O que define a Identidade Nacional

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The Economist (02/02/2017) informa que a ascensão do populismo na Europa e nos Estados Unidos revelou que os eleitores estão profundamente divididos sobre a imigração. Nacionalistas e populistas, de Donald Trump ao Partido da Independência do Reino Unido e a Alternativa para a Alemanha (AfD), proclamam que os governos devem dar prioridade para manter os estrangeiros fora de seus países. Mas fixar o que exatamente faz de alguém realmente um nacionalista ou um xenófobo é complicado. Isto porque, em parte, a identidade é baseada em uma mistura nebulosa dos valores, da língua, da história, da cultura e da cidadania.

Uma nova pesquisa do Pew Research Center, um think-tank, tenta desvendar a idéia de como alguém pode ser julgado ser genuinamente americano, britânico ou alemão. Perguntou aos entrevistados várias características – língua falada, costumes observados, religião e país de nascimento – e como elas eram importantes para ser um nacionalista de seu país. Continue reading “O que define a Identidade Nacional”

Morte da Companheira

 

Lula e Marisa, nos anos 1970

A ex-primeira-dama e mulher do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marisa Letícia Lula da Silva, 66, teve morte cerebral nesta quinta-feira (02/02/17) em razão de complicações causadas por um AVC (Acidente Vascular Cerebral) hemorrágico.

Além do filho de seu primeiro casamento, Marcos, adotado por Lula, Marisa deixa os filhos Fábio, Sandro, Luís Cláudio, a enteada Lurian (filha do ex-presidente com uma ex-namorada), e o marido, Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois foram casados por 43 anos.

Tive a oportunidade de conhecê-la em uma visita oficial que o casal fez à Caixa no primeiro semestre de 2007. No passado, jamais um Presidente da República tinha ido pessoalmente a este banco público. Deu para ver que ela era uma pessoa forte e determinada, com personalidade marcante, embora discreta. Quando dizia algo para o Lula, era imperativa.

Sua morte me deixa extremamente triste pela perda de uma companheira de luta. Até em coma teve de enfrentar discursos de ódio dos direitistas extremados.

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Fascismo na Tropicalização Antropofágica Miscigenada

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Nos últimos tempos, tem-se desenvolvido um novo tipo de abordagem do fascismo que tem como referência o esquema teórico da modernização. Considera os regimes fascistas como uma das formas político institucionais através das quais se operou historicamente a transição de uma sociedade agrária de tipo tradicional à moderna sociedade industrial.

As análises que antecedem — se excetuarmos a tentativa de explicar a implantação do Fascismo na Itália baseada no atraso geral da sociedade italiana — possuem um aspecto comum que é o de situarem os regimes fascistas em um contexto caracterizado, em seu conjunto, por uma situação de avançada industrialização.

São indicadores de um tipo de sociedade que já passou total ou parcialmente à modernidade:

  1. a dinâmica existente entre massas e elites,
  2. o conflito entre a grande burguesia e o proletariado no estágio imperialista do capitalismo, assim como
  3. a revolta das classes médias emergentes.

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Fascismo Latente: Chocando o “Ovo da Serpente”

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Similaridade não é igualdade. É similar o que é da mesma natureza ou espécie. É parecido ou semelhante a outro, mas não é o outro.

O “ovo da serpente” foi chocado durante a hiperinflação alemã nos anos 20 do século XX. Sua casca se quebrou, nos anos 30, durante a Grande Depressão.

Em 1933, o Partido Nazista se tornou o maior partido eleito no Reichstag, com seu líder, Adolf Hitler, sendo apontado Chanceler da Alemanha no dia 30 de janeiro do mesmo ano. Após novas eleições, ganhas por sua coalizão, o Parlamento aprovou a Lei Habilitante de 1933, que começou o processo de transformar a República de Weimar na Alemanha Nazista, uma ditadura de partido único totalitária e autocrática de ideologia nacional-socialista (nazi).

Hitler pregava:

  1. a eliminação dos judeus da Alemanha e
  2. o estabelecimento de uma Nova Ordem para combater o que ele via como injustiças pós-Primeira Grande Guerra, em uma Europa dominada pelos britânicos e franceses.

O conservadorismo crescente que assistimos hoje, aqui e em todo o mundo ocidental, tem raízes similares às desse “ovo da serpente”?

É reação dos reacionários xenófobos contra a imigração dos desterrados pela miséria ou guerra?

É fruto da insatisfação do operariado com perda do emprego industrial e de status social, provocada seja pela globalização, seja pela Grande Depressão pós-2008, e capitalizada politicamente por milionários/bilionários populistas de direita?

Quando lemos os comentários violentos, levianos e estúpidos, seja de colunistas da “grande imprensa brasileira”, seja postados embaixo de qualquer reportagem pró igualitarismo social, ou seja, favorável à esquerda, e lembramos dos ataques fascistas contra minorias na Europa pré-II Guerra Mundial, há similaridade?

Cabe usar o conceito de fascista para classificar a direita brasileira? Continue reading “Fascismo Latente: Chocando o “Ovo da Serpente””

Mídia Norte-Americana e o Viés da Auto Validação

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Nos EUA, a “grande mídia” assume sem disfarce suas posições ideológicas. Aqui finge que é democrática, imparcial, neutra… Lá a expressão “liberal” caracteriza a esquerda democrata, aqui “neoliberal” louva o livre-mercado, mas defende protecionismo estatal para si, é politicamente conservador e adota o golpismo!

Segundo Amir Labaki (Valor, 20/01/17), “Trump foi eleito pelo brucutu branco, pelo machão desesperado diante do avanço no poder das fatias mais progressistas da sociedade americana”. É natural que o presidente republicado tenha se vangloriado da maior votação relativamente ao previsto que recebeu de mulheres, negros e latinos. Nem todos os eleitores de todos os segmentos possuem tirocínio político.

De fato, Trump recebeu 42% do voto feminino, 8 % do afro-americano e 28% do latino. Mas foi mesmo o macho branco pouco escolarizado (67% pró-Trump) que lhe deu a maioria de votos necessária para, mesmo perdendo no total dos eleitores, vencer nos Estados que lhe garantiram a vitória no ultrapassado Colégio Eleitoral. Sua eleição representa a vitória do rancoroso subempregado e do rico inescrupuloso, do “bully” da déli, mas, sobretudo, do caipira da América profunda.

Trump venceu em 80% do total de cidades, sendo superado no total pela vantagem aberta por Hillary nos centros urbanos de maior porte. Foi lá que colou a mensagem antiestablishment e antiglobalização (nacionalismo mais xenofobia) de Trump. Que a roda da de história — 4a. Revolução Industrial com robótica e automatização — inviabilize suas promessas de reindustrialização à antiga pouco importou. “O descompromisso de Trump, com as próprias palavras, eleito como em campanha, escuda-se em um vale-tudo retórico blindado pelo oportunismo reacionário”.

Shannon Bond (FT, 19/01/17) informa que a Fox News, que surfou a onda de interesse em Donald Trump no ano passado, domina a busca por notícias entre os simpatizantes conservadores do presidente eleito, segundo uma nova pesquisa do Pew Research Center. Quarenta por cento dos eleitores de Trump disseram à Pew que sintonizaram o canal de notícias a cabo pertencente à 21a Century Fox, de Rupert Murdoch, para assistir à cobertura eleitoral — muito à frente de qualquer outra fonte de notícias.

A Fox News teve uma relação tumultuada com Trump durante sua campanha presidencial. A Fox beneficiou-se da audiência recorde dos debates entre os candidatos e da transmissão de comícios e discursos de Trump que frequentemente transmitiu, mas Trump também entrou em confronto com Megyn Kelly, ex-estrela apresentadora da rede, insultando-a via Twitter e criticando-a em uma entrevista à CNN.

Em meio a uma proliferação de fontes de notícias — algumas com divulgações falsas sob a aparência de relatos legítimos [“pós-verdade”, sic] — e a ascensão da “Breitbart News“, de extrema direita, a Fox News continua a ser um pilar do conservadorismo americano. Essa tendência ficou evidenciada em pesquisa anterior da Pew sobre polarização política e hábitos de consumo de mídia. Em um relatório de 2014, a empresa de pesquisa descobriu que 47% daqueles que expressaram opiniões políticas “sistematicamente conservadoras” citaram a Fox News como sua principal fonte de notícias sobre o governo e a política.

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Familismo + Nacionalismo = Protecionismo X Globalização

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Martin Wolf (FT, 18/01/17) publicou mais um artigo cult, i.é, culto, bem-informado, analítico. Reproduzo-o abaixo.

A humanidade é tribal. Somos animais sociais e culturais. A cultura nos permite cooperar não apenas em círculos familiares como em comunidades imaginadas. De todas essas comunidades nada está mais perto de família do que “nação”, uma palavra que significa ascendência compartilhada.

Na capacidade de criar comunidades imaginadas está a vitalidade da humanidade e uma de suas maiores vulnerabilidades. A comunidade imaginada define o que as pessoas compartilham. Hoje, como no passado, os líderes fomentam o ressentimento nacionalista para justificar despotismo e guerras.

Durante grande parte da história humana, a guerra foi vista como a relação natural entre as sociedades. A vitória trazia pilhagem, poder e prestígio, pelo menos para as elites. Mobilizar recursos para guerras era um papel central dos Estados. Justificar tal mobilização era um papel central da cultura.

Existe outra maneira para alcançar a prosperidade: o comércio. O equilíbrio entre comércio e pilhagem é complexo. Ambos exigem instituições fortes apoiadas em culturas eficazes. Mas a guerra exige exércitos baseados em lealdade, ao passo que o comércio requer segurança, baseada em justiça.

[FNC: acrescento eu que o comerciante necessita ter empatia com o parceiro, ou seja, colocar-se em seu lugar, para elaborar a melhor proposta aceitável por ambos. Por isso, o capitalismo comercial significou um grande avanço em relação à Era Medieval, quando a riqueza de origem rural implicava na violência da conquista de territórios, matando ou escravizando “os inimigos”. A divisão de trabalho, inclusive entre regiões, que eleva a produtividade, substitui a violência pela cooperação com o parceiro comercial. A relação de inimizade é substituída pela relação de clientela.]

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Articuladores do impeachment são responsáveis pela atual indignidade (por Jânio de Freitas)

a-sombra-do-poder-os-bastidores-do-golpeEstava viajando de férias, mas me chamou a atenção o artigo do Jânio de Freitas (FSP, 15/01/17) reproduzido abaixo. Depois li a respeito do que o ex-“braço-direito-de-Temer”, Geddel Vieira Lima, aprontou quando foi indicado para ocupar o cargo de Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal. Senti-me enojado, porém aliviado por não ter sido colega de um sujeito desse caráter e seus asseclas.

“Não se pode colocar raposas para cuidar do galinheiro”. Este deve ser um princípio básico para barrar qualquer político profissional em cargos de bancos públicos!

Depois do artigo do Jânio Freitas, inclusive com uma sugestão de leitura de um livro recém-publicado sobre o golpe de 2016, reproduzo a notícia sobre o que gente do PMDB aprontou na Caixa.

“A combinação de pessoas e ineficácias a que chamamos de governo Temer tem uma particularidade. Nos tortuosos 117 anos de República e ditaduras no Brasil, jamais houve um governo forçado a tantas quedas de integrantes seus em tão pouco tempo, por motivos éticos e morais, quanto nos oito meses de Presidência entregue a Michel Temer e seu grupo.

Entre Romero Jucá, que em 12 dias estava inviabilizado como ministro, e o brutamontes Bruno Julio, que, instalado na Presidência, propôs mais degolas de presos, a dúzia de ministros e secretários forçados a sair é mais numerosa do que os meses de Temer no Planalto.

Foi para isso que o PSDB, o PMDB, a Fiesp, o jurista Miguel Reale e o ex-promotor Hélio Bicudo, a direita marchadora e tantos meios de comunicação quiseram o impeachment de uma presidente de reconhecida honestidade? Continue reading “Articuladores do impeachment são responsáveis pela atual indignidade (por Jânio de Freitas)”