Família + Clã + Dinastia + Tribo + Paróquia + Municipalismo + Bairrismo = Peemedebismo + Tucanos + Centrão + etc.

José de Souza Martins é sociólogo e Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de A Política do Brasil Lúmpen e Místico (Contexto). Assina artigos publicados no Valor-Eu&Fim-de-Semana que aprecio ler. Embora não concorde com tudo que ele escreve, admiro seu livre-pensar. Na última (08/12/17), fez uma reflexão sobre tema fundamental para se entender o País: ausência de impessoalidade no trato da coisa pública, trocada pelo toma-lá-dá-cá “em nome do torrão”. Reproduzo-o abaixo.

“O Brasil retrógrado custa caro. Para amaciar a consciência dos deputados que poderiam assegurar o mandato presidencial no embate recente, o governo comprometeu mais de R$ 20 bilhões. Foi para saciar a fome de benefícios tópicos do localismo brasileiro. Mais uma derrota do nosso republicanismo de mera colagem artificial de instituições modernas na armadura de um arcaico municipalismo, cujas funções sofreram poucas mudanças desde a criação do primeiro município brasileiro, São Vicente, em 1532. Funções alimentadas por recíprocas dependências dos que podem muito em relação aos que nada podem.

Somos dominados pela suposição completamente falsa de que o Brasil só pode ser moderno e desenvolvido se dominado pelo absolutismo do lucro. Os números astronômicos das propinas amaciantes semeiam a generalizada desconfiança de que medidas duras em relação aos ganhos e direitos já modestos dos que vivem de trabalho e salário são obra de quem não sabe o que é desenvolvimento econômico com desenvolvimento social.

Estamos em face de duas anomalias associadas. De um lado, a força política dos municípios e das regiões, que elegem os deputados federais e os senadores. Historicamente, as demandas municipais, desde a República, vêm colidindo com demandas propriamente nacionais.

Despesas com a educação superior, com as Forças Armadas, com rodovias e ferrovias, com as questões policiais de natureza federal, com a saúde pública, com a pesquisa científica, com a questão fundiária, com a questão indígena, com as questões relativas à emancipação dos brasileiros de suas carências e misérias, são frequentemente sacrificadas em nome da precedência dos gastos dos políticos do localismo.

O Brasil nacional tem sido o grande derrotado em face do Brasil municipal. Estamos vendo isso todos os dias no abandono da reforma agrária, no desamparo das populações indígenas despojadas de suas terras, de posse imemorial, nas deturpações da representação política.

De outro lado, a fragilidade política da nação em face da aldeia criou uma elite política negocista e vulnerável, incapaz de dar nascimento a uma elite propriamente nacional, que pudesse assegurar o equilíbrio justo entre o Brasil local e o Brasil nacional. Continue reading “Família + Clã + Dinastia + Tribo + Paróquia + Municipalismo + Bairrismo = Peemedebismo + Tucanos + Centrão + etc.”

Defesa do Indefensável: Lamentável Papel dos Vendidos a O Mercado

Aurelio Bicalho é economista-chefe da Credit Suisse Hedging-Griffo Asset Management. Como se é de esperar de um “bufão da corte” mais realista do que o próprio rei, ele (Valor, 01/12/17) se dedica à tarefa comum dos subservientes à aliança da casta dos mercadores com a casta dos oligarcas governantes, ambas golpistas e concentradoras de riqueza: defender o indefensável!

Confira minha posição a respeito do desempenho da Autoridade Monetária no Brasil em Desinflação do Tomate. Reproduzo abaixo o contorcionismo verbal do puxa-saco que justifica o enriquecimento financeiro de poucos de suas castas expropriando o emprego e a renda de muitas famílias. Deixar a taxa de juros em 14,25% aa após a taxa de inflação já estar caindo há 8 meses foi um crime lesa-pátria! Continue reading “Defesa do Indefensável: Lamentável Papel dos Vendidos a O Mercado”

Demonização da Globo

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com. Como é seu hábito, escreveu excelente reportagem investigativa sobre “a demonização da Globo” em El País (28/11/17).

Nenhuma rede de comunicação foi – e ainda é – tão influente na história recente do Brasil como a Globo. Na época da ditadura civil-militar, o grupo Globo se consolidou como o maior do país e um dos maiores do mundo. A redemocratização chegou, e as Organizações Globo seguiram fortes.

Nos protestos de junho de 2013, a cobertura da TV Globo e da Globo News foram decisivas para consolidar a narrativa de que os manifestantes eram “vândalos”. A Globo influenciou a opinião nacional na forma como cobriu a Lava Jato, os movimentos pelo impeachment de Dilma Rousseff e contra o PT, assim como na divulgação dos grampos ilegais da conversa gravada entre Lula e a então presidente do país.

E, finalmente, foi em O Globo, principal jornal do grupo, que foi denunciada uma conversa altamente comprometedora entre o presidente Michel Temer (PMDB) e Joesley Batista, dono da JBS, à noite, no palácio residencial e fora da agenda, e que culminou com um editorial defendendo a renúncia de Temer – mas não eleições diretas. Como todos sabem, Temer não caiu até hoje.

Há algo novo no horizonte da Globo neste momento. Para parte daqueles identificados com a esquerda, a Globo é “golpista”. Essa parcela aponta a rede, em especial a TV Globo e a Globo News, como protagonista do “golpe parlamentar” que tirou Dilma Rousseff, uma presidente ruim, mas legitimamente eleita, do poder.

Essa narrativa é alimentada não só pelos fatos atuais, mas pelo passado da emissora: em especial a edição do último debate entre Fernando Collor de Melloe Luiz Inácio Lula da Silva, nas eleições de 1989. Era o primeiro pleito presidencial após o fim de uma ditadura que durou 21 anos, detonada por um golpe civil-militar que a Globo apoiou, fato pelo qual pediu desculpas em 2013.

A desconfiança contra a Globo, disseminada em uma parcela considerável dos que pertencem ao campo progressista, é permanente. E vem se acirrando desde 2013, amplificada pela facilidade de difusão das redes sociais. Essa ligação com o “golpismo”, mais incisiva neste momento, está intimamente ligada ao passado da Globo, mas também a algumas escolhas do presente.

A novidade, porém, está em outro campo, na parcela da sociedade que chama a Globo de “comunista”. Essa é a parte surpreendente mesmo para aqueles que sempre consideraram a Globo responsável por todos os problemas do Brasil. De comunista, virou também “pró-Lula” e “pró-PT” e até mesmo “pró-Cuba”.

Até bem pouco tempo atrás seria difícil alguém acreditar que viveria para ver a Globo ser chamada de “comunista”. Mas, no atual momento do país, o impossível é um conceito desidratado pelo sem limites da realidade política.

A esse clamor tem se juntado parte do fundamentalismo evangélico, concentrado numa parcela das igrejas pentecostais e neopentecostais, que tem dado novos sentidos ao que chamam de comunismo. Desde que essa parcela do evangelismo começou a crescer no país, a se articular como força política no Congresso e a ter na TV um de seus principais meios de proselitismo religioso (e também político), as escaramuças com a Globo, por um lado, e as tentativas de aproximação da rede com lideranças evangélicas, por outro, têm sido uma constante especialmente desde 2010. É fundamental lembrar que a principal concorrente da Globo é, já há algum tempo, a Record, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do Bispo Edir Macedo. Continue reading “Demonização da Globo”

Contas Nacionais Trimestrais – 3o. 2017

 

PERÍODO DE COMPARAÇÃO INDICADORES 3º TRI 2017
PIB AGROPEC INDUS SERV FBCF CONS. FAM CONS. GOV
Trimestre / trimestre imediatamente anterior (c/ ajuste sazonal) 0,1 -3,0 0,8 0,6 1,6 1,2 -0,2
Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior (s/ ajuste sazonal) 1,4 9,1 0,4 1,0 -0,5 2,2 -0,6
Acum. em 4 tri / 4 tri imediatamente anteriores (s/ ajuste sazonal) -0,2 11,6 -1,4 -0,8 -4,2 -0,5 -0,4
Acumulado no ano / mesmo período do ano anterior (s/ ajuste sazonal) 0,6 14,5 -0,9 -0,2 -3,6 0,4 -0,6
Valores correntes no trimestre (R$) 1,641 trilhão 70,3 bilhões 314,6 bilhões 1,031 trilhão 263,9 bilhões 1,049 trilhão 311,9 bilhões
TAXA DE INVESTIMENTO (FBCF/PIB) 3º TRI 2017 = 16,1%
TAXA DE POUPANÇA (POUP/PIB) 3º TRI 2017 = 15,2%

O Produto Interno Bruto (PIB) variou 0,1% no 3º trimestre de 2017 frente ao 2º trimestre de 2017, na série com ajuste sazonal. Em relação a igual período de 2016, o crescimento foi de 1,4%. No acumulado em quatro trimestres terminados no 3º trimestre de 2017, o PIB registrou queda de 0,2%, frente aos quatro trimestres imediatamente anteriores. Já acumulado do ano até o mês de setembro, o PIB cresceu 0,6%, em relação a igual período de 2016.

Em valores correntes, o PIB alcançou R$ 1,641 trilhão, no 3º trimestre de 2017, sendo R$ 1,416 trilhões referentes ao Valor Adicionado e R$ 225,8 bilhões aos Impostos sobre Produtos Líquidos de Subsídios.

As informações completas sobre as Contas Trimestrais podem ser acessadas aqui.

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Expectativa de Vida do Homem ao Completar 65 Anos: 17 Anos a Mais de Vida

Uma pessoa nascida no Brasil em 2016 tinha expectativa de viver, em média, até os 75 anos, nove meses e sete dias (75,8 anos). Isso representa um aumento de três meses e 11 dias a mais do que para uma pessoa nascida em 2015. A expectativa de vida dos homens aumentou de 71,9 anos em 2015 para 72,2 anos em 2016, enquanto a das mulheres foi de 79,1 para 79,4 anos.

A probabilidade de um recém-nascido do sexo masculino em 2016 não completar o primeiro ano de vida era de 14,4 a cada mil nascimentos. Já para as recém-nascidas, a chance era de 12,2 meninas não completarem o primeiro ano de vida.

A mortalidade na infância (de crianças menores de cinco anos de idade) caiu de 16,1 por mil em 2015 para 15,5 por mil em 2016. Das crianças que vieram a falecer antes de completar os 5 anos de idade, 85,8% teriam a chance de morrer no primeiro ano de vida e 14,2% de vir a falecer entre 1 e 4 anos de idade. Em 1940, a chance de morrer entre 1 e 4 anos era de 30,9%, mais que o dobro do que foi observado em 2016.

Entre as Unidades da Federação, a maior expectativa de vida foi encontrada em Santa Catarina, 79,1 anos, e a menor no Maranhão, 70,6 anos. Uma pessoa idosa que completasse 65 anos em 2016 teria a maior expectativa de vida (20,1 anos) no Espírito Santo. Por outro lado, em Rondônia, uma pessoa que completasse 65 anos em 2016 teria expectativa de vida de mais 15,9 anos. Considerando-se a diferença por sexo, a população idosa masculina capixaba teria mais 18,2 anos e a feminina, mais 21,8 anos. Entre as menores expectativas, estão os homens idosos do Piauí, com mais 14,6 anos, e as mulheres de Rondônia, com mais 17,1 anos.

Essas e outras informações estão disponíveis nas Tábuas Completas de Mortalidade do Brasil de 2016, que apresentam as expectativas de vida às idades exatas até os 80 anos e são usadas como um dos parâmetros para determinar o fator previdenciário, no cálculo das aposentadorias do Regime Geral de Previdência Social. A presente edição traz comparações com 1940, ano a partir do qual foi verificada uma primeira fase de transição demográfica, caracterizada pelo início da queda nas taxas de mortalidade.

Todos os resultados das Tábuas de Mortalidade podem ser acessados aqui.

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Fuga de Capital dos Ricaços Brasileiros

Em 2106, havia 69,2 milhões de domicílios no Brasil, dos quais 86,0% eram casas (59,6 milhões) e 13,7% apartamentos (9,5 milhões). Desse total, 68,2% eram próprios e pagos (47,2 milhões); 5,9% eram próprios, mas que ainda estavam sendo pagos (4,1 milhões); 17,5% eram alugados (12,1 milhões); 8,2% eram cedidos (5,7 milhões); e 0,2% tinham outra condição (143 mil domicílios), como invasões, por exemplo.

Existe coabitação — contabilizada no déficit habitacional –, mas esse número (69,2 milhões) dá uma ordem de grandeza das famílias habitantes no País, grosso modo, ⅓ da população total de 208,313 milhões pessoas. Qual é a estratificação social dessas famílias?

Pela riqueza financeira (ver tabela acima), as famílias do segmento de clientes Private Banking eram 55.725 ou 0,1% desse total de famílias.

Quando comecei a pesquisar a história bancária brasileira eu “garimpava” até em crônicas sociais e obituários sobre as vidas dos banqueiros. “Caiu na rede é peixe!”

Ainda continuo curioso sobre as raízes da desigualdade de renda e riqueza no Brasil. Pela minha especialização em Finanças eu tinha uma vantagem comparativa face aos outros pesquisadores: justamente ler reportagens e analisar estatísticas sobre Finanças!

Confira abaixo como em algumas reportagens se descobre algumas pistas ou indícios para dimensionar o que estamos falando a respeito de concentração de riqueza. Continue reading “Fuga de Capital dos Ricaços Brasileiros”

Finanças dos Trabalhadores: Investir para Aposentadoria

Segundo reportagem de Gilmara Santos (FSP, 27/11/17), a dúvida sobre as regras em vigor na Previdência Oficial fez muitos recorrerem  Planos de Aposentadoria Complementar para tentar assegurar uma renda do capital financeiro no futuro.

Em agosto de 2017, esses planos (PGBL/VGBL) ganharam mais de 1 milhão de participantes ante o mesmo mês do ano passado, de acordo com a Fenaprevi (federação que reúne as entidades do setor). A captação líquida, ou seja, a diferença entre contribuições e resgates, estava positiva em R$ 34,17 bilhões no ano.

A tendência é que as discussões envolvendo a reforma impulsionem ainda mais a procura por esses planos. Embora o intuito da previdência privada sempre tenha sido importante, todos profissionais que recebem mais de dois salários mínimos — média do INSS — estão preocupados porque vão ter que contribuir fora da Previdência Social.

É preciso buscar alternativas na Previdência Complementar, pois a oficial está deficitária por causa da Grande Depressão — e os golpistas estão mudando as regras durante o jogo. O plano do governo temeroso precisa ser apreciado no plenário da Câmara e do Senado, em dois turnos. Continue reading “Finanças dos Trabalhadores: Investir para Aposentadoria”