Virtude da Tolerância e Vício da Omissão

Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor Econômico. Escreveu artigo (Valor, 10/09/19) sobre a atual ascensão do neofascismo-neoliberal brasileiro. Reproduzo-o abaixo.

“Quem já conseguiu atravessar as 1.200 páginas da edição condensada da monumental obra de Winston Churchill denominada “Memórias da Segunda Guerra Mundial” pôde notar a decepção do autor com o fracasso das democracias europeias por ter permitido aquela absurda matança do século XX. Cerca de 60 milhões de pessoas morreram durante a guerra, sendo 8% da população da Alemanha e 14% dos habitantes da então União Soviética.

Churchill, que foi primeiro-ministro do Reino Unido durante a guerra, confessa que teria sido extremamente fácil evitar aquela tragédia. Observa que a maldade dos perversos foi reforçada pela fraqueza dos virtuosos; que as recomendações de prudência e continência se transformaram nos principais agentes de um perigo mortal; que o meio-termo adotado em função de desejos de segurança e de uma vida tranquila conduziu ao desastre.

Quando Churchill expõe essas ideias, está falando claramente de omissão. Está dizendo que se pode pagar muito caro por omissões e que elas muitas vezes são mortais.

Depois da Primeira Guerra Mundial, escreve Churchill, teria sido simples manter a Alemanha desarmada e os vencedores aliados armados, para impor um longo período de paz na Europa. Mas não se fez isso.

Em 1936, Adolf Hitler invadiu a Renânia, região da fronteira da Alemanha com a França que havia sido desmilitarizada pelo Tratado de Versalhes no fim da Primeira Guerra. A região era uma barreira natural para uma eventual invasão da França pelos alemães. Violando o Tratado de Versalhes, Hitler enviou suas tropas para a Renânia e os países aliados, para evitar conflitos, toleraram. Acreditaram no blefe de Hitler de que o exército alemão tinha ordens para não resistir e retirar- se da região se houvesse algum confronto.

Em resumo, a eclosão da Segunda Guerra, depreende-se do relato de Churchill, se deu por causa de omissões. Quando Hitler colocou seus exércitos na Renânia, que deveria ficar desmilitarizada, França e Reino Unido disseram “deixa pra lá, ele vai parar por aí”. Mas depois ele invadiu a Áustria, a Checoslováquia e não parou. Quando França e Reino Unido se deram conta, era tarde demais.

Teria sido extremamente fácil, portanto, ter impedido a ascensão de Hitler, segundo Churchill, se os vencedores da Primeira Guerra não tivessem pecado pela omissão. Viram, mas se omitiram quando Hitler tornou o serviço militar obrigatório e foi ampliando seu exército, quando montou as fábricas de munições e quando transformou toda a sua indústria num arsenal bélico. Continuar a ler

Valeu a pena eleger a burrice?

Bruno Bimbi é jornalista e escritor argentino, doutor em estudos da linguagem (PUC-Rio) e autor dos livros “O fim do armário” e “Casamento igualitário” (ed. Garamond). Expressa (FSP, 06/09/19) uma pergunta-chave a ser respondida por muitos brasileiros: valeu a pena eleger o capitão despreparado para o cargo?!

Deve fazer mea culpa quem, no segundo turno das eleições presidenciais de 2018, esteve entre 57,8 milhões de eleitores iludidos. Isso representou 55,1% dos votos válidos e 39,2% do eleitorado total apto a votar, 147,3 milhões de pessoas.

“Desde janeiro, ninguém governa o Brasil. Enquanto Jair Bolsonaro (PSL) insulta e ameaça adversários e jornalistas, seus filhos se dedicam a outras coisas —zero um, a lavar dinheiro da milícia; zero dois, a difamar pessoas com fake news; e zero três, a explicar que ter fritado hambúrguer nos EUA o habilita a ser embaixador. Ninguém cuida dos assuntos públicos, que, em países normais, são prioridade. Não é um mau governo, nem mesmo um desgoverno, mas um antigoverno.

A função do ministro da Educação é destruí-la. Cortando bolsas de pós-graduação e pesquisa, asfixiando as universidades e incentivando a caça às bruxas contra o comunismo imaginário e a inexistente “ideologia de gênero” nas escolas, sua missão é deseducar. Enquanto isso, o presidente e seu guru terraplanista negam o conhecimento científico e reescrevem a história. Da mesma forma, o ministro do Meio Ambiente ataca ONGs ambientalistas, demite cientistas e técnicos concursados, flexibiliza normas e controles e incentiva a depredação ambiental.

Impeachment: quando será?

Rafael Mafei Rabelo Queiroz é professor da Faculdade de Direito da USP. Em artigo (FSP, 18/08/19), ele argumenta o impeachment depender de tempestade perfeita no campo político, embora tenha pressupostos legais definidos, nem sempre bem entendidos. Tecnicamente, algumas atitudes de Bolsonaro poderiam se enquadrar na lei.

Impeachments têm um componente político necessário. Como regra, só vão adiante em cenários de tempestades perfeitas, que unem mau desempenho econômico, ampla insatisfação popular com o governo e escândalos políticos mantidos vivos na imprensa. Mas o ímpeto político não basta.

Quando a remoção de um presidente parece oportuna, é preciso avaliar se ela é juridicamente cabível. A conjectura política pertence ao futuro e a cada novo dia é reavaliada. Já o enquadramento jurídico se apoia no passado, informado por doutrina reconhecida, precedentes relevantes e exemplos comparativos, todos decantados pelo tempo e distantes das nossas disputas presentes.

Considerando-se a largada —e os debates incipientes em torno da situação do presidente Jair Bolsonaro—, é preciso ter clareza de que ele foi eleito para um mandato fixo de quatro anos, em pleito referendado pela Justiça Eleitoral; é chefe do Poder Executivo, com os poderes e prerrogativas inerentes; e o termo de seu cargo não se submete ao capricho do Congresso Nacional.

Depois da largada, porém, vem a vida do governo. Continuar a ler

Geopolítica do Golpe de Estado Brasileiro


Carlos Henrique Vieira Santana é doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (UERJ). Participei da banca julgadora e estabelecemos amizade. Ele é Professor Visitante da Universidade Federal para Integração da América Latina (UNILA) e Associado
Pesquisador do INCT-PPED. Ex-pesquisador da Fundação Humboldt e pesquisador de pós-doutorado na Universidade Técnica de Darmstadt, na Alemanha.

Enviou-me um texto publicado na Alemanha — A  e suas consequências — e solicitou-me sua divulgação: CARLOS HENRIQUE VIEIRA SANTANA – The geopolitics of the Brazilian coup d’Etat and its consequences – Vol9_No1_75_110

Em resumo, diz: além de salientar as conquistas judiciais contra os esquemas corruptos sangrando o balanço de empresas estatais brasileiras, a literatura acadêmica ainda não foi capaz de avaliar as múltiplas implicações alegadamente não intencionais correlacionado com a associação política entre fileiras judiciais e meios de comunicação corporativos
por trás da “caça às bruxas” contra a corrupção no Brasil.

Para entender o golpe de Estado  dado em 2016 no Brasil, duas abordagens distintas são necessárias.

Por um lado, o golpe está fundamentalmente conectado com um processo de longo prazo de epistemologia e batalhas públicas normativas entre as redes profissionais responsáveis ​​pela política de legitimação do Poder Judiciário e Macroeconômico do Poder Estatal. Carlos Santana liga essas lutas às guerras palacianas.

Por outro lado, está relacionado a um papel específico desempenhado pela Geopolítica dos Estados Unidos. Empregando um conceito Clausewitziano de “centro de gravidade” e sua implantação em um novo padrão de guerra não convencional, incluindo uma guerra cibernética [“Feicebuque/Uotzap”], Santana sustenta o programa neoliberal “Ponte para Futuro” ter sido um dos principais mecanismos impulsionados pela guerra híbrida pela qual a democracia brasileira foi golpeada nos últimos anos.

Doente de Brasil (por Eliane Brum)

Com o brilhantismo habitual de sua escrita Eliane Brum (El País, 02/08/19) expressa o pensado por brasileiros lúcidos: “socorro, apertem o cinto, o piloto é insano!

Reproduzo seu artigo abaixo sobre a personalidade de quem parece não estar no domínio de suas faculdades mentais e ser louco, demente, insensato, irresponsável, tresloucado. Na verdade, suas faculdades mentais são estúpidas, formadas pela doutrina implantada na Guerra Fria, durante a ditadura militar brasileira, para enxergar o mundo como um lugar de luta contra os “inimigos”. Está destruindo todos os avanços civilizatórios implantados no Brasil após o regime militar! E seus apoiadores são cúmplices neste crime lesa pátria!

“Jair Bolsonaro é um perverso. Não um louco, nomeação injusta (e preconceituosa) com os efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um outro. O presidente do Brasil é perverso, um tipo de gente que só mantém os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem é do seu sangue ou de quem abana o rabo para as suas ideias. Enquanto estiver abanando o rabo – se parar, será também mastigado.

Um tipo de gente sem limites, que não se preocupa em colocar outras pessoas em risco de morte, mesmo que sejam funcionários públicos a serviço do Estado, como os fiscais do IBAMA, nem se importa em mentir descaradamente sobre os números produzidos pelas próprias instituições governamentais desde que isso lhe convenha, como tem feito com as estatísticas alarmantes do desmatamento da Amazônia.

O Brasil está nas mãos deste perverso, que reúne ao seu redor outros perversos e alguns oportunistas. Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destrói a possibilidade da verdade, os brasileiros têm adoecido. Adoecimento mental, que resulta também em queda de imunidade e sintomas físicos, já que o corpo é um só.

É desta ordem os relatos que tenho recolhido nos últimos meses junto a psicanalistas e psiquiatras, e também a médicos da clínica geral, medicina interna e cardiologia, onde as pessoas desembarcam queixando-se de taquicardia, tontura e falta de ar. Um destes médicos, cardiologista, confessou-se exausto, porque mais da metade da sua clínica, atualmente, corresponde a queixas sem relação com problemas do coração, o órgão, e, sim, com ansiedade extrema e/ou depressão. Está trabalhando mais, em consultas mais longas, e inseguro sobre como lidar com algo para o qual não se sente preparado.

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Liberalismo à Americana X Neoliberalismo à Brasileira

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do Financial Times. Escreveu artigo (Valor, 03/07/19) onde esboça, com um olhar europeu, as diferenças de concepções entre o liberalismo à americana e as concepções adotadas na Europa e no Brasil. Aqui, o neoliberalismo só dá importância ao liberalismo econômico, isto é, à liberdade das forças de mercado. Seus adeptos não se vexam em aliar, de maneira oportunista para alcançar seus intentos rejeitados eleitoralmente pela comunidade, com a extrema-direita!

Então, os neoliberais brasileiros não se incomodam com a defesa dos direitos da minoria. Este é um pressuposto dos liberais à americana. Eles defendem os mercados competitivos como um princípio para viabilizar empreendimentos da comunidade contra a proteção governamental para grandes corporações. Contra o capitalismo de compadrio, A Comunidade se ergue como um terceiro pilar entre O Estado e O Mercado.

“Há também a chamada ideia liberal, que já viveu além de sua utilidade. Nossos parceiros ocidentais têm admitido que alguns elementos da ideia liberal, como o multiculturalismo, não são mais sustentáveis”. Foi assim que Vladimir Putin reivindicou estar do lado certo da história, em entrevista notável ao “Financial Times“.

Mas, como poderia dizer Mark Twain, as notícias sobre a morte do liberalismo são demasiado exageradas. As sociedades baseadas em ideias liberais básicas são as mais bem-sucedidas na história. Elas precisam ser defendidas contra seus inimigos.

O que é “liberalismo”? Para responder a essa questão, primeiro, pediria aos leitores americanos para esquecerem o que liberalismo significa para eles: o oposto de conservadorismo. Trata-se de um significado singularmente americano, que faz sentido no contexto americano: imigrantes que fundaram seu novo Estado com base em um conjunto de ideias liberais – liberais no sentido europeu, de oposição ao autoritarismo.

Quando Thomas Jefferson escreveu sobre a “vida, liberdade e a busca da felicidade” na declaração da independência, ele estava criando a partir de um dos grandes pensadores liberais, John Locke, substituindo “propriedade” por “felicidade”. Continuar a ler

Fórum 21: Reorganização da Sociedade Civil

A direita já organiza uma Internacional Populista como contraponto para enfrentar seu insuperável fantasma: a Internacional Comunista. Seu imaginário necessita sempre criar “inimigos”, mesmo anacrônicos, para aglutinar gente crente no lema “nós contra eles”.

Chegou ao ponto de, em sua construção do mítico “marxismo cultural globalista” se apropriar do Antônio Gramsci, preso pelo regime fascista de Benito Mussolini. Gramsci é reconhecido, principalmente, por sua teoria da hegemonia cultural. Descreve como o Estado usa, nas sociedades ocidentais, as instituições culturais para conservar o poder.

Gramsci sugere haver duas esferas essenciais no interior da superestrutura do capitalismo. Elas conformam o Estado como soma da sociedade política e da sociedade civil. A primeira é o aparato da coerção: função do domínio direto ou comando expressa no braço armado e no governo jurídico. A sociedade civil é constituída pelo conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e difusão das ideologias. Compreende o sistema escolar, as igrejas, os partidos políticos, as organizações sindicais e profissionais, os meios de comunicação, as organizações de caráter científico e artístico, etc.

O Estado é constituído, então, por uma hegemonia revestida de coerção. A dominação social se daria através dessa unidade de repressão violenta e de integração ideológica. No âmbito da sociedade civil, as classes buscam exercer sua hegemonia, isto é, buscam ganhar aliados para suas posições, através da direção e do consenso. O Estado constitui uma unidade contraditória entre a coerção – violência repressiva –, a coesão – dominação ideológica – e a necessidade de reprodução do ‘capital em geral”.

Diante da espontaneidade de reorganizar a sociedade civil, quando deparamos com uma forte regressão em costumes sociais, fui convidado para uma reunião do Fórum 21, existente desde 2014, mas disperso nos últimos anos. É um think thank ecumênico com a proposta de ser uma caixa de ressonância intelectual dessa rearticulação estratégica.

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