Sequências Reativas, Cíclicas e de Feedback Negativo

Evento contingente

Segundo Bruno Boti Bernardi, em O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas, a visão predominante na Ciência Econômica (e que foi introduzida na Ciência Política) enxerga os processos de dependência da trajetória através do prisma da reprodução e autorreforço de um mesmo resultado por meio da operação do mecanismo de retornos crescentes. No entanto, vários cientistas políticos e sociólogos consideram formas de path dependence que não são de autorreforço e que não respondem à lógica correlata de increasing returns.

É possível conceitualizar esses outros tipos de dependência da trajetória como sequências reativas, nas quais em vez da reprodução estável de um resultado particular ao longo do tempo o que se tem são antes dinâmicas de reação e contrarreação em que cada evento na sequência é tanto uma reação a eventos antecedentes quanto uma causa para eventos subsequentes.

Essas sequências são significativamente diferentes das sequências de retornos crescentes porque enquanto estas últimas são caracterizadas por processos que reforçam eventos iniciais (early events), as sequências reativas são marcadas por processos de reação que transformam e talvez revertam eventos iniciais.

Em uma sequência reativa, os eventos iniciais são também especialmente importantes, não porque desencadeiam um processo de autorreforço de um padrão, mas sim porque põem em marcha uma cadeia de reações e contrarreações fortemente interligadas que conduz o processo a uma trajetória específica de desenvolvimento.

Portanto, o que se tem nesse caso são cadeias de eventos ordenados temporalmente e conectados, causal e sucessivamente, até que o evento de interesse seja alcançado. Ele será então dependente de cada evento antecedente ou, mais especificamente, dessa trajetória causal como um todo em que os eventos estão ligados por firmes e estreitas conexões causais. Continuar a ler

Contingência

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Segundo Bruno Boti Bernardi, em O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas, autores variam na ênfase que concedem à contingênciacaráter do que ocorre de maneira eventual, circunstancial, sem necessidade, pois poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não se ter efetuado. Mais especificamente, diferenciam-se quanto ao tratamento que lhe conferem como um elemento necessário das explicações de dependência da trajetória.

Uma forma de tratar o tema da contingência é afirmando que ela envolve processos estocásticos, fatores irredutivelmente inexplicáveis que teriam um importante impacto causal nos momentos de critical junctures em que diante de múltiplas opções uma é favorecida em razão de um evento contingente.

Nessa visão, trajetórias diferentes poderão ser selecionadas a depender do desenrolar desses eventos aleatórios e do acaso. São esses eventos que desencadeiam sequências profundamente padronizadas de resultados subsequentes até uma situação de lock-in. Uma vez que eventos aleatórios selecionem uma trajetória particular, a escolha poderá tornar-se locked-in a despeito das vantagens das alternativas.

Dada a imprevisibilidade desses eventos contingentes, um mesmo processo que seja repetido assistirá, ainda que sob condições iniciais idênticas, ao prevalecimento de uma trajetória em algumas vezes e ao predomínio de alternativas diferentes em outras vezes, o que se explica pela influência de pequenas perturbações em momentos críticos. Acidentes históricos e fatores essencialmente aleatórios e transitórios são passíveis de exercer grande alavancagem em momentos de escolha chave. Continuar a ler

Processos de Dependência da Trajetória

Árvores GenealógicaCada passo sucessivo na mesma trajetória aumenta as chances de que uma instituição ou política particular seja repetida e/ou tenha ampliada a magnitude de suas manifestações subsequentes.

Processos de dependência da trajetória são comuns na Política porque:

  1. uma política cria ou encoraja a criação de organizações de larga escala com substantivos custos de instalação;
  2. uma política direta ou indiretamente beneficia grupos organizados ou constituintes de tamanho considerável;
  3. uma política incorpora compromissos de longa duração sobre os quais beneficiários e aqueles em torno deles estruturam decisões organizacionais e de vida cruciais;
  4. as instituições e expectativas que uma política cria são por necessidade densamente entrelaçadas com as características mais amplas da economia e sociedade, criando redes interligadas de instituições complementares; e
  5. características do ambiente dentro do qual uma política é formulada e implementada tornam mais difícil reconhecer ou responder a resultados de políticas que não são antecipados ou desejados.

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Dependência Trajetória em Ciências Sociais Afins: Ciência Econômica e Ciência Política

Maravilhas-da-Natureza

Prosseguindo com o estudo-resumo do artigo de Bruno Boti Bernardi, O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas –, é importante destacar sua interdisciplinaridade. A Ciência Política valeu-se de obras seminais de economistas para identificar o conceito de path dependence com o mecanismo de retornos crescentes e com os processos de autorreforço ou feedback positivo associados à lógica de funcionamento desse mecanismo, ao qual não só as tecnologias, mas também o desenvolvimento das instituições e políticas estaria sujeito.

A Ciência Política salienta ainda dois fatores importantes nesses processos sociopolíticos:

  1. a sensibilidade dos processos de desenvolvimento institucional aos momentos iniciais e primeiros eventos das sequências temporais: a importância explicativa dos eventos iniciais (early events) é maior do que a de eventos posteriores na sequência de eventos, pois eles moldam decisivamente as trajetórias subsequentes;
  2. a tendência inercial de reprodução dos arranjos institucionais, uma vez que eles tenham sido selecionados até uma situação de lock-in.

Nesta concepção política, o conceito de dependência da trajetória se refere, assim, a “processos dinâmicos envolvendo feedback positivo, que geram múltiplos resultados possíveis, dependendo da sequência particular em que os eventos se desenrolam”.

A análise se foca, portanto, em processos nos quais, depois de momentos formativos iniciais, uma opção de instituição ou política é escolhida – critical junctures: períodos em que uma determinada opção é selecionada a partir de uma gama de alternativas, canalizando assim o movimento futuro em uma direção específica. Cada passo nessa mesma trajetória produz consequências que aumentam a atratividade relativa desse path na próxima rodada, gerando um poderoso ciclo de autorreforço. Continuar a ler

Instituições: Carregadoras da História

Vila de Conceição de Ibitipoca - MG

Na visão apresentada no post anterior, a característica crucial do processo histórico, que gera a dependência da trajetória, é o processo de feedback positivo ou autorreforço. De acordo com ela, o mecanismo de retornos crescente seria uma condição necessária da path dependence. No entanto, os autores dessa concepção são rebatidos por outros autores que negam que o mecanismo de retornos crescentes seja necessário para a existência de processos dependentes da trajetória.

Reconhece-se a existência de outros mecanismos desencadeadores de dependência da trajetória. Por exemplo, as instituições são importantes carregadoras da história. Elas carregam e reproduzem de maneira inercial suas características estruturais originais e tendem a persistir mesmo quando as condições que originalmente justificavam sua existência deixam de existir.

Além disso, as instituições contribuiriam para estruturar o contexto em que acontecem os processos de socialização, aprendizagem e interação dos agentes, exercendo um impacto determinante na formação e cristalização de expectativas compartilhadas de comportamento. Continuar a ler

Surgimento do Conceito de Path Dependence

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Em modelos estocásticos não-lineares, cujo processo é não-determinístico e tem origem em eventos aleatórios, dentre duas ou mais alternativas não necessariamente prevaleceria a mais eficiente em condições de retornos crescentes, nas quais elevam-se os benefícios de uma maneira autorreforçante (self-reinforcing way).

Em geral, as atividades econômicas produzem retornos decrescentes de escala, isto é, dado um aumento na mesma proporção em cada um dos insumos, a produção cresce menos do que proporcionalmente, o que faz com que cada unidade adicional produzida seja proporcionalmente mais cara do que a anterior. Sob tais condições, verificadas em setores da economia baseados em diversos recursos naturais, nem todos igualmente disponíveis, as atividades econômicas produzem um feedback negativo que leva a um ponto de (des)equilíbrio previsível de preços e controle de parcelas do mercado por empresas oligopolistas.

Na visão neoclássica, ao final do processo, formas alternativas de produzir com tecnologias distintas acabam dividindo o mercado em proporção previsível que corresponde a um equilíbrio capaz de realizar o melhor resultado, isto é, a alocação e o uso mais eficientes das alternativas. Nessa ordem espontânea, o elemento estocástico, que porventura tenha existido no início da sequência temporal em favor de uma das alternativas, é anulado (averaged out), fazendo com que o processo se livre da influência de um estado antecedente!

Desse modo reducionista, o sistema econômico obedeceria a uma lógica similar à das Leis da Física Mecânica newtoniana, já que perturbações ou mudanças temporárias são rapidamente negadas pelas forças opostas que elas provocam. Nessa visão neoclássica, a história não é importante, já que ela meramente conduz a economia de mercado livre ao seu equilíbrio inevitável… Continuar a ler

Dependência da Trajetória (Path Dependence)

Aleatoriedade dos Espermatozoides

Bruno Boti Bernardi, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, USP – Universidade de São Paulo, publicou artigo (Perspectivas, São Paulo, v. 41, p. 137-167, jan./jun. 2012) – O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas –, cujo objetivo é mapear as principais diferenças e controvérsias entre os autores que trataram do conceito de dependência da trajetória, analisando ainda como o tema foi abordado inicialmente pela teoria econômica histórica e as mudanças introduzidas ao conceito uma vez que ele foi incorporado ao debate da Ciência Política.

Ao tentar desvendar como, de fato, a história importa, divergências consideráveis surgem entre os autores na definição de mecanismos explicativos, na importância concedida ao tema da contingência e na própria especificação dos tipos de sequências de eventos que poderiam ser considerados como dependentes da trajetória.

Vale a pena estudá-lo e, para isso, um primeiro caminho é resumir aqui seus conceitos e argumentos básicos. Eles serão úteis na construção mental que utiliza a Ciência da Complexidade para desvendar o mundo, isto é, para prosseguir no eterno caminho da inalcançável VERDADE, pois esta é fugidia, já que não tem duração, é fugaz, efêmera… Mestre não é quem revela a verdade, mas sim ensina o caminho da verdade. Continuar a ler