51 Anos de Uma Má Ideia: Golpe Militar

Percentual de golpistas

Não é só a corrupção que envergonha os brasileiros, pior é 47,6% deles acharem que essa corrupção justifica um novo golpe! Novamente, 51 anos após o golpe militar que condenou o País a mais de 20 anos de atraso na cidadania — conquista de direitos e cumprimento de deveres –, reune-se a má fé com a ignorância para criar um “caldo-de-cultura” para as “vivandeiras dos quarteis”.

A expressão “vivandeira”, segundo Elio Gaspari, veio do marechal Humberto Castello Branco, no alvorecer da anarquia militar que baixou sobre o Brasil a treva de duas décadas de ditadura. Referindo-se aos políticos civis que iam aos quartéis para buscar conchavos com a oficialidade, ele disse:

“Eu os identifico a todos. São muitos deles os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar”.

Os golpistas juntam, ao mesmo tempo, a ignorância da experiência histórica e a má-fé representada pela vaga lembrança pessoal tipo “eu era feliz e não sabia”. Foi um período em que pessoas de baixa qualificação ascenderam socialmente. Houve desde altas patentes seduzidas por postos bem remunerados de CEO e em CA de empresas privadas — fachadas oportunistas para bom relacionamento com o governo militar — até baixas patentes que tiveram mobilidade social baseada no aparelho repressor, inclusive em assassinatos e torturas.

A instituição nacional das Forças Armadas foi sendo contaminada pela quebra de hierarquia militar, devido à essa mobilidade social que corrompia seus quadros. A promiscuidade do relacionamento entre setor privado-setor público acaba sempre em corruptores levando vantagens dos corruptos. E em ditadura não há liberdade para investigar e denunciar…

Vigorou durante duas décadas de ditadura muita mediocridade, p.ex., bons professores eram aposentados enquanto os medíocres estavam garantidos. Os submissos e parasitas não se queixavam da repressão, mas os rebeldes e criativos se amargavam pela perda da liberdade de expressão durante 21 anos. 

Hoje, os golpistas perderam a vergonha de sair-do-armário em que se meteram por 1/2 século! Estamos observando a falta de pudor em falar asneiras daqueles sujeitos que “sentavam no fundo-da-sala-de-aula”, quando iam à aula… Continuar a ler

Direito à Moradia versus Direito à Casa Própria

casa-propria-2 A “casa própria”, em geral, é a maior riqueza das famílias. Seu valor-de-uso ultrapassa muito o seu valor-de-troca. O valor-de-mercado poderá cair, até mesmo pela depreciação ao longo do tempo, porém, ter um teto, um abrigo, um refúgio em todos os momentos, inclusive na desesperação do desemprego, tranquiliza seus residentes que não poderiam pagar um aluguel.

A esquerda, influenciada pela formação marxista, tende a condenar a propriedade privada, contrapondo-a à “propriedade coletiva dos meios de produção”. Ledo engano.

Primeiro, os meios de produção podem, em parte, ser estatais sem nenhuma incompatibilidade com a propriedade das residências pelos próprios moradores.

Segundo, as experiências de ocupação coletiva de residências particulares germinaram o ovo-da-serpente totalitária.

Por fim, a conquista popular ao direito à propriedade, historicamente, foi uma vitória da cidadania, isto é, dos cidadãos pobres contra a aristocracia fundiária. Continuar a ler

Sequências Reativas, Cíclicas e de Feedback Negativo

Evento contingente

Segundo Bruno Boti Bernardi, em O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas, a visão predominante na Ciência Econômica (e que foi introduzida na Ciência Política) enxerga os processos de dependência da trajetória através do prisma da reprodução e autorreforço de um mesmo resultado por meio da operação do mecanismo de retornos crescentes. No entanto, vários cientistas políticos e sociólogos consideram formas de path dependence que não são de autorreforço e que não respondem à lógica correlata de increasing returns.

É possível conceitualizar esses outros tipos de dependência da trajetória como sequências reativas, nas quais em vez da reprodução estável de um resultado particular ao longo do tempo o que se tem são antes dinâmicas de reação e contrarreação em que cada evento na sequência é tanto uma reação a eventos antecedentes quanto uma causa para eventos subsequentes.

Essas sequências são significativamente diferentes das sequências de retornos crescentes porque enquanto estas últimas são caracterizadas por processos que reforçam eventos iniciais (early events), as sequências reativas são marcadas por processos de reação que transformam e talvez revertam eventos iniciais.

Em uma sequência reativa, os eventos iniciais são também especialmente importantes, não porque desencadeiam um processo de autorreforço de um padrão, mas sim porque põem em marcha uma cadeia de reações e contrarreações fortemente interligadas que conduz o processo a uma trajetória específica de desenvolvimento.

Portanto, o que se tem nesse caso são cadeias de eventos ordenados temporalmente e conectados, causal e sucessivamente, até que o evento de interesse seja alcançado. Ele será então dependente de cada evento antecedente ou, mais especificamente, dessa trajetória causal como um todo em que os eventos estão ligados por firmes e estreitas conexões causais. Continuar a ler

Contingência

Kjeragbolten-Norway

Segundo Bruno Boti Bernardi, em O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas, autores variam na ênfase que concedem à contingênciacaráter do que ocorre de maneira eventual, circunstancial, sem necessidade, pois poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não se ter efetuado. Mais especificamente, diferenciam-se quanto ao tratamento que lhe conferem como um elemento necessário das explicações de dependência da trajetória.

Uma forma de tratar o tema da contingência é afirmando que ela envolve processos estocásticos, fatores irredutivelmente inexplicáveis que teriam um importante impacto causal nos momentos de critical junctures em que diante de múltiplas opções uma é favorecida em razão de um evento contingente.

Nessa visão, trajetórias diferentes poderão ser selecionadas a depender do desenrolar desses eventos aleatórios e do acaso. São esses eventos que desencadeiam sequências profundamente padronizadas de resultados subsequentes até uma situação de lock-in. Uma vez que eventos aleatórios selecionem uma trajetória particular, a escolha poderá tornar-se locked-in a despeito das vantagens das alternativas.

Dada a imprevisibilidade desses eventos contingentes, um mesmo processo que seja repetido assistirá, ainda que sob condições iniciais idênticas, ao prevalecimento de uma trajetória em algumas vezes e ao predomínio de alternativas diferentes em outras vezes, o que se explica pela influência de pequenas perturbações em momentos críticos. Acidentes históricos e fatores essencialmente aleatórios e transitórios são passíveis de exercer grande alavancagem em momentos de escolha chave. Continuar a ler

Processos de Dependência da Trajetória

Árvores GenealógicaCada passo sucessivo na mesma trajetória aumenta as chances de que uma instituição ou política particular seja repetida e/ou tenha ampliada a magnitude de suas manifestações subsequentes.

Processos de dependência da trajetória são comuns na Política porque:

  1. uma política cria ou encoraja a criação de organizações de larga escala com substantivos custos de instalação;
  2. uma política direta ou indiretamente beneficia grupos organizados ou constituintes de tamanho considerável;
  3. uma política incorpora compromissos de longa duração sobre os quais beneficiários e aqueles em torno deles estruturam decisões organizacionais e de vida cruciais;
  4. as instituições e expectativas que uma política cria são por necessidade densamente entrelaçadas com as características mais amplas da economia e sociedade, criando redes interligadas de instituições complementares; e
  5. características do ambiente dentro do qual uma política é formulada e implementada tornam mais difícil reconhecer ou responder a resultados de políticas que não são antecipados ou desejados.

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Dependência Trajetória em Ciências Sociais Afins: Ciência Econômica e Ciência Política

Maravilhas-da-Natureza

Prosseguindo com o estudo-resumo do artigo de Bruno Boti Bernardi, O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas –, é importante destacar sua interdisciplinaridade. A Ciência Política valeu-se de obras seminais de economistas para identificar o conceito de path dependence com o mecanismo de retornos crescentes e com os processos de autorreforço ou feedback positivo associados à lógica de funcionamento desse mecanismo, ao qual não só as tecnologias, mas também o desenvolvimento das instituições e políticas estaria sujeito.

A Ciência Política salienta ainda dois fatores importantes nesses processos sociopolíticos:

  1. a sensibilidade dos processos de desenvolvimento institucional aos momentos iniciais e primeiros eventos das sequências temporais: a importância explicativa dos eventos iniciais (early events) é maior do que a de eventos posteriores na sequência de eventos, pois eles moldam decisivamente as trajetórias subsequentes;
  2. a tendência inercial de reprodução dos arranjos institucionais, uma vez que eles tenham sido selecionados até uma situação de lock-in.

Nesta concepção política, o conceito de dependência da trajetória se refere, assim, a “processos dinâmicos envolvendo feedback positivo, que geram múltiplos resultados possíveis, dependendo da sequência particular em que os eventos se desenrolam”.

A análise se foca, portanto, em processos nos quais, depois de momentos formativos iniciais, uma opção de instituição ou política é escolhida – critical junctures: períodos em que uma determinada opção é selecionada a partir de uma gama de alternativas, canalizando assim o movimento futuro em uma direção específica. Cada passo nessa mesma trajetória produz consequências que aumentam a atratividade relativa desse path na próxima rodada, gerando um poderoso ciclo de autorreforço. Continuar a ler

Banco Moderno: Conjunto de Sistemas de Informações

Canais de acesso a banco

João Luiz Rosa (Valor, 19/03/15) reporta que, durante anos, os bancos brasileiros investiram fortemente em Tecnologia de Informações (TI), transformando-se em uma força do setor. Se fossem somadas, as cinco maiores instituições financeiras do país – Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco e Santander – formariam, de longe, a maior empresa nacional de TI. São 20 mil profissionais diretos, um investimento de mais de R$ 16 bilhões por ano e uma carteira de clientes (os próprios bancos) cujos ativos totais superam R$ 4,6 trilhões.

Mas não é só tamanho o que conta. Cada vez mais, os bancos estão encontrando soluções para um problema no qual a maioria das empresas tropeça: como reduzir a tensão entre as equipes de negócios — os profissionais que vão usar o aplicativo ou sistema em elaboração — e o Departamento de Tecnologia, responsável por sua execução.

As estratégias vão desde o estabelecimento de políticas para contratar e formar pessoal até diretrizes para integrar as áreas sob um tecido único, sem costura aparente, com foco na inovação. Isso começa necessariamente com mudanças no padrão de governança e precisa partir das esferas mais elevadas de gestão. Hoje, toda decisão relevante de negócio passa pela tecnologia. Tecnologia não é mais um meio, é uma atividade-fim.

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