Guerra Civil Síria

Guerra Civil Síria

A Guerra Civil Síria (às vezes referida como Revolta Síria ou ainda Revolução Síria; em árabe: الحرب الأهلية السورية) é um conflito interno em andamento na Síria. Começou como uma série de grandes protestos populares em 26 de janeiro de 2011 e progrediu para uma violenta revolta armada em 15 de março de 2011, influenciados por outros protestos simultâneos no mundo árabe.

A oposição alega estar lutando para destituir o presidente Bashar al-Assad do poder para posteriormente instalar uma nova liderança mais democrática no país. O governo sírio diz estar apenas combatendo “terroristas armados que visam desestabilizar o país”.

Com o passar do tempo, a guerra deixou de ser uma simples “luta por poder” e passou também a abranger aspectos de natureza sectária e religiosa, com diversas facções que formam a oposição combatendo tanto o governo quanto umas às outras. Assim, o conflito acabou espalhando-se para a região, atingindo também países como Iraque e o Líbano, atiçando, especialmente, a rivalidade entre xiitas e sunitas. Continue reading “Guerra Civil Síria”

Primavera Árabe

Primavera Árabe

O verbete da Wikipédia está muito bem feito, com o registro dos principais fatos a respeito da Primavera Árabe (em árabe: الربيع العربي , transliterado – ar-rabīˁ al-ˁarabī), como é conhecida mundialmente. Foi uma onda revolucionária de manifestações e protestos que ocorreram no Oriente Médio e no Norte da África a partir de 18 de dezembro de 2010. Houve revoluções na Tunísia e no Egito, uma guerra civil na Líbia e na Síria; também ocorreram grandes protestos na Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã e Iémen e protestos menores no Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental.

Os protestos compartilharam técnicas de resistência civil em campanhas sustentadas envolvendo greves, manifestações, passeatas e comícios. Houve intenso uso das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, para organizar, comunicar e sensibilizar a população e a comunidade internacional em face de tentativas de repressão e censura na Internet por partes dos Estados.

As redes sociais desempenharam um papel considerável nos recentes movimentos contra a ditadura nos países árabes. A propagação do movimento conhecido como Primavera Árabe, que começou em 2010 na Tunísia, para todo o Norte da África e Oriente Médio não teria sido a mesma sem os recursos proporcionados pela internet. Continue reading “Primavera Árabe”

Luta Pan-Islâmica: Jihad contra a Insubmissão (ou Paganismo) do Ocidente

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O posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, cujo falecido autor foi Albert Hourani, foi escrito Malise Ruthven em 2002. Desde então, a situação política de alguns dos países citados se modificou.

Mas Ruthven comenta que “não se pode esperar que um historiador tenha êxito ali onde os serviços de inteligência do Ocidente fracassaram de forma tão espetacular”. Mas o leitor atento terá encontrado no relato que Hourani faz da situação delicada dos árabes modernos muitas “sinalizações na estrada” para o 11 de setembro.

A “vanguarda de combatentes dedicados” queria promover a jihad “não apenas para defesa, mas para destruir todo culto de falsos deuses e remover todos os obstáculos que impediam os homens de aceitar o Islã” encontrou sua realização nos movimentos islamistas que brotaram primeiro no Egito e, depois, em todo o mundo muçulmano.

A jihad contra os russos (após a invasão do Afeganistão em 1979), apoiada pela Arábia Saudita, os países do golfo Pérsico e os Estados Unidos, com fundos e armamentos canalizados através da inteligência militar paquistanesa, foi o catalisador que fundiu vários milhares de voluntários do Egito, da Arábia Saudita e do norte da África em uma poderosa força de combate que resistia à “guerra ao terrorismo” liderada pelos americanos no Afeganistão.

Para os seguidores extremistas, a jihad contra a nova jahiliyya (ignorância, insubmissão ou paganismo) representada pelo Ocidente faz parte de uma luta pan-islâmica. Pelo menos um dos grupos que participa da rede da al-Qaida pretende que a luta leve à restauração de um califado universal! Continue reading “Luta Pan-Islâmica: Jihad contra a Insubmissão (ou Paganismo) do Ocidente”

Raízes do Conflito na Síria

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No posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, escrito por Malise Ruthven em 2002, ela conta que, na Síria, o aparato político-militar do partido Ba‘th foi tomado por um grupo predominantemente rural de uma comunidade religiosa minoritária, de forma muito parecida com o que aconteceu no Iraque. Porém, em contraste com os Tikritis sunitas do Iraque (originários da minoria árabe sunita, que constitui cerca de 20% da população iraquiana), a ‘asabiyya do grupo dominante na Síria baseia-se na matriz etno-religiosa mais estreita da comunidade alauíta, da região principalmente rural de Lataquia, ao norte do Líbano.

Os alauítas, que perfazem menos de 12% da população síria, são xiitas que possuem uma teologia esotérica própria, inacessível aos de fora: no caso deles, a solidariedade do parentesco é reforçada por uma tradição religiosa fechada. Recrutados para as forças armadas pelos franceses durante as décadas de 1930 e 1940, a expertise militar deles possibilitou-lhes a ascensão na hierarquia do exército.

Após o golpe ba‘thista de 1963, muitos oficiais suspeitos de deslealdade ao novo governo foram substituídos por alauítas, uma tendência que se acelerou depois que Hafez al-Asad, o comandante alauíta da força aérea, deu um golpe bem-sucedido contra seus colegas ba‘thistas em 1970. A partir de então, o poder do Estado esteve firmemente concentrado nas mãos alauítas. Dos oficiais que comandavam a 47ª Brigada Blindada síria, responsável pela repressão da rebelião dos Irmãos Muçulmanos na cidade de Hama, em 1982, ao custo de vinte mil vidas, consta que 70% eram alauítas.

Em 2000, quando Hafez al-Asad morreu, os escrúpulos constitucionais foram rapidamente removidos para garantir uma sucessão suave. Temerosa de que Rifaat al-Asad, o irmão mais moço de Hafez, que vivia no exílio desde que tentara derrubar o irmão, durante uma doença anterior, tentasse tomar o poder, uma Assembleia Popular rapidamente convocada votou por unanimidade para baixar a idade mínima do presidente de 40 para 34, a idade exata de Bashar al-Asad, ditador desde então. Continue reading “Raízes do Conflito na Síria”

Iraque sob Saddam Hussein e Arábia Saudita sob Família Al Saud

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Um tour d’horizon dos Estados árabes, no início de 2002, oferecia ampla confirmação da tese de Albert Hourani, de acordo com o posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes” (São Paulo; Companhia do Bolso; 2006; 704 páginas), escrito por Malise Ruthven. Saddam Hussein continuava no poder no Iraque, apesar de:

  1. o fracasso militar e da humilhação nacional na primeira guerra do Golfo de 1980-88 e na operação Tempestade no Deserto de 1991, quando suas forças foram expulsas do Kuait pela coalizão liderada pelos americanos que incluía forças árabes da Arábia Saudita, do Egito e da Síria,
  2. a erosão da soberania de seu país pela imposição de “zonas de interdição aérea” policiadas por forças americanas e britânicas, e
  3. o estabelecimento no nordeste do Iraque do governo regional autônomo dos curdos, sob proteção aliada.

Conforme uma análise khalduniana, a fonte da resistência de Saddam podia ser explicada pela ‘asabiyya de seu clã al-Bu Nasr, da região de Tikrit, às margens do Tigre, ao norte de Bagdá, que se irradiava através de uma ampla rede de famílias, clãs e tribos com origem nessa área. Dessa região das províncias sunitas era recrutada uma parte significativa do corpo de oficiais antes do golpe militar que levou Saddam Hussein e seu antigo chefe Hassan al-Bakri ao poder em 1968.

Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe secular do partido Ba‘th, a ‘asabiyya do grupo revelou-se mais duradoura do que sua orientação ideológica. Graças à hábil manipulação das lealdades e rivalidades dos clãs, Saddam montou um formidável sistema de poder baseado não somente na coerção e no medo, mas também no clientelismo. Continue reading “Iraque sob Saddam Hussein e Arábia Saudita sob Família Al Saud”

Poder Dinástico Árabe

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No posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, escrito por Malise Ruthven em 2002, pois o autor Albert Hourani faleceu em 1993, trata-se da década decorrida após a publicação da primeira edição deste livro.

Testemunhou-se muitos eventos dramáticos e significativos:

  1. a invasão do Kuwait pelo Iraque em agosto de 1990, seguida pela operação Tempestade no Deserto;
  2. uma encarniçada guerra civil na Argélia que talvez tenha custado cem mil vidas;
  3. a unificação dos dois Iêmen;
  4. a morte de três “grandes veteranos” da política árabe: o rei Hussein da Jordânia, em fevereiro de 1999, o rei Hasan do Marrocos, em julho de 1999, e o presidente Hafez al-Asad da Síria, em junho de 2000, todos sucedidos por seus filhos;
  5. a criação da Autoridade Palestina em Gaza e partes da Cisjordânia ocupadas por Israel, conforme os acordos pioneiros de Oslo, assinados pelo primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin e Yasser ‘Arafat, presidente da Organização para a Libertação da Palestina, nos jardins da Casa Branca, em Washington, D.C.;
  6. o assassinato de Rabin por um extremista judeu e o desmonte desses mesmos acordos em 2002, depois do segundo levante palestino e da reação militar de Israel.

Porém, o mais dramático de todos os eventos recentes, em termos de cobertura da mídia, se não pelo cálculo de perdas e sofrimentos humanos, foram os ataques a Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001, que causaram mais de três mil mortes, as baixas mais pesadas sofridas em consequência de um ato beligerante em território americano desde o final da Guerra da Secessão.

Todos os dezenove suspeitos dos sequestros suicidas que jogaram três jatos comerciais cheios de passageiros e combustível contra o World Trade Center, em Manhattan, e o edifício do Pentágono, perto de Washington, eram árabes, quinze deles da Arábia Saudita. Todos tornaram-se suspeitos de terem sido treinados pela rede da al-Qaida (“base” ou “fundação”) criada e presidida pelo dissidente saudita Osama bin Laden. Continue reading “Poder Dinástico Árabe”

Crise de 1967 entre Israel e Árabes

Ataque Israel

Albert Hourani, em seu livro “Uma História dos Povos Árabes”, (São Paulo; Companhia de Bolso; 2006; 704 páginas) conta que, já no início da década de 1960, havia sinais de que as reivindicações e pretensões do nasserismo iam além de seu poder. A dissolução da união entre Egito e Síria, em 1961, e o fracasso das últimas conversações sobre unidade mostravam os limites da liderança de ‘Abd al-Nasser e dos interesses comuns dos estados árabes.

Mais significativos eram os acontecimentos que ocorriam no Iêmen. Em 1962, o imã Zaydi, governante do país, morreu, e seu sucessor foi quase imediatamente deposto por um movimento no qual liberais educados que tinham estado no exílio se juntaram a oficiais do novo exército regular, com um certo apoio tribal limitado. O antigo imanato tornou-se a República Árabe do Iêmen – agora muitas vezes chamada de Iêmen do Norte, para distingui-la do Estado estabelecido após a retirada britânica do Iêmen e do protetorado em torno, oficialmente conhecido como República Popular do Iêmen, mas muitas vezes chamada de Iêmen do Sul.

A casta que tomou o poder pediu imediatamente ajuda, e unidades do exército egípcio foram mandadas. Mesmo com esse apoio, porém, a tarefa de governar um país que tinha sido diretamente controlado, mas mantido junto pela habilidade e os contatos do imanato, revelou-se difícil demais para o novo governo. Partes do campo, que ainda aceitavam a autoridade do imã, ou se opunham ao tipo de controle que o governo tentava criar, levantaram-se em revolta. Tinham apoio da Arábia Saudita.

Seguiram-se vários anos de guerra civil, em que se entrelaçaram o conflito entre grupos locais e entre o Egito e as monarquias árabes “tradicionais”. Nenhum dos lados pôde vencer o outro; os que os egípcios apoiavam podiam controlar apenas as cidades principais e as estradas entre elas, mas não a maior parte do campo, e um grande exército egípcio, combatendo em condições desconhecidas, foi retido ali por vários anos.

As limitações do poder egípcio e árabe foram mostradas mais decisivamente em uma crise maior ocorrida em 1967, levando o Egito e outros estados árabes a um confronto direto e desastroso com Israel. Continue reading “Crise de 1967 entre Israel e Árabes”