Nacionalismo versus Nacionalidade

O nacionalismo consiste em uma ideologia e movimento político, baseados na consciência da Nação. Exprimem a crença na existência de certas características comuns em uma comunidade, nacional ou supranacional, e o desejo de modelá-las politicamente.

Com precedentes na Idade Média, sobretudo nas monarquias absolutas, é a partir da Revolução Francesa que surge o nacionalismo moderno, simultaneamente com o apogeu da burguesia industrial. Posteriormente, a luta frente a um exército invasor (guerras napoleônicas) ou o desejo de independência (continente americano) deram ao nacionalismo um novo impulso.

No século XIX se assistiu à afirmação, quer da burguesia, quer do nacionalismo, que triunfariam juntos nas unificações italiana e alemã.

No século XX, o nacionalismo teve dois grandes momentos:

  1. o surgir de ideias nacionalistas de parceria com teorias racistas, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão; e
  2. o nacionalismo, que surgiu nos países colonizados, após a II Guerra Mundial, que se liga com o que atualmente se manifesta no Terceiro Mundo, perante as formas neocolonialistas de exploração. Continuar a ler

Nacionalismo: Problemas Globais exigem Respostas Globais

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), argumenta: o gênero humano constitui agora uma única civilização, todos os povos compartilhando desafios e oportunidades comuns. Então, por que britânicos, americanos, russos e diversos outros grupos voltam-se para o isolamento nacionalista? O retorno ao nacionalismo oferece soluções reais para os problemas inéditos de nosso mundo global? Ou é uma indulgência escapista com possibilidade de condenar o gênero humano e a biosfera à catástrofe?

Para responder a essa pergunta devemos primeiro dissipar um mito muito difundido. Ao contrário do que diz o senso comum, o nacionalismo não é inato à psique humana e não tem raízes biológicas.

Os humanos são animais integralmente sociais, e a lealdade ao grupo está impressa em seus genes. No entanto, por centenas de milhares de anos o Homo sapiens e seus ancestrais hominídeos viveram em comunidades pequenas e íntimas, com não mais que algumas dezenas de pessoas.

Humanos desenvolvem facilmente lealdade a grupos pequenos e íntimos como a tribo, um batalhão de infantaria ou um negócio familiar, mas a lealdade a milhões de pessoas totalmente estranhas não é natural para humanos. Essas lealdades em massa só apareceram nos últimos poucos milhares de anos — em termos evolutivos, “ontem de manhã” — e exigem imensos esforços de construção social.

[Fernando Nogueira da Costa: este é meu incômodo com a análise de Harari: o relativismo em relação ao tempo. O que é “real”, para ele, é a evolução biológica. Seria uma narrativa ficcional a criação de instituições. Estas são restrições criadas para dar forma às interações humanas: as “regras do jogo” são tanto as informais como os códigos, os costumes e as tradições sociais, quanto as formais como as regras consolidadas na lei e na política de cada País. Embora sejam já seculares, ele alega com base em qual métrica não terem sido intrometidas na mente humana? Não são “reais”?!] Continuar a ler

Epílogo do livro “O Terceiro Pilar”

Raghuram Rajan, no livro “O Terceiro Pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), argumenta: os três pilares de apoio à Sociedade – o Estado, os Mercados e a Comunidade – estão em constante fluxo, atingidos por choques econômicos e tecnológicos. A sociedade perpetuamente luta por um novo equilíbrio, através de um reequilíbrio dos pilares.

A revolução das TIC, acompanhada pela Crise Financeira Global de 2007–2008, mais uma vez destacou a necessidade de um reequilíbrio. Eleições recentes em todo o mundo desenvolvido sugerem que as pessoas estão profundamente insatisfeitas com o estado atual das coisas.

A revolução das TIC criou uma meritocracia. Ela é quase hereditária em alguns países desenvolvidos. Além disso, em reação à competição gerada pelos mercados globais, os poderosos, como grandes corporações e profissionais, criaram enclaves protegidos para si mesmos, aumentando ainda mais os benefícios de fazer parte da alta meritocracia.

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Mudança de Autoridade: dos Humanos para o Algoritmo

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: s crença liberal nos sentimentos e nas escolhas livres dos indivíduos não é natural, nem muito antiga. Durante milhares de anos as pessoas acreditaram a autoridade provir de leis divinas e não do coração humano. Devíamos, portanto, santificar a palavra de Deus e não a liberdade humana. Só nos séculos mais recentes a fonte da autoridade passou das entidades celestiais para humanos de carne e osso.

Em breve, a autoridade pode mudar novamente — dos humanos para os algoritmos. Assim como a autoridade divina foi legitimada por mitologias religiosas, e a autoridade humana foi justificada pela narrativa liberal, a futura revolução tecnológica poderia estabelecer a autoridade dos algoritmos de Big Data, ao mesmo tempo que solapa a simples ideia da liberdade individual.

Ideias científicas sobre o funcionamento de nosso corpo e cérebro sugerem: nossos sentimentos não são uma qualidade espiritual exclusivamente humana, e não refletem nenhum tipo de “livre-arbítrio”. Na verdade, sentimentos são mecanismos bioquímicos. Todos os mamíferos e todas as aves usam para calcular probabilidades de sobrevivência e reprodução. Sentimentos não se baseiam em intuição, inspiração ou liberdade — baseiam-se em cálculos. Continuar a ler

Localismo Inclusivo na Comunidade

Raghuram Rajan, no livro “O terceiro pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), vai explicar como o localismo inclusivo pode conter muitas das respostas que as grandes nações diversas precisam e o que podemos fazer para alcançá-lo.

O Estado terá a responsabilidade de criar uma estrutura inclusiva em nível nacional, usando mercados de acesso aberto para incluir e conectar um conjunto diversificado de comunidades locais. Vamos examinar o tipo de constituição nacional capaz de funcionar bem em um país diverso. Rajan vai descrever o localismo: o processo de descentralizar o poder para o nível local, para as pessoas se sentirem mais capacitadas em suas comunidades. A Comunidade, e não a Nação, se tornará um possível veículo de coesão étnica e continuidade cultural.

À medida que os mercados se globalizaram, o poder e os recursos para agir também se elevaram, da comunidade para a região, para o Estado e até mesmo para o Superestado. Algumas potências nacionais legítimas estão agora circunscritas por acordos internacionais. Dentro das Nações, muitas decisões são centralizadas, quando há pouca razão para fazê-lo.

O localismo, portanto, significa devolver o poder ao povo, da esfera internacional às Nações e dentro das Nações, do nível federal ao regional e ao nível da comunidade. Significa seguir estritamente o princípio da subsidiariedade – os poderes devem permanecer no nível mais descentralizado, consistente com seu uso efetivo.

O empoderamento forçará cada um a assumir alguma responsabilidade, tornando mais difícil sucumbir à apatia ou apontar os dedos. Isso permitirá aos grupos a possibilidade de manter a identidade, a continuidade cultural e a coesão.

Muitos temem as comunidades empoderadas poderem se tornar abrigos para racistas, facilmente sequestradas por comparsas corruptos e propensos ao tradicionalismo obscurantista opressivo. Tudo isso é possível até nas comunidades atuais, mas pode piorar se as comunidades tiverem mais poderes. Continuar a ler

Liberdade versus Big Data Vigilante

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), alerta: a narrativa liberal preza a liberdade humana como seu valor número um. Alega toda autoridade, em última análise, ter origem no livre-arbítrio de indivíduos humanos, conforme expresso em seus sentimentos, desejos e escolhas.

Na política, o liberalismo acredita que o eleitor sabe o que é melhor. Por isso apoia eleições democráticas. Na economia, o liberalismo afirma que o cliente sempre tem razão. Por isso aclama os princípios do livre mercado. No aspecto pessoal, o liberalismo incentiva as pessoas a ouvirem a si mesmas, serem verdadeiras consigo mesmas e seguirem seu coração — desde que não infrinjam as liberdades dos outros. Essa liberdade pessoal está consagrada nos direitos humanos.

No discurso político ocidental hoje, especialmente na esquerda norte-americana, o termo “liberal” é às vezes empregado em um sentido muito mais estreito e partidário para denotar aqueles apoiadores de causas específicas, como o casamento gay, o controle de armas e o aborto.

Porém, a maioria dos assim chamados conservadores também abraçam a visão estreita de mundo neoliberal, especialmente o liberalismo econômico e o conservadorismo em costumes sociais e políticos. Continuar a ler

Apresentação Pessoal do Autor do Livro “O Terceiro Pilar”

Raghuram Rajan, no livro “O terceiro pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), se pergunta: quem sou eu e por que escrevo este livro?

“Sou professor na Universidade de Chicago e passei o tempo como economista-chefe e chefe de pesquisa do Fundo Monetário Internacional, onde assessoramos diversos países industriais e em desenvolvimento. Eu também fui o presidente do Banco Central da Índia, onde empreendemos reformas para melhorar o sistema financeiro da Índia. Tenho experiência em trabalhar tanto no sistema financeiro internacional quanto em um mercado emergente. Na minha vida adulta, nunca estive mais preocupado com a direção que nossos líderes estão nos levando do que eu estou hoje.”

Em seu livro “Linhas de falha: Como as fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial”, publicado em 2010, ele se preocupou com as consequências da crescente desigualdade, argumentando o crédito habitacional fácil antes da crise financeira global ter sido, em parte, um caminho para os políticos desviarem a atenção das pessoas de seus salários estagnados. Preocupava-se, em vez de extrair a lição certa da crise – de que precisamos consertar as falhas profundas nas sociedades desenvolvidas e na ordem global –, procurássemos bodes expiatórios. Ele escreveu:

“As primeiras vítimas de uma busca política por bodes expiatórios são os visíveis como ‘os outros’, facilmente demonizados, mas impotentes para se defenderem. O imigrante ilegal ou o trabalhador estrangeiro, ambos não votam, mas eles são essenciais para a economia – o primeiro porque eles costumam fazer trabalhos que ninguém mais tocará em tempos normais, e o último porque eles são a fonte das importações baratas capazes de levantarem o padrão de vida para todos, mas especialmente aqueles com baixos rendimentos. Tem de haver um jeito melhor…”

A busca por bodes expiatórios continua bem e verdadeiramente explorada. Rajan escreveu este livro “O Terceiro Pilar” porque vê um mundo cada vez mais polarizado com o risco de virar as costas a setenta anos de paz e prosperidade generalizadas. Ele ameaça esquecer o que funcionou, mesmo ignorando o que precisa mudar.

Os nacionalistas populistas e a esquerda radical compreendem a necessidade de reformas, mas não têm respostas reais quando recorrem à política da raiva e da inveja. Os principais partidos do establishment nem sequer admitem a necessidade de mudança. Há muito a fazer e os desafios estão aumentando. O Estado, os Mercados e a Comunidade podem ser levados a um equilíbrio muito melhor. Nós devemos começar agora.

O resto deste livro é o seguinte. Começa descrevendo o terceiro pilar, a Comunidade. Para alguns, a comunidade significa calor e apoio. Para outros, representa a mentalidade estreita e o tradicionalismo. Ambas as descrições podem ser verdadeiras, às vezes simultaneamente, e nós veremos o porquê.

O desafio para a comunidade moderna é conseguir mais do bem, minimizando o mal. Veremos como isso pode ser obtido através da influência do equilíbrio dos outros dois pilares – o Estado e os Mercados. Para continuar essa exploração, precisamos entender como esses pilares emergiram historicamente.

Na Parte I, o autor traça como o Estado e os Mercados nos países avançados de hoje cresceram a partir da Comunidade feudal, assumindo algumas de suas atividades. Explica como um mercado vibrante ajudou a criar fontes independentes de poder capazes de limitarem os poderes arbitrários do Estado. À medida que o Estado se tornou constitucionalmente limitado, os mercados obtiveram a vantagem, às vezes em detrimento das comunidades.

A extensão do sufrágio de novo empoderamento [reempowered] das comunidades devem ser usados para pressionar o Estado a impor limites regulamentares ao Mercado. As pessoas também exigem proteções sociais confiáveis ​​de modo a se protegerem contra a volatilidade de O Mercado.

Todas essas influências se juntaram nas democracias liberais de mercado competitivo. Elas surgiram em todo o mundo desenvolvido no início do século XX. No entanto, as desacelerações de O Mercado, especialmente após as revoluções tecnológicas, foram e são perturbadoras. A Grande Depressão, seguida pela Segunda Guerra Mundial, parecia soar a sentença de morte das democracias liberais de mercado em grande parte do mundo e na ascensão do Estado.

Na Parte II, Rajan descreve como os Estados Unidos moldaram a ordem liberal do pós-guerra e como o Estado e os Mercados voltaram a crescer. A democracia ganhou raízes mais firmes.

Os trinta anos de forte crescimento pós-guerra, no entanto, foram seguidos por anos de relativa estagnação, à medida que os países desenvolvidos lutavam por novas formas de revitalizar o crescimento. Em resposta, os países anglo-americanos deram poder aos Mercados às custas do Estado, enquanto as reformas europeias continentais favoreceram o Superestado e o Mercado atuarem de modo integrado.

Ambos os conjuntos de reformas para constituição de blocos regionais vieram às custas da Comunidade. Essas diferentes escolhas deixaram os países posicionados de maneira diferente para enfrentar a revolução das TIC, a subsequente crise financeira global e a reação contrária à ordem global. Rajan descreve as razões para o aumento do populismo e traça os tipos de desenvolvimentos relacionados à China e à Índia.

Ele se volta para possíveis soluções na Parte III. Para reforçar as chances de a sociedade permanecer liberal e democrática, precisamos de profundas mudanças. Elas reequilibrarão os três pilares em face da mudança tecnológica. Precisamos de mais localismo para capacitar a Comunidade, aproveitando o Estado e os Mercados para tornar a sociedade mais inclusiva.

Finalmente, são necessárias algumas ressalvas. Rajan pretende este livro ser abrangente, mas não exaustivo. Portanto, ilustra o curso da história com exemplos de países proeminentes, mas isso iria sobrecarregar a paciência do leitor (assim como o do seu editor) se ele justificasse cada ponto com os detalhes exigidos pelos especialistas.

Este livro oferece uma tese geral, própria ou original, e baseia-se em muito trabalho acadêmico, mas destina-se a um público amplo. Ele também oferece propostas políticas, não como a palavra final, mas para provocar o debate.

“Enfrentamos enormes desafios, para os quais precisamos não apenas das soluções certas, mas também daquelas capazes de nos inspirar a agir”. Vale a pena recordar as palavras do arquiteto de Chicago Daniel Burnham: “Não faça pequenos planos; eles não têm mágica para agitar o sangue dos homens e provavelmente não serão realizados.” Raghuram Rajan espera este livro “despertar seu torpor”.