Download Gratuito do Livro “A vida está difícil. Lide com isso.”

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Download: Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso.

Reuni resenhas da literatura recente de não-ficção postadas neste blog. São narrativas da crise mundial na atual transição histórica. Li e resumi 43 livros de autores estrangeiros — veja a bibliografia abaixo –, em geral publicados nos últimos anos, exceto os de Metodologia. Apresento as explicações sobre crise financeira, metodologia econômica, transição histórica devido à revolução tecnológica, consequências políticas vivenciadas e propostas políticas para evitar a atual polarização destrutiva. Continuar a ler

Debate entre o Individualismo Metodológico e o Holismo Metodológico

Por que a economia europeia está em recessão? Por que a taxa de natalidade na Tanzânia recentemente subiu? E por que as revoluções tendem a ser seguidas por fomes?

O debate metodológico do individualismo-holismo, segundo Julie Zahle e Finn Collin, editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014), é sobre o foco apropriado das explicações científicas avançadas em resposta a questões como essas. Mais especificamente, diz respeito ao grau no qual as explicações científicas sociais podem (e devem) focar nos indivíduos e nos fenômenos sociais, respectivamente.

A discussão assume várias formas. Entre estas, destacam-se duas:

  1. o debate sobre dispensabilidade, e
  2. o debate sobre microfundamentos.

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Uso maciço do WhatsApp também na Eleição da Índia

Madhumita Murgia, Stephanie Findlay e Andres Schipani (Valor, 17/05/19) informam: na gigantesca eleição geral da Índia, com cerca de 900 milhões de eleitores, a ser completada neste domingo, o partido do premiê indiano, Narendra Modi, o Bharatiya Janata (BJP), está usando o WhatsApp para fazer uma das campanhas políticas digitais mais sofisticadas do mundo, contando com um enorme exército de voluntários.

A proliferação de smartphones aumentou significativamente o acesso à internet na Índia. Mais de 300 milhões de indianos estão agora no WhatsApp, o que torna o país, de longe, o maior mercado do aplicativo. O WhatsApp se tornou a arena central da eleição na Índia. Ela começou em 11 de abril de 2019.

O pleito indiano segue-se à desagregadora eleição no Brasil, na qual o candidato da extrema-direita, um obscuro capitão ignorante e desqualificado para o cargo presidencial, saiu vencedor. Ele foi ajudado, em parte, pela mídia provocada por uma suposta facada, em outra parte, por uma onda de boatos tóxicos e de desinformação, boa parte dos quais disseminados por meio do WhatsApp.

A Índia é o mais novo teste da capacidade do aplicativo de mensagens de moldar uma eleição, agora na maior democracia global.

O problema, evidentemente, não está na tecnologia, mas sim no uso dela por pessoas ignorantes e/ou mal-educadas. Se o aplicativo ajudou a unir famílias e amigos com uma ferramenta de comunicação barata, ele também se tornou um canal de divulgação de notícias falsas impossível de monitorar.

As pessoas intolerantes de extrema-direita encontraram seus pares e perderam a vergonha anterior, quando tinham um certo pudor em mostrar sua ignorância e seu anti-intelectualismo. Sem o anterior complexo de inferioridade, viram poderem ser maioria em uma eleição se unissem a ignorância e a má-fé. Continuar a ler

Dimensões das Narrativas Normal e Anormal

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, conta: o psicólogo Jerome Bruner enfatizou a importância das narrativas. Por sua análise, não devemos supor as ações humanas serem dirigidas em resposta a fatos puramente objetivos:

“Eu não acredito em alguém realmente encarar os fatos. Do ponto de vista de um psicólogo, não é assim de acordo com os fatos como as pessoas se comportam, como sabido de nossos estudos de percepção, memória e pensamento. Nossos mundos factuais são mais como armários cuidadosamente arrumados em lugar de uma floresta virgem inadvertidamente se entrou.”

Narrativas são construções humanas. São misturas de fato e emoção e interesse humano em outros detalhes estranhos. Todos formam uma impressão na mente humana.

Psiquiatras e psicólogos reconhecem a doença mental ser frequentemente uma forma extrema de comportamento normal, ou seja, uma perturbação estreita das faculdades mentais humanas normais. Assim, podemos aprender sobre as complexidades do processamento cerebral normal da narrativa humana, observando os fenômenos narrativos anormais. Os neurocientistas Young e Saver (2001) listaram algumas de suas formas variadas: narração travada, desajustamento, desnarração, confabulação.

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Debate entre o Individualismo e Holismo Ontológico

Segundo Julie Zahle e Finn Collin, editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014), o debate entre individualismo-holismo ontológico diz respeito ao status ontológico dos fenômenos sociais (ou fatos) e, como parte disso, sua relação com os indivíduos (ou fatos sobre indivíduos).

Ontológico é relativo a (ou próprio da) ontologia, a investigação teórica do ser. No heideggerianismo, é relativo ao ser em si mesmo, em sua dimensão ampla e fundamental, em oposição ao ser ôntico. Este se refere aos entes múltiplos e concretos da realidade.

Os holistas ontológicos argumentam: os fenômenos sociais existem sui generis, ou acima de indivíduos, enquanto individualistas ontológicos negam isso. Antes de olhar para várias interpretações da ideia de fenômenos sociais existirem de modo sui generis, é instrutivo brevemente caracterizar as noções de fenômenos sociais e indivíduos.

Sui generis é uma expressão em latim com significado “de seu próprio gênero” ou “de espécie única”. Representa a ideia de unicidade, raridade e particularidade de algo ou alguma coisa. Quando se diz, no ramo filosófico, determinada coisa ser sui generis significa ser “especial”, ou seja, dotada de uma particularidade e peculiaridade não comparável a qualquer outra coisa. Continuar a ler

Desgoverno: Nem Estudo, Nem Trabalho, Nem Aposentadoria

A faixa etária adolescente de 14 a 17 anos representa 8,3% da força de trabalho de 105,250 milhões de pessoas. Nela há 44,5% de desocupação. Se ela estuda, está fora da força de trabalho (População Não Economicamente Ativa), não? Está incluída na taxa de desocupação dela somente quem não estuda e nem trabalha? Estou em dúvida.

Dois anos de recessão, desde a volta da Velha Matriz Neoliberal, com a consequente crise no mercado de trabalho — a subutilização da força de trabalho quase dobrou do fim de 2014 (15,3 milhões pessoas) para o início de 2019 (28,3 milhões) –, fizeram crescer rapidamente o número de homens de 50 a 69 anos de idade no país sem ocupação: não trabalham nem procuram emprego, mesmo sem receber aposentadoria ou pensão.

O total de pessoas nessas condições estava em 1,843 milhão em 2017, 11% acima do ano anterior (189 mil pessoas a mais). O contingente representava 9,6% dos homens dessa faixa etária.

Esse fenômeno foi inicialmente identificado por um estudo das pesquisadoras Ana Amélia Camarano e Daniele Fernandes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Elas observam há anos a tendência desse grupo, batizado de “nem nem maduros“.

Os homens neste perfil “nem nem” representavam:

  • 4,2% da faixa etária em 1992;
  • 6,2% em 2005;
  • 8,3% em 2015;
  • 9,6% em 2017. Continuar a ler

Narrativas como Obras Criativas Essencialmente Humanas

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, comenta: prever o sucesso dos trabalhos criativos com o público é uma tarefa extremamente difícil, fundamentalmente relacionada ao desafio de sermos capazes de prever as taxas de contágio das narrativas.

Não observamos com precisão os processos mentais e sociais possíveis de criar contágio. Por exemplo, é amplamente sabido a previsão do sucesso dos filmes, antes de serem lançados, é bastante difícil (Litman, 1983).

Jack Valenti, ex-presidente da Motion Picture Association of America, disse:

“Com toda a experiência, com todos os instintos criativos das pessoas mais sábias em nossos negócios, ninguém, absolutamente ninguém pode lhe dizer o que um filme vai fazer no mercado… Não, até o filme se abrir em um teatro escuro e as luzes surgirem entre a tela e o público, você pode dizer esse filme estar com sucesso garantido.”

Por analogia, a razão pela qual os escritores extraem citações, especialmente as citações de tamanho de parágrafo, e as exibe – como Shiller acabou de fazer é muitas vezes para transmitir uma narrativa, para dar ao leitor um senso histórico de uma narrativa passada. Ela teve impacto e pode ter impacto novamente no leitor, se for repetido, assim como se foi redigido com perfeição.

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Religião, Violência e Loucura (por José Luís Fiori)

O meu anjo irá adiante de ti e te levará aos amoreus, aos heteus, aos ferezeus, aos cananeus, aos heveus e aos jebuseus, e eu os exterminarei. Não adorarás os seus deuses, nem os servirás; não farás o que eles fazem, mas destruirás os seus deuses e quebrarás as suas colunas.

Êxodo, 23, Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas, São Paulo, p.140.

Na segunda década do século XVI, o humanista cristão Erasmo de Roterdã sustentou um famoso debate teológico com Martim Lutero, sobre a “regra da fé”, ou seja, sobre o critério de verdade no conhecimento religioso (Popkin, R, H., “História do cetecismo de Erasmo a Spinoza”, Francisco Alvez. Rio de Janeiro, 2000, cap. 1).

Essa batalha não teve um vencedor, mas ajudou a clarificar a posição revolucionária de Lutero. Este rejeitou a autoridade do Papa e dos Concílios, e defendeu a tese: todo cristão deveria julgar por si mesmo o que fosse certo e o fosse errado no campo da fé.

Para Lutero, como para Calvino, a evidência última da verdade religiosa era a “persuasão” de cada um dos leitores das Escrituras. Esta “persuasão” era concedida aos homens pela “revelação” do Espírito Santo.

Contra este argumento de Lutero, Erasmo levantou uma aporia fundamental: se aceitássemos o argumento de Lutero, como poderíamos decidir entre duas leituras e interpretações diferentes de algumas passagens mais obscuras dos textos sagrados?

Como se poderia escapar da circularidade do raciocínio de Lutero? Ele considerava o critério da verdade religiosa a “persuasão interior” do cristão e, ao mesmo tempo, dizia esta mesma “persuasão” só poderia ser garantida pela “revelação divina”.

Uma “revelação” pessoal e intransferível não tem como ser confrontada com outra “revelação” igual e contrária. Isso caso não seja através do uso do poder e da força capaz de definir e impor:

1.     o que seja certo e

2.     o que seja errado,

3.     o que seja a ortodoxia e

4.     o que seja a heresia.

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