Bolhas da Extrema-Direita infladas por Algoritmo

(The Intercept, 10 de Janeiro de 2019) escreveu reportagem merecedora de leitura por parte de todos interessados em entender a “câmara de ecos” da direita estúpida: Como o YouTube inflou Bolhas da Direita.

Essas conexões propiciadas por algoritmos vêm dos dados analisados pelo YouTube sobre seu comportamento no site e sobre os vídeos com os quais você interage, seja clicando sobre o vídeo, pausando, aumentando o volume ou até mexendo o mouse sobre as recomendações. Tudo é monitorado.

As métricas escolhem quais vídeos serão recomendados. São baseadas, principalmente, na possibilidade de um vídeo ser assistido pelo usuário. Ela faz parte de um mecanismo sofisticado de inteligência. Tem um objetivo principal: fazer com que você passe o máximo de tempo possível no YouTube.

Como conteúdos extremistas naturalmente chamam mais atenção, a plataforma cria uma bolha conectando vídeos bizarros. Assim, usuários mergulham cada vez mais fundo em um assunto. Não por acaso, da fabricação de martelos a repórter foi levada pelo algoritmo para um vídeo sobre munição e armas em apenas 13 passos. A mesma coisa acontece com vídeos relacionados à política. Continuar a ler

Torre de Marfim ou Rede de Ódio

A expressão Torre de Marfim designa um mundo acadêmico à parte, onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações práticas do dia-a-dia. Nele, há uma desvinculação pessoal deliberada do mundo cotidiano.

Muitos academicistas puristas fazem pesquisas esotéricas, superespecializadas ou mesmo inúteis sem as submeter à crítica pública. O elitismo acadêmico manifesta um desdém ilimitado por mundanos. Desprezam o debate público ou a massa ignorante. O pouco caso, a atitude de sobranceria é um comportamento defensivo com vista ao distanciamento ou à indiferença quanto ao mundo real fora do campus universitário.

Curiosamente, na tradição judaico/cristã, a expressão Torre de Marfim é um símbolo de nobre pureza. Originou-se no Cântico dos Cânticos (7:4): “seu pescoço é como uma Torre de Marfim” – sustentando uma cabeça… A imagem é bíblica. Hoje, Torre de Marfim descreve um espaço metafísico de solidão e santidade, desvinculado das realidades cotidianas, onde certos escritores idealistas sonham e cientistas pesquisam.

Jean Tirole, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2014, por análise do poder e regulação de mercado, no livro Economia do bem comum (1ª.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020), afirma: “a Economia tem como objetivo ir além das aparências. Ela é uma lente capaz de modelar o olhar lançado sobre o mundo e nos permite olhar além do espelho.”

Continuar a ler

Propaganda Política Enganosa: Robotização da Rede Social

Estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP) mostra robôs terem sido responsáveis por mais da metade das publicações favoráveis ao presidente desqualificado no Twitter: UFRJ-FESPSP – Coronavirus Pandemia e Infodemia – 31.03.2020

Futuro da Mente: Inteligência Artificial (IA)

Susan Schneider escreveu artigo para a Edge (Época, 27/06/2019). Reproduzo-o abaixo.

Penso na natureza fundamental da mente e na natureza do “eu”. Ultimamente, tenho refletido sobre essas questões tendo em vista tecnologias emergentes. Tenho pensado sobre o futuro da mente e, mais especificamente, sobre como a tecnologia de inteligência artificial (IA) pode remodelar a mente humana e criar mentes sintéticas. À medida que a IA fica mais sofisticada, uma coisa que me interessa bastante é saber se os seres que talvez consigamos criar poderão ter experiências conscientes.

A experiência consciente é o aspecto sensorial de sua vida mental. Quando você vê os exuberantes tons de um pôr do sol ou sente o aroma de café pela manhã, você está tendo uma experiência consciente. Ela lhe é bastante familiar. Inclusive, não há um momento de sua vida em que você não seja um ser consciente.

O que quero saber é, se tivermos uma inteligência artificial geral — capaz de conectar ideias de maneira flexível através de diferentes domínios e de talvez ter algo similar a uma experiência sensorial —, seria ela consciente ou tudo estaria sendo computado no escuro — envolvendo coisas como tarefas de reconhecimento visual de uma perspectiva computacional e pensamentos sofisticados, mas sem ser verdadeiramente conscientes?

Ao contrário de muitos filósofos, especialmente aqueles na mídia e transumanistas, costumo ter uma abordagem de “esperar para ver” em relação à consciência das máquinas. Primeiro porque rejeito a linha totalmente cética. Existiram filósofos muito conhecidos no passado que não acreditavam na possibilidade de consciência das máquinas — notoriamente John Searle —, mas creio que seja cedo demais para falar. Haverá muitas variáveis que determinarão se máquinas conscientes existirão.

Em segundo lugar, temos de nos perguntar se a criação de máquinas conscientes é ao menos compatível com as leis da natureza. Não sabemos se a consciência pode ser implementada em outros substratos. Não sabemos qual será o microchip mais rápido, portanto não sabemos de que material uma inteligência artificial geral será feita. Então, até este momento, é muito difícil dizer que algo altamente inteligente será consciente.

Continuar a ler

Ocupações em Risco pela IA: Disputa com Robôs

Ana Conceição (Valor, 18/07/19) pergunta: na era das máquinas, o emprego é de quem? Um trabalho recente da Universidade de Brasília (UnB) sobre o avanço da tecnologia no mercado de trabalho brasileiro assim como inúmeras pesquisas no mundo tentam responder a essa questão. Na verdade, ela é feita pelo menos desde a primeira revolução industrial, 200 anos atrás. A diferença agora é que a Inteligência Artificial (IA) pode criar máquinas com capacidades cognitivas até então exclusivas dos humanos.

Assim, a resposta é complexa, mas um resumo possível é que boa parte das ocupações conhecidas serão radicalmente transformadas, ou mesmo extintas, para dar lugar a dispositivos dotados de IA. Outras, contudo, serão criadas. E a capacidade de ocupá-las é o que fará a diferença entre emprego e desemprego no futuro.

O estudo que faz a pergunta acima, do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações (Lamfo), da UnB, avaliou 2.062 ocupações e concluiu que 25 milhões de empregos (ou 54% do total) estão alocados em funções com probabilidade alta (de 60% a 80%) ou muito alta (80%) de automação. A base é a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2017, do Ministério da Economia, analisada por 69 acadêmicos e especialistas em aprendizado de máquina. Estariam a perigo trabalho repetitivo, como cobradores de ônibus e operadores de telemarketing, mas também especializados como fonoaudiólogos e advogados.

Sobreviverá por mais tempo o que depender de empatia, cuidado, interpretação subjetiva, como assistentes sociais, babás e psicanalistas. E há ainda ocupações em que apenas uma parte é “robotizável”: 40% do trabalho de um contador, por exemplo. O trabalho replica uma conhecida metodologia que os cientistas Carl Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, usaram para estimar o potencial de automatização das ocupações nos EUA: 47%. As estimativas do Lamfo/UnB são preliminares, mas dão uma dimensão do que vem por aí. Continuar a ler

Imagine uma Moeda Única sem Fronteiras

Imagine não existir países (…)

Nada pelo que matar ou morrer

Imagine todas as pessoas

Vivendo a vida em paz (…)

Imagine não existir propriedades (…)

Sem necessidade de ganância ou fome (…)

Imagine todas as pessoas

Compartilhando o mundo inteiro (…)

E o mundo será como um só

(Imagine – John Lennon)

“Moedas sociais” são moedas não-oficiais, utilizadas por um certo grupo, como participantes de eventos ou de uma comunidade. Para troca de serviços ou produtos, essa comunidade busca sobreviver fora do conflito entre O Mercado ou O Estado.

Uma moeda comunitária surgiria nessa economia solidária como uma alternativa ao escambo, isto é, a troca direta de mercadorias. Seria considerada um instrumento de desenvolvimento local, destinada a beneficiar o mercado de bens e serviços dos produtores participantes da economia da localidade.

De início, seu uso seria restrito porque sua circulação beneficiaria apenas a redistribuição dos recursos na esfera da própria comunidade. O aumento da quantidade de moeda social corresponderia ao aumento das transações realizadas pelos participantes da economia local.

Como ponto de partida para esse exclusivismo comercial, cada moeda comunitária corresponderia a uma moeda oficial do mesmo valor como lastro. Representaria uma espécie de pacto comercial para os associados se comprometerem com a aquisição de bens e serviços produzidos na comunidade.

Os consumidores teriam descontos nos preços quando a usasse. Com isso os bens e serviços locais ficariam mais competitivos se comparados aos de outros lugares. Os comerciantes e os produtores de serviços locais poderiam abaixar os preços porque compensariam com a venda em maior escala. Evitaria o vazamento monetário para outras comunidades. A moeda comunitária atuaria em favor do desenvolvimento local.

Muitos adeptos dessa economia solidária imaginam essa alternativa na produção e comercialização de produtos “vai além da lógica capitalista” por não visar lucro, mas sim o escambo monetizado. Essa moeda comunitária cumpriria apenas duas funções clássicas do dinheiro: unidade de conta e meio de pagamento. Não seria plenamente dinheiro por não constituir reserva de valor, ou seja, estoque líquido de riqueza para ser usado em todo o território nacional. Melhor ainda seria em toda a economia mundial.

Continuar a ler

Fim de Soberanias Nacionais na Emissão Monetária: Dossier sobre Libra

Hannah Murphy (Valor, 19/06/19) anuncia: o Facebook revelou os planos para lançar sua ambiciosa moeda digital, a Libra, pondo fim a meses de especulação sobre o projeto. O trabalho está em seus estágios iniciais e a companhia de tecnologia divulgou documentos revelando ideias para a moeda e alguns parceiros pesos-pesados do projeto.

Muitos dos detalhes serão discutidos publicamente nos próximos meses. Abaixo está o sabido até agora: Continuar a ler