Religião, Violência e Loucura (por José Luís Fiori)

O meu anjo irá adiante de ti e te levará aos amoreus, aos heteus, aos ferezeus, aos cananeus, aos heveus e aos jebuseus, e eu os exterminarei. Não adorarás os seus deuses, nem os servirás; não farás o que eles fazem, mas destruirás os seus deuses e quebrarás as suas colunas.

Êxodo, 23, Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas, São Paulo, p.140.

Na segunda década do século XVI, o humanista cristão Erasmo de Roterdã sustentou um famoso debate teológico com Martim Lutero, sobre a “regra da fé”, ou seja, sobre o critério de verdade no conhecimento religioso (Popkin, R, H., “História do cetecismo de Erasmo a Spinoza”, Francisco Alvez. Rio de Janeiro, 2000, cap. 1).

Essa batalha não teve um vencedor, mas ajudou a clarificar a posição revolucionária de Lutero. Este rejeitou a autoridade do Papa e dos Concílios, e defendeu a tese: todo cristão deveria julgar por si mesmo o que fosse certo e o fosse errado no campo da fé.

Para Lutero, como para Calvino, a evidência última da verdade religiosa era a “persuasão” de cada um dos leitores das Escrituras. Esta “persuasão” era concedida aos homens pela “revelação” do Espírito Santo.

Contra este argumento de Lutero, Erasmo levantou uma aporia fundamental: se aceitássemos o argumento de Lutero, como poderíamos decidir entre duas leituras e interpretações diferentes de algumas passagens mais obscuras dos textos sagrados?

Como se poderia escapar da circularidade do raciocínio de Lutero? Ele considerava o critério da verdade religiosa a “persuasão interior” do cristão e, ao mesmo tempo, dizia esta mesma “persuasão” só poderia ser garantida pela “revelação divina”.

Uma “revelação” pessoal e intransferível não tem como ser confrontada com outra “revelação” igual e contrária. Isso caso não seja através do uso do poder e da força capaz de definir e impor:

1.     o que seja certo e

2.     o que seja errado,

3.     o que seja a ortodoxia e

4.     o que seja a heresia.

Continuar a ler

Democracia e Direitos de Minorias

Reuni resumos da literatura recente de não-ficção, postadas no meu blog Cidadania & Cultura, em um livro eletrônico para download gratuito: Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso. São narrativas da crise mundial na atual transição histórica.

Entre outras, uma reflexão interessante diz respeito à razão da esquerda norte-americana se autodenominar “liberal”, cuja conotação na esquerda europeia e sul-americana é distinta. Tentarei argumentar aqui com base na leitura dos livros de Yascha Mounk, O Povo Contra A Democracia (SP: Companhia das Letras; 2018) e Jan-Werner Muller, What is Populism? (Philadelphia, University of Pennsylvania Press; 2016), acrescentando uma analogia entre a fé e lealdade religiosa e a partidária, inspirada no livro de Martin Lindstorm, A lógica do Consumo (HarperCollins Brasil, 2017).

Assim como as religiões, os partidos têm uma noção de missão muito poderosa. As religiões e os partidos lutam para ter poder sobre seus “inimigos” – e impor seus valores.

A tomada de posição contra o Outro é uma poderosa força unificadora. O fato de ter um inimigo identificável nos dá não apenas a possibilidade de articular e demonstrar nossa fé, mas também de nos unirmos aos nossos irmãos de credo. Essa estratégia do tipo “nós contra eles” atrai militantes, estimula controvérsia, cria lealdade e nos faz lutar.

Continuar a ler

O vencedor não leva tudo

A eleição presidência brasileira não se dá no sistema “the winner takes it all”, ou seja, “o candidato mais votado leva tudo”, assumindo o papel de déspota eleito. A eleição dos delegados (ou “grandes eleitores”) para elegerem o presidente dos Estados Unidos é feita dessa forma, estado a estado. Nesse sistema norte-americano, o candidato mais votado leva todos os delegados do estado, mesmo sendo o mais votado por apenas, por exemplo, 46% dos votos contra 29%, 12% e 5% dos outros três candidatos seguintes, como ocorreu no primeiro turno da eleição brasileira de 2018. No segundo turno, o capitão miliciano, por conta do antipetismo irrefletido, recebeu 55% dos votos válidos.

No entanto, o último levantamento de sua popularidade mostra o eleito de extrema-direita ter a pior avaliação entre presidentes eleitos em primeiro mandato, desde o inicio da série histórica da pesquisa de opinião pública realizada pela CNI em parceria com o Ibope. No levantamento mais recente, realizado entre os dias 12 e 15 de abril de 2019, o instituto apurou apenas 35% dos brasileiros ainda avaliarem o atual (des)governo como ótimo ou bom, ou seja, quase 2/3 o rejeitam.

Em maio de 1990, 45% dos brasileiros consideravam o governo Fernando Collor como ótimo ou bom. Em 1995, Fernando Henrique tinha 41%. Em março de 2003, a avaliação positiva de Luiz Inácio Lula da Silva era de 51%. Em 2011, Dilma Rousseff iniciou seu mandato com 56% de respaldo. José Sarney, que assumira como vice de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo Congresso, tinha 71% de ótimo ou bom em março de 1986 após o lançamento do Plano Cruzado. A pior avaliação de todas foi obtida por Michel Temer, em pesquisa de junho de 2016. Ele teve 13% de bom e ótimo.

Quem indica e quem nomeia o presidente do Banco do Brasil? Sou eu? Não preciso falar mais nada então”, disse o arrogante capitão após censurar uma campanha de marketing do Banco do Brasil, voltada para o público jovem e protagonizada por atores e atrizes negros e tatuados. Além disso, ordenou a demissão do diretor de comunicação e marketing do banco. “A linha mudou, a massa quer o quê? Respeito a família, ninguém quer perseguir minoria nenhuma”, completou. E demonstrou seu desdém com a insistência dos jornalistas sobre o que ele teria visto de errado na propaganda do banco. “Você̂ se olhou no espelho?”, perguntou a um repórter, revelando sua intolerância com jovens descolados de sua autoimagem evangélica.

Ele imagina poder alterar tudo o que não for alinhado à sua linha ideológica conservadora. “Não é minha linha. Eu tinha uma linha, armamento. Eu não sou armamentista? Então, ministro meu ou é armamentista ou fica em silêncio. É a regra do jogo”, disse. “As pessoas sabem que eu fui eleito com uma agenda conservadora, defendendo a maioria da população brasileira, seus comportamentos. Quem quiser fazer diferente do que a maioria quer que não faça com verba pública”, salientou.

Continuar a ler

Era do Déspota Eleito

Obs.: avaliação de ruim/péssimo continua a subir.

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT. Publicou artigo (Valor, 25/05/19) onde, entre outras, lamenta a eleição do capitão-miliciano, conjuntamente com seu clã e o guru de extrema-direita a dar pitacos no Brasil.

“Vivemos na era dos potenciais déspotas carismáticos eleitos. A política dele – é quase sempre “ele” – é a política do medo e do rancor. É necessário ter um determinado tipo de personalidade para dominar essa política. Nas circunstâncias apropriadas – ou seja, nas erradas -, líderes desse tipo surgem naturalmente. Isso não surpreende após uma revolução violenta. O que surpreende muito mais é que esses líderes venham surgindo em democracias consolidadas.

Vemos atualmente “autocratas” eleitos – reais e potenciais – em todo o lugar. Os principais exemplos são Vladimir Putin na Rússia, Recep Tayyip Erdogan na Turquia, Nerendra Modi na Índia, Nicolás Maduro na Venezuela, Rodrigo Duterte nas Filipinas, Jair Bolsonaro no Brasil, Benjamin Netanyahu em Israel, Matteo Salvini na Itália e Donald Trump nos EUA.

Esses dirigentes diferem entre si em termos de graus de sofisticação. Os países nos quais atuam também diferem. Alguns são economicamente desenvolvidos, enquanto outros não. Alguns são democracias tradicionais, outros não.

Continuar a ler

Entrevista de James Green a El País

O historiador James Green.

James Greenfoi chamado de “namorado” da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), com quem foi visto passeando nos Estados Unidos em 2017. Ambos se aproximaram quando ela ainda estava na presidência e ele escrevia um livro sobre o militante de esquerda Herbert Daniel, que participou da luta armada durante a ditadura, foi amigo de Rousseff e teve que, numa época em que a homossexualidade era vista como um desvio burguês pela esquerda, reprimir sua sexualidade. Revolucionário e gay: A extraordinária vida de Herbert Daniel foi lançado no Brasil em agosto de 2018 pela editora Civilização Brasileira. Historiador e brasilianista norte-americano, Green estudou ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP) no final dos anos 70 e ajudou a fundar o PT em plena transição para a democracia. Hoje, conta, vem ao Brasil ao menos quatro vezes por ano.

Aos 68 anos, o também ativista LGBT e professor de história latino-americana e brasileira da Brown University coordena um movimento internacional nos Estados Unidos para informar sobre a atual conjuntura política do Brasil. “Já temos uma rede com 40 grupos filiados e vamos organizar 100 atividades no aniversario do assassinato de Marielle Franco, no dia 14 de março”, explica. “E vamos lançar um observatório em inglês sobre a democracia no Brasil, para o público norte-americano que quer acompanhar a situação. Vamos fazer um trabalho no Congresso americano sobre o Brasil e organizar um lobby popular”, conta. “Estive em Washington para falar com assessores de congressistas que estão muito interessados no Brasil, e muito preocupados com o que está acontecendo”, acrescenta ele, que costuma dizer que o presidente Jair Bolsonaro “é 10 vezes pior” que seu homólogo Donald Trump. “E isso assusta as pessoas”.

O historiador recebeu o EL PAÍS para uma conversa na quinta-feira, 21 de fevereiro de 2018, véspera do lançamento, para o qual foi convidado, de um site do Ministério Público Federal sobre Justiça de Transição no Brasil, um conjunto de medidas para reparar as violações de Direitos Humanos cometidas pelo Estado durante a época da última ditadura militar (1964-1985).

Estudioso sobre esse período, Green acredita que as forças conservadoras que fizeram o impeachment de Rousseff e depois impulsionaram a candidatura do hoje presidente Jair Bolsonaro são as mesmas que patrocinaram o golpe de 1964. “É horrível ver tudo de novo”, afirma. Para superar essa conjuntura, prega uma renovação total da esquerda, algo que ele prevê que demorará de 8 a 12 anos. Continuar a ler

Insultos a Chefes de Estado: Direito dos Cidadãos

OPINIÃO PÚBLICA – Download da pesquisa completa

Luís Francisco Carvalho Filho, advogado criminal, presidiu a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (2001-2004). Publicou ótimo artigo (FSP, 23/3/19), intitulado “Revolução dos Cretinos“, em defesa da livre expressão: liberou geral!

“O pensamento radical e anarquista do escritor Lysander Spooner (1808-1887), pouco conhecido no Brasil, parece irresponsável, frágil e politicamente incorreto.

Além de defender a abolição da escravatura, combater o monopólio postal, negar legitimidade à sagrada Constituição dos Estados Unidos da América (aliás, de todas constituições, votadas ou impostas, autoritárias ou democráticas), Spooner define os governos como associações de “ladrões e assassinos”. É, talvez, sua maior contribuição intelectual.

A associação figurada de criminosos para governar engloba agentes de todas as esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário), mas a tradução de seu livro “No Treason “” The Constitution of no Authority” (1870) seria editada na França e em Portugal sob os títulos “Outrage à Chefs d’État” e “Insultos a Chefes de Estado”.

Independentemente de ideologias, governantes e autoridades existem também para serem afrontados, de forma justa ou injusta, com ou sem exageros. É direito natural. Compensa os confiscos de liberdade que a vida em sociedade impõe ao cidadão.

Governantes cretinos, como Jair Bolsonaro, seus filhos, ministros de Estado e gurus filosóficos, militantes patéticos de causas contrárias à evolução humanitária, tornam mais prazerosa e útil a prática do insulto e do xingamento. Continuar a ler