Concentração de Renda no Brasil: Segunda Pior do Mundo

Fernando Canzian e Fernanda Mena (FSP, 19/08/19)

Dados do FGV Social dão a dimensão da piora na concentração: do fim de 2014 a junho deste ano, a renda per capita do trabalho dos 10% mais ricos subiu 2,5% acima da inflação; e a do 1% mais rico, 10,1%.

Já o rendimento dos 50% mais pobres despencou 17,1%; e dos 40% “do meio” (a classe média entre os mais ricos e os mais pobres), caiu 4,2%.

Isso levou o índice de Gini a 0,629, muito próximo ao recorde da série desde 2012 (medido de 0 a 1, quanto mais perto de 1, pior a desigualdade).

Segundo o Relatório da Desigualdade Global, da Escola de Economia de Paris, o Brasil é hoje o país democrático que mais concentra renda no 1% do topo da pirâmide.

Só o Qatar, emirado árabe absolutista de 2,6 milhões de habitantes e governado pela mesma dinastia desde meados do século 19, supera, por pouco, o Brasil.

Mesmo considerando os 10% mais ricos, o Brasil empata com a Índia e só perde para a África do Sul no ranking dos mais desiguais. Os cerca de 14,2 milhões de adultos nesse decil têm renda média de R$ 28,5 mil e capturam 55,5% dos rendimentos totais.

Depois do Brasil e do Qatar, onde o 1% detém 29% da renda, países com forte acúmulo no topo são Chile (modelo liberal para muitos e proporcionalmente mais rico que o Brasil), Líbano, Emirados Árabes e Iraque.

Combinando pesquisas domiciliares, contas nacionais e declarações de imposto de renda, o relatório mostra esse 1% super-rico (cerca de 1,4 milhão de adultos) capturar 28,3% dos rendimentos brutos totais e receber individualmente, em média, R$ 140 mil por mês pelo conjunto de todas as suas rendas.

Como comparação, os 50% mais pobres (71,2 milhões com renda média de R$ 1.200) ficam com 13,9% do conjunto de todos os rendimentos, menos da metade do recebido pelo 1% no topo.

Segundo Marc Morgan, analista dos dados do Brasil no Relatório, enquanto os mais ricos no país expandiram a renda no período favorável de 2001 a 2015 e os 50% mais pobres também tiveram ganhos, a classe média (os 40% “do meio”) perdeu participação nos rendimentos totais, de 33,1% para 30,6%.

Assim, o Brasil seguiu tendência parecida à dos demais países do Ocidente, onde as classes médias perderam terreno, entre outros motivos, porque a Ásia ascendeu empregando mão de obra barata na produção industrial.

De uma forma geral, os muito ricos no Brasil continuaram acumulando ganhos elevados, sobretudo de capital. E as faixas mais pobres progrediram com o aumento da atividade em setores não industriais urbanos, menos especializados. Eles empregam muita gente, como construção civil e comércio.

No miolo, a classe média foi comprimida, entre outros fatores, pelo encolhimento da indústria de transformação, cuja participação no PIB caiu à metade nas duas últimas décadas, para cerca de 12%.

Desde 2001, segundo o relatório, enquanto a metade mais pobre do Brasil obteve um aumento de 71,5% em sua renda, e os 10% mais ricos, de 60%, a classe média (os 40% “do meio”) viu seus rendimentos crescerem menos: 44%.

Leia mais:

https://wir2018.wid.world/

World Inequality Lab 2018 (full-report-english)

A Escalada da Desigualdade – Qual foi o Impacto da Crise sobre Distribuição de Renda e Pobreza ?

Agosto/2019

Sobre a pesquisa:

Este trabalho da FGV Social avalia as mudanças na desigualdade nos últimos sete anos, suas relações com o crescimento, alguns de seus determinantes próximos e consequências conjuntas sobre bem-estar social e pobreza.

| A ESCALADA DA DESIGUALDADE – Qual foi o impacto da crise sobre a distribuição de renda e a Pobreza?  

II TEXTO
Sumário Executivo
Texto completo

II SLIDES
Slide “A escalada da desigualdade”

II MÍDIA
A crise pune os mais pobres (Ancelmo Gois/O Globo)

II PESQUISAS 
– Veja outras pesquisas do FGV Social sobre a crise e as percepções dos brasileiros clicando aqui

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