O mundo ficou louco e o sistema está quebrado

Traduzo abaixo o artigo publicado em 5 de novembro de 2019 na conta do Linkedin do Ray Dalio (Co-Chief Investment Officer & Co-Chairman da Bridgewater Associates, L.P.). Ele é autor do ótimo livro RAY DALIO – Princípios para Navegação na Crise da Grande Dívida e influenciador de gente apreciadora de desafios intelectuais e/ou “pensar fora-da-caixa”. Ele faz essa afirmação no título de seu artigo por conta das seguintes justificativas.

O dinheiro é gratuito para quem é digno de crédito, porque os investidores credores e os bancos captadores o depositam nos Bancos Centrais dos Estados Unidos e da Europa e estão dispostos a receber um pouco menos em relação ao depositado. Mais especificamente, os investidores ao emprestarem a quem for digno de crédito aceitarão taxas de juros muito baixas ou negativas e não exigirão o reembolso do principal no futuro próximo.

Eles estão fazendo isso porque têm uma quantidade enorme de dinheiro para investir em circulação. Ela foi e continua sendo investida pelos Bancos Centrais ao comprar ativos financeiros, resgatando e/ou monetizando os títulos de dívida pública, em suas tentativas fúteis de aumentar a atividade econômica e a inflação.

A razão pela qual esse dinheiro disponível para os investidores não estar sendo investido em produção, impulsionando o crescimento econômico e a inflação, se deve à sua quantidade ser muito maior em relação à disposição dos investidores de gastá-lo, produtivamente, em vez de investi-lo no mercado financeiro. Esse afrouxamento monetário está criando uma dinâmica de “empurrar corda”. Ela já aconteceu muitas vezes na história (embora não em nossas vidas) e foi completamente explicada em seu livro “Princípios para a Navegação em Grandes Crises de Dívida” [Principles For Navigating Big Debt Crises. Bridgewater; 2018].

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Era de Governo Neoliberal e Era de Intervenção Governamental: Sequência Cíclica em Capitalismo

Dymski e Pollin (1994) conduziram uma investigação empírica sobre a noção de as Eras de Governo “Pequeno” e “Grande” terem dinâmicas cíclicas diferentes. Dymski (2002, 2009) estendeu este estudo original.

Dymski e Pollin (1994) confirmaram as trajetórias cíclicas na Era do “Pequeno Governo” (anos anteriores à década de 1930) diferirem sistematicamente daquelas  da Era do “Grande Governo” (década de 1930 até o final da década de 1970), nas formas dramatizadas por Minsky: deflação da dívida ocorreu, sistematicamente, na Era do “Pequeno Governo”, com profundas e prolongadas quedas no crescimento econômico e no emprego. Mas a Era do “Grande Governo” foi caracterizada por um período mais longo de expansão, devido à reconstrução pós-guerra, intercalado por desacelerações moderadas, além haver uma mudança do viés deflacionário para o inflacionário.

Durante a Era do “Grande Governo” também houve um estável crescimento médio real do PIB, uma taxa de juros real mais baixa, e taxas de insucesso bancárias e comerciais reduzidas. Dymski e Pollin (1994) descobriram o comportamento do ciclo de negócios dos anos 80 ter revertido para a Era do “Pequeno Governo”, de certa forma, quando houve alta taxa de juros real e daí altas taxas de falhas nos negócios bancários, mas não tanto em outros empreendimentos, quando a inflação de preços foi alta.

Não ficou claro se as trajetórias cíclicas estavam retornando ao seu padrão anterior ou se, um novo padrão estava surgindo. Dymski (2002) adicionou dados cíclicos dos anos 90 e descobriu sua trajetória se assemelhar à da década de 1980, sugerindo a economia dos Estados Unidos ter entrado em uma nova fase na década de 1980. Dymski (2009) descobriu os dados cíclicos dos anos 2000 (até o final de 2007) também se enquadram no padrão da “Era Neoliberal”.

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Modelo do Ciclo Político de Negócios elaborado por Kalecki

O capítulo de Gary Dymski na coletânea Crises of Global Economies and the Future of Capitalism: reviving Marxian crisis theory, edited by Kiichiro Yagi, Nobuharu Yokokawa, Shinjiro Hagiwara and Gary A. Dymski, publicada em 2013, está sob uma pergunta: Can the U.S. economy escape the law of gravity? A Minsky–Kalecki approach to the crisis of neoliberalism.

A preocupação central nos escritos de Kalecki, incluindo ensaios em seu antigo idioma polonês, onde antecipava o princípio da demanda efetiva de Keynes, era o problema de flutuações de investimento e emprego nas economias capitalistas. Em seus modelos formais (Kalecki, 1954), identificou várias fontes de flutuação, incluindo preços relativos variáveis e efeito acelerador.

Foi, no entanto, em um de seus artigos não-técnicos em termos de formalização matemática, “A Economia Política de Pleno Emprego”, onde Kalecki desenvolveu o argumento de o pleno o emprego ser impossível nas sociedades capitalistas avançadas sem haver sua sabotagem pelo fascismo. Seu pessimismo decorre, com efeito, da dependência da acumulação capitalista da exploração da força do trabalho como apresentada na análise marxista.

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A economia dos EUA pode escapar da lei da gravidade?

Crises of Global Economies and the Future of Capitalism: reviving Marxian crisis theory, edited by Kiichiro Yagi, Nobuharu Yokokawa, Shinjiro Hagiwara and Gary A. Dymski, foi publicado em 2013. Vale ler resenhas teóricas mais permanentes, entre as quais a de Dymski, um professor ativista norte-americano muito simpático. Seu capítulo nessa coletânea é intitulado sob uma pergunta: Can the U.S. economy escape the law of gravity? A Minsky–Kalecki approach to the crisis of neoliberalism. Traduzo abaixo um resumo dessa abordagem de Minsky-Kalecki para explicar a crise do neoliberalismo.

A “Revolução Keynesiana” na economia nacional mudou o foco da economia política para longe da regulamentação do mercado microeconômico e em direção ao controle do comportamento agregado. Keynes argumentou as sociedades capitalistas modernas poderem bloquear a dinâmica cíclica geradora recorrente da alta taxa de desemprego e da queda dos preços dos ativos. De maneiras muito diferentes, Minsky e Kalecki desafiaram a visão otimista (deliberadamente) de Keynes quanto o ciclo de negócios ser coisa do passado.

Minsky considera as implicações cíclicas do mercado de capitais nas estruturas financeiras. Kalecki, em seu artigo sobre “pleno emprego”, concentra-se na exploração da força do trabalho.

Gary Dymski inicia sua contribuição ao debate com a apresentação do modelo de instabilidade financeira de Minsky.

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ZIRP [Zero Interest Rate]: Taxa de Juro Zero

A Real-World Economics Review (A journal of the World Economics Association (WEA) – Issue no. 89, dedica um número especial à “Modern Monetary Theory and Its Critics”, publicado em 1 October 2019. Na coletânea de artigos de diversos autores pós-keynesianos notáveis, L. Randall Wray escreve o primeiro capítulo após a Introdução: Alternative paths to modern money theory. Concluo abaixo a tradução de seu último tópico. Versa sobre meu verdadeiro motivo de o consultar: queria saber o dito pela MMT sobre Juros Negativos. Encontrei só sobre Juro Zero… talvez por ser autor norte-americano.

Os procedimentos da relação Banco Central – Tesouro Nacional foram um pouco simplificados nos últimos anos com a alteração do pagamento de juros sobre reservas, para as reservas excedentes não resultarem em um “ZIRP” [Taxa de Juros Zero] indesejado, e com o Quantitative Easing, e colocando tantas reservas excedentes em risco. Por esse sistema, não há perigo de a venda de títulos causar reservas insuficientes.

Os críticos do MMT querem alegar isso provar impostos e empréstimos “financiarem” os gastos do Tesouro, portanto, ele está sujeito a uma restrição orçamentária do governo no ponto final. A MMT responde: as operações descritas seriam concluídas mesmo se o orçamento do governo estivesse equilibrado, excedente ou deficitário (conforme definido convencionalmente) ao longo do ano.

Isso ocorre porque, mesmo quando os gastos do governo sejam inferiores aos impostos pagos ao longo do ano, pode haver grandes diferenças entre os fluxos de gastos e impostos, diariamente, semanalmente e mensalmente. Como o Fed não deve permitir ficarem a “descobertos”, o Tesouro precisará vender títulos ao longo do ano, mesmo quando termine o ano com receita tributária total superior ao gasto.

Além disso, a venda de títulos exige os bancos terem reservas, o que só pode vir de gastos do Tesouro (realizados em seu nome pelo Fed), compras de ativos pelo Fed ou empréstimos do Fed. As reservas devem ser colocadas no sistema bancário antes delas poderem ser retiradas.

O mesmo se aplica aos pagamentos de impostos. Como o banco do contribuinte perde as reservas quando os impostos são pagos, primeiro as reservas devem ser colocadas no sistema por gastos do Tesouro, compras do Fed ou empréstimos do Fed.

Nem os impostos nem a venda de títulos podem ser uma fonte líquida de financiamento para o governo. Na realidade, os meios para pagar impostos ou comprar títulos (reservas no Fed) devem vir do governo (Tesouro e/ou Fed) antes de os impostos serem pagos ou os títulos serem comprados.

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Prática de Política Econômica dedutível da MMT (Teoria Moderna da Moeda)

A Real-World Economics Review (A journal of the World Economics Association (WEA) – Issue no. 89, dedica um número especial à “Modern Monetary Theory and Its Critics”, publicado em 1 October 2019. Na coletânea de artigos de diversos autores pós-keynesianos notáveis, L. Randall Wray escreve o primeiro capítulo após a Introdução: Alternative paths to modern money theory. Traduzi seu último tópico, ligeira e livremente, abaixo.

Antigamente, os governos gastavam e recebiam meios de pagamentos – moedas e papel-moeda – diretamente. A Constituição dos EUA concede ao Congresso o direito exclusivo de emitir moeda (e por muitos anos o Tesouro gastou sua própria moeda em circulação).

No entanto, isso foi interpretado como significando o Congresso poder delegar esse direito a um Banco Central. Ao longo dos anos, muitos críticos se opuseram a essa disposição e também à emissão de notas por bancos privados e agora depósitos. Para todos os efeitos práticos, são a principal meio de troca, além de terem o seguro do governo (garantia da lei) por trás deles.

Ainda assim, nossa moeda hoje é emitida pelo Fed na forma de notas em papel (moeda) e reservas, com o Tesouro emitindo apenas moedas – juntas reúnem o que é chamado de base monetária. E os bancos emitem depósitos, usados ​​como um dos principais meios de pagamento. É improvável isso mudar – mesmo quando o “dinheiro eletrônico” domina cada vez mais o sistema de pagamentos.

O dinheiro é essencialmente um título de dívida pública de cupom zero [sem pagamento de juros]. Esses títulos são passivos governamentais perpétuos sem data de vencimento e, é claro, alguns pagam juros. Os títulos do governo também emitem passivos de curto e longo prazo com promessa de pagamentos de juros.

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Moedas Paralelas: Disputa entre Mercado e Estado sob o olhar da Comunidade

Em companhia de dois, três provocam complexidade. Nunca o(a) outro(a) foi bem aceito(a) em uma relação de casal. Porém, O mundo real vai muito além de pares e/ou raciocínios binários, tipo Tico-e-Teco (“2 neurônio” sem S e sem conversarem entre si).

É um contumaz reducionismo se restringir a análise socioeconômica à disputa entre O Estado e O Mercado. Este é louvado como um ser sobrenatural e tratado com letras maiúsculas, porquanto ser visto como onipresente, onipotente e onisciente, embora estes dois últimos atributos sejam logicamente contraditórios. Se Ele prevê o futuro, perderá o poder de mudar o rumo da história…

Uma série de filmes recentes tem feito comentários sociais a respeito da reação de A Comunidade face à disputa binária entre O Mercado e O Estado: Coringa, Bacurau, A Lavanderia, etc. O primeiro é apresentado como invasor da privacidade, sugador de mentes, explorador dos “perdedores” (“losers”) descartáveis, inclusive com seguidos corte dos seus direitos sociais. O Mercado impõe o corte dos gastos públicos em nome da prioridade colocada na solvabilidade do Estado soberano quanto aos títulos de dívida pública usados como lastro da riqueza privada. Ou, antes, para eliminação do risco da eutanásia dos rentistas se a inflação ultrapassar os juros prefixados.

O Estado, por sua vez, é representado por milionários/bilionários populistas e/ou políticos oportunistas, circunstancialmente eleitos ao aproveitar da raiva difusa do povo eleitor contra o desemprego cíclico e tecnológico, a reversão da mobilidade social, a corrupção, a letalidade policial, entre outras mazelas cotidianas. O populista de direita diz falar “em nome do povo”, na verdade, o reduz a uma diminuta maioria eventual, angariada apenas na data da eleição, e esmaga os direitos dos demais cidadãos. Logo, com a decepção da maioria dos eleitores iludidos, sua base de apoio se torna minoria.

A Comunidade é tratada como mera “massa de manobra” para proveito individualista. Seja como palhaços enlouquecidos (no Coringa), seja como caças revoltadas (no Bacurau), ou mesmo, como viúvas sem marido e dinheiro (em A Lavanderia), os filmes mostram a explosão vingativa do ódio popular. No Chile em chamas, por conta de uma revolta de eleitores fartos do neoliberalismo, monumentos e muros da capital amanheceram pichados com frases do filme de Todd Phillips. Foi pichada a frase “We are all Clowns”, traduzindo o sentimento popular: “Nós somos todos palhaços”.

No Equador, a revolta foi também contra o modelo neoliberal, defendido em benefício próprio por O Mercado, para ser imposto a todos países atrasados. Os índios, os nativos e, principalmente, as mulheres indígenas se insurgiram contra essa ideologia governamental indiferente à Comunidade. Aguardam-se, na América Latina, novas explosões populares de raiva difusa. Aqui, talvez, contra o neofascista Sniper de helicóptero, cujas “balas-perdidas” atingem vítimas inocentes.

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