Escola Austríaca na LSE contra Escola de Cambridge

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, conta que Friedrich Hayek chegou a Londres em janeiro de 1931 para aceitar o convite de Lionel Robbins, professor da LSE, para proferir quatro palestras baseadas em seu estudo do ciclo de negócios e sua tentativa de provar, em “The ‘Paradox’ of Saving”, que recessões não eram causadas pela falta de desejo dos consumidores de comprar bens.

Para assegurar que Hayek não tivesse, novamente, a recepção fria oferecida a ele em Cambridge, o maior auditório de palestras foi reservado, e uma audiência escolhida minuciosamente por Robbins foi preparada para aplaudir o desempenho de Hayek, desse no que desse. Nenhum dos presentes duvidava da importância do evento para o futuro da teoria econômica e a reputação da LSE. A London School of Economics and Political Science, frequentemente chamada apenas de London School of Economics ou LSE, é uma universidade pública britânica e um dos mais prestigiosos centros de pesquisa acadêmica do mundo.

Os argumentos que Hayek estava a ponto de expor sobre o papel decisivo que os meios de pagamento desempenham no funcionamento de uma economia eram importantes tiros iniciais na guerra contra Keynes e Cambridge [tal como ultraliberais brasileiros fazem contra a Escola de Campinas], e dariam, indiretamente, fundamento à contrarrevolução monetarista que finalmente desafiaria o keynesianismo. A primeira palestra de Hayek, “Teorias da Influência da Moeda sobre os Preços”, era uma visão geral da relação entre moeda, preços e produção. Continue reading “Escola Austríaca na LSE contra Escola de Cambridge”

Arte de Pensar Claramente

Os textos de Rolf Dobelli contidos neste livro “A arte de pensar claramente: Como evitar as armadilhas do pensamento e tomar decisões de forma mais eficaz” (1. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2013) foram publicados entre 5 de setembro de 2010 a 29 de agosto de 2011 como artigos semanais nos jornais Frankfurter Allgemeinen Zeitung e Schweizer SonntagsZeitung.

Apresenta narrativas ou histórias baseadas nos vieses heurísticos dos seres humanos. Algumas são boas, outras não tanto, porém me inspiram a fazer uma releitura centrada em Finanças Comportamentais como preparação de um curso de EaD (Educação à Distância) sob forma de “pílulas de conhecimento”, isto é, breves informações e reflexões sobre decisões financeiras. Como preparação, farei uma sequência de pequenos posts a respeito.

Em um evento intelectual, Rolf Dobelli conheceu Nassim Nicholas Taleb, que em outros tempos fora um obscuro investidor de Wall Street com inclinação para Filosofia. Divertiram-se com os erros sistemáticos cometidos por diretores-executivos, sem se excluírem. Conversaram sobre o fato de que, quando considerados retroativamente, acontecimentos improváveis parecem muito mais prováveis. Riram dos investidores que mal conseguem separar-se de suas ações quando as cotações estão abaixo do preço de custo.

Posteriormente, Taleb lhe enviou páginas manuscritas, que comentou, criticou em parte, e que foram inseridas no best-seller internacional A lógica do cisne negro (Rio de Janeiro, Best Seller, 2008). O livro catapultou Taleb à liga mundial das estrelas da intelectualidade. Continue reading “Arte de Pensar Claramente”

Um Tratado sobre Moeda de autoria de Keynes

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, conta que, mal publicou seu Tract on Monetary Reform, em 1924, Keynes começou a escrever A Treatise on Money. Seria uma aventura épica. The Economic Consequences of the Peace havia levado semanas para ser escrito. A Treatise levou seis anos e dois meses, em parte porque Keynes foi distraído por controvérsias políticas britânicas, tais como seus esforços a favor dos Liberais na eleição geral de 1929, em parte por seu envolvimento nos assuntos de King’s College, em parte pela miríade de outras atividades que reclamavam sua atenção.

De 1925 em diante a vida de Keynes se tornou ainda mais complicada quando, depois de ter vivido metade da vida como homossexual, se casou com Lydia Lopokova, uma bailarina de espírito infantil dos Balés Russos de Sergei Diaghilev, nove anos mais nova que ele.

Como resultado de tantos afazeres, o livro A Treatise on Money é uma trama complexa de ideias discrepantes em um todo não inteiramente convincente. “O livro não deu uma visão completa de seu pensamento, apenas um corte transversal dele”, observou Roy Harrod, amigo e biógrafo de Keynes. No prefácio, Keynes admite que o livro “representa mais uma coletânea de material do que um trabalho acabado”. Não obstante suas reservas, A Treatise foi publicado, em dois grandes volumes, em dezembro de 1930. Continue reading “Um Tratado sobre Moeda de autoria de Keynes”

Mente, Linguagem e Sociedade – Filosofia no mundo real

John R. Searle, no livro “Mente, Linguagem e Sociedade – Filosofia no mundo real”, escreve um capítulo sobre dependência dos observadores e os blocos constitutivos da realidade social. De modo a explicar a realidade social e institucional, precisamos esclarecer uma distinção fundamental e introduzir três novos elementos no aparato explicativo.

Trata-se de uma distinção entre:

  1. os aspectos do mundo que existem, independentemente de nossas atitudes e intencionalidade em geral, e
  2. os aspectos que existem apenas em relação à nossa intencionalidade.

Chama isso de distinção entre aspectos do mundo dependentes dos observadores e independentes dos observadores.

Os três elementos são:

  1. a intencionalidade coletiva,
  2. a atribuição de funções e
  3. uma certa forma de regras que chama de “regras constitutivas“.

Primeiro, ele faz a distinção entre:

  1. a dependência dos observadores e
  2. a independência dos observadores.

Alguns aspectos do mundo existem de forma inteiramente independente de nós, seres humanos, e de nossas atitudes e atividades. Outros dependem de nós. Continue reading “Mente, Linguagem e Sociedade – Filosofia no mundo real”

Rentabilidade Comparativa de Investimentos Financeiros 2008-2017

 

Após três anos difíceis para a indústria de fundos de investimento, 2017 teve um ano mais favorável. A relevante queda da Selic, somada à redução da oferta de papéis isentos de imposto, como as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e as Letras de Crédito Agrícola (LCA) tão presentes nos anos de 2015 e 2016, estimulou o investimento em fundos.

Dentre as diversas modalidades de fundos de investimento, o grande destaque de 2017 foi a categoria de multimercado. Nesses fundos, a gestão ativa garante bastante autonomia para posicionamento em várias classes de ativos e rebalanceamento da carteira de acordo com o cenário econômico. Bolsa, renda fixa, moedas e derivativos geralmente integram essas carteiras.

A performance das diversas classes de ativos oscila violentamente de um ano para outro e uma análise profunda das correlações e do nível de preço de cada instrumento é essencial para a montagem de carteiras eficientes. O gráfico acima ilustra a rentabilidade de índices que representam essas classes no período de 2008 a 2018.

É curioso constatar a rentabilidade do Ibovespa, por exemplo: foi o melhor ativo em quatro dos últimos onze anos, com grande vantagem em relação ao segundo colocado. Mas apresentou também o pior desempenho em sete outros anos. No acumulado desse período, a performance do Ibovespa foi significativamente inferior à do CDI. Enquanto o CDI rendeu 10,79% ao ano, a rentabilidade anual do índice Bovespa foi de pífios 2,87%.

Fernando Nogueira da Costa: se o passado é o único possível para caminhar para o futuro, o investimento em longo prazo no CDI é muito mais prudente do que a especulação com ações em curto prazo para não profissionais de O Mercado.

Dentre os canais de distribuição, o que mais se destacou na alocação em fundos multimercados foi o segmento Private Banking. Podendo ser menos avessos a risco que os clientes de varejo, pois os ricaços têm muito mais dinheiro para diversificar e investir uma pequena parcela de seu portfólio em risco. Então, dos R$ 72,1 bilhões investidos na indústria de fundos por esse segmento, R$ 51,2 bilhões foram alocados em fundos multimercado, ou 71% do total.

Em 2017, a indústria de fundos recebeu novos recursos totalizando R$ 237,2 bilhões, segundo dados Anbima. Foi a maior cifra registrada historicamente e mais que duas vezes o volume captado em 2016. Como um todo, os gestores de fundos de investimento administram um total superior a R$ 4 trilhões.

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O Paradoxo da Poupança segundo Hayek

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, conta que em 19281 quando Hayek foi convidado a um encontro do London and Cambridge Economic Service, fundado cinco anos antes por Keynes como empreendimento conjunto entre a London School of Economics (LSE) e a Universidade de Cambridge, no fim de uma das sessões, os dois se encontraram pela primeira vez.

Desde o início de sua espinhosa amizade, que durou até Keynes morrer, vinte anos depois, Hayek sentiu que Keynes, embora discordasse das opiniões da Escola Austríaca, estava interessado no que ele tinha a dizer. “No momento em que me opus com argumentos sérios, ele me levou a sério e, desde então, sempre me respeitou”, lembrou Hayek. “Sei de seu jeito de falar de mim em geral: ‘Claro que ele é louco, mas suas ideias também são muito interessantes.’”

The ‘Paradox’ of Saving” foi uma tentativa de Hayek argumentar que, na economia real, a poupança não está disponível para ser investida em nova produção a não ser que existam boas razões para acreditar que os novos produtos a serem disponibilizados pelo novo investimento serão prontamente vendidos. A circunstância em que as poupanças dos consumidores eram investidas na fabricação de bens não desejados, em lugar de ser usadas para adquirir bens, não se aplicava, portanto. Continue reading “O Paradoxo da Poupança segundo Hayek”

Origem do Conhecimento: Intelectualismo, Apriorismo e Posicionamento Crítico

Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, afirma que racionalismo e empirismo são opostos. Onde existem opostos, porém, geralmente também não faltam tentativas de fazer a mediação entre eles. Uma tentativa de mediação entre racionalismo e empirismo é encontrada na orientação epistemológica que podemos chamar de intelectualismo.

Se para o racionalismo o pensamento é a fonte e o fundamento do conhecimento, e para o empirismo essa fonte e fundamento é a experiência, o intelectualismo considera que ambas participam na formação do conhecimento.

Como o racionalismo, o intelectualismo sustenta a existência de juízos necessários ao pensamento e com validade universal concernentes não apenas aos objetos ideais (isso os principais representantes do empirismo também admitem), mas também aos objetos reais. Mas enquanto o racionalismo considera os elementos desses juízos, os conceitos, como um patrimônio a priori de nossa razão, o intelectualismo deriva esses elementos da experiência.

Como o nome já diz (inrelligere, deinrus legere, ler dentro), segundo o intelectualismo, a consciência cognitiva lê na experiência, retira seus conceitos da experiência.

Porém, o empirista quer dizer que no entendimento, no pensamento, não está contido nada de novo, nada que seja diferente dos dados da experiência. O intelectualismo afirma exatamente o oposto. Para ele, além das representações intuitivas sensíveis, existem também conceitos. Continue reading “Origem do Conhecimento: Intelectualismo, Apriorismo e Posicionamento Crítico”