Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Moldura Mental versus Fatos e Dados

Helio Gurovitz é jornalista e blogueiro do portal G. Resenhou um livro com conteúdo muito pertinente ao esclarecimento de como falsear e se contrapor aos idiotas divulgadores de “fake News“. Na verdade, quem tem a estrutura mental limitada pela ignorância, em razão de crenças infundadas e falta de estudos científicos, descarta todos os fatos e dados contrários ao seu arcabouço “intelectual”.

THE ALL NEW DON’T THINK OF AN ELEPHANT! The Essentials Guide for Progressives – George Lakoff, Chelsea Green Publishing; 2014 | 192 páginas | US$ 15

“O método é o mesmo. O presidente solta ou reverbera um tuíte de origem duvidosa. Sabe que, por ser presidente, o fato será tratado como notícia pela imprensa. Se for uma agressão à própria imprensa, com mentiras e distorções, melhor. Mais os acólitos aplaudirão, mais os adversários atacarão.

Criada a polêmica, terá polarizado a agenda do debate nacional nos próprios termos, para agradar a própria plateia. O tema pode ser a “pouca-vergonha do Carnaval”, o “Hino Nacional nas escolas”, a “mídia mentirosa” ou qualquer outro, mesmo irrelevante, desde que dê margem a controvérsia. É uma clássica manobra diversionista.

O que importa não são os fatos ou a verdade, mas o poder de despertar amor e ódio, de mobilizar cliques e curtidas, de trazer a política para o próprio terreno, ainda que (ou talvez mesmo porque) nada tenha de racional ou razoável. A estratégia de Donald Trump — tornar o país refém de seus tuítes — tem sido reproduzida por Jair Bolsonaro nas últimas semanas.

Lá como cá, a imprensa tem agido do modo como sabe agir: apontando as mentiras, os absurdos, as contradições, fazendo jornalismo enfim. Lá como cá, isso tem se mostrado insuficiente para resgatar a sanidade. Por quê? Continuar a ler

Planejamento Financeiro para a Longevidade

Aura Rebelo (Valor,14/02/19) publicou artigo sobre tema do meu curso no último semestre da graduação do IE-UNICAMP. É uma disciplina eletiva denominada por mim de “Finanças Comportamentais para Planejamento da Vida Financeira“. O público-alvo são estudantes próximos a se formarem no Ensino Superior e necessitados, desde logo, de planejar suas Finanças Pessoais. Muitos economistas nunca aprenderam a fazer isto. Compartilho seu artigo abaixo.

“Muito tem se discutido sobre o aumento da longevidade do brasileiro. Estamos vivendo cada vez mais e a expectativa de vida média no país, hoje, é de cerca de 75 anos. Esse processo de envelhecimento populacional é intenso e contínuo. Além da inversão na pirâmide demográfica, com a redução da taxa de natalidade, o que reduz a proporção de jovens, os avanços médicos, tecnológicos e sociais são inúmeros e ajudam a prolongar a vida dos mais velhos.

Essas tendências acarretam implicações em diversas áreas: por exemplo, o Brasil tem hoje no Sistema Único de Saúde (SUS) um pediatra para cada 1.500 crianças e adolescentes de 0 a 17 anos. Em compensação, contamos com apenas um geriatra para cada 12 mil idosos.

Nos últimos dez anos, o número de pessoas com mais de cem anos no Brasil aumentou dez vezes, de pouco mais de 3 mil para 35 mil. E em mais algumas décadas, serão 1 milhão de centenários. Nos aspectos sociais, também fervem novidades: idosos hoje já se casam mais, se separam mais, viajam mais, empreendem… O conceito de expectativa de vida estendida abre espaço para a expectativa de qualidade de vida, também estendida.

Porém, ao contrário do que se imagina, vários estudos mostram que os últimos anos da vida de uma pessoa são os mais caros. Sem entrar na complexa discussão sobre a Previdência Social brasileira, é necessário conscientizarmos a população sobre os desafios de uma vida mais longeva. Afinal, se seus planos eram se aposentar aos 60 e “viver de renda”, pode ser que os seus recursos não sejam suficientes. Continuar a ler

Salvar o Capitalismo dos Capitalistas

Luigi Zingales e Raghuram G Rajan, coautores do livro “Saving Capitalism From the Capitalists: Unleashing the Power of Financial Markets to Create Wealth and Spread Opportunity” (edição publicada pela primeira vez na Índia em 2014 pela Collins Business, uma marca da HarperCollins Publishers India por acordo com a Crown Business, Nova York), defendem o sistema capitalista como ele precisasse de defesa!

Um sistema complexo como o capitalista é emergente a partir de interações entre múltiplos componentes. Não é fruto de uma ou poucas mentes humanas. É auto organizado em autorregulação de uma economia de mercado limitada por instituições, estas sim criações humanas de caso pensado.

Dizem os coautores: “o capitalismo, ou mais precisamente, o sistema de livre mercado, é a maneira mais eficaz de organizar a produção e a distribuição encontrada pelos seres humanos. Enquanto os mercados livres, particularmente mercados financeiros livres, engordam as carteiras das pessoas, eles fizeram surpreendentemente poucas incursões em seus corações e mentes. Os mercados financeiros estão entre as partes mais criticadas e menos compreendidas do sistema capitalista.

O comportamento dos envolvidos em escândalos recentes, como o colapso da Enron, apenas solidifica a convicção pública de esses mercados serem simplesmente ferramentas para os ricos ficarem mais ricos às custas do público em geral. No entanto, como argumentam os coautores neoliberais, “mercados financeiros saudáveis ​​e competitivos são uma ferramenta extraordinariamente eficaz na disseminação de oportunidades e no combate à pobreza”.

Por causa de seu papel no financiamento de novas ideias, os mercados financeiros mantêm vivo o processo de “destruição criativa” – por meio do qual velhas ideias e organizações são constantemente desafiadas e substituídas por novas e melhores. Sem mercados financeiros vibrantes e inovadores, as economias invariavelmente ossificariam e declinariam. Continuar a ler

Nova Direita Conservadora X Pensamento Politicamente Correto

Laura Greenhalgh (Valor, 15/02/19) escreveu longa reportagem sobre a nova direita — com o velho conservadorismo. O “espantalho” é o pensamento politicamente correto.

“Era o Carnaval de 1942. O jornalista e compositor David Nasser, então com 25 anos, cujo estilo irreverente já se fazia notar no Rio, lançou “Nêga do Cabelo Duro”, sucesso do grupo vocal Anjos do Inferno. Os temas capilares estiveram em alta nas marchinhas daquele ano: foi também a temporada de “Nós, os Carecas” e de “Os Cabeleiras”. Em samba com cadência marcada, Nasser e o parceiro Rubens Soares indagavam qual era o pente usado por uma mulher negra, cuja “misampli a ferro e fogo não desmancha nem na areia”. Outros artistas vieram a gravar a música, inclusive Elis Regina, numa interpretação memorável em que esses versos não aparecem.

Ao que se saiba, David Nasser foi tido como um atrevido rabo de saia naquele momento. Fosse hoje, não escaparia de uma condenação “politicamente correta”. Talvez o compositor tentasse se proteger das acusações de racismo valendo-se das promessas do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que, em discurso de posse no Palácio do Planalto, celebrou “o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

Quem sabe a fala presidencial o ajudasse a driblar reações, e seguramente processos, em torno de um samba que parece vestir a fantasia carnavalesca da discriminação? Se Nasser teria êxito nessa linha de defesa hoje, eis uma outra história. Continuar a ler

Pro Market, Não Pro Business

Luigi Zingales, no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana” (A capitalism for the people : recapturing the lost genius of American prosperity. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data; 2012), pergunta: o que as pessoas desejam mais da vida? Bem-estar material?

Isso é importante, mas a liberdade é pelo menos tão importante, e os dois estão intrinsecamente relacionados. Como argumentou neste livro, aqui resenhado, a liberdade intelectual não pode existir sem liberdade econômica; nem a liberdade econômica pode existir sem a liberdade intelectual. Por sua vez, tanto o sistema econômico quanto o sistema político precisam de valores capazes de os legitimarem.

Após a queda do Muro de Berlim, a democracia capitalista foi triunfante. Esse modelo tornou próspero o Ocidente norte-americano e europeu, impulsionou os tigres asiáticos para o mundo desenvolvido, tornou-se o ideal dos antigos países comunistas da Europa Oriental e venceu a Guerra Fria. Os vinte anos seguintes – Era Neoliberal dos anos 80 e 90 – testemunharam o aparentemente completo triunfo ideológico do modelo capitalista. Parecia não haver alternativa aos yuppies neoliberais.

A hegemonia intelectual do capitalismo, no entanto, levou à complacência e ao extremismo:

  1. complacência com a degeneração do sistema,
  2. extremismo na aplicação de suas premissas ideológicas.

O dinheiro, independentemente da forma como foi obtido, assegurou não apenas o sucesso financeiro, mas também o prestígio social. “A ganância é boa” – frase icônica de filme norte-americano representativo da época do auge de Wall Street – tornou-se a norma e não a exceção desaprovada. O capitalismo perdeu seu terreno moral mais alto. Continuar a ler

Assimetria da Política Monetária: Juros Altos derrubam Economia, Juros Baixos não expandem Economia

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT. Publicou artigo (FT, 13/03/19) sobre o esgotamento da política monetária.

“Por que as taxas de juros estão tão baixas?

Será que a hipótese da “estagnação secular” ajuda a explicar isso?

Qual é a implicação de taxas de juros tão baixas sobre a provável eficácia da política monetária durante uma nova recessão?

Que outras políticas poderiam ser necessárias experimentar, como alternativa à política monetária ou como uma maneira de elevar sua eficácia?

Essas são as perguntas de macroeconomia mais importantes. São também muito polêmicas.

Recente estudo de Lukasz Rachel e Lawrence Summers joga luz sobre essas interrogações. Seu ponto principal é respaldar e desenvolver a hipótese da “estagnação secular”, revitalizada pelo professor Summers em 2015 como relevante para a nossa era. A mais relevante inovação desse estudo é tratar as grandes economias avançadas como um bloco único. Seguem- se quatro de suas conclusões. Continuar a ler