Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Previsão de capacidade de pagamento de dívidas sob o ponto de vista psicológico

A pandemia vai tornar necessário que as instituições financeiras repensem a forma como fazem a análise de crédito, principalmente em um país como o Brasil, com uma das crises mais severas de covid-19. Na visão do especialista em economia comportamental Dan Ariely, professor da Universidade de Duke, nos EUA, o crédito tem um papel fundamental para a recuperação das economias no médio e longo prazo e os bancos, fundamentalmente, se mantêm presos a sistemas ultrapassados na hora de avaliar a capacidade de pagamento de pessoas e empresas.

Em entrevista a Sérgio Tauhata (Valor, 11/05/21), Ariely, autor de livros como “Previsivelmente Irracional” e “A Psicologia do Dinheiro”, junto com o amigo e colaborador Saul Fine, fundador da Innovative Assessment (IA) e PhD em psicologia, criticaram o sistema atual de avaliação de perfil de bom pagador das instituições.

Ele se baseia em um histórico registrado em banco de dados. Após a pandemia e a crise econômica, no passado recente, a fórmula não funciona mais, argumentam os especialistas.

Ariley e Fine desenvolveram juntos um novo modelo de previsão de capacidade de pagamento de dívidas sob o ponto de vista psicológico. Esse sistema já tem sido utilizado em forma piloto por algumas fintechs brasileiras para incluir desbancarizados.

“Como forma de sair da [crise da] covid-19 com razoável estabilidade econômica, o Brasil tem de descobrir uma forma de conceder mais crédito”, diz Ariely. “E o crédito tem de ir aos pequenos negócios, os motores do crescimento.”

Conforme o pesquisador, as mudanças drásticas causadas pela pandemia tornam falho o uso de dados passados na previsão do comportamento futuro do tomador. Segundo Ariely, as análises de risco atuais vão excluir o acesso ao crédito aqueles que mais precisam, ou seja, grande parte dos pequenos e médios empreendedores afetados diretamente pela pandemia. Leia os principais trechos da entrevista.

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O Passado e o Futuro das Ciências da Complexidade

Em 1995, o jornalista de Ciências John Horgan publicou um artigo na Scientific American, indiscutivelmente a principal revista de Ciência popular do mundo, atacando o campo de sistemas complexos em geral e o Santa Fe Institute em particular. Seu artigo foi anunciado na capa da revista sob o rótulo “A complexidade é uma fraude?

O artigo continha duas críticas principais. 

Primeiro, na opinião de Horgan, era improvável o campo dos sistemas complexos descobrir quaisquer princípios gerais úteis.

Segundo, ele acreditava a predominância da modelagem por computador tornava a complexidade uma “Ciência livre de fatos”. 

Além disso, o artigo deu vários golpes menores, chamando a Complexidade de “Ciência pop” e seus pesquisadores de “complexologistas”. Horgan especulou até a respeito de o termo “complexidade” ter pouco significado, mas ser mantido por seu “valor de relações públicas”.

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Priva-te de Private

Privar é impedir ou tirar alguma coisa de alguém, por exemplo, privar um cidadão de seus direitos civis. Significa também estar em convivência íntima ou conviver, como é o caso de ricaços privar da intimidade dos governantes. Em contrapartida, dá a ideia de “impor-se privações” ou abster-se.

Abstinência é o ato de se privar de alguma coisa, em prol de algum objetivo, por exemplo, abstinência de alimento por razão de crise de desemprego. É uma decisão, muitas vezes forçada, capaz de fazer o indivíduo abrir mão de algo essencial, como também de dispensável como beber, fumar ou consumir drogas.

As alterações físicas e psicológicas causadas pela abstinência são conhecidas como síndrome de abstinência. Ela é caracterizada por sintomas como mal-estar, ansiedade, irritabilidade, hipertensão, insônia, náusea, agitação, taquicardia, etc.

Com mais de um ano de pandemia e distanciamento humano, os sobreviventes estão sob alta pressão, sofrendo distúrbios emocionais. Nunca foram tantos os relatos de ansiedade e depressão por excesso de trabalho, chamado de burnout [esgotamento], entre os profissionais.

A importância de zelar pela saúde mental dos colaboradores tem de ser internalizada pelos empresários, assim como a segurança física dos trabalhadores. A incidência de acidentes de trabalho caiu quando entenderam a necessidade de preveni-los, até para evitar prejuízos materiais. Agora, os casos de estresse e depressão já́ são a segunda causa de pagamento de auxílio-doença.

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Evolução de Modo Complexo

No capítulo I do livro “Complexidade”, Melanie Mitchell perguntou: “Como a evolução produziu criaturas com tamanho contraste entre sua simplicidade individual e sua sofisticação coletiva?” 

Na verdade, conforme ilustrado pelos exemplos vistos nesse livro, quanto mais de perto se olha para os sistemas vivos, mais surpreendente parece tal complexidade intrincada ter sido formada pelo acúmulo gradual de mutações favoráveis ​​ou caprichos de acidentes históricos. Este mesmo argumento tem sido usado desde o tempo de Charles Darwin até o presente por crentes na criação divina ou outros meios sobrenaturais de “design inteligente”.

As questões de como, por que e até mesmo se a evolução cria complexidade, e como a complexidade na Biologia pode ser caracterizada e medida, ainda estão muito abertas. Uma das contribuições mais importantes da pesquisa de sistemas complexos nas últimas décadas foi demonstrar novas maneiras de abordar essas questões antigas. 

Neste capítulo 18, Mitchell descreve algumas das recentes descobertas em genética e a dinâmica da regulação genética. Elas estão nos dando surpreendentes novos insights sobre a evolução de sistemas complexos.

Frequentemente, na Ciência, novas tecnologias podem abrir uma comporta de descobertas. Elas mudam a visão dos cientistas sobre um campo de estudo previamente estabelecido.

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Sem commodities, Ibovespa estaria em queda de 15%

Lucas Hirata e Olívia Bulla (Valor, 11/05/2021) informam: cada vez mais próxima de retomar suas máximas históricas, a bolsa brasileira tem contado com um importante aliado nos últimos meses: o persistente rali das commodities. O Ibovespa acumula alta de 1,33% em seu valor de mercado em 2021, mas registraria queda de 15,43% se fossem excluídas as empresas que produzem metais, proteína, papel e celulose. Excetuando-se apenas as commodities metálicas e petróleo, o recuo seria de 3,33%.

“Se tirar as commodities, o Ibovespa cai muito”, afirma a analista de renda variável da ARX, Marcela Morais. Para ela, é justamente o desempenho das commodities negociadas no exterior e o impacto desse rali nas ações de exportadoras brasileiras que têm segurado a bolsa, mantendo o índice no intervalo entre 110 mil e 120 mil pontos.

Na segunda-feira, o Ibovespa fechou em leve queda de 0,11%, aos 121.909 pontos. Apesar do leve ajuste, o índice está a menos de 3% de superar o recorde de 125 mil pontos, atingido em janeiro de 2021.

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Mistério da Escala

Os capítulos 15 e 16 do livro de Melanie Mitchell, “Complexidade”, mostraram como o Pensamento em Rede está tendo efeitos profundos em muitas áreas da Ciência, particularmente a Biologia. 

Recentemente, um tipo de Pensamento em Rede levou a uma solução proposta para um dos mistérios mais enigmáticos da Biologia: a maneira como as propriedades dos organismos vivos se adaptam ao tamanho. Trata-se do escalonamento em Biologia.

O dimensionamento descreve como uma propriedade de um sistema será alterada se uma propriedade relacionada for alterada. O mistério da escala na Biologia diz respeito à questão de como a energia média usada por um organismo durante o repouso, isto é, a taxa metabólica basal, escala com a massa corporal do organismo. 

O metabolismo, a conversão de alimentos, água, ar e luz em energia utilizável pelas células, constituem o processo-chave subjacente a todos os sistemas vivos. Essa relação é extremamente importante para entender como a vida funciona.

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Geração Covid: Eterna Nem-Nem!

Lucianne Carneiro (Valor, 04/05/21) avalia: após mais de um ano de ensino remoto – que pode chegar a dois anos a depender da evolução da pandemia -, a nova força de trabalho chegará ainda mais crua ao mercado de trabalho, com menos habilidades socioemocionais, como capacidade de se relacionar em equipe e criatividade, e também impacto em habilidades técnicas, apontam especialistas.

A influência na formação tende a ocorrer tanto no ensino técnico quanto no universitário, mas principalmente em áreas que exigem mais prática e de treinamentos específicos, como Mecânica, Engenharias e Saúde.

“Em geral, os cursos são estruturados com a parte mais teórica no início e a mais prática no fim, com laboratório e estágio. A parte prática tende a ser mais prejudicada, embora o efeito se dê de maneira diferente entre os cursos. A tendência é que os alunos cheguem com menos experiência no mercado”, afirma o professor do Insper e da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Naércio Menezes.

Ele é um dos autores de um estudo onde compara o desempenho de estudantes de graduação presencial e de ensino a distância (EAD). Mostra mais da metade dos estudantes tem desempenho pior no EAD. O trabalho compara alunos dos dois formatos de ensino com perfis semelhantes – sexo, raça, renda e nível educacional da mãe, entre outros.

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Espalhamento de Informações e Falha em Cascata nas Redes

Compreender as maneiras como as informações se propagam nas redes é um dos problemas em aberto mais importantes da Ciência das Redes. Os resultados descritos neste capítulo do livro de Melanie Mitchell sobre “Complexidade” e no anterior são todos sobre a estrutura das redes, por exemplo, suas distribuições de graus estáticos, ao invés da dinâmica de espalhar informações em uma rede.

O que se quer dizer com “espalhar informações em uma rede”? Aqui, Mitchell está usando o termo informação para capturar qualquer tipo de comunicação entre os nós. 

Alguns exemplos de disseminação de informação são a disseminação de boatos, fofocas, modismos, opiniões, epidemias (onde a comunicação entre as pessoas é via germes), correntes elétricas, pacotes de Internet, neurotransmissores, calorias (no caso de redes alimentares), contagem de votos e um fenômeno de disseminação de rede mais geral denominado “falha em cascata”.

O fenômeno da Falha em Cascata enfatiza a necessidade de entender a disseminação da informação e como ela é afetada pela estrutura da rede. A falha em cascata em uma rede acontece da seguinte forma. 

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Economistas do IBRE-FGV reconhecem a Necessidade do Fim do Neoliberalismo

Além do mais, seca e inflação de alimentos!

Até onde Étore Sanchez (Valor, 04/05/21) consegue ver com relativa precisão, as perspectivas para o Brasil não são positivas.

O renomado investidor americano Ray Dalio, no livro “Principles: Life and Work”, explica muito bem uma das bases utilizadas para chegar na exclamativa acima. O conceito usado por Dalio é bem simples: gasto via crédito é antecipação de receita, seja de empresas, pessoas ou Estado.

Tomar crédito no presente, principalmente quando o consumo de fatores não incrementará sua produtividade, é abrir mão de renda no futuro. A dívida contraída no passado terá de ser paga em algum momento.

O Brasil, em função da pandemia, promoveu duas antecipações de renda futura: uma via emissão de dívida para sustentar um pacote fiscal, ao qual os neoliberais criticam o excesso, e outra via expansão de crédito clássico, para empresas e pessoas.

Desse modo, o saldo total de crédito (pessoa física mais jurídica) em proporção do PIB saltou de 46% para quase 54%, revertendo uma tendência baixista e superando o pico da série histórica, observado em dezembro de 2015. Com isso, o endividamento das famílias galopou de 48,9% para 56,4% ao longo de 2020.

Os dados acima representam uma expressiva antecipação de renda para sobrevivência das famílias. Mas, em um futuro breve, deverão abrir mão de consumo presente para liquidar dívida contraída.

De maneira análoga, observou-se a dívida bruta em proporção do PIB saltar de algo ao redor de 75%, no início de 2020, para quase 90% em janeiro de 2021.

O objetivo de neoliberal parece cogitar a possibilidade de não suporte aos paupérrimos na pior crise sanitária da história! Deseja apenas construir um cenário pessimista condutor à perspectiva supracitada.

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Resiliência da Rede

Uma propriedade muito importante das redes sem escala é sua resiliência à exclusão de nós. Isso significa, se um conjunto de nós aleatórios (junto com seus links) for excluído de uma rede livre de grande escala, as propriedades básicas da rede não mudarem: ela ainda terá uma distribuição de grau heterogênea, comprimento de caminho médio curto e forte clustering. Isso é verdadeiro mesmo se o número de nós excluídos for bastante grande. 

A razão para isso é simples: se os nós forem excluídos aleatoriamente, eles provavelmente serão nós de baixo grau, em vez de constituírem quase todos os nós-chaves da rede. A exclusão de tais nós terá pouco efeito sobre a distribuição geral de graus e comprimentos de caminho. 

Podemos ver muitos exemplos disso na Internet e na web. Muitos computadores individuais na Internet falham ou são removidos o tempo todo, mas isso não tem nenhum efeito óbvio na operação da Internet ou no comprimento médio do caminho. Da mesma forma, embora páginas individuais da Web e seus links sejam excluídos o tempo todo, a navegação na Web não é afetada em grande parte.

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Economia dos EUA não está superaquecida: sem Inflação de Demanda, mas sim de Custos

J. Bradford DeLong ex-secretário adjunto do Tesouro dos EUA, é professor de economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador associado do Departamento Nacional de Pesquisa Econômica. Em artigo (Valor, 05/05/21) critica os neoliberais pregadores da inflação de demanda por conta de pressuposto aquecimento excessivo da economia norte-americana.

Nos últimos tempos, o noticiário financeiro e econômico nos Estados Unidos esteve dominado por preocupações sobre a inflação. “A inflação fora de controle é o maior risco para os investidores”, alerta Jim Paulsen, do Leuthold, segundo o canal de TV a cabo CNBC. Como potencial proteção contra a inflação, “a hora do bitcoin está chegando depressa”, relata Robert Hackett, da Fortune.

Segundo o Relatório de Notícias dos EUA e do Mundo, “muito tem se falado de inflação em 2021, à medida que os temores de gastos públicos elevados espreitam e a recente retomada de preços aos níveis pré-pandêmicos vêm alarmando alguns investidores para a possibilidade de que a tendência continue durante algum tempo”.

No entanto, também é possível ler que “os rendimentos do Tesouro dos EUA se mantêm firmes mesmo com a inflação se recuperando”. Após crescer a um índice anualizado de 33,4% no terceiro trimestre de 2020, 4,3% no quarto trimestre e 6,4% no primeiro trimestre deste ano, a economia americana está a caminho de uma recuperação plena.

A expectativa é que o índice de crescimento do segundo trimestre seja de ao menos 8%, e talvez até significativamente maior, o que significa que a economia dos EUA, em termos agregados, terá retornado completamente a seu nível de produtividade pré-pandemia até o terceiro ou quarto trimestre deste ano.

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Redes sem Escala

Melanie Mitchell, no livro “Complexidade”, expressa ter certeza de você pesquisar na World Wide Web e provavelmente usar o Google como seu mecanismo de pesquisa. Na época da web antes do Google, os mecanismos de pesquisa funcionavam simplesmente procurando as palavras em sua consulta de pesquisa em um índice capaz de conectar cada palavra possível em inglês a uma lista de páginas da Web com essa palavra. 

Por exemplo, se sua consulta de pesquisa foram as duas palavras “registros da Apple”, o mecanismo de pesquisa forneceria uma lista de todas as páginas da Web com essas palavras, na ordem de quantas vezes essas palavras apareceram juntas na página fornecida. 

Era provável você receber uma página da Web sobre o preço histórico das maçãs no estado de Washington ou os tempos mais rápidos registrados na Great Apple Race na Tasmânia, como obteria uma página sobre a famosa gravadora formada em 1968 pelos Beatles. Era muito frustrante naquela época vasculhar uma infinidade de páginas irrelevantes para encontrar aquela com as informações realmente procurando.

Na década de 1990, o Google mudou tudo isso com uma ideia revolucionária para apresentar os resultados de uma pesquisa na web, chamada “PageRank”. A ideia era a importância (e provável relevância) de uma página da Web é uma função de quantas outras páginas estão vinculadas a ela, ou seja, o número de “links internos”.

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