Operação Mãos Limpas = Operação Lava-Jato?

Tommaso Buscetta

A Operação Mãos Limpas ou Mani Pulite foi uma investigação judicial de grande envergadura na Itália que visava esclarecer casos de corrupção durante a década de 1990. Ocorreu na sequência do escândalo do Banco Ambrosiano em 1982, que implicava a Mafia, o Banco do Vaticano e a loja maçônica P2.

A Operação Mãos Limpas levou ao fim da chamada Primeira República Italiana e ao desaparecimento de muitos partidos políticos. Alguns políticos e industriais cometeram suicídio quando os seus crimes foram descobertos.

A campanha Operação Mãos Limpas tomou para si o mérito pelo combate a máfia, uma luta que já estava sendo realizada desde a década de 1980 quando ficaram notórios os trabalhos solitários de magistrados como Paolo Borsellino e Giovanni Falcone. Este ultimo realizou seu combate contra a máfia durante onze anos em seu escritório-fortaleza até ser assassinado por uma explosão de bomba. Continuar a ler

Perfeição da Arte da Cartografia

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O tema do livro de Jerry Brotton, Uma História do Mundo em Doze Mapas (Rio de Janeiro: Zahar; 2014), naturalmente, é constituído pelos mapas do mundo. Visto, no post anterior, o conceito de “mapa”, cabe agora analisar o conceito de “mundo”.

Mundo” é uma ideia social, criada pelo homem. Refere-se ao espaço físico completo do planeta, mas também pode significar um conjunto de ideias e crenças que constituem uma “visão de mundo” cultural ou individual. Para muitas culturas ao longo da história, o mapa foi o veículo perfeito para expressar ambas ideias do “mundo”.

Centros, limites e todas as outras parafernálias incluídas em qualquer mapa mundial são definidos tanto por essas “visões de mundo” como pela observação física da Terra feita pelo cartógrafo ou “fazedor de mapas”, a qual, de qualquer modo, nunca é feita a partir de um ponto de vista cultural neutro.

Os doze mapas do livro de Jerry Brotton apresentam visões do espaço físico de todo o mundo que resultam das ideias e crenças que as informam. Uma visão de mundo dá origem a um mapa do mundo, mas, este, por sua vez, define a visão de mundo de sua cultura. Continuar a ler

Uma História do Mundo em Doze Mapas

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Jerry Brotton é professor de Estudos do Renascimento na Queen Mary University of London e um dos maiores especialistas em cartografia renascentista e história dos mapas. Autor de livros traduzidos para mais de quatorze línguas, como The Sale of the Late King’s Goods e The Renaissance, também escreve e apresenta programas de TV e rádio.

Com extensa pesquisa, apresentada em 616 páginas, o historiador e especialista em mapas Jerry Brotton publicou Uma História do Mundo em Doze Mapas (Rio de Janeiro: Zahar; 2014), onde explora doze dos mapas mais influentes da história – das representações místicas da Antiguidade até as imagens de satélite de hoje –, em um panorama repleto de controvérsias e manipulações.

Recriando o contexto de cada um desses mapas, o autor revela de que maneira os mapas tanto influenciam quanto refletem os eventos de suas respectivas épocas. Mostra ainda como, ao estudá-los, pode-se compreender melhor o mundo que os produziu, pois estão intimamente ligados aos sistemas de poder, autoridade e criatividade dos tempos e lugares em que são produzidos.

Assim, temos:

  • a perspectiva cristã, centrada em Jerusalém, de um mapa-múndi do século XIV;
  • um mapa do século XII com o sul no topo e, ao contrário da cartografia da época, seguindo a tradição muçulmana;
  • a primeira visão verdadeiramente globalizada do planeta, registrada pelo português Diogo Ribeiro no início do século XVI;
  • a “projeção de Peters”, elaborada na década de 1970 e que procurava dar igualdade ao chamado “Terceiro Mundo”; ou
  • a perspectiva dos satélites e fotos do Google Earth.

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24/7 Capitalismo Tardio e os Fins do Sono.

Capitalismo Tardio e os Fins do Sono

Na nova coleção Exit, a editora Cosac Naify pergunta a grandes especialistas como entender o mundo contemporâneo. O primeiro na tentativa de desvendar a atualidade foi Jonathan Crary, com 24/7- Capitalismo tardio e os fins do sono.

Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana: é o tempo de trabalho que a sociedade capitalista exige do homem. A falta de lógica desta necessidade coloca o próprio homem como empecilho ao acúmulo de riquezas.

Para dar um diagnóstico do mundo contemporâneo, Jonathan Crary resgata Schopenhauer, Kafka, Deleuze, Guy Debord, Hannah Arendt, Sartre, Foucault e até obras cinematográficas como Blade Runner.

Em forma de ensaio, o historiador fala de “fins do sono” como uma maneira de se acabar com ele, algo que crie um homem constantemente acordado, e como finalidades do sono, um momento em que o ser humano pode repousar e sonhar, o que também possui importância. Os tablets e celulares, segundo Crary, começam a criar este vínculo com o homem e seu sono, com a possibilidade de novas notícias a um toque, a qualquer alerta sonoro que nos desperte. Continuar a ler

Como desnacionalizar as histórias “nacionais”?

Alberta Einstein e o SionismoPela concepção específica de nação adotada pelo sionismo, o Estado de Israel, 60 anos depois de sua fundação, recusa-se a se ver como uma República que existe para os seus cidadãos. Como se sabe, quase um quarto deles não é considerado judeu, e por isso, segundo o espírito de suas leis, o Estado não é deles.

Desde a origem, este se absteve de integrar os habitantes locais no novo âmbito cultural que está se criando, do qual foram deliberadamente mantidos afastados. Da mesma forma, Israel sempre se recusou a constituir uma democracia do tipo pluricultural (como o Reino Unido ou os Países Baixos) ou do tipo polissocial (a exemplo da Suíça ou da Bélgica), ou seja, um Estado que aceita a diversidade ao mesmo tempo que permanece uma construção a serviço dos habitantes que ali vivem.

Em vez disso, Israel persiste em se declarar Estado judeu que pertence aos judeus do mundo inteiro, enquanto estes já não são refugiados perseguidos, mas cidadãos de pleno direito, vivendo em perfeita igualdade com os habitantes dos países onde escolheram residir. Continuar a ler

Invenção do Mito Fundador da Nação Israelita

Shlomo Sand

Sholomo Sand, no livro A Invenção do Povo Judeu: da Bíblia ao Sionismo (São Paulo: Benvirá; 2011) ironiza o caso da historiografia judaica ao reinventar a história com o mito fundador: “figuram apenas verdades sólidas e precisas”.

Cada israelense sabe, “sem sombra de dúvida”, que o povo judeu existe desde que recebeu a Torá no Sinai e do qual ele próprio é o descendente direto e exclusivo (com exceção das dez tribos cuja localização ainda não está concluída). Cada um está persuadido de que esse povo saiu do Egito e se fixou na terra de Israel, “Terra Prometida” que ele conquistou e sobre a qual foi erigido o glorioso reino de Davi e Salomão, antes que acontecessem sua divisão e a fundação dos reinos de Judá e de Israel.

Da mesma forma, cada um tem a certeza de que esse povo, depois das horas de glória, conheceu o exílio por duas vezes: uma vez depois da destruição do Primeiro Templo, no século VI a.C. e uma segunda depois da destruição do Segundo Templo, no ano 70. O povo judeu havia conseguido, anteriormente, estabelecer o reino hebreu dos hasmoneus, após ter rejeitado a má influência dos gregos.

Esse povo, ao qual se identifica o judeu israelense e que ele vê como o mais antigo dentre os povos, conheceu a errância do exílio durante quase 2 mil anos, ao longo dos quais nem se enraizou nem se miscigenou aos “gentios” ao lado dos quais viveu. [Ironia…]

Esse povo sofreu uma grande dispersão: suas sofridas tribulações o levaram ao Iêmen, ao Marrocos, à Espanha, à Alemanha, à Polônia e até aos confins da Rússia, mas sempre conseguiu preservar vínculos estreitos de sangue entre suas comunidades afastadas, de forma que sua unicidade não se viu alterada. [Ironia…] Continuar a ler

A Invenção do Povo Judeu

 

A Invenção do Povo JudeuA Invenção do Povo Judeu: da Bíblia ao Sionismo (São Paulo: Benvirá; 2011) ficou 19 semanas na lista de livros mais vendidos em Israel, em 2008. Ele é alvo de polêmica acirrada onde quer que seja lançado. Neste trabalho iconoclasta, ao questionar a identidade dos judeus como nação, o historiador Shlomo Sand, assumidamente judeu, sugere as bases para uma nova visão do futuro político da “Terra Prometida”.

Amparado em farta pesquisa, apresentada em 555 páginas, o autor questiona o discurso historiográfico canônico e formula a tese de que os judeus sempre formaram comunidades religiosas importantes em diversas regiões do mundo, mas não constituem uma nação portadora de uma origem única. O conceito de Estado-Nação é, portanto, posto em xeque, assim como a ideia de Israel como um Estado pertencente aos judeus do mundo todo – aqueles que escolheram outra pátria em vez de retornar à terra de seus ancestrais.

Para o autor, Israel deveria reconhecer seus habitantes, sejam eles israelenses ou palestinos. Publicado em dez línguas, este é um livro questionador, e por isso mesmo necessário, assim como todos os que se propõem a lançar novas luzes sobre a História e seus mitos. Continuar a ler