Mais Além do Dinheiro: Instituições Em Busca de Benefício Social

David Colander e Roland Kupers, coautores do livro “Complexidade e arte das políticas públicas: resolvendo os problemas da sociedade de baixo para cima”, informam: a ideia de empreendedorismo social foi criada nos anos 80. Exemplos proeminentes são a Ashoka de Bill Drayton (https://www.ashoka.org/), uma rede global de empreendedores sociais. Muhammad Yunus ampliou o microcrédito em Bangladesh por meio de seu Grameen Bank, recebendo um Prêmio Nobel da Paz em 2006. Mas há muitos outros empreendedores sociais exemplares.

Nos campi das faculdades dos EUA, o empreendedorismo social evolui à medida que os alunos buscam maneiras de misturar seus objetivos sociais com seus objetivos materialistas. Eles querem fazer bem, mas também querem fazer o bem. Essa incapacidade de combinar harmoniosamente os dois nas instituições atuais é resolvida em instituições com fins lucrativos.

Como os coautores descrevem brevemente no capítulo 4, instituições com fins lucrativos são uma nova forma institucional. Ela combina os motivos sociais de uma organização sem fins lucrativos com os motivos de sustentabilidade financeira de uma organização com fins lucrativos. São organizações voluntárias, e não obrigatórias, formadas por pessoas para atingir seus fins sociais.

O objetivo pode ser fornecer educação de qualidade a baixo custo para os alunos ou treinar trabalhadores difíceis de empregar. Esses objetivos se tornam explícitos e iniciais em empresas com fins lucrativos e, dentro dessa estrutura, o empreendedor social descobre uma maneira de alcançar esses objetivos de maneira sustentável, usando o método de menor custo possível.

Então, onde está a política do governo? O papel do governo envolve tornar a estrutura legal e institucional amigável ao desenvolvimento dessas empresas com fins lucrativos.

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Política de Ecoestrutura em Sistema Complexo

David Colander e Roland Kupers, coautores do livro “Complexity and the Art of Public Policy: Solving Society’s Problems from the Bottom Up” (Princeton University Press, 2014), no Capítulo 12, intitulado “Ativismo em Laissez-Faire”, afirmam: “neste capítulo, reconsideramos as questões de estrutura e governança de corporações e empresas em geral como um exemplo concreto de como uma abordagem de complexidade muda a maneira como pensamos sobre políticas. Mostramos como uma pequena mudança na ecoestrutura, especialmente quando aplicada no estágio embrionário formativo das instituições emergentes, pode mudar fundamentalmente a sociedade de baixo para cima, sem intervenção estatal maciça.”

Eles argumentam, ao longo do tempo, em alguns setores importantes da economia onde as metas sociais são importantes, as empresas com fins lucrativos e sem fins lucrativos existentes podem ser substituídas por empresas com fins lucrativos e socialmente amigáveis, projetadas para permitir as metas sociais serem alcançadas maneira sustentável de baixo para cima.

O objetivo da política defendida por eles é incentivar o desenvolvimento de um ambiente institucional favorável às soluções políticas de baixo para cima, para novas empresas com foco social poderem surgir e se desenvolver. O poder da política reside não apenas em sua adaptabilidade, mas também em sua capacidade de permitir suas soluções evoluírem à medida que surgem novas preferências, valores e gostos. Ele deixa as estruturas existentes no lugar, simplesmente expandindo a escolha das estruturas empresariais possíveis dos empreendedores sociais adotar.

Uma das principais diferenças entre a política de complexidade e a política padrão é a primeira ver muitas das iniciativas políticas mais importantes como afetando a ecoestrutura. Essa ecoestrutura trabalha indiretamente com incentivos.

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Aliança das Castas dos Militares e Mercadores contra a Casta dos Sábios-Tecnocratas

Áreas de saúde e educação concentraram o crescimento do número de servidores nas últimas três décadas, durante o arremedo de “socialdemocracia” no Brasil após a Constituinte de 1988. Agora, o governo militarizado do capitão reformado deseja cortar os direitos adquiridos, para construção do Estado de Bem-Estar Social, após o fim da ditadura militar!

Pior, uma opinião pública mal informada ou deformada pela imprensa oficiosa chapa-branca condena os servidores públicos como “privilegiados”. Ora, boa parte tem Ensino Superior e fez concursos públicos.

Quem não passou nesses concursos não deveria os condenar por rancor, mesmo porque a maioria dos serviços públicos em Educação, Saúde e Segurança Pública é prestado com qualidade apenas se houver gente capacitada. Por exemplo, o pessoal da Segurança Pública é muito mal formado e deformado pelo corporativismo militar. Neste não se mexe.

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Socialdemocrata Norte-Americano X Miliciano Brasileiro

Democratic presidential hopeful Vermont Senator Bernie Sanders speaks at a Primary Night event at the SNHU Field House in Manchester, New Hampshire on February 11, 2020. – Bernie Sanders won New Hampshire’s crucial Democratic primary, beating moderate rivals Pete Buttigieg and Amy Klobuchar in the race to challenge President Donald Trump for the White House, US networks projected. 

Jeffrey Sachs (Valor, 27/02/2020), professor de Desenvolvimento Sustentável e de Políticas e Gestão de Saúde da Universidade de Columbia, é diretor da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele é eleitor de Bernie Sanders. Caso esse candidato socialdemocrata seja vitorioso lá nos EUA, ficará sem-amparo internacional o reacionário miliciano daqui… Pobre Brasil, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos.

“O narcisismo e a falta de noção panglossiana da elite de Wall Street são uma maravilha de se ver. Empoleirados no poder, gozando de isenções de impostos, dinheiro fácil e mercados de ações em alta, eles têm certeza de que tudo é perfeito neste melhor de todos os mundos possíveis. Os críticos devem ser idiotas ou demônios.

Quando estou em sua companhia e menciono meu apoio a Bernie Sanders para concorrer à eleição presidencial dos EUA recebo ohs! de espanto, como se tivesse invocado Lúcifer. Eles têm certeza de que Sanders é inelegível, ou de que, se de alguma forma for eleito, ele provocará o colapso da república. Em diferentes graus, os mesmos sentimentos podem ser encontrados até em meios de comunicação “liberais”, como o New York Times e o Washington Post.

Esse desdém é ao mesmo tempo revelador e absurdo. Na Europa, Sanders seria um social-democrata convencional. Continuar a ler

É um equívoco misturar o discurso político com o religioso

É um precedente muito perigoso este da extrema-direita ao abandonar o pacto social para um Estado laico e instituições públicas apartidárias e fazer “o aparelhamento”, aliás uma acusação feita antes contra o PT, quando era governo. Agora, a imprensa tucana emudece. Partidos oportunistas buscam evangélicos e policiais para se candidatar a vereadores e prefeitos das capitais.

Malu Delgado (Valor, 13/01/2020) informa: professor da PUC-SP disse aos petistas, em encontros para analisar voto evangélico, a estratégia do PT ser equivocada.

Líder do Grupo de Estudos do Protestantismo e Pentecostalismo (GEPP) da PUC em São Paulo, o professor Edin Sued Abumanssur foi convidado a participar de ao menos três encontros com lideranças do PT em 2019 para discutir elos possíveis dos neopentecostais com partidos progressistas e o fenômeno de aproximação deste segmento com o presidente Jair Bolsonaro.

O cientista social já chegou a ser filiado do PT, mas se desvinculou do partido nos anos 90. De família protestante, do Líbano, Edin tem hoje interesses estritamente acadêmicos sobre o tema. Ele conta que falou “com todas as letras”, aos petistas: é um equívoco misturar o discurso político com o religioso.

Para Edin, o PT só terá eficácia nesta reaproximação se ela ocorrer pela via política, com o desenvolvimento de políticas públicas e sociais voltadas para as classes C, D e E, onde se concentra, em massa, o eleitor evangélico. O professor acredita, ainda, ser muito mais eficaz se o PT se preocupar em entender os rumos da Igreja Católica. Veja a seguir, os principais trechos da entrevista: Continuar a ler

Cenário da Futura Eleição baseado na Eleição Passada

Duas reportagens e um editorial do jornal Valor (13/02/20) levam a uma reflexão sobre estratégia eleitoral a ser seguida desde já pela oposição. Obviamente, não se pode esquivar de novos fatos a surgirem na política brasileira até a eleição de 2022.

Política é uma ação coletiva organizada com vista a alcançar o poder. Entre os diversos programas apresentados na campanha, em princípio, um será escolhido pela maioria dos eleitores. Infelizmente, na democracia contemporânea, têm ocorrido muitas interferências lesivas à formação balizada da opinião da maioria benéfica si mesma.

Passa-se a duvidar até da democracia quando uma maioria eventual não escolhe o melhor programa. Na verdade, ele nem é apresentado claramente. Muito menos é debatido pelo candidato. Isto ocorreu na última eleição presidencial brasileira.

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“Narrow Corridor” (Corredor Estreito) entre Desgoverno e Autoritarismo

Obs.: o dado de 2020 é a expectativa oficial “chapa-branca”, ou seja, ficção. Confira a queda até 2019 dos investimentos públicos em infraestrutura.

Robinson Borges é editor de cultura. Em artigo (Valor, 21/01/2020) resenha o livro recém-lançado “Narrow Corridor” (Corredor Estreito) de coautoria de Daron Acemoglu e James Robinson. Ele estava no meu iPad, aguardando a leitura. Motivou-me a ler logo e, a partir de amanhã, farei uma série de posts-resenhas a respeito do livro. Reproduzo abaixo seu artigo-resenha, oportuno para a crítica à relação oportunista entre a casta dos mercadores e a casta dos militares no Brasil, apoiada também pela casta dos sabidos pastores evangélicos e conservadores em geral.

“O governo federal pode ser compreendido como a aliança de quatro grandes blocos vivendo em um mesmo condomínio:

  1. o econômico,
  2. o militar,
  3. o jurídico e
  4. o de costumes.

Apesar de serem vizinhos, tem sido comum a percepção de parcela da sociedade de que os blocos são independentes, têm a sua própria portaria e o que ocorre em cada um tem caráter autônomo. São frequentemente celebradas as vitórias da agenda liberal na economia, por exemplo, mas minimizados os impactos das medidas da ala ideológica, como se fosse mais um ruído daquela turma barulhenta lá do bloco do fundo.

Os blocos, de fato, têm perfis, importâncias, qualidades e realizações distintos e, às vezes, contraditórios e complementares. No entanto, é impossível ignorar que um condomínio, como um governo, funciona de forma sistêmica. Assim, quando um secretário adensa o estoque de elogios a Estados despóticos e divulga vídeo com citações de discursos de ministro nazista, seu efeito vai muito além do endereço reservado para os “costumes”. Ele se esparrama por todos os espaços do condomínio.

Foi acertada, portanto, a decisão do presidente de exonerar seu secretário especial da Cultura, Roberto Alvim. Este neonazista ultrapassou todos os limites. Mas é preciso ressaltar que ele não é o centro do problema. Alvim pode ser visto como mais um sintoma do grupo de políticos que chegou ao poder, pelas vias democráticas, elogiando Carlos Alberto Brilhante Ustra. Continuar a ler