De Volta o “Toma De Cá e Dá Prá Lá”

Ranking de Riqueza e Renda por Ocupações

Vetado ano passado pela presidente Dilma Rousseff, o reajuste dos servidores do Poder Judiciário está voltando à pauta do Congresso Nacional, anunciando o agravamento da desigualdade social em renda e riqueza. Veja no ranking acima quanto ganhavam, em 2013, e em média per capita, “os coitadinhos (sic) dos Membros do Poder Judiciário e do Ministério Público” para não cumprirem seu papel de defesa da Constituição brasileira.

Líderes de diversos partidos políticos golpistas se reuniram recentemente com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e deram apoio à proposta de um “tomá-lá-dá-cá”. A Câmara pode votar ainda o requerimento de urgência para que o projeto de aumento seja votado direto no plenário, sem necessidade de ser apreciado nas comissões da Casa.

O veto de Dilma impediu aumentos nas faixas de 53% a 78% para as várias carreiras do Judiciário. O Executivo alegou falta de recursos para bancar esse aumento. Um acordo entre Executivo e Judiciário, após o veto, derrubou essas faixas para patamares de 16,5% a 41,4%.

Na justificativa de seu projeto, o STF diz que as carreiras de nível superior dos Poderes Legislativo e Executivo têm remuneração variando de R$ 14,2 mil e R$ 26 mil, para os níveis inicial e final. Um Professor Titular das Universidades estaduais paulistas (USP-UNICAMP-UNESP) tem o teto de sua carreira, baseada em mérito e/ou títulos, cortado para R$ 21.600 pelo governador tucano do Estado de São Paulo.

A remuneração de um Analista Judiciário está atualmente entre R$ 8,8 mil e R$ 13,2 mil. “Verifica-se, portanto, que o nível final da carreira de Analista Judiciário não atinge, sequer, o inicial das carreiras tomadas como referência”, argumenta o projeto do STF enviado em 2015, assinado por vários ministros da Corte. O que o projeto não diz é que o salário mensal de Ministro do STF vai para R$ 39.900 em um efeito-cascata também para os membros do Poder Legislativo corruptos que aprovarão o aumento para depois serem julgados pelos beneficiados!

Antonio Lassance, cientista político, em seu blog, mostra que “o STF nunca viu golpe no país”! Leia abaixo seu post e julgue se você acha justo remunerar essa gente golpista, voltada para seus próprios interesses de acumulação de riqueza pessoal.

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Identidade Nacional: Qualé?

selo_debrunNo final da década de 80, Michel Debrun trabalhava na introdução de um livro sobre a identidade nacional brasileira, que permanece inédito até hoje. O Jornal da  Unicamp publicou (Identidade: Tema Central de Michel Debrun) alguns excertos do  esboço dessa introdução, cuja versão integral pode ser consultada nos arquivos do  Centro de Lógica da Unicamp.

Nestes apontamentos, Debrun delineia sua concepção do modelo identitário brasileiro e tece considerações sobre seus principais traços. Neste momento de um golpe jurídico-midiático-parlamentarista em andamento no Brasil e de intolerância e ódio mútuos entre “coxinhas” e “mortadelas”, vale resgatar suas observações de um arguto observador estrangeiro da cena brasileira.

O que é ser brasileiro? Será mesmo que faz sentido falar desse “ser”? É fácil afirmar a existência da nação brasileira, se atentarmos apenas para os aspectos geográficos, jurídicos ou diplomáticos. E definir a identidade brasileira como o atributo, a etiqueta do conjunto populacional, ou dos indivíduos, que vivem dentro desse quadro formal. Mas parece que Nação e identidade nacional exigem algo mais. Como, por exemplo, um consenso em torno de certos valores, e uma diferença entre ele e outros tipos de consenso, ou entre diferentes consensos nacionais. Ora, desde os fins do século XIX, muitos têm duvidado seja da coesão brasileira seja da diferença específica do Brasil. Continue reading “Identidade Nacional: Qualé?”

Impossibilidade do Julgamento da Verdade por Parte de Políticos

Fora Cunha

Como estabelecer que alguma coisa é verdadeira ou falsa? Quem é o portador da verdade? O que torna verdadeiro ou falso o portador da verdade?

A verdade é uma propriedade? Ou a verdade é apenas uma ferramenta conveniente da nossa retórica?

A verdade é apenas um ponto de vista? É incorreto ver a certeza como o critério da verdade porque não se pode alcançar nenhuma certeza simplesmente com o oposto da mentira.

Segundo a Wikipedia, a filosofia estuda a verdade de diversas maneiras. A metafísica se ocupa da natureza da verdade. A lógica se ocupa da preservação da verdade. A epistemologia se ocupa do conhecimento da verdade.

Por exemplo, o modo como sabemos que estamos sentindo uma dor, devido a um golpe na democracia brasileira, é diferente do modo como sabemos que há possibilidade de impeachment na Constituição na eventualidade de cometimento de crime de responsabilidade. A dor é subjetiva, determinada pela introspecção. O fato de existir impeachment na Constituição brasileira é apenas um fato objetivo, determinado pela percepção, ou seja, por observações que podem ser partilhadas com outras pessoas, seja por raciocínios lógicos, seja por cálculos políticos oportunistas.

Há ainda a distinção entre verdades relativas à posição de alguém e verdades absolutas. Os físicos adotaram a Teoria da Relatividade desde o início do Século XX. Porém, os filósofos analíticos apontam que a visão relativista é facilmente refutável.

A refutação do relativismo baseia-se no fato de que é difícil para alguém declarar o relativismo sem se colocar fora ou acima da declaração. Isso acontece porque, se uma pessoa declara que “todas as verdades são relativas” aparece a dúvida se essa afirmação é ou não é relativa:

  1. se a declaração não é relativa, então, ela se auto-refuta, pois é uma verdade sobre relativismo que não é relativa;
  2. se a declaração é relativa, conclui-se que a declaração “todas as verdades são relativas” é uma declaração que pode ser falsa;
  3. se todas as verdades são relativas, incluindo a própria afirmação de que “todas as verdades são relativas”, então, o interlocutor não é obrigado a crer na afirmação e está é livre para acreditar, inclusive, no contrário, ou seja, que “todas as verdades são absolutas”!

Lembrando-se dessas considerações sobre a Verdade, fica evidente que não se julgou na Câmara de Deputados se é verdade que a Presidenta da República cometeu ou não crime de responsabilidade. Julgou-se, simplesmente, o interesse político e econômico de cada deputado em maximizar as chances de sua carreira de político profissional – e, para esse jogo de interesses pessoais oportunistas, a maioria dos deputados demonstrou que pouco lhe importa a democracia! Continue reading “Impossibilidade do Julgamento da Verdade por Parte de Políticos”

Declaração de Voto Boçal: Vergonha para o País

bocalnaroO que eu tenho a ver com isso?

“Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais democratas, eu calei, porque, afinal, eu não era social democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles levaram a mim, não havia mais quem protestasse” (Martin Niemöller).

Boçal é “aquele que é falto de cultura; ignorante, rude, tosco. Por extensão é aquele que é desprovido de inteligência, sensibilidade, sentimentos humanos; besta, estúpido, tapado”. No passado, “esse adjetivo pejorativo foi lançado contra o escravo negro recém-chegado da África, que ainda não falava o português”.

A etimologia da palavra vem do espanhol bozal, como adjetivo referindo-se ao ‘que ainda tem bozo (‘açaimo de boca’), ‘inexperto, bobo’ (1495); como substantivo ‘açaimo de cães; focinheira etc.’ (1570). É uma palavra derivada do substantivo espanhol bozo (‘parte do rosto próxima da boca’) do século XIII.

Segundo Nelson de Sá (FSP, 19/04/16), na mídia televisa brasileira, apenas no “Jornal da Band”, Ricardo Boechat (veja o link) se manifestou e se viu isolado no questionamento ao deputado Boçalnaro por “dedicar o seu voto à memória de um notório torturador. Torturadores não têm ideologia. Torturadores não têm lado. Torturadores são apenas torturadores. É o tipo humano no nível mais baixo que a natureza pode conceber. São covardes, são assassinos e não mereceriam em momento algum serem citados como exemplo.”

A OAB anuncia que vai pedir ao STF (Supremo Tribunal Federal) a cassação do mandato de Bolsonaro. De acordo com tratados internacionais, a tortura é crime contra a humanidade.

Em nota, “a OAB repudia de forma veemente as declarações do deputado, em clara apologia a um crime ao enaltecer a figura de um notório torturador, quando da votação da admissibilidade do processo de impeachment da presidente República Dilma Rousseff. Não é aceitável que figuras públicas, no exercício de um poder delegado pelo povo, se utilizem da imunidade parlamentar para fazer esse tipo de manifestação num claro desrespeito aos Direitos Humanos e ao Estado Democrático de Direito“.

No exterior, o inglês “Guardian“, que já havia dedicado longo perfil ao fenômeno fascista brasileiro, Jair Bolsonaro, noticiou que o impeachment foi aprovado por um Congresso “hostil e manchado pela corrupção”.

Brasil adota democracia pela metade e cava a sua sepultura

motivos-de-voto no impeachment

A linha editorial da “grande” imprensa brasileira é falaciosa, enganadora, inverídica, confirmando a correção de sua denominação como PIG: Partido da Imprensa Golpista. O leitor culto tem que recorrer à imprensa estrangeira para ler uma análise mais isenta e não venal como é a característica da imprensa deste pobre país. A tradição aqui é que tudo pode ser vendido, a honra é vendável, a ética se corrompe por dinheiro, parece que todos brasileiros são receptivos a suborno. Estamos imersos em um sistema político corrupto.

Confira abaixo o dia seguinte ao golpe parlamentarista em um regime presidencialista de acordo com analistas estrangeiros em uma edição de reportagem de Daniela Chiaretti (Valor, 18/04/16) e uma ótima análise do português Francisco Louçã, fundador e intelectual do Bloco de Esquerda sobre a crise do Brasil. Continue reading “Brasil adota democracia pela metade e cava a sua sepultura”

Exclusivismo Liberal

jesse souza

Criticado por Marcus Melo depois de declarar em entrevista à “Ilustríssima” que o Estado no Brasil é demonizado, Jessé Souza –55, presidente do Ipea, Professor Titular de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense e ex-professor convidado na Universidade de Bremen — argumenta que entre nós o liberalismo tem sido uma forma pragmática e oportunista de defender o que chama de “partido da sociedade para poucos”. Para ele, essa é a questão central do país. Compartilho seu artigo (FSP, 21/02/16) abaixo. Continue reading “Exclusivismo Liberal”