Grande Depressão de 2008: Muito Além do Subprime

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), salienta: o que estava acontecendo na economia também reduziria a demanda por petróleo.

Hoje se acredita a Grande Recessão, pelo menos nos Estados Unidos, ter começado em dezembro de 2007, bem antes da maioria das pessoas a reconhecerem, em 15 de setembro de 2008, com a quebra do Banco Lehman Brothers.

Foi principalmente uma recessão do crédito, resultado do endividamento excessivo, do excesso de alavancagem financeira, de derivativos, da grande quantidade de dinheiro barato, do excesso de confiança — tudo isso gerou bolhas no mercado imobiliário e em outros ativos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

Porém, o aumento do preço do petróleo foi um fator determinante para a recessão. Entre junho de 2007 e junho de 2008, os preços do petróleo dobraram — um aumento de US$ 66 — em termos absolutos, um crescimento bem maior do antes visto nos choques do petróleo anteriores, desde a década de 1970.

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Inflando Bolha até a Explosão

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), recorda: negociantes identificaram o ritmo acelerado do mercado, o que significava preços em elevação, e, quanto mais aplicavam o dinheiro e os preços subiam, mais aumentava esse ritmo, proporcionando ainda mais motivos para outros investimentos, e assim por diante. E, desse modo, os preços continuaram subindo. Isso é chamado de “profecia autorrealizável”, provocado pelo “comportamento de manada”.

Havia método em todo esse ritmo, um sistema de crenças bem articulado. Ele explicava o aumento de preços. Ou os racionalizava.

Nesses estudos de comportamento de investidores, inflando bolhas em mercados de ativos, Shiller se refere à característica comum do chamado de “pensamento da nova era” — a convicção da chegada de algo novo e diferente. Isto justificava uma rápida elevação nos preços dos ativos em um determinado mercado.

O pensamento da nova era é uma característica consistente nas bolhas — nos mercados acionário, imobiliário e em muitos outros — das tulipas na Holanda no início de 1600 à bolha especulativa fomentada pela South Sea Company de 1720. “Gera-se uma série de opiniões e histórias como justificativas da continuidade da bolha”, afirma Shiller. Mas não se detecta se tratar de uma bolha sendo inflada – e a ser explodida e não desinflada suavemente.

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Petróleo: Forma de Manutenção de Riqueza Financeira

Daniel Yergin, no livro “A Busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), conta: passou a haver muito mais investidores no mercado de petróleo — a parte do mercado do barril de papel — investindo sem intenção nem necessidade alguma de receber os ativos físicos em si.

Havia fundos de pensão, fundos de hedge e fundos soberanos. Havia os fundos de índice de commodities, associados ao petróleo e com a negociação de derivativos associada. Havia também os Exchange Traded Funds (ETFs). A administração das grandes fortunas também especulava com ele. Enfim, todos os tipos de investidores e negociadores, alguns jogando no longo prazo, outros no curtíssimo.

O petróleo deixou de ser apenas mais uma commodity física usada como combustível para carros e aviões. Tornara-se algo novo — e muito mais abstrato. Agora esses barris de papel eram também, na forma de futuros e derivativos, uma forma de manutenção de riqueza financeira, um ativo financeiro. Como tal, os investidores prudentes podiam diversificar seus investimentos além de ações, títulos e imóveis, aplicando seu dinheiro nesse novo tipo de ativo.

O crescimento econômico e a financeirização logo se associaram para elevar o preço do petróleo. Esse aumento trouxe também maior volatilidade, mais flutuações no preço, o que atraía os negociantes.

Os negociadores eram jogadores ágeis. Com um timing perfeito, atiravam de um lado para o outro para a arbitragem: aproveitar as menores anomalias e avaliações erradas de preços dentro desses mercados.

Essa financeirização foi reforçada por um avanço tecnológico. Tradicionalmente, o petróleo era negociado no pit no Nymex por operadores de pregão, com suas jaquetas coloridas, gritando até ficarem roucos, balançando os braços, agitados, e fazendo gestos estranhos com as mãos, visando registrar suas compras e vendas. Esse sistema era chamado de “ordem de viva voz” (open outcry) e era muito barulhento.

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Mercado de Futuros do Petróleo

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), conta: os mercados de futuros de hoje remontam aos mercados de futuros de produtos agrícolas criados no século XIX nas cidades do Meio-Oeste dos Estados Unidos, em especial, a Bolsa de Mercadorias de Chicago.

Ao se aproveitar dos mercados de futuros, um fazendeir, plantando na primavera poderia se assegurar de seu preço de venda no próximo outono. Ele poderia perder o potencial de valorização (upside) se o preço do produto subisse. Mas, usando o mercado de futuros, evitaria a ruína financeira caso uma safra abundante ocasionasse uma queda repentina do preço.

O mercado de futuros do petróleo no Nymex oferecia uma “ferramenta de gestão de risco” para quem produzia petróleo ou quem o utilizava.

Uma empresa aérea, por exemplo, compraria contratos de futuros do petróleo para se proteger contra a possibilidade de aumento de preços da commodity física. Rebaixaria a fração de um custo de um barril pelo direito de comprar cem contratos — o equivalente a cem mil barris — daqui a um ano ou dois ao preço atual.

O preço do petróleo — e do combustível para aviação — poderia subir 50% ao ano daí em diante. Mas os contratos de futuros teriam subido em mais ou menos o mesmo valor.

A empresa aérea poderia perder sua posição, acumulando a mesma quantidade à medida que o preço aumentasse — menos o custo da compra dos futuros. Assim, a empresa aérea se protegeria comprando os futuros, embora essa prática de hedge custasse dinheiro. Entretanto, esse custo era, na verdade, o que a empresa aérea estava disposta a pagar para se precaver contra um aumento de preço.

Para cada empresa aérea, ou produtor independente de petróleo desejando se proteger contra uma queda no preço, ou distribuidor de óleo para aquecimento doméstico preocupado com o que aconteceria no inverno, alguém precisava estar do outro lado da transação comercial. E quem seria essa pessoa?

Esse alguém era o especulador. Este não tinha interesse na commodity física, apenas em lucrar com a transação, segundo o Nymex, “conseguindo prever as oscilações de preços”.

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“Financeirização” do Petróleo

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), analisa a questão da volatilidade das moedas, em especial, a oscilação entre o petróleo e o dólar.

Nesse período, os preços da commodity, no jargão dos economistas, “acompanhavam negativamente a taxa de câmbio do dólar americano”. Simplificando, quando o dólar se depreciava, o preço do petróleo subia.

Esse preço é definido em dólares. Durante parte desse período, o dólar estava fraco, perdendo valor em relação a outras moedas.

Tradicionalmente, durante os períodos de turbulência e incerteza política, as pessoas “correm para o dólar” em busca de segurança. No entanto, durante esse período de turbulência foi só para a moeda americana. As demais se apreciavam em relação a ela. Logo, a corrida foi para proteção em commodities, principalmente petróleo e ouro.

O petróleo era uma forma de proteção contra o dólar mais fraco e os riscos de inflação. Assim, enquanto o “preço” do dólar caía em relação a outras moedas, em particular o euro, o do petróleo subia.

Em geral, os mercados financeiros e a euforia com ganho de dinheiro por parte de investidores costumavam ter um impacto cada vez maior sobre o preço do petróleo, apostando em uma tendência firma de alta. Isso costuma ser descrito como especulação.

O petróleo vai deixando de ser apenas mais uma commodity física. Tornava-se também um ativo financeiro, isto é, uma forma de manutenção de riqueza no mercado financeiro. Alguns deram a esse processo o nome de “financeirização” do petróleo.

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2004: Quando Todos os Países do Mundo Cresceram

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), analisa as consequências do choque de demanda ocorrido em 2004.

Estavam todos os elementos para um boom do petróleo: o investimento no desenvolvimento de novas fontes de oferta de petróleo foi controlado pelo trauma do colapso de preços de 1998. Mas agora a demanda aumentava e os problemas na Venezuela, na Nigéria e no Iraque reduziam a oferta no mercado. O resultado seria um mercado historicamente escasso.

Em geral, a indústria mundial de petróleo opera com alguns milhões de barris de capacidade ociosa. Entre 1996 e 2003, por exemplo, a capacidade ociosa era, em média, de quatro milhões de barris por dia. Essa capacidade não utilizada é um “colchão” de proteção, um mecanismo de absorção de choques para lidar com repentinos aumentos de demanda ou possíveis rupturas na oferta.

Um país fornecedor assumiu um compromisso explícito de manter uma significativa capacidade excedente. A política da Arábia Saudita é desenvolver e manter uma capacidade ociosa entre 1,5 e dois milhões de barris por dia a fim de promover a estabilidade do mercado. Mas, em outros países, a capacidade ociosa não é programada.

Em 2005, no entanto, o aumento da demanda e as rupturas da oferta encolheram a capacidade ociosa a não mais de um milhão de barris por dia. O colchão de proteção quase desapareceu.

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Choque de Demanda na Primeira Década do Século XXI

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), conta a história do marco zero do preço mundial do petróleo: Cushing, Oklahoma, ponto de encontro do petróleo cru, doce e leve, conhecido como West Texas Intermediate, ou simplesmente WTI. Cushing desempenha um papel especial na nova indústria global de petróleo porque o WTI é um notável benchmark para o cálculo do preço dos outros petróleos.

Logo depois de sua descoberta, em 1912, o campo petrolífero de Cushing atingiu o status de estrela como “a rainha dos campos petrolíferos”. Por um tempo, produziu quase 20% de todo o petróleo dos Estados Unidos. A cidade de Cushing tornou-se uma das clássicas efervescentes cidades, devido às atividades petrolíferas, capazes de experimentarem prosperidade súbita no início do século XX. É onde se pega “a febre do petróleo”.

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