Qual Político Ocupará Um Lugar Digno na História do Brasil?

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Trechos inesquecíveis da Carta-testamento de Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954:
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. (…) 

Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. (…) 

Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história“.

Como isso foi parar lá

Você sabe quem foi o Café Filho? Nas eleições de 1950, o governador de São Paulo Ademar de Barros impôs o nome de Café Filho à vice-presidência como condição de apoiar a candidatura de Getúlio Vargas. Getúlio resistiu já que o nome de Café Filho desagradava os militares, que o consideravam um político de tendências esquerdistas, e e a igreja católica, pois ele era protestante.

Isto porque Café Filho foi contra a aplicação da Lei de Segurança Nacional em 1935. Em 1937, denunciou o Plano Cohen como uma tapeação militar para legitimar a ditadura do Estado Novo. No parlamento, fazia campanha contra o cancelamento do registro do PCB e a extinção do mandato dos parlamentares comunistas, além de ser defensor do divórcio. Mesmo companheiro de chapa, Getúlio nunca confiou em Café Filho por causa de seu passado. “Esquerdista”?!

Nas eleições de 1950 a escolha do vice era desvinculada do presidente. Mesmo assim, Café Filho foi eleito vice-presidente com uma diferença de 200 mil votos para o segundo colocado, Odilon Duarte Braga, da União Democrática Nacional (UDN). [Sigla inspiradora do comportamento de ave em vias de extinção política.]

Após o “tiro-no-pé” do atentado da rua Tonelero, o país entrou em grave crise política. Café Filho sugeriu, então, a Getúlio Vargas, que ambos renunciassem ao governo simultaneamente, abrindo as chances para um governo interino de coalizão.

Getúlio Vargas consultou o ministro da justiça, Tancredo Neves [avô de um tucano mineiro que será golpeado pelos tucanos paulistas], que recomendou rejeitar o plano, afirmando que era um golpe de Café Filho. Getúlio avisou a Café Filho que não renunciaria. Café Filho respondeu que, rejeitada sua proposta, não devia mais lealdade a Getúlio: “Caso o senhor deixe desta ou daquela maneira este palácio, a minha obrigação constitucional é vir ocupá-lo.” Já ouviram esse argumento de um vice-presidente traidor e golpista? Há de temer tal ambiçãoContinue reading “Qual Político Ocupará Um Lugar Digno na História do Brasil?”

Para Entender O Sistema Eleitoral Norte-Americano: Anti-Populista?

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Quando se debate a respeito do risco do “populismo de direita” ganhar a eleição norte-americana, assim como esse “renegado político” por intelectuais esnobes teria sido o responsável pelo Brexit, i.é, vitória no plebiscito da saída dos britânicos da União Europeia, vale refletir sobre as regras anti-populismo que os fundadores elitistas da República norte-americana criaram para evitar a simples democracia eleitoral direta — “o sonho da Nação”. Aqui, república das (ou dos) bananas, quando as elites ficam contrariadas, simplesmente, dão um golpe de Estado na (ou “uma banana” para a) democracia

Elisabeth Drew colabora regularmente com “The New York Review of Books” e é autora de “Washington Journal: Reporting Watergate and Richard Nixon’s Downfall”. Em artigo reproduzido abaixo, ela (Valor, 10/08/16) afirma que qualquer pessoa que acompanhe a campanha presidencial americana precisa compreender que as pesquisas de opinião nacionais não proporcionam uma visão precisa do desfecho eleitoral. Graças ao Colégio Eleitoral americano, não é o destinatário da maioria dos votos no país como um todo que importa, no fim das contas, mas quem vence em quais Estados. [!]

A cada Estado é atribuído um determinado número de votos no Colégio Eleitoral, dependendo do tamanho de sua população. O candidato que cruza o limiar de 270 votos eleitorais ganha a Presidência.

Em quase todos os Estados, um candidato que ganha 50,1% do voto popular leva 100% de seus votos eleitorais (só Maine e Nebraska não seguem a regra pela qual o vencedor leva tudo; eles dividem o voto do Colégio Eleitoral por distrito congressional). Em consequência, os votos de milhões de pessoas que participam da eleição acabam não contando. Se você é um republicano em Nova York ou na Califórnia, que são dominados pelos democratas, ou um democrata em Wyoming ou Mississippi, que são confiavelmente republicanos, esqueça – seu voto para presidente não vai contar.

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Intérpretes do Brasil

Intérpretes do Brasil

Que País é este?! Em crise, na sede do Império, i.é, nos Estados Unidos da América, os políticos partem em busca do “salvador da Pátria” — o Capitão América –, cujo o objetivo é controlar os demais super-heróis, já que seus atos afetam toda a humanidade. Aqui, os intelectuais partem em busca do tempo perdido, ou seja, em busca da verdadeira identidade nacional.

Suas raízes foram bem representadas, metaforicamente, no espetáculo audio-visual da abertura das Olimpíadas 2016 no Rio de Janeiro? Acho que sim! Achei-o impecável…

Sem erros. Coreografia e iluminação impecáveis. Milhares de figurantes bem ensaiados. E o usurpador da presidência tendo o lugar que lhe cabe: o de medíocre vaiado. O País é muito melhor do que quem lhe golpeia…

Luís Antônio Giron (Valor, 05/08/16) reporta um debate entre historiadores a propósito da importância do livro “Raízes do Brasil“, de autoria de Sérgio Buarque de Holanda, cuja primeira edição foi lançada há 80 anos. Reproduzo a reportagem abaixo.

“Um livro clássico de nascença.” Esta frase do crítico Antonio Candido foi estampada na capa da nona edição do livro “Raízes do Brasil“, de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), editada pela José Olympio em 1976. A frase peca pela imprecisão. Foi extraída do prefácio de Candido à quinta e “definitiva” edição do livro, lançada em 1969, uma versão com ideias inteiramente diferentes – se não opostas – daquelas da primeira edição, de 1936. Tanto assim que há quem diga que Antonio Candido se tornou coautor da obra – e canonizou-a em definitivo. Ou, como afirma o historiador João Kennedy Eugênio, da Universidade Federal do Piauí, “a leitura de Candido pode ser vista como uma espécie de invenção de Sérgio Buarque”.

Diferentemente de um livro “clássico de nascença”, entre as obras consideradas clássicas que inauguraram os estudos brasileiros na primeira metade do século XX, talvez “Raízes do Brasil” seja a mais inacabada e problemática. Quem sabe por isso mesmo tenha ganhado sobrevida nas discussões acadêmicas e chega aos 80 anos ainda a suscitar debates. Um dos pontos fundamentais do ensaio recai sobre sua importância e validade no Brasil do século XXI. Segundo ponto: até onde as diversas versões do livro não traem uma falta de convicção e uma certa leviandade por parte de seu autor?

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Uma Segunda Revolução Verde?

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), pergunta: viveremos uma segunda revolução verde?

Entre janeiro de 2007 e abril de 2008, após vários anos de estabilidade, o preço do trigo duplicou abruptamente, o do arroz triplicou e o do milho aumentou 50%. Pela primeira vez desde o início dos anos 1970, tumultos provocados pela falta de alimentos explodiram em vários países simultaneamente. No Haiti, o primeiro-ministro foi obrigado a renunciar por multidões em protesto, que entoavam: “Estamos com fome!”

Duas dúzias de pessoas morreram em tumultos semelhantes em Camarões. O presidente do Egito mobilizou o exército e ordenou aos soldados que começassem a assar pão. Nas Filipinas, foi introduzida uma nova lei tornando a estocagem de arroz crime punível com prisão perpétua.

Após anos em que agricultores e especialistas em desenvolvimento lamentaram os baixos preços dos alimentos básicos, a era da comida barata parecia ter terminado abruptamente. Sob muitos aspectos, as origens dessa crise alimentar estão nas consequências da revolução verde. Continue reading “Uma Segunda Revolução Verde?”

Problemas com a Revolução Verde

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), adverte que novas tecnologias muitas vezes têm consequências imprevistas, e as tecnologias da revolução verde não são exceção. Variedades de sementes de alto rendimento, que requerem fertilizantes artificiais, outros produtos químicos agrícolas e grandes quantidades de água causaram problemas ambientais em muitas partes do mundo.

A água não absorvida pelo solo e carregada de nitrogênio que escoa de terras cultivadas para os cursos d’água criou “zonas mortas” em algumas áreas litorâneas, estimulando o crescimento de algas e plantas aquáticas e reduzindo a quantidade de oxigênio na água, o que afetou os peixes e as populações de mariscos.

Em alguns casos, variedades mais produtivas mostraram-se menos resistentes a pragas ou doenças do que as variedades tradicionais. Isso exigiu um uso mais intenso de pesticidas, cujo excesso pode contaminar o solo e prejudicar insetos benéficos e outros animais selvagens, reduzindo a biodiversidade.

Pesticidas também podem causar problemas de saúde para agricultores. Segundo a Organização Mundial da Saúde, eles são responsáveis por cerca de um milhão de casos de envenenamento agudo inintencional por ano, e estão também ligados a cerca de 2 milhões de tentativas de suicídio, levando a cerca de 220 mil mortes por ano. (A disponibilidade “pesticidas fez do envenenamento com eles o método mais difundido de suicídio no mundo em desenvolvimento.) Continue reading “Problemas com a Revolução Verde”

O Fantasma de Malthus

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Uma segunda consequência a longo prazo da revolução verde foi o impacto demográficosobre o tamanho e a estrutura da população global. Mais uma vez, é preciso dar um passo atrás na história. Em 3000 a.C., quando as primeiras civilizações emergiam, a população mundial não passava de cerca de 10 milhões de pessoas, ou aproximadamente a população de Londres hoje. Em 500 a.C., quando a Grécia entrava na Idade de Ouro, a população do mundo crescera para 100 milhões. Foi só em 1825, cerca de 10 mil anos após o surgimento da agricultura, que a população humana chegou pela primeira vez a 1 bilhão. Levou mais um século para chegar a 2 bilhões, em 1925; e meros 35 anos para chegar a 3 bilhões, em 1960.

O rápido crescimento foi equiparado, na época, a uma explosão, e levou a medonhas previsões de fome iminente. Mas a expansão da oferta de comida possibilitada pela revolução verde significou que a população continuou a crescer, chegando a 4 bilhões em 1975, 5 bilhões em 1986, e 6 bilhões em 1999. O quinto bilhão foi adicionado em apenas 11 anos; o sexto bilhão em outros 13. A população chegou a 7 bilhões em 2012, após mais 13 anos, segundo a Agência do Censo dos Estados Unidos. Em retrospecto, portanto, está claro que a expansão demográfica começou agora a desacelerar.

O crescimento populacional impele a produção de alimentos, ou vice-versa? Demógrafos demonstraram as duas coisas. Uma população em rápido crescimento cria incentivos para a descoberta de novas maneiras de aumentar a oferta de comida, mas maior disponibilidade de comida também significa que as mulheres ficam mais férteis e as crianças mais saudáveis e com mais chances de sobreviver. Não há, portanto, resposta simples.

A história mostra claramente, porém, que em casos em que a maior disponibilidade de alimento permite a um país industrializar-se há uma explosão da população, seguida por uma queda na taxa desse crescimento à medida que as pessoas ficam mais ricas – um fenômeno chamado “transição demográfica”. Continue reading “O Fantasma de Malthus”

Revolução Verde na China e Índia

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), afirma que o renascimento da Ásia tem muitas causas, mas não teria sido possível sem o espetacular aumento da produtividade agrícola provocado pela revolução verde. Entre 1970 e 1995, a produção de cereais na Ásia dobrou, o número de calorias disponíveis por pessoa aumentou 30% e os preços do trigo e do arroz caíram.

O impacto imediato do progresso agrícola é a redução da pobreza, pela simples razão de que os pobres têm maior probabilidade de trabalhar na agricultura e de que a comida é responsável pela maior parte dos seus gastos familiares. Realmente, a faixa da população da Ásia que vive na pobreza caiu de cerca de 50% em 1975 para 25% em 1995. O número absoluto de asiáticos nessa condição também declinou, de 1,15 bilhão para 825 milhões no período considerado acima, ainda que a população tenha crescido 60%. O progresso agrícola pôs a Ásia no caminho para o desenvolvimento econômico e a industrialização.

Para que o aumento da produtividade agrícola se traduza em crescimento econômico mais amplo e industrialização, no entanto, várias outras coisas precisam acontecer:

  1. os agricultores devem ter incentivos para aumentar a produção;
  2. deve haver infraestrutura para transportar sementes e produtos químicos para as fazendas bem como para permitir o escoamento dos produtos a partir delas; e
  3. deve haver acesso adequado a crédito para permitir aos agricultores comprar sementes, fertilizante, tratores e assim por diante.

O progresso agrícola pode desencadear súbito crescimento econômico, mas a rapidez com que ele ocorre depende crucialmente da introdução simultânea de reformas não agrícolas. Consideremos os exemplos da Índia e da China. Continue reading “Revolução Verde na China e Índia”