Origem do Conhecimento: Intelectualismo, Apriorismo e Posicionamento Crítico

Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, afirma que racionalismo e empirismo são opostos. Onde existem opostos, porém, geralmente também não faltam tentativas de fazer a mediação entre eles. Uma tentativa de mediação entre racionalismo e empirismo é encontrada na orientação epistemológica que podemos chamar de intelectualismo.

Se para o racionalismo o pensamento é a fonte e o fundamento do conhecimento, e para o empirismo essa fonte e fundamento é a experiência, o intelectualismo considera que ambas participam na formação do conhecimento.

Como o racionalismo, o intelectualismo sustenta a existência de juízos necessários ao pensamento e com validade universal concernentes não apenas aos objetos ideais (isso os principais representantes do empirismo também admitem), mas também aos objetos reais. Mas enquanto o racionalismo considera os elementos desses juízos, os conceitos, como um patrimônio a priori de nossa razão, o intelectualismo deriva esses elementos da experiência.

Como o nome já diz (inrelligere, deinrus legere, ler dentro), segundo o intelectualismo, a consciência cognitiva lê na experiência, retira seus conceitos da experiência.

Porém, o empirista quer dizer que no entendimento, no pensamento, não está contido nada de novo, nada que seja diferente dos dados da experiência. O intelectualismo afirma exatamente o oposto. Para ele, além das representações intuitivas sensíveis, existem também conceitos. Continue reading “Origem do Conhecimento: Intelectualismo, Apriorismo e Posicionamento Crítico”

Concentração de Riqueza Financeira em 2017

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A ANBIMA publicou seu importante Relatório de Varejo e Private para estudarmos a concentração de riqueza no Brasil. No final de 2017, o total de recursos alocados nos segmentos Private Baking (“ricaços”) e varejo, desconsiderando as aplicações em Previdência Complementar, alcançaram R$ 2,6 trilhões, um crescimento de 11,2% em relação à posição no final de 2016.

O segmento de varejo tradicional (“classe média baixa”) ainda concentra a maior parte dos recursos, com volume de R$ 916,1 bilhões e um crescimento de 7,4% em comparação ao ano anterior.

Já os segmentos de varejo alta renda (“classe média alta”) e Private alcançaram R$ 778,1 bilhões e R$ 868 bilhões1, respectivamente, mas com crescimentos mais expressivos em 2017, de 12,1% e 14,8%.

Esse movimento se justifica pela maior diversificação dos investimentos desses dois segmentos, frente a um cenário de menores taxas de juros, em comparação ao varejo tradicional, que ainda mantém expressivo volume de recursos alocado em aplicações mais conservadoras, como a caderneta de poupança.

Além disso, revela que os segmentos de varejo alta renda e Private superaram a taxa de juros Selic média anual de 10,3% em 2017. A média da Selic acumulada em 12 meses atingiu 12,6%; iniciou em 14,10% em janeiro e, com queda muito lenta e gradual, terminou com 10,11% em dezembro. Os mais ricos se beneficiam desse arbítrio do Banco Central, concentrando mais riqueza financeira.

Considerando os depósitos de poupança, cujo número de depositantes distorce a estratificação das classes médias de baixa riqueza e de alta riqueza, mas não a riqueza per capita dos super-ricos, que não fazem esses depósitos populares, no ano passado, os 67 milhões de clientes do varejo tradicional tinham, em média, R$ 13.561 de reservas financeiras, os 6 milhões de clientes do varejo de alta renda, R$ 128.583 (valor nominal bem inferior ao “pico” de 2013) e os 117.421 ricaços, R$ 7,4 milhões. E ainda tem gente da classe média batendo panela-vazia a favor do status-quo brasileiro de desigualdade social...

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Mises X Hayek

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história” (tradução Ana Maria Mandim. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016), afirma que foi Mises quem semeou dúvidas na mente de Hayek sobre as virtudes do socialismo. Os livros Economic Calculation in the Socialist Commonwealth, de 1920, e seu marco, em 1922, Socialism, an Economical and Sociological Analysis desarranjaram as crenças socialdemocratas de Hayek e ajudaram a convencê-lo de que o socialismo era um falso deus. Como Hayek colocou, “o socialismo prometia preencher nossas esperanças de um mundo mais racional, mais justo. E depois veio [o Socialism, de Mises]. Nossas esperanças se despedaçaram. O Socialism nos contou que buscávamos melhorias na direção errada.”

[Fernando Nogueira da Costa: As pessoas especialmente suscetíveis são caracterizadas por ter um caráter difícil e desconcertante, além de serem facilmente irritáveis. Eles se irritam com facilidade e agem de forma impulsiva.

As pessoas especialmente suscetíveis também são pessoas inseguras que continuamente buscam apoio dos outros, mas que não aceitam o conselho de ninguém e que muitas vezes, por sua vez, interpretam mal o que os outros dizem. É por isso que elas se sentem atacadas, porque elas têm uma visão um tanto distorcida das coisas. Isso torna as pessoas suscetíveis muito difíceis de tratar.

Mas por trás de uma pessoa particularmente suscetível geralmente há alguém emocionalmente fraco e com baixa autoestima, o que o faz perder o controle. Essa perda de controle a faz sempre alerta, suspeitando que outros estão contra ela.

As pessoas especialmente suscetíveis se valorizam na opinião dos outros e precisam se sentir valorizadas pelas pessoas em seu ambiente. A sua fragilidade emocional os faz reagir a qualquer coisa que não se encaixe no seu esquema, o que os torna pessoas muito imprevisíveis. Sua baixa autoestima é responsável por sempre precisar se defender de qualquer crítica, então qualquer comentário a respeito de alguma ideia prévia adotada pela pessoa especialmente suscetível parece ser uma ofensa pessoal.] Continue reading “Mises X Hayek”

Casta dos Sábios (ou Sabidos) Tecnocratas

Maeli Prado (FSP, 18/02/18) escreveu uma reportagem que me surpreendeu face minha experiência profissional como Vice-Presidente da Caixa. Em março de 2004, meu salário líquido era R$ 11.675,00 e ganhava mais R$ 2.782,00 como conselheiro de Administração da Caixa Vida e Previdência (CVPREV). Este total de R$ 14.500,00 é o que ganho hoje (líquido) como Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas, dado o redutor imposto pelo governador-candidato a fake de “caçador-de-marajás”. Já vimos esse filme — e ele não termina bem!

Para ter uma base comparativa, em julho de 2002, eu ganhava como Professor Livre-Docente, R$ 4.262,94, ou seja, na Caixa passei a receber quase três vezes mais. Quando saí da Caixa, ganhava R$ 20.579 e mais R$ 3.045 da CVPREV: R$ 23.624. Este valor estava abaixo do teto constitucional dado pelos vencimentos dos ministros do STF.

Este valor representava cerca de ⅓ dos salários dos banqueiros membros da Diretoria Executiva da FEBRABAN (na qual eu fui representante da Caixa de 2003 a 2007), sem contar os bônus milionários. A Caixa não pagava bônus, quando muito um 14o. salário como PLR, embora o lucro da Tesouraria da VIFIN (minha vice-presidência) chegasse a atingir 68% do total da Caixa — média de R$ 9 bi / ano antes das “reservas”, durante meus quatro anos lá. Eu me dava como satisfeito, dado o custo de oportunidade…

The Times They Are A-Changin’. Entre os cinco bancos estatais federais, o BNDES é a instituição que paga a maior remuneração aos seus diretores. Dados obtidos pela Folha de São Paulo por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o salário fixo da diretoria do banco é R$ 80.110,10, e o do presidente, R$ 87,4 mil.

Quando se soma a esse valor a remuneração variável, que depende de metas alcançadas, a renda média por mês é equivalente a R$ 105 mil, valor referente a 2016, último dado disponibilizado pelo banco. Segundo o BNDES, os executivos não tiveram aumento de salário em 2017. Snif, snif… eu ganho o mesmo valor nominal desde 2012, embora tenha alcançado o topo da carreira universitária. Continue reading “Casta dos Sábios (ou Sabidos) Tecnocratas”

Origem do Conhecimento: Empirismo

Johannes Hessen, no seu livro “Teoria Do Conhecimento”, contrapõe à tese do racionalismo, segundo a qual a verdadeira fonte do conhecimento é o pensamento, a razão, o empirismo (de empeiría, experiência).

O empirismo contrapõe a antítese, dizendo que a única fonte do conhecimento humano é a experiência. Segundo o empirismo, a razão não possui nenhum patrimônio apriorístico. A consciência cognitiva não retira seus conteúdos da razão, mas exclusivamente da experiência.

Por ocasião do nascimento, o espírito humano está vazio de conteúdos, é uma tabula rasa, uma folha em branco sobre a qual a experiência irá escrever. Todos os nossos conceitos, mesmo os mais universais e abstratos, provêm da experiência.

Se o racionalismo deixava-se conduzir por uma ideia determinada, por um ideal de conhecimento, o empirismo parte de fatos concretos. Para justificar seu ponto de vista, aponta o desenvolvimento do pensamento e do conhecimento humanos, que prova a grande importância da experiência para que o conhecimento ocorra.

Primeiramente, a criança tem percepções concretas. Com base nessas percepções, vai aos poucos formando representações e conceitos gerais. Estas, portanto, desenvolvem-se organicamente a partir da experiência. Seria inútil procurar por conceitos que já estivessem prontos no espírito ou que se formassem independentemente da experiência. A experiência aparece, assim, como a única fonte do conhecimento.

Se, em sua maioria, os racionalistas provinham da Matemática, a história do empirismo mostra que seus representantes provêm quase sempre das Ciências Naturais. Isso é compreensível, já que, nas Ciências Naturais, a experiência desempenha o papel decisivo. Continue reading “Origem do Conhecimento: Empirismo”

Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história” (tradução Ana Maria Mandim. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016), acha que vale a pena reafirmar, à luz daqueles que hoje em dia – tais como os jovens crentes do Instituto Mises – continuam a descrever Keynes e os keynesianos como socialistas velados, que, enquanto Hayek foi socialdemocrata por algum tempo, Keynes nunca foi socialista de espécie alguma, nem flertou com o socialismo, sequer com sua anêmica versão britânica, o fabianismo.

Keynes era um membro muito antigo dos liberais que estavam envolvidos em uma batalha pela sobrevivência com os socialdemocratas do Trabalhismo. Acreditava em um “meio caminho” entre capitalismo e socialismo, entre o conservadorismo e a socialdemocracia e entre o que acreditava serem dogmatismos primitivos de ambos os lados. Inevitavelmente, talvez, foi repudiado por um dos lados como apologista do capitalismo que ressuscitou a prosperidade de um sistema falido e, pelo outro lado, como socialista rasteiro que, por trás da fala macia, silenciosamente fazia entrar o marxismo pela porta dos fundos.

É um dos aspectos menos edificantes da luta de ideias entre conservadores e liberais evocada pela controvérsia entre Keynes e Hayek que termos políticos com frequência tenham sido arbitrariamente mal-usados para confundir a discussão. Para alguns, a linha que separa o capitalismo do socialismo começa com governo de qualquer espécie; para outros, começa com qualquer ato social, do tipo das amáveis ações do Bom Samaritano ou até da democracia representativa. Continue reading “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”

Contra o Redutor do Salário Confiscado pelo Governador de São Paulo

PELA IMPLANTAÇÃO DO TETO SALARIAL DE CARREIRA EM SÃO PAULO E APROVAÇÃO DA PEC 5

Colegas:
A nossa campanha pelo teto salarial de carreira para o funcionalismo público paulista vive nesta semana um momento decisivo.

Há quase quatro anos, estamos lutando para que o teto salarial de carreira estabelecido na Constituição Federal e já vigente na quase totalidade dos Estados brasileiros seja implantado também no Estado de São Paulo. No nosso Estado, o teto salarial ainda é estabelecido arbitrariamente pelo ocupante ocasional do posto de governador.

Nesta semana, a expectativa de docentes e servidores técnico-administrativos da UNICAMP, UNESP e USP, ao lado de funcionários públicos estaduais de várias categorias também atingidas, é ver pautada e aprovada, pelo plenário da Assembleia Legislativa do Estado de SP, o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) n. 5, que lá tramita já há quase dois anos.

Essa PEC estabelece um plano real e plenamente factível de implantação do teto salarial previsto pela Constituição Federal (através da Emenda Constitucional n. 47, de 2005), qual seja, de 90,25% do teto federal, algo em torno de R$ 30 mil em valores atuais (salário bruto integral e sem “penduricalhos”). Continue reading “Contra o Redutor do Salário Confiscado pelo Governador de São Paulo”