Arte da Economia: Conclusão

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“Tal como a maioria dos assuntos aparentemente impenetráveis, a arte assemelha-se a um jogo; só precisamos conhecer as regras e os regulamentos básicos para que o antes desconcertante comece a fazer algum sentido”, afirma Gompertz, no livro Isso É Arte? (2013). Aplicamos essa leitura estimulante nesta série de posts que se encerra hoje.

Assim como na Arte da Economia, quando se trata de apreciar e usufruir Arte Moderna e Contemporânea não é o caso de decidir se ela é em alguma medida boa ou não, mas compreender como ela evoluiu. “A arte ajudou a transformar o mundo e o mundo ajudou a transformar a arte. Cada movimento, cada ‘ismo’, está intricadamente conectado, um levando a outro como os elos em uma corrente. Mas todos eles têm suas próprias abordagens individuais, estilos distintos e métodos de fazer arte, que são o ponto culminante de uma ampla variedade de influências: artísticas, políticas, sociais e tecnológicas” (Gompertz: 2013: 17).

A Academia cumpre, de maneira ortodoxa, o dever auto imposto de proteger a rica herança neoclássica, mas torna-se irremediavelmente retrógrada quando se trata de abrir novas perspectivas. As correntes econômicas evoluíram assim como os movimentos artísticos. Alguns teóricos foram para a arte conceitual – e não voltaram… Continue reading “Arte da Economia: Conclusão”

Poucas Cores na Paleta de Tintas dos Economistas

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A Arte da Economia necessita de um instrumento de medição para lidar com ela. Nesse sentido, o quadro econômico é uma pintura!

O sistema fisiocrático, qualificação que se refere ao “poder sobre a natureza”, ou seja, extração de riqueza da natureza, foi apresentado no Quadro Econômico de François Quesnay (1694-1774), cirurgião-médico que se inspirou na circulação do sangue no corpo humano para modelar o diagrama, publicado originalmente em 1758. Ilustra, com uma série de linhas cruzadas e ligadas, o fluxo de dinheiro, bens e serviços entre três grupos sociais: proprietários de terras, agricultores e artesãos.

O enfoque mercantilista dominava o pensamento econômico anterior às revoluções republicanas a favor dos direitos da cidadania, destacadamente o direito à propriedade privada e o de um homem não ser escravizado por outro. A publicação por Adam Smith de A Riqueza das Nações, em 1776, deu maior suporte intelectual à ideologia do individualismo libertário em sua luta contra o Estado monárquico e absolutista. Continue reading “Poucas Cores na Paleta de Tintas dos Economistas”

Da Ciência Econômica para a Arte da Economia

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De toda a evolução pregressa da história do pensamento econômico, o que ficou de contribuição da Ciência Econômica para a Arte da Economia? A combinação idealizada de preços diversos em um equilíbrio geral está entranhada no imaginário dos economistas. Eles acham possível o Banco Central, tal como um “leiloeiro walrasiano”, equilibrar todos os preços relativos via tateio!

Outra metáfora profissional sugere que as tarifas e os tributos, a taxa de juros, a taxa de câmbio, a taxa de crescimento da renda e do emprego, a taxa de inflação, e a taxa de salário real, todos esses preços básicos interagem uns sobre os outros como “bolas na tigela”. Nenhum desses preços relativos está determinado antes que todo o resto também o esteja. Uma “bola adicional na tigela”, que atrapalha a configuração prévia, é representada pela expectativa quanto ao curso futuro dessas taxas.

A metáfora da aleatoriedade do ajuste entre preços relativos talvez seja melhor representada pelo Globo para Sorteio. Bolas numeradas são colocadas dentro dele e sorteadas uma a uma. Esse instrumento é comum em loterias, bingos, escolhas de confrontos de times em torneios de futebol, etc. Ele pode designar melhor a qualidade de interação entre preços relativos, mantendo com o primeiro – bolas na tigela – certa semelhança. Continue reading “Da Ciência Econômica para a Arte da Economia”

Marshall e Wicksell: da Teoria à Prática

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A partir do Modelo de Equilíbrio Geral, alguns economistas já tinham passado a desprezar a Economia Matemática como irremediavelmente estreita e absolutamente imprópria para aplicação ao comportamento humano — que era apenas “falsamente lógico”. Em vez disso, descobriu-se a “lógica dos sentidos”: tratava-se da lógica irracional que era responsável pelos caprichos da emoção condutora da ação humana. Esses atos ilógicos eram determinados por uma expressão da psicologia humana subjacente. Isto era um fato incontestável que não admitia maior explicação teórica.

Alfred Marshall (1842-1924), além de fornecer o conceito de que o valor (preço) de um bem era determinado pela “tesoura da oferta e da demanda”, ampliou também enormemente a ideia de análise do equilíbrio. Walras realizara a análise do equilíbrio geral, que envolvia uma economia inteira ou macroeconomia. Marshall introduziu a noção de análise do equilíbrio parcial, que se concentrava em um setor particular da economia. Isso podia se limitar a uma indústria particular, uma empresa particular ou mesmo a um indivíduo consumidor. Continue reading “Marshall e Wicksell: da Teoria à Prática”

Distribuição Igualitária de Riqueza e Renda: Fora da Economia Pura, logo, Questão de Arte, não de Ciência.

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Segundo Paul Strathern, no livro Uma Breve História da Economia, o argumento básico de Jeremy Bentham (1748-1832) era bastante claro: “A natureza pôs a humanidade sob o governo de dois mestres soberanos, a dor e o prazer.” Esse era o “princípio da utilidade”, que era um princípio moral. O que nos proporciona prazer é bom, o que nos proporciona dor é mau. Para ser moral, porém, esse princípio deve ser visto em termos sociais. O que é direito maximiza o prazer de todos, o que é errado causa um aumento global de dor e sofrimento. Quando confrontados com decisões difíceis, devemos ponderar o prazer líquido contra a dor líquida.

Isso nos traz à principal dificuldade do utilitarismo. Como é possível medir prazer — seja na escala individual ou na coletiva? Bentham tratou esse problema em algum detalhe, concebendo seu “cálculo da felicidade” para a mensuração precisa do prazer. Em sua análise, arrolou sete dimensões diferentes do prazer — incluindo sua duração e o número de indivíduos afetados por ele. Arrolou também 14 diferentes tipos de prazeres simples — que passavam pelos resultantes do poder, da riqueza, da habilidade, do bom nome e (por fim mas não com menor importância) da malevolência. Mencionou também uma dúzia de “dores simples” — que iam da decepção ao desejo (uma categoria que, ao que parecia, tornava a maioria de nós masoquistas). Continue reading “Distribuição Igualitária de Riqueza e Renda: Fora da Economia Pura, logo, Questão de Arte, não de Ciência.”

Economia Institucionalista: Emulação X Racionalidade

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Mesmo em épocas mais obscuras, quando parece ser total o domínio do “pensamento único”, há no subterrâneo do debate público um pensamento alternativo. Thorstein Bunde Veblen (1857-1929) foi um economista e sociólogo norte-americano, filho de imigrantes noruegueses. Veblen se formou em Filosofia pela Universidade Johns Hopkins e doutorou-se por Yale. Sem poder encontrar trabalho como professor, matriculou-se de novo na Universidade de Cornell, onde conheceu James Laurence Laughlin, que o convidou a entrar para o Departamento de Economia da Universidade de Chicago. Em 1919, Veblen foi um dos fundadores da New School for Social Research.

Sua obra mais famosa é A Teoria da Classe Ociosa (1899), na qual Veblen analisou a estrutura econômica de sua época desde a ótica do darwinismo, e criticou a ostentação das classes mais favorecidas. Por sua ênfase nos usos e costumes sociais como fenômenos explicativos da atividade econômica, ele é considerado o fundador da Economia Institucionalista, dentro da história do pensamento econômico. Continue reading “Economia Institucionalista: Emulação X Racionalidade”

Pensamento Neoclássico: Defesa do Capitalismo

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Leon Walras (1834-1910) tinha várias características em comum com quase todos os economistas teóricos que escreveram com base na tradição da utilidade, desde Jean-Baptiste Say (1767-1832), passando por William Stanley Jevons (1835-1882) e Carl Menger (1840-1921), até hoje. Primeiramente, via a economia quase que inteiramente sob uma perspectiva da troca. Até quanto escreveu sobre a produção, como quase todos os teóricos da utilidade, interpretou-a, basicamente, como uma série de trocas e nunca sob a perspectiva das relações de classe ou castas envolvidas. Assim, sua análise se ateve ao que Marx chamou de esfera da circulação.

A negação de Walras das relações de classe ou castas no processo de produção pode ser vista com mais clareza na elaboração neoclássica sobre o empreendedor. É atemporal. Há três tipos de fatores produtivos – capital, terra e trabalho. A propriedade de cada um desses fatores era tomada como dado. Cada indivíduo, agindo da mesma forma em busca da maximização da utilidade, prazer ou felicidade, vende uma certa quantidade de serviços produtivos a um empresário, a fim de comprar alguns bens de consumo. Todo o processo é um mero exercício de maximização da utilidade através da troca.

Cada serviço produtivo é pago pelo empresário exatamente de acordo com o valor que ele adiciona à produção. Os juros são o pagamento do capital, os alugueis são o pagamento do arrendamento da terra ou do imóvel urbano, e os salários são o pagamento do trabalho. Em equilíbrio geral, esses pagamentos produtivos equivalem, exatamente, ao valor do que produziram. Não há mais-valia (“aquela coisa de comunista”) alguma. Logo, o lucro só surge quando há desequilíbrio, ou seja, é igual a um prejuízo de alguém nesse sistema idealizado. Continue reading “Pensamento Neoclássico: Defesa do Capitalismo”