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Download: Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso.

Reuni resenhas da literatura recente de não-ficção postadas neste blog. São narrativas da crise mundial na atual transição histórica. Li e resumi 43 livros de autores estrangeiros — veja a bibliografia abaixo –, em geral publicados nos últimos anos, exceto os de Metodologia. Apresento as explicações sobre crise financeira, metodologia econômica, transição histórica devido à revolução tecnológica, consequências políticas vivenciadas e propostas políticas para evitar a atual polarização destrutiva. Continuar a ler

Mudança de Face da Economia Tradicional

Em “The Changing Face of Mainstream Economics”, escrito por David Colander, Ric Holt e Barkley Rosser (Middlebury College Economics Discussion Paper No. 03-27 – Department Of Economics – Middlebury College – http://www.middlebury.edu/~econ, November 2003), eles comentam: se alguém lê a literatura heterodoxa em economia hoje em dia, tem-se a impressão de a moderna economia mainstream é muito parecida com a economia de 50 anos atrás. Ela é chamada ainda deeconomia neoclássica” e é criticada da mesma forma como os economistas heterodoxos anteriores criticaram a economia mainstream dos anos 1950 ou 1960.

Neste artigo, os coautores argumentam muito desta crítica hoje estar anacrônica porque o pensamento econômico dominante mudou. Para eles, a economia está se afastando de uma adesão estrita à Santíssima Trindade – racionalidade, egoísmo e equilíbrio – para uma posição mais eclética de comportamento intencional, iluminado por interesse próprio e sustentabilidade. O artigo desenvolve essas ideias considerando a natureza desse processo de mudança e da dinâmica sociológica pela qual a profissão de economistas passa.

Para entender o argumento deles, é útil pensar na profissão como um sistema complexo. Os sistemas complexos não podem ser entendidos a partir dos primeiros princípios assumidos. Eles só podem ser entendidos através do processo de mudança subjacente a eles. Da mesma forma, a profissão de economista pode ser melhor entendida pelo processo de mudança caracterizadora dela.

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Comportamento individual e agregado: de formigas e homens

Alan P. Kirman é autor do ensaio, “Comportamento individual e agregado: de formigas e homens”. Consta da coletânea The evolution of economic institutions : a critical reader (edited by Geoffrey M. Hodgson; Edward Elgar; 2007).

Ele afirma: os principais avanços na ciência consistem frequentemente em descobrir como os fenômenos da macro escala reduzem a seus constituintes em microescala. Estes últimos são frequentemente contra intuitivos conceitualmente, invisível observacionalmente e problemático experimentalmente.

O conhecimento dos níveis moleculares e celulares é essencial, mas por si só é não é suficiente, rico e completo. Efeitos complexos, como representar o movimento visual, são o resultado da dinâmica das redes neurais.

Embora as propriedades de rede sejam dependentes das propriedades dos neurônios na rede, eles não são, no entanto, idênticos às propriedades celulares, nem combinações simples de propriedades celulares. Interação de neurônios em redes é necessário para efeitos complexos, mas é dinâmico, não um simples caso de boneco de corda.

Há duas visões concorrentes de como a economia funciona.

Uma dela é matematicamente rigorosa e internamente consistente. Nos dá uma estrutura dentro da qual podemos construir modelos e provar resultados e é claramente o paradigma dominante no momento. Suas desvantagens são: não ter hipóteses testáveis, ser pobre em prever e simplesmente não parece ser muito realista.

A outra visão está longe de ser completa, muitas vezes envolve técnicas de empréstimo de outras disciplinas de uma maneira ad hoc e não produz, em geral, teoremas elegantes. No entanto, ele fornece mais visão realista da economia e oferece a promessa de ser testável contra dados empíricos. Continuar a ler

Estado Mínimo: Erro do Ajuste Fiscal em Plena Recessão

Fábio Pupo (Valor, 22/05/19) informa: a União encerrou o primeiro trimestre registrando o menor patamar de investimentos em pelo menos 13 anos. O valor de R$ 6,2 bilhões de janeiro a março corresponde a 0,35% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual mais baixo para o período em toda a série histórica (com início em 2007). A queda é resultado da contenção de despesas do governo em meio à dificuldade de cumprir a meta fiscal do ano. O contingenciamento de recursos deve agravar o cenário.

Os números foram calculados com base nos mais recentes dados de investimento divulgados pelo Tesouro Nacional e pelos dados preliminares do PIB do Banco Central (BC). O indicador mostra a magnitude do corte de despesas promovido pelo Executivo federal nos últimos anos e, mais intensamente, nos últimos meses.

O percentual representa menos de um quarto do registrado no primeiro trimestre de 2014, ápice da série histórica para o período. O valor era de R$ 27,4 bilhões (considerando números atualizados), ou 1,48% do PIB no fim do período social-desenvolvimentista. Continuar a ler

Rendas Per Capita Comparadas no Tempo e no Espaço

Sergio Lamucci (Valor, 21/05/19) informa: o Brasil perdeu terreno em relação a outros emergentes nas últimas décadas, distanciando-se do nível de renda dos países desenvolvidos, em vez de se aproximar. Com o baixíssimo crescimento da produtividade, o PIB per capita brasileiro corresponde hoje a pouco mais de um quarto do americano. Em 1980, equivalia a quase 40%. Nesse período:

  • o PIB per capita do Chile passou de 27,4% para 41,5% do indicador dos EUA;
  • o da China, de 2,5% para 28,9%; e
  • o da Coreia do Sul, de 17,5% para 66%.

Os números levam em conta o critério de paridade do poder de compra (PPP, na sigla em inglês), com base em estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Armando Castelar diz: o Brasil está ficando mais pobre em termos relativos, na comparação com outros países. O país fica mais distante dos países de renda alta, como os EUA, em vez de ficar mais próximo. Nesse sentido, é um processo inverso ao desenvolvimento. “É um processo de subdesenvolvimento não em relação a si mesmo, mas em relação ao resto do mundo.” O critério de paridade de poder de compra busca eliminar as diferenças de custo de vida, facilitando a comparação entre os países.

Em 1980, o PIB per capita brasileiro era de US$ 11.372, equivalendo a 39% do americano. Em 2018, era apenas 26% maior do que em 1980. Os US$ 14.359 do ano passado equivalem a 25,8% do PIB per capita dos EUA. No mesmo período, o PIB per capita sul-coreano cresceu 623%, e o chileno, 189%. O indicador americano, mesmo partindo de um nível bem mais alto em 1980, aumentou 91% nesse intervalo.

O desempenho do PIB per capita brasileiro recente tem sido ainda pior. Nos últimos anos, o país sofreu uma gravíssima recessão, que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016, e a economia cresceu apenas 1,1% em 2017 e também em 2018. Depois de bater no pico de US$ 15.562 em 2014, o PIB per capita do Brasil recuou nos três anos seguintes, ficando praticamente estável no ano passado, quando subiu 0,4%. Continuar a ler

Oportunidades para Pesquisadores em Economia da Narrativa

Segundo Robert J. Shiller, em Narrative Economics, a Economia da Narrativa, quando foi praticada por estudiosos, teve uma má reputação. Em parte, pode ser devido ao fato de a relação entre narrativas e resultados econômicos ser provavelmente complexa e variável no tempo.

O impacto das narrativas sobre a economia é regularmente mencionado nos círculos jornalísticos, mas sem as exigências do rigor acadêmico. O impacto dos relatos jornalísticos das narrativas pode ter sido associado a previsões agressivas não comprovadas ou, muitas vezes, erradas. Mas o advento do big data e de melhores algoritmos de busca semântica pode trazer mais credibilidade ao campo.

A pesquisa em Narrativa Econômica já está a caminho de encontrar melhores métodos quantitativos para entender o impacto das narrativas na economia. A pesquisa textual é uma área pequena, mas em expansão na pesquisa econômica.

Uma busca no banco de dados de documentos de trabalho da NBER encontra menos de cem artigos com as palavras “análise textual”. A análise textual tem sido usada por economistas, por exemplo, para documentar:

  1. mudanças na afiliação partidária (Kuziemko e Washington, 2015);
  2. polarização política (Gentzkow et al. 2016); e
  3. notícias e movimentos especulativos de preços (Roll 1988; Boudoukh et al. 2013).

Mas muito mais poderia ser feito. A análise histórica poderia ser levada adiante em bancos de dados de diários pessoais, sermões, cartas pessoais, anotações de pacientes psiquiatras e mídias sociais.

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Debate sobre Microfundamentos do Macrosistema

O debate sobre microfundamentos, segundo Julie Zahle e Finn Collin, editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014), lida com a questão de saber se o nexo causal entre as reivindicações precisam de microfundamentos: as alegações causais holísticas devem ser complementadas por relatos de mecanismos subjacentes ao nível dos indivíduos?

Existem duas posições básicas sobre esta questão:

  1. Individualismo metodológico: as alegações causais do Holista devem ser complementadas por relatos dos mecanismos subjacentes ao nível dos indivíduos.
  2. Holismo metodológico: as alegações causais do Holista não precisam ser complementadas por relatos dos mecanismos subjacentes ao nível dos indivíduos.

Para obter uma melhor compreensão da disputa, é instrutivo começar por dizer uma pouco sobre a noção de alegações causais holistas. São aquelas em que tanto a causa como o efeito são descritos em termos holísticos.

Por sua vez, termos holistas são frequentemente especificados como descrições das propriedades estatísticas de um grupo como “alta taxa de alfabetização” ou “baixa taxa de suicídio”. Além disso, às vezes são considerados exemplificados por, por exemplo, termos como “universidade” ou “prisão” que se referem a organizações sociais. Continuar a ler

Empresas Não-Financeiras: Sem Desalavancagem Financeira

O ano de 2018 poderia ter sido o momento de uma retomada mais consistente do crescimento econômico. Não foi o que aconteceu e os balanços patrimoniais das empresas de capital aberto mostram as consequências disso:

  1. a melhora da rentabilidade foi tímida e muito desigual entre os setores,
  2. o endividamento permaneceu elevado e
  3. pouco se avançou a redução das despesas financeiras.

Esta Carta IEDI 927 analisa indicadores dos balanços de 318 grandes corporações não financeiras de capital aberto em 2018. As empresas foram agregadas de tal maneira que podemos avaliar o desempenho dos grandes setores da economia: indústria, serviços e comércio, isolando os efeitos de gigantes como Petrobras, Vale e Eletrobras.

De modo geral, a evolução foi mais favorável no segundo semestre de 2018 do que no primeiro semestre, quando a paralização dos caminhoneiros perturbou muito a produção e a distribuição de mercadorias.

Em boa medida a melhora esteve relacionada à vigência de patamares mais elevados dos preços de commodities e às mudanças na Petrobras. No agregado da amostra de empresas, a margem líquida de lucro saltou de 4,3% em 2017 para 7,6% em 2018. Excluídas as gigantes Petrobras, Vale e Eletrobras, a margem passou de 4,5% para 5,9%, retornando ao nível de 2014 (5,6%). Mas isso não ocorreu para todos.

Para a indústria (excluídas a Petrobras e a Vale), o quadro progrediu apenas parcialmente. A margem líquida de lucro subiu de 3,7% em 2017 para 4,6% em 2018, mas esse movimento não foi capaz de restaurar a rentabilidade aos patamares anteriores à crise recente. Em 2014 a margem tinha sido de 5,7%.

Além de modesto, este movimento positivo na indústria foi muito concentrado em poucos ramos, principalmente na extrativa e em alguns segmentos de insumos básicos. O grupo de bens de consumo não duráveis e semiduráveis, por sua vez, contribuiu negativamente para a recomposição da rentabilidade média do setor.

Quem apresentou, de fato, melhorias significativas na rentabilidade em 2018 foram as empresas dos setores de comércio e serviços. Na indústria, a lucratividade aumentou de maneira limitada, fazendo com que o endividamento e as despesas financeiras permanecessem fardos importantes. Esta é mais uma dimensão do pífio desempenho industrial, cuja produção física voltou ao vermelho desde o final do ano passado.

Para o agregado das empresas como um todo, o endividamento bancário manteve a tendência de crescimento em 2018, variando +6,7% e atingindo a cifra de R$ 1,5 trilhão, impulsionado, entre outros fatores, pela desvalorização do real do período, na faixa de 20%. A indústria, por sua vez, viu seu endividamento subir mais intensamente: +11% em relação a 2017, chegando a R$ 414,6 bilhões, quando excluídas as gigantes Petrobras e Vale. Continuar a ler