Por uma Concepção Darwiniana de Economia Evolucionária: Abordagens Pioneiras, Conflitos Teóricos e Propostas Ontológicas

EvolutionA Dissertação de Mestrado de autoria de Manuel Ramon Souza Luz, “Por uma Concepção Darwiniana de Economia Evolucionária: Abordagens Pioneiras, Conflitos Teóricos e Propostas Ontológicas”, defendida em 28 / 08 / 2009, no IE-UNICAMP, procura apresentar uma abordagem evolucionária para a Ciência Econômica, seguindo os princípios darwinianos, como uma alternativa factível e consistente à visão essencialista do pensamento neoclássico.

A partir de uma perspectiva fundada na história das ideias evolucionárias, este trabalho procura compreender como os desenvolvimentos dessas ideias influenciaram o debate econômico em determinados períodos. Denominados período de fundação, especificação e disseminação, procura-se evidenciar as repercussões desses três importantes momentos da história do pensamento evolucionário sobre o desenvolvimento das ideias econômicas. Assim, o trabalho centra seus esforços em:

  • um primeiro momento, em verificar a influência da concepção evolucionária de Charles Darwin sobre a perspectiva institucionalista de Thorstein Veblen;
  • um segundo momento, o trabalho acompanha como os desenvolvimentos da Biologia Evolucionária de meados do século XX, repercutiram sobre as ideias geradas a partir de debates específicos dentro da controvérsia marginalista;
  • um terceiro momento, pretende-se avaliar a recente proposta de generalização dos princípios darwinianos para a Economia, seguindo a perspectiva evolucionária do trabalho de Geoffrey Hodgson.

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A Economia Comportamental assume que os agentes se comportam de forma irracional?

I Love EconomicsAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, firmou suas posições em alguns temas do debate sobre a Economia Comportamental, sob forma de perguntas e respostas. A segunda é a apresentada no título acima.

Existe uma volumosa literatura que tenta determinar qual destas posições está correta. Somos seres racionais ou irracionais?

Alguns pacificadores propõem que a verdade está no meio e que somos um pouco de ambos (“quase-racionais”), para que não haja discordância real. Por exemplo, o debate entre Kahneman & Tversky e Gigerenzer tem sido por vezes mal interpretado como se referindo à questão da extensão da racionalidade humana. Sob esse ponto de vista, a racionalidade seria uma quantidade: para Kahneman e Tversky, o ser humano é pouco racional, enquanto para Gigerenzer, o ser humano é bastante racional.

Contudo, Alex aponta, acertadamente, que a questão é outra: o que exatamente é racionalidade em primeiro lugar. As investigações revelaram corretamente que os julgamentos e as decisões das pessoas de fato se desviam das leis da lógica e do ideal da otimização. Mas, enquanto os defensores do programa de heurísticas e vieses tomam isso como irracionalidade, Gigerenzer propõe repensar os critérios de racionalidade. Continuar a ler

A Economia Comportamental e Economia Neoclássica são teorias concorrentes?

Tomada de decisãoAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, firmou suas posições em alguns temas do debate sobre a Economia Comportamental, sob forma de perguntas e respostas. A primeira é a apresentada acima, o que revela um viés de maniqueísmo, ou seja, qualquer visão do mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis.

Esta expressão refere-se ao dualismo religioso sincretista que se originou na Pérsia e foi amplamente difundido no Império Romano entre o século III d.C. e IV d.C.. Sua doutrina consistia basicamente em

  1. afirmar a existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal),
  2. localizar a matéria e a carne no reino das sombras,
  3. afirmar que ao homem se impunha o dever de ajudar à vitória do Bem por meio de práticas ascéticas, especialmente evitando a procriação e os alimentos de origem animal.

Os vegetarianos são maniqueístas… Ou não? :)

Castro justifica-se: “como o escopo da Economia Comportamental se expande rapidamente nos últimos anos, torna-se impossível evitar a questão de saber se ela visa aumentar, modificar, alterar profundamente ou substituir o paradigma econômico neoclássico”.

O primeiro ponto que ele destaca é que “a Economia Comportamental não é uma Escola de Pensamento, no sentido de que possa ser definida por um conjunto particular de ideias e por sua consistência interna”. Nesse ponto, teria interessante Castro caracterizar e distinguir entre Escolas de Pensamento e Correntes de Pensamento, inclusive exemplificando suas classificações.

Como adjetivo, “corrente” qualifica:

  1. o que, no momento, está passando, especialmente do que se refere ao tempo;
  2. o que atualmente vigora, que tem curso; vigente;
  3. o que, estando em curso, avança ou cresce;
  4. o que é usual; comum, banal, corriqueiro;
  5. o que passa sem qualquer obstáculo, sem obstrução;
  6. o que flui naturalmente, seja coisa concreta ou abstrata; fluente;
  7. o que apresenta ampla aceitação; aceito, posto em acordo;
  8. aquele com experiência; versado, entendido, perito;
  9. cuja manifestação é clara; evidente, clara, notória.

Castro quer designar o substantivo “corrente (principal)” [mainstream] como tudo aquilo que é usual, comum, corriqueiro ou trivial? Qualquer conjunto de argolas que, articulados entre si, constituem uma corrente, ou seja, uma série com as mais diversas aplicações, especialmente em engrenagens, máquinas, mecanismos teóricos, etc. A corrente é aquilo que aprisiona a mente? Ou é uma série continuada de pessoas ou coisas (concretas ou abstratas) interligadas de alguma maneira?

Em termos de pensamento econômico, a expressão corrente parece mais designar o grupo de pessoas que se destaca por apresentar alguma afinidade (ética, política, filosófica etc.) entre seus componentes. Na realidade, deveria ser mais usada no plural, pois o pensamento econômico é formado por muitas correntes e nenhuma dela pode ser designada como principal em termos de importância ou correção dedutiva-racional.

Então, corrente designa o arcabouço teórico de uma doutrina, de uma escola ou o pensamento dominante que nela existe e que de alguma maneira a diferencia e caracteriza em relação as demais. Naturalmente, existem diversas doutrinas em debate intelectual e o maniqueísmo não ajuda a classificá-las.

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Homem Sociológico

behavioral-economicsAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, observa que Granovetter (2007) notou também que, se as descrições neoclássicas e psicológicas costumam fornecer uma explicação “subsocializada” para a ação econômica, os economistas reformistas que tentam recuperar as estruturas sociais não raro recaem no extremo teórico das concepções “supersocializadas” encontradas na Sociologia moderna.

Enquanto a visão “subsocializada” pressupõe um comportamento (quase-) racional e de interesse pessoal apenas externamente afetado – restringido, informado ou incentivado – pelas relações sociais, a visão “supersocializada” explicaria as influências sociais “como processos por meio dos quais os atores adquirem costumes, hábitos ou normas que são seguidos mecânica e automaticamente, independentemente da influência da escolha racional” (Granovetter, 2007: 6).

Para ilustrar os extremos teóricos, Granovetter relembra a afirmação espirituosa de James Duesenberry segundo a qual a Economia se resume em como as pessoas fazem escolhas; a Sociologia se resume em como elas não têm escolhas a fazer”. Continuar a ler

Crítica da Economia Institucionalista à Economia Comportamental

InteraçõesNo caso particular da Psicologia, como argumenta David Dequech, meu colega especialista em Economia Institucionalista, “um indivíduo que apenas fosse restringido pelas instituições e recebesse por meio delas informações e incentivos poderia ser tomado como dado previamente a elas, tal como suas formas de pensar e suas motivações” (2012: 11). No entanto, a psicologia dos indivíduos – suas “formas de pensar e as motivações” – é ela mesma, em grande medida, um processo social.

A cognição e a motivação estão imersas (embedded) em ambientes culturais e institucionais específicos. Agentes econômicos interativos e parcialmente flexíveis estão imersos em uma teia de instituições que formam e modificam esses indivíduos.

As instituições estão enraizadas nos hábitos de pensamento e conduta e têm precedência ontológica e temporal sobre a razão e a intenção dos indivíduos tomados isoladamente. Dito de outro modo, os agentes econômicos não apenas operam em um ambiente no qual as instituições provêm incentivos, restrições e informações, mas têm suas motivações e formas de pensar profundamente alteradas pelas instituições. Continuar a ler

Homem Psicológico

Human brain left and right functionsAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, apresenta e discute extensamente a solução sugerida por economistas comportamentais ao problema do Homem Econômico. O problema da explicação do comportamento econômico individual tem levado os economistas comportamentais a buscar fundamentos psicológicos mais plausíveis para a teoria econômica.

Todavia, alguns comentaristas como Gerd Gigerenzer e seus colaboradores argumentam que a maior parte do trabalho no campo, embora motivada pela busca de bases mais realistas, não foi capaz de se emancipar completamente da abordagem “como se” da Economia Neoclássica. Os argumentos “as if” ainda são frequentemente encontrados na Economia Comportamental mainstream para justificar os modelos “psicológicos” que apenas adicionam novos parâmetros para mais bem ajustar os dados de resultado de decisão em vez de especificar os processos psicológicos que realmente explicam estes dados.

Do ponto de vista de Berg e Gigerenzer (2010), as abordagens psicológicas que penetraram a Economia mainstream não representam uma alternativa real à teoria neoclássica, mas somente um programa de “reparo” de um paradigma de racionalidade que começou a ser construído no século XVII por Daniel Bernoulli, e que, no século XX, foi completado por Savage e reformado por Kahneman e Tversky.

Assim sendo, a Economia Comportamental seria apenas a Economia Neoclássica “disfarçada” sob funções-utilidade modificadas e novos parâmetros com rótulos psicológicos. O julgamento e a tomada de decisão continuam sendo descritos como um processo otimizador que demanda quantidades irrealistas de cálculo e de informação. Continuar a ler

Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos

Atividades InterdisciplinaresA dissertação de Mestrado, defendida por Alex Sandro Rodrigues de Castro no IE-UNICAMP, em 2014, cujo orientador foi meu colega Prof. Dr. David Dequech Filho, busca apresentar e discutir as principais características da Economia Comportamental, identificando suas diferentes abordagens e comparando-as com a Economia Neoclássica. A intenção é apresentar as propostas e a estrutura conceitual das abordagens psicológicas e realçar os elementos de ruptura e continuidade em relação à Economia Neoclássica. Os conceitos básicos e as principais descobertas da economia comportamental são apresentados particularmente com base nos trabalhos de Daniel Kahneman e Amos Tversky. Ao final, a dissertação destaca as objeções de Gerd Gigerenzer ao programa de pesquisa de Kahneman e Tversky e faz comentários críticos ao individualismo das abordagens psicológicas que penetraram a economia mainstream.

Destacaremos aqui essa parte final. Antes, porém, vale examinar sua resposta à questão que ele mesmo se lança: O que é Economia Comportamental? Continuar a ler