Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Risco da Ruptura das Cadeias Globais de Valor

Martin Wolf (Valor, 24/06/2020) publicou artigo a respeito do risco da ruptura das cadeias globais de valor.

“Uma das coisas que essa crise nos ensinou, senhor, é que somos perigosamente dependentes de uma cadeia mundial de fornecimento para nossos medicamentos, como penicilina; nossos suprimentos médicos, como máscaras; e nosso

equipamento médico, como ventiladores”. Assim, Peter Navarro, um assessor influente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tirou lições da crise da covid-19 para a política comercial americana.

Esse ponto de vista é sedutor para os protecionistas. Mas está errado. A lição a tirar da crise é que é preciso estar melhor preparado. A autossuficiência em “produtos essenciais” não seria uma boa maneira de conseguir isso. Ao contrário, seria um erro custoso.

A possibilidade de importar aumenta o número potencial de fornecedores e o acesso a estoques excedentes também. A proteção, porém, concentra o risco no mercado interno, reduz a diversidade dos fornecedores potenciais e diminui concorrência e as economias de escala

Ataques às cadeias de fornecimento transfronteiriças não devem ser encarados isoladamente. As últimas previsões da Organização Mundial do Comércio (OMC) sugerem que o colapso do comércio agora poderia ser muito maior do que o que ocorreu em resposta à crise financeira de 2008. Seria muito prejudicial se os formuladores de políticas reagissem à queda acentuada das exportações de seus países com uma restrição às importações. No entanto, é isso que significa a “realocação” forçada das cadeias de fornecimento para mais perto dos países de origem. Isso seria mais um ataque ao comércio liberal.

A covid-19 provocou uma onda de restrições à exportação. Os produtos cobertos por essas proibições e restrições variam. Mas a maioria delas se concentrava em suprimentos médicos (máscaras e escudos faciais, por exemplo) e em produtos farmacêuticos e equipamentos médicos (ventiladores pulmonares, por exemplo).

Essas restrições são legais. Mas isso não as torna sensatas. Em uma coleção de ensaios sobre a covid-19 e as políticas comerciais, Richard Baldwin, do Graduate Institute de Genebra, e Simon Evenett, da Universidade de St. Gallen (Suíça), perguntam: “Os governos deveriam reagir às crises de saúde, econômicas e comerciais voltando-se para dentro?”. A resposta é: não. “Voltar-se para dentro não ajudará na luta atual contra a covid-19… O comércio não é o problema; ele faz parte da solução”.

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Repensando a Relação Estado-Empresas face à Comunidade

Mazzucato, Mariana, economista.

Mariana Mazzucato, professora de Economia da Inovação e Valor Público e diretora do UCL Institute for Innovation and Public Purpose, é autora de “The Value of Everithing: Making and Taking in the Global Economy”. Antonio Andreoni, é professor associado de Economia Industrial e diretor de pesquisas do UCL Institute for Innovation and Public Purpose, é professor associado visitante na South African Research Chairs Initiative, da Universidade de Joanesburgo.

Mariana Mazzucato e Antonio Andreoni (Valor, 29/06/2020) publicaram o artigo compartilhado abaixo.

“A crise da covid-19 e a recessão fornecem uma oportunidade única para repensarmos o papel do Estado, especialmente suas relações com as empresas. O antigo pressuposto de que o governo é um fardo para a economia de mercado foi desmistificado. Redescobrir o papel tradicional do Estado como um “investidor de primeira instância” – e não apenas um emprestador de última instância – tornou-se uma precondição à formulação eficaz de políticas na era pós-covid-19.

Felizmente, os investimentos públicos aumentaram. Enquanto os Estados Unidos adotaram um pacote de estímulo e resgate de US$ 3 trilhões, a União Europeia implementou um plano de recuperação de 750 bilhões (US$ 850 bilhões) e o Japão organizou uma ajuda adicional de US$ 1 trilhão para famílias e empresas.

Longe de ser um passo adiante no controle estatal da economia, os socorros condicionados provaram ser uma ferramenta eficiente para conduzir as forças produtivas dentro do interesse de objetivos estratégicos e amplamente compartilhados

Entretanto, para os investimentos levarem a uma economia mais saudável, resiliente e produtiva, dinheiro só não é suficiente. Os governos também precisam restabelecer a capacidade de desenhar, implementar e fiscalizar condicionalidades aos beneficiados, para que o setor privado opere de uma maneira mais propícia a um crescimento inclusivo e sustentado.

O apoio do governo às corporações assume muitas formas, incluindo subsídios diretos em dinheiro, isenções fiscais e empréstimos concedidos em condições favoráveis ou garantias do governo – sem mencionar o papel abrangente desempenhado pelos bancos centrais, que vêm adquirindo bônus corporativos numa escala maciça. Essa ajuda deveria vir com certas condições, como a exigência para que as empresas adotem metas de redução de emissões e tratem seus funcionários com dignidade (em termos de remuneração e condições de trabalho). Felizmente, essa forma de intervenção estatal não é mais um tabu. Continuar a ler

Pós-Golpe: Afundando em Poço sem Fundo

Sergio Lamucci (Valor, 22/06/2020) informa: a produtividade na economia brasileira caiu com força no primeiro trimestre deste ano, recuando 1,7% em relação ao mesmo período de 2019, a maior queda desde a baixa de 2,6% do quarto trimestre de 2015. A queda já reflete o impacto da pandemia da covid-19. Ela agravou o quadro de retração da produtividade total dos fatores (PTF) iniciado no começo de 2018, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

“A paralisação da economia decorrente da pandemia resulta em perdas imediatas na eficiência do processo produtivo, com consequente redução da PTF”, diz o economista Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV. “No Brasil, como as medidas de distanciamento social só começaram a ser implementadas na segunda quinzena de março, os efeitos da pandemia sobre a produtividade não foram plenamente captados no indicador do primeiro trimestre.” Para ele, a PTF terá mais uma queda forte no segundo trimestre, provavelmente maior que a do primeiro.

Medida da eficiência com que os fatores capital e trabalho se transformam em produção, a PTF tem registrado desempenho muito ruim no Brasil, apontando dificuldades para um crescimento a taxas mais altas de modo sustentado. Com o fim do bônus demográfico (o período quando a população em idade ativa cresce acima da população total), “a única forma de aumentar a renda per capita do Brasil nas próximas décadas será por meio da elevação da produtividade”, destacam, em nota, Veloso e os economistas Silvia Matos e Paulo Peruchetti, também pesquisadores do Ibre/FGV.

Na recessão do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016, a PTF teve um desempenho muito negativo, recuando em todos os 11 trimestres do período de retração econômica. Em 2017, a produtividade subiu, crescendo a uma média de 0,45% por trimestre. Em 2018, porém, o indicador voltou ao vermelho, e desde então já amargou nove trimestres consecutivos em queda.

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Perspectivas Péssimas segundo o FMI

Sérgio Tauhata (Valor, 26/06/2020) informa: o mercado financeiro e a economia real vivem um momento de desconexão, aponta o Fundo Monetário Internacional (FMI) em sua atualização do divulgada no dia 25 de junho [download abaixo]. De acordo com o diretor do departamento de mercado de capitais e monetário do órgão, Tobias Adrian, e do diretor associado Fabio Natalucci, uma reversão súbita do otimismo atual dos investidores diante de um agravamento da crise pode amplificar os riscos à retomada da atividade.

Os investidores têm mantido um grande apetite ao risco e “parecem estar apostando em um apoio forte e duradouro dos bancos centrais que irá sustentar uma rápida recuperação, ainda que os dados econômicos apontem para uma recessão mais profunda que a esperada”, avaliam. Os especialistas compararam a situação a um cabo de guerra entre mercados e o mundo real.

O problema, alerta a dupla, é as incertezas sobre o cenário da pandemia ainda estarem muito altas. Inúmeros fatores poderiam levar a uma frustração das expectativas de investidores, o que amplificaria os riscos à própria recuperação econômica após a pandemia, se ocorrer uma grande correção nos preços de ativos.

Segundo Adrian e Natalucci, “a recessão pode ser mais profunda e longa do que a antecipada atualmente pelos investidores”. Além desse cenário, os diretores do FMI alertam para uma eventual possibilidade de ocorrer uma segunda onda de infecções pelo coronavírus e, como consequência, trazendo mais medidas de contenção.

Tensões geopolíticas e uma disseminação de uma inquietação social em resposta ao aumento da desigualdade podem levar a uma reversão do atual sentimento dos investidores. “E finalmente, as expectativas sobre a extensão do suporte dos BCs globais podem se revelar excessivamente otimistas, levando os investidores a reavaliar o apetite e a precificação do risco.”

Com o otimismo injetado pelos BCs globais, que já expandiram os balanços em mais de US$ 6 trilhões, o mercado acionário voltou a passar por um rali, após as fortes quedas de fevereiro e março. Segundo os economistas do FMI, os níveis de preços voltaram aos vistos em janeiro, enquanto os spreads de crédito reduziram significativamente.

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Facebook/WhatsApp X BCB-PIX

Talita Moreira e Flávia Furlan (Valor, 25/06/2020) informam: o Banco Central (BC) viu danos potenciais à concorrência com a associação entre o poder de fogo do WhatsApp e empresas de peso no setor de pagamentos. Na visão do regulador, o serviço já nasceria gigante e poderia prejudicar o desenvolvimento de fintechs capazes de desafiar os nomes tradicionais do mercado.

Na noite do dia 23/06/20, o BC suspendeu o serviço de pagamentos por meio do aplicativo de mensagens controlado pelo Facebook, lançado na semana anterior. O acordo se apoiava na infraestrutura de cartões e envolvia a credenciadora Cielo, as bandeiras Visa e Mastercard e os emissores Banco do Brasil (BB), Nubank e Sicredi.

A reação imediata de parte de O Mercado foi ver na atitude do regulador um entrave à inovação e uma defesa dos grandes bancos, mas o objetivo é o oposto, de acordo com fonte próxima ao BC. O maior problema, afirma, é uma “big tech” se unir a agentes já consolidados no mercado, formando um arranjo de pagamentos com enorme vantagem competitiva em relação aos demais participantes.

Outro ponto a incomodar o BC foi o anúncio da parceria sem ela ser formalmente apresentada à Autoridade Monetária. O regulador soube do lançamento por meio de um post do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, na rede social. Segundo a fonte, o BC sabia de um acordo para transferências instantâneas envolvendo Cielo e Visa, mas não sabia que envolvia o WhatsApp e que tinha a participação de poucas empresas.

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ITAÚ X XP: Zé com Zé

Tássia KastnerJulio Wiziack (FSP, 29/06/20) informam: o colete de nylon, símbolo da dura disputa travada na semana passada entre XP e Itaú, é também uma espécie de uniforme do mercado financeiro, que veste 8.295 agentes autônomos de investimento em atuação no país. Cerca de 7.000 deles são vinculados à XP.

Esse exército ainda é considerado pequeno para a corretora, o que ajuda a contar uma segunda parte da história por trás dos ataques entre as duas instituições financeiras, que vai além da queda de braço pelo dinheiro dos clientes.

Quando em 2018 a XP anunciou ter a ambição de chegar a R$ 1 trilhão em ativos sob custódia (está em R$ 412 bilhões), afirmou que precisaria reunir 10.000 agentes autônomos, um exército com coletinhos, capazes de captar recursos antes investidos em bancos.

Post patrocinado do Itaú faz piada com coletes conhecidos como uniforme da Faria Lima
Post patrocinado do Itaú faz piada com coletes conhecidos como uniforme da Faria Lima Continuar a ler

Endividamento de Risco

Estevão Taiar (Valor, 30/06/2020) informa: era relativamente baixo o percentual, de pessoas físicas chegaram às vésperas da pandemia com uma situação de endividamento de risco. Depois, o quadro financeiro das famílias pode ter se tornado ainda mais delicado. De acordo com estudo do Banco Central (BC) com download abaixo, 4,6 milhões de pessoas tinham endividamento de risco em dezembro do ano passado. O número, segundo o Sistema de Informação de Crédito (SCR), representa 5,4% dos 85 milhões de brasileiros com empréstimos abertos.

O diretor de relacionamento, cidadania e supervisão de conduta do BC, Maurício Moura, admite a possibilidade de piora da situação desde o início da pandemia. Ele destaca, por exemplo, que o índice de inadimplência das pessoas físicas passou de 5% em dezembro de 2019 para 5,5% em maio de 2020. Mesmo assim, evita traçar cenários mais precisos a respeito de como esse quadro pode ter mudado desde o início da pandemia. “Há alguma mudança vinda com a pandemia, mas ainda é cedo” para uma avaliação mais detalhada, afirma.

São consideradas pessoas com endividamento de risco aquelas atendedo, simultaneamente, a dois ou mais dos seguintes critérios:

  1. inadimplência (atraso de mais de 90 dias);
  2. exposição concomitante a cheque especial, crédito pessoal não consignado e rotativo do cartão;
  3. comprometimento de renda acima de 50%; e
  4. renda disponível abaixo da linha da pobreza após o pagamento de dívidas. Continuar a ler

Crédito Dirigido pelo Demandante, Mas Avaliado pelo Ofertante

Arícia Martins (Valor, 26/06/2020) informa: parte significativa das empresas aderiu as medidas do governo para cortar salários, suspender contratos e adiar o pagamento de impostos, mas o uso das linhas de crédito de emergência não atingiu seu potencial. É o que mostra levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) com empresários que participam das sondagens de confiança da entidade.

Na quarta rodada do quesito especial sobre o impacto da covid-19 nos negócios, o Ibre/FGV ouviu 3,3 mil companhias em junho. Desta vez, o questionário abordou o acesso aos programas governamentais para conter os efeitos econômicos da pandemia e com que finalidade as medidas foram adotadas. Os resultados foram antecipados ao Valor.

A redução temporária de salários e jornada de trabalho permitida pela Medida Provisória 936 foi a modalidade mais importante para o varejo ampliado, mencionada como a principal por 37,5% das empresas do setor, e também pelos serviços (34,9%). Na indústria de transformação, 27,9% fizeram uso da MP para cortar a remuneração dos funcionários, mas o programa de maior adesão nesse segmento foi a postergação do pagamento de impostos (36%).

O contingente de empresas que atrasou o pagamento de tributos também é expressivo nos outros ramos: ficou em 29,9% na construção civil, 27,2% no varejo e 24,9% nos serviços. Também bastante acionada, a suspensão temporária de contratos foi usada por mais de 20% das firmas em todos os setores, com maior amplitude no comércio (25,9%).

Na outra ponta, o percentual das empresas que aponta as linhas de crédito como medida mais relevante do governo foi mais baixo em todos os segmentos. Os únicos ramos em que as empresas com essa avaliação superam 10% do total foram a construção e os serviços. Continuar a ler

BCB X CNC-PEIC: Crédito Bancário versus Crédito ao Consumidor

Martha Funke (Valor, 29/06/2020) informa: a dificuldade de honrar pagamentos atingiu recordes com a recessão e o desemprego. Mas o avanço dos índices de inadimplência foi atenuado por iniciativas dos credores para amenizar o impacto das crises sanitária e econômica.

Dados da Serasa apontaram, em março de 2020, 64,8 milhões de consumidores inadimplentes no país, recorde para o período. No mês seguinte, já com vigência das políticas de isolamento, pesquisa da Boa Vista com 600 brasileiros indicou: 52% se consideravam incapazes de pagar todas ou pelo menos metade das contas e 56% acreditavam poder deixar as contas em dia por no máximo dois meses.

Em junho de 2020, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimou em 67,1% o total de famílias endividadas, com uma em cada quatro em atraso e 11,6% sem condições de pagamento.

[Fernando Nogueira da Costa: suspeito muito desse dado de duas em cada três das famílias estarem endividadas. Quando investiguei, a CNC subestimava o universo total das famílias (71 milhões domicílios) e da população (211,7 milhões pessoas) no Brasil. Seus números diferem muito dos dados do Banco Central. Não há comparação estatística entre o crédito comercial e o crédito bancário. Exemplo de dificuldade: pagamento de compra a prazo em parcelas sem juros com cartão de crédito é classificado como crédito pelo BCB, mas é assim registrado pela CNC-PEIC?]

As empresas também foram afetadas. Segundo o Banco Central, a inadimplência em operações de crédito do sistema financeiro subiu 0,2 pontos percentuais no segmento PJ entre março e abril. Continuar a ler

Crédito Avesso ao Risco de Inadimplência

Roseli Loturco (Valor, 29/06/2020) informa: motivados pelos programas emergenciais de auxílio do governo federal, os bancos elevaram em mais de 21% o total de concessões de crédito para empresas e famílias desde o início da pandemia. As operações somaram R$ 833,5 bilhões entre novos empréstimos, renovações e alongamento de dívidas entre 16 de março e 19 de junho, de acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Desse total, R$ 570,6 bilhões são relativos a financiamentos novos, sendo que as grandes empresas ficaram com a maior fatia, de R$ 290,5 bilhões – duas vezes e meia o total concedido a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Esses indicadores, porém, começaram a desacelerar em maio, com recuo de 2,5%, ante o mês anterior. O setor considera natural porque o volume logo após o início do isolamento avançou muito acima da média. A soma do dinheiro para as companhias, de R$ 406,7 bilhões, é 27,6% superior à registrada em igual período de 2019. Continuar a ler

Encarteiramento de Debêntures por Bancos

Luciana Del Caro (Valor, 29/06/2020) informam: as debêntures estão sofrendo com o desinteresse daqueles que eram os seus principais compradores: os Fundos de Crédito Privado. As ofertas após o aprofundamento da crise do coronavírus só foram possíveis porque os bancos ocuparam o espaço dos gestores de fundos e adquiriram os papéis, provendo recursos para as empresas. Embora recentemente a situação do mercado tenha melhorado, profissionais acreditam a retomada das emissões sera muito lenta.

Nos primeiros cinco meses deste ano, as ofertas de debêntures caíram 44% em relação ao mesmo período de 2019 e totalizaram R$ 38,7 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Os fundos de investimento, que tinham comprado 68,8% das ofertas de janeiro a maio de 2019, ficaram com apenas 8,9% neste ano, até maio. A participação dos bancos, por sua vez, passou de 21,3% para 87%.

A maior parte das emissões recentes ficou no balanço dos bancos, exceto as de debêntures de infraestrutura. Estas têm demanda. As ofertas de papéis incentivados devem voltar antes das debêntures comuns. Como esses títulos contam com isenção do Imposto de Renda (IR), têm tido maior aceitação e procura por parte de pessoas físicas.

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Programa de Direcionamento de Crédito para PMEs e Recompra de Debêntures para Grandes Empresas

Estevão Taiar e Alex Ribeiro (Valor, 24/06/2020) informam: o Banco Central anunciou, no dia 23/06/20, um programa de direcionamento de crédito para as pequenas e médias empresas (PMEs) com potencial de liberar R$ 212 bilhões. Entre as diversas medidas para fazer o crédito chegar à ponta, a autoridade monetária ameaça punir com corte de remuneração de compulsório os bancos que não direcionarem recursos dos encaixes da poupança para as companhias do segmento.

Em entrevista coletiva, o BC detalhou ainda as regras de compra de títulos privados no mercado secundário. Segundo a autoridade, a medida vai provocar um aumento do déficit primário do setor público. Isso significa que essas operações vão competir por espaço fiscal com todos os gastos orçamentários.

“Sempre que o Banco Central comprar um real de debêntures no mercado secundário, isso vai impactar a dívida líquida e o resultado primário do governo geral”, disse o diretor de política monetária da instituição, Bruno Serra Fernandes. “A contabilidade pública é assim. O BC faz parte do setor público. Então, quando compra um ativo privado, aquilo vira déficit primário. Assim, quando eventualmente vender esse ativo, tem impacto oposto, um superávit.

Isso significa que, sob o ponto de vista do resultado primário, o gasto a ser feito pelo Banco Central com a compra de títulos privados tem o mesmo peso que, por exemplo, o pagamento do auxílio emergencial ou transferências do Bolsa Família. A diferença é essas despesas serem contabilizadas no Orçamento aprovado pelo Congresso, enquanto a compra do título privado é uma decisão apenas do Banco Central, usando uma prerrogativa que foi conferida por uma Emenda Constitucional.

Em economias desenvolvidas, compras semelhantes de títulos são consideradas apenas operações monetárias porque, em geral, o banco central é considerado um ente privado. O BC afeta o resultado primário quando têm prejuízo coberto pelo Tesouro. No Brasil, o BC faz parte do setor público consolidado.

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