Bank 4.0: bancos em todos os lugares, nunca em agência bancária

O livro de autoria de Brett King, Bank 4.0: Banking Everywhere, Never at a Bank  (UK; John Wiley & Sons; 2019), trata do tema objeto de minha palestra no seminário INOVAÇÕES, TECNOLOGIAS E REGRAS DISRUPTIVAS NO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL, às 14:00-14:45 de hoje (dia 21 de novembro de 2019), no Centro de Convenções da Unicamp, promovido por FEBRAEC e UNICAMP. Intitulo a apresentação como “Fintechs e Funções do Sistema Bancário”.

O livro Bank 2.0 foi escrito por Brett King em 2009, quando o Mobile Banking (bancos em aplicativos de celular) começou a se tornar uma parte significativa do banco de varejo e logo após a internet ter ultrapassado todos os outros canais bancários para acesso diário. O Bitcoin havia acabado de ser lançado.

Betterment, Simple e Moven ainda não tinham sido anunciados e, de fato, FinTech ainda era um termo desconhecido para a maioria de nós. O Bank 2.0 foi uma simples exploração do fato de o comportamento do cliente estar evoluindo rapidamente como resultado da tecnologia. Isso estava criando um imperativo para a mudança dentro sistema bancário, o que era inegável.

Em 2012, a próxima grande novidade era o “celular bancário” [mobile banking]. Estava a caminho de superar a internet banking — e não havia mais discussão sobre se os bancos deveriam ter ou não um aplicativo móvel. A importância no dia-a-dia do uso da tecnologia para acessar o setor bancário estava clara, mas a maioria dos bancos ainda estava no modo evolutivo, onde o celular era considerado simplesmente um subconjunto da internet banking e a equipe de tecnologia ainda estavam implorando à Diretoria Executiva para obter um financiamento adequado. Não foi, de modo algum, uma batalha fácil.

No livro Bank 3.0, Brett King chegou à conclusão de ser possível ser um banco construído exclusivamente com base em tecnologia emergente. Como ele escreveu no Bank 3.0: “O setor bancário não é mais um algum lugar onde você vá, mas algo onde se faz operações financeiras”. O setor bancário estava saindo do domínio físico para o digital.

Isso aconteceu há mais de seis anos. “Este é um longo tempo entre drinks”, como se diz na Austrália. A razão do atraso em escrever a visão contida no livro Bank 4.0 foi simples: o futuro, para onde os bancos iriam, depois de toda a realização multicanal, ainda não estava claro. Foram necessárias algumas mudanças incríveis em inclusão financeira e adoção de tecnologia por meio de métodos bancários não convencionais para analistas como Brett King perceber ter havido uma mudança sistêmica no acesso financeiro e isso superaria os modelos tradicionais de bancos na próxima ou nas duas décadas seguintes.

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Polarização Política IV: Capitalismo de Competição para a Comunidade contra o Capitalismo de Compadrio entre Estado e Mercado

É necessária toda a oposição à esquerda abandonar o sectarismo e ter empatia com os possíveis aliados, entre os quais, os liberais clássicos – distintos dos neoliberais aliados com a extrema-direita brasileira. Para tanto, vale ler três livros lançados por professores atuais da Escola de Chicago. Seus títulos são inusitados e provocadores de curiosidade: “Capitalismo para o Povo” (2012); “Como salvar o Capitalismo contra os Capitalistas” (2014); “Terceiro Pilar: A Comunidade entre O Estado e O Mercado” (2019). O primeiro é de autoria do italiano Luigi Zingales, o segundo é de sua coautoria com o indiano Raghuram G.  Rajan, e o terceiro recém-lançado é só deste último.

Zingales afirma os benefícios conferidos pelo capitalismo de mérito reconhecido – em princípio, o norte-americano – não serem mais nem tão grandes nem tão difundidos como antes. Essa mudança enfraquece o apoio político à economia de mercado, mas o que mais prejudica o sistema de livre-mercado é a percepção de as regras não se aplicarem igualmente a todos, porque o sistema é fraudulento.

Essa frustração é semelhante ao sentido por muitas pessoas cada vez mais a respeito do sistema dos EUA como um todo: o jogo parece ser manipulado. As grandes corporações distorcem o funcionamento dos mercados em benefício próprio.

Lá como cá, há uma confusão intelectual entre um sistema pró-mercado e um sistema pró-negócios. Enquanto as duas agendas (Pro Market e Pro Business) coincidirem, encorajará o capitalismo de compadrio.

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Consciência Negra: Metade dos Alunos de Universidade Pública é Negra

Em 2018, no Brasil, os pretos ou pardos passaram a ser 50,3% dos estudantes de ensino superior da rede pública, porém, como formavam a maioria da população (55,8%), permaneceram sub-representados, por conta das diferenças de dimensões entre faixas etárias universitárias e as outras.

Mas, entre a população preta ou parda de 18 a 24 anos que estudava, o percentual cursando ensino superior aumentou de 2016 (50,5%) para 2018 (55,6%), mas ainda ficou abaixo do percentual de brancos da mesma faixa etária (78,8%).

Nesse mesmo período, o percentual de jovens de 18 a 24 anos pretos ou pardos com menos de 11 anos de estudo e que não frequentava escola caiu de 2016 (30,8%) para 2018 (28,8%). Esse indicador era de 17,4% entre os brancos, em 2018.

No mercado de trabalho, os pretos ou pardos representavam 64,2% da população desocupada e 66,1% da população subutilizada. E, enquanto 34,6% dos trabalhadores brancos estavam em ocupações informais, entre os pretos ou pardos esse percentual era de 47,3%.

O rendimento médio mensal das pessoas brancas ocupadas (R$2.796) foi 73,9% superior ao da população preta ou parda (R$1.608). Os brancos com nível superior completo ganhavam por hora 45% a mais do que os pretos ou pardos com o mesmo nível de instrução.

A desigualdade também estava presente na distribuição de cargos gerenciais, somente 29,9% deles eram exercidos por pessoas pretas ou pardas.

Em relação à distribuição de renda, os pretos ou pardos representavam 75,2% do grupo formado pelos 10% da população com os menores rendimentos e apenas 27,7% dos 10% da população com os maiores rendimentos.

Enquanto 44,5% da população preta ou parda vivia em domicílios com a ausência de pelo menos um serviço de saneamento básico, entre os brancos, esse percentual era de 27,9%.

Pretos ou pardos são mais atingidos pela violência. Em todos os grupos etários, a taxa de homicídios dos pretos ou pardos superou a dos brancos. A taxa de homicídios para pretos ou pardos de 15 a 29 anos chegou a 98,5 em 2017, contra 34,0 para brancos. Para os jovens pretos ou pardos do sexo masculino, a taxa foi 185,0.

Também não há igualdade de cor ou raça na representação política, apenas 24,4% dos deputados federais, 28,9% dos deputados estaduais e 42,1% dos vereadores eleitos eram pretos ou pardos.

Esses dados são do estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Ele faz uma análise das desigualdades entre brancos e pretos ou pardos ligadas ao trabalho, à distribuição de renda, à moradia, à educação, à violência e à representação política. Acesse a publicação completa e o material de apoio para mais informações:

 

 

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Ideias de Karl Polanyi para uma Frente Ampla Progressista

O ex-presidenciável do PDT Ciro Gomes concedeu ao El País (14/11/19) uma entrevista onde anuncia alianças para as eleições de 2020 com PV, Rede e PSB, isolando o PT em outro polo. Em linguagem típica da direita, para se aproveitar ainda do prolongamento da onda antipetista, ele atribui a crise brasileira exclusivamente ao “lulopetismo” e suas “escolhas”. Na visão de Ciro, não existiria bolsonarismo, nem lavajatismo, sem o fanatismo pela figura de Lula e as decisões tomadas pelo ex-presidente.

Para sustentar seu ponto de vista, Ciro argumentou com base na fácil sabedoria ex-post. A história transcorrida provou, sem dúvida, a escolha de quadros para os governos entre 2003 e golpe de 2016 ter sido feita com base em alianças espúrias, seja com partidos apenas fiéis ao fisiologismo, seja com nomeação de quadros sem base no mérito individual, mas sim no compadrio e/ou favoritismo.

Quanto a isso, ele tem razão face às inúmeras traições, infidelidades, deslealdades e oportunismos. Um número muito grande de ministros “cuspiu no prato onde comeu”. Isso sem falar nos empresários beneficiados antes pela chamada “política de campeões nacionais” e depois por delações premiadas sob encomenda.

Diante dessa má nomenclatura, Ciro coloca Lula e a cúpula do PT em um polo oposto ao extremista de direita: o capitão. E tenta se apresentar como uma opção ao centro, disposto a conversar com outros partidos de esquerda e direita. Deixa de lado diferenças programáticas para superar tanto o bolsonarismo, quanto “o lulopetismo” – designação pejorativa, expressa na falida revista Veja e assumida pela direita. A ideia dele é isolar o maior partido da esquerda brasileira – e ser a alternativa de centro.

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Polarização Política III: Iluminismo, Valores Progressistas e Competição contra Moralismo, Conservadorismo e Compadrio

Uma das principais diferenças entre sinopse e resumo é a primeira normalmente ser escrita pelo próprio autor do texto ou obra em questão, o que não se verifica na maior parte das vezes no caso do resumo. Geralmente, a sinopse apresenta o título e o nome do autor, tipo de texto e a ideia principal do texto. Então, ela é diferente de uma resenha, pois não contém a interpretação e nem opinião do seu autor, é formada apenas com a opinião do verdadeiro escritor, muitas vezes parafraseadas.

George Lakoff publicou um livro – Don’t Tink of an Elephant! – há mais tempo (2004), mas continua atualíssimo para o debate público. Analisa a alternativa moral, uma moralidade mais tradicionalmente americana, um enquadramento por trás de tudo motivo de orgulho para os americanos. Para os democratas ganharem eleições, o partido deve apresentar uma visão moral clara para o país – uma visão moral comum a todos os progressistas.

Reenquadramento mental, diz Lakoff, é mudança social. Moldura mental é a maneira como raciocinamos, inclusive, o senso comum, o que seria o bom senso. Em eleição, adverte, os valores morais são mais importantes em lugar de qualquer questão particular.

Ele apresenta a Era do Mito Iluminista dos Liberais de Esquerda. O principal mito é este: “A verdade nos libertará. Se nós apenas dissermos às pessoas os fatos, porque as pessoas são seres basicamente racionais, todas elas chegarão às conclusões certas.”

Na realidade, as pessoas pensam sob forma de enquadramentos. Quando progressistas apenas confrontam conservadores com fatos, tem pouco ou nenhum efeito, pois não entendem como eles pensam.

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Crash à 1929 Anunciado por Juros Baixos e Especulação em Ações com Maus Fundamentos

O volume aplicado pelas pessoas físicas em produtos financeiros aumentou 8,4% neste ano e alcançou R$ 3,1 trilhões em setembro de 2019. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), a soma representa as posições de mais de 79 milhões de contas dos segmentos de varejo e de “private banking” das instituições financeiras do país.

O desempenho foi puxado pelo varejo de alta renda, com crescimento 14,3%, e pelo private banking, com 13,3%. Já o varejo tradicional apresentou recuo de 2,6% de dezembro de 2018 para cá.

De acordo com a entidade, essa queda está parcialmente associada ao reenquadramento de clientes feito por muitas instituições. O ajuste resultou na migração de investidores do varejo tradicional para o de alta renda. Os bancos definem seus critérios de segmentação nessas duas categorias. Por exemplo, o Personnalité do Itaú exige volume de negócios acima de R$ 100.000 para ser cliente no varejo de alta renda e R$ 10.000.000 para se tornar Private Banking.

No varejo, os fundos de investimentos tiveram o maior crescimento no ano, de 9,1%, liderados pelos multimercados e pelas carteiras de ações, com altas de 23,8% e 80,4%, respectivamente. Os fundos imobiliários tiveram aumento de 69%, enquanto a alocação direta em ações subiu 39,8%.

Os produtos mais conservadores, como poupança e CDB, registraram desempenhos inferiores na comparação com o ano anterior. Enquanto o CDB teve recuo de 0,1%, a poupança cresceu 3,2%. O resultado da caderneta foi impulsionado pela liberação do saque do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), indo direto para a poupança.

Enquanto uma parte imprudente da classe média brasileira especula na Bolsa de Valores de São Paulo, transitando da renda fixa para a renda variável, outra alternativa é especular com compra de dólar. Ele já alcança R$ 4,20 com o repatriamento de capitais estrangeiros — e a fuga de capital do Brasil isolado no mundo em função de suas rupturas diplomáticas.

Tal como antes de 90 anos atrás, com o baixo juros no mundo, há nova máxima em Wall Street. A Bolsa de Valores de Nova York iniciou a semana com recorde.

O mundo caminha para um ambiente onde os extremos do populismo se tornarão ainda mais radicais, e no qual haverá “uma ausência de efeitos das políticas monetárias”, segundo o bilionário Ray Dalio, em entrevista à rede americana CNBC. O co-presidente da Brigdewater Associates, maior “hedge fund” do mundo, com US$ 160 bilhões em ativos sob gestão, classificou o período no qual os mercados estão entrando como desafiador.

“Os bancos centrais globais não têm como baixar mais as taxas e vamos entrar em um período mais desafiador de uma batalha entre extremos no populismo. Será um ambiente capaz de provocar grande impacto nos mercados, com ausência de efeito da políticas monetárias e exacerbação de conflitos vistos no mundo.” Na avaliação do investidor, “estamos indo em direção a um ambiente como uma guerra”.

O gestor chamou novamente a atenção para os desequilíbrios gerados pela política de dinheiro fácil adotadas pelos BCs. “Os investidores estão inundados de dinheiro, comprando retornos muito baixos ou sonhos em lugar de lucros no mercado de ações”.

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Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI)

Danylo Martins (Valor, 05/11/19) informa: assim como a experiência com serviços sob demanda, como Netflix e Spotify, ou aplicativos de transporte, como Uber e 99, a indústria de meios de pagamento caminha para novas tecnologias  facilitadoras do processo de compra do consumidor. O uso de pulseira, anel, relógio e celular para realizar pagamentos por aproximação tem ganhado força. Ao mesmo tempo, o mercado avança na adoção das carteiras digitais (“wallets”) e em soluções de pagamentos instantâneos, cujo sistema deve ser lançado pelo Banco Central (BC) até o fim do próximo ano.

Será o fim do dinheiro? Ainda não dá para afirmar, mas o papel perderá participação nos próximos anos, conforme as previsões. No mundo, a expectativa é de o dinheiro passe a representar 17% das transações em pontos de venda em 2022, contra uma participação estimada de 31% em 2018, segundo pesquisa global da Worldpay from FIS. Na América Latina, a tendência é outra. Apesar da queda na participação — de 58% para 46% –, o dinheiro continuará como o meio mais utilizado, junto com cartão de débito e crédito.

Quando olhamos os pagamentos digitais, 60% ocorrem por meio de celular ou aplicativo. E o restante em outras mídias, como PC. Parte da explicação tem a ver com o anseio das novas gerações ou a população nativa digital. Essas pessoas querem soluções “on demand” e experiências imediatas, com preferência por serviços compartilhados. É uma mudança conceitual bastante relevante. O desafio passa por conseguir oferecer experiências em tempo real e com maior nível de personalização.

Além das mudanças no comportamento do consumidor, o setor de pagamentos também vê aumentar a concorrência, no Brasil e em outros países. Historicamente dominado pelos grandes bancos, o mercado começa a ganhar novos atores, como startups e empresas de outros setores interessadas em parte desse total. Não é para menos. A receita global de pagamentos tende a crescer a uma taxa anual de 5,5%, passando de US$ 1,5 trilhão neste ano para mais de US$ 2 trilhões até 2025, aponta estudo da Accenture. Continuar a ler