Necessidade de Reforma do Modelo Brasileiro de Cartões de Pagamento

A missão social dos bancos, enquanto concessões públicas para operar com recursos de terceiros, seria cumprir três funções básicas.

  • Primeira, viabilizar o sistema de pagamentos eletrônicos, inclusive do varejo.
  • Segunda, oferecer rendimento, segurança e liquidez aos investimentos de seus clientes.
  • Terceira, financiar atividades com crédito preferencialmente farto e barato. Com isso o sistema multiplicaria a moeda bancária.

Na Era Social-Desenvolvimentista, iniciou-se uma fase na história bancária brasileira caracterizada pelo acesso popular à cidadania financeira, isto é, a bancos e crédito. A “bancarização” avançou no Brasil, chegando a 72,4% em 2008, quando era menos da metade disso na Era Neoliberal. O processo teve continuidade até atingir 90,4% da população brasileira com mais de 15 anos em 2016. Estavam registrados, no Banco Central, 144 milhões de CPFs ativos (e únicos) dessas pessoas consideradas adultas.

No último dia de agosto de 2017, a estatística de relacionamentos com clientes do sistema financeiro nacional mostrava 150,2 milhões de CPFs ativos. Considerando também os 8,3 milhões com relacionamentos inativos praticamente abrangia toda a população adulta. CNPJs ativos eram 10,4 milhões e inativos, 4,5 milhões.

Os bancos constituintes do “big five – Banco do Brasil (35,9 milhões), Bradesco (23,1 milhões), Itaú (21,9 milhões), Caixa (19,2 milhões) e Santander (9,2 milhões) – somam 109,5 milhões de correntistas que escolhem, corretamente, “grandes bancos demais para falir”. São quase ¾ do total de clientes do sistema financeiro nacional. Mas considerando a quantidade de clientes registrados no SCR – Sistema de Informações de Crédito do Banco Central os números e percentuais por banco diferem, pois do total de 126,4 milhões, em março de 2017, Bradesco tinha 22%, Itaú 20%, Caixa 12%, BB 9% e Santander 8%. Têm um Market-share próximo daquele dos correntistas: 71%. Continue reading “Necessidade de Reforma do Modelo Brasileiro de Cartões de Pagamento”

Mulheres Ricas: Herdeiras, Viúvas, Empreendedoras ou Divorciadas

Minha amiga Prof(a). Dr(a). Hildete Pereira (UFF) sugeriu à Cássia Almeida, Repórter Especial de Economia do Jornal O Globo, escrever uma matéria sobre desigualdade entre os sexos dos ricos nacionaisPreparando-me para a entrevista, resolvi fazer uma breve pesquisa preliminar a respeito. Hildete me disse: “sabemos que há desigualdades entre as grandes fortunas, as mulheres não detêm nem 20% do patrimônio das contas de investimentos dos bancos”. Eu não sabia. Mesmo com minha longa carreira como pesquisador do sistema financeiro nacional, não me lembrava de nenhuma estatística de riqueza financeira por gênero.

Só tinha conhecimento da lista das bilionárias… Pessoalmente, só tive o prazer de conhecer a Milu Vilela que me convidou para um almoço no MAM quando meu livro “Brasil dos Bancos” foi publicado. Disse-me que desejava conhecer o autor, pessoalmente, pois eu fui muito fiel na descrição de seus antecedentes. Foi muito simpática.

Pesquisando na internet, constatei que existem 21 mulheres brasileiras bilionárias, segundo o ranking da revista Forbes Brasil de 2015. A maioria teve a sorte de nascer em “berço de ouro”, herdeiras de famílias que são donas de holding econômico-financeira, ou casou-se bem, separou-se ou tornou-se viúva. No restrito grupo dentro do já seleto de pessoas mais ricas do mundo em dólares, apenas 16 mulheres do planeta ingressaram no ranking de ricaços sem ser por meio de uma herança ou um divórcio. Continue reading “Mulheres Ricas: Herdeiras, Viúvas, Empreendedoras ou Divorciadas”

Sobre Vaca Sagrada, Bezerro de Ouro e Bode Expiatório

A vaca foi possivelmente reverenciada como sagrada porque os hindus dependiam dela para consumo de leite e derivados, para lavrar os campos e por seu esterco, fonte de combustível e fertilizante. Antigamente, o gado era possuído por poucas pessoas afortunadas, as vacas eram valorizadas como ouro ou dinheiro. Tanto que pecuniário tem sua etimologia em pecúnia, originalmente, riqueza em gado. A origem remota a pecus – gado –, que serviu de base a pecúlio (poupança) e peculato (desvio de dinheiro público), almejados, respectivamente, por “gente de bem” e “do mal”.

O bezerro de ouro é referido em passagem bíblica, quando o reino de Israel é dividido e o rei, que fica com uma parte do reino sem ser de descendência real, cria dois bezerros para o povo adorar, e esquecer do Deus da linhagem real. Na linguagem corrente, a expressão “bezerro de ouro” tornou-se sinônimo de um falso ídolo, ou de um falso “deus”, simbolicamente, o dinheiro. Por exemplo, discurso do Papa Francisco, em 2013, disse que “criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão na idolatria do dinheiro e na ditadura de uma economia realmente sem fisionomia nem finalidade humanas”.

O bezerro-de-ouro virou o touro de Wall Street, que ataca de baixo para cima, tal como o perfil de uma curva  de alta

E o bode-expiatório, visto como “os bancos”, leva a culpa de seus malfeitos…

Dois bodes eram levados, juntamente com um touro, ao lugar de sacrifício, no Templo de Jerusalém. Os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente. Expiar é sofrer os efeitos ou consequências de algo errado ou malfeito, purificando-se de crimes ou pecados cometidos. É uma pena.

Discurso da Servidão Voluntária é um discurso de autoria de Étienne de La Boétie, publicado originalmente após sua morte em 1563. O texto foi elaborado depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal, aliás, origem etimológica de salário.

A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las. Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária: como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade?

Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de comunidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária.

Eu, quando leio artigos como o de Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha, “A vaca sagrada da economia” (Valor, 11/10/17), data venia, do qual discordo, vem à minha mente essa série metafórica: vaca sagrada, bezerro de ouro, bode expiatório. E me pergunto: por que todos os milhões de clientes, voluntariamente, se submetem a um sistema bancário? Resposta simples: porque esse comportamento é racional. Continue reading “Sobre Vaca Sagrada, Bezerro de Ouro e Bode Expiatório”

Repensando a Política Macroeconômica

https://piie.com/events/rethinking-macroeconomic-policy

O Instituto Peterson realizou uma conferência intitulada “Repensando a Política Macroeconômica“, coordenada por Olivier Blanchard, PIIE C. Fred Bergsten Senior Fellow e Lawrence H. Summers, membro do Comitê Executivo do Instituto, de 12 a 13 de outubro de 2017. A conferência é a quarta de uma série que Blanchard começou no Fundo Monetário Internacional.

Os especialistas acadêmicos e os formuladores de políticas abordaram os desafios para o pensamento macroeconômico e a formulação de políticas que o ambiente econômico mundial de hoje exige, entre outros aspectos:

  1. inflação baixa, apesar do baixo desemprego,
  2. as interações emergentes do aumento da desigualdade e da estagnação da produtividade e
  3. a falta de resposta das taxas de juros de longo prazo ao aumento da dívida pública.

O Instituto Peterson co-publicou os trabalhos da conferência com o MIT Press no início de 2018. Os links para download estão abaixo: Continue reading “Repensando a Política Macroeconômica”

Setor Financeiro: “A Vaca Sagrada da Economia”

Carlos Luque é professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP. Roberto Zagha, no Banco Mundial a partir de 1980, encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Tenho apreciado a séries de artigos de Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha no Valor, porém, do último (Valor, 11/10/17), data venia, discordo.

Data venia é uma expressão latina que significa “dada a licença” ou “dada a permissão“. É uma forma educada e polida de iniciar uma frase de discordância sobre o que disse ou escreveu o interlocutor. A expressão corresponde a dizer “com o devido respeito” ou “com a devida vênia” para argumentar contra o posicionamento de outrem.

Em próximo post, farei exposição de meus pontos de discordância a respeito de um medieval antissemitismo, que se transformou em um contemporâneo antirrentismo, mas que continua como discurso de ódio não bem fundamentado contra o sistema bancário. Erra-se, inclusive, porque, com base na equivocada Lei de Say, define-se que “bancos devem ser meros intermediários financeiros para canalizar, exatamente, a poupança prévia para o investimento posterior”. Assim, manter-se-ia equilibrada a demanda com a oferta agregada, já que esta criaria, na medida exata, o valor daquela demanda. De acordo com essa visão pré-keynesiana, o “crédito excessivo” que provocaria a perene inflação de demanda.

Para entender o debate, inicialmente, reproduzo abaixo o artigo de Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha. Continue reading “Setor Financeiro: “A Vaca Sagrada da Economia””

BNDES terá recursos para combater o desemprego?

Alex Ribeiro (Valor, 03/10/17) comete um equívoco em sua análise contábil. Ele parece não saber a diferença entre um contador e um economista: a hipótese. Aquele registra fatos do passado ao presente, este imagina cenários do presente ao futuro.

Então, a pergunta macro-sistêmica não é “se o caixa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é suficiente para fazer o pagamento antecipado de R$ 180 bilhões de empréstimos ao Tesouro Nacional ao longo deste e do próximo ano, de acordo com as demonstrações contábeis do banco federal”. É sim se ele ajudará a combater no futuro próximo o imenso desemprego atual na população brasileira.

Olha a ingenuidade de sua afirmação: “só faltariam recursos para fazer o pré-pagamento à União na hipótese de o BNDES promover uma aceleração nas concessões de crédito até 2018. A discussão sobre o pagamento antecipado ao Tesouro Nacional, portanto, é na essência sobre o tamanho que o BNDES terá nos próximos anos”. Assim, acriticamente, assume tudo que seu patrão (O Globo) mandou seu editor (Valor) publicar em favor do plano maquiavélico do governo golpista: destruir os bancos públicos desenvolvimentistas para, supostamente, abrir espaço para O Mercado privado. Continue reading “BNDES terá recursos para combater o desemprego?”

Se não fossem os Bancos Públicos o BRIC seria apenas RIC

Alex Ribeiro (Valor, 06/10/17) mostra que os neoliberais do governo golpista levou os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a níveis abaixo dos anteriores à Era Social-Desenvolvimentista, quando a instituição financeira ainda não havia sido transformada em um instrumento desenvolvimentista pelo governo Lula de maneira similar ao uso dos bancos públicos pelos demais países do BRIC.

Levantamento feito pelo Valor mostra que, nos 12 meses encerrados em agosto de 2017, os desembolsos do BNDES somaram R$ 77,7 bilhões, cifra que se aproxima muito da média de R$ 78,4 bilhões observada entre 2000 e 2005, em valores atualizados pela inflação. Em 2005, ocorreu o pico de desembolsos do período, com um volume de R$ 90,250 bilhões.

Essa é apenas uma das métricas possíveis de comparação. Os valores em proporção do Produto Interno Bruto (PIB) dão uma ideia dos desembolsos em relação ao tamanho da economia. As liberações chegaram a cerca de 1,2% do PIB nos 12 meses até agosto, algo como 40% menores do que a média de 2,1% do PIB de 2000 a 2005.

Os dados dão uma dimensão histórica do BNDES nesse momento em que o tamanho da instituição está sob ataque dos economistas neoliberais inconsequentes com a história do Brasil. São cúmplices do governo temeroso em relação ao pagamento antecipado de R$ 180 bilhões ao Tesouro Nacional de empréstimos feitos ao banco para evitar o impeachment do Temer pela “regra de ouro”. Continue reading “Se não fossem os Bancos Públicos o BRIC seria apenas RIC”