Transdisciplinaridade: Baixe o Livro

Este livro-resenha teria sido escrito a várias mãos, caso fosse resultante do encontro direto dos autores. Não sendo essa ambição possível, na realidade pessoal, embora possa ser imaginada, na realidade consensual, desenvolvi aqui minha atualização de leitura de livros recém-lançados, em inglês, e escrevi seus resumos para memorizar suas ideias principais. Fiz até certo ponto um esforço mais longo, face ao inicialmente pretendido, para obter esse trabalho cooperativo de juntar novas ideias na criação deste livrotexto de referência didática

Então, cada ideia apresentada aqui, nos distintos níveis de realidade onde se insere (realidade objetiva e realidade consensual, senão realidade pessoal), deve ser compreendida como fruto de uma criação coletiva – não é um trabalho autoral ou pessoal. A mistura consistente de ideias transdisciplinares gera criatividade.

Sob a forma de capítulos, fiz resumos das obras escolhidas, seja de autoria individual, seja de dupla de autores. Coerentemente com seu título, essa inteligência coletiva seria uma forma coerente de expressar o modo transdisciplinar de relacionamento e pensamento dos autores de áreas de conhecimento distintas: médica, física, de cientista de dados, tecnologia de informações, economia, etc. 

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Iceberg Econômico

Diversidade Econômica: Repensando Economia e 
Representação Econômica (por J. K. Gibson-Graham)

Iceberg Econômico (desenho de Ken Byrne)

O iceberg é uma representação econômica usada em projetos de pesquisa-ação para estimular conversas sobre ‘a economia’. Esta imagem é uma forma de ilustrar o geralmente considerado ‘a economia’: trabalho assalariado, troca de mercadorias no mercado e empresa capitalista

Compreende apenas um pequeno subconjunto das atividades pelas quais produzimos, trocamos e distribuímos valores. Ele exprime nosso conhecimento comum das múltiplas maneiras pelas quais todos nós estamos engajados na atividade econômica. 

Ele coloca pouco acima e muito abaixo da “superfície do mar” ao submergir diversas concepções de economia. Coloca a reputação da Economia [enquanto Ciência nomeado com maiúscula], um corpo de conhecimento abrangente e científico, sob suspeita crítica por ter esse foco estreito com efeitos mistificadores sobre o estritamente capitalista.

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André Lara Resende (ex-PUC-RJ) X José Júlio Senna (IBRE-FGV)

José Júlio Senna é chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre e autor do livro “Política Monetária: Ideias, Experiências e Evolução” (Editora FGV, 2010). Foi diretor do Banco Central. Criticou (Valor, 16/04/21) o André Lara Resende e recebeu uma réplica (Valor, 23/04/21).

Dada a importância do debate sobre MMT (Teoria da Moeda Moderna) e a raridade de um debate plural, no jornalismo econômico brasileiro, compartilho os dois artigos abaixo. Ao Lara Resende se colocar como um dissidente da ortodoxia, ele abre espaço para divulgar ideias heterodoxas e os leitores pensarem melhor a respeito das alternativas existentes ao pensamento fiscalista predominante aqui, mesmo em época de Grande Depressão.

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Finanças Comportamentais para Trabalhadores

Com finalidade didática, traduzi extratos do livro Behavioral Finance for Private Banking, publicado em plena crise financeira de 2008. Sua 2a. Edição foi lançada em 2018.

A 2ª. Edição deste livro se beneficia de percepções de novas áreas de pesquisa, como Finanças Culturais, Neurofinanças e Fintech. Porém, traduzi apenas pequenos extratos mais interessantes para a leitura complementar de meus alunos.

Complementei o aprendizado e a aplicação dos leitores sobre Finanças Comportamentais ao apresentar informações sobre a realidade atual das finanças familiares no Brasil. Para tanto, utilizei da análise comparativa da última Pesquisa de Orçamentos Familiares com as anteriores, realizada pelo meu ex-professor de Econometria no mestrado em Economia na UNICAMP: Rodolfo Hoffmann. 

Ele e a coautora Daniela Verzola Vaz deram especial ênfase à contribuição das parcelas da renda familiar não normalmente investigadas ou cuja estimação depende de aproximações na PNAD, como a renda não monetária, a variação patrimonial, as aposentadorias e pensões de funcionários públicos e as transferências de programas sociais federais. Conhecer a contribuição desses componentes para a desigualdade da renda pode amparar os professores de Educação Financeira para ajudar a elaboração de planos de mobilidade social para seus alunos: os trabalhadores brasileiros.

Fernando Nogueira da Costa – Finanças Comportamentais para Trabalhadores.

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Castas e Párias

Com finalidade educacional, fiz uma tradução de extratos de um livro publicado no ano passado, nos EUA, sobre Castas [Caste], indicado na resposta a uma pergunta feita por mim à Lilia Schwarz: devemos rever a história do Brasil à luz das castas? Ela concordou. Fiz isso em Fernando Nogueira da Costa – Complexidade Brasileira: Abordagem Multidisciplinar. Sugiro a leitura do livro de autoria Isabel Wilkerson, cujas ideias centrais são resumidas abaixo, pois ele faz pensar a mistura entre sistema de castas e racismo, lá e aqui.

Fernando Nogueira da Costa. Castas e Párias. Blog Cidadania & Cultura. março de 2021

Coloquei como conclusão meu resumo do debate com outros textos contemporâneos, apresentados na coletânea, sobre políticas públicas para a superação da pobreza. Compartilho abaixo o artigo-resenha (publicado no dia 23/03/21 no GGN).

Esse foi o gesto racista, realizado pelo assessor internacional de Bolsonaro, Filipe Martins, durante audiência do chanceler Araújo no Senado Federal. É crime de racismo propagandear esse símbolo de intolerância supremacista branca da extrema direita nos Estados Unidos e no mundo.

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Cartilha de Finanças Pessoais

Neste semestre letivo, 80 alunos matricularam na disciplina eletiva oferecida por mim para os alunos da graduação do IE-UNICAMP. Ela é intitulada Finanças Comportamentais Para Planejamento Financeiro Pessoal.

Sua ementa busca propiciar Educação Financeira. Na primeira parte, analisa as evidências empíricas brasileiras sobre distribuição das rendas do trabalho, do capital produtivo, do capital financeiro, do capital imobiliário, além da concentração da riqueza no Brasil. Na segunda parte, apresenta o neuromarketing e as prevenções contra impulsos emocionais para consumir, as neurofinanças ou psicologia dos investidores, as finanças comportamentais. Na última parte, ensina o planejamento financeiro da vida pessoal e/ou familiar, o planejamento financeiro da aposentadoria, e conclui com o debate sobre economia da felicidade ou da boa vida.

Coloco à disposição de todos interessados um guia-didático (ou “livro-texto”) para o seguir:

Fernando Nogueira da Costa. Cartilha de Finanças Pessoais. Blog Cidadania & Cultura; março de 2021

O grande diferencial em relação à literatura de auto-ajuda financeira, encontrada nas livrarias (e com preços bem cobrados), além da vantagem de eu o colocar para download de graça, é seu método científico. Não apela para a motivação emocional, mas sim para fatos e dados para cada leitor refletir, racional e objetivamente, sobre o planejamento de sua vida financeira futura.

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Por Uma Teoria Alternativa da Moeda

O monopólio da emissão de moeda nacional é, junto com o das armas, sustentáculo da soberania do Estado sobre seu território. Ambos monopólios estatais reúnem o poder econômico e o poder militar. 

A casta dos mercadores e a casta dos guerreiros-militares, desde o passado, se aliam para configurar uma oligarquia governante. Com a emergência da organização dos trabalhadores assalariados, seja sindical, seja partidária, e depois a formação de uma massa de trabalhadores intelectuais universitários, há a divulgação de ideias socialistas contra o capitalismo explorador da força do trabalho. 

A socialdemocracia europeia, após a II Guerra, e a norte-americana, no New Deal, após a Grande Depressão dos anos 30, foi reformista e civilizadora. Com um Estado de Bem-Estar Social obteve os melhores Índices de Desenvolvimento Humano. Aqui, no Brasil, o social-desenvolvimentismo (2003-2014) teve de se contrapor ao neoliberalismo da socialdemocracia à brasileira, projeto só de intelectuais, sem trabalhadores.

No mundo das ideias, sempre houve questionamento de ideias, mesmo feito no ostracismo, durante os estados-de-guerra ou de emergência, sob regimes tirânicos. por Meios de comunicação midiáticos costumam sabotar a divulgação das ideias de vanguarda, críticas ao pensamento dominante. Mas, de tempos em tempos, elas emergem e chegam à opinião especializada bem-formada.

Daí a tarefa da inteligência é sua divulgação didática para a formação da opinião pública. Pratica um debate plural, onde cada participante se posiciona com base em sua razão. 

Na Espanha da ditadura fascista de Franco havia uma figura ressentida por ser um militar mutilado, José Millán-Astray, cujo lema era “Viva la Muerte!” Além de celebrar a morte, condenava a razão. Clamou: “Abaixo a inteligência, viva a morte!”. Parece o capitão…

A inteligência está do lado da academia do saber, a truculência está do lado da academia militar e fisiológica. Parece haver uma relação inversamente proporcional entre músculo e cérebro! Os “bombados” estão do lado da morte! Estamos, pelo contrário, do lado da vida!

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Afrouxamento Monetário e Inflação

De maneira simplória, economistas ortodoxos reduzem um fenômeno complexo como o processo inflacionário, emergente de interações dinâmicas entre vários componentes, a uma única causa. Na Era da Teoria Quantitativa da Moeda, o nível geral de preços era considerado proporcional à oferta de moeda, se sua velocidade de circulação fosse constante e a demanda por moeda transacional seguisse um padrão estável de gastos, para atender necessidades básicas, sem sofrer influência da taxa de juros.

Esse Postulado da Proporcionalidade sofreu a crítica de uma Teoria Alternativa da Moeda. Mostrou as decisões dos agentes econômicos em ativar moeda ociosa ou fazer inovações financeiras interagirem e gerarem instabilidade da velocidade de circulação da moeda. Logo, ela oscilaria de acordo com a acomodação da oferta monetária às variações de transações, afetadas pela volatilidade da taxa de juro.

Daí os monetaristas se transformaram em economistas novos-clássicos e adotaram o regime de metas para a inflação. No caso brasileiro, convencionalmente, os condicionantes das projeções para a inflação se referem às trajetórias da taxa de câmbio e da taxa de juros (Selic) ao longo do horizonte de projeção.

De maneira mental binária (Tico e Teco: “2 neurônio” sem S), a taxa de inflação é vista como uma função inversamente proporcional à taxa de juro e função direta da taxa de câmbio. A primeira controlaria a demanda agregada. Caso o nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) estivesse baixo, não haveria pressão inflacionária.

Na economia brasileira, a atual Grande Depressão é deflacionária ou inflacionária?

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Ajuste Fiscal só Após a Retomada do Crescimento (por André Lara Resende)

André Lara Resende (Valor, 29/01/2021) publicou um longo artigo acadêmico no Eu&Fim-de-Semana. É bom ele ter seguido sua racionalidade inteligente e se tornado um divulgador da MMT (Teoria Moderna da Moeda) no Brasil. Como ex-professor da PUC-RJ, consegue espaço para publicar quando quiser — e como quiser — no jornalismo oficioso do neoliberalismo econômico. Compartilho abaixo seu artigo.

“A partir da segunda metade dos anos 1990, depois da estabilização da inflação crônica brasileira, passou a haver uma sistemática preocupação de evitar que as contas do setor público saíssem de controle. A preocupação com o descontrole das contas públicas advém da vinculação entre o déficit fiscal e a expansão monetária.

Até o fim do século passado, a Macroeconomia hegemônica considerava que o descontrole dos gastos públicos e a excessiva expansão da moeda estavam por trás de todo processo inflacionário. Como “gato escaldado tem medo de água fria”, no Brasil depois da estabilização, a preocupação com o equilíbrio das contas públicas passou a pautar a política macroeconômica.

No momento em que se discute a suspensão do auxílio emergencial à população em nome do equilíbrio fiscal, justamente quando a epidemia de covid recrudesce, é fundamental entender que a verdadeira responsabilidade fiscal não é o equilíbrio orçamentário em todas as circunstâncias e a qualquer custo. Nas atuais circunstâncias, a insistência no equilíbrio fiscal, além de macroeconomicamente equivocada, é moralmente inaceitável.

O objetivo deste artigo é examinar mais a fundo as raízes dos equívocos da macroeconomia hegemônica. Apesar de revista, continua pautada pela lógica da moeda metálica. É incapaz de incorporar em seu arcabouço analítico a moeda fiduciária e o crédito sem lastro na poupança prévia. Continuar a ler

Inovações Disruptivas ou Destruições Criativas: 5G, Home Office e PIX

Inovação disruptiva é um processo pelo qual uma tecnologia, produto ou serviço é transformado ou substituído por uma solução superior. Esta, por ser mais acessível, simples ou conveniente, se for percebida pelos consumidores, provoca uma mudança em seus comportamentos. A solução anterior se torna obsoleta e desaparece.

Esse é um novo nome para o conceito anterior de destruição criativa, divulgado por Joseph Schumpeter (1883-1950)? Esta representa o surgimento e a consolidação de produtos e métodos de produção substitutos, capazes de ocuparem espaço no mercado e causarem o desaparecimento de produtos e métodos antigos.

Ambos conceitos se referem às inovações em empreendimentos emergentes. Eles ganham nichos crescentes no mercado, podendo implicar até na falência das empresas antes estabelecidas – e imaginadas serem eternas. Sem dúvida, há muita similaridade nos conceitos de destruição criativa e inovação disruptiva.

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Apostila sobre Metodologias em Economia

Apostila, no passado, era um tipo de impresso ou de caderno contendo a coletânea escrita das aulas. Sócrates (469 a.C. – 399 a.C.) é considerado um dos fundadores da Filosofia ocidental. Sua obra ficou conhecida, principalmente, através dos relatos ou anotações (“apostilas”), apresentados em obras de seus alunos, em especial por Platão. Os diálogos deste filósofo grego seriam o relato mais abrangente do pensamento de Sócrates a ter perdurado desde a Antiguidade à Atualidade. 

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Banco Central Utópico: Crítica ao Real

Andre de Melo Modenesi é professor associado ao Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do CNPq. Publicou artigo muito didático (Le Monde Diplomatique, 20 de agosto de 2020) sobre a atuação ideal da Autoridade Monetária de acordo com a teoria pós-keynesiana, MMT (Teoria Moderna da Moeda) e a teoria estruturalista da inflação. Trata-se de um Banco Central antitético ao previsto pelo regime de metas de inflação. Seu principal objetivo é manter os níveis de emprego e de renda. Compartilho-o abaixo.

“O presente momento é marcado por uma crise global. A estagnação econômica, desde a crise de 2008, somada aos problemas sociais (pobreza, desigualdade de renda etc.) marca uma grave crise do capitalismo financeiro. As políticas neoliberais fracassaram patentemente e não foram capazes de ampliar o bem estar social.

O foco no combate à inflação tolhe a política monetária. O “austericismo” fiscal engessa a política fiscal. A liberação financeira, restringe a regulação financeira. A política industrial e o planejamento econômico são demonizados pela crença na eficiência alocativa e distributiva do mercado desregulado.

Estamos diante de um desafio que clama por novas formas de pensar, teorizar e intervir no mundo. Realizamos aqui um exercício de elucubração fantasiosa, com o intuito de definir as linhas gerais de um banco central (BC) utópico. Continuar a ler