Sindicato versus Manifesto pelo Fim do Diploma em Ciências Econômicas

Todos os cidadãos deveriam ter conhecimento de Economia, porém nem todos que a conhecem, superficialmente, seja na teoria, seja na prática, são economistas. Quem adquire reputação profissional como economista é reconhecido pelos colegas enquanto tal.

Deborah Moreira (Comunicação do CNTU) informa que o Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo (Sindecon-SP) rebate com veemência um manifesto que pede o fim da obrigatoriedade do bacharelado em Economia. Para combater é preciso recuperar a história.

Além de pedir o fim da exigência da graduação em Ciências Econômicas, também exige o fim do registro no conselho de classe para exercer a profissão de economista. O manifesto, lançado no dia 2 de setembro último e que diz ter 477 assinaturas de apoio, surgiu durante o último congresso de estudantes de Economia, com apoio de professores universitários dos respectivos cursos. Como explica Pedro Afonso Gomes, presidente do Sindecon-SP, esses docentes possuem mestrado e doutorado em Economia, mas não a graduação, o que inviabiliza, por lei, a contratação deles pelo mercado de trabalho.

“Como todas as profissões de nível superior, para exercer a profissão precisa ser bacharel na área como em Medicina, Direito, Ciências Contábeis. E assim também é com os economistas, segundo a Lei 1.411, de 1951[regulamentada pelo Decreto Nº 31.794, de 1952]. Desde então, sempre existiram movimentos para que os que possuem somente mestrado ou doutorado em Economia também possam trabalhar como economistas. No entanto, a LDB (Lei de Diretrizes e Base) de 1996, que autoriza que mestrandos ou doutorandos em Economia possam dar aulas nos cursos, não permite que os mesmos exerçam atividades específicas para a profissão, como peritos, prestação de consultoria ou análise econômicas”, explica Pedro Afonso Gomes.

O economista lembra, ainda, que o mercado de trabalho supervaloriza profissionais com mestrados e doutorados: “Quem é do mercado não compreende a qualificação exata de bacharelado, mestrado e doutorado. Ele costuma achar que o mestre e o doutor têm melhores condições de resolver o problema dele por conta dos títulos. O que em economia não corresponde à realidade”.

Após obter o diploma da faculdade, para poder se intitular economista e atuar em cargos restritos a profissionais da área, é preciso estar credenciado no Conselho Regional de sua cidade e pagar uma taxa de R$ 490 anual (no caso de São Paulo, por exemplo), sob pena de ser processado por exercício irregular da atividade. Continue reading “Sindicato versus Manifesto pelo Fim do Diploma em Ciências Econômicas”

Por Desenvolvimentistas na Condução da Política Monetária no Brasil!

Este boxe do Relatório de Inflação do Banco Central do Brasil de setembro de 2017 discute o conceito de taxa de juros estrutural e o seu uso na condução e análise da política monetária. Apresenta também um resumo de pesquisa conduzida em abril de 2017 pelo Banco Central do Brasil (BCB) junto a participantes da pesquisa Focus para conhecer suas estimativas da taxa de juros estrutural de curto prazo da economia brasileira à época da pesquisa, e suas expectativas para a evolução dessa taxa nos próximos anos.

A taxa de juros estrutural, também denominada taxa de juros neutra [e no Modelo das Duas Taxa de Juros de Knut Wicksell de taxa de juro natural], é um ponto de referência para a condução da política monetária.

  • Quando a taxa de juros real [taxa de juro de mercado] se encontra abaixo da taxa de juros estrutural, ela exerce um efeito estimulativo – impulsionando a atividade econômica e contribuindo para um aumento da inflação. [Não é um Modelo Tico-e-Teco ou “2 Neurônio” (sic) anti crescimento?!]
  • Por outro lado, quando a taxa de juros real se encontra acima da taxa estrutural, seu efeito é contracionista – contém a atividade econômica e contribui para a redução da inflação.

[Por causa dessa visão tacanha, implantada no Banco Central por economistas neoliberais vindo de O Mercado, a economia brasileira não tem um crescimento sustentado. Toda vez que retoma o crescimento, a Autoridade Monetária o freia sob a pressuposta “ameaça de inflação”, justificando a elevação dos juros para seu enriquecimento e de seus pares. Esse stop-and-go, tipo “voo de galinha”, vem desde as décadas perdidas da Era Neoliberal (1988-2002)] Continue reading “Por Desenvolvimentistas na Condução da Política Monetária no Brasil!”

Taxa de juro, Rentabilidade e Credibilidade (por Nelson Barbosa)

Nelson Barbosa, ex-Ministro da Fazenda, publicou o seguinte artigo (FSP, 16/09/17):

“A taxa SELIC deve cair para 7,25% anuais no fim deste ano.

Apesar dessa redução, o pagamento de juros reais pelo governo aumentou significativamente desde o final de 2015. Para explicar como isso aconteceu, é preciso relembrar dois conceitos de taxa de juro real utilizados em economia.

A taxa esperada [ex-ante] é a taxa de juro projetada para o futuro, descontada pela expectativa de inflação para o mesmo prazo. Essa é a variável mais relevante para o planejamento de investidores e consumidores. Considerando o prazo de um ano, a taxa real esperada caiu para aproximadamente 3% ao ano recentemente.

Como qualquer projeção, a taxa esperada pode ou não se verificar.

A taxa efetiva [ex-post] é a taxa de juro praticada no passado, descontada pela inflação do mesmo período. Essa é a variável mais relevante para a distribuição de renda [fluxo de juros que acumula em estoque de riqueza financeira], pois representa o quanto um devedor pagou ao seu credor em termos reais.

A taxa real efetiva subiu para aproximadamente 9% anuais recentemente, pois a inflação caiu mais rápido do que a Selic nos últimos meses.

A evolução dessas duas taxas pode ser consultada no “Monitor da Taxa Básica de Juro“, do Grupo de Economia Política da UnB, que também inclui uma contabilidade dos juros pagos pelo governo. Por limite de espaço, apresentarei somente esse último ponto. Continue reading “Taxa de juro, Rentabilidade e Credibilidade (por Nelson Barbosa)”

Carga Tributária, Dividendos e Amnésia Seletiva (por Nelson Barbosa)

​O ajuste fiscal necessário para estabilizar o endividamento público requer tanto uma redução do crescimento dos gastos quanto uma recuperação da receita tributária do governo. À exceção de alguns neoliberais de jardim de infância – que são contra qualquer aumento de impostos por achar que o governo é sempre bobo, mau e feio – a maioria dos economistas sabe que é inevitável aumentar a receita tributária para reequilibrar o orçamento público. Os últimos dois grandes ajustes fiscais realizados no  Brasil corroboram essa conclusão.

Segundo os dados do IBGE, o ajuste fiscal feito pelo governo militar gerou, dentre outras coisas, uma grande elevação da carga tributária: de 16% do PIB, em 1963, para 26% do PIB em 1970. Os mesmos dados mostram que o ajuste fiscal realizado por FHC também aumentou a carga tributária significativamente, de 26% do PIB, em 1995, para 32% do PIB em 2002.

Esses dois episódios revelam dois fatos importantes:

(1) o ajuste fiscal leva algum tempo e

(2) nos últimos 50 anos nossa carga tributária subiu mais fortemente durante governos de direita ou centro-direita. Mas vamos nos ater ao momento atual.

O gráfico acima completa os dados históricos do IBGE com os números mais recentes da Receita Federal, compilados por Manoel Pires do IBRE. Os números indicam que a carga tributária atingiu 32% do PIB em 2015. Esse valor é praticamente o mesmo verificado no final do governo FHC, mas representa uma queda de aproximadamente 2 pontos percentuais do PIB em relação ao verificado há dez anos, no auge do boom de commodities. Continue reading “Carga Tributária, Dividendos e Amnésia Seletiva (por Nelson Barbosa)”

Inflação Baixa: Armadilha da Liquidez ou Lei de Say?

Economistas neoclássicos/pré-keynesianos defendem a Ley de Say: a canalização exata de poupança para investimento propicia o equilíbrio entre demanda e oferta agregada. Na realidade, o sistema bancário não adota esse comportamento hipotético. Porém,  quando a taxa de inflação está baixa, os ultraliberais juram que é uma prova (ex-post) do acerto dessa sua previsão!

Economistas keynesianos retrucam que essa coincidência nivela por baixo e coloca a economia na “santa paz dos cemitérios”. Que “equilíbrio” é este, só visto pelos neoliberais, com desempregados procurando empregos sem os achar?!

Ora, o mundo está em plena armadilha da liquidez. Esta é a preferência pela liquidez generalizada que só ocorre durante uma Grande Depressão — e não é permanente como advogam economistas pós-keynesianos.

Segundo Sérgio Lamucci (Valor, 15/09/17) o economista argentino Guillermo Calvo avalia que, no mundo rico, a inflação permanece baixa mesmo com o crescimento um pouco mais forte da economia porque a grande quantidade de dinheiro em circulação não tem sido efetivamente canalizada para o crédito.

Professor da Universidade Columbia, em Nova York, Calvo diz que os bancos não estão dispostos a emprestar como antes da crise financeira global, que se intensificou depois do colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. No caso dos EUA, a regulação mais rigorosa do setor financeiro também tornou mais difícil a concessão de empréstimos, afirma ele, numa referência à chamada lei Dodd-Frank.

“Nós estamos num tipo de regime de armadilha de liquidez, em que a liquidez está presa no setor bancário”, afirma ele. “Há muito dinheiro em circulação, eu concordo, mas esse dinheiro não se traduz em instrumentos de crédito.”

Nas atuais circunstâncias, a recuperação em curso no mundo rico levaria a uma alta de preços se houvesse a expectativa de aumento muito agressivo da oferta de dinheiro na economia, segundo Calvo. Não é isso, contudo, o que está ocorrendo. Continue reading “Inflação Baixa: Armadilha da Liquidez ou Lei de Say?”

Pré-keynesianos: Felizes como Pinto no Lixo

Os economistas ultraliberais, no governo temeroso, conseguiram submeter a economia brasileira à Lei de Say: sem conceder crédito “em excesso” (sic), supostamente, os bancos agiram exatamente como intermediários financeiros apenas canalizando poupança para investimento. O resultado, segundo essa concepção pré-keynesiana, é que, aparentemente, conseguiram o desejado acima de tudo: equilíbrio entre a oferta agregada e a demanda agregada. Em decorrência, não há mais inflação de demanda – e a queda dos preços de alimentos colabora bastante para um processo de desinflação. Porém, há um “detalhe” para eles não saborearem a “vitória” completa: a grande depressão (a maior da história econômica brasileira) e o imenso desemprego.

A atual política econômica de curto prazo demonstra o analfabetismo econômico do mainstream, isto é, da “corrente principal da Economia” — autodenominação dos economistas ortodoxos. Estes são fiéis seguidores da Ética Protestante e do Espírito do Capitalismo do século XIX, quando ainda se guardava “poupança” debaixo do colchão.

A economia do endividamento bancário não tinha evoluído, há dois séculos, para o uso generalizado de cheques, a câmara de compensação, a expansão da rede de agências e a carteira de redesconto, ou seja, os empréstimos de liquidez contra corridas bancárias. Essas instituições propiciaram ao sistema bancário o multiplicador de moeda contábil, apenas no século seguinte, quando o processo urbano-industrial superou a sociedade tipicamente rural. Continue reading “Pré-keynesianos: Felizes como Pinto no Lixo”

Temer, O Mais Odiado; Lula, O Mais Popular


Nunca houve um presidente tão odiado quanto o golpista Temer. Confira na pesquisa abaixo que o Presidente Lula é o político mais popular. Se os golpistas não derem um segundo golpe na democracia brasileira, impugnando sua candidatura, ele vencerá em segundo turno todos os potenciais concorrentes. Isto apesar da campanha midiática intensa contra ele, a perseguição política dos procuradores e do justiceiro, e o desespero do high society

Como high society ficou conhecida a chamada “classe alta”, ou seja, um grupo formado por pessoas com alto poder aquisitivo e financeiro, além de terem um destaque em coluna social. No Brasil, esta expressão passou a ser bastante popular para designar a alta burguesia, formada por pessoas com muito dinheiro e que frequentam ambientes elitistas.

Os “coxinhas” — “baba-ovos” tipicamente conservadores da classe média — se caracterizam por admiração inautêntica por tudo aquilo que está em voga nos ambientes de gente inculta que se imagina “refinada”. Têm uma tendência para desprezar os humildes e apreciar exageradamente a elite econômica. Demonstram falsa e exagerada superioridade, pernosticismo, afetação. Por exemplo, é visível o esnobismo intelectual na subcasta dos economistas neoliberais. Eles vivem pregando em favor da prioridade concedida a evitar “eutanásia dos rentistas”, via inflação, e a insolvência do governo, i.é, a incapacidade de pagamento da dívida pública.

Leia a pesquisa completa:  Relatório Síntese da Pesquisa CNT-MDA 134 – 13 a 16 set 2017