Sobre a Eficácia da Política Monetária

Dólares em voo

Luciano Coutinho, economista, foi presidente do BNDES e Professor Titular do IE-UNICAMP. Embora eu seja seu ex-aluno e admirador de sua capacidade profissional com sólida formação teórica e histórica, permita-me discordar da mensagem principal de seu artigo abaixo (Valor, 02/03/17). Saliento que sou amplamente minoritário entre os economistas desenvolvimentistas a respeito da tese de que é necessário eliminar a LFT (Letras Financeiras do Tesouro), títulos de dívida pública pós-fixados.

Eu, FNC, entendo que meus colegas argumentam sob o ponto de vista da boa condução das Finanças Públicas. Eu argumento sob o ponto de vista das Finanças Pessoais, ou seja, as dos trabalhadores assalariados que ganham acima do teto do INSS (R$ R$ 5.531,31) — ou de todos aqueles que contam com o seu patrimônio no FGTS ou em Fundos de Previdência (Fechados ou Abertos) para a aposentadoria — e têm de defender o poder aquisitivo de suas reservas financeiras para a fase de vida inativa.

Historicamente, a economia brasileira se caracteriza pela instabilidade cambial e inflacionária, enfrentada através da variação dos juros. Outras economias não sofrem tanta volatilidade na taxa de juros que impõe risco de perda da riqueza financeira que tanto custa aos trabalhadores para acumularem e poderem se aposentar mantendo o padrão de vida. Aqui, imagine sem títulos pós-fixados para se defender da arbitrariedade da casta de sábios-tecnocratas incrustados no COPOM!

Discordo dos meus companheiros de esquerda quanto à imposição forçada de perda ao capital financeiro. Não se pode fazer desaforo ao capital — ou épater les bourgeois! Senão, aqui, ele foge para o dólar paralelo. Com a dolarização da economia brasileira, o sistema bi-monetário levaria à hiperinflação. A LFT desestimula essa fuga de capital do mercado financeiro formal, onde os investidores carregam a dívida pública, para o informal, onde especulam com dólar. Graças a essa “jabuticaba”, não tivemos hiperinflação aberta e descontrolada.

Reproduzo o artigo do meu caro Professor Luciano abaixo. Continue reading “Sobre a Eficácia da Política Monetária”

Taxa real de juro: Evolução e Perspectivas

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Nelson Barbosa, professor titular da Escola de Economia de São Paulo (FGV) e professor visitante da Universidade de Brasília, foi ministro da Fazenda e ministro do Planejamento no governo Dilma. Publicou artigo (Valor, 24/02/17), dentro do debate sobre a política de juros no Brasil, que reproduzimos abaixo.

O Brasil tem a mais alta taxa básica de juro do mundo em termos reais. Essa jabuticaba econômica tem sido motivo de debate desde meados da década de 1990. O recente artigo de André Lara Resende (publicado no Valor) reacendeu o interesse sobre o tema 1, sobretudo porque estamos em um momento de intensa discussão monetária nos EUA e de redução da taxa Selic no Brasil.

A partir da chamada Teoria Fiscal do Nível de Preço (TFNP), Lara Resende argumentou que a causalidade entre taxa de juro e inflação poderia ser no sentido contrário ao normalmente atribuído pela teoria convencional. Ao invés de a taxa de inflação determinar a taxa nominal de juro para atingir uma taxa real de juro pré-definida, a taxa nominal de juro poderia determinar a inflação devido à sua influência sobre solvência do setor público.

O sentido intuitivo da TFNP para o caso brasileiro seria que, dada uma taxa real de juro muito superior ao crescimento da economia e um nível elevado de endividamento do governo, o aumento da taxa básica de juro levaria à expansão do déficit público além da demanda do setor privado por títulos do Tesouro. Essa diferença teria, então, que ser preenchida pela expansão da quantidade de moeda ou quase-moeda (operações compromissadas), o que geraria mais inflação e completaria a causalidade da taxa de juro para o nível de preços.

O raciocínio acima é a base da hipótese da “dominância fiscal”, segundo a qual, em condições especiais de baixo crescimento e elevada dívida pública, a política monetária perderia sua eficácia sobre a inflação, pois aumentos da taxa básica de juro acabariam gerando mais – ao invés de menos – inflação.

A discussão dessa hipótese ganhou importância diante da recente recessão e aumento da dívida pública no Brasil, mas até o momento nada indica que nossa economia está ou esteve sob dominância fiscal. A evolução dos acontecimentos indica exatamente o oposto.

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Ministério da Economia

Seu Presidente,
Sua Excelência mostrou que é de fato
Agora tudo vai ficar barato
Agora o pobre já pode comer
Seu Presidente,
Pois era isso que o povo queria
O Ministério da Economia
Parece que vai resolver
Seu Presidente
Graças a Deus não vou comer mais gato
Carne de vaca no açougue é mato
Com meu amor eu já posso viver
Eu vou buscar
A minha nega pra morar comigo
Porque já vi que não há mais perigo
Ela de fome já não vai morrer
A vida estava tão difícil
Que eu mandei a minha nega bacana
Meter os peitos na cozinha da madame
Em Copacabana
Agora vou buscar a nega
Porque gosto dela pra cachorro
Os gatos é que vão dar gargalhada
De alegria lá no morro

 Obs.: errei no outro post o número da playlistEconomia em Letras de Músicas — no Spotify. O certo é 12142604272.

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Lista de Vieses Heurísticos

ver-o-mundo-com-lentes-cor-de-rosaPesquisando um viés heurístico, achei uma lista deles no Wikipedia! Compartilho-os, pois podem ser úteis a outros como foi para mim tê-los à mão.

Vieses cognitivos são as tendências de pensar de certas maneiras — aprendidas na “escola-da-vida” — que podem levar a desvios sistemáticos de lógica e a decisões irracionais. São frequentemente estudadas em Psicologia Econômica ou Economia Comportamental.

Embora a realidade desses preconceitos seja confirmada pela pesquisa replicável, muitas vezes há controvérsias sobre como classificar esses vieses ou como explicá-los. Alguns deles são consequências de nossas regras de processamento de informações (ou seja, atalhos mentais), chamados de heurística, que o cérebro usa para produzir decisões ou julgamentos.

Tais efeitos são chamados tendências cognitivas. Os vieses tem uma variedade de formas e podem ser vistos como viés cognitivo (“frios”), tais como ruído mental, ou vieses cognitivos motivacionais (“quentes”), tal como quando as decisões são distorcidas por crenças e desejos. Ambos os efeitos podem estar presentes ao mesmo tempo.

Também há controvérsias quanto ao fato de algumas destas tendências ser sempre inúteis e irracionais ou se são comportamentos úteis. Por exemplo, quando conhecem alguém, as pessoas tendem a fazer perguntas importantes que parecem favorecer e confirmar suas suposições sobre a pessoa. Esse tipo de viés de confirmação pode ser visto como um exemplo de habilidade social, ou seja, uma forma de estabelecer uma conexão com a outra pessoa.

Muitos dos vieses afetam:

  1. a formação de crenças,
  2. as decisões de negócios e financeiras e
  3. o comportamento humano em geral.

Eles emergem como resultados replicáveis em condições específicas. Quando confrontado com situações específicas, o desvio pode normalmente ser caracterizado como: Continue reading “Lista de Vieses Heurísticos”

Porque o Coletivo odeia o Individual

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), afirma que, na Biologia, a antifragilidade funciona graças às camadas. Essa rivalidade entre suborganismos contribui para a evolução:

  • as células dentro de nossos corpos competem; e,
  • dentro delas, as proteínas competem o tempo todo.

Vamos traduzir a questão para os empreendimentos humanos. A economia tem uma estratificação equivalente: indivíduos, artesãos, pequenas empresas, departamentos dentro das corporações, corporações, indústrias, economia regional e, no topo, a economia em geral — pode-se até fazer cortes mais finos, com um número maior de camadas.

Para que a economia seja antifrágil e sofra o que se chama de evolução, cada empresa deve necessariamente ser frágil, exposta à ruptura — a evolução precisa que os organismos (ou seus genes) morram quando suplantados por outros:

  • a fim de conquistar alguma melhoria, ou
  • para evitar a reprodução quando não estejam tão aptos quanto outro indivíduo.

Assim, a antifragilidade de nível superior pode requerer fragilidade — e sacrifícios — das de nível inferior. Continue reading “Porque o Coletivo odeia o Individual”

“Não se deve repetir os erros do passado quando há tantos novos erros a cometer”

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), aborda os erros e como os lapsos de algumas pessoas beneficiam as outras.

Podemos simplificar as relações entre fragilidade, erros e antifragilidade como se apresentam a seguir.

  • Quando você está frágil, depende que as coisas sigam o exato curso planejado, com um mínimo de desvio possível — pois os desvios são mais prejudiciais do que úteis. É por isso que o frágil precisa ser muito preditivo em sua abordagem, e, inversamente, os sistemas preditivos causam fragilidade.
  • Quando você quer desvios, e não se preocupa com a possível dispersão de resultados que o futuro pode trazer, já que a maioria será útil, você é antifrágil.

Além disso, o elemento aleatório da tentativa e erro não é totalmente aleatório se for conduzido de forma racional, utilizando os erros como fonte de informação.

Se cada tentativa lhe fornecer informações sobre o que não funciona, você começa a focar em uma solução — portanto, cada tentativa se torna mais valiosa, mais como uma despesa do que como um erro. E é claro que você fará descobertas ao longo do caminho.

Este capítulo do livro de Taleb é sobre camadas, unidades, hierarquias, estrutura fractal e a diferença entre os interesses de uma unidade e de suas subunidades. Por isso, geralmente, são os erros dos outros que beneficiam a todos nós — e, infelizmente, não a eles. Continue reading ““Não se deve repetir os erros do passado quando há tantos novos erros a cometer””

Evolução e Imprevisibilidade

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), ressalta que tudo o que é vivo ou orgânico na natureza tem uma vida finita e acaba morrendo. Mas, geralmente, morre após produzir uma descendência com um código genético, de uma maneira ou de outra diferente daquele dos progenitores, com suas informações modificadas.

A natureza não considera seus membros muito úteis depois que suas capacidades reprodutivas se esgotam. A natureza prefere deixar o jogo continuar no nível informativo, o código genético. Dessa maneira, os organismos precisam morrer para que a natureza seja antifrágil — a natureza é oportunista, cruel e egoísta.

Como exemplo, pensemos em um organismo imortal, construído sem data de expiração. Para sobreviver, ele precisa estar completamente apto a:

  • todos os possíveis acontecimentos aleatórios que venham a ocorrer no ambiente,
  • todos os futuros acontecimentos aleatórios.

Por alguma propriedade desagradável, um acontecimento aleatório é, digamos, aleatório. Ele não anuncia antecipadamente sua chegada, tornando possível que o organismo se prepare e faça ajustes para aguentar os impactos. Continue reading “Evolução e Imprevisibilidade”