Cabeça da Casta dos Mercadores-Financistas

Luis Stuhlberger, gestor do Verde, um dos fundos mais antigos e bem-sucedidos do mercado brasileiro, vem carregando uma visão pessimista do país. O motivo, talvez, seja o que ele chama de “ilusão de ótica” e sua aparente sensação de normalidade. Enquanto O Mercado 3 Os (Onipotente, Onisciente e Onipresente) continua a ver a situação do Brasil como “um copo meio cheio”, o que Stuhlberger consegue enxergar, diante da situação fiscal, econômica e do presidencialismo de coalizão adotado por aqui, é um copo muito prestes a transbordar — e no sentido negativo da metáfora. A gota d’água, no entanto, é difícil saber qual será e quando virá.

O Verde, com patrimônio de R$ 20,8 bilhões, e seu gestor garantiram assento no “olimpo” do mercado de fundos brasileiro com um histórico de sucesso. Desde o início, em janeiro de 1997, até maio deste ano, o ganho acumulado foi de 14.176,66%, enquanto o Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) ficou em 1.811,19%. O fundo, que completou 20 anos em janeiro, só em dois deles teve rentabilidade inferior ao CDI. Em 2008, o retorno ficou no terreno negativo. Neste ano, a rentabilidade do fundo até maio não vai bem: 2,13% contra um CDI de 4,81%.

O gestor seu fundo tende a ter “retornos pobres”. Isso porque ele não consegue ter aquilo que sempre o levou aos grandes movimentos — e ganhos: “Eu não tenho uma grande convicção, então prefiro não fazer muita coisa”.

Praticamente metade da carteira hoje está em NTN-Bs de prazos mais curtos, que pagam uma taxa pouco acima de 5,5% enquanto ele vê um juro real de equilíbrio na casa dos 4% para os próximos um a dois anos. Na visão do gestor, o lado bom do Brasil hoje é o cenário de juro mais baixo, ainda que por conta do ambiente fortemente recessivo.

A seguir, os principais pontos da entrevista concedida a Alessandra Bellotto e Catherine Vieira (valor, 23/06/17). Ela é representativa da visão de País que [não] possui a casta dos mercadores-financistas. Submissa a O Mercado controlado de fora. Oportunista. Ou pragmática e aética?

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RH face a Robôs e Inteligências Artificiais

Stela Campos (Valor, 24/04/17) informa que tecnologia hoje pode ajudar os departamentos de recursos humanos a reunir dados que traçam o perfil dos funcionários e os comportamentos que melhor se adaptam à organização. Com isso, podem ter um recrutamento mais assertivo e direcionar treinamentos para as necessidades individuais dos empregados. Novas ferramentas podem estimular ainda o trabalho em equipe e oferecer a oportunidade do profissional gerenciar a própria reputação na empresa.

Tudo isso representa um grande avanço para a gestão de pessoas. Mas os desafios dos RHs passam por questões que vão além de ter que aprender a interpretar dados, e que requerem novas competências como gestores. A chegada da geração nascida nos anos 80 aos cargos de chefia e a entrada dos nativos digitais exigem um novo olhar para a atração, retenção e desenvolvimento de talentos. Além disso, a discussão sobre o uso de inteligência artificial, a robotização e a as novas funções que sobrarão para os humanos já começa a preocupar esses executivos.

Todas essas questões foram discutidas na quarta edição do HCM World, evento promovido pela Oracle, que reuniu em Boston mais de 2 mil gestores de RH, de vários países. Em três dias, foram mais de 60 palestras de executivos da área e de pensadores da gestão. Continue reading “RH face a Robôs e Inteligências Artificiais”

Substituição de Jornalista por Robô

Lucy Kellaway (FT, 29/05/17) comenta que, recentemente, o “Financial Times” transferiu parte de suas funções para um robô. Há anos ela vinha fazendo versões em podcast de suas colunas, mas agora está enfrentando uma concorrência dura na forma da “Experimental Amy“. Compartilho seu depoimento abaixo. Continue reading “Substituição de Jornalista por Robô”

Debate sobre Reforma da Previdência

Será colocada na proposta de emenda à Constituição (PEC) um “gatilho” para que a idade de aposentadoria dos policiais federais e civis seja igual à dos militares, quando (e se) ocorrer esta segunda etapa da reforma. A regra para acesso, por outro lado, foi endurecida, e os policiais precisarão de 25 anos de contribuição ao INSS e 25 de atividade policial para pedirem o benefício.

O anúncio ocorreu após protesto de policiais civis na Câmara, que acabou com a chapelaria, principal entrada do Legislativo, quebrada. Mas o acerto já tinha ocorrido na noite anterior, com a presença inclusive do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. O diretor-geral da Polícia Federal, que participou da negociação com vários parlamentares e políticos investigados em operações da sua corporação, como a Lava-Jato, se recusou a comentar… E precisa?! Sem comentários a respeito da casta dos guerreiros imporem seus argumentos à força das armas…

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Debate sobre Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo

Na tarde do dia 18 de abril, na sede da Fundação Perseu Abramo, aconteceu o segundo debate do Ciclo que aprofunda as discussões sobre a mais recente pesquisa da FPA, Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo (clique aqui e conheça o estudo). Com transmissão ao vivo pela internet e participação de internautas, o debate teve a mediação do presidente da FPA, Marcio Pochmann. Os pesquisadores que aceitaram o convite da Fundação – Giovanni Alves, da Unesp de Marília, Andréia Galvão, da Unicamp, e Sérgio Fausto, da USP – refletiram sobre os resultados da pesquisa.

O cientista político Sergio Fausto, superintendente da Fundação Fernando Henrique Cardoso, disse que sua participação em um evento da Fundação Perseu Abramo (FPA), ligada ao PT, não pode ser interpretada como sinal de aproximação entre PSDB e PT ou entre os ex-presidentes FHC e Luiz Inácio Lula da Silva. “Até onde minha vista alcança, não tem nenhum significado [de aproximação]. Eu acho que conversar com as pessoas é uma coisa que vale a pena. Mas eu não tenho representação partidária alguma.”

Fausto participou de um debate sobre a pesquisa qualitativa “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”, estudo com eleitores dessas regiões que deixaram de votar em petistas nas últimas eleições. Os outros debatedores foram a cientista política Andréia Galvão, da Unicamp, e o sociólogo Giovanni Alves, da Unesp. A mediação coube ao presidente da FPA, Márcio Pochmann.

O superintendente da Fundação FHC classificou o gesto da FPA como “uma abertura para uma conversa para além das fronteiras partidárias”. Ele lembrou que os petistas Jorge Bittar e Helio Bicudo, que depois rompeu com o PT, participaram de eventos no iFHC, no início do governo Lula. “Depois as coisas azedaram.” Um ensaio de reaproximação ocorreu no início do ano, quando a Fundação FHC convidou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, para um debate sobre reforma trabalhista. Marques não foi. Dias depois, o diretor técnico do Dieese Clemente Ganz aceitou convite para debater tercerização.

Lauro Gonzalez, professor da FGV e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, e Maurício de Almeida Prado, administrador de empresas e antropólogo, além de diretor executivo do Instituto Plano CDE, foram coautores de um artigo (Valor, 18/04/17) — Direita ou esquerda, o que pensam os pobres? — cujos pontos de vista devem ser incluídos no debate. Reproduzo-o abaixo.

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Fracasso da Reforma Neoliberal da Previdência

Puxado pelas despesas previdenciárias, o gasto primário do governo central, como proporção do PIB, aumentou fortemente nas últimas décadas, passando de 10,8% do PIB em 1991 para 19,7% do PIB em 2016. No ano passado, o déficit da previdência rural foi de R$ 103,4 bilhões e da urbana atingiu R$ 46,3 bilhões, totalizando R$ 150 bilhões. O déficit da Seguridade Social chegou a R$ 258,7 bilhões. Veja dados em 2017-04-17 Apresentação de Henrique Meirelles no Seminário do Valor

O debate sobre a Previdência Social é legítimo. Porém, é ilegítimo um governo golpista propor os termos da reforma e um Congresso Nacional acuado pelas investigações de financiamento corrupto de suas principais lideranças a aprovar.

O golpe parlamentarista no presidencialismo desqualifica o atual Congresso como tivesse legitimidade ou mandato para cortar direitos sociais. Na prática, 94% da Câmara dos Deputados, 70% do Senado Federal e 55% dos governadores estaduais não foram atingidos delação da Odebrecht. Mas a grande maioria não será quando as investigações atingirem outras empreiteiras de obras públicas, p.ex., o relacionamento entre a Andrade Gutierrez e o Aécio Neves? No total, os inquéritos abrangem 12% da totalidade dos membros do Congresso Nacional, mas submete seus líderes ao Poder Judiciário.

Vale ver o que está ocorrendo em outro país que adotou uma reforma neoliberal da Previdência: a proposta de reformar o sistema de Previdência Privada do Chile prevê contribuição das empresas. Será submetida ao escrutínio eleitoral, pois dificilmente será aprovada se o próximo presidente for de direita, pois agirá em favor da casta dos mercadores. Continue reading “Fracasso da Reforma Neoliberal da Previdência”

Multilateralismo e Internacionalismo versus Bilateralismo e Imperialismo

Jeremy Adelman é diretor do Laboratório de História Mundial da Universidade de Princeton. Anne-Laure Delatte é pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, no laboratório EconomiX, filiado ao Observatório Francês das Conjunturas Econômicas (OFCE) e professora-visitante da Universidade de Princeton. Ambos, Jeremy Adelman e Anne-Laure Delatte, são coautores de artigo (Valor, 24/03/17) sobre a atual geopolítica internacional com informações históricas interessantes. Reproduzo-o abaixo.

“A América em primeiro lugar”, dispara Donald Trump. “O Reino Unido em primeiro lugar”, dizem os defensores do Brexit. “A França em primeiro lugar”, vociferam Marine Le Pen e sua Frente Nacional. “A Rússia em primeiro lugar”, proclama o Kremlin de Vladimir Putin. Com tanta ênfase em soberania nacional atualmente, a globalização parece condenada.

Não está. A luta que se desenrola nos nossos dias não é a do globalismo contra
o antiglobalismo. Em vez disso, o mundo pende entre dois modelos de
integração:

  • um é multilateral e internacionalista;
  • o outro é bilateral e imperialista.

Ao longo de toda a idade contemporânea, o mundo oscilou entre eles.

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