Ao vencedor as batatas: um mestre na periferia do capitalismo e as ideias fora do lugar

Roberto Schwarz: Entre Forma Literária e Processo Social” é artigo assinado por Leopoldo Waizbort, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Roberto Schwarz garantiu seu lugar na galeria dos intérpretes do Brasil em virtude de uma análise de Machado de Assis, segundo a qual Machado teria desenvolvido em seus romances a mais consumada interpretação do Brasil de seu tempo — e para além dele.

Schwarz, para uns sociólogo, para outros crítico literário, publicou sua análise dos romances de Machado em dois livros complementares, escritos no intervalo de alguns anos:

  • o primeiro em 1977 — Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro—, e
  • o segundo em 1990 — Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis.

Ambos constituem uma penetrante conjugação de sociologia e crítica literária. Ao indagar pelas experiências sociais de maior generalidade que caracterizam a sociedade brasileira, assume o papel do sociólogo. Mas, como essa experiência encontra sua realização mais acabada na literatura, veste o uniforme do crítico literário. Continue reading “Ao vencedor as batatas: um mestre na periferia do capitalismo e as ideias fora do lugar”

Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes

Florestan Fernandes. Vocação Científica e Compromisso de Vida” é artigo assinado por Maria Arminda do Nascimento Arruda” publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O sociólogo Florestan Fernandes refletiu a imagem genuína da formação oferecida por seus professores, no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, especialmente dos franceses que dele fizeram parte, mas também assimilou as orientações recebidas na Escola de Sociologia e Política, onde defendeu o mestrado em 1949. Florestan transformou-se no principal artífice da moderna sociologia brasileira, traduzida na estilização do modelo de intelectual rigoroso, capaz de dominar os seus meios expressivos, detentor de um saber comprometido com a agenda coletiva, mas de recusa a “orientações estritamente políticas”.

Em Ensaios de Sociologia Geral e Aplicada, de 1960, o sociólogo admite a utilização de medidas intervenientes na correção de situações coletivas, sem, no entanto, reduzir o pensamento em “plano imediato da ação”. Comungava, portanto, das ideias de Karl Mannheim, sociólogo influente nos meios cultos do Brasil, dada a centralidade que conferiu aos intelectuais na formulação de instrumentos de planejamento. Não foi por casualidade que as Ciências Sociais brasileiras privilegiaram o tema da mudança social e do desenvolvimento nacional. Continue reading “Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes”

Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Caio Prado Júnior

“Caio Prado Júnior e o Lugar do Brasil no Mundo”é um artigo de Bernardo Ricupero publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Caio da Silva Prado Júnior nasce em 1907, numa das mais importantes famílias da burguesia cafeeira de São Paulo, os Silva Prado. Sua infância e juventude são as de alguém de sua classe. A educação, em particular, fica a cargo de governantas estrangeiras, colégios tradicionais, uma temporada na Inglaterra e o curso de direito da Faculdade do Largo São Francisco.

Na faculdade, começa a ter atuação política. Ingressa no Partido Democrático, que reúne, num programa liberal e moralizante, membros da oligarquia e das camadas médias paulistas descontentes com a orientação da Primeira República. Naturalmente, a Revolução de 1930 é recebida com entusiasmo pelo jovem advogado.

No entanto, logo vem a decepção e, com ela, a radicalização política. Torna-se, assim, em 1931, membro do Partido Comunista do Brasil (PCB). Tal decisão é um marco na vida de Caio Prado Júnior. Por conta dela, estuda o Brasil para transformá-lo; conhece inúmeras prisões e o exílio; funda a editora e a Revista Brasiliense; chega a vice-presidente da seção paulista da Aliança Nacional Libertadora (ANL); é eleito deputado estadual; além de se dedicar às tarefas mais humildes da militância.

Mas apesar da dedicação, as posições de Caio Prado Júnior no PCB são quase sempre marginais. Quando morre, em 1990, já está afastado do partido. Continue reading “Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Caio Prado Júnior”

Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Sérgio Buarque de Holanda

“Caminhos de Sérgio Buarque de Holanda”é um artigo de Robert Wegner publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O movimento modernista portava uma confiança no processo de modernização do país. Não demandaria um rompimento com a tradição, pois esta seria passível de ser atualizada, assemelhando-se à cultura europeia, tida como modelo de civilização.

Esse movimento renovador passou por um abalo com a publicação no Correio da Manhã, em 1924, do Manifesto Pau-Brasil, de autoria de Oswald de Andrade, sob inspiração surrealista. Vista por essa senda, a tradição poderia se modernizar, mas, ao mesmo tempo que incorporasse elementos da cultura europeia, subverteria o próprio modelo de civilização.

Nessa dinâmica de incorporar transformando, a tradição lançava uma interrogação sobre o valor da cultura europeia. Além da afirmação da autenticidade, essa postura chega a sugerir que a experiência brasileira produziria uma alternativa de civilização.

Assim, desde 1924, é possível vislumbrar duas tendências no modernismo. No entanto, o movimento não chegou a cindir-se. A essa altura, SérgioBuarque de Holanda era um jovem reconhecido e atuante nos meios literários. Ocupando um lugar de referência na reflexão modernista, escreveu o artigo “O lado oposto e outros lados”, publicado na Revista do Brasil, em outubro de 1926, em que explicitava a divisão e tomava partido. Continue reading “Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Sérgio Buarque de Holanda”

Interpretes do Brasil (Geração dos Anos 30): Gilberto Freyre

“Chuvas de Verão. Antagonismos em Equilíbrio em Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre” é um artigo de Ricardo Benzaquen de Araújo publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015). Pretende discutir alguns aspectos da obra de Gilberto Freyre, concentrando-se no seu livro de estreia, Casa-grande & Senzala, cuja publicação em 1933 levanta questões até hoje importantes para o entendimento do passado brasileiro.

O debate intelectual sobre os destinos do país estava, naquele momento, profundamente marcado pelo tema da mestiçagem. Mas a mestiçagem, isto é, o contato sexual entre grupos étnicos distintos, costumava ser apresentada como um problema:

  • ora implicava esterilidade— biológica e cultural —, inviabilizando assim o desenvolvimento nacional,
  • ora retardava o completo domínio da raça branca, dificultando o acesso do Brasil aos valores da civilização ocidental.

Freyre concorreu para alterar esta avaliação, enfatizando não só o valor específico das influências indígenas e africanas como também a dignidade da híbrida e instável articulação de tradições que teria caracterizado a colonização portuguesa. Separou a noção de raça da de cultura e conferiua esta última absoluta primazia na análise da vida social.

Será este, então, o caminho percorrido pelo Gilberto Freyre para:

  1. contrapor-se à maioria dos seus contemporâneos,
  2. redefinir a ideia de mestiçagem e, de certa forma,
  3. reinventar o Brasil.

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Programa ou Paradigma dos Annales Face aos Eventos da História

José Carlos Reis, no livro “A História entre a Filosofia e a Ciência”, afirma que, para Fernand Braudel, em primeiro lugar, a construção teórica do “modelo” dos Annales não se deu entre 1946 e 1972, mas em 1929.

Entretanto, prossegue Braudel, apesar de combaterem a história tradicional, Febvre e Bloch não tiveram a impressão de estar criando um paradigma, se entende este termo como um sistema de pensamento rigorosamente articulado e concluído. Eles não teriam, contenta Braudel, nenhum prazer em usar esse termo e menos ainda termos como “escola” e “modelo”. O que propuseram foi somente uma “troca de serviços” da História com as Ciências Sociais. E essa troca, para Braudel, era e continuou sendo o último e mais profundo motor dos Annales, proposta que constituiu uma novidade radical em 1929.

A segunda geração dos Annales, então, não teria acrescentado nada de novo ao projeto da primeira, apenas o teria prosseguido e aprofundado. Em seu “Personal Testimony”, Braudel será mais explícito; “Os Annales, apesar da sua vivacidade, nunca constituíram uma escola no sentido estrito, isto é, um modelo de pensamento fechado em si mesmo” (1972).

O próprio Braudel, portanto, recusa a hipótese da existência de um paradigma, no sentido de Kuhn, para os Annales. Este fato encerraria o assunto? No interior do grupo, os seus sucessores discutem a respeito. Continue reading “Programa ou Paradigma dos Annales Face aos Eventos da História”

Método do Materialismo Histórico Marxista

José Carlos Reis, no livro “A História entre a Filosofia e a Ciência”, afirma que, “assim como os historiadores da escola metódica, dita “positivista”, e como os filósofos da critica da razão histórica, o marxismo pretendeu recusar as Filosofias da História e fundar a “história científica”. São caminhos diferentes que visam à realização de um mesmo objetivo.

A história metódica ainda conservava implicitamente uma Filosofia da História iluminista pré-revolucionária na França, e, na Alemanha, um hegelianismo “relativizado”. A Filosofia crítica da História quis substituir Hegel por Kant, mas ainda a integravam ideais da filosofia hegeliana. Teria o marxismo conseguido romper definitivamente com a filosofia da história e criado a história-ciência?

Pierre Vilar (1982) está convencido de que sim. Segundo este autor, marxista e do grupo dos Annales, a afirmação do materialismo filosófico, agora histórico, contra as filosofias idealistas que o precederam foi o primeiro e fundamental passo naquela direção. Para o materialismo histórico de Marx, o material histórico é analisável, observável, objetivável, quantificável. Este material assim “objetivamente tratável” não são as expressões do Espírito — a religião, o Estado, a cultura, a arte, tratáveis intuitivamente — mas as “estruturas econômico-sociais”, consideradas a raiz de toda representação, de todo simbolismo, de todo o sentido de uma época.

Para Vilar, a hipótese fundamental de Marx seria, “a matéria histórica é estruturada e pensável, cientificamente penetrável como toda outra realidade”. Continue reading “Método do Materialismo Histórico Marxista”