Ismaël Lô: World Music ou Música Africana ou Música Senegalesa?

Indiscutivelmente, o encontro mais direto de Pedro Almodóvar com o amplo corpus da world music vem, como já observado por Kathleen M. Vernon, no livro A Companion to Pedro Almodóvar (First Edition. Edited by Marvin D’Lugo and Kathleen M. Vernon. Blackwell Publishing Ltd. Published; 2013), em sua inclusão do “Tajabone” de Ismaël Lô na cena em Todo sobre mi madre quando a mãe triste Manuela (Cecilia Roth) chega em Barcelona em busca de seu ex-marido e pai de seu filho morto. Embora suponhamos, no início do filme, Manuela ter passado muitos anos estabelecidos em Madrid, a sua vida é mais tarde mostrada como tendo sido marcada por uma série de viagens, desde a sua cidade natal, Buenos Aires, até Barcelona e depois Madrid, e da capital espanhola para a Galícia, na trilha do coração transplantado de seu filho, e depois de volta para Barcelona.

Neste contexto, é útil considerar também itinerário seguido da música de Lô antes de sua chegada ao filme de Almodóvar. Largamente desconhecido para o público anglo-americano antes de Todo sobre mi madre, Lô já tinha alcançado sucesso considerável na França, especialmente após a liberação de seu sexto álbum. Ele incluiu o single “Tajabone“.

De fato, a biografia profissional de Lô, caracterizada por viagens regulares de ida e volta entre o Senegal e França e a fusão musical de M’balax senegalês com elementos do folk e blues americanos. Resultou em ele ser saudado como o “Bob Dylan Senegalês”. Isso corresponde de perto ao entendimento geral da categoria de world music e world musicians. Essa combinação de exotismo e familiaridade é cada vez mais visto como necessário para produzir a nota certa de “hibridismo” que, Timothy Taylor observa, tornou-se para os ouvintes ocidentais a nova garantia de “autenticidade” (2007: 140–1).

Em contraste com o latino-americano ou mesmo canções em italiano, português, francês ou inglês, ouvidas nos filmes de Almodóvar, o significado das palavras para “Tajabone”, escrito em wolof, perde-se no ouvinte-espectador. No entanto, são vantagens para aqueles que fazem uso de tradições musicais estrangeiras para seus próprios fins, ou assim nos é dito pelos estudiosos do uso da falsa world music, peças corais compostas de sílabas nonsense inventadas em spots publicitários (Taylor 2007: 185).

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Buika: Síntese e Sinergias

Kathleen M. Vernon, no livro A Companion to Pedro Almodóvar (First Edition. Edited by Marvin D’Lugo and Kathleen M. Vernon. Blackwell Publishing Ltd. Published; 2013), narra: em 2010, Chavela Vargas e Buika foram escolhidas pela rede de rádio pública dos EUA, NPR, como duas cantoras entre as 50 Grandes Vozes do Mundo.

O site da NPR explica: “elas fizeram sua marca internacionalmente ao longo da história” (Blair 2010). O emparelhamento de Vargas com uma cantora cerca de cinquenta anos mais jovem, em uma lista diversificada [confira abaixo], que varia de Maria Callas e Nat King Cole para Celia Cruz e Youssou N’Dour (All 50 Great Voices A-Z), não é coincidência. O segmento do programa NPR dedicado a “Buika: The Voice of Freedom”, enfatizando as origens de sua voz distinta em sua singular história de vida, também destaca sua relação com Vargas, cimentada no CD da cantora mais jovem de 2009, El último trago, em grande parte dedicado a covers dos trabalhos de Vargas. Além da peça da NPR, outros artigos chamam a atenção para o papel de Vargas como mentora ou inspiradora.

Um artigo de 2010 no New York Times, por ocasião da turnê americana da cantora espanhola cita Vargas. Ela fala com aprovação de sua pretensa protegida: “Buika realmente se desenvolveu como cantora… Ela adicionou as influências do flamenco e outros gêneros para minhas músicas, mas a aspereza rouca em sua voz quando ela canta me lembra de mim mesmo” (Rohter 2010).

Além das afinidades musicais, Vargas, com sua sexualidade lésbica aberta e de sucesso em sua cultura adotiva outsider, oferece um ponto de referência para a Buika declaradamente bissexual e ultra “cosmopolita” (Byram; 2010) na projeção de um novo paradigma de sensibilidade musical latina global.

Apenas a terceira cantora a aparecer na tela como ela mesma, em um filme de Almodóvar, seguindo o duo Vargas e Veloso, Buika executa duas músicas em La piel que habito. Ambas aludem a sua trajetória de carreira, mostrando sua versatilidade, enquanto ancora um momento chave reunindo várias vertentes na trama. O cenário é um casamento na Galiza, com a presença do Dr. Ledgard, juntamente com a sua filha de vinte anos, Norma, ainda se recuperando anos depois dos efeitos da morte violenta de sua mãe.

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Chavela Vargas: ícone e musa

Kathleen M. Vernon, no livro A Companion to Pedro Almodóvar (First Edition. Edited by Marvin D’Lugo and Kathleen M. Vernon. Blackwell Publishing Ltd. Published; 2013), afirmar ser uma característica fundamental das performances e dos performers que capturam a atenção de Almodóvar, proporcionando uma base comum para os desafios artísticos e as sinergias emocionais que o ligam a Veloso, bem como a Chavela Vargas e Buika, é a prática de criar versões novas e marcantes de músicas familiares. Chama, tomando emprestado o termo do capítulo de Marsha Kinder para este volume, “re-envoicements“.

Almodóvar elabora sobre esse fenômeno em seu blog: “Eu acredito muito nas versões, quando elas são interpretadas por inspirados e independentes artistas. Eles as consideram como novas criações e adaptam a música original aos seus próprios sentimentos… As músicas percorrem uma estrada oblíqua e fortuita até se encaixarem em meus filmes. Às vezes eles tiveram que se tornar o oposto do que eles originalmente eram para para eu me conectar com eles. Esse é o caso da “Tonada de luna llena“. é uma canção de vaqueiro venezuelana, uma espécie de música country indígena por Simón Díaz. Ele nunca teria tido qualquer ligação com as minhas histórias se não fosse pelo arranjos de Morelenbaum e a voz de Caetano Veloso. Ele transmutou o original, tornando-se uma espécie de canção de ninar escura e surrealista” (Almodóvar, 2008).

Vernon notou, anteriormente, a apreciação de Almodóvar da forma única musical de Vargas alquimia ao referir-se à sua inspiração para a versão de “Piensa en mí” de Agustín Lara, ouvido em Tacones lejanos. Nascida na Costa Rica em 1919, Vargas se destacou pela primeira vez na década de 1950, no México. Era especializada no repertório nacional clássico de compositores Lara, José Alfredo Jiménez, Cuco Sánchez e Tomás Méndez.

Embora muito atraída pela música popular mexicana da época, ou canción ranchera barulhenta baseada em mariachi, e o bolero boêmio com suas histórias de sofrimento amoroso, Vargas cedo demonstrou uma capacidade de interpretar as canções por conta própria. Subindo ao palco em um guarda-roupa andrógino de ponchos e sandálias de couro e acompanhadas por uma única guitarra, suas performances deixavam os tradicionalistas chocados, atraindo um grupo diversificado de admiradores da alta e baixa sociedade mexicana.

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Caetano Veloso: Hearts, Minds e Market Share

Ao mover-se para explorar em maior profundidade as origens e o desenvolvimento musical de Almodóvar, em seus três filmes principais, e as colaborações discográficas para os insights que eles fornecem o funcionamento de seu imaginário musical global, Kathleen M. Vernon, no livro A Companion to Pedro Almodóvar (First Edition. Edited by Marvin D’Lugo and Kathleen M. Vernon. Blackwell Publishing Ltd. Published; 2013), começa com Caetano Veloso.

Certamente, este caso particular de contato cultural e troca interpõe seu próprio desafio desestabilizador ao eixo norte-sul desigual, postulado por Pacini-Hernández, enquanto a carreira do músico brasileiro multifacetado, compositor, ativista e ex-preso político propõe uma espécie de contra-modelo para o paradigma geocultural evidenciado no conceito de música mundial.

O projeto musical de Veloso é apoiado não só pelo seu papel de liderança no movimento Tropicália dos anos 60, fusão cosmopolita de fontes afro-brasileiras, europeias e norte-americanas, mas também pelas ligações da Tropicália à antiga tradição antropofágica de vanguarda exigente da assimilação e transformação de influências estrangeiras e artefatos culturais, invertendo assim a dinâmica hegemônica das relações culturais coloniais.

Em seu estudo do movimento Christopher Dunn define o papel de Veloso, juntamente com do companheiro tropicalista Gilberto Gil, como “mediador cultural” (2001: 74), entre a esquerda tradicional e a contracultura, bem como movimentos centrados na África dentro e fora do país.

Robert Stam vai ainda mais longe em sua avaliação da carreira de Veloso, saudando o último (e Gil) como “intelectuais órficos”, apoiando-se na noção de Gramsci do intelectual orgânico, “que escreve livros em um momento e liderar multidões de danças em outro. . . [como] não só os artistas populares cultura, mas também seus teóricos” (2008: 223).

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Tudo Sobre Minha Música

Kathleen M. Vernon, no livro A Companion to Pedro Almodóvar (First Edition. Edited by Marvin D’Lugo and Kathleen M. Vernon. Blackwell Publishing Ltd. Published; 2013) quer olhar para uma série de seleções e estratégias musicais específicas, adotadas por Pedro Almodóvar, na tentativa de entender as forças concorrentes em jogo tanto na produção quanto na recepção de seus filmes, além de seu papel como produtor cultural.

Em um estudo anterior, a autora analisou o papel privilegiado concedido à música e à letra latino-americanas, especialmente o bolero, em seu cinema (2005). Neste capítulo, Vernon se propõe considerar a natureza e a função de seu repertório de música mais amplamente em relação a outro quadro de referência, ou seja, o fenômeno e corpus da “world music“, tomado como uma matriz e uma proxy para o funcionamento do atual mercado cultural global e globalizado nos quais filmes e gravações de Almodóvar são produzidos e consumidos.

Esse desejo de estabelecer um contexto crítico mais amplo vem em resposta à convergência de dois desenvolvimentos em sua prática criativa:

  • por um lado, a expansão da habitual geografia temática e textual de Almodóvar em filmes recentes como o Todo sobre mi madre / Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Volver (2006), e La piel que habito / The Skin I Live In (2011); e,
  • por outro, a busca pessoal e comercial colaborações produtivas com três pan-americanos – ou o que poderíamos denominar latinos globais – cantores / intérpretes como Chavela Vargas, Caetano Veloso e Concha Buika.

No que diz respeito aos filmes, vários críticos comentaram o que Marvin D’Lugo (2006: 100) define os “realinhamentos geoculturais” por Todo sobre mi madre, onde a ação principal se move da cidade natal do diretor e da habitual filmagem de Madrid a Barcelona e os destinos dos personagens traçam um longo arco narrativo capaz de abranger a Galiza, a Argentina e Paris. Uma expansão adicional da órbita geográfica e afetiva do filme é sinalizada pelo aparecimento de um dos maiores sucessos da discografia de Almodóvar, “Tajabone”, do músico senegalês Ismaël Lô.

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Vídeos Memoráveis: Pink Floyd

O YouTube em smartTV propicia reencontros inesperados. No caso acima, meu algoritmo sugeriu escutar novamente, mas desta vez vendo seus vídeos, dois dos álbuns preferidos na minha adolescência: Echoes e Dark Side of The Moon com o rock progressivo de Pink Floyd. Eu os escutava continuamente ao fim das tardes de estudo.

No passado, não havia vídeos para a gente assistir. O visual ficava por conta da imaginação de cada um. Hoje, os desenhos digitais com mistura de técnicas vão além da imaginação de outrora! Confira abaixo.

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