Baixo Ritmo de Crescimento da Renda + Consumo Permanente = Poupança Reduzida

Não é admirar que “O Brasileiro” (mas quem é, hein?) não faça poupança, se nem os economistas brasileiros sabem o que é poupança! Os ortodoxos, cegos pelo individualismo metodológico e pela doutrina religiosa, que prega o sacrifício do consumo presente para se chegar ao paraíso do consumo no futuro, acham que, se todos se sacrificarem, a poupança aumentará!

A mente cartesiana obtusa não consegue ter uma visão holística, percebendo o beabá keynesiano — aprendi no meu primeiro dia de aula de Introdução à Economia na FACE-UFMG em 1971 — chamado de Paradoxo da Parcimônia: se todos cortam gastos, o multiplicador de renda será menor e, no final, todos terão menos renda poupadaSofisma da composição é isso: o que é verdade para as partes nem sempre é verídico para o todo, i.é, o sistema. Aristoteles já dizia isso…

Mas a autossuficiência e a auto validação ilusória de só conversar com quem pensa igual e ler apenas os pares impedem os economistas de formação ortodoxa diminuírem a ignorância a respeito de outras correntes de pensamento econômico. É lamentável. Veja a quantidade de asneiras que dizem na reportagem abaixo por causa do desconhecimento de teoria econômica básica.

Sergio Lamucci (Valor, 09/01/18), informa que, depois de ficar abaixo de 14% do PIB em 2016, a taxa de poupança doméstica subiu um pouco, atingindo 14,4% do PIB nos quatro trimestres até setembro do ano passado. O nível, porém, continua muito baixo, inferior ao de grande parte dos países emergentes.

Fernando Nogueira da Costa: Óbvio, com o ritmo de crescimento do PIB muito baixo, ex-post, mantendo-se o padrão de consumo básico, a sobra de renda (resíduo contábil entre o fluxo de renda e o fluxo de consumo) é pouca, né?

Em relatório, o Credit Suisse aponta “dois grupos distintos de países emergentes, identificados com base nos dados do Banco Mundial entre 1980 e 2015″:

  1. as economias de alto crescimento do PIB e taxas de poupança e investimento elevadas e
  2. os de baixo crescimento do PIB e baixas taxas de investimento e poupança.

O Brasil está no segundo grupo, ao lado de economias como México, África do Sul e Argentina. No outro grupo, predominam países asiáticos como China, Índia e Malásia. Ortodoxo, entendeu ou quer que eu desenhe?

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Economia Brasileira como Sistema Complexo: Dimensões da Economia Política da Complexidade

O objetivo deste Texto para Discussão — Fernando Nogueira da Costa e outros – Economia Brasileira como Sistema Complexo TDIE 323 — é dimensionar e ponderar os diversos componentes que interagem para a emergência da economia brasileira como um Sistema Complexo. A partir da metodologia do Sistema de Contas Nacionais, analisamos tanto o valor agregado na produção quanto a apropriação e utilização privada e pública da renda e da riqueza (capital) pelas distintas castas brasileiras, ocupações com Éthos cultural e político.

A produção pode ser medida como oferta ou criação de novos bens e serviços, como demanda ou consumo de produtos de uso pessoal e de meios de produção, e como renda enquanto geração de salários dos trabalhadores, lucros dos capitalistas e rendas dos proprietários.

Para não reduzir a evolução da economia brasileira como Sistema Complexo apenas à emergência das interações desses componentes, mas também captar as rupturas, as reorientações e os retrocessos em relação à dependência de trajetória prévia, demos uma dimensão multidisciplinar à análise. Interpretamos a estratificação social da renda e riqueza na sociedade e o relacionamos ao jogo de alianças políticas, golpes e contragolpes entre as castas brasileiras.

Nas entrelinhas – ou mesmo explícito nas linhas – comparamos o Social-Desenvolvimentismo e o Novo-Desenvolvimentismo, duas correntes de pensamento econômico aliadas em muitos pontos, mas com pequenas divergências metodológicas e a respeito de medidas de política econômica necessárias à complexa economia brasileira.

Para conferir o que é o Novo-Desenvolvimentismo, leia o artigo do Professor Bresser-Pereira (FSP, 17/12/17), reproduzido abaixo.

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Bitcoin: Nova Forma para Velha Especulação

A visão liberal da história enxerga qualquer moeda apenas como uma mercadoria a mais, escolhida segundo critério de comodidade e/ou segurança por um sistema econômico auto regulável, sem a arbitrária intervenção estatal. Assim, a história monetária se reduziria à pesquisa das distintas características essenciais ou requisitos físicos da moeda-mercadoria.

Nesse sentido, essa visão se confunde com a numismática, isto é, a ciência que se ocupa das moedas. Numisma é a moeda cunhada por senhores feudais, daí a etimologia da expressão “senhoriagem”: tributo que se pagava como reconhecimento de um senhorio. Referia-se ao direito que o concessionário da cunhagem da moeda pagava ao soberano. Na época contemporânea, se transformou na diferença entre o valor real – poder aquisitivo de fato – e o valor nominal da moeda: aquele com que o Estado emissor paga seus funcionários e fornecedores.

Na verdade, os atributos físicos requisitados para ser uma moeda pouco importam para nos entendermos sua essência. Por exemplo, a pedra-moeda, na Ilha de Yap, na Micronésia, não oferecia muita facilidade de manuseio e transporte como ocorre quando pequena quantidade corresponde a grande valor. Esculpia-se a moeda e a fincava na terra como símbolo de riqueza atribuída pela comunidade aos detentores.

Obs.: há legenda em inglês ou espanhol, clicando no canto direito inferior.

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O que a Economia pode aprender com as Humanidades

Meu colega Miguel Bacic me enviou a sugestão de leitura:

Los economistas deberían tener la sensibilidad de Tolstói
Por Roger Lowenstein (Especial para The Washington Post)

https://www.infobae.com/america/wapo/2017/12/09/los-economistas-deberian-tener-la-sensibilidad-de-tolstoi/

Obs: esse site é um lixo, porém, algumas vezes tem referência interessante.

Livro comentado  https://press.princeton.edu/titles/10957.html

Gary Saul Morson & Morton Schapiro. Cents and Sensibility What Economics Can Learn from the Humanities.

Reproduzo o artigo traduzido abaixo. Continue reading “O que a Economia pode aprender com as Humanidades”

Ensaios sobre o Materialismo Darwiniano

Interdisciplinar desde o subtítulo, que se refere ao conceito ainda pouco assimilado de “materialismo darwiniano”, este livro me interessa muito, pois leciono no Doutorado do IE-UNICAMP a disciplina Economia Interdisciplinar, em que uma parte se refere à Economia Evolucionária ou método de analise da Biologia Darwiniana aplicada à economia.

Oscar Pilagallo (Valor, 17/11/17) resenha o novo livro de José Eli da Veiga que reconstitui a turbulenta relação entre o evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882) e as ciências humanas, e a projeta para um futuro em que pontes acadêmicas ainda em construção ligam as duas grandes áreas de conhecimento.

Em quatro ensaios de complexidade crescente, mas sempre vazados em formulações elegantes, “Amor à Ciência” parte do grande mal-entendido que marcou os anos seguintes ao lançamento, em 1859, de “A Origem das Espécies“, o livro mais importante do naturalista britânico. Continue reading “Ensaios sobre o Materialismo Darwiniano”

Houve Bolha Imobiliária no Brasil?

O artigo sobre “Riqueza Imobiliária” foi o trabalho vencedor do I PRÊMIO LARES IBAPE/SP. O prêmio foi conferido na XVII Conferência Internacional da LARES 2017, onde foi apresentado. Os alunos do curso de Doutoramento do IE-UNICAMP na disciplina Economia Interdisciplinar oferecida no segundo semestre de 2016 – Tatiana Rimoli Gzvitauski, Marcel Roberto Santos Dias, Rafael Bertazzi Costa Rosa, Daniel Herrera Pinto – e o professor Fernando Nogueira da Costa foram coautores. O artigo foi publicado como Texto para Discussão 284 do IE-UNICAMP.

Além de apresentar uma visão holística sobre o mercado imobiliário brasileiro, com base no método de análise propiciado pela Economia da Complexidade, o trabalho diagnostica se houve, de fato, a emergência de “bolha imobiliária” no Brasil a partir de 2008. A possibilidade de existência de “bolha” especulativa no mercado imobiliário brasileiro foi levantada por analistas na imprensa em virtude das diversas notícias divulgadas acerca de elevação significativa do preço dos imóveis. Continue reading “Houve Bolha Imobiliária no Brasil?”

Economia Interdisciplinar e Riqueza Imobiliária

O artigo sobre “Riqueza Imobiliária”, que os alunos – Tatiana Rimoli Gzvitauski, Marcel Roberto Santos Dias, Rafael Bertazzi Costa Rosa, Daniel Herrera Pinto – e eu fomos coautores, como trabalho de avaliação no curso de Doutoramento no segundo semestre de 2016, foi o trabalho vencedor do I PRÊMIO LARES IBAPE/SP. O prêmio foi conferido na XVII Conferência Internacional da LARES 2017, onde foi apresentado. Nos tínhamos o publicado como Texto para Discussão 284 do IE-UNICAMP (TDIE).

Essa é uma experiência didática que se tem revelado frutífera. Na primeira vez, o artigo – “Economia Interdisciplinar” –, cujos coautores foram Taciana Santos, Daniel Pereira da Silva, Samir Luna de Almeida e eu, foi selecionado como o número 1 da primeira revista da UFABC. Esta Universidade, que busca fazer pesquisa na vanguarda tecnológica, queria criar uma revista para a Agência de Inovação da UFABC.

Seu editor me disse que o perfil editorial seria inovação, empreendedorismo, startups, negócios. Queria imprimir um perfil de artigos baseados mais nos modelos da complexidade e do evolucionismo. Estava procurando membros para o Conselho Editorial e artigos para o primeiro número. Solicitou-me sugestões.

Coincidentemente, na ocasião, meus alunos e eu estávamos debatendo e pretendendo publicar uma breve resenha sobre tema do curso Economia Interdisciplinar: Comportamental, Institucionalista, Evolucionária e Complexa. Enviamos e recebemos parecer nos parabenizando “pelo excelente artigo. Era exatamente o que precisávamos para o primeiro número, um artigo que mostra o perfil pretendido da revista no campo teórico. O resumo do artigo é perfeito para o foco que pretendemos. Este artigo também vai ajudar muito as nossas disciplinas ligadas à C&T”. Continue reading “Economia Interdisciplinar e Riqueza Imobiliária”