Redescoberta pelos Neoliberais da Teoria da Inflação Acelerada dos Desenvolvimentistas

Deus pode não jogar dados, mas O Mercado Onisciente, Onipotente e Onipresente joga sim, para a Autoridade Monetária lhe servir…

A overdose dos juros resultou em elevação da concentração de riqueza financeira no Brasil. Com a Selic acumulada de 14% no ano de 2016, o varejo tradicional (6,5 milhões de contas FIFs e TVMs) elevou em R$ 2.804 sua riqueza per capita (para R$ 49.213); o varejo de alta renda (3,5 milhões de contas) elevou em R$ 10.652 sua riqueza per capita (para R$ 174.445). O Private Banking (112 mil CPFs), enquanto isso, elevou em R$ 939 mil (quase um milhão de reais) sua riqueza per capita, atingindo R$ 7,422 milhões per capita. Isto em um ano de queda de -4,4% na renda per capita. A elevação percentual da riqueza financeira dos ricaços foi exatamente 14%, enquanto a da classe média baixa foi 6% e a da alta, 7%.

Alex Ribeiro (Valor, 29/09/17) informa que, acusado de excesso de conservadorismo na condução da política monetária, o Banco Central está se socorrendo da literatura econômica para provar que não é culpado pela queda da inflação a patamares perigosamente próximos do piso da meta em 2017.

O presidente da instituição, Ilan Goldfajn, passou a citar nos seus discursos três trabalhos acadêmicos para sustentar a tese de que, sem uma política austera de juros em fins do ano passado, a recessão sozinha não teria sido capaz de controlar a inflação. A estabilização e retomada gradual da economia, sustenta, talvez nem tivesse ocorrido.

[Fernando Nogueira da Costa: Ah, é? Banco Central do Brasil neutro, imparcial, técnico, eficiente, competente… Boa piada… Conta outra! 🙂 ] Continue reading “Redescoberta pelos Neoliberais da Teoria da Inflação Acelerada dos Desenvolvimentistas”

Pré-keynesianos: Felizes como Pinto no Lixo

Os economistas ultraliberais, no governo temeroso, conseguiram submeter a economia brasileira à Lei de Say: sem conceder crédito “em excesso” (sic), supostamente, os bancos agiram exatamente como intermediários financeiros apenas canalizando poupança para investimento. O resultado, segundo essa concepção pré-keynesiana, é que, aparentemente, conseguiram o desejado acima de tudo: equilíbrio entre a oferta agregada e a demanda agregada. Em decorrência, não há mais inflação de demanda – e a queda dos preços de alimentos colabora bastante para um processo de desinflação. Porém, há um “detalhe” para eles não saborearem a “vitória” completa: a grande depressão (a maior da história econômica brasileira) e o imenso desemprego.

A atual política econômica de curto prazo demonstra o analfabetismo econômico do mainstream, isto é, da “corrente principal da Economia” — autodenominação dos economistas ortodoxos. Estes são fiéis seguidores da Ética Protestante e do Espírito do Capitalismo do século XIX, quando ainda se guardava “poupança” debaixo do colchão.

A economia do endividamento bancário não tinha evoluído, há dois séculos, para o uso generalizado de cheques, a câmara de compensação, a expansão da rede de agências e a carteira de redesconto, ou seja, os empréstimos de liquidez contra corridas bancárias. Essas instituições propiciaram ao sistema bancário o multiplicador de moeda contábil, apenas no século seguinte, quando o processo urbano-industrial superou a sociedade tipicamente rural. Continue reading “Pré-keynesianos: Felizes como Pinto no Lixo”

O Mundo Idealizado Com Equilíbrio

O que nós, economistas, aprendemos nas cartilhas ortodoxas é simplório. Parece dar-nos status científico, pois, inspirado no método de análise mecanicista da Física newtoniana, é lógico-racional, tipo causa-e-efeito que seguimos em uma série sequencial de variáveis agregadas. Nesse método estático-comparativo, hipoteticamente, saltamos de um espaço a outro, isto é, pulamos entre equilíbrios, sem considerarmos o tempo processual dessas transições. Fechando a economia dentro de um modelo de equilíbrio geral, simplesmente, abstraímos 50% das duas dimensões físicas: espaço e tempo!

Então, a Ciência Econômica ainda não chegou ao método da Teoria da Relatividade, ou seja, ao século XX. Einstein observou o deslocamento relativo, deduzindo que o tempo e a posição são conceitos relativos. Observadores em movimento relativo, uns aos outros, vivenciam o espaço e o tempo de forma diferente. Não há simultaneidade absoluta. O universo é constituído por relações. Nós, economistas, ficamos parados no tempo: a visão mecanicista do mundo que a Ciência Econômica continua a adotar foi substituída por uma interpretação baseada nas interações entre diversos componentes de um sistema complexo.

Economia como sistema complexo é muito difícil de ser reduzida a equações matemáticas. Logo, estas estão sendo substituídas por ferramentas computacionais de visualização de redes, cadeias e interconexões que ajudam a desvendar sua complexidade. Em uma visão holística, observamos todo o sistema complexo e daí escolhemos os nódulos-chave da rede de relacionamentos e as esferas de influência que mais importam. Continue reading “O Mundo Idealizado Com Equilíbrio”

O que fazemos com todos esses dados importantes?

Susan Etlinger, em Palestra TED (What do we do with all this big data?) defende o uso inteligente, bem considerado e ético dos dados. Necessitamos ter cuidado, pois é possível pegar dados e dá-los qualquer significado. Torturando os números eles confessam qualquer coisa!

O desafio é que nós temos a oportunidade de tentar fazer sentido disso nós mesmos, porque, francamente, dados não criam significado. Nós criamos. Então como pessoas de negócios, como consumidores, como pacientes, como cidadãos, temos uma responsabilidade, acredita Susan Etlinger, de passar mais tempo focando nossas habilidades de pensamento crítico. Continue reading “O que fazemos com todos esses dados importantes?”

Três Modos de Identificar uma Estatística Ruim

Mona Chalabi fez uma Palestra TED sobre estatísticas. Quando o assunto é números, principalmente agora, seja cético. Mas você precisa saber diferenciar números confiáveis de números não confiáveis.

Então Chalabi dá ferramentas para fazer isso. Mas antes disso, quer esclarecer sobre quais números está falando. Hoje, as pessoas questionam estatísticas como: “A taxa de desemprego nos EUA é de 5%”. Este dado é diferente porque ele não vem de uma empresa privada, mas sim do governo.

Cerca de quatro entre dez americanos não confia nos dados econômicos fornecidos pelo governo. Entre os apoiadores do presidente Trump, esse número é ainda maior: cerca de sete entre dez. Temos muitas linhas divisórias em nossa sociedade hoje, e muitas delas começam a fazer sentido, quando se entende o relacionamento das pessoas com os números do governo.

Por um lado, há aqueles que dizem que as estatísticas são cruciais. Precisamos delas para entender a sociedade como um todo, a fim de deixar de lado questões emocionais e medir o progresso de forma objetiva. Há outros céticos incultos que dizem que as estatísticas são elitistas, talvez até manipuladas. Para eles, elas não fazem sentido e realmente não mostram o que está acontecendo no dia a dia das pessoas.

Parece que este último grupo do “pós-verdade” está vencendo a discussão. Vivemos em “um mundo de fatos alternativos”, onde não há um consenso sobre as estatísticas serem um ponto de partida para os debates. Isso é um problema. Continue reading “Três Modos de Identificar uma Estatística Ruim”

Como medir complexidade econômica por Hausmann e Hildalgo via Paulo Gala

Encontra-se no blog de Paulo Gala, entre outros temas de estudo que aprecio, o seguinte post, parte de seu livro. Aqui compartilho por sua importância como uma Introdução à Economia da Complexidade, estimulando a leitura do livro “Complexidade Econômica” de sua autoria.

Como medir a “complexidade econômica” de uma economia? Hausmann e Hildalgo criaram um método de extraordinária simplicidade e comparabilidade entre países. A partir da analise da pauta exportadora de uma determinada economia são capazes de medir de forma indireta a sofisticação tecnológica de seu tecido produtivo.

Os dois conceitos básicos para se medir se um país é complexo economicamente ou sofisticado são a ubiquidade e a diversidade de produtos encontrados na sua pauta exportadora.

Se uma determinada economia é capaz de produzir bens não ubíquos que não estão ou existem ao mesmo tempo em toda parte, ou seja, não onipresentes –, há indicação de que tem um sofisticado tecido produtivo. Claro que há um problema aqui de escassez relativa, especialmente de produtos naturais como diamantes e urânio, por exemplo.

Os bens não ubíquos devem ser divididos entre:

  1. aqueles que têm alto conteúdo tecnológico e, portanto, são de difícil produção (aviões por exemplo) e
  2. aqueles que são altamente escassos na natureza (nióbio por exemplo) e, portanto, tem uma não ubiquidade natural. Continue reading “Como medir complexidade econômica por Hausmann e Hildalgo via Paulo Gala”

Produtivismo Acadêmico e Destruição da Carreira Meritocrática Acadêmica

Desde que voltei para a Universidade, depois de cinco anos de licença para atuar na alta administração de um banco público federal, nunca publiquei tanto: 370 artigos-posts originais. Por que? Porque me recusei a entrar no jogo contemporâneo do academicismo de publicar apenas em revistas impressas ranqueadas por critérios duvidosos, onde “pareceristas cegos” que aceitam só o (pouco) que sabem e se recusam a aprovar qualquer artigo que vá contra sua crença ideológica não científica. Quando reconhecem o mérito de um colega, que pensa igual a eles, leva até dois anos para o artigo ser publicado, ou seja, perde o momentum do debate público. Resultado: quem lê revistas acadêmicas? São conhecidas pela chatice…

Prefiro publicar livros e textos por meios eletrônicos e/ou digitais. Submeto-os à crítica dos leitores. Se agradam, minha reputação profissional cresce, o número de visitas ao meu modesto blog pessoal aumenta — confira que está quase atingindo seis milhões (mais de quatro mil por dia útil) –, sou convidado para publicar mais em outros sites e palestrar. Enfim, escrevo com prazer e sou bastante lido, embora isso não contabilize pontinhos Qualis

Esta edição temática sobre “Produtivismo Acadêmico” (Produtivismo acadêmico – Revista Adusp 60 – maio 2017) busca atualizar o leitor a respeito de um tema que, infelizmente, se tornou familiar à Revista Adusp, mas que nem sempre foi possível abordar em todas as dimensões e implicações.

Decidiu, a par da publicação de material inédito, republicar textos que não são recentes, mas que considerou relevantes na perspectiva de um tratamento minimamente sistemático da questão.

Vários dos trabalhos que publicou, nesse número, revelam de que modo os irmãos siameses “Gestão (empresarial) das Universidades” e “Produtivismo Acadêmico” espalharam-se pelo mundo — e como colonizaram a vida universitária.

O “Manifesto Acadêmico” de autoria dos pesquisadores holandeses Willem Halffman e Hans Radder, publicado originalmente em 2013, abre esta edição por diferentes motivos: sagacidade analítica, humor corrosivo, mas em especial o saudável convite à rebelião das “ovelhas” contra o status quo. Há que reagir! Continue reading “Produtivismo Acadêmico e Destruição da Carreira Meritocrática Acadêmica”