Envelhecimento da População Asiática, exceto na Índia e Indonésia

Mitsuru Obe (Valor, 16/04/19) informa: o século asiático será grisalho. Do Japão à Coreia do Sul, da China a alguns países do sudeste asiático, o envelhecimento das populações está prestes a provocar transformações profundas nas sociedades, nas políticas governamentais e nas estratégias empresariais. A tendência também pode inclinar a balança de equilíbrio do poder mundial e regional, pois alguns países estão estagnados, enquanto outros continuam a crescer graças à mão de obra ainda abundante.

A ameaça do envelhecimento tem sido discutida há anos, mas sinais recentes indicam que os piores temores da região começam a se tornar realidade.

“Quero um filho”, disse uma mulher sul-coreana, casada, na faixa dos 30 anos. “Mas ainda não temos uma casa e, quando pensamos no dinheiro, nos sentimos incapazes de mergulhar nisso.”

Muitos sul-coreanos pensam parecido e evitam ter filhos. A população economicamente ativa, que vai dos 15 aos 64 anos, caiu pela primeira vez em 2017 no país. Agora, também se prevê queda na população total, talvez já a partir de 2020, segundo alerta da agência de estatística do país de março.

Em 2065, Coreia do Sul deverá se tornar o país desenvolvido com a população mais idosa.

Na China, o governo abandonou a política do filho único em 2016, mas parece ter sido muito pouco e tarde demais. A taxa de nascimentos continuou caindo.

O número de chineses com idade entre 16 e 59 começou a cair em 2014, segundo a ONU. Em 2018, pela primeira vez essa faixa ficou abaixo de 900 milhões de pessoas. Para piorar esse cenário, a taxa de casamentos na China caiu pelo quarto ano seguido em 2017.

Cada vez mais, as empresas precisam pensar em como atender uma nação de solteiros. Em 2018, o site de comércio eletrônico Tmal, do Alibaba, constatou que seus produtos mais vendidos eram destinados para uma pessoa, como garrafas de vinho tinto de 200 ml e pacotes de arroz de 100 gramas.

O Japão está à frente nesse processo. Sua população entre 15 e 65 anos começou a cair em 1995, na mesma época em que o país entrava nas “décadas perdidas” de deflação e estagnação. A população total está em queda desde 2008.

As projeções de longo prazo para os três países são ainda mais sombrias: de 2020 a 2060, a população economicamente ativa (PEA) deverá encolher 30% no Japão, 26% na Coreia do Sul e 19% na China, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essas estimativas se baseiam numa faixa etária ainda mais ampla, dos 15 aos 74 anos.

Os aposentados com 65 anos ou mais deverão ser mais de 30% das populações desses países em 2060. Hong Kong, Cingapura e Tailândia devem seguir trajetória similar. Continuar a ler

Karl Polanyi: Alternativa ao Debate Polarizado

Karl Polanyi (1886-1964), em sua obra A Grande Transformação, publicada em 1944, tornou-se referência para o debate sobre o capitalismo contemporâneo. Seu xará, Karl Marx (1818-1883), morreu três anos antes de seu nascimento. Não presenciou o embate entre Estado e Mercado, desdobrado em duas Grandes Guerras Mundiais e uma Grande Depressão no século XX. O Capital, sua obra máster, não tem uma Teoria do Estado.

Ambos pensadores sistêmicos têm em comum uma visão holística. É oposta à lógica mecanicista do individualismo metodológico de compartimentar o capitalismo em várias iniciativas particulares, causando a perda da visão global. A evolução criativa forma um “todo” maior ou distinto da soma das suas partes. Marx e Polanyi buscam entender os fenômenos de uma maneira integral, por oposição à análise de seus componentes em separado. As interações destes não podem ser explicadas como um não afetasse o comportamento do outro.

A Grande Transformação critica o liberalismo de mercado, cujo pressuposto é a ideia de tanto as sociedades nacionais, quanto a economia global, ambas poderão ser organizadas por meio de autorregulação dos mercados. No debate polarizado entre os defensores do capitalismo de livre mercado e os do socialismo realmente existente, Polanyi não se submete aos interesses estritos da casta dos mercadores nem aos da casta dos trabalhadores organizados. Como socialista e membro da casta dos sábios intelectuais, propõe uma aliança de sua casta com a dos trabalhadores para um reformismo à la socialdemocracia nórdica, combinando Estado e Mercado, ambos submissos aos interesses maiores da Comunidade.

Continuar a ler

Melhor jogo, menor pagamento: onde as futebolistas femininas são mais populares, mas recebem menos

FÃS EXCITADOS em bonés de beisebol da águia careca assistiram como o time de futebol feminino dos Estados Unidos derrotou a Espanha para avançar para as quartas-de-final da Copa do Mundo em 24 de junho. Isso não foi um choque. O Stars and Stripes é o lado mais bem-sucedido na história do futebol feminino, tendo conquistado a Copa do Mundo por três vezes e a medalha de ouro olímpica quatro. Este ano, eles passaram pela fase de grupos com uma pontuação total de 18-0, um total inflacionado por seu recorde de 13-0 na derrota da Tailândia.

Este sucesso no campo, no entanto, é marcado por controvérsias no tribunal. Os membros da equipe de mulheres dos Estados Unidos marcaram o Dia Internacional da Mulher em 8 de março, com uma ação coletiva contra seu empregador, a Federação de Futebol dos Estados Unidos (USSF). A ação alegou as diferenças nas condições salariais e de emprego entre a equipe feminina e masculina violarem a Lei de Igualdade de Pagamento e o Título VII da Lei de Direitos Civis. Apesar de se engajar em “trabalho substancialmente igual”, a equipe feminina recebe muito menos. Se cada time jogasse 20 amistosos ao longo de um ano e vencesse todos, as mulheres receberiam US $ 99.000, enquanto os homens receberiam US $ 263.320, de acordo com o pedido.

É comum que atletas do sexo feminino recebam menos que os homens. Os salários combinados das 1.693 mulheres disputadas nas sete principais ligas de futebol somam US $ 41,6 milhões, um pouco menos em relação ao salário de US $ 41,7 milhões pago ao Neymar, um atacante brasileiro acusado de estupro, pelo Paris Saint-Germain. Mas o futebol nos Estados Unidos é incomum: lá a equipe feminina é paga menos se comparado à masculina, apesar de mais pessoas se conectarem para assisti-los.

Tais diferenças de pagamento são admissíveis se o empregador puder provar uma de quatro “defesas afirmativas” se aplicar:

  1. um sistema de antiguidade,
  2. um sistema de mérito,
  3. um sistema de remuneração baseado na quantidade ou qualidade de produção
  4. ou qualquer outro fator além do sexo.

Continuar a ler

Mais Idosos Sem Aposentadoria

Assis Moreira (Valor, 13/06/19) informa: o encontro de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais das maiores economias desenvolvidas e emergentes, reunidas no G-20 em Fukuoka (Japão), discutiu o estado da economia global, tensões comerciais, reforma de taxação internacional, câmbio – enfim, a agenda habitual. Mas neste ano a presidência japonesa do G-20 acrescentou um tema que tende a ser cada vez mais prioritário para o grupo: o envelhecimento da população e suas implicações.

O Japão tem a população mais idosa do mundo. Enfrenta o envelhecimento mais rápido, com 47 pessoas acima de 65 anos para 100 adultos em idade produtiva em 2015 (eram 19 em 1990). Em comparação, a taxa é de 26% em outros países ricos do G-20 e de 11% nos emergentes.

Os japoneses chegam a viver até ou além de 100 anos. A questão é como pagar por isso. O país não tem força de trabalho suficiente. Há 1,6 vaga de trabalho aberta para cada pessoa em busca de trabalho. A população vai definhar nas próximas décadas.

Estudos apresentados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em Fukuoka mostram um declínio estável nas taxas de fertilidade ter levado à redução acelerada nas taxas de crescimento da população em idade de trabalhar (15-64 anos) no G-20. Continuar a ler

Desgoverno: Nem Estudo, Nem Trabalho, Nem Aposentadoria

A faixa etária adolescente de 14 a 17 anos representa 8,3% da força de trabalho de 105,250 milhões de pessoas. Nela há 44,5% de desocupação. Se ela estuda, está fora da força de trabalho (População Não Economicamente Ativa), não? Está incluída na taxa de desocupação dela somente quem não estuda e nem trabalha? Estou em dúvida.

Dois anos de recessão, desde a volta da Velha Matriz Neoliberal, com a consequente crise no mercado de trabalho — a subutilização da força de trabalho quase dobrou do fim de 2014 (15,3 milhões pessoas) para o início de 2019 (28,3 milhões) –, fizeram crescer rapidamente o número de homens de 50 a 69 anos de idade no país sem ocupação: não trabalham nem procuram emprego, mesmo sem receber aposentadoria ou pensão.

O total de pessoas nessas condições estava em 1,843 milhão em 2017, 11% acima do ano anterior (189 mil pessoas a mais). O contingente representava 9,6% dos homens dessa faixa etária.

Esse fenômeno foi inicialmente identificado por um estudo das pesquisadoras Ana Amélia Camarano e Daniele Fernandes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Elas observam há anos a tendência desse grupo, batizado de “nem nem maduros“.

Os homens neste perfil “nem nem” representavam:

  • 4,2% da faixa etária em 1992;
  • 6,2% em 2005;
  • 8,3% em 2015;
  • 9,6% em 2017. Continuar a ler

Mitologia Liberal em Costumes versus Mitologia Neoliberal em Economia

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), demonstra:  a modernidade não rejeita a pletora de narrativas herdada do passado. E sim, abre um mercado para elas. O humano moderno está livre para experimentá-las todas, escolhendo e combinando a seu gosto.

Algumas pessoas não aguentam tanta liberdade e incerteza. Os movimentos totalitários modernos, como o fascismo, reagiram violentamente contra o mercado de “ideias duvidosas”. Superaram até mesmo religiões tradicionais na exigência de fé absoluta em uma única narrativa.

A maioria das pessoas modernas, no entanto, começou a gostar do mercado livre de crenças. O que você faz quando não sabe qual o sentido da vida nem em qual narrativa acreditar? Você santifica a própria capacidade para escolher. Você está para sempre no papel de consumidor nesse mercado religioso, com a liberdade de escolher o que quiser, examinando os produtos que tem diante de si, e… os adquirindo ao bel prazer.

Segundo a mitologia liberal, se você ficar por bastante tempo nesse grande mercado livre, cedo ou tarde vai vivenciar a epifania liberal e se dará conta do verdadeiro significado da vida.

Todas as histórias disponíveis em oferta no mercado livre são falsas. O significado da vida não é um produto já pronto para uso. Não há um roteiro divino, e nada fora de mim pode emprestar significado a minha vida. Sou eu quem imbuo significado em tudo mediante minhas livres escolhas e meus próprios sentimentos. Continuar a ler

Novas Tecnologias e Mercado de Trabalho 4.0

Hélio Zylbertajn é professor sênior da FEA­USP e coordenador do Projeto Salariômetro da Fipe. Bruno Oliva e Gabriel Neto são pesquisadores da Fipe. Publicaram artigo (Valor, 29/04/19) intitulado “Novas Tecnologias e Mercado de Trabalho 4.0“. Reproduzo-o abaixo.

“A sociedade brasileira atravessa um momento de grandes desafios e
transformações em diferentes esferas. Com o mercado de trabalho não é diferente: a aprovação da reforma trabalhista, em 2017, pode ser entendida como uma resposta a conflitos e demandas que já se avolumavam sob a superfície das instituições e das relações do mercado de trabalho.

Nesse contexto, uma das principais novidades da reforma envolveu o fortalecimento das negociações coletivas como mecanismo para ajustar e refinar os termos e condições de trabalho, garantindo a empregadores e trabalhadores maior autonomia e segurança jurídica para buscar soluções para conflitos e questões específicas de suas rotinas produtivas, sem comprometer direitos fundamentais. [Observa-se o frágil poder de barganha dos trabalhadores desempregados nesse contexto recessivo.]

De forma geral, pode-se assumir que reformas institucionais – entendidas também como revisões das “regras do jogo” – podem ser úteis para acomodar e reduzir atritos, custos e incertezas que derivam do embate entre a dinâmica própria do mercado, de um lado, e a rigidez das instituições regulatórias, de outro.

Um dos exemplos de descompasso entre mercado e instituições envolve as dificuldades envolvidas no reconhecimento e enquadramento formal de novas formas e modalidades de trabalho, especialmente aquelas que se popularizam na esteira de inovações e mudanças tecnológicas.

Nos últimos anos, esse diagnóstico pode ser aplicado ao número crescente de indivíduos que tem buscado refúgio do desemprego e da insegurança no trabalho autônomo, firmando parcerias com as chamadas “plataformas digitais” — ferramentas na base de modelos de negócio de empresas e startups nascidas em um ambiente digital, como é o caso da Uber, AirBnB, Loggi, iFood, Rappi entre outras. Continuar a ler