Endividamento Público não preocupa os EUA: “Quando alguma coisa não pode se manter para sempre, ela acaba”

A dívida do governo dos EUA vai superar o tamanho da economia do país no próximo ano fiscal. Trata-se de uma marca não atingida desde a Segunda Guerra Mundial, uma consequência da colossal resposta fiscal à pandemia.

O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês) americano disse ontem que a dívida pública federal deverá atingir ou ultrapassar 100% do PIB dos EUA no ano fiscal a se iniciar em 1o de outubro. Isso colocará os EUA ao lado de poucos países cujo endividamento supera suas economias, como Japão, Itália e Grécia.

No atual ano fiscal, terminando em 30 de setembro, a relação dívida/PIB deverá atingir 98%, também a maior desde a Segunda Guerra.

A explosão na dívida pública não está, até agora, afligindo os investidores nem tolhendo a capacidade dos EUA de tomar mais empréstimos. Os investidores absorveram grande quantidade de títulos do Tesouro americano, atraídos por sua relativa segurança. Além disso, os juros deverão continuar baixos, o que dá ao governo muito espaço para tomar empréstimos. Continuar a ler

Meta de Inflação Média em vez de Pontual: Pragmatismo do Federal Reserve

Roberta Costa (Valor, 28/08/2020) avalia: a mudança de estratégia do Federal Reserve (Fed) ao abandonar uma meta pontual em favor de uma meta de inflação média de 2% trará algum benefício tangível para a política monetária americana?

É difícil dizer, mas tudo leva a crer que se trata de uma discussão que terá mais abrigo nos meios acadêmicos do que de mercado e, menos ainda, no “mundo real”. O que se sabe é que a mudança era necessária para dar razoabilidade a uma forma de agir que já vinha ocorrendo na estratégia do BC americano, qual seja, não reagir de pronto a desvios de variações dos preços em relação ao alvo.

Também é uma forma de reforçar seu “forward guidance”. Ele, formalmente, deve ser mudado na reunião de setembro, junto com o programa de compra de ativos, desencadeando assim a leitura dos agentes de a postura acomodatícia da política do banco central ir ainda mais longe, podendo inclusive (em tese) haver espaço para um aumento adicional das compras de ativos, já que a adoção de uma taxa de juros negativa tem sido veemente descartada.

Mas com o juro na mínima histórica e com a inflação abaixo da meta em quase todos os anos desde a crise financeira de 2008, a despeito da economia ter atingido o pleno emprego, é improvável a mudança proporcionar qualquer impulso significativo para a economia real.

Continuar a ler

Proposta Correta: Depósitos Voluntários dos Bancos no BCB e Mandato Dual para o Banco Central

Renan Truffi, Estevão Taiar e Vandson Lima (Valor, 08/09/2020) informam: o governo traçou uma estratégia para tentar aprovar, até novembro, o projeto de autonomia do Banco Central (BC), que está parado desde março no Senado. A ideia é atrelar a proposta a outro tema de modo a agradar a oposição e, principalmente, o PT. Trata-se de uma medida capaz de possibilitar ao BC substituir as operações compromissadas pelo depósito voluntário remunerado das instituições financeiras e pagar “juros negativos” como o custo de oportunidade para os bancos, caso eles empocem a liquidez e não emprestem dinheiro.

A proposta foi apresentada pelo líder do PT no Senado, Rogério Carvalho (SE), e levada ao presidente do BC, Roberto Campos Neto, que apoiou o texto. O órgão já enxergava essa mudança com bons olhos há algum tempo. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e a liderança do governo também não se opuseram, o que deixou o caminho livre para negociação. A única barreira é o ministro da Economia, Paulo Guedes. Por conta disso, os líderes governistas devem promover uma reunião entre o senador petista e o chefe da equipe econômica, como forma de acertar os ponteiros.

O desejo de criar um novo mecanismo para gerenciar a liquidez da economia é antigo. No próprio governo do PT, o ex-presidente do BC Alexandre Tombini tentou discutir o restabelecimento da permissão para que a autoridade monetária coloque em mercado títulos de sua própria emissão. Essa faculdade foi eliminada pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), com a justificativa de evitar o financiamento do Tesouro pelo BC. Diante das resistências à ideia, Tombini passou a defender a criação dos depósitos voluntários, agora retomada no Senado. Continuar a ler

Brasil: Maior Desigualdade Educacional

Ana Estela de Sousa Pinto informa: o Brasil é o país onde terminar o ensino superior garante a maior vantagem salarial em relação ao ensino médio completo e ao incompleto, entre 37 avaliados pela OCDE, grupo de nações entre as mais ricas do mundo.

O dado faz parte de um estudo lançado no dia 08/09/2020, com estatísticas comparáveis sobre educação em 46 países —além dos 38 membros da organização, foram incluídos dados de Brasil, China, Rússia, Índia, Indonésia, Argentina, Arábia Saudita e África do Sul.

Ensino superior (incluindo graduados e pós-graduados) garante ao brasileiro uma remuneração média 144% acima da dos que terminaram o ensino médio. Em comparação com os que não concluíram o ensino médio, a remuneração dos graduados é mais que o triplo (258% acima).

A vantagem obtida com um diploma de faculdade no Brasil fica muito acima da média dos países da OCDE, de 54% e 89%, respectivamente. Continuar a ler

Vendas de Automóveis Usados: Reserva de Valor Emergencial

Daniela Braun (Valor, 25/08/2020) informa: com o modelo de compra e venda de veículos usados sem o cliente sair de casa, startups brasileiras conseguiram se recuperar do impacto nas vendas provocado pela pandemia e dar partida em seus planos de expansão.

Fatores como o isolamento social, a necessidade de vender o carro rapidamente ou de trocar por uma versão mais econômica por conta da crise deram mais visibilidade aos modelos de negócios de empresas como Carupi, Carflix, InstaCarro e Volanty.

Em abril, as vendas de automóveis seminovos sofreram uma queda de 84% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos Automotores (Fenabrave). A retração sobre os negócios fechados há um ano veio diminuindo mês a mês, até chegar a julho com uma queda de 18,8%. Na comparação com junho deste ano, o desempenho representou aumento de 53,7%.

As startups também sentiram esse movimento. Subitamente, os compradores sumiram do mercado porque não queriam se comprometer em um cenário de incerteza. Os únicos vendedores que ficaram precisavam de liquidez. Por comandar uma operação 100% on-line, ao sentir a queda das vendas nos primeiros 15 dias de abril, uma empresa conseguiu se reposicionar rápido e passou a se concentrar nos vendedores que buscavam liquidez e em veículos de menor valor.

Continuar a ler

Autoimagem de Idiota: Sem Percepção do Mal Feito a Si e aos Outros

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), conta: não faz muito tempo, jantando em um restaurante de frutos do mar junto a uma praça horrorosa de Atenas, Applebaum descreveu sua festa de Ano-Novo para um cientista político grego. Ele riu dela. Ou melhor, riu junto com ela: não pretendia ser grosseiro.

O que Anne chamava de polarização não era nenhuma novidade. “O momento liberal pós-1989 foi uma exceção”, disse Stathis Kalyvas. Polarização é algo normal. Applebaum acrescentaria: ceticismo quanto à democracia liberal também é normal. E o apelo do autoritarismo é eterno.

Dentre outras coisas, Kalyvas é autor de vários livros importantes sobre guerras civis, inclusive a Guerra Civil da Grécia dos anos 40, um dos muitos momentos da história europeia quando segmentos políticos radicalmente divergentes pegaram em armas e passaram a se matar uns aos outros. Na Grécia, “guerra civil” e “ordem civil” são, no mais das vezes, termos relativos.

Na ocasião daquele jantar, alguns intelectuais gregos passavam por um momento centrista. Uma porção de gente de Atenas lhe contou, de repente, era de bom-tom ser “liberal”, com o que se queria dizer nem comunista nem autoritário, nem de extrema esquerda, como o Syriza, o partido da situação, nem de extrema direita, como seu parceiro de coalizão nacionalista, o partido Gregos Independentes. Jovens avançados se qualificavam como “neoliberais”, assimilando um termo considerado pouquíssimos anos antes uma heresia. Continuar a ler

Estrangeiro descarta o Populismo de Direita no Brasil

Marcelo Osakabe e Victor Rezende (Valor, 18/08/2020) informam: além de ter registrado a saída mais intensa de capital estrangeiro para portfólio em 2020 entre todos os emergentes, a imagem negativa que o Brasil mantém lá fora deve resultar em uma recuperação mais lenta aos níveis pré-crise na comparação com os pares, avaliam gestores e economistas consultados pelo Valor. Para eles, o país sofre de uma combinação de preocupações com a pandemia, dúvidas relacionadas à trajetória fiscal, à política e à agenda ambiental.

Segundo dados do Instituto Internacional de Finanças (IIF), mesmo com alguma recuperação em junho, o país ainda registrava uma saída líquida de capitais de não- residentes de US$ 25,5 bilhões no fim do primeiro semestre. O rombo é praticamente o dobro dos US$ 13,7 bilhões do México, por exemplo.

Assim, o estoque de capital estrangeiro em portfólio no Brasil caiu para US$ 293 bilhões no fim de junho, segundo dados do Banco Central. Também houve uma melhora em relação aos R$ 255 bilhões registrados no fim de março. No entanto, ele continua no menor nível desde o segundo trimestre de 2015.

O fluxo para o Brasil vai se recuperar em ritmo mais lento que o de outros emergentes, uma vez que há outros fatores que afetam a perspectiva local. O Brasil não terá o mesmo desempenho do Sudeste asiático ou da Europa Central, por exemplo.

O impacto da crise foi uma espécie de dominó geográfico global, com início na China, e a recuperação também tem seguido este padrão. O Brasil, no entanto, não é um bom exemplo disso porque sentiu mais rápido os efeitos da crise e também porque já vinha de uma dinâmica anterior.

Antes de junho, o último mês positivo para a renda variável do Brasil fora novembro de 2019. A renda fixa teve nove meses negativos em 2019. Parte importante desse efeito é relacionado à desvalorização do real no período.

Continuar a ler

Oportunismo Carreirista: Atitude Comum de Ressentidos

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), conta: Mária Schmidt não estava na sua festa do fim-de-ano em 1999, mas ela a conhece há bastante tempo. Ela a convidou para a inauguração do Terror Háza – Museu Casa do Terror – em Budapeste em 2002, e desde então esteve mais ou menos em contato com ela. O museu que Schmidt dirige, um dos mais inovadores da porção oriental da Europa, explora a história do totalitarismo na Hungria.

Desde o dia de sua inauguração também tem recebido duras críticas. Muitos condenaram a primeira sala – em uma das paredes há um painel de televisores exibindo propaganda nazista; na parede oposta, outro, mostrando propaganda comunista.

Em 2002, ainda era um choque colocar os dois regimes lado a lado, embora agora talvez seja menos. Outros ressaltaram os crimes do fascismo não receberam o devido peso e espaço, se bem que, como os comunistas administraram a Hungria por muito mais tempo, o material sobre eles é mais farto.

Anne Applebaum julgou positivo mostrar húngaros comuns colaborando com os dois regimes – na sua concepção, isso podia ajudar o país a reconhecer sua responsabilidade pelas próprias condições políticas e evitar a tacanha armadilha nacionalista de sempre jogar a culpa em cima de gente de fora.

No entanto, é justamente nessa tacanha armadilha nacionalista onde a Hungria vem caindo. O acerto de contas tardio com seu passado comunista – ao erigir museus, ao realizar cultos em memória dos mortos, ao dar nome a malfeitores – não ajudou, ao contrário das suas expectativas, a sedimentar respeito pelo Estado de Direito, pelos limites da ação do Estado, pelo pluralismo. Continuar a ler

Desintermediação e Reintermediação Bancária

Ana Paula Ragazzi (Valor, 28/08/2020) informa: depois de um mês fraco para as emissões de debêntures em julho, agosto caminha para encerrar com volumes próximos a abril, que fechou com R$ 15,6 bilhões em novos papéis.

A maioria das emissões segue com esforços restritos de colocação, mas os bancos também já estão dispostos a testar as ofertas que incluem o investidor de varejo. As duas primeiras ofertas do ano via Instrução 400 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estão em análise na autarquia. São debêntures de infraestrutura. Elas contam com incentivo fiscal para a pessoa física, de Eneva e da Usina Termelétrica Pampa Sul, que pertence à Engie Brasil.

Continuar a ler

Grande Mentira e Mentira do Tamanho Médio: Teoria da Conspiração

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), afirma: os escritores europeus do século XX estavam obcecados com a ideia da Grande Mentira, as vastas construções ideológicas apresentadas como o comunismo e o fascismo.

Os cartazes exigindo fidelidade ao Partido ou ao Líder, os Camisas Marrom e Camisas Negras marchando em formação, os desfiles iluminados por tochas, a polícia do terror, todas essas demonstrações forçadas de apoio às Grandes Mentiras eram tão absurdas e desumanas a ponto de exigirem violência prolongada para impor e a ameaça de violência para manter. Eles exigiam educação forçada, controle total de toda a cultura, a politização do jornalismo, esportes, literatura e artes.

Em contraste, os movimentos políticos de polarização da Europa do século XXI exigem muito menos de seus seguidores. Eles não defendem uma ideologia desenvolvida e, portanto, não exigem violência ou polícia do terror. Eles querem seus clérigos serem capazes de os defenderem, mas não os obrigam a proclamar “preto ser branco”, “guerra ser paz” e “as fazendas estatais alcançaram 1.000% de sua produção planejada”.

A maioria deles não usa propaganda em conflito com a realidade cotidiana. No entanto, todos eles dependem, se não de uma Grande Mentira, então de o que o historiador Timothy Snyder certa vez disse a Anne Applebaum: deveria ser chamada de Mentira do Tamanho Médio.

Continuar a ler

Fuga para Ouro nos States

Um fundo ETF tornou-se um dos maiores detentores de ouro do mundo, superando até os bancos centrais do Japão e da Índia, diante da avidez dos investidores pelo metal precioso e dos novos patamares históricos alcançados pelas cotações.

O SDPR Gold Shares tem comprado grandes volumes de ouro neste ano, uma vez que os investidores passaram a colocar mais dinheiro no fundo, em busca de um ativo seguro ou de ganhar com a alta das cotações. É um ETF, como são chamados os fundos negociados em bolsa, que compra barras de ouro, em vez de apenas derivativos financeiros atrelados ao metal.

A quantidade de ouro em posse do fundo, que é guardado em cofres do HSBC em Londres, aumentou para 1.258 toneladas. Apenas na segunda e na terça-feira, o fundou adicionou mais 15 toneladas, cerca de cinco vezes mais do que os ladrões de banco de Michael Caine roubaram em “Um Golpe à Italiana”, levando em conta os US$ 4 milhões em ouro que conseguiram levar no filme de 1969.

Esse ETF é uma parceira entre o State Street, um grande banco de Boston, e a associação setorial Conselho Mundial do Ouro (WGC, na sigla em inglês). Neste ano, já teve retorno de 33%, o que ajudou a elevar seu valor para mais de US$ 80 bilhões. A onda de valorização do ouro tem prosseguido nesta semana, com a cotação do metal superando os US$ 2 mil por onça-troy pela primeira vez na história.

O tamanho do fundo, conhecido pelo símbolo GLD, o coloca no nível dos maiores bancos centrais do mundo. Seus investimentos equivalem a 25% do ouro guardado em Fort Knox, nos Estados Unidos, e superam as reservas em ouro do Banco do Japão, do Banco da Inglaterra e do Banco da Reserva da Índia, além de não estarem muito distantes das 1.948 toneladas em posse das autoridades monetárias chinesas, segundo o WGC.

O entusiasmo pelo metal tem sido puxado por alguns investidores receosos de que as medidas extraordinárias dos bancos centrais para combater os impactos econômicos do coronavírus acabem reacendendo pressões inflacionárias há muito adormecidas. O ouro é visto em grande medida como um seguro contra acelerações na alta dos preços.

Um colapso dos rendimentos reais – o retorno esperado pelos investidores descontada a inflação – está reverberando pelos mercados financeiros globais e provocando altas recordes nos preços de ativos como ouro e ações de tecnologia. Continuar a ler

Regime Populista de Direita: Antro de Oportunistas Incompetentes

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), conta outra história vivenciada na atual Polônia.

Para entender os irmãos Kurski é fundamental entender de onde vieram: de Gdańsk, cidade portuária à beira do mar Báltico, onde guindastes de estaleiros assomam como cegonhas gigantescas. Os Kurski atingiram a maioridade no início dos anos 80, quando Gdańsk era o centro da atividade anticomunista na Polônia e um fim de mundo desgraçado, um lugar onde intriga e tédio se faziam medir em doses iguais.

Naquele momento e naquele local em particular, os irmãos Kurski se sobressaíam. O senador Bogdan Borusewicz, um dos mais importantes ativistas sindicais clandestinos da época. Ele disse a Anne Applebaum o colégio onde eles estudavam era conhecido por estar zrewoltowane – em revolta contra o regime comunista.

Jarosław representava sua classe no parlamento estudantil e fazia parte de um grupo de estudo da história e literatura conservadoras. Jacek, um pouquinho mais novo, era menos interessado no debate intelectual contra o comunismo e se assumia como ativista e radical.

Logo depois da lei marcial, os dois irmãos iam a passeatas, bradavam palavras de ordem, agitavam bandeiras. Ambos atuaram em um jornal estudantil ilegal e depois no Solidarność, a publicação oposicionista, também ilegal, do Solidariedade, o sindicato de Gdańsk. Continuar a ler