Proteger os Humanos e não os Empregos

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), pergunta:  se humanos não são necessários nem como produtores nem como consumidores, o que vai salvaguardar sua sobrevivência física e seu bem-estar psicológico?

Não podemos esperar que a crise irrompa com toda a força antes de começarmos a buscar as respostas. Será tarde demais. Para lidar com as rupturas tecnológicas e econômicas inéditas do século XXI, precisamos desenvolver novos modelos sociais e econômicos o quanto antes.

Esses modelos deveriam ser orientados pelo princípio de que é preciso proteger os humanos e não os empregos. Muitos empregos são uma faina pouco recompensadora, que não vale a pena salvar. Ser caixa não é o sonho de vida de ninguém. Deveríamos nos focar em prover as necessidades básicas das pessoas e em proteger seu status social e sua autoestima.

Um modelo novo que atrai cada vez mais atenção é o da renda básica universal (RBU). A RBU propõe que:

  1. os governos tributem os bilionários e as corporações que controlam os algoritmos e robôs, e
  2. usem o dinheiro para prover cada pessoa com um generoso estipêndio que cubra suas necessidades básicas.

Isso protegerá os pobres da perda de emprego e da exclusão econômica, enquanto protege os ricos da ira populista. Continuar a ler

Nacionalismo Cívico: Restauração do Pilar Comunitário para uma Vida Saudável

Raghuram Rajan, no livro “O terceiro pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), afirma: as escolas, a porta moderna para a oportunidade, são a instituição comunitária por excelência. As qualidades variadas das escolas, em grande parte determinadas pelas comunidades nas quais estão situadas, condenam alguns enquanto elevam os outros.

Quando o caminho para entrar no mercado de trabalho não é nivelado, e subitamente íngreme para alguns, não é de admirar algumas pessoas sentirem o sistema ser injusto. Elas então estão abertas às ideologias cujas propostas vão no sentido do abandono do sistema de mercado liberal. Ele nos serviu muito bem desde a Segunda Guerra Mundial.

A maneira de resolver este problema, e muitos outros em nossa sociedade, não é principalmente através do Estado ou através dos Mercados. É revivendo a Comunidade e fazendo ela cumprir suas funções essenciais, como a escolarização, de maneira melhor. Só então temos a chance de reduzir o apelo de ideologias radicais.

Raghuram Rajan examina maneiras de fazer isso, mas talvez o mais importante seja retomar o poder assumido constantemente pelo Estado de volta à comunidade. Continuar a ler

Demanda Efetiva versus Desemprego Tecnológico: Problema de Oferta face à Carência de Demanda

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma:  maior parte do dito a respeito do desemprego tecnológico é apenas especulação, claro.

No momento em que ele escrevia — início de 2018 —, a automação acabou com muitos setores da economia, mas não resultou em desemprego massivo. Na verdade, em muitos países, como os Estados Unidos, o nível de desemprego é um dos mais baixos da história.

Harari é historiador e não economista. Parece desconhecer a Teoria do Emprego. Há desemprego tecnológico, é inegável, mas ele pode ser compensado por investimentos público e privado em infraestrutura logística e/ou tecnológica, por exemplo. Novos produtos resultam em nova linha de produção não necessariamente automatizada. Emprego depende de demanda efetiva, isto é, expansão do consumo, investimento privado, gasto governamental e exportação líquida.

Ninguém sabe com certeza qual impacto o aprendizado de máquina e a automação terão em diversas profissões. É dificílimo estimar o cronograma dos desenvolvimentos mais importantes, em especial quando dependem tanto de decisões políticas e tradições culturais quanto de inovações puramente tecnológicas. Assim, mesmo depois que veículos autodirigidos provarem ser mais seguros e mais baratos do que motoristas humanos, políticos e consumidores poderão impedir essa mudança durante anos, talvez décadas.

Contudo, não podemos ser complacentes. É perigoso simplesmente supor que surgirão novos empregos para compensar quaisquer perdas. O fato de isso ter acontecido em ciclos anteriores de automação não é garantia nenhuma de que vai acontecer de novo nas condições muito diferentes do século XXI. As potenciais rupturas social e política são tão alarmantes que, mesmo que a probabilidade de desemprego sistêmico em massa seja baixa, devemos levá-la a sério. Continuar a ler

Efeitos do Comércio e da Revolução Tecnológica (TIC) na Comunidade

Raghuram Rajan, no livro “O terceiro pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), afirma: “os pilares estão seriamente desequilibrados hoje”.

Os efeitos diretos da revolução das TIC (Tecnologia de Informações e Comunicações) através da automação e os efeitos indiretos, mas mais localizados, através da competição comercial, levaram a grandes perdas de emprego em algumas comunidades em países desenvolvidos. Normalmente, esses empregos são de renda média e mantidos pelos moderadamente educados, isto é, até o Ensino Médio.

Com trabalhadores do sexo masculino menos capazes de se ajustar, as famílias têm sido tremendamente estressadas, com um aumento de divórcios, gravidez na adolescência e famílias monoparentais. Por sua vez, estes levaram a uma deterioração do meio ambiente para as crianças, resultando em:

  1. baixo desempenho escolar;
  2. altas taxas de evasão, o aumento da atratividade de drogas, gangues e crime; e
  3. desemprego juvenil persistente.

É importante ressaltar: o declínio da comunidade tende a se alimentar de si mesmo, pois as famílias ainda funcionais emigram para seus filhos não serem afetados pelo ambiente insalubre. Continuar a ler

Destruição Criadora de Novas Atividades Ocupacionais

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: a perda de muitos trabalhos tradicionais, da arte aos serviços de saúde, será parcialmente compensada pela criação de novos trabalhos humanos.

Um clínico geral que diagnostica doenças conhecidas e administra tratamentos de rotina provavelmente será substituído pela IA médica. Mas, justamente por causa disso, haverá muito mais dinheiro para pagar médicos e assistentes de laboratório humanos que façam pesquisas inovadoras e desenvolvam novos medicamentos ou procedimentos cirúrgicos.

A IA poderia ajudar a criar novos empregos humanos de outra maneira. Em vez de os humanos competirem com a IA, poderiam concentrar-se nos serviços à IA e na sua alavancagem. Por exemplo, a substituição de pilotos humanos por drones eliminou alguns empregos, mas criou muitas oportunidades novas em manutenção, controle remoto, análise de dados e segurança cibernética.

É possível que o mercado de trabalho em 2050 se caracterize pela cooperação, e não pela competição, entre humanos e IA. Em campos que vão do policiamento à atividade bancária, equipes formadas por humanos e IA poderiam superar o desempenho tanto de humanos quanto de computadores.

O problema com todos esses novos empregos, no entanto, é que eles provavelmente exigirão altos níveis de especialização, e não resolverão, portanto, os problemas dos trabalhadores não qualificados que estão desempregados. A criação de novos empregos humanos pode mostrar-se mais fácil do que treinar novamente humanos para preencher esses empregos. Continuar a ler

Porque a Comunidade ainda importa

Para evitar confusão mais tarde, em seu prefácio do livro “O terceiro pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), Raghuram Rajan propõe superar rapidamente a questão tediosa, mas necessária, das definições.

De um modo geral, o Estado neste livro será referido à estrutura de governança política de um país. Em grande parte deste livro, ele se referirá ao governo federal. Além do Poder Executivo, o Estado também incluirá o Poder Legislativo e o Poder Judiciário.

Os Mercados incluirão todas as estruturas econômicas privadas capazes de facilitar a produção e o intercâmbio na economia. O termo abrangerá toda a variedade de mercados, incluindo o mercado de bens e serviços, o mercado de trabalhadores (o mercado de trabalho) e o mercado de empréstimos, ações e títulos (capital ou mercado financeiro). Incluirá também os principais atores do setor privado, como empresários e corporações.

De acordo com o dicionário, uma Comunidade “é um grupo social de qualquer tamanho cujos membros residem em uma localidade específica, compartilham o governo e frequentemente têm uma herança cultural e histórica comum”.

Essa é a definição a ser usada como referência à vizinhança (ou à vila, ao município ou à pequena cidade), sendo a comunidade arquetípica dos tempos modernos, a mansão dos tempos medievais e a tribo dos tempos antigos. É importante ressaltar: nos concentramos em comunidades cujos membros vivem em proximidade – em contraste com as comunidades virtuais ou as submissas às denominações religiosas nacionais.

Vamos ver o governo local, como o conselho escolar, o conselho de bairro, ou prefeito da cidade, como parte da Comunidade. Um grande país tem camadas de governo entre o governo federal (parte do estado) e o governo local (parte da comunidade).

Em geral, trataremos essas camadas como parte do Estado. Finalmente, usaremos os termos Sociedade, País ou Nação como sinônimos de Estado, Mercados, Comunidades, Pessoas, Territórios e muito mais. Eles compõem entidades políticas como a China ou os Estados Unidos. Continuar a ler

Substituição da Criatividade Humana por Algoritmos

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: ao menos no curto prazo, a IA e a robótica provavelmente não eliminarão por completo setores inteiros da economia. Trabalhos que requeiram especialização numa faixa estreita de atividades padronizadas serão automatizados.

Porém será muito mais difícil substituir humanos por máquinas em tarefas menos padronizadas que:

  1. exijam o uso simultâneo de uma ampla variedade de habilidades, e
  2. envolvam lidar com cenários imprevisíveis.

Tomem-se os serviços de saúde, por exemplo. Muitos médicos concentram-se exclusivamente em processar informação: eles absorvem dados médicos, os analisam e fazem um diagnóstico. Enfermeiras, ao contrário, precisam também de boas habilidades motoras e emocionais para ministrar uma injeção dolorosa, trocar um curativo ou conter um paciente violento. Por isso provavelmente teremos um médico de IA em nosso smartphone décadas antes de termos uma enfermeira-robô confiável.

É provável que as atividades de cuidado — de enfermos, crianças e idosos — continuem a ser um bastião humano por muito tempo. Realmente, como as pessoas estão vivendo mais e tendo menos filhos, a área de cuidados geriátricos provavelmente será a de crescimento mais rápido no mercado de trabalho humano. Continuar a ler