Carência de “Motor-de-Crescimento”: Capacidade Ociosa

Desempenho da Indústria de AutomóveisOciosidade Elevada

Arícia Martins (Valor, 26/07/16) informa que, assim como observado na indústria, houve importante aumento da ociosidade nos setores de serviços e construção civil ao longo da crise, mas os últimos números mostram estabilização da tendência de recuo, com ligeira alta da utilização dos fatores produtivos nos serviços. A partir das sondagens de julho de 2016, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) vai divulgar dados mensais do uso da capacidade instalada para esses dois importantes setores da economia, além da indústria.

Em abril de 2013, quando os índices começaram a ser calculados, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) era de 88,4% nos serviços, pico da série. Até maio deste ano, recuou 6,2 pontos percentuais, para 82,2% – nível mais baixo da pesquisa. De maio para junho, o Nuci de serviços interrompeu uma sequência de nove retrações mensais e subiu para 82,7%, voltando ao patamar de fevereiro.

Devido à heterogeneidade dos serviços, que representam mais de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e à dificuldade de medir a “produção” do segmento, que é intangível, o Nuci estimado para o setor é uma aproximação, explica Aloisio Campelo, superintendente-adjunto para ciclos econômicos do Ibre-FGV.

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Motores de Prosperidade

Acemoglu e Robinson

No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson dizem que as instituições econômicas inclusivas criam mercados inclusivos, que não só conferem às pessoas a liberdade de realizar em sua vida aquela vocação mais adequada aos seus talentos, mas também criam condições iguais para todos, capazes de lhes proporcionar oportunidade para tanto.

Quem tiver uma boa ideia terá a possibilidade de iniciar um negócio; os trabalhadores vão tender a dirigir-se às atividades em que sua produtividade seja maior; as empresas menos eficientes poderão ser substituídas por outras de maior eficácia.

Compare-se o modo como a profissão de cada um é escolhida nos mercados inclusivos do Peru e Bolívia dos tempos coloniais, onde, sob a mita, muitos eram forçados a trabalhar nas minas de prata e mercúrio, fossem quais fossem as suas competências ou aspirações.

Os mercados inclusivos não são meros mercados livres. Barbados, no século XVII, também contava com mercados próprios. Do mesmo modo, porém, como inexistiam os direitos de propriedade para quem não pertencesse à restrita elite de latifundiários, seus mercados estavam longe de ser inclusivos. A escravidão, de fato, era parte das instituições econômicas responsáveis pela coação sistemática da maioria da população e por privar as pessoas da possibilidade de escolher sua profissão e decidir como utilizar seus talentos.

As instituições econômicas inclusivas preparam o terreno também para dois outros motores da prosperidade:

  1. tecnologia e
  2. educação.

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Ajuste Fiscal Neoliberal, Ajuste Externo Depressivo e Golpe no Brasil: “Tiro-no-pé”

Saída de IEDEntradas e Saídas de IDEDéficit Externo e IDE jun 2015-jun2016

Edna Simão e Fabio Graner (Valor, 27/07/16) avaliam que o ritmo do ajuste das contas externas deve desacelerar no segundo semestre deste ano com a apreciação do real frente ao dólar e a estabilização da atividade econômica já que se supõe que a economia brasileira “atingiu o fundo-do-poço”, tipo “pior que está não pode ficar”. No primeiro semestre deste ano, o déficit na conta de transações correntes do balanço de pagamentos somou US$ 8,444 bilhões, o valor mais baixo para o período desde 2009 e 78% menor do que o verificado nos primeiros seis meses de 2015, quando o rombo nas contas chegou a US$ 37,888 bilhões.

Somente em junho de 2016, o déficit foi de US$ 2,479 bilhões, o menor para o mês desde 2009. O resultado veio pior do que estimava o BC, cuja previsão era um resultado negativo de US$ 1 bilhão. Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, essa diferença se deve ao fato de o balanço comercial não ter registrado um resultado melhor quando comparado com o mesmo mês de 2015, como vinha acontecendo nos meses anteriores.

Em junho de 2016, houve uma redução do ritmo desse ajuste externo. Isso já pode ser em alguma proporção devido à menor a intensidade da influência dos fatores câmbio desvalorizado e queda da atividade econômica, que estiveram presentes nos últimos 12 meses.

Apesar de a trajetória de redução no déficit externo começar a dar sinais de arrefecimento, esse processo não é linear e pode se mostrar mais ou menos intenso ao longo do tempo. Portanto, é de se esperar um ajuste mais lento no setor externo ao longo deste segundo semestre.

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Consequência do Juro Absurdo: Encarecimento e Queda do Crédito Agrícola

Funding do Crédito Rural

Não é só o crédito imobiliário que sofre a consequência da manutenção do juro nominal de referência em 14,25% aa  e elevação do juro real, devido à queda da inflação, elevada em 2015 pelo choque tarifário neoliberal de Joaquim Levy. O crédito agrícola também sofre pela perda de competitividade dos depósitos da poupança rural no Banco do Brasil e sua substituição por LCA que custa % de CDI, ou seja, é um funding muito mais caro.

Anotem o que estou dizendo, daqui a pouco, a própria “bancada ruralista” estará gritando contra este governo, que assumiu via um golpe parlamentarista, lembrando-se que “era feliz e não sabia”!

Cristiano Zaia (Valor, 27/07/ 16) informa que, com a situação fiscal ainda crítica, uma taxa básica de juros elevada e margem de manobra cada vez menor para arcar com subsídios, o BB apoia-se nas Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) como fonte de recursos complementares para financiar o agronegócio. Sem alternativas capazes de gerar resultados no curto prazo, a ideia é facilitar e ampliar o uso desses títulos e tirar um pouco do peso das tradicionais fontes que alimentam o crédito rural no país – depósitos à vista e poupança rural, que já dão mostras de estrangulamento pela elevadíssima taxa de juro real.

Num mundo ideal, diz uma autoridade graduada (e cínica) da equipe econômica, a Selic seria baixa o suficiente para desidratar de vez a dependência dos agropecuaristas do crédito rural com juros subsidiados – fixados, em média, em 9,5% nesta safra 2016/17, que começou em 1o de julho. Mas com a taxa básica ainda em 14,25% e distante de um nível mais civilizado até onde a vista alcança, não restam muitas opções a não ser perseguir mudanças nas regras de direcionamento das LCAs e torná-las logo mais populares e acessíveis não só entre os grandes produtores. Pagarão % de CDI como é o custo de LCA?!

Uai, o governo neoliberal não anunciou que acabaria com todo e qualquer subsídio?:)

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Consequência do Juro Absurdo: Queda do Financiamento Imobiliário

Financiamento do SBPE 1 S 2016

Muitos pensam que por as taxas de juros de financiamento imobiliário serem, em geral, prefixadas (fora correção com TR), este não sofre a consequência da manutenção da Selic no patamar de 14,25% aa, mesmo com a queda do IPCA, cuja variação foi de 8,84% nos últimos 12 meses, elevando então o juro real ex-post.  Isto é bom para alimentar o rentismo das castas brasileiras, porém tira competitividade dos depósitos de poupança efetuados acentuadamente (R$ 522 bilhões no total de R$ 593,5 bilhões) pelo varejo de baixa renda.

Cerca de 58 milhões de pessoas do povão têm depósito médio per capita de R$ 9.019,00. Em outros termos, são pessoas pobres que fornecem 88% do funding para financiamento habitacional com base em recursos de cadernetas de poupança. E agora a Caixa, sob nova direção em um governo anti-democrático, está financiando imóveis com valor até R$ 3 milhões!

Fernando Torres e Flávia Lima (Valor, 22/07/16) afirmam que uma parcela de R$ 28.961,34 é o valor da primeira prestação mensal que o beneficiário da mais nova linha de financiamento imobiliário lançada pela Caixa Econômica Federal poderá desembolsar.

O cálculo foi feito pelo simulador do site do próprio banco e considera imóvel de R$ 3 milhões, 80% do valor financiado, prazo de amortização de 420 meses, e taxa de juros efetiva de 12% ao ano mais TR. Estes são os novos limites estabelecidos pela Caixa, tanto para valor do bem quanto para a cota financiada.

Como a regra prudencial adotada pelos bancos exige que a prestação não comprometa mais de 30% dos rendimentos, é possível calcular que os indivíduos ou casais com rendimento mensal acima de R$ 96,5 mil conseguirão tomar o crédito nas condições limites autorizadas na nova linha.

A linha de financiamento vigente antes financiava no máximo 70% de imóveis de até R$ 1,5 milhão. A parcela máxima nesse caso chegava a R$ 12,85 mil, o que pressupunha um rendimento mensal familiar acima de R$ 42,8 mil.

Fazendo a correção pela inflação dos dados informados à Receita Federal referentes a 2014, estes constituem o 1% mais rico entre os que declaram Imposto de Renda (considerando renda de duas pessoas da mesma faixa de renda).

A renda per capita média do brasileiro em 2015 chegou a R$ 1.113, variando entre os R$ 2.252 do Distrito Federal – o maior valor em todo o país – e os R$ 509 do Maranhão, o de menor peso. Em fevereiro de 2014, a renda era de R$ 1.052. As estimativas de rendimento nominal domiciliar per capita em 2015, para as 27 unidades da Federação, são decorrentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e foram divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Instituições Econômicas Extrativistas versus Inclusivas

daron

No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson afirmam que os países apresentam diferenças em termos de êxito econômico em virtude de:

  1. instituições distintas,
  2. regras que regem o funcionamento da economia e
  3. incentivos que motivam a população.

“Imaginemos os adolescentes norte e sul-coreanos e seus sonhos para o futuro.

Os adolescentes da Coreia do Norte crescem em meio à pobreza, desprovidos de iniciativa empreendedora, criatividade ou educação adequada que os prepare para o trabalho qualificado. Boa parte da educação que recebem na escola não passa de propaganda, visando a reforçar a legitimidade do regime; há poucos livros, e os computadores são ainda mais escassos. Terminada a escola, todos têm de passar 10 anos no Exército. Essa garotada sabe que não terá direito a propriedade privada, não poderá abrir um negócio nem terá qualquer possibilidade de enriquecer, ainda que muitos, para ganhar a vida, dediquem-se ilegalmente a atividades econômicas privadas. Eles sabem também que não terão acesso legal a mercados em que possam usar suas competências ou o dinheiro que ganharem na compra dos bens necessários ou desejados. Não têm certeza nem mesmo dos direitos humanos que lhes serão assegurados.

Os adolescentes da Coreia do Sul, por sua vez, recebem boa educação e encontram incentivos que os estimulam a empenhar-se e destacar-se na vocação escolhida. A Coreia do Sul é uma economia de mercado, erguida sobre a propriedade privada. Seus jovens sabem que, caso sejam empreendedores ou profissionais bem-sucedidos, poderão um dia colher os frutos de seus investimentos e esforços, melhorar de padrão de vida e comprar carros, casas e atendimento médico de qualidade. Continue reading “Instituições Econômicas Extrativistas versus Inclusivas”

Hipótese da Ignorância: prova da ignorância de quem a defende

James Robinson & Daron Acemoglu

A hipótese da ignorância distingue-se das hipóteses geográfica e cultural à medida que implica uma pronta sugestão sobre como “solucionar” o problema da pobreza: se foi a ignorância que nos trouxe até aqui, basta contar com autoridades e governantes esclarecidos e bem informados – de preferência colonizados culturalmente pelos States – para sair deste lugar e, assim, “implementar” a prosperidade em todo o mundo, mediante a divulgação das orientações corretas e o convencimento dos políticos acerca do que seria uma economia de qualidade. A defendida pelos próprios PhDeuses!

No entanto, a experiência histórica sublinha o fato de que o principal obstáculo à adoção de políticas capazes de reduzir as falhas do mercado e estimular o crescimento econômico não é a ignorância das autoridades, mas os incentivos e restrições que lhes são impostos pelas instituições políticas e econômicas em suas sociedades.

Ainda que a hipótese da ignorância reine soberana entre a maior parte dos economistas e nos altos círculos do Ocidente – que, excluindo praticamente qualquer outra possibilidade, concentram-se na implementação mecânica da prosperidade –, é só mais uma hipótese que não dá certo. Continue reading “Hipótese da Ignorância: prova da ignorância de quem a defende”