Presidente do Banco Central do Brasil deve desculpas aos Desempregados!

Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central (BC), foi premiado como o Central Banker of the Year 2018 em duas categorias: Global e Américas. É a primeira vez que um brasileiro recebe a premiação na categoria Global. O prêmio, promovido pela publicação britânica The Banker, especializada em finanças internacionais, e pertencente ao Financial Times, foi anunciado em 2 de janeiro, em publicação online exclusiva para assinantes. A versão impressa da revista estará circulando durante o Fórum Econômico Mundial, entre os dias 23 a 26 de janeiro, em Davos, na Suíça.

Em entrevista ao veículo em dezembro do ano passado, Goldfajn afirmou que 2017 foi um ano extraordinário. “Iniciamos 2016 com inflação de quase 11% e, quando assumi, a inflação diminuiu apenas para 9%. Tínhamos um desafio no final de 2016 de ancorar expectativas antes de começar a reduzir as taxas de juros. Ter sucesso nisso nos ajudou bastante porque as expectativas diminuíram antes de a inflação cair”, afirmou.

Ancorar expectativas” é um eufemismo — uma figura de linguagem que tem o objetivo de suavizar uma expressão que possa ser desagradável — para a extraordinária concentração de riqueza financeira e a brutal taxa de desemprego, ambas agravadas com o retardo para baixar da taxa de juros Selic, que esteve em 14,25% aa de 29/07/2015 até 19/10/2016, depois de taxa de inflação medida pelo IPCA estar caindo desde fevereiro do ano atrasado.

Cada um dos 115 mil clientes do Private Banking acrescentou à riqueza per capita quase um milhão de reais, em 2016, sem colocar dinheiro novo, ou seja, somente devido à taxa de juros elevadíssima, mantida durante quinze meses. A taxa de desemprego atingiu 13,7% em março de 2017: quase catorze milhões de pessoas desocupadas!

O presidente do Banco Central do Brasil deveria pedir desculpas  pela taxa de inflação em 2017 ter atingido em 2,95% no ano, provando que houve uma overdose de juros desnecessária ao combate da inflação, apenas benéfica para a casta dos mercadores-rentistas, que o aplaudem, e prejudicial aos desempregados, que o vaiam. Afinal, o Central Banker of the Year 2018 não tem vergonha de seu “erro técnico”: ter combatido choque tarifário (preços administrados) e choque de oferta com overdose de juros?!

Quando houve a desinflação de alimentos — graças ao “papai-do-céu” que enviou chuvas e boas safras –, a taxa de inflação caiu, ficando desmascarada a farsa da linguagem de gente de O Mercado: “ancorar as expectivas” significa nada mais do que “ter apoio político para agravar a maior depressão da história econômica brasileira, desempregando gente”! 

Essa linguagem tapeia apenas a turma do “me engana que eu gosto”… Os números dos gráficos e tabelas acima provam, claramente, a barbeiragem do Central Banker of the Year 2018!

Overdose de Juros Reais (acima da Taxa de Inflação):

Taxa de Juros Real Ex-Post no final de 2015:

Taxa de Juros Real Ex-Post no final de 2016:

Taxa de Juros Real Ex-Post no final de 2017:

 

Taxas de Juros Médias Ex-Post Anuais em termos reais (ganho médio de poder aquisitivo ao longo do ano para investimento com 100% CDI):

MÉDIA IPCA SELIC-MERCADO JURO REAL
ANOS ANUAL % a.a. % a.a.
2014 6,33 10,71 4,12
2015 9,01 13,32 3,95
2016 8,77 14,06 4,86
2017 3,46 10,15 6,47
Fontes: IBGE/BCB (elab. Fernando N. Costa)

Leia mais:  Carta de Desculpas do Presidente do BCB aos Desempregados – 2018

Grupos de Receita para Arrecadação Fiscal e Falência do Tesouro Nacional

Estevão Taiar (Valor, 04/01/18) informa que a massa salarial, que já mostrou reação e ajudou a arrecadação do governo federal em 2017, pode ter novamente comportamento favorável aos cofres públicos neste ano. Mas agora, ao contrário do ano passado, a ajuda dos salários para a arrecadação dependerá mais da melhora do mercado de trabalho do que da queda da inflação.

Com base em dados do Tesouro Nacional, o Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado que acompanha as contas públicas, separou os tributos federais em sete grupos distintos de receita, responsáveis por aproximadamente 85% da arrecadação do governo federal. Os outros 15% vêm de receitas menos ligadas à atividade econômica, como aquelas dependentes de concessões e pagamentos de royalties e dividendos.

Cada um desses sete grupos tem um vetor econômico que melhor explica o comportamento da arrecadação dentro dele. Dois desses grupos, cuja soma responde por quase 40% da receita federal, têm como principal vetor econômico justamente a massa salarial. Continue reading “Grupos de Receita para Arrecadação Fiscal e Falência do Tesouro Nacional”

Cenário Macroeconômico para 2018

Se preferir ler diretamente a posição de O Mercado — e não indiretamente através de seus prepostos na imprensa brasileira — leia: Credit Suisse – Cenário do Brasil para 2018 e 2019.

Claudia Safatle (Valor, 15/11/17) informa que o ano de 2018 começa com:

  1. a inflação abaixo do piso da meta,
  2. a menor taxa de juros com perspectiva sustentável,
  3. um déficit residual nas contas externas,
  4. as reservas internacionais em US$ 380 bilhões e
  5. a imaginária recuperação do crescimento de 1,1%, mais do que o dobro dos 0,5% imaginados anteriormente para 2017.

“Trata-se, portanto, de uma singular combinação de resultados que permitiria vislumbrar um vasto período de prosperidade no horizonte”, segundo o “jornalismo chapa-branca”.

O Ministério da Fazenda, sob direção pró O Mercado, alardeou suas expectativas macroeconômicas para 2018.

O corte da taxa Selic para 7% ao ano contribuirá com 1 ponto percentual de crescimento no PIB que deve crescer 3%. Este ano, a política monetária mais uma vez teve efeito contrário e subtraiu 0,8% do produto interno.

A inflação encerra 2017 em 2,9% – abaixo do piso da meta, de 3%, pela queda dos preços dos alimentos – e deve voltar para 4% no ano que vem, ainda abaixo da meta de 4,5%.

Esses dois indicadores podem dar uma ajuda não desprezível ao cumprimento da meta fiscal, na medida em que:

  1. a expansão da atividade melhora a arrecadação de impostos e
  2. o aumento da inflação corrói a despesa.

Mas o ano da sucessão presidencial é também assombrado por um leque de incertezas que pode jogar por terra as duras conquistas obtidas em 2017.

[Fernando Nogueira da Costa: o artificial terrorismo de O Mercado, assombrado pela imprensa brasileira, sempre ameaça a democracia eleitoral brasileira, pressionando os eleitores a não votar no candidato mais popular que o representa. Já vimos isso em 2002…] Continue reading “Cenário Macroeconômico para 2018”

Prefeituras: Gasto Social X Urbanismo

Rodrigo Carro (Valor, 15/12/17) informa que as despesas das prefeituras brasileiras com educação, cultura, saúde e saneamento cresceram mais de 2,5 vezes desde 1972, como proporção dos recursos municipais desembolsados. Já os gastos com urbanismo minguaram nos últimos 44 anos, apesar de a população urbana no país ter mais que triplicado no período. As informações constam de um levantamento realizado pelo site Observatório de Informações Municipais, com base em dados de 1972 a 2016 abrangendo todas as cidades do país.

Em 1972, as despesas relacionadas à urbanização (serviços, infraestrutura e transporte) correspondiam a 27,41% dos recursos gastos pelas prefeituras. Na época, o percentual era superior a todos os gastos com educação, cultura, saúde e saneamento (20,49%). Essa proporção havia se alterado drasticamente no ano passado. No ano de 2016, as despesas com urbanismo haviam encolhido para o patamar de 10,14%, enquanto os gastos com educação, cultura, saúde e saneamento aumentaram para 54,85%.

A vinculação de receitas públicas nas áreas de educação e saúde, a partir da década de 1980, foi decisiva na expansão desses gastos. Atualmente, 25% da receita tributárias e das transferências constitucionais devem obrigatoriamente ser aplicadas na educação por Estados e municípios.

Para o segmento de saúde, o percentual obrigatório – definido pela Emenda Constitucional no 29, de 2000 – é de 15%. Além disso, outras obrigações infraconstitucionais, como o financiamento de programas criados pelo governo federal e implementados pelos municípios, vão automaticamente elevando as despesas com saúde e educação. Continue reading “Prefeituras: Gasto Social X Urbanismo”

Política Econômica para Retomada do Crescimento

A revista ECONOMISTAS n. 26 – out/dez 2017 foi publicada nesta semana pelo COFECON – Conselho Federal dos Economistas:

http://www.cofecon.gov.br/revista-digital/

Contém um artigo escrito por mim, baseado na minha apresentação para o debate ao qual fui convidado no Congresso Brasileiro de Economistas sobre Política Macroeconômica e Retomada do Crescimento.

Coincidentemente, recebi há pouco uma aula de André Modenesi, amigo professor do IE-UFRJ, sobre Políticas Macroeconômicas para Sair da Crise. Indica que o tema é prioritário para o debate eleitoral do próximo ano. É parte do Minicurso ANPEC/AKB, ministrado no XLV Encontro Nacional de Economia realizado em Natal (RN) no dia 13 de dezembro de 2017. Os dois gráficos abaixo foram extraídos de sua aula.

Nem ajuste, nem justo: réplica rápida às estórias que os economistas contam

Assino embaixo do que o meu ex-aluno, José Celso Cardoso Jr., técnico do IPEA escreveu um breve artigo sobre o polêmico Relatório do Banco Mundial, postado na Plataforma Política Social. Esta é organizada pelo meu colega Eduardo Fagnani.

Essa peça de propaganda encomendada por economista neoliberal a seus desprezíveis pares é parte da campanha atual para criminalizar e destruir o Estado desenvolvimentista brasileiro. Recebeu cobertura acrítica e louvação por parte da “grande” mídia brasileira através do Jornal Nacional. É um processo de espalhar a idiotia: não têm consciência do mal que fazem à sua reputação e aos outros.

“As pessoas que tentam tornar esse mundo pior não tiram um dia de folga!

Como é que eu vou tirar?”

(Bob Marley)

O relatório Por um Ajuste Justo do Banco Mundial é uma vergonha! Concebido por encomenda do ex-ministro Joaquim Levy, ainda em 2015, foi escrito já como parte da “onda do golpe” para legitimar, desde fora para dentro do país, a pseudociência econômica que pretende petrificar falácias e convencer os oprimidos a acreditar que são eles próprios os responsáveis pela crise.

Repetindo mantras típicos da pós-verdade, o relatório busca transformar ideologias em verdades científicas. Em seu sumário-executivo, enumera 22 pontos, dos quais eu diria que apenas dois merecem alguma consideração positiva:

  1. no ponto 14, o documento afirma não haver evidências de que as “políticas de apoio às empresas” (leia-se: isenções e renúncias tributárias, Refis e outras), que somaram nada menos que 4,5% do PIB em 2015, tiveram algum êxito no sentido de “impulsionar a produtividade e a geração sustentável de empregos”. Bingo!!!
  2. no ponto 22, o óbvio: “a melhoria da qualidade das despesas públicas exige a institucionalização de um sistema regular e rigoroso de monitoramento e avaliação das políticas públicas.”

Com a ressalva, porém, de que qualidade do gasto deve levar em consideração não apenas a dimensão da eficiência (foco quase exclusivo, e a rigor o menos importante, embora o mais fácil de calcular, dos economistas-capatazes), mas, sobretudo, as dimensões da eficácia e da efetividade, por meio das quais o gasto público pode melhorar a realidade socioeconômica de um país e sua população.

Nos demais 20 pontos-resumo do relatório, um desfile de teorias ruins (caracterizadas por simplismos, reducionismos e economicismos da pior espécie), suposições comportamentais moralistas e pouco apreço à ética da responsabilidade que importa:  aquela que coloca o bem-estar coletivo antes e acima do bem-estar financeiro. Alguns exemplos disso estão elencados a seguir. Continue reading “Nem ajuste, nem justo: réplica rápida às estórias que os economistas contam”

Defesa do Indefensável: Lamentável Papel dos Vendidos a O Mercado

Aurelio Bicalho é economista-chefe da Credit Suisse Hedging-Griffo Asset Management. Como se é de esperar de um “bufão da corte” mais realista do que o próprio rei, ele (Valor, 01/12/17) se dedica à tarefa comum dos subservientes à aliança da casta dos mercadores com a casta dos oligarcas governantes, ambas golpistas e concentradoras de riqueza: defender o indefensável!

Confira minha posição a respeito do desempenho da Autoridade Monetária no Brasil em Desinflação do Tomate. Reproduzo abaixo o contorcionismo verbal do puxa-saco que justifica o enriquecimento financeiro de poucos de suas castas expropriando o emprego e a renda de muitas famílias. Deixar a taxa de juros em 14,25% aa após a taxa de inflação já estar caindo há 8 meses foi um crime lesa-pátria! Continue reading “Defesa do Indefensável: Lamentável Papel dos Vendidos a O Mercado”