Financeirização na Gênese do Capitalismo

Pode se afirmar, como faz o verbete sobre “banco” na Wikipedia, a maior enciclopédia de todos os tempos, o surgimento das operações bancárias ter sido simultâneo ao surgimento da moeda? Argumenta este ter logo criado a necessidade de instituições para a depositar em segurança.

No entanto, a evolução da moeda começa a ser narrada a partir de inovações básicas ocorridas por volta de 2000 a.C. Originalmente, o dinheiro era uma forma de recebimento, representando grãos estocados em celeiros de templos na Suméria, na Mesopotâmia, então o Antigo Egito.

Esse primeiro estágio da moeda, no qual metais eram usados para representar reserva de valor e símbolos para representar mercadorias, formou a base do comércio no Crescente Fértil por mais de 1500 anos. O colapso do sistema comercial do Oriente Próximo, supostamente, teria falhado por se dar em uma Era na qual não havia nenhum lugar onde fosse seguro estocar o valor de reserva.

O valor de um meio circulante poderia ser reconhecido se houvessem forças defensoras daquela reserva. O comércio via troca de mercadorias por moeda, em lugar do escambo direto, poderia alcançar o máximo de credibilidade com o uso da força militar do Estado.

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Jared Diamond X Yuval Noah Harari: Debate sobre o Futuro com base no Passado

Ana Conceição e Thais Carrança (Valor, 07/11/2019) escreveram reportagem sobre o debate entre Jared Diamond e Yuval Noah Harari na segunda edição do evento “Cidadão Global”, promovido pelo Valor em parceria com o banco Santander, com o tema “O Mundo em transformação – Narrativas do Século 21”. Ambos são autores lidos e utilizados por mim na bibliografia indicada no curso “Economia no Cinema”, quando debati com os alunos do IE-UNICAMP a História da Humanidade.

Saber lidar com o desconhecido será a principal habilidade para enfrentar as transformações do mundo nessa era digital e a educação tem papel fundamental no processo. A maioria dos sistemas educacionais, contudo, ainda opera em bases obsoletas. Eles não combinam mais com as mudanças em curso no século XXI, afirma o historiador israelense Yuval Harari.

Em meio às rápidas transformações trazidas pela tecnologia, pela inteligência artificial, ao longo da vida, as pessoas terão de se reinventar inúmeras vezes. Nesse mundo, o modelo de educação atual, baseado na formação clássica, dividida em disciplinas, está superado. Por isso, ensino Economia como um dos componentes de um sistema complexo, interativo com as demais áreas de conhecimento para explicar a configuração a cada momento do mundo.

“A principal habilidade não é mais aprender qualquer fato ou equação física em particular, mas como se manter aprendendo e mudando ao longo da vida. Como lidar com uma situação não familiar, desconhecida. Nosso sistema educacional não é construído para isso”, afirmou Harari.

O primeiro desafio, diz Harari, é preparar as crianças para o que será o mundo daqui a 20 anos. “A questão é como o mundo vai parecer em 2040. Não podemos esperar para ver. Temos de ensinar a nova geração hoje”, diz.

Mas, nesse mundo, de certa forma, se valoriza o auto-aprendizado, mas a figura do professor ainda é fundamental, afirma o geógrafo americano Jared Diamond, o outro debatedor do evento. Ele cita as diferentes abordagens de Japão e Estados Unidos com relação a estudantes pobres de áreas rurais. O primeiro opta por contratar mais professores para essas áreas a fim de igualar o nível de educação aos estudantes do resto do país. O segundo contrata menos professores, aumentando a desigualdade educacional.

A educação é o grande desafio neste momento, em especial no Brasil. O país concorre com países mais avançados na área. A China forma 4 milhões de engenheiros por ano. Melhorar a educação vai ser fundamental para o país participar ativamente da disrupção tecnológica global e ter uma economia que não seja tão dependente de commodities e do setor de serviços.

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Trustes de “Dinheiro Sem Carimbo”

Charles R. Geisset, em seu livro Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 (e reeditado em 2004), conta: muitas das críticas mais pungentes não vieram de economistas, mas de ativistas sociais. Eles viram as grandes disparidades criadas pela tendência de fusão na sociedade americana. Em termos marxistas clássicos, os ricos estavam ficando mais ricos enquanto a classe trabalhadora realmente estava perdendo poder aquisitivo. Isso contrastava fortemente com a noção popular de o período antecedente à guerra até o final da década de 1920 ter sido um dos bons tempos de prosperidade para todos.

Outras críticas sobre a extensão da fusão de empresas industriais puderam ser ouvidas de diversos quadrantes, desde grupos de investidores a Woodrow Wilson. Os investidores estavam preocupados com a concentração do poder das holdings sufocar novos investimentos. Já o presidente Wilson observou: “Nenhum país pode se dar ao luxo de ter sua prosperidade originada por uma pequena classe controladora… Todo país é renovado fora das fileiras dos desconhecidos, não fora das fileiras dos já famosos e poderosos no controle”.

Depois de adquirir poder monopolista, as grandes empresas deixam de estar interessadas em inovação ou novos produtos. Elas estavam simplesmente felizes em sentar e cobrar as receitas existentes por direito. Wilson concluiu observando: “Eu não estou dizendo toda invenção ter interrompida pelo crescimento de relações de trustes, mas acho perfeitamente claro a invenção em muitos campos ter sido desencorajada”.

A indústria americana estava passando por uma de suas primeiras fases de consolidação. A tendência à centralização e concentração de capital claramente preocupou muitos. Críticos destacavam o crescimento ter sido frustrado em favor de transações em papel, destinadas simplesmente a tornar banqueiros e financiadores mais ricos.

Os fundos industriais, ou holdings, possuíam vastas participações acionárias de cartelização. Claramente, poderiam ser contestados por violar a Lei Sherman Anti-Trust.

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Influência dos Banqueiros nos Estados Unidos no Início do Século XX

Charles R. Geisset, em seu livro Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 (e reeditado em 2004), narra: há setenta e tantos anos os poderosos bancos já existiam, quando houve o surto de novos bancos durante a Primeira Guerra Mundial. As descrições de suas glórias pareceriam desproporcionais ao curto tempo de existência. Rapidamente, vieram a público suas histórias relativamente curtas. O adjetivo “ótimo” foi aplicado aos principais bancos de Nova York. As famílias capazes de os liderarem eram chamadas de “dinastias”.

A dominação desses bancos sobre certas partes da economia era tão completa a ponto de apenas uma piscadela ou um aceno de um banqueiro de investimento ser necessário para fazer ou quebrar um acordo. Muitos dos banqueiros privados ainda não publicavam demonstrações financeiras para seus clientes não saberem realmente de sua condição financeira. Eles tinham plena fé nos bancos com base unicamente na reputação e na palavra boca-a-boca. Devido a esse Efeito Halo, muitos banqueiros compararam-se às grandes famílias bancárias da Europa: os Medici em Florença do século XVI ou os Rothschilds na Grã-Bretanha do século XIX.

Os nomes dinásticos eram normalmente associados aos bancos privados e casas de bancos de investimento: J. P. Morgan, Kidder, Peabody, Kuhn Loeb, Lehman Brothers, Seligman, Brown Brothers e Harriman Brothers. Os maiores bancos comerciais, notadamente, o National City Bank e o First National, ambos localizados na cidade de Nova York, também foram destaques. Os nomes de seus executivos dominavam as rodas de conversas no setor bancário – em alguns casos, mais além dos banqueiros privados acionistas majoritários. Estes preferiam permanecer relativamente anônimos. George Baker, do First National, James Stillman e, mais tarde na década de 1920, Charles Mitchell, do National City Bank, estava entre os mais conhecidos.

Mas esses indivíduos eram mais do que nomes famosos no negócio do setor bancário. Eles também eram membros do Money Trust [fundo fiduciário], um grupo controlador das rédeas do crédito no país quase exclusivamente. O termo foi cunhado pelo congressista Charles A. Lindbergh Jr. de Minnesota e se tornou uma palavra familiar nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Eles forneciam crédito a empresas, faziam os lançamentos de ofertas primárias de títulos e ações para elas, e possuíam participações extensivas em Conselhos de Administração corporativos, garantindo-lhes uma forte aderência às políticas das corporações industriais americanas.

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The Money Trust (1890-1920)

Charles R. Geisset, em seu livro Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 (e reeditado em 2004), narra: antes do início da Primeira Guerra Mundial, as empresas americanas entraram em um estágio de consolidação, ou seja, concentração e centralização do capital. Grandes trustes como os da última parte do século XIX continuou a se formar à medida que os financiadores ajudavam e contribuíam para consolidação de muitas empresas menores e inovadoras, mesclando-as em gigantes industriais.

Do lado de fora, parecia a indústria americana estar flexionando seus músculos em conjunto. Os banqueiros foram centrais para o processo, mas mais controvérsia estava se formando sobre seus papéis no levantamento de capital e reestruturação.

À medida que a guerra se aproximava, os banqueiros eram considerados por seus críticos serem saqueadores, tendo feito pouco, se é que fizeram alguma coisa, para ajudar a desenvolver a economia de maneira significativa. Outros os consideraram patriotas, ajudando a financiar a entrada eventual dos Aliados e da América no conflito, levantando bilhões de dólares.

Durante a década de 1930, no entanto, interpretações tornaram-se muito mais unilaterais. Os banqueiros seriam referidos como “cupins financeiros”, rasgando o sistema financeiro por dentro.

Nunca particularmente amados a qualquer momento durante esse período de vinte anos, especialmente pelos democratas, os banqueiros se tornaram o grupo profissional mais difamado no país durante a Grande Depressão. Mas, curiosamente, não foi quanto às suas riquezas o motivo maior de seus detratores manterem as críticas contra eles. Em vez disso, foi a combinação de riqueza, poder econômico e político concentrado a motivação para tornar um grupo tão difamado.

Wall Street estava prestes a entrar sob uma nuvem negra, enquanto o Congresso pedia um novo banco central. Uma pergunta natural surgiria rapidamente. Na ausência de um banco central há mais de setenta anos, como os banqueiros conseguiram controlar as rédeas do crédito no país?

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Era dos Trustes (1890-1910)

Charles R. Geisset, em seu livro Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 (e reeditado em 2004), narra: no século XX, a televisão e o automóvel se tornariam os denominadores comuns capazes de conectar os Estados Unidos. No século XIX, as conexões eram o telégrafo e as ferrovias. A explosão na construção de ferrovias, durante a última parte do século, foi a causa direta bem como o efeito de muitas outras consolidações industriais ao mesmo período.

Depois de 1885, a face do país começou a mudar. Pequenas indústrias locais foram consolidadas em outras maiores, capazes de vender seus produtos em todo o mundo, bem como em todo o país. O legado direto de Carnegie, Rockefeller, Vanderbilt e Gould tornou-se a tendência a estabelecer a concentração do poder econômico nos Estados Unidos. Na última fase da consolidação com fusões e aquisições, nasceram as grandes desconfianças em relação aos trustes e carteis. Eles logo desafiariam os ideais americanos de individualismo e autoconfiança.

Quando as relações de trustificação estavam em pleno funcionamento, a reação do público começou a desafiar alguns dos princípios básicos sobre as quais foram construídas. Era necessário ter tanto poder econômico nas mãos de tão poucos? Por quê não é possível tratar os trabalhadores humanitariamente, e não como meras engrenagens no processo produtivo? E não poderia haver mais salvaguardas para vigiar trabalhadores e cidadãos comuns em face de uma gestão dotada de tão esmagador poder?

À medida que os grandes trustes estavam sendo estabelecidos e se entrincheirando, vozes de muitos quadrantes começaram a ser levantadas em protesto. Frank Norris e Upton Sinclair escreveram sobre os abusos de indústrias inteiras em nome do lucro, seguindo a tradição de Emile Zola na França, cujos romances sobre a indústria de mineração de carvão e mais tarde sobre o anti-semitismo tornou-se extremamente bem conhecido. O romance americano de protesto, ou muckraking, em breve desafiaria os favoritos contemporâneos de Lew Wallace, Henry James e o sempre popular Horatio Alger nas listas de mais vendidos. No livro “Como vive a outra metade”, Jacob Riis deplorou a vida urbana como o lado inaceitável do capitalismo.

Mas as relações de clientela e o avanço do industrialismo ainda atraíam seus admiradores. Em 1888, Edward Bellamy alcançou o no topo da lista de mais vendidos com seu Utopian Looking Backward 2000-1887. Ele vendeu mais de um milhão de cópias. Bellamy louvou o mercado livre: “Essa tendência a estruturar os monopólios, tão desesperadamente e em vão resistida, foi reconhecida finalmente em seu verdadeiro significado: como um processo que só precisava completar sua evolução lógica para abrir um futuro de ouro para a humanidade”.

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Barões-Ladrões nos Estados Unidos (1870-1890)

Charles R. Geisset, em seu livro Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 (e reeditado em 2004), narra: após a Guerra Civil, a economia americana começou a se expandir novamente, mais dramaticamente em relação ao crescimento anterior. A população cresceu, auxiliada por um influxo de europeus imigrantes, fornecendo mão de obra nova para as novas indústrias em todo o país.

O tamanho real do país triplicou desde independência, com novo território sendo adicionado através da expansão e conquista. A expansão da ferrovia começou novamente após o hiato ocorrido durante a guerra, com mais milhas adicionadas às estradas existentes a cada ano. O primeiro transatlântico cabo de telégrafo foi instalado em 1866, e a primeira ferrovia transcontinental foi inaugurado oficialmente em 1869, apesar das revelações e clamor após o caso do Credit Mobilier depois de 1867. Todas as promessas oferecidas a seus investidores europeus pelos Estados Unidos haviam aparentemente sido cumpridas e novas chegadas de imigrantes começaram alcançar maior fruição em relação a qualquer outro momento da história americana.

Acompanhar essa promessa do Novo Mundo foi a atração constante de grandes riquezas. As grandes fortunas americanas foram estabelecidas durante essa época quando se encorajou riqueza extravagante e se forneceu poucas barreiras à sua acumulação.

Os exemplos anteriores de John Jacob Astor e outros levaram muitos homens ambiciosos, muitos sem educação formal sequer para falar em público, alcançar notoriedade e fama. Isso seria inconcebível na Europa elitista. Dentro de uma geração, mesmo o mais grosseiro desses primeiros industriais, como Drew ou Vanderbilt, seria considerado parte integrante do tecido social. Ironicamente, no entanto, muitos daqueles capazes realmente de acumularem as vastas fortunas eram considerados párias sociais em seu próprio tempo.

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