Redes para Todos os Lados

Niall Ferguson, no terceiro capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), afirma: “na Pré-História, o Homo sapiens evoluiu como um primata cooperativo, com a habilidade singular de se conectar em redes – de se comunicar e agir de forma coletiva – capaz de nos distinguir de todos os outros animais.

Nas palavras do biólogo evolucionário Joseph Henrich, “não somos apenas chipanzés com cérebros maiores e menos pelos. O segredo do nosso sucesso como espécie “reside […] nos cérebros coletivos das nossas comunidades”.

Diferentemente dos chipanzés, aprendemos de forma social, ensinando e compartilhando. Segundo o antropólogo evolucionário Robin Dunbar, o nosso cérebro maior, com seu neocórtex mais desenvolvido, evoluiu de forma a nos permitir funcionar em grupos sociais relativamente grandes, de cerca de 150 indivíduos (em comparação com cerca de cinquenta entre os chipanzés).

De fato, a nossa espécie deveria ser conhecida como Homo dictyous (“homem das redes”), pois – para citar os sociólogos Nicholas Christakis e James Fowler – “os nossos cérebros parecem ter sido construídos para as redes sociais”.

O termo cunhado pelo etnógrafo Edwin Hutchins é “cognição distribuída”. Os nossos ancestrais eram “coletores forçados a colaborar entre si”. Eles se tornaram interdependentes uns dos outros para obter comida, abrigo e calor.

É provável o desenvolvimento da linguagem falada, assim como os avanços associados da capacidade e da estrutura cerebral, fosse parte desse mesmo processo, evoluindo a partir de hábitos dos macacos como o da limpeza mútua dos pelos. O mesmo pode ser dito de práticas como arte, dança e rituais. Continuar a ler

Nossa Era Interconectada

Niall Ferguson, no segundo capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), acha as redes darem a impressão de estarem em todo lugar hoje em dia. Na primeira semana de 2017, o The New York Times publicou 136 matérias com a palavra “rede”. Pouco mais de um terço dessas matérias eram sobre redes de televisão, doze eram sobre redes de computador, e dez eram sobre vários tipos de redes políticas, mas havia também matérias sobre redes de transporte, redes financeiras, redes terroristas, redes de assistência médica – para não mencionar as redes sociais, educacionais, criminais, elétricas, de telefone, de rádio e de inteligência.

Ler tudo isso é contemplar um mundo “onde tudo está conectado”, embora isso pareça ser um clichê. Algumas redes conectam militantes, outras conectam médicos, outras ainda conectam caixas automáticos. Há uma rede do câncer, uma rede dos guerreiros do jihad, uma rede de baleias orcas.

Algumas redes – descritas por demasiadas vezes como “vastas” – são internacionais, enquanto outras são regionais. Algumas são etéreas, outras são subterrâneas. Há redes de corrupção, redes de túneis, redes de espionagem. Há até uma rede para fraudar os resultados de jogos de tênis. Vozes milicianas atacam as redes em batalha com vozes defensoras das redes. E tudo isso é coberto sem cessar por redes de cabos e satélites. Continuar a ler

A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global

Niall Ferguson, no prefácio do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), afirma a palavra network (rede) ter sido raramente utilizada antes do fim do século XIX. Hoje, é usada em excesso tanto como verbo quanto como substantivo na língua inglesa.

Para um jovem ambicioso vale sempre a pena ampliar a rede de contatos (networking). Por sua vez, para um idoso, a palavra “rede” tem outra conotação. Suspeita de o mundo ser controlado por redes poderosas e exclusivas: Os Banqueiros, A Elite Governante, O Sistema, O Mercado, Os Judeus, Os Maçons, etc. As teorias conspiratórias não seriam tão persistentes se essas redes de “caça às bruxas” ou “sacrifício de bodes-expiatórios” não existissem de nenhuma forma.

O problema em defender essas teorias conspiratórias é, se excluídos, sentem-se lesados, e daí eles invariavelmente têm dificuldades para entender e interpretar o modo como as redes operam. Em particular, eles tendem a partir do princípio de redes de elite controlarem em segredo e com facilidade as estruturas formais do poder.

A pesquisa de Niall Ferguson – assim como a sua própria experiência – indica não ser esse o caso. Pelo contrário, as redes informais costumam ter uma relação altamente ambivalente, às vezes até hostil, com as instituições estabelecidas. Continuar a ler

DR (Discussão da Relação) na Chimérica: Guerra Fria entre EUA e China (por Niall Ferguson)

Sérgio Tauhata (Valor, 05/12/18) entrevistou, após palestra no Itaú Asset Management, o historiador, professor da Universidade de Stanford e escritor Niall Ferguson. Inteligência artificial e computação quântica serão as novas “armas nucleares” de uma possível guerra fria que começa a se desenhar no horizonte. Em entrevista ao Valor, ele analisa o impasse comercial entre Estados Unidos e China para além da simples disputa econômica e o compara ao período marcado pela polarização entre americanos e soviéticos que durou até o início dos anos 1990. “O embate nem mesmo foi iniciado pelo presidente [dos EUA] Donald Trump”, pondera.

Em uma visão original sobre as eleições presidenciais no Brasil, o estudioso vê
semelhanças na forma de se comunicar de Trump e Jair Bolsonaro, mas
aponta diferenças agudas no conteúdo. “Veículos de comunicação têm se referido ao presidente eleito no Brasil como o ‘Trump Tropical’, mas eu não acho que as semelhanças são tantas”, afirma. “Economicamente, o programa de Trump era um tanto desapontador para um verdadeiro conservador. Se conseguirem fazer o que pretendem no Brasil, pode ser uma verdadeira revolução econômica, similar a que a Margaret Thatcher trouxe ao Reino Unido.”

Ferguson, autor de 14 livros, entre os quais “A Ascensão do Dinheiro” e “A Grande Degeneração“, revela-se cético em relação a um entendimento rápido entre americanos e chineses e considera existir a possibilidade de o conflito entre as superpotências escalar para uma nova guerra fria. O campo de batalha dessa vez será o digital e, ao contrário do temor de aniquilação mútua do passado, “as novas armas não estarão limitadas” pelo impasse nuclear, como ocorreu na busca pela hegemonia entre União Soviética e EUA do fim da Segunda Guerra Mundial até quase 30 anos atrás.

O historiador chama a atenção para a vulnerabilidade dos países diante de ameaças de ataques digitais. Ferguson cita como exemplo o próprio sistema financeiro ocidental, que apresenta alto grau de automação. “No ciberespaço não há paz, a guerra é um estado permanente. A única questão é esperar que não tenhamos uma grande guerra mundial cibernética.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista: Continuar a ler

Nostalgia do Futuro (por Luiz Gonzaga Belluzzo)

Luiz Gonzaga Belluzzo é meu ex-professor, aposentado como Professor Titular do Instituto de Economia da Unicamp. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em sua coluna mensal (Valor, 06/11/18) ele trata indiretamente de tema conjuntural: o fim do Ministério do Trabalho como símbolo de desaparecimento definitivo do legado getulista.

Em conjunto com a reforma trabalhista, cortando as contribuições compulsórias aos sindicatos brasileiros, significará o fim do trabalhismo no Brasil? Dependerá da combatividade dos sindicatos autenticamente representativos de categorias profissionais — e não “de carimbo” para a mobilidade social de oportunistas burocratas.

Alguém já comentou: os “pais fundadores” do IE-UNICAMP seriam defensores do legado getulista assim como os “pais fundadores” da FFLCH-USP e CEBRAP seriam antipopulistas por causa da tradição da “Revolução de 1932” da elite paulistana. A segunda geração do IE-UNICAMP, assim com a da FFLCH-USP e CEBRAP, parece ser mais lulista ou petista em vez de getulista ou anti-populista.

“Em entrevista sobre seu filme Satyricon, Federico Fellini desvelou a alma que se escondia no rosto atormentado de seus personagens. No crepúsculo do império romano e de suas glórias, as faces se contorciam entre o tédio das concupiscências e as angústias da desesperança. Para o grande Federico, o filme escancarava “a nostalgia do Cristo que ainda não havia chegado”.

Nesta hora em que muitos se submetem ao medo ou escolhem o ódio, não é despropositado recordar momentos que inspiraram vida, insuflaram esperanças e ensejaram conquistas às mulheres e homens dos Tristes Trópicos.

Vasculhar o passado com os olhos no horizonte é um saudável exercício de nostalgia do futuro. Nós, brasileiros, padecemos, hoje, as dores de uma indagação crucial: corremos o risco de sermos piores do que já fomos, ou podemos ser muito melhores do que parecemos? Continuar a ler

Violência Histórica

Diego Viana (Valor, 16/02/2018) afirma: histórias sobre crime e violência acompanham o cotidiano do cidadão brasileiro. Desde meados da década de 1980, a população manifesta a sensação de as cidades estarem cada vez mais perigosas e o crime estar fora de controle. Mas as historiadoras Mary del Priore e Angélica Müller propõem olhar para o problema da violência por um ângulo diferente: “Em nossa sociedade, cresce a violência ou nossa sensibilidade em relação a ela?

Os resultados dessa investigação foram reunidos no recém-lançado livro “História dos Crimes e da Violência no Brasil” (Editora Unesp, 485 págs., R$ 75). Mary Del Priore (Universidade Salgado de Oliveira) e Angélica Müller (Universidade Federal Fluminense) são as organizadoras do volume. Ele trata de assuntos tão distintos quanto a execução de índios homossexuais no Maranhão e em Sergipe no século XVI ou as falcatruas em que cartolas do futebol são os protagonistas no século XXI.

Os autores reunidos nos 16 capítulos do volume traçam um panorama de cinco séculos de eventos violentos e criminosos no país. O fio condutor está centrado na ideia de como o crime e o emprego da violência fizeram e fazem parte de nossa sociedade. O grupo de pesquisadores inclui juristas, sociólogos, psicólogos, antropólogos e historiadores.

A associação entre violência e crime no título permite abarcar temas cuja relação não parece direta, como os escândalos de corrupção, a intolerância religiosa e as disputas de terra no campo. Por isso, o crime é definido de modo amplo, como um tipo de infração grave, passível de punição pela lei ou pela moral e reprovado pela consciência. A violência figura como força exercida por uma pessoa, um grupo, um Estado com o intuito de forçar alguém/algo para conseguir alguma coisa.

O imaginário em torno da violência é tema de vários capítulos. O modo como o crime é trabalhado na literatura é tratado pelo historiador Daniel Faria a partir de obras de Dyonelio Machado e Graciliano Ramos. Programas de TV, desde os anos 60, fazem da violência urbana brasileira um espetáculo para os espectadores, como “Aqui Agora” (SBT) e “Cidade Alerta” (Record). São tratados pelo historiador Wagner Pinheiro Pereira.

Se expulsamos a morte pela porta, ela volta pela janela. Esta proximidade com o tema da morte ajuda a entender o fascínio com a violência. Leva ao consumo de obras de ficção a seu respeito, muitas vezes de modo cru e direto. Quando queremos canalizá-la ou reprimi-la, ela ressurge de outra forma.

Autora de 48 livros de história, Mary Del Priore concedeu a seguinte entrevista ao Valor. Resumo-a abaixo. Continuar a ler

Brasil em Movimento: História do Futuro em Construção

Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys, no livro “Brasil em movimento – Junho de 2013”, entrevistaram Daniel Aarão Reis. Ele não concorda com a ideia de “traços estruturais” que se mantêm ao longo de tantos séculos. Pode fazer a história parecer congelada, e a história, como disse antes, é sempre mudança, variação.

Feita a ressalva, o passado precisa ser considerado, porque há aspectos que, modificando-se, adaptando-se e transformando-se, marcam especificidades. A perspectiva do “saque” [extrativismo], de sugar tudo que se possa no mínimo tempo possível, foi construída no mundo colonial e, mesmo modificada, é uma característica do capitalismo brasileiro que se estende por toda a sociedade, tendo implicações nas concepções de “público” e de “privado”.

A noção de hierarquia também vem entranhada desde remotos tempos. Para os “de baixo”, a Lei e o Pau. Para os “de cima”, embargos infringentes. A “aristocratização” de nossas elites dominantes− do mundo dos negócios ao mundo político − é outra expressão atual de um processo histórico que tem fundamentos coloniais.

A crueldade com que se tratam os “não cidadãos” [párias] − embora já tenha sido consagrada juridicamente a ideia de que “todos são iguais perante a lei” − é também outra característica relevante e naturalizada. Basta ver como se tortura alegremente nas cadeias deste vasto país. E, pior, como ainda se admite a tortura como “recurso”− uma concepção que perpassa diferentes classes, do topo à base da escala social.

A partir da proclamação da República, e sobretudo desde a ditadura varguista do Estado Novo, estruturou-se também uma tendência de “pacto entre elites” às custas das camadas populares que se desdobra com notável incidência. Continuar a ler