Polarização Política IV: Capitalismo de Competição para a Comunidade contra o Capitalismo de Compadrio entre Estado e Mercado

É necessária toda a oposição à esquerda abandonar o sectarismo e ter empatia com os possíveis aliados, entre os quais, os liberais clássicos – distintos dos neoliberais aliados com a extrema-direita brasileira. Para tanto, vale ler três livros lançados por professores atuais da Escola de Chicago. Seus títulos são inusitados e provocadores de curiosidade: “Capitalismo para o Povo” (2012); “Como salvar o Capitalismo contra os Capitalistas” (2014); “Terceiro Pilar: A Comunidade entre O Estado e O Mercado” (2019). O primeiro é de autoria do italiano Luigi Zingales, o segundo é de sua coautoria com o indiano Raghuram G.  Rajan, e o terceiro recém-lançado é só deste último.

Zingales afirma os benefícios conferidos pelo capitalismo de mérito reconhecido – em princípio, o norte-americano – não serem mais nem tão grandes nem tão difundidos como antes. Essa mudança enfraquece o apoio político à economia de mercado, mas o que mais prejudica o sistema de livre-mercado é a percepção de as regras não se aplicarem igualmente a todos, porque o sistema é fraudulento.

Essa frustração é semelhante ao sentido por muitas pessoas cada vez mais a respeito do sistema dos EUA como um todo: o jogo parece ser manipulado. As grandes corporações distorcem o funcionamento dos mercados em benefício próprio.

Lá como cá, há uma confusão intelectual entre um sistema pró-mercado e um sistema pró-negócios. Enquanto as duas agendas (Pro Market e Pro Business) coincidirem, encorajará o capitalismo de compadrio.

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Ideias de Karl Polanyi para uma Frente Ampla Progressista

O ex-presidenciável do PDT Ciro Gomes concedeu ao El País (14/11/19) uma entrevista onde anuncia alianças para as eleições de 2020 com PV, Rede e PSB, isolando o PT em outro polo. Em linguagem típica da direita, para se aproveitar ainda do prolongamento da onda antipetista, ele atribui a crise brasileira exclusivamente ao “lulopetismo” e suas “escolhas”. Na visão de Ciro, não existiria bolsonarismo, nem lavajatismo, sem o fanatismo pela figura de Lula e as decisões tomadas pelo ex-presidente.

Para sustentar seu ponto de vista, Ciro argumentou com base na fácil sabedoria ex-post. A história transcorrida provou, sem dúvida, a escolha de quadros para os governos entre 2003 e golpe de 2016 ter sido feita com base em alianças espúrias, seja com partidos apenas fiéis ao fisiologismo, seja com nomeação de quadros sem base no mérito individual, mas sim no compadrio e/ou favoritismo.

Quanto a isso, ele tem razão face às inúmeras traições, infidelidades, deslealdades e oportunismos. Um número muito grande de ministros “cuspiu no prato onde comeu”. Isso sem falar nos empresários beneficiados antes pela chamada “política de campeões nacionais” e depois por delações premiadas sob encomenda.

Diante dessa má nomenclatura, Ciro coloca Lula e a cúpula do PT em um polo oposto ao extremista de direita: o capitão. E tenta se apresentar como uma opção ao centro, disposto a conversar com outros partidos de esquerda e direita. Deixa de lado diferenças programáticas para superar tanto o bolsonarismo, quanto “o lulopetismo” – designação pejorativa, expressa na falida revista Veja e assumida pela direita. A ideia dele é isolar o maior partido da esquerda brasileira – e ser a alternativa de centro.

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Polarização Política III: Iluminismo, Valores Progressistas e Competição contra Moralismo, Conservadorismo e Compadrio

Uma das principais diferenças entre sinopse e resumo é a primeira normalmente ser escrita pelo próprio autor do texto ou obra em questão, o que não se verifica na maior parte das vezes no caso do resumo. Geralmente, a sinopse apresenta o título e o nome do autor, tipo de texto e a ideia principal do texto. Então, ela é diferente de uma resenha, pois não contém a interpretação e nem opinião do seu autor, é formada apenas com a opinião do verdadeiro escritor, muitas vezes parafraseadas.

George Lakoff publicou um livro – Don’t Tink of an Elephant! – há mais tempo (2004), mas continua atualíssimo para o debate público. Analisa a alternativa moral, uma moralidade mais tradicionalmente americana, um enquadramento por trás de tudo motivo de orgulho para os americanos. Para os democratas ganharem eleições, o partido deve apresentar uma visão moral clara para o país – uma visão moral comum a todos os progressistas.

Reenquadramento mental, diz Lakoff, é mudança social. Moldura mental é a maneira como raciocinamos, inclusive, o senso comum, o que seria o bom senso. Em eleição, adverte, os valores morais são mais importantes em lugar de qualquer questão particular.

Ele apresenta a Era do Mito Iluminista dos Liberais de Esquerda. O principal mito é este: “A verdade nos libertará. Se nós apenas dissermos às pessoas os fatos, porque as pessoas são seres basicamente racionais, todas elas chegarão às conclusões certas.”

Na realidade, as pessoas pensam sob forma de enquadramentos. Quando progressistas apenas confrontam conservadores com fatos, tem pouco ou nenhum efeito, pois não entendem como eles pensam.

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Polarização Política II: Pluralismo contra Intolerância, Fake News e Individualismo

Continuamos com nossas breves sinopses sobre a literatura Política recém-publicada. Sinopse é uma espécie de resumo da ideia principal, uma síntese de uma obra literária ou científica. O objetivo é fazer com o leitor entender os pontos principais do texto original, de modo o motivar a se interessar (ou não) pelo resto da obra. É espécie de chamariz para leitura.

Greg Lukianoff e Jonathan Haidt denominaram seu livro de “A Superproteção da Mente Americana” (2018). Trata de Três Grandes Inverdades, espalhadas nos últimos anos:

  1. a Inverdade da Fragilidade: “o que não mata você, deixa você mais fraco”.
  2. a Falsidade do Raciocínio Emocional: “sempre confie em seus sentimentos”.
  3. a Mentira de Nós Contra Eles: “a vida é uma batalha entre pessoas boas e pessoas más”.

Essas três Grandes Inverdades implicam em políticas dos movimentos políticos utilizadores delas, senão por ignorância, com má fé. Elas estão causando problemas aos jovens, às universidades e, mais genericamente, às democracias liberais. Para citar apenas alguns das consequências desses problemas: a ansiedade adolescente, a depressão e as taxas de suicídio aumentaram acentuadamente nos últimos anos.

Contra elas, respectivamente, enfrente cada princípio psicológico com sabedoria.

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Polarização Política I: Democracia contra Racismo, Misoginia, Homofobia e Fascismo

Política é a ação coletiva para reivindicar direitos da cidadania: civis, políticos, sociais, econômicos, de minorias, etc. Segundo os diagnósticos apresentados nos livros lançados recentemente, estamos vivendo Era do Fim do Machismo, Era da Morte ou Fim das Democracias, Era do Populismo de Direita, Era do Neofascismo, Era da Mente Americana Mimada, Era da Pós-Verdade (Morte da Verdade) e/ou a Era Pós-Políticas Identitárias.

Michael Kimmel, no livro “Angry White Men: American Masculinity At The End Of An Era” (2013), indica: os acusados de defesa da Supremacia Branca com raiva doentia colocam a culpa do mal-estar sentido por eles em corporações gananciosas, legislaturas impassíveis, governos locais e estaduais complacentes. Há mudanças culturais capazes de enfurecerem os autodenominados nativos norte-americanos, isto é, os descendentes dos WASP responsáveis pelo genocídio dos nativos indígenas.  Furiosos denunciam:

  1. as mulheres estão mais seguras hoje em comparação a qualquer outra época de nossa sociedade,
  2. os LGBT são mais aceitos e livres para amar quem amam, e
  3. as minorias raciais e étnicas enfrentam menos obstáculos em seus esforços para se integrarem plenamente na sociedade americana.

Acabou a Era do Direito Masculino Inquestionável e Incontestável. Este livro de Kimmel é sobre aqueles homens ainda não cientes disso ou aqueles capazes de sentirem “a mudança no vento”, mas determinados a “conter a maré”.

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Era do Impasse Eleitoral do Parlamentarismo

Gideon Rachman (Financial Times, 05/11/2019) faz uma avaliação do quadro político-eleitoral não estar conseguindo estabelecer uma nítida hegemonia parlamentar em países europeus. Lá não há a fragmentação partidária existente no Brasil e mesmo assim é difícil constituir uma base governista consistente em tempo de intolerância mútua. Na Era do Impasse Democrático, eleições não dão mais o rumo de o resultado ser mais um Parlamento rachado, sem nenhum partido capaz de formar um governo estável.

A Espanha terá eleições – pela quarta vez em menos de quatro anos – em 10 de novembro. Mas são poucas as chances de um partido obter assentos suficientes para tirar o país do impasse político em que se encontra.

Há uma situação parecida em Israel, onde os partidos políticos ainda lutam para formar um governo, depois que as eleições de setembro falharam em resolver o impasse criado pelas eleições de abril. Neste momento, Israel parece caminhar para a terceira eleição em menos de um ano.

Bem-vindos à Era do Impasse Democrático. Países convocam eleições apenas para descobrir que elas não resolvem nada. Então, eles tentam novamente, mas conseguem apenas o mesmo resultado inconclusivo.

Esse padrão emergente em todo o mundo democrático deverá ser uma preocupação para os políticos do Reino Unido. O premiê Boris Johnson convocou uma eleição para 12 de dezembro, alegando que essa é a única maneira de acabar com anos de falta de rumo induzida pelo Brexit. Mas há uma grande possibilidade

Se reeleito, Evo Morales deve ter seu mandato mais difícil na Bolívia.

As situações espanhola e israelense são extremas, mas não são únicas. A quebra do sistema bipartidário alemão levou a cinco dolorosos meses até a formação de um governo de coalizão após as últimas eleições, em 2017. Continuar a ler

Resistência Partidária contra o Neofascismo Brasileiro

Neste gráfico, o Nexo apresenta como os partidos se posicionam em relação ao governo do capitão. Os dados foram obtidos com a API do Congresso Nacional e vão desde o início da atual legislatura até o dia 22 de outubro de 2019. Para atribuir o posicionamento do governo em determinado assunto, tomamos como base o voto do líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo, do PSL de Goiás. Dentre as atribuições do líder está justamente a articulação de bancadas aliadas em votações de interesse do governo.

Depois do próprio PSL, o Novo é o partido que mais se alinha com o governo em suas votações. Ao todo, são 18 siglas com mais de 80% de alinhamento ao governo. Neste grupo estão partidos tradicionais, como PSDB, DEM e MDB, e siglas menores, como Patriotas, Podemos e PMN. Dos partidos de oposição, as siglas que mais se aproximaram do governo foram PDT, PSB e Rede, com mais de 30% de alinhamento. A mais distantes foram o PT, com 11%, PSOL, com 16%, e PCdoB, com 22%.

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