Inflação e Transmissão da Política de Juros

Escrevi um relatório de pesquisa com dois grandes objetivos. O primeiro é repensar a atualidade das Teorias de Inflação existentes antes do Plano Real, implementado em 1994. O segundo é entender quais são os critérios de análise do COPOM para a fixação de juros disparatados em relação aos do resto do mundo. Clique para download:

Fernando Nogueira da Costa – Inflação e Transmissão da Política de Juros – junho 2022

Há, na atual equipe econômica, dois típicos Vieses Heurísticos (ou “irracionalidades”).

A diretoria do Banco Central do Brasil pratica o Viés da Ação, ou seja, torna-se ativa mesmo quando de nada adianta. Age como os homo sapiens, no início da evolução humana, quando a atividade compensava face à reflexão. A prudência na espera (ou inação) não valeria nenhum reconhecimento público.

Já a equipe do Ministério da Economia só é notável pelo Viés da Omissão. Como tanto uma omissão quanto uma ação, pensa o prócer dela, não evitaria o retrocesso econômico nacional, de acordo com sua ideologia, ele opta pela omissão.

Para os adeptos do Estado mínimo parece ser mais inofensivo. Um dos mantras ilusionistas do ministro da Economia, cujo único (e irônico) sucesso pode ser medido pelo número de executivos de banquetas e empresas repetindo um lugar-comum: “seu mérito não está naquilo feito, mas sim naquilo deixado de ser malfeito pelo Estado”.

Alimentando esta ilusão neoliberal, o ministro da Economia busca seu apoio entre os idiotas, aqueles sem desconfiar do mal, feito a si e aos outros. Desafia quem duvidava de sua coabitação com o oportunismo das “pedaladas fiscais” eleitoreiras…

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Experiência é um farol voltado para trás…

Down Jones (14/06/22) informa: as últimas semanas, altos funcionários do governo do presidente Joe Biden e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) admitiram publicamente que cometeram erros ao lidar com a inflação. Por trás de seus erros estava uma leitura equivocada da economia.

Assessores do presidente Biden e funcionários do Fed temiam a pandemia de covid-19 e as restrições relacionadas ao evento trazerem consequências semelhantes à crise financeira de 2007-2009: demanda fraca, crescimento lento, longos períodos de alto desemprego e inflação muito baixa.

Então eles aplicaram a última cartilha à nova crise. O Fed apostou em políticas de juros baixos que acreditava terem sido eficazes e geralmente benignas, e prometeu não recuar prematuramente. Autoridades eleitas concluíram terem confiado demais no Fed anteriormente e decidiram gastar mais agressivamente desta vez, começando com o presidente Donald Trump e culminando com o US$ 1,9 trilhão em estímulos do governo Biden.

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Debate sobre Programa Econômico de Lula: Entrevista de Guilherme Mello

Fernando Canzian (FSP, 11/05/22) informa: as primeiras diretrizes do plano de governo da chapa Lula-Alckmin preveem o fim do teto de gastos e a revogação da reforma trabalhista, mudanças aprovadas no governo Temer (2016-1018).

Segundo o professor da Unicamp Guilherme Mello, 39, coordenador do Núcleo de Acompanhamento de Políticas Públicas – Economia do PT (que compartilha a função com Aloizio Mercadante), um eventual governo Lula buscará um novo regime fiscal, baseado em experiências internacionais, que priorize o gasto social, dinamize a economia e reduza a relação dívida/PIB —principal indicador de solvência do país.

“Temos 33 milhões de pessoas passando fome. A prioridade é atender essas pessoas com políticas públicas” diz Mello. “Do ponto de vista do economista, isso é gasto. Mas há o impacto multiplicador desse gasto.”

Mello defende que o PT foi e voltará a ser responsável fiscalmente. “Se tem alguém que pode falar em responsabilidade fiscal, esse alguém é o Lula.”

Sobre a reforma trabalhista, afirma que não se trata de “voltar para a antiga CLT (Consolidação das Leis do Trabalho)” e que nem tudo na área que foi aprovado no governo Temer “não presta”.

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Oportunidade para Alteração da Política Monetária

Alessandra Saraiva (Valor, 25/05/22) coloca para o debate público uma novidade: mudar do Regime de Tripé Macroeconômico para o Regime de Flutuação “Suja” do Câmbio e Meta de Crescimento com o fim do Teto de Gastos, Câmbio Livre e Meta de Inflação.

A economia brasileira poderia crescer mais, caso efetuasse mudanças na política monetária atual. A tese é defendida pelos economistas Ricardo de Menezes Barboza e Maurício Busnello Furtado no estudo “Dez propostas para a política monetária”, a ser publicado no livro “O labirinto visto de cima: saídas para o desenvolvimento do Brasil”.

As linhas de ação defendidas pelos especialistas são ousadas e incluem até mesmo alterar composição do Conselho Monetário Nacional (CMN) para definição de metas de inflação. Mas as mudanças, mesmo grandes, são necessárias, no entendimento dos economistas. Para eles, do jeito que estão montadas hoje, a política monetária, bem como regime de metas inflacionária, funcionam como espécie de “freio” para crescimento maior da economia.

“Quando você tira os ‘freios´, você permite crescimento mais alto. Deveríamos parar de colocar a política monetária como forma de combater a inflação apenas“, resumiu Barboza, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

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Política Cambial e Crescimento

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe.
Simão Silber é professor da FEA-USP
Francisco Vidal Luna é professor da FEA aposentado
Roberto Zagha foi professor Assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia.

Como de hábito semanal, publicaram artigo (Valor, 18/05/22) desenvolvimentista. Compartilho-o abaixo.

Criou-se a convicção de que um real forte é positivo para o país. Há um sentido de euforia quando o real se aprecia frente ao dólar, de desânimo quando se deprecia.

Quando o real se aprecia os ganhos são muitos. Os brasileiros podem importar produtos estrangeiros a preços mais baixos. As empresas podem importar máquinas e equipamentos a preços mais baixos. E, já que os preços dos alimentos são determinados em dólares no mercado internacional, seus preços caem em reais, um ganho significativo para o consumidor nacional. Os brasileiros poderão viajar ao exterior a preços mais baixos em reais, acumular ativos no exterior em melhores condições e financiar atividades no exterior a um custo menor. Esses ganhos são consideráveis e valiosos.

Infelizmente, como a economia nos ensina, tudo tem um custo. Obtido de uma maneira artificial, o custo de um real forte se reflete no crescimento.

Um real forte significa que a indústria local deve competir com produtos importados mais baratos, e que as exportações de produtos manufaturados se tornam menos atraentes. O efeito é poderoso. Até os anos 1980 o Brasil era um exportador importante de produtos manufaturados e a indústria doméstica produzia um terço do PIB. A apreciação do real, e sua instabilidade, a partir dos meados dos anos 1990, é um dos principais fatores responsáveis pela desindustrialização do país e pela queda da participação dos manufaturados nas exportações. O impacto sobre o emprego formal foi considerável. A informalidade no mercado de trabalho aumentou a taxas altas.

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Administração da Dívida Pública Brasileira

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe Simão Silber é professor da FEA-USP. Francisco Vidal Luna é professor da FEA aposentado Roberto Zagha foi professor Assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Publicaram mais um artigo (Valor, 03/05/22) sobre os grandes problemas da economia brasileira.

A solvência do governo é um tema recorrente nas discussões sobre a situação econômica do país. Os analistas se alarmam com aumentos da dívida e com caos econômico se a dívida pública não puder ser honrada. Ansiedades compreensíveis à luz de nossa história: o congelamento de ativos financeiros no governo Collor, a crise da dívida externa nos anos 1980 e uma história de moratórias da dívida externa nos primeiros anos da República.

A maioria das pessoas tem dívidas: empréstimo hipotecário, cartão de credito, carro, televisão ou até sapato comprado a prazo exigem pagamentos mensais, as vezes em meses com poucos recursos. Pagar as dívidas exige sacrifícios. Não as pagar gera problemas. A maioria das pessoas não gosta, mas é racional endividar-se. Poupar para comprar uma casa sem se endividar? Significaria anos e anos de aluguéis e de contração de consumo. Ou seja, não se endividar significa um desperdício econômico e de bem-estar e as pessoas estão dispostas a pagar um preço para poder antecipar seu consumo.

Similarmente com as empresas, elas se endividam porque precisam de caixa – pagar os empregados, os insumos, outras despesas – e há defasagens entre entradas e saídas de caixa. As empresas também se endividam porque a demanda pelo que produzem aumenta, e precisam de mais maquinarias ou insumos. Portanto se endividam para financiar investimentos.

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Por um Governo Social-Desenvolvimentista – Baixe o Livro

Escrevi, semanalmente, artigos para o jornal eletrônico GGN do Luís Nassif, compartilhados no meu “bloguinho de esquerda” e na minha rede social: grupos de Whatsapp e e-mails. O Brasil Debate e a Carta Maior, o Portal da Esquerda, aos quais contribuía com artigos, findaram suas heroicas resistências.

Reunindo-os, periodicamente, em livros digitais, em conjunto com outros frutos de pesquisa sistemática e traduções, somei um total de 50 livros digitais aos 25 anteriores a 2020. O leitor deste encontrará seus links, para download gratuito, no fim deste.

Agora, achei oportuno organizar os artigos escritos nos últimos seis meses em ordem metodológica. Apresento-os aqui com um fio-condutor por ordem de abstração: do mais abstrato ou geral para o mais concreto ou decisões práticas de política econômica datadas e localizadas.

Creio a análise do aqui-e-agora ser necessária para o debate eleitoral em andamento. Os eleitores simpatizantes da candidatura Lula desejam, espontaneamente, contribuir com ideias para seu governo com caráter social-desenvolvimentista, isto é, políticas sociais ativas em conjunto com políticas econômicas necessárias para um desenvolvimento sustentável em longo prazo.

Leia mais:

Fernando Nogueira da Costa – Por um Governo Social-Desenvolvimentista. maio 2022

Reducionismo da Economia às Expectativas

An Experiment on a Bird in an Air Pump by Joseph Wright of Derby, 1768

Expectativas de inflação são cruciais para a determinação da própria inflação. Quando a inflação esperada é muito baixa, os agentes econômicos não se preocupam em reajustar preços e salários por conta da perda de poder aquisitivo da moeda. Mas, à medida que a inflação esperada se eleva, trabalhadores passam a reclamar reajustes salariais e firmas tentam repassar seus custos majorados a preços na tentativa de manter a margem de lucro. É a chamada desancoragem das expectativas inflacionárias, tão temida pelos bancos centrais.

O exemplo mais famoso de desancoragem das expectativas ocorreu nos Estados Unidos durante a década de 60 e 70, na esteira do aumento gradual da inflação na década de 60. Quando, em 1973, o primeiro choque do petróleo se abateu sobre a economia americana, profundamente dependente do petróleo, a inflação disparou. Para reduzi-la, o Fed, sob a batuta de Paul Volcker, teve que gerar penosa recessão, na virada dos anos 80.

A situação fiscal pode complicar ainda mais a difícil tarefa do BC de trazer a inflação de volta à meta

Quando me refiro a este episódio aos meus alunos de graduação, costumo explicar o processo de desancoragem das expectativas de inflação fazendo alusão a uma frase famosa atribuída a Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo, a alguns por todo o tempo mas não a todos por todo o tempo”.1

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Canal de Transmissão da Política Monetária

Thiago de Moraes Moreira é consultor em planejamento estratégico e professor do Corecon/RJ, Ibmec/RJ e IE/UFRJ. Publicou artigo (Valor, 15/03/22) sobre canal de transmissão da política monetária.

Um dos temas recorrentes no debate macroeconômico diz respeito aos efeitos que as ações de política monetária provocam sobre o funcionamento da economia, em particular sobre o ritmo de crescimento, geração de empregos e, principalmente, sobre a inflação. Este tema ganhou maior relevância devido à forte expansão dos preços em diversas economias no ano passado, impulsionado no início de 2022 pela explosão nos preços das commodities como consequência da guerra na Ucrânia. Com isso, é crescente a expectativa de elevação das taxas básicas de juros pelos Bancos Centrais ao redor do mundo como resposta à dinâmica inflacionária.

No Brasil, sabemos que, com o mesmo propósito de controle inflacionário, o Banco Central já vem elevando a taxa básica de juros (Selic) desde março do ano passado, que depois de atingir o piso histórico de 2% ao ano em fevereiro de 2021 passou por sucessivos aumentos, e atualmente está 10,75% ao ano, com expectativa de que supere os 12% ao ano até o fim deste ano.

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Receita Fiscal Per Capita: crescimento maior em menores cidades

Marta Watanabe (Valor, 16/03/22) informa: a distribuição da população mais concentrada nas médias e grandes cidades no decorrer das duas últimas décadas e a manutenção de critérios de distribuição de recursos que não acompanharam a transformação dos municípios resultaram num novo retrato quando se considera a receita por habitantes. Os municípios mais populosos, que em 2000 tinham a maior relação de receita per capita considerando as cidades divididas por faixas populacionais, perderam lugar para os municípios com menos habitantes.

Segundo dados levantados e organizados pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP), a receita per capita dos municípios com mais de 500 mil habitantes subiu de R$ 1,99 mil em 2000 para R$ 3,63 mil em 2020. No mesmo período, a receita per capita das cidades com até 25 mil moradores também se ampliou, mas em ritmo muito maior, de R$ 1,44 mil em 2000 para R$ 3,9 mil 20 anos depois.

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Carga Tributária Recorde em 2021 e Estrutura Tributária Regressiva

A carga tributária recorde em 2021, em 33,9% do Produto Interno Bruto (PIB), levantou uma discussão entre os especialistas: o que fazer com esse excesso de arrecadação? Seria o caso de cortar impostos e reduzir o peso sobre os contribuintes?

Embora o tamanho da carga tributária seja uma decisão política, que opõe liberais e social-democratas, no fim das contas qualquer decisão razoável pressupõe avaliação técnica para saber se uma eventual renúncia de impostos é fiscalmente responsável e, portanto, sustentável ao longo do tempo.

Os economistas estão discutindo agora se o aumento da carga tributária em 2021, que em reais chega a R$ 570 bilhões, é permanente ou fenômeno temporário, causado por receitas extraordinárias, pela expansão da economia, pela aceleração da inflação e pela alta dos preços das commodities.

Cortar impostos com base num ganho temporário de receita poderia provocar desequilíbrios fiscais mais adiante, quando o vento favorável passar.

A equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, vem sustentando que um bom pedaço do ganho é estrutural, por isso o governo pode devolver parte dos recursos aos contribuintes com cortes de tributos, como Imposto de Renda (IR) e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

Economista ouvidos por Alex Ribeiro (Valor, 06/04/21) dizem que, se parte dos ganhos for estrutural, ela é menor. Para alguns, a prioridade do governo deveria ser garantir um superávit primário em tamanho suficiente para estabilizar a dívida pública. E dirigir eventuais desonerações tributárias para impostos que aumentem a produtividade da economia.

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Menor Dívida Bruta exige Superávit Primário: Exigência de Tributação de Multinacionais

A inflação elevada de março deve reforçar o cenário de alívio, ao menos temporário, às contas públicas pelo segundo ano seguido. A tendência é que a aceleração da trajetória de preços ajude a diminuir em 2022 a dívida bruta do governo geral, considerada principal indicador de solvência de um país.

Em março, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,62%, o mais alto para o mês desde 1994, segundo o IBGE. Em 12 meses, o indicador subiu de 10,54% em fevereiro para 11,3% em março. A projeção mediana e a mais alta do Valor Data eram respectivamente de 10,97% e 11,09%.

A inflação contribui, mas não é determinante, porque está nos dois lados da equação, pois influencia o PIB e a dívida.

No período entre 2014 e 2016, a dívida teve forte alta mesmo com inflação elevada. Uma diferença em relação àquele período foi a implantação do teto de gastos. Ele agravou a estagflação, porque impede o crescimento real das despesas primárias (excluindo gastos com a dívida) da União.

O alinhamento do Brasil ao padrão de preços de transferência da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE) vai evitar ao país continuar a sofrer perdas de receita de bilhões de reais por ano, afirma Pascal Saint-Amans, diretor do Centro de Política e Administração Fiscal da OCDE, em entrevista a Assis Moreira (Valor,11/04/22).

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