Políticos usam economistas como os bêbados usam o poste: mais para apoiar do que para iluminar

Robinson Borges (Valor, 15/05/18), editor de Cultura, publicou um artigo interessante intitulado “Economistas são de Marte, políticos são de Vênus”. Compartilho-o abaixo.

“Uma candidatura à Presidência começa a se desenhar de forma consistente e logo é convocada a associar sua campanha a economistas, de preferência com algum verniz da academia ou do mercado, para ganhar legitimidade e decolar. Com a chegada do vencedor ao poder, é preciso transformar a poesia da campanha em prosa, um processo com certo potencial de colisão entre as esferas econômica e política e que faz ecoar a máxima de Alan Blinder: “Os políticos usam os economistas como os bêbados usam o poste, mais para apoiar do que para iluminar”.

Blinder sabe do que fala. Além de renomado professor em Princeton, é veterano das guerras de poder em Washington, onde foi vice-presidente do Federal Reserve, conselheiro econômico do ex-presidente Bill Clinton e integrante da equipe de campanhas democratas.

Sua questão é: qual o papel da equipe econômica em um governo? Apesar de estarem no centro de muito do que é formulado, os economistas se tornam, quase sempre, coadjuvantes em sua implementação. “Como muitos economistas, pensava que não havia lógica na política. Mas há: é a lógica política”, diz Blinder em conversa com esta coluna. Continue reading “Políticos usam economistas como os bêbados usam o poste: mais para apoiar do que para iluminar”

Queda do Cupom Cambial X Carry Trade

Fórmula do cupom cambial: (i – i*) – ê = 0, onde i é o juro doméstico, i* o juro externo, e ê a taxa de câmbio esperada. A paridade entre esses juros afeta a expectativa dos especuladores em relação à cotação futura do dólar em moeda nacional.

José de Castro (Valor, 17/04/18) informa que o recuo a mínimas históricas do diferencial de juros entre o Brasil e o mundo tem provocado mudanças estruturais na dinâmica do mercado de câmbio doméstico. O real tem sentido com mais intensidade momentos de aversão a risco, já que não conta da mesma forma que antes com o “escudo” dos juros altos.

A moeda brasileira tem operado persistentemente abaixo do que alguns acreditam ser seu valor de equilíbrio com base em fundamentos. Mas mesmo esse conceito começa a ser questionado, uma vez que parte do mercado considera que a nova realidade de juro baixo enfraquece desde já o nível “correto” para o câmbio, justificando a depreciação aprofundada recentemente.

O real tem operado nos menores patamares em cerca de dois anos frente a seus principais pares. Não por acaso, é período que coincide com a queda da taxa Selic a níveis nunca antes testados.

Em janeiro de 2017, o diferencial entre as taxas básicas de juros de Brasil e Estados Unidos estava em 12,5 pontos percentuais. Hoje, é menos da metade (5 pontos). Apesar de o país ainda ostentar bons fundamentos — na forma de grande volume de reservas internacionais, baixo déficit em conta corrente e perspectiva de retomada econômica [?!] –, a diminuição do chamado “carry“, ou seja, o ganho com a arbitragem de juros, entra como um fator a enfraquecer o câmbio e explica previsões de um dólar estruturalmente mais alto daqui para a frente. Continue reading “Queda do Cupom Cambial X Carry Trade”

Queda do Cupom Cambial: Assustar Lá, Temer Aqui

Alex Ribeiro, Lucinda Pinto, Lucas Hirata, José de Castro e Sérgio Tauhata (Valor, 23/03/18) mostram que a diferença entre os juros básicos nos Estados Unidos e no Brasil, que já era a menor da história do regime de metas de inflação, estreitou-se ainda mais depois que o Banco Central cortou a meta para a taxa Selic para 6,5% ao ano e o Federal Reserve (Fed, o BC americano) subiu a sua taxa básica para a faixa entre 1,5% e 1,75% ao ano.

Os altos juros vigentes no país sempre foram um dos fatores apontados por exportadores como os que levam a uma valorização do câmbio, que prejudica o embarque de produtos ao exterior. A teoria econômica diz que, quando a diferença de juros interno e externo se reduz, a taxa de câmbio deveria se desvalorizar. Mas a cotação do dólar tem apresentado movimentos que têm pouca relação com os juros. Atualmente, a moeda americana gira em torno de R$ 3,30, em meio ao receio de guerra de comércio global.

“O diferencial de juros é apenas um componente que influencia a taxa de câmbio”, diz o economista José Júlio Senna, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. “Deve-se olhar outros fatores, como a diferença de crescimento entre as economias, as condições econômicas mais gerais e o estado de espírito dos investidores para assumir riscos.”

Esses são os cinco fatores determinantes da taxa de câmbio — três fundamentos macroeconômicos, a especulação no mercado de câmbio futuro, e a regulação pela Autoridade Monetária:

  1. paridade entre a taxa de juros interna e a externa;
  2. saldo do balanço de transações correntes;
  3. paridade do poder de compra interno e externo;
  4. posicionamento predominantemente “comprado” ou “vendido” no mercado futuro de câmbio;
  5. política cambial.

Hoje, a diferença entre os juros de Brasil e Estados Unidos é de 4,75 pontos percentuais, menor do que os 5,25 pontos que havia antes de o Fed subir os juros e o BCB cortá-los. Essa diferença já era a menor da história do regime de metas. A segunda menor foi observada em setembro de 2007, quando a diferença chegou a 6 pontos percentuais por alguns dias. Naquela época, porém, o nível de juros em ambos países era mais alto que hoje. No Brasil, estava em 11,25% ao ano, e nos Estados Unidos chegou a 6,25% ao ano. Continue reading “Queda do Cupom Cambial: Assustar Lá, Temer Aqui”

BCB, Ascensorista Maluco: Selic Desce, Juros Sobe

Eduardo Campos e Alex Ribeiro (Valor, 27/03/18) informam que, pelo segundo mês consecutivo, as taxas de juros cobradas pelos bancos subiram para famílias e empresas, movimento em descompasso com o atual ciclo de reduções que levou a Selic a nova mínima histórica, de 6,5% ao ano.

A taxa de juros com recursos livres subiu 1,1 ponto percentual, para 42,2% ao ano em fevereiro, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC). No bimestre, a alta foi de 1,9 ponto. Para pessoas físicas, a taxa média foi de 57,7% ao ano no mês passado, avançando de 55,8% em janeiro.

A alta dos juros reflete o aumento dos spreads, diferença entre o custo do dinheiro para o banco e para o tomador final. No crédito livre, o spread médio teve alta de 1,2 ponto em fevereiro, para 34,1 pontos percentuais. Há um ano, esse spread estava em 42,4 pontos. Considerando apenas as operações com pessoas físicas, o spread fechou o mês em 49,2 pontos. Já a taxa de captação dos bancos caiu a 8,1% ao ano em fevereiro, sendo de 8,5% para pessoas físicas e 7,6% para empresas. Em fevereiro de 2017, esse custo era de 10,6 pontos.

Os bancos costumam ter uma postura muito cautelosa em um cenário de incertezas pela frente e, de certa forma, era até esperado que aumentassem o spread. Poucos esperam que os bancos deem o primeiro passo para um novo ciclo de expansão do crédito e a tendência é de as instituições preferirem manter o preço do crédito alto para inibir a demanda e selecionar as concessões.

Qual é a credibilidade desse falso discurso apologético (e “chapa-branca”) da “recuperação”?! Bancos demonstram que não são bestas para acreditarem nele… Continue reading “BCB, Ascensorista Maluco: Selic Desce, Juros Sobe”

Inflação Superestimada por Causa dos Juros Superamados pelos Rentistas

Fabio Graner (Valor, 03/04/18) informa que, no último ano e meio, marcado pelo processo de distensão monetária no Brasil, o Banco Central vem sistematicamente errando para cima suas projeções para variação mensal dos índices de preços. Os dados, divulgados trimestralmente pela autoridade monetária no ​Relatório Trimestral de Inflação (referente ao primeiro trimestre de 2018), mostram que de setembro de 2016 (definido pelo próprio órgão como marco zero do atual ciclo de política monetária) até fevereiro, o BCB superestimou a inflação. E daí deu uma overdose de juros, especialmente para os clientes do segmento Private Banking.

Ganho financeiro per capita de dezembro de 2015 a dezembro de 2017: 7.262.574 clientes do Varejo Tradicional: R$ 736,65; 3.776.676 clientes do Varejo de Alta Renda: R$ 18.284,49; 117.421 CPFs Private Banking: R$ 1.726.730,00; 56.619 Grupos Econômicos Familiares Ricaços: praticamente sem investir dinheiro novo, cada qual ganhou de juros R$ 3.338.319 nos dois anos do golpe!

Isso só não ocorreu em dezembro do ano passado, quando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,44%, ante uma taxa projetada pelo BC de 0,29%. Nos outros 15 meses, o BC errou sempre para cima as suas projeções mensais para a inflação oficial. A soma simples desses erros é de 2,36 pontos porcentuais, ou seja, esse é o montante que se pode dizer que é quanto o BC esperou a mais de inflação em todo esse período de um ano e meio de ciclo de afrouxamento monetário.

Se for considerado todo o período de gestão do atual comando do BC, presidido por Ilan Goldfajn, essa soma de erros é um pouco menor: 1,88 ponto porcentual. Isso porque nos primeiros três meses completos de gestão do atual colegiado a autoridade acertou em cheio a projeção de junho de 2016, mas subestimou os dois meses seguintes, que tiveram índices mais altos do que se esperava. A partir de setembro daquele ano é que o BC passou a sistematicamente prever um IPCA maior do que efetivamente se realizou.

Para se ter uma ideia da dimensão, o tamanho do erro no período de distensão monetária representa pouco mais de 50% de toda a inflação do período. Quando se considera desde junho de 2016, a soma dos erros foi equivalente a praticamente um terço da variação de 5,8% acumulada pelo IPCA até fevereiro passado. Continue reading “Inflação Superestimada por Causa dos Juros Superamados pelos Rentistas”

Dependência de Trajetória: Seca-Choque Tarifário-Choque Inflacionário-Choque de Juros

Confira no gráfico acima que os neoliberais (1995-2006 e 2015-2016) liberam os preços administrados  e os desenvolvimentistas (2007-2014) colocam as empresas de serviços de utilidade pública trabalhando em favor do seu público-alvo: o povo brasileiro. Os esnobes acionistas minoritários dessas empresas criticam essa postura como “populista”. E golpeam o governo social-desenvolvimentista!

De janeiro de 1995 a maio de 2016, o conjunto dos preços administrados do IPCA avançou 664,1%, enquanto o conjunto dos preços livres aumentou 301,3%. Entre os preços administrados que mais subiram, destacam-se os preços de gás de botijão (1257,8%) e plano de saúde (820,4%).

No período mais recente, de janeiro de 2015 a maio de 2016, a inflação dos preços administrados (19,7%) também foi maior que a inflação dos preços livres (12,0%). Esse comportamento antes do golpe parlamentarista foi o contrário do que ocorreu nos anos imediatamente anteriores (2012 a 2014), refletindo um realinhamento daquela em relação a esta. No segundo semestre de 2017, os preços administrados foram elevados, significativamente, enquanto os preços livres, por causa da deflação de alimentos, despencavam.

O  texto FAQ 05 – Preços Administrados integra a série Perguntas Mais Frequentes (PMF), editada pelo Departamento de Relacionamento com Investidores e Estudos Especiais (Gerin) do Banco Central do Brasil (BCB). Aborda temas econômicos de interesse de investidores e do público em geral. 

No Brasil, o termo “preços administrados por contrato e monitorados” – doravante simplesmente preços administrados – refere-se aos preços que são menos sensíveis às condições de oferta e de demanda porque são estabelecidos por contrato ou por órgão público. Como esses contratos preveem, muitas vezes, reajustes de acordo com a inflação passada, pode-se afirmar que essa indexação parcial à inflação ocorrida torna esses preços efetivamente “dependentes do passado” e pouco sensíveis ao ciclo econômico.  Continue reading “Dependência de Trajetória: Seca-Choque Tarifário-Choque Inflacionário-Choque de Juros”

Crítica Ultraliberal à Política Anticíclica de Crédito Farto e Barato

A leitura do livro de Nicholas Wapshott, “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história” (Rio de Janeiro: Record, 2016), permite-nos entender porque Hayek, prócer da Escola Austríaca de pensamento econômico, critica a sugestão keynesiana de elevação da quantidade de moeda para baixar a taxa de juros. Por meio desta influenciar na demanda pelos bens de consumo, de um lado, e na expansão da capacidade produtiva de outro. Seu contra-argumento é que o excesso de moeda tende a baixar o preço dos empréstimos, enquanto torna a poupança menos atraente e leva a aumento de preços dos bens de consumo. Adota a doutrina da poupança forçada.

A concessão de crédito ao consumidor, que os keynesianos defendem como uma cura para a depressão, tem, nessa visão ultraliberal, efeito muito contrário. Tal “demanda artificial” meramente adia o dia do ajuste de contas.

O único caminho para mobilizar todos os recursos disponíveis é não usar estimulantes artificiais — durante uma crise ou para a retomada do crescimento —, mas deixar que o tempo efetue uma cura permanente. Para Hayek, não há caminho curto e fácil para sair de uma recessão. Em longo prazo, é fácil: promete que o livre mercado restaurará por si só o equilíbrio da economia, em que todos estariam empregados. O que fazer? Nada a fazer, exceto evitar o viés da ação. Tomar, então, calmante e chá de camomila.

A Escola Austríaca nos faz lembrar aquela velha piada corporativa sobre uma maneira rápida de identificar se alguém é um economista. Pergunte ao sujeito qual é a diferença entre ignorância e indiferença. Se ele responder “Eu não sei e não quero saber”, pode estar seguro que é um economista. Agora só resta a questão de o que fazer com eleContinue reading “Crítica Ultraliberal à Política Anticíclica de Crédito Farto e Barato”