Livro para Download Gratuito: Ensino de Economia na Escola de Campinas – Memórias

O ensino de Economia na Unicamp – Universidade Estadual de Campinas está comemorando seus 50 anos. Em homenagem, como ex-aluno da segunda turma do Mestrado, iniciada em 1975, e professor contratado desde 1985, escrevi minhas Memórias a respeito de seu ensino. São memórias da formação de uma corrente de pensamento socioeconômico brasileiro.

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Econofísica II: Economia como Sistema Complexo e Dinâmico e a Física de Einstein

Estamos na segunda década do século XXI e a Econofísica ortodoxa sequer chegou à Teoria da Relatividade, isto é, ao século XX. Os estudos feitos pelo físico alemão Albert Einstein definem uma relação entre o espaço e o tempo, sendo ambos de caráter relativo e não estático. O tempo não é igual para todos, podendo variar de acordo com a velocidade, a gravidade e o espaço. Logo, o espaço e o tempo não são grandezas absolutas, mas sim subjetivas.

Para os economistas mecanicistas, “para toda ação há sempre uma reação oposta de igual intensidade”. Todas as forças econômicas existem em pares: se um agente econômico exerce seu poder de mercado sobre outro agente, então, o segundo simultaneamente exerce uma força no primeiro. Em um idílico mundo idealizado sob competição perfeita, ambas forças aparentam ser iguais e opostas. Nesse caso, rigorosamente, não cabe nem o termo ação, porque não implica em movimento.

De acordo com essa Terceira Lei de Isaac Newton, a atração gravitacional entre os agentes econômicos levaria a economia de livre-mercado quase automaticamente ao equilíbrio geral caso não houver nenhuma força motora extra mercado atuante contra esse movimento. E assim permaneceria em estado de repouso ou em movimento uniforme.

Tem de manter isso, viu? Os temerosos adotam a austeridade, a parcimônia e o sacrifício social em nome da manutenção do status quo idealizado, ou melhor, favorável a eles. Continue reading “Econofísica II: Economia como Sistema Complexo e Dinâmico e a Física de Einstein”

Econofísica I: Sistema de Preços Relativos e a Física de Isaac Newton

O sistema de preços relativos é considerado a pedra-de-toque do pensamento econômico ultraliberal: um meio de avaliar, padrão ou referência para a Economia. No sistema econômico de livre-mercado, os preços têm a função de equilibrar as decisões de milhões de indivíduos de interesses muitas vezes competitivos, assegurando coesão à economia como um todo. Considerando as variações dos preços, os empresários podem decidir por quais bens ou serviços (e em qual quantidade) suas empresas devem produzir, estimando a demanda por esses bens através dos indicadores de seus preços em relação a outros.

Essa concepção microeconômica teria se inspirado na Teoria da Relatividade de Albert Einstein? Resumidamente, a Teoria da Relatividade afirma: o tempo não é igual para todos, podendo variar de acordo com a velocidade, a gravidade e o espaço. Embora seja uma ideia inspiradora a ser aplicada em Economia – como farei em próximo artigo – parece-me os preços relativos se remeterem mais às Leis de Isaac Newton.

Física é um termo com origem no grego “physis” com significado de “natureza”. Essa ciência estuda supostas leis regentes de fenômenos naturais suscetíveis de serem examinados pela observação ou experimentação, procurando enquadrá-los em esquemas lógicos. Baseada em teorias racionais e experimentos laboratoriais, suas teorias se dividem entre a mecânica clássica (descrição do movimento de objetos), a mecânica quântica (determinação de medidas de grandezas), a relatividade (relações do espaço-tempo e a gravidade) e o eletromagnetismo (estudo da eletricidade e magnetismo).

A Econofísica é campo de estudo em busca de relacionar ou explicar fenômenos econômicos com auxílio de técnicas da Física. Geralmente as técnicas utilizadas para este propósito envolvem dinâmica não linear, processos estocásticos e incertezas. Continue reading “Econofísica I: Sistema de Preços Relativos e a Física de Isaac Newton”

Maria da Conceição Tavares por Ricardo Bielschowsky

Meu amigo Ricardo Bielschowsky, com autoironia, se define como “um intérprete dos intérpretes do Brasil”. Ele é um destacado “explicador” do pensamento econômico brasileiro. Possui brilhante capacidade de síntese de – como ele diz – “o que os outros pensam”. Vamos resumir sua breve resenha publicada na Revista de Economia Contemporânea (IE-UFRJ. Rio de Janeiro, 14(1): 193-200, jan./abr. 2010) sobre a obra escrita da Professora Maria da Conceição Tavares.

A obra oral é bastante conhecida: a capacidade de formar discípulos críticos à realidade, dentro do método histórico-estruturalista, com visão holística da indústria brasileira e do sistema financeiro nacional.

Quanto à obra escrita, Ricardo Bielschowsky a divide em dois grandes períodos:

  1. até as proximidades de 1980, na Era Desenvolvimentista, em torno da presença do crescimento socioeconômico;
  2. depois dela: as causas da ausência de crescimento.

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Inflação Acelerada: Crítica Construtiva de Conceição Tavares à Teoria da Inflação Inercial

Conceição Tavares – 2015

Na resenha teórica de Rogerio Pereira de Andrade e Renata Carvalho Silva, Uma mestra na periferia do capitalismo: a economia política de Maria da Conceição Tavares (Campinas, Texto para Discussão do IE-UNICAMP n. 172, dez. 2009), os autores afirmam a influência da agenda keynesiana ter continuado presente nas reflexões posteriores da autora em sua discussão acerca dos determinantes da inflação na economia brasileira (Tavares & Belluzo, 1984/1986).

Ela tem como referencial de análise o paradigma keynesiano de determinação dos preços, baseado nos trabalhos de Paul Davidson (e seu uso das categorias mercados spote forward) e John Hicks (e sua taxonomia preços fixe flex). Estes autores costumam ser associados à Escola Pós-Keynesiana, embora a obra de Hicks seja antecedente a essa corrente de pensamento econômico.

Nos anos 70 e 80, a aceleração inflacionária tornou-se uma preocupação tanto nas economias centrais, quanto nas periféricas. No caso brasileiro, ainda de forma mais aguda. Os dois choques do petróleo, a ruptura da regra de câmbio fixo da institucionalidade do sistema de Bretton Woods, e o choque dos juros norte-americano agravaram a incerteza a respeito o cálculo prospectivo capitalista na formação de preços. Continue reading “Inflação Acelerada: Crítica Construtiva de Conceição Tavares à Teoria da Inflação Inercial”

Conceição Tavares: Esquema Tri-setorial da Dinâmica Interindustrial em Kalecki e Princípio da Demanda Efetiva em Keynes

Na resenha teórica de Rogerio Pereira de Andrade e Renata Carvalho Silva, Uma mestra na periferia do capitalismo: a economia política de Maria da Conceição Tavares (Campinas, Texto para Discussão do IE-UNICAMP n. 172, dez. 2009), os autores afirmam: para compreender a industrialização no Brasil, privilegiando os aspectos endógenos da acumulação de capital, Tavares vale-se do princípio da demanda efetiva. Para ela, as economias não enfrentam problemas do lado da oferta, e sim pelo lado da demanda, quando se caracteriza uma situação de “insuficiência da demanda efetiva”.

Tavares destaca o aspecto crucial da demanda efetiva ser o investimentoenquanto instrumento de expansão da capacidade produtiva e da acumulação de capital. Entre as variáveis de gasto é importante também o consumo capitalista, como enfatizado por Michael Kalecki. Ele tem um papel a desempenhar na realização dos lucros no processo de acumulação.

A utilização do esquema de três setores de Kalecki é funcional para explicar a interpretação de Tavares do “crescimento desequilibrado”. Essa ideia tornou-se a base da nova visão da autora sobre a dinâmica cíclica da industrialização brasileira, presente em suas teses de Livre-Docência e Titular, defendidas respectivamente em 1974 e 1978, pela UFRJ. Continue reading “Conceição Tavares: Esquema Tri-setorial da Dinâmica Interindustrial em Kalecki e Princípio da Demanda Efetiva em Keynes”

Influência da Formação Marxista em Conceição Tavares

Na resenha teórica de Rogerio Pereira de Andrade e Renata Carvalho Silva, Uma mestra na periferia do capitalismo: a economia política de Maria da Conceição Tavares (Campinas, Texto para Discussão do IE-UNICAMP n. 172, dez. 2009), os autores a iniciam ao focalizar seu conceito de lucro.

Lucro, segundo a autora, é inerente aoprocesso de produção capitalista na sua forma completa ou, em linguagem marxista, “reprodução ampliada do capital”. Por isso, não pode ser ‘deduzido’ diretamente da ‘mais-valia’ ou do‘excedente’, nem contabilizado pelo número de horas do ‘sobretrabalho’. O lucro requer a valorização, ou precificação em termos monetários,das mercadorias produzidas pela força detrabalho em seu uso de meios de produção.

Portanto, por expressar avalorização do capital empregado na produção, o lucro capitalista implica a existência de “três movimentos lógicos do processo de valorização”:

  1. em primeiro lugar, a apropriação do trabalho abstrato pelo capital (determinação da taxa de mais-valia);
  2. em segundo lugar, sua transformação em preços de produção (determinação da taxa média de lucro);
  3. por fim, a transfiguração do capital em uma mercadoria singular, o dinheiro (determinação da taxa efetiva de lucro).

No seu movimento de auto expansão e valorização permanente, o capital termina por encontrar-se “prisioneiro de si mesmo”, isto é, “o dinheiro tentando valorizar o dinheiro”. Esta é a ideia chave para a compreensão de um aspecto central, desenvolvido de forma sistemática ao longo de sua obra: a lógica financeira do processo de valorização do capital sobrepondo-se à sua dimensão produtiva. Continue reading “Influência da Formação Marxista em Conceição Tavares”