casta da Aristocracia Oligárquica Regional”

Restauração do Poder da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes

Campos Salles foi eleito, em 1898, com 174.578 votos contra 16.534 dados ao candidato da oposição, o paraense Lauro Sodré. Entre outras dificuldades, pegou o Brasil sem dinheiro para honrar seus compromissos internacionais.

Como ministro da Fazenda do governo Campos Salles (1898-1902), Joaquim Murtinho tinha a difícil missão de organizar as finanças públicas e administrar os grandes desequilíbrios provocados pelas políticas desastradas de seu antecessor Rui Barbosa, que culminaram no Encilhamento, e pela inação dos ministros-juristas que o sucederam.

A Crise do Encilhamento foi uma bolha econômica, provocada por excesso de crédito, que ocorreu no Brasil, entre o final da Monarquia e o início da República, e estourou durante o governo provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891), desencadeando então uma crise financeira.

Os então Ministros da Fazenda, Visconde de Ouro Preto e Ruy Barbosa, sob a justificativa de estimular a industrialização no País, adotaram uma política baseada em bancos emissores de moeda lastreada em títulos de dívida pública, ou seja, possibilitaram créditos livres a supostos empreendedores, garantidos por farta emissão monetária. Estes lançavam ações de empreendimentos fictícios adquiridas a crédito por investidores incautos que se beneficiavam de profecias autorrealizáveis. Continue reading “Restauração do Poder da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes”

Primeiro Governo Civil na Primeira República

Laurentino Gomes, no livro “1889”, avalia que o caos dos primeiros anos da República fez crescer entre a elite civil a constatação de que era preciso afastar os militares da política o mais rapidamente possível. “O militarismo, governo da espada pela espada, arruína as instituições militares”, escreveria o baiano Rui Barbosa em um prognóstico secular do que também levaria ao fim do regime ditatorial militar em 1984: a disputa interna intra corporis entre a linha moderada e a linha dura das Forças Armadas ameaçando a quebra da hierarquia militar.

“O militarismo está para o Exército como o fanatismo para a religião, como o charlatanismo para a ciência, como o industrialismo para a indústria, como o mercantilismo para o comércio, como o cesarismo para a realeza, como o demagogismo para a democracia, como o absolutismo para a ordem, como o egoísmo para o eu”.

Em junho de 1893, com o país ainda às voltas com a Revolução Federalista e a Revolta da Armada, fundou-se no Rio de Janeiro, sob a liderança do paulista Francisco Glicério [nome da principal avenida do centro de Campinas], o Partido Republicano Federal, resultante da fusão do Partido Republicano Paulista com clubes republicanos estaduais. A data marca o início do esforço para colocar ordem na República sob a liderança civil. Continue reading “Primeiro Governo Civil na Primeira República”

Interpretações do Brasil da Primeira República: Restauração da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes

O autor de Retrato do Brasil, publicado em 1928, Paulo da Silva Prado, era um “bem-nascido” em tradicional família de grandes cafeicultores, mas se tornou membro da casta dos sábios-intelectuais. Insurge-se contra a visão que apresentava o Brasil como um paraíso de riquezas e bondades inesgotáveis, quase sem “vícios”, ocupado por um povo pacato e trabalhador, totalmente dedicado a construir uma pátria predestinada a ser perfeita – uma configuração quase épica a la Por que ufano do meu País, publicado por Afonso Celso em 1900.

Paulo Prado desejava entender e sobretudo expor para o grande público os entraves e dilemas que praticamente condenavam o País a uma situação parecia não se distanciar muito da que havia predominado na antiga colônia portuguesa. Incomodava-o que os brasileiros não percebessem o lado problemático da sua formação histórica associado ao passado colonial e à escravidão e banalizassem romanticamente as dificuldades que lhe travavam o progresso.

O Brasil, no fim da década dos 20, era um país em busca de sua identidade nacional.  Enfrentava o cenário composto pela decadência irreversível da velha aliança entre a casta de guerreiros e a casta dos aristocratas governantes, na maior parte proprietária fundiária, que fizera a Proclamação da República, mas já estava desgastada pelo “jogo de cartas marcadas” da “aliança café-com-leite” e dissidência tenentista.

O passado colonial ainda impunha uma dependência de trajetória contra a qual se insurgiam sinais de contestação e movimentação rebelde como, no ano do centenário da Independência, a Semana de Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o movimento tenentista. Continue reading “Interpretações do Brasil da Primeira República: Restauração da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes”

República X Monarquia no Brasil

Laurentino Gomes, no livro “1889”, narra que, “pela versão dos vencedores, a República teria sido sempre uma aspiração nacional. Seu ideário estaria na gênese da Inconfidência Mineira, da Revolução Pernambucana de 1817, na própria Independência em 1822, na Confederação do Equador em 1824, na Revolução Farroupilha de 1835 e inúmeros outros conflitos e rebeliões sufocados primeiro pela coroa portuguesa e, depois, pelo Império brasileiro”.

Segundo esse ponto de vista, a Monarquia teria sido uma solução apenas temporária, imposta pela dinastia Bragança e a casta dos aristocratas fundiários brasileiros sobre a vontade da nação em nome da defesa dos seus interesses pessoais ou de classe. A República seria, portanto, uma etapa inevitável do processo histórico nacional, apenas adiada por circunstâncias de cada momento.

Na versão dos derrotados, ao contrário, o Império, ao invés de ruína, teria sido a salvação do Brasil. Sem a Monarquia, argumentam, o país teria fatalmente se fragmentado na época da Independência, em três ou quatro nações autônomas que hoje herdariam como denominador comum apenas suas raízes coloniais e a língua portuguesa.

Ao imperador caberia o papel de:

  1. manter o Brasil unido,
  2. apaziguar os conflitos,
  3. tratar com tolerância e generosidade os adversários, além de
  4. converter um território selvagem e escassamente habitado em um país integrado e respeitado entre as demais nações.

Por essa perspectiva, a Monarquia teria raízes culturais e históricas mais profundas do que a República na nacionalidade brasileira, com força suficiente para enfrentar os desafios do futuro, caso não tivesse sido abortada por uma traiçoeira quartelada na manhã de 15 de novembro de 1889.

Observando-se o passado, percebe-se que as duas visões carecem de consistência. A proclamação da República foi resultado mais do esgotamento da Monarquia do que do vigor dos ideais e da campanha republicanos. Continue reading “República X Monarquia no Brasil”

1889: Proclamação da República no Brasil

Laurentino Gomes completou sua trilogia sobre anos-chave com “1889: como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da monarquia e a proclamação da República no Brasil” ( São Paulo: Globo, 2013). Em sua Introdução, afirma:

“O propósito deste livro é oferecer uma modesta contribuição neste ambiente de transformação e renovado interesse pela história do Brasil. Fiel à fórmula das minhas obras anteriores — 1808 e 1822 —, procuro usar aqui a linguagem e a técnica jornalísticas como recursos que julgo capazes de tornar história um tema acessível e atraente para um público mais amplo, não habituado a se interessar pelo assunto. Acredito que, escrita em linguagem adequada, a história pode se tornar um tema interessante, irresistível e divertido, sem, contudo, resvalar na banalidade. Esse desafio é hoje especialmente importante quando se trata de atrair a atenção de uma geração jovem bastante avessa à leitura.

Como obra de cunho jornalístico, este livro não pretende, nem poderia, oferecer respostas para questões mais profundas envolvendo a história republicana, sobre as quais inúmeros e bons estudiosos acadêmicos já se debruçaram com diferentes graus de sucesso ao longo dos anos. O objetivo é tão somente relatar sob a ótica da reportagem alguns dos momentos mais cruciais daquela época, de maneira a retirá-los da relativa obscuridade em que se encontram hoje na memória nacional. Caberá aos leitores refletir se deles é possível retirar lições que sejam úteis na edificação do futuro.”

No entanto, além de propiciar uma leitura fluente e agradável, ele informa na medida do necessário à gente comum como eu que deseja apenas saber o básico a respeito do tema. Continue reading “1889: Proclamação da República no Brasil”