Mercados e Planejadores Imperfeitos: Baixe o Livro

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Eu aproveitei o mês de maio, em quarentena, para ler livros “na fila”, estudar áreas de conhecimento fora da minha especialidade, pesquisar dados dos relatórios do Banco Central do Brasil e do IBGE, resenhar o debate público em torno da adoção de uma nova política econômica com a política monetária coordenada com a política fiscal. Resultou em um livro eletrônico de 315 páginas. Faça seu download no fim deste artigo.

Este livro se compõe de cinco capítulos. Inicialmente, planejei outra narrativa. Como os planejadores não são perfeitos, na revisão, percebi seus temas atenderem outro plano: buscar criatividade com a mistura transdisciplinar. Não à toa, cada um dos cincos capítulos é referente a uma área de conhecimento necessária para entender a complexidade sistêmica: Sociologia, Política, Psicologia, Finanças e Economia.

Fiz uma releitura, questionando cada uma dessas áreas a partir da ausência de atores-chave em suas narrativas. Entre os Indivíduos e a Sociedade, onde se colocam o Mercado e o Estado? Entre o Liberalismo de Esquerda e o Neoliberalismo, onde se coloca a Comunidade? Entre a Psicologia e o Dinheiro, onde se colocam a Sociedade e o Sistema Financeiro? Entre as finanças e o mercado de bens e serviços, como se coloca a sociedade brasileira? Entre as Finanças Públicas e as Finanças Corporativas, onde se colocam as Finanças Pessoais?

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PIB: Correlação com Consumo das Famílias

O Produto Interno Bruto (PIB) apresentou retração de 1,5% no primeiro trimestre de 2020 (comparado ao quarto trimestre de 2019), na série com ajuste sazonal. Na comparação com igual período de 2019, o PIB teve variação negativa de 0,3%. No acumulado nos quatro trimestres, terminados em março de 2020, registrou aumento de 0,9%, comparado aos quatro trimestres imediatamente anteriores.

Período de comparação Indicadores
PIB AGROPEC INDUS SERV FBCF CONS. FAM CONS. GOV
Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal) -1,5% 0,6% -1,4% -1,6% 3,1% -2,0% 0,2%
Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior (sem ajuste sazonal) -0,3% 1,9% -0,1% -0,5% 4,3% -0,7% 0,0%
Acumulado em quatro trimestres / mesmo período do ano anterior (sem ajuste sazonal) 0,9% 1,6% 0,7% 0,9% 3,0% 1,3% -0,4%
Valores correntes no 1º trimestre (R$) 1,8 trilhão 119,7 bilhões 305,5 bilhões 1,1 trilhão 285,1 bilhões 1,2 trilhão 343,5 bilhões
Taxa de investimento (FBCF/PIB) no 1° trimestre de 2020 = 15,8%
Taxa de poupança (POUP/PIB) no 1° trimestre de 2020 = 14,1%

Em valores correntes, o PIB no primeiro trimestre de 2020 totalizou R$ 1,803 trilhão, sendo R$ 1,538 trilhão referente ao Valor Adicionado (VA) a preços básicos e R$ 265,0 bilhões aos Impostos sobre Produtos líquidos de Subsídios.

No primeiro trimestre de 2020, a taxa de investimento foi de 15,8% do PIB, acima da observada no mesmo período de 2019 (15,0%). O material de apoio das Contas Nacionais Trimestrais está à direita desta página.

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Processo de Individualização da Sociedade

Norbert Elias no livro A Sociedade dos Indivíduos, publicado em 1939, afirma:  “todo indivíduo nasce em um grupo de pessoas já existente antes dele. Por natureza, precisa de outras pessoas existente antes dele para poder crescer.”

Uma das condições fundamentais da existência humana é a presença simultânea de diversas pessoas inter-relacionadas. Se, para simbolizar nossa própria autoimagem, precisamos de um mito de origem, Elias (1939) revê o mito tradicional: no começo, havia não uma única pessoa, mas diversas pessoas!

Cada pessoa parte de uma posição única em sua rede de relações e atravessa uma história singular até chegar à morte.  Mas as diferenças entre os rumos seguidos por diferentes indivíduos, entre as situações e funções passadas por eles no curso de sua vida, são menos numerosas nas sociedades mais simples em relação às complexas. O grau de individualização dos adultos nestas últimas sociedades é muito maior.

Sem dúvida, as pessoas diferem em suas constituições naturais. Mas a constituição trazida por cada um consigo ao mundo, e particularmente a constituição de suas funções psíquicas, é maleável.

O recém-nascido não é mais além do esboço preliminar de uma pessoa. Sua individualidade adulta não provém, necessariamente e por um caminho único, daquilo percebido como suas características distintivas, sua constituição especial.

A constituição característica de uma criança recém-nascida dá margem a uma grande profusão de individualidades possíveis. O modo como essa forma realmente se desenvolve nunca depende exclusivamente de sua constituição, mas sempre da natureza das relações entre ela e as outras pessoas.

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Antinomia no Pensamento entre o Psicológico e o Sociológico

Norbert Elias, no segundo tópico do livro “A Sociedade dos Indivíduos” (1939), afirma: o que nos falta são modelos conceituais e uma visão global mediante os quais possamos tornar compreensível, no pensamento, aquilo vivenciado por nós diariamente na realidade.

Necessitamos compreender de qual modo um grande número de indivíduos compõe entre si algo maior e diferente de uma coleção de indivíduos isolados: como eles formam uma “sociedade” e como sucede a essa sociedade poder modificar-se de maneiras específicas. Ela tem uma história a seguir um curso não pretendido ou planejado por qualquer dos indivíduos componentes dela.

A junção de muitos elementos individuais forma uma unidade, cuja estrutura não pode ser inferida de seus componentes isolados. Não se pode compreender a estrutura inteira pela contemplação isolada de cada um dos componentes.

Tampouco se pode compreendê-la pensando na sociedade como uma unidade somatória, uma acumulação de indivíduos. Por certo não nos leva muito longe fazer uma análise estatística das características de cada indivíduo e depois calcular a média delas.

A teoria da Gestalt ensinou-nos: o todo é diferente da soma de suas partes. Ele incorpora leis de um tipo especial, as quais não podem ser elucidadas pelo exame de seus elementos isolados.

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Crescimento da Pobreza Brasileira

Em 2019, havia 209,5 milhões de pessoas residentes no País, ante 197,7 milhões em 2012. Do total de pessoas residentes no Brasil em 2019, 131,2 milhões (62,6%) possuíam algum tipo de rendimento.

Em 2019, o contingente de pessoas com rendimento de trabalhos correspondia a 44,1% da população residente (92,5 milhões). Por sua vez, 25,1% dos residentes (52,7 milhões) possuíam algum rendimento proveniente de outras fontes em 2019.

O Brasil tinha 17,2 milhões domicílios com moradores sem renda do trabalho, o que correspondia a 23,5% dos lares brasileiros. Os números são recordes da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. Naquele ano, correspondia a 18,2% dos domicílios. Continuar a ler

Vai acabar, vai acabar o regime militar!

Na frente ampla para conter o presidente Jair Bolsonaro, objetivos eleitorais não podem ser colocados e a articulação precisa ir muito além da esquerda. César Felício e Daniela Chiaretti (Valor, 25/05/2020) entrevistaram o cientista político André Singer, membro da Comissão Arns, professor da USP e ex- secretário de comunicação no governo Lula, é crucial que os interessados em um impeachment do presidente Bolsonaro se aproximem de setores que se afastaram do bolsonarismo.

“Existe muito ressentimento, mas objetivos mais altos interessam a todos. Neste momento exato o desafio é envolver o presidente da Câmara”, disse, referindo-se ao deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A frente ampla se justifica, na opinião de Singer, pelo fato de ele enxergar a permanência de Bolsonaro no poder como uma ameaça à democracia. Acredita que o Brasil vive uma etapa do que o cientista político Adam Przeworski chama de “autoritarismo furtivo”, que se caracteriza pelo solapamento das instituições por dentro, sem ruptura do Estado de Direito, de maneira lenta.

“Existem núcleos de resistência ao presidente dentro das instituições, mas o fato é que Bolsonaro lentamente vai dissolvendo os contrapoderes. A polêmica sobre a interferência na Polícia Federal mostra isso”, disse. E explicou: no fim de tudo, Bolsonaro conseguiu trocar o superintendente na Polícia Federal, como queria. E sua aproximação com o Centrão abalou a autonomia de ação de Maia.

Para Singer, ao contrário do que aconteceu durante os impeachment de Fernando Collor e Dilma Rousseff, no caso de Bolsonaro o vice-presidente é um elemento complicador. Hamilton Mourão desperta preocupação como alternativa de poder, após a publicação de artigo no jornal “O Estado de S.Paulo” em que criticou todas as frentes que opõem resistência aos planos do presidente.

Singer interpreta o comportamento de Bolsonaro em meio à crise da pandemia como análogo ao do presidente americano Donald Trump. Ambos estariam buscando se livrar do peso político da depressão econômica provocada pela catástrofe sanitária. Ao romper o diálogo com a classe científica, tentam transferir o ônus da paralisia produtiva para a oposição.

A seguir, os principais tópicos da conversa por videoconferência que Singer concedeu ao Valor: Continuar a ler