Inovações Financeiras Quae Sera Tamen

Dívida Bruta sem Compromissadas Compromissadas X Reservas Cambiais Operações Compromissadas 2007-2014 Operações Compromissadas

Algumas iniciativas que, finalmente, o Banco Central do Brasil (BCB) está tomando já eram sugeridas por “economistas heterodoxos” há anos. Por exemplo, segundo Cristiano Romero (Valor, 01/02/17), o BCB vai criar um novo instrumento de política monetária: o “depósito voluntário”.

A medida chegou a ser discutida no início do ano passado, ainda no governo Dilma Rousseff. A proposta foi feita inicialmente pelo economista-chefe do banco Safra, Carlos Kawall (meu ex-colega de doutorado no IE-UNICAMP), que comandou o Tesouro em 2006, durante o Governo Lula.

Kawall fez um estudo sobre os balanços de bancos centrais desde 2000. Além da necessidade de esterilização tradicional decorrente da compra de reservas cambiais, os BCs foram obrigados, depois da crise global de 2008, a esterilizar os fluxos de recursos gerados pelas políticas de afrouxamento monetário adotadas pelos Estados Unidos, a União Europeia, a Inglaterra e o Japão.

A criação dos “depósitos voluntários” ou remunerados foi uma importante inovação promovida pelos bancos centrais no pós-crise. No Brasil, o BCB lançou mão das operações compromissadas, um instrumento criticado por economistas heterodoxos pelo fato de aumentar sobremaneira a dívida pública e, portanto, a necessidade de geração de superávits primários nas contas públicas para fazer frente ao pagamento de juros dessa dívida.

Veja as consequências econômicas (e políticas) do tempo perdido pela lerdeza em executar essa inovação financeira! A dívida bruta, elevada em parte por um instrumento de política monetária (e não fiscal), impactou as expectativas de investidores estrangeiros e agências de avaliação de risco!  Continue reading “Inovações Financeiras Quae Sera Tamen”

Debate sobre Déficit da Previdência

dinheiro

Pedro Fernando Nery é consultor legislativo do Senado. Publicou artigo (Valor, 24/01/17) polemizando a respeito da existência ou não do déficit da Previdência Social. Como mais uma opinião de especialista, vale debatê-la.

“O ano que passou foi o ano da “pós-verdade”. Votações como a de Trump levaram o dicionário Oxford a escolhê-la como a palavra do ano, depois de homenagear novidades como selfie e emoji. No final de 2016, ganhou popularidade uma tese que pode ser a versão brasileira mais perigosa de pós-verdade: a de que não existe déficit na Previdência.

A pós-verdade se refere a situações em que os fatos objetivos perdem a importância e a opinião pública é mais influenciada por emoções e crenças pessoais. Uma característica essencial da pós-verdade é a informação “parecer verdade”. Os psicólogos a relacionam ao raciocínio motivado: acreditamos no que queremos acreditar. As redes sociais são férteis para as pós-verdades, como as de Trump. “There’s no deficit da Previdência”, ele poderia bradar.

A tese de que há dinheiro sobrando na Previdência não é nova, mas ficou mais conhecida com a proposta de reforma. Ela suscita discussões oportunas, como o papel dos benefícios rurais ou o financiamento da Seguridade, um debate que também aconteceu em outros países no momento das reformas. Entretanto, a tese é candidata a pós-verdade se usada para:

  1. esconder o problema,
  2. adiar ajustes inevitáveis e
  3. criar um cenário de grave instabilidade econômica e social.

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Abordagem Conjuntural-Estruturalista Keynesiano-Desenvolvimentista

recuperacao-industrial-distante-3-t-2016utilizacao-da-capacidade-produtiva-2008-2016desalento-na-busca-de-emprego-ate-out-2016superavit-comercial-2017cotacoes-do-dolar-em-2016divida-em-alta-28-12-16investimento-federal-2010-2016trajetoria-anual-do-ipca-2007-2017

Li hoje um artigo de Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha (Valor, 06/01/17) que “quase eu assinaria embaixo”! Só achei incoerente com a argumentação do artigo — o equívoco do diagnóstico realizado e da terapia receitada pela atual equipe econômica a frase no parágrafo final: “nada que não possa ser implementado pela equipe econômica atual”. Ora, esta equipe tem um vício de nascença: pertence a um governo ilegítimo politicamente para implementar qualquer medida que peça sacrifício à sociedade já que a maioria dos eleitores não votou neste programa neoliberal de governo!

Carlos Luque é professor da FEA-USP e presidente da Fipe, Simão Silber é professor da FEA-USP e Roberto Zagha foi secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento organizada pelo Banco Mundial. Os autores somam à abordagem conjuntural keynesiana uma abordagem estruturalista a la Cepal, ou seja, desenvolvimentista. Reproduzo-o abaixo, para ser lido à luz dos dados acima.

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O que nos faz ser de Esquerda ou Direita?

Neuroimagem do cérebro humano mostrando em amarelo a circunvolução cingulada anterior, uma região relacionada com a orientação ideológica das pessoas.

Neuroimagem do cérebro humano mostrando em amarelo a circunvolução cingulada anterior, uma região relacionada com a orientação ideológica das pessoas.

Lendo ou escutando gente de direita, a impressão que se tem é que os direitistas têm  “cabeças-ocas”! Qualquer argumento racional entra por um ouvido e sai pelo outro sem nenhuma retenção por seus “2 neurônio” (sic)! 🙂

Ignacio Morgado Bernal é catedrático de Psicobiologia no Instituto de Neurociência e da Faculdade de Psicologia da Universidade Autônoma de Barcelona. Autor de Emociones e inteligencia social: las claves para una alianza entre los sentimientos y la razón (Barcelona, Ariel, 2007 e 2011). Em artigo publicado em El País (16/12/15) ele sugere esse fato observado, corriqueiramente, não é aceito pela Ciência! Descobriram mais um neurônio nos direitistas?!

O lugar de nascimento, a classe social, a família e o ambiente em que crescemos, os professores e os amigos que temos, as experiências vividas. Tudo isso, ou seja, tudo o que faz parte da educação recebida, é o que muitos cidadãos podem alegar, com razão, ante a pergunta sobre o que nos faz ser de esquerda ou direita.

Uma resposta que também serviria para questões mais gerais, como “por que somos bons ou maus”, ou questões mais prosaicas, do tipo “por que torcemos para o Corinthians ou o Flamengo”. Certamente, o cérebro humano é um órgão de plasticidade anatômica e fisiológica, e poucas coisas têm mais força que a educação para mudá-lo e modulá-lo.

Se a educação não mudasse os neurônios, sua influência em nossa vida seria nula ou residual. Particularmente na infância e na adolescência, as experiências que temos e as ideias que chegam até nós podem calar com tanta força e profundidade nossos sistemas de representação cerebral a ponto de persistir neles a vida inteira, pois são permanentemente reforçadas pelas condutas e interações sociais a que essas mesmas representações nos incitam, especialmente quando se expressam como sentimentos.

Ok, mas todos os cérebros são iguais na hora de serem influenciados ou modelados pela educação? Em que medida a biologia e o cérebro que herdamos determinam a força e as possibilidades da educação que recebemos para nos tornarmos de direita ou esquerda?

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Diferenciação entre o Preço à Vista e o Preço a Prazo

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Fiquei boquiaberto com a extrema velocidade da apropriação de uma ideia que publiquei há quase exatamente um ano no jornal econômico mais lido desta plaga: Fernando Nogueira da Costa – Diferenciação entre os preços à vista e a prazo-21-12-2015! Que agilidade mental da tecnoburocracia!

Os sábios-tecnocratas souberam captar de imediato o “espírito-da-coisa”, representativo de imenso anseio popular, e com enorme rapidez e capacidade de convencimento a sopraram nos ouvidos do todo poderoso Ministro da Fazenda que, por sua vez, em um momento-chave, justamente quando o governo temeroso se vê pressionado de todos os lados por delações inconvincentes para todos que conhecem sua magnífica índole democrática legalista, de maneira oportuna (e oportunista), soube galvanizar a atenção do Excelentíssimo Senhor Presidente da República e caso a hesitante Vossa Excelência não recue do seu já conhecido recuo do recuo em seus nobres propósitos de dar (sobre)vida ou energia a um mandato em que até sua fidelíssima base de apoio já dava como Mortinho da Silva Xavier, ele conseguirá animar, arrebatar, eletrizar, como só uma liderança carismática como a do Digníssimo é capaz de galvanizar as massas, atropelar o processo, de maneira tal que até a comunidade de informações temerá ficar em maus lençóis no novo quadro político que resultará da talvez precoce utilização da minha destemida ideia…

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Debate Interditado

livros-proibidosEm um momento de retrocesso do social-desenvolvimentismo para o neoliberalismo, o debate das decisões cruciais – aquelas que mudarão o contexto brasileiro de maneira irreversível a não ser à custa de haver muitas perdas de rendas e riquezas –, na mídia (impressa e televisa) nacional, está interditado. O denominado PIG (Partido da Imprensa Golpista) só publica colunas e artigos daqueles que apoiaram (e ainda mantém o apoio a) o golpe parlamentarista.

Qual é o problema de não aparecer o contraditório, sufocando vozes oposicionistas e discordantes tanto do ajuste fiscal quanto da reforma da Previdência Social? Os tomadores das decisões, seja do Poder Executivo golpeado, seja do Poder Legislativo não eleito para aprovar este programa de governo, que foi derrotado em 2014, erram ao não analisar todas as consequências políticas e socioeconômicas de seus atos unilaterais!

Retirando o poder dos eleitores escolherem o programa governamental, a própria democracia eleitoral é sequestrada por vinte anos. Impõe-se uma ditadura econômica, pois a maioria circunstancial do Congresso aprovou um artigo constitucional que, praticamente, impede o Estado brasileiro de ter uma atuação anticíclica contra a grande depressão econômica. Continue reading “Debate Interditado”