Post Que Conta a Criação do Paraíso

No livro “Terra papagalli”, coautoria de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (1a. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2013), o narrador Cosme Fernandes, Barão de Cananeia, conta como se tornou o primeiro expoente da casta dos mercadores de escravos na Terra dos Papagaios, futuramente denominado Brasil. Por suas lições econômicas – e religiosas – reproduzo abaixo seu interessante depoimento, mantendo seu peculiar linguajar e sua esperta autoindulgência.

“Quando Estebanillo Delgado [comandante de armada castelhana cuja nau ia no rumo das terras meridionais] partiu, disse que havia gostado de fazer negócio comigo e que falaria de mim a todos os navegantes que fossem à Terra dos Papagaios. Falei que a troca havia sido somente a solução de um problema [dificuldade de manter a vigilância sobre os 52 prisioneiros Tupinambás que iriam ser devorados] e que não pensava em transformar aquilo num comércio, mas ele me respondeu: “Não sejas tolo, ó Bacharel, deve haver mais gentios por esses matos que grãos de areia nessa praia. Podes ficar rico vendendo esses prisioneiros.” Continue reading “Post Que Conta a Criação do Paraíso”

A Intelligentsia e A Política

Raymond Aron, no livro “O Ópio dos Intelectuais” (1955), afirma que, quando observamos as atitudes dos intelectuais em Política, a primeira impressão é a de que elas se parecem com as dos não intelectuais. A mesma miscelânea de informações incompletas, preconceitos tradicionais e preferências mais estéticas do que racionais se manifesta tanto nas opiniões de professores ou escritores quanto nas de comerciantes ou industriais.

Certo romancista célebre persegue com o seu ódio a burguesia bem pensante, da qual ele provém. Outro, apesar de sua filosofia idealista ser incompatível com o materialismo dialético, se sente atraído, com quinze anos de atraso, pelo sovietismo, como foi o caso, em um momento ou outro, de quase todos da esquerda.

Quando se trata de seus interesses profissionais, os sindicatos de médicos, professores ou escritores não reivindicam em estilo muito diferente do dos sindicatos operários. Os quadros defendem a hierarquia, os diretores executivos da indústria frequentemente se opõem aos capitalistas e aos banqueiros. Os intelectuais que trabalham no setor público consideram excessivos os recursos dados a outras categorias sociais. Empregados do Estado, com salários prefixados, eles tendem a condenar a ambição do lucro.

As atitudes dos intelectuais se explicam também pela origem social de cada um. Na França, basta comparar o clima nas Faculdades – tanto entre os professores quanto entre os estudantes – para se convencer de tal fato. A Ecole Normale Supérieure [Escola Normal Superior] é de esquerda ou de extrema esquerda, o Institut d’Études Politiques [Instituto de Estudos Políticos], com exceção de uma minoria, conservador ou moderado. O recrutamento dos estudantes tem certamente alguma influência nisso.

Nas universidades fora de Paris, cada faculdade tem a sua reputação própria e, em geral, as de Medicina e de Direito passam como sendo “mais à direita” do que as de Letras e de Ciências: nessas e naquelas, o meio no qual se originam os professores e o nível de vida que têm, guardam alguma relação com as opiniões políticas de uns e outros. Continue reading “A Intelligentsia e A Política”

Liber Monstrorum de Diversis Generibus (por Cosme Fernandes)

No livro “Terra papagalli”, coautoria de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (1a. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2013), o narrador Cosme Fernandes, judeu “cristão-novo” – e degredado por isso mesmo – tira “lições cristãs” para seu interlocutor até dos animais da Terra dos Papagaios.

Intróito

Sendo o Criador infinito em saber e poder, não poderia se contentar em criar umas poucas alimárias sem variar-lhes as formas, as cores e as maneiras, e por isso as pôs nesta Terra de tantos modos quantos são as estrelas que há no céu.

Muitos homens tentaram juntar as mais diversas criaturas moldadas pelo Soberano em livros que se chamam bestiários, e a eles quero me juntar. (…)

Mas, como nenhum desses valorosos senhores esteve na Terra dos Papagaios, é este um bestiário diferente de todos os já feitos, pois não descreverei aqui os conhecidos e comuns unicórnios, grifos e sereias, que todos já viram ao menos em desenho quando não em pêlo, mas sim as principais e inéditas criaturas que vi nestas paragens, que não existem em nenhum outro sítio da Ásia, África ou mesmo do inferno.

Fique então o leitor com estes seres bizarros e únicos, com os quais temos muito o que aprender, sabendo que posso jurar e tresjurar que tudo o que aqui está é tão verdade quanto eu chamar-me Cosme Fernandes e vós serdes quem sois.” Continue reading “Liber Monstrorum de Diversis Generibus (por Cosme Fernandes)”

Distribuição das Ideias entre os Partidos: os Intelectuais e a Pátria

Raymond Aron, no livro “O Ópio dos Intelectuais” (1955), afirma que os termos com os quais é pensada a Política vêm de uma tradição própria de cada nação. Em todos os países do Ocidente se encontram as mesmas doutrinas ou os mesmos conglomerados ideológicos: conservadorismo, liberalismo, catolicismo social, socialismo.

Mas a distribuição das ideias entre os partidos varia. Muitas vezes, aliás, as ideias passam de um partido para outro. Os partidos de direita foram pacifistas, hostis ao “ir até o fim” em 1815, em 1840 e em 1870. O patriotismo revolucionário era grandiloquente e belicoso. A esquerda só se tornou pacifista e a direita nacionalista no final do século XIX. As posições da direita e da esquerda, em política externa, frequentemente se invertem. Diante do hitlerismo, a tendência à omissão e à colaboração esteve com a direita. Diante do stalinismo, esteve com a esquerda.

As metas políticas e os fundamentos filosóficos não são os mesmos. O liberalismo econômico – livre-comércio, não intervenção do Estado na produção e no comércio – esteve mais ligado ao conservadorismo social na França do que na Inglaterra e serviu mais para paralisar a legislação social do que para liquidar as empresas industriais ou agrícolas mal adaptadas.

Ignorava-se, do outro lado do Canal da Mancha, a dissociação da democracia e do liberalismo, do Parlamento e da República. Ideias, talvez análogas nas suas consequências, eram elaboradas na Inglaterra em um vocabulário derivado de uma Filosofia utilitarista, na França em termos de um racionalismo abstrato, com uma interpretação jacobina dos direitos humanos e, enfim, em uma linguagem de tradição hegeliana ou marxista.

Há ainda outro viés pelo qual os intelectuais se ligam à comunidade nacional: eles vivem com particular acuidade o destino da pátria. A intelligentsia alemã do Império Guilhermino era, na sua imensa maioria, leal ao regime. Os universitários, que ocupavam lugar elevado na hierarquia do prestígio mais ainda do que na do dinheiro, não eram nada revolucionários. Salvo algumas exceções, mantinham-se indiferentes à questão do regime, se monárquico ou republicano, que tanto apaixonava os seus colegas franceses. Continue reading “Distribuição das Ideias entre os Partidos: os Intelectuais e a Pátria”

Pode ser a gota d’água

O Editorial do jornal Valor (15/01/18), assumido plenamente pelo Grupo Globo, dita a aversão à política, comungada pela maioria dos brasileiros, iletrados ou não, já no seu título: “Pré-campanha presidencial exibe o pior da política”. Em vez de exibir um debate público pluralista com a expressão das diversas posições ideológicas em defesa explícita de seus interesses concretos, como se faz em países mais civilizados, a mídia tupiniquim continua atuando como PIG (Partido da Imprensa Golpista).

Aliás, explicita cada vez mais seu partidarismo venal, isto é, que pode ser vendido, que é vendável, que se corrompe por dinheiro, que é receptivo a suborno e corrupto. Ela apoia somente os interesses da casta dos mercadores, seus grandes patrocinadores, seja através de publicidade em TV, jornais, revistas, web, etc., seja via assinaturas. Ao ser assinada, vista e lida por poucos, despreza cerca de 36% dos eleitores que optam por votar no candidato mais popular, Lula, criminalizando-o, torcendo contra ele e distorcendo os fatos ou as provas legais.

Um dos resultados desse desprezo por mais de ⅓ da opinião pública que se colocam à esquerda, estimando que ⅓ se posicionam à direita e o ⅓ restante não se definem, política ou ideologicamente, pode ser visto abaixo. A esquerda abandona a mídia brasileira — e era fica seguida mais por direitistas.

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Terra Papagalli: Narração para Preguiçosos Leitores da Luxuriosa, Irada, Soberba, Invejável, Cobiçada e Gulosa História do Primeiro Rei do Brasil

Eu me diverti muito com a leitura de “Terra papagalli”, livro com coautoria de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (1a. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2013). Ai, que preguiça… Balançar em uma rede e ler a História do Primeiro Rei do Brasil!

Spoiler é quando algum blog ou alguém revela fatos a respeito do conteúdo de determinado livro, filme, série ou jogo. O termo vem do inglês, mais precisamente está relacionado ao verbo “To Spoil”, que significa estragar. Em uma tradução livre, spoiler faz referência ao famoso termo “estraga-prazeres”.

Eu não farei aqui spoiler quando contar qual é o ponto-de-chegada do livro: a nossa esperta/malandra cultura nacional. Mostra como ela emerge desde a conquista do território pelos colonizadores portugueses e a matança e/ou escravização dos nativos para a casta dos mercadores se locupletar. Toda ela vai resultando das interações do degredo mandatório dos judeus por parte da casta dos aristocratas governantes portugueses com o apoio dos sábios sacerdotes da Santa Madre Igreja Inquisitorial e o reforço violento da casta dos guerreiros.

Na Era de 1535, Cosme Fernandes, dito Bacharel da Cananeia, conclui sua narrativa da seguinte forma. “E daquela terra que hoje chamam Brasil, esquecendo o nome que lhe deram seus primeiros moradores [Terra Papagalli], digo que pouco proveito se pode tirar dela, porque vem se povoando com homens cobiçosos. É isto um grande mal, porque é como um Éden e penso que Deus nos fez vir até ela para que fizéssemos uma nação diferente de todas as outras, porém, segundo a coisa se abala, está bem parecida com a nossa, onde reinam a burla, a roubaria e mais pode quem é mais velhaco.

E desta minha vida naquelas terras deixo-te um último conselho, porque não há nenhum proveito em devorar muitos fatos, que são como a comida crua, sem acrescentar a eles uma lição moral, que é como o tempero que lhe dá gosto”. O narrador dita então o “Décimo Mandamento Para Bem Viver na Terra dos Papagaios” – e encerra a missiva.

Vale registrarmos seus Dez Mandamentos. Para chegar a eles, gradualmente, os autores recontam episódios da história inicial de nossa colonização, misturando personagens reais com fictícios, em uma narrativa irreverente e crítica. É escrita em “português de Portugal” rebuscado. É tão saborosa a escrita que parece que estamos escutando com sotaque lusitano o que lemos! Continue reading “Terra Papagalli: Narração para Preguiçosos Leitores da Luxuriosa, Irada, Soberba, Invejável, Cobiçada e Gulosa História do Primeiro Rei do Brasil”

Três Tipos de Críticas: Técnica, Moral, e Ideológica ou Histórica

Raymond Aron, em “O Ópio dos Intelectuais” (1955), continua analisando os perfis de intelectual. Escritor ou artista, o intelectual é o homem das ideias, cientista ou engenheiro, é o homem da ciência. Participa da crença no ser humano e na razão. A cultura que as universidades difundem é otimista, racionalista: as formas da vida em comum que se oferecem à observação parecem gratuitas, obra dos séculos e não expressão de uma vontade clarividente ou de um plano elaborado. O intelectual, cuja atividade profissional não exige a reflexão sobre a história, facilmente condena sem apelação “a desordem estabelecida”.

A dificuldade começa assim que deixamos de apenas condenar o real. Percebem-se logicamente três alternativas.

Pela crítica técnica, o intelectual se põe no lugar daqueles que governam ou administram, sugerindo medidas que atenuariam os males denunciados e aceitando as sujeições da ação, a estrutura imemorial das coletividades, eventualmente inclusive as leis do regime existente. A referência não é uma organização ideal, um futuro radioso, e sim resultados que se podem alcançar com mais bom senso ou boa vontade.

A crítica moral contrapõe a ideia, vaga, mas imperativa, de o que deveria ser àquilo que é. Recusam-se as crueldades do colonialismo, a alienação capitalista, a oposição entre senhores e escravos, o escândalo da miséria ao lado do luxo ostensivo. Mesmo que se ignorem as consequências dessa recusa e os meios de traduzida em atos, não se consegue deixar de proclamá-la como denúncia ou como um chamado, diante da humanidade indigna de si mesma.

A crítica ideológica ou histórica, enfim, vai contra a sociedade presente, em nome de uma sociedade futura, atribui as injustiças cuja visão ofende a boa consciência ao princípio da ordem atual – o capitalismo e a propriedade privada carregam no seu bojo a fatalidade da exploração, do imperialismo, da guerra – e traça o esboço de uma ordem radicalmente diferente, em que o homem cumpriria a sua vocação. Continue reading “Três Tipos de Críticas: Técnica, Moral, e Ideológica ou Histórica”