Evolução da Indústria Musical: Revolução do Streaming

O Spotify, empresa provedora de serviço de transmissão de música, viu crescer de forma explosiva o número de usuários pagos no ano de 2016, mas também dobrou o tamanho da sua perda líquida. A companhia terá de pagar um mínimo de 2 bilhões de euros (US$ 2,23 bilhões) em royalties pela transmissão das músicas nos próximos dois anos, devido a um acordo fechado recentemente.

Como outras companhias de mídia, como a Netflix, o Spotify investiu em acordos com provedores de conteúdo e criadores para atrair ouvintes e assinantes. A empresa está se preparando para abrir o capital neste ano. Os potenciais investidores acompanharão de perto o crescimento de usuários totais e pagos, pois esse número revela um potencial de rentabilidade.

A receita em 2016 subiu 52%, para 2,93 bilhões de euros. O Spotify registrou no período um prejuízo líquido de 539,2 milhões de euros, ante um prejuízo de 231,4 milhões de euros em 2015. A maior parte do prejuízo foi atribuída ao aumento dos custos financeiros.

A companhia informou que o total de assinantes cresceu 38%, para 126 milhões, enquanto o grupo de pessoas que pagam pelo serviço premium cresceu 71%, para 48 milhões. O serviço de transmissão de música gera quase 90% de sua receita de assinaturas, ainda que os assinantes representem a minoria dos usuários. O serviço gratuito é suportado por anúncios.

A indústria de música viu sua receita global cair 60% desde 2000. Ela esperava que os serviços de transmissão paga cresceriam o suficiente para compensar o declínio nas vendas de CD e download de músicas. Nos últimos anos, o número crescente de serviços de transmissão competem pelos ouvintes pagantes, incluindo Pandora Media e Apple Music. Em 2016, o serviço de transmissão respondeu por 51% da receita do mercado de música, que cresceu mais de 11% no período, para US$ 7,7 bilhões, de acordo com a Associação das Gravadoras dos EUA.

Pois bem, diante desse intrigante assunto da Economia Criativa contemporânea, minha ex-aluna Júlia Gallant Ferreira escreveu uma excelente monografia sob orientação do meu colega Márcio Wohlers de Almeida (clique para download): Júlia Gallant – Evolução da Indústria Musical – Revolução do Streaming. Campinas, IE-UNICAMP, 2017.

Ela demonstrou notável iniciativa e capacidade de pesquisa ao tratar de tema inédito na literatura acadêmica. Na minha participação na banca de julgamento, expressei meus votos para ela continuar a pesquisa na pós-graduação, embora eu ache que seu talento provavelmente será disputado por quem a conhecer no mercado profissional.

Edito abaixo o resumo feito por ela em sua primeira versão. Continue reading “Evolução da Indústria Musical: Revolução do Streaming”

Das Canções Bregas, Regionalistas e Sertanejas aos Rocks Brasileiros

Fiquei feliz com a avaliação oral que meus alunos fizeram da nova experiência didática no nosso curso Economia no Cinema: Cidadania e Cultura Brasileira.

  • Para avaliar o curso, utilizaram o conhecimento sobre as interpretações a respeito do Brasil para escrever um trabalho sobre Economia em Letras de Músicas, inspirado pela leitura da trilogia de Franklin Martins. Quem Foi Que Inventou o Brasil? A música popular conta a história da República. Vol. I – de 1902 a 1964. Vol. II – de 1964 a 1985. Vol. III – de 1985 a 2002. RJ, Nova Fronteira, 2015. Visite o site: http://quemfoiqueinventouobrasil.com/
  • Somaram à essa inspiração a audição da playlist do Spotify (12142604272), Economia em Letras de Música, com MPBE: Músicas Populares Brasileiras sobre Economia. As letras estão em: Fernando Nogueira da Costa – Economia em Letras de Música
  • Encontraram letras com temas econômicos em quase todos os gêneros musicais cantados pelo povo brasileiro. Muitas variantes abrigadas na chamada MPB (Música Popular Brasileira) puderam ser pesquisadas, classificadas e analisadas, seja por gêneros musicais, seja por temas.
  • Para pesquisa e apresentação áudio-oral do trabalho, a turma foi dividida em cinco grupos para a pesquisa que simula desafios que encontrarão na vida profissional:
    • Grupo I: dos sambas à bossa-nova,
    • Grupo II: das marchinhas de carnaval às músicas de protestos,
    • Grupo III: da Tropicália à MPB,
    • Grupo IV: das canções bregas, regionalistas e sertanejas aos rocks brasileiros,
    • Grupo V: dos raps aos funks.
  • Além de análise por gêneros musicais, classificaram os temas econômicos abordados que forneceram inspiração aos compositores. Eles analisaram se os compositores estiveram atentos aos principais eventos macroeconômicos ou se expressaram apenas a vida econômica pessoal. Concluíram que a MPBE podem ser escutadas como a expressão popular de reais problemas socioeconômicos.
  • Desde os primórdios, os letristas buscaram fazer a crônica musical de eventos, costumes, novidades, modismos e reviravoltas da vida nacional, de um modo geral – e da cena política e econômica, em particular. Concluíram também que a música popular brasileira segue fazendo a crônica da vida econômica nacional.
  • Foram criativos e demonstraram a capacidade analítica dessa expressão cultural dos sentimentos populares sobre a economia.
  • Serviram como inspiração os seguintes posts:

Economia em Letras de Música

Economia em Letras de Música: Dinheiro, Salário, Dívida, Vagabundagem…

Economia em Letras de Música: Desigualdade e Criminalidade

Economia em Letras de Música: Ostentação

Uma ótima apresentação, aplaudida espontaneamente pelos colegas, foi a seguinte:  ENRIQUE ALVAREZ & LUCAS BRIGANTI – Das Canções Bregas, Regionalistas e Sertanejas aos Rocks Brasileiros

Um debate que surgiu durante os seminários diz respeito ao rótulo MPB. Não é um “guarda-chuva” muito amplo sob o qual quase tudo é classificado?

Contra argumentei, aliás, como vimos o Chico dizer em sua cinebiografia, que a Bossa Nova e a MPB das Músicas de Protesto dos anos 60 eram ou muito elitistas ou muito vanguardistas… embora eu as aprecie muito. Tentei provar meu argumento exibindo o excelente documentário de que todos os alunos gostaram: Vou Rifar Meu Coração (2011; 1h19m).

Depois, houve um consenso que, desde a música brega, passando pela música caipira, até os raps e os funks (“ostentação”), nesses gêneros musicais há uma expressão emocional que fala diretamente ao coração. Não há metáforas indiretas ou poesia academicista. É porrada! Direto ao ponto! Dedo nas feridas!

Fiquei feliz, mais uma vez, por aprender ensinando. Vários alunos comentaram que passarão a assistir filmes e escutar músicas de outra maneira, depois deste curso, apreciando suas mensagens. Disseram-me que antes “não davam bola para filmes brasileiros e tinham preconceitos em relação a diversos gêneros musicais populares”. Aprenderam desde já, assim como eu aprendi ao longo de minha vida, a ter empatia com pessoas aparentemente distintas de nós, mas “tudo carne-e-osso” como nós!

Tomo os seguintes exemplos, dados pelos estudantes, de um gênero musical que eu, praticamente, não conhecia — a da música caipira. Adorei a estória — “não sei porque” 🙂 — da música sobre a causa judicial entre os mineiros e os paulistas descendentes dos italianos: Continue reading “Das Canções Bregas, Regionalistas e Sertanejas aos Rocks Brasileiros”

Big Data Musical

João Luiz Rosa (Valor, 09/06/17) reporta que já faz algum tempo que empresas de diversos setores usam o Big Data – o enorme volume de dados proporcionado pelas novas tecnologias – para melhorar seus negócios. Pode ser um sistema que analisa os hábitos do usuário para sugerir filmes ou livros ou um programa que identifica tudo que consumidor põe em seu carrinho de supermercado. Agora, porém, a Oracle decidiu empregar o Big Data em algo inusitado: fazer música.

A companhia americana de software recorreu a algumas das principais redes sociais — Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn — para perguntar ao público que instrumentos, ritmos e até palavras gostaria de ouvir na nova versão da música “El Perdedor”, do cantor colombiano Maluma. Em pouco menos de um mês, alcançou 54,3 milhões de pessoas na América Latina, com 8 milhões delas respondendo às perguntas.

Os brasileiros foram maioria, com 40,7% dos comentários, seguidos dos venezuelanos (38,5%) e colombianos (7,3%). Desde que a experiência teve início, o total de pessoas envolvidas na web ultrapassa 61 milhões, com mais de 9 milhões de mensagens enviadas. No Twitter, o tema chegou a entrar nos “trend topics” global, a lista dos dez assuntos mais discutidos do mundo. Continue reading “Big Data Musical”

Dick Farney e a Americanização da Música Popular Brasileira: Cantor de Jazz + Samba = Samba-Canção

Ruy Castro quis escrever o livro A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção para suprir uma falta que ele sempre sentiu. Nunca entendeu por que o samba-canção foi tão desprezado pela historiografia da música brasileira. É como se fosse um pecado o samba ter sido produzido e apreciado também em ambientes sofisticados.

Extremamente sofisticados, é preciso que se diga. Apesar de um dos primeiros sambas com características de canção ter sido feito ainda em 1929 (“Amizade”, de Ary Barroso, lançado por Francisco Alves), foi nas luxuosas boates que infestaram a noite de Copacabana no fim dos anos 1940 que o gênero viveu sua era de ouro.

Esta nova música, cuja gestação vinha de longe, tomou aos poucos espaços como a boite Vogue ou o Golden Room do Copacabana Palace, com seus compositores e cantores de quem não se sabia onde terminava a arte e começava a vida. Eram lugares onde se podia chegar a qualquer hora da noite, sem hora certa para fechar, para beber, jantar, ouvir boa música, dançar e se informar.

Era onde negócios eram fechados e os casos românticos fervilhavam. Ruy Castro leu muitas memórias de embaixadores, diplomatas, políticos para reconstituir essa vida privada dos ricos, dos poderosos e as farras do Clube dos Cafajestes, grupo famoso de playboys filhinhos-do-papai rico.

Após Dick Farney gravar “Copacabana”, na Continental, a música brasileira nunca mais seria a mesma. Como não se considerava capaz de interpretar sambas, Dick parecia condenado a perpetrar perfeitas imitações de Bing Crosby cantando música americana com o conjunto Milionários do Ritmo — e a não chegar a lugar algum. Continue reading “Dick Farney e a Americanização da Música Popular Brasileira: Cantor de Jazz + Samba = Samba-Canção”

Ruy Castro e A Noite do Meu Bem: A História e as Histórias do Samba-Canção

Depois de reconstituir o mundo da bossa nova no já clássico Chega de Saudade: a história e as histórias da bossa nova, Ruy Castro mergulha no universo do samba-canção e das boates cariocas dos anos 1940, 50 e 60 no livro A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção.

Até 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos de azar no Brasil, a noite carioca girava em torno dos grandes cassinos: o da Urca, o do Copacabana Palace, o Atlântico, ou mesmo, subindo a serra, o Quitandinha, em Petrópolis. Eram verdadeiros impérios da boemia, onde a roleta e o pano verde serviam de pretexto para espetáculos luxuosos, atrações internacionais e muito champanhe.

A canetada presidencial gerou uma legião de desempregados – músicos, cantores, dançarinas, coristas, barmen, crupiês – e um contingente ainda maior de notívagos carentes. Os cassinos fecharam para sempre, mas os indestrutíveis profissionais da noite, sem falar nos boêmios de plantão, logo encontraram um novo habitat: as boates de Copacabana. Continue reading “Ruy Castro e A Noite do Meu Bem: A História e as Histórias do Samba-Canção”

Música Popular Brasileira sobre Economia

Será inédito (e original) no Curso de Economia no Cinema – Cidadania & Cultura Brasileira, escrever um trabalho sobre Economia inspirado pela leitura da trilogia de Franklin Martins: Quem Foi Que Inventou o Brasil? A música popular conta a história da República. Vol. I – de 1902 a 1964. Vol. II – de 1964 a 1985. Vol. III – de 1985 a 2002. RJ, Nova Fronteira, 2015.

Visite o site: http://quemfoiqueinventouobrasil.com/. Soma-se a essa inspiração a audição do playlist do Spotify (12142604272), Economia em Letras de Música, com músicas populares brasileiras que reportam à economia. Foram selecionadas por mim.

Segundo Martins, “não há fato relevante da política brasileira, no século XX, que nãotenha provocado a criatividade de nossos compositores e que não tenha sido cantado pelo povo, em uma resposta quase simultânea aos acontecimentos. As pouquíssimas exceções a essa regra deram-se em períodos de ditaduras ou em conjunturas nas quais os fatos políticos desenrolaram-se com rapidez tão vertiginosa que, em pouco tempo, acabaram sendo superados por novos desdobramentos, ainda mais significativos”.

Encontra-se letras de músicas com temas econômicos em quase todos os gêneros cantados pelo povo brasileiro. Entre outros, dos sambas à bossa-nova, das cançonetas às músicas de protestos, dos baiões aos rocks, dos repentes aos raps, dos frevos aos funks, todas as variantes abrigadas na chamada MPB (Música Popular Brasileira) podem ser pesquisadas.

Além de análise por gêneros musicais, cabe classificar os temas econômicos abordados que forneceram inspiração aos compositores. Eles estiveram atentos aos principais eventos macroeconômicos ou expressaram apenas os fenômenos microeconômicos? Continue reading “Música Popular Brasileira sobre Economia”