Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Inclusão Interrompida na Educação Superior

A tese de doutoramento de ANA LUÍZA MATOS DE OLIVEIRA, “Educação Superior brasileira no início do século XXI: inclusão interrompida?”, foi defendida no IE-UNICAMP em fevereiro de 2019. Sob orientação do Márcio Pochmann e coorientação do Pedro Rossi, colegas do IE-UNICAMP, eu me entusiasmei a lê-la logo de início, não só por ter sido escrito por talentosa pesquisadora, mas por conter 45 gráficos e 75 tabelas.

Aprendi com minha mentora, A Professora Maria da Conceição Tavares: – “Nunca diga nada a respeito da sociedade brasileira sem apresentar dados comprovantes do dito. É a maneira de superar os argumentos ideológicos dos adversários.” Depois, iniciando minha carreira profissional no IBGE, esta lição ficou sedimentada.

Historicamente, segundo a Ana Luíza, “o acesso à Educação Superior no Brasil foi altamente restrito à elite econômica, majoritariamente branca, das Unidades da Federação mais ricas. No entanto, entre 2002 e 2014, período de crescimento econômico e de políticas voltadas para a ampliação das instituições/vagas de educação superior e para a inclusão social, houve importantes mudanças nesse setor”.

Então, ela lança as perguntas-chaves a buscar respostas em sua pesquisa. Qual a extensão dessas mudanças? O Brasil avançou no sentido da “deselitização” da educação superior? Como as políticas públicas contribuíram para essas mudanças? Quais as perspectivas, considerando a reversão de parte dessas políticas?

Seu objetivo é analisar o perfil dos estudantes de graduação brasileiros em termos de renda, raça/cor e região, levando em conta as políticas públicas aplicadas no início do Século XXI (2001 – 2017).

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Narrativas da Causas de Grande Recessão de 2007-9

A figura acima mostra a frequência de aparecimento da frase “Grande Depressão” por ano. Para notícias e jornais (1900-2016, da ProQuest), é o número de artigos com essa frase como um percentual de todos os artigos daquele ano. Para livros (1900-2008, do Google Ngrams), é o número de ocorrências da frase (maiúscula) dividido pelo número total de palavras no banco de dados daquele ano, em porcentagem.

Segundo Robert J. Shiller, em Narrative Economics, a crise financeira mundial de 2007-2009 tem sido chamada de “Grande Recessão” como uma referência à “Grande Depressão” dos anos 1930. Certamente, a narrativa da Grande Depressão foi repentinamente colocada na atenção nacional como nunca antes, não desde os anos 1930, como mostra o gráfico acima.

A figura sugere muito mais atenção foi dada em 2009 para a “Grande Depressão” durante a Grande Depressão em si, embora deva-se ter cuidado para entender as pessoas ainda não a chamaram de Grande Depressão como aconteceu. Eles certamente tinham narrativas ligadas à Depressão, associadas a palavras incomuns a esse período. Por exemplo, “linha de apoio” é uma expressão cujo Google Ngrams mostra ter crescido rapidamente em uso nos livros de 1929 a 1934, e ter decaído de forma constante desde então.

O interesse na Grande Depressão em 2009 também é confirmado na contagem de pesquisas do Google Trends, embora não tão drasticamente quanto na figura acima. Isso não significa as pessoas estarem subitamente mais interessadas em Franklin Roosevelt ou The New Deal. As contagens mostram praticamente nenhum aumento no interesse por esses detalhes da história.

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Narrativas Econômicas (por Robert Shiller)

Narrative Economics by Robert J. Shiller (Cowles Foundation Discussion Paper No. 2069 – Cowles Foundation For Research In Economics – Yale University – http://Cowles.Yale.Edu/ January 2017), ganhador do Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2013, passou a ser uma referência para debate entre os economistas. É seu discurso presidencial proferido na 129ª reunião anual da American Economic Association, no dia 7 de janeiro de 2017, em Chicago.

Ele analisa a epidemiologia das narrativas relevantes para as flutuações econômicas. O cérebro humano sempre esteve muito sintonizado com as narrativas, factuais ou não, para justificar ações contínuas, até mesmo ações básicas como gastar em consumo ou investir. As histórias motivam e conectam as atividades a valores e necessidades profundamente sentidas. As narrativas “se tornam virais” e se espalham longe, até mesmo em todo o mundo, com impacto econômico.

A Depressão de 1920-21, a Grande Depressão dos anos 1930, a chamada “Grande Recessão” de 2007-9 e a controversa situação político-econômica atual são consideradas os resultados das narrativas populares de seus respectivos tempos. Embora essas narrativas sejam fenômenos profundamente humanos e difíceis de serem estudados de maneira científica, a análise quantitativa pode nos ajudar a entender melhor essas epidemias no futuro.

Por economia narrativa, Shiller quer dizer o estudo da disseminação e dinâmica de narrativas populares, as histórias, particularmente aquelas de interesse e emoção humanos, e como elas mudam através do tempo, para entender as flutuações econômicas. Continuar a ler

Disputa Ideológica entre o Individualismo Metodológico e o Holismo Metodológico

Voltando agora para uma descrição da disputa em si, Julie Zahle e Finn Collin, editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014), dizem haver poucos proponentes de forte holismo metodológico. Como resultado, o debate se desenrola principalmente entre individualistas metodológicos e holistas metodológicos fracos.

Como ambas partes concordam quanto às explicações individualistas deverem ser avançadas, individualistas colocam todos os seus esforços em mostrar que as explicações holísticas podem, e devem ser dispensadas, enquanto os holistas metodológicos fracos se concentram em mostrar as explicações holistas não podem e não devem ser dispensadas. Um sem número de argumentos foram oferecidos em apoio e contra essas posições.

Vale a pena registrar alguns pontos relacionados ao desenvolvimento do debate. Continuar a ler

Debate entre o Individualismo Metodológico e o Holismo Metodológico

Por que a economia europeia está em recessão? Por que a taxa de natalidade na Tanzânia recentemente subiu? E por que as revoluções tendem a ser seguidas por fomes?

O debate metodológico do individualismo-holismo, segundo Julie Zahle e Finn Collin, editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014), é sobre o foco apropriado das explicações científicas avançadas em resposta a questões como essas. Mais especificamente, diz respeito ao grau no qual as explicações científicas sociais podem (e devem) focar nos indivíduos e nos fenômenos sociais, respectivamente.

A discussão assume várias formas. Entre estas, destacam-se duas:

  1. o debate sobre dispensabilidade, e
  2. o debate sobre microfundamentos.

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Uso maciço do WhatsApp também na Eleição da Índia

Madhumita Murgia, Stephanie Findlay e Andres Schipani (Valor, 17/05/19) informam: na gigantesca eleição geral da Índia, com cerca de 900 milhões de eleitores, a ser completada neste domingo, o partido do premiê indiano, Narendra Modi, o Bharatiya Janata (BJP), está usando o WhatsApp para fazer uma das campanhas políticas digitais mais sofisticadas do mundo, contando com um enorme exército de voluntários.

A proliferação de smartphones aumentou significativamente o acesso à internet na Índia. Mais de 300 milhões de indianos estão agora no WhatsApp, o que torna o país, de longe, o maior mercado do aplicativo. O WhatsApp se tornou a arena central da eleição na Índia. Ela começou em 11 de abril de 2019.

O pleito indiano segue-se à desagregadora eleição no Brasil, na qual o candidato da extrema-direita, um obscuro capitão ignorante e desqualificado para o cargo presidencial, saiu vencedor. Ele foi ajudado, em parte, pela mídia provocada por uma suposta facada, em outra parte, por uma onda de boatos tóxicos e de desinformação, boa parte dos quais disseminados por meio do WhatsApp.

A Índia é o mais novo teste da capacidade do aplicativo de mensagens de moldar uma eleição, agora na maior democracia global.

O problema, evidentemente, não está na tecnologia, mas sim no uso dela por pessoas ignorantes e/ou mal-educadas. Se o aplicativo ajudou a unir famílias e amigos com uma ferramenta de comunicação barata, ele também se tornou um canal de divulgação de notícias falsas impossível de monitorar.

As pessoas intolerantes de extrema-direita encontraram seus pares e perderam a vergonha anterior, quando tinham um certo pudor em mostrar sua ignorância e seu anti-intelectualismo. Sem o anterior complexo de inferioridade, viram poderem ser maioria em uma eleição se unissem a ignorância e a má-fé. Continuar a ler

Dimensões das Narrativas Normal e Anormal

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, conta: o psicólogo Jerome Bruner enfatizou a importância das narrativas. Por sua análise, não devemos supor as ações humanas serem dirigidas em resposta a fatos puramente objetivos:

“Eu não acredito em alguém realmente encarar os fatos. Do ponto de vista de um psicólogo, não é assim de acordo com os fatos como as pessoas se comportam, como sabido de nossos estudos de percepção, memória e pensamento. Nossos mundos factuais são mais como armários cuidadosamente arrumados em lugar de uma floresta virgem inadvertidamente se entrou.”

Narrativas são construções humanas. São misturas de fato e emoção e interesse humano em outros detalhes estranhos. Todos formam uma impressão na mente humana.

Psiquiatras e psicólogos reconhecem a doença mental ser frequentemente uma forma extrema de comportamento normal, ou seja, uma perturbação estreita das faculdades mentais humanas normais. Assim, podemos aprender sobre as complexidades do processamento cerebral normal da narrativa humana, observando os fenômenos narrativos anormais. Os neurocientistas Young e Saver (2001) listaram algumas de suas formas variadas: narração travada, desajustamento, desnarração, confabulação.

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