Morte do Dinheiro Vivo: Preferência por Pagamento em Papel-Moeda ou Digital?

Paulo Brito (Valor, 24/05/18) me entrevistou para publicar a reportagem abaixo sobre “a morte dos Geddeis” (foto abaixo). 🙂

Bancos digitais são um sinal da tendência global de virtualização das finanças, processo que nasceu com a criação dos bancos na Idade Média, quando depósitos em dinheiro vivo passaram a ser representados por registros contábeis. A representação foi feita também por documentos como os cheques, e hoje evolui numa enorme variedade de transações digitais: o relatório World Payments 2017, elaborado pela Capgemini, indica que o volume dessas transações ainda crescerá a uma taxa de 10,9% pelo menos até 2020. Em 2017, a consultoria Euromoney registrou mais transações em cartões do que em dinheiro no mundo.

Alguns especialistas acreditam que, assim, o dinheiro vivo tende a desaparecer. No entanto, em seu último relatório sobre os meios utilizados para transações, publicado em março deste ano, os especialistas do Banco de Compensações Internacionais (BIS) concluíram que a demanda global por dinheiro continua crescendo: entre 2000 e 2016 o total em circulação subiu de 7% para 9% do PIB mundial, embora já esteja em declínio, por exemplo, nos países nórdicos.

Dinheiro não precisa estar materializado, analisa Fernando Nogueira da Costa, professor do Instituto de Economia da Unicamp: “Antes, tudo era materializado. Mas virtualizou-se desde que inventaram o sistema bancário. O que é deposito à vista? É um registro, agora eletrônico, digital”. Embora isso favoreça a criação de bancos digitais, ele alerta: “Como especialista, indico os clientes escolherem bancos grandes demais para não quebrar”.

Bancos, lembra o economista, têm três grandes funções: pagamentos, crédito e investimento. Mas na última, afirma, o cliente não quer um tratamento digital, impessoal: “Quer uma dica, quer informação. Mas isso é geralmente dado só aos grandes clientes”.

Com a digitalização desses serviços, explica, os bancos têm conseguido cortar custos [com pessoal]: “De um lado, é custo, mas de outro é demanda e desocupação, e isso tem consequências sociais”. Continue reading “Morte do Dinheiro Vivo: Preferência por Pagamento em Papel-Moeda ou Digital?”

Prioridades para um Novo Governo Desenvolvimentista

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP Roberto Zagha foi professor assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Eles escrevem bons artigos desenvolvimentistas, fugindo do lugar-comum neoliberal contumaz na imprensa brasileira. Desta vez (Valor, 24/04/18) defenderam quatro prioridades para um novo governo.

“Em janeiro 2019 um novo governo tomará as rédeas de uma economia com renda per capita 9% abaixo do seu nível de 2014 e desemprego em dois dígitos. Inflação e juros baixos, excelentes notícias, serão insuficientes para tirar o país do fundo do poço. As perspectivas continuarão desanimadoras: o PIB per capita de 2014 será atingido em 2023. As projeções do Ministério da Fazenda e da OCDE para os próximos 40 anos são de que a renda per capita do brasileiro terá um distanciamento cada vez maior em relação à dos países avançados.

Não é acidente. Por várias décadas o governo descuidou do crescimento. Em anos recentes, ignorou tanto a teoria econômica como a experiência de outros países e se convenceu que o controle do gasto público é em si uma estratégia de crescimento. Introduziu a Emenda Constitucional “do teto”, pouco pragmática, e investiu capital político em reformas tangencialmente relacionadas ao crescimento (previdência e mercado do trabalho). Fundamentalmente, ignorou que problemas fiscais não podem ser resolvidos sem crescimento.

A aposta não deu certo. O resultado tem sido queda do PIB e uma dívida pública descontrolada: 57% do PIB em janeiro de 2015, 74% em janeiro de 2018, e 93% previstos para 2021. Continue reading “Prioridades para um Novo Governo Desenvolvimentista”

Apoio Popular a Estado Desenvolvimentista

Ricardo Mendonça (Valor, 08/05/18) informa sobre pesquisa de opinião:

  • A economia do país deve ser regulada mais pelo Estado do que pelo mercado.
  • O Estado deve ser dono das empresas mais importantes do país.
  • Ser também o responsável pelo bem-estar da população e pela redução das variadas manifestações de desigualdade.
  • Sem margem para dúvida, tem de garantir as aposentadorias aos mais velhos e ser o principal provedor dos serviços de saúde e educação.

Em síntese, essa é a opinião média do brasileiro a respeito do papel do Estado na economia e na sociedade, mostra pesquisa quantitativa nacional feita em março de 2018 pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT). O estudo mostra valorização e desejo de um Estado grande, forte, presente e interventor.

O levantamento foi feito entre os dias 15 e 23 de março com 2,5 mil entrevistas domiciliares em 179 municípios de 25 Estados e do Distrito Federal (exceção foi o Amapá). A margem de erro do estudo é de dois pontos para mais ou para menos.

Na apuração, os entrevistados eram convidados a estabelecer valor numa escala de 1 a 10 em diversos temas. As notas inicias eram associadas à maior presença do Estado nas questões propostas. As notas maiores, à maior participação do setor privado. Continue reading “Apoio Popular a Estado Desenvolvimentista”

Bancos Privados drenam, Bancos Públicos irrigam liquidez

Especial | Diálogos Capitais

Combustível para a economia

Carta-Capitalpublicado 22/05/2018 09h59

Professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, Fernando Nogueira da Costa dedica suas pesquisas mais recentes ao papel e impacto dos bancos públicos na economia brasileira. Em 2017, publicou Bancos Públicos do Brasil, um amplo estudo sobre o setor bancário, e neste ano, em março, lançou um texto de discussão sobre o papel do sistema financeiro no Brasil.

Com base em dados recentes do Banco Central e de instituições financeiras, sua pesquisa indica que, enquanto os bancos privados sugam liquidez, os públicos irrigam, ou seja, emprestam mais do que captam. Os bancos públicos ainda são importantes para reduzir a concentração de financiamento.

 

CartaCapital: Os bancos públicos têm papel importante em reduzir desigualdades regionais em um país no qual grande parte do crédito está no Sudeste?

Fernando Nogueira da Costa: Eles são fundamentais principalmente porque, desde a década de 1990, com a privatização do sistema financeiro, o crédito passou a ter papel importante dos bancos privados, cuja aversão ao risco é maior. O Sudeste recebe 47% do crédito total. Minha pesquisa com mais de 10 mil dados do Banco Central, com o balanço de agências espalhadas pelo Brasil nas cinco regiões, aponta que os bancos públicos irrigam liquidez, enquanto os privados drenam.

A Caixa Econômica Federal tem presença em pouco mais de 1,6 mil cidades, em apenas oito capta mais do que financia. O Banco do Brasil atua em mais de 2,3 mil cidades, apenas 65 estão nesta situação. Nos bancos privados, ocorre o inverso: em menos de 20% das cidades onde têm presença emprestam mais do que captam de seus clientes.

Enquanto os maiores bancos privados nacionais e estrangeiros drenam recursos da maioria das cidades onde localizam suas agências, a Caixa e o Banco do Brasil em praticamente todas concedem mais empréstimos do que captam. Continue reading “Bancos Privados drenam, Bancos Públicos irrigam liquidez”

Programa Social-Desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores

Sérgio Lamucci (Valor, 15/05/18) informa: a recuperação do crescimento e do emprego é a prioridade emergencial para economistas que participam das discussões para o programa de governo do PT, envolvendo ideias como o uso do excedente das reservas internacionais para estimular o investimento e a renegociação de dívidas de empresas e famílias.

Na visão de Marcio Pochmann, um dos coordenadores do plano de governo do partido, e de Ricardo Carneiro, da Unicamp, a retomada será o principal fator para ajudar a resolver a situação fiscal no curto prazo, ainda que não o único. Uma reforma da Previdência mais ampla em 2019 não faz parte das propostas desses economistas, uma divergência em relação às ideias do ex-ministro Nelson Barbosa, que participa de algumas reuniões e dá sugestões.

À diferença do que ocorre com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que apontaram Persio Arida e Paulo Guedes como seus coordenadores do programa econômico, o PT ainda tem um grupo grande de economistas discutindo como será o plano de seu candidato. O partido insiste na candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, líder disparado em todas as pesquisas eleitorais, mais do dobro do segundo colocado da extrema-direita. Continue reading “Programa Social-Desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores”

Políticos usam economistas como os bêbados usam o poste: mais para apoiar do que para iluminar

Robinson Borges (Valor, 15/05/18), editor de Cultura, publicou um artigo interessante intitulado “Economistas são de Marte, políticos são de Vênus”. Compartilho-o abaixo.

“Uma candidatura à Presidência começa a se desenhar de forma consistente e logo é convocada a associar sua campanha a economistas, de preferência com algum verniz da academia ou do mercado, para ganhar legitimidade e decolar. Com a chegada do vencedor ao poder, é preciso transformar a poesia da campanha em prosa, um processo com certo potencial de colisão entre as esferas econômica e política e que faz ecoar a máxima de Alan Blinder: “Os políticos usam os economistas como os bêbados usam o poste, mais para apoiar do que para iluminar”.

Blinder sabe do que fala. Além de renomado professor em Princeton, é veterano das guerras de poder em Washington, onde foi vice-presidente do Federal Reserve, conselheiro econômico do ex-presidente Bill Clinton e integrante da equipe de campanhas democratas.

Sua questão é: qual o papel da equipe econômica em um governo? Apesar de estarem no centro de muito do que é formulado, os economistas se tornam, quase sempre, coadjuvantes em sua implementação. “Como muitos economistas, pensava que não havia lógica na política. Mas há: é a lógica política”, diz Blinder em conversa com esta coluna. Continue reading “Políticos usam economistas como os bêbados usam o poste: mais para apoiar do que para iluminar”

Retrocesso Social em 2017: Fim da Ilusão da Apologia de O Mercado

Bruno Villas Bôas (Valor, 10/05/18) informa: apesar da mitificação do conluio imprensa-economistas-midiáticos com o falso anúncio de fim da recessão econômica e do início de recuperação do emprego, milhares de brasileiros deixaram de pertencer às classes sociais A e B no ano passado, considerado o critério de renda, mostram estimativas do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do banco Bradesco e da consultoria LCA. Agora, os ilusionistas têm de rever seus precoces diagnósticos na base de “torcida”… e distorção dos dados.

Segundo os cálculos do Bradesco, baseados em pesquisas domiciliares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 900 mil pessoas deixaram de integrar as classes A e B no ano passado. Somente na classe A – composta por famílias com renda mensal de R$ 11.001 ou mais – foram 500 mil a menos. Essa elite passou a ser formada por 10,3 milhões de indivíduos em 2017, o que representava 4,9% da população.

Um cálculo paralelo da LCA Consultores identificou a mesma tendência, ainda que com declínio menos acentuado. Para a consultoria, 441 mil pessoas deixaram as classes A e B em 2017. O retrocesso foi maior na classe A – pelo critério da consultoria, renda familiar per capita superior a R$ 3.566. O contingente desse topo social recuou de 13,1 milhões para 12,8 milhões de pessoas, uma baixa de 2,3%.

Continue reading “Retrocesso Social em 2017: Fim da Ilusão da Apologia de O Mercado”