Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Cartelização, Trustificação e Monopolização do Capitalismo Norte-americano

O livro intitulado “História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI” (São Paulo: Contexto, 2007) é de coautoria de Leandro Karnal, Sean Purdy, Luiz Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais. Eles argumentam as depressões econômicas terem acabado, curiosamente, por consolidar o poderio das grandes empresas e corporações, expondo as desvantagens da competição acirrada praticada. Entre 1869 e 1898, estima-se em cerca de 13% da renda nacional ter sido aplicada na expansão da indústria. Esse grande investimento de capital espelha a ascensão dos bancos de investimento, centralizados em Wall Street, Nova York.

Surgiam as grandes corporações. Elas caminhavam sempre no mesmo sentido: o do monopólio. Para sustentar essa industrialização crescendo mais além da demanda por bens de consumo ou por serviços ferroviários, os industriais tinham altos custos. Em busca de rentabilidade, alguns desses homens de negócio fecharam “acordos de cavalheiros”

Esses levaram, pouco adiante, à formação de cartéis, com o intuito de limitar a concorrência e dividir os lucros. Esses acordos iniciais eram sempre pontuais. Com o tempo, muitos se formalizaram, gerando crescimento gigante em algumas indústrias.

Esse crescimento podia ser horizontal, na tentativa de monopolizar um único produto, comprando e tirando do negócio empresas concorrentes; ou vertical, unindo empresas correlatas, em vários níveis da produção e distribuição de produtos.

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História de Wall Street

Charles R. Geisset escreveu o primeiro livro com a história completa da economia de mercado de capitais norte-americana – Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 e reeditado em 2004. Vou aqui resumir seus argumentos em busca da resposta à pergunta-chave: por que lá, nos Estados Unidos, predominou essa economia de mercado de capitais em lugar de economia de endividamento bancário?

A história de Wall Street passou por várias fases. Elas serão encontradas nesse livro em quatro períodos distintos.

  1. O primeiro são os primeiros anos, de 1790 a início da Guerra Civil. Durante esse período, técnicas de negociação foram desenvolvidas e fortunas feitas. Elas alimentaram os fogos das lendas e tradições.
  2. O segundo período, da Guerra Civil a 1929, abrangeu o desenvolvimento ferrovias e trustes, os barões ladrões e, principalmente, a confiança em dinheiro. Mas se prolongou até 1929, quando a confiança do dinheiro realmente perdeu de fato total controle. O sistema financeiro tornou-se altamente regulamentado quatro anos depois. Somente quando a confiança foi quebrada, o país entrou no período moderno de regulamentação e responsabilidade pública.
  3. O terceiro período foi relativamente breve, mas intenso. Entre 1929 e 1954, os mercados sentiram o viés da regulamentação tanto como os efeitos da depressão e da guerra.
  4. O quarto e último período começou com o mercado na grande alta dos anos Eisenhower. Ele deu nova vitalidade para os mercados e a economia.

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Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?

Para meus colegas, economistas desenvolvimentistas, a nova literatura econômica recomenda o inverso da receita neoliberal dos professores do INSPER e economistas de consultorias de O Mercado: mais investimento públicoEsther Dweck é professora do IE-UFRJ e ex-secretária de Orçamento Federal, Fernando Maccari Lara é professor da Unisinos, Guilherme Mello é professor do IE-Unicamp, Julia Braga é professora da Faculdade de Economia da UFF, e Pedro Rossi é professor do IE-Unicamp. Reproduzo o artigo-resposta (FSP, 15/09/19) abaixo. Pelo menos a Folha está percebendo a ameaça da aliança entre o neoliberalismo e o neofascismo no Brasil… e abrindo espaço, ainda timidamente, para um debate plural com contraponto.

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Argumentos Neoliberais em Defesa do Conservadorismo Econômico

Marcos Lisboa é presidente do Insper, Marcos Mendes é pesquisador do Insper e MarceloGazzano é economista da A. C. Pastore. Nos últimos anos, só os neoliberais tiveram palanque  para expor sozinhos seus pontos de vista oficiosos na mídia brasileira. Nela deixou de haver debate pluralista (e civilizado)  para os social-desenvolvimentistas contraporem aos seus argumentos, baseados em método lógico-racional, com o uso do método histórico-indutivo.

No próximo post, economistas social-desenvolvimentistas apresentarão uma visão holística contra o individualismo metodológico dos neoliberais. Aos leitores, ouvintes e telespectadores ficariam mais claras as ideias de qual, em vez de imaginar o pensamento econômico ser monolítico… e equivocado. Contra o neoclassicismo há, pelo menos, o keynesianismo.

Reproduzo inicialmente o artigo dos neoliberais (FSP, 08/09/19) abaixo para depois fazer o debate público aqui em rede social. Sendo apenas em “câmara-de-eco”, o eleitorado fica mal informado e vota contra o próprio interesse social. Continuar a ler

Ai, que preguiça de ler/escutar a ladainha neoliberal…

Existem hoje 14 mil obras federais paradas no país, segundo levantamento do Tribunal de Contas da União. Em Itaboraí, Rio de Janeiro, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) virou uma cidade de ferro fantasma. Foto: Custódio Coimbra / Agência O GloboExistem hoje 14 mil obras federais paradas no país, segundo levantamento do Tribunal de Contas da União. Em Itaboraí, Rio de Janeiro, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) virou uma cidade de ferro fantasma. Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

 

 

Os nomes em defesa do chamado impulso fiscal vão de Samuel Pessôa a Eduardo Giannetti, passando pelo economista-chefe do banco UBS, Tony Volpon, e por Manoel Pires, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Sérgio Vale, da MB Associados, e Armando Castelar, também da FGV — onde esse debate público teve início —, são exemplos contrários à proposta de usar dinheiro público para reaquecer a atividade econômica. Fabio Giambiagi, chefe do Departamento de Pesquisas do BNDES, histórico defensor do rigor fiscal, é contra a injeção imediata de recursos, mas acha que a regra do teto de gastos — que limita o crescimento das despesas ao índice de inflação do ano anterior — pode ser suavizada para garantir espaço para o investimento público.

Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), recebeu críticas ao defender que a meta de déficit público seja aumentada para R$ 169 bilhões — atualmente é de R$ 139 bilhões. Esses R$ 30 bilhões a mais seriam usados para retomar obras paradas do governo federal. São 14 mil obras, de acordo com levantamento do Tribunal de Contas da União. “Não é uma proposta ortodoxa. Tem sabor keynesiano, mas há um sentimento de urgência. O desemprego está muito alto. A folga serviria para aumentar o investimento em infraestrutura, para retomar obras paradas, e teria impacto sobre o crescimento bom, forte, para reduzir o desemprego. Vai ativar o setor da economia que está mais atrasado, a construção civil. É um foco bom, empregador.”

O fôlego dado aos investimentos viria no momento adequado, segundo o economista, quando os juros estão no menor nível e a situação das empresas melhorou, com aumento da rentabilidade e redução do endividamento. O efeito multiplicador seria maior com o setor privado em situação financeira melhor, puxaria o investimento privado. O impacto na dívida pública seria pequeno, disse Pessôa. Os juros que remuneram os títulos da dívida pública estão baixos e caindo.

Ele acredita que esse impulso fiscal ajudaria o PIB a crescer 2,5% em 2020 (a estimativa do mercado é de expansão de 2,07% em 2020, de acordo com boletim Focus , do Banco Central, pesquisa com as previsões de mais de 100 bancos e consultorias). “Mais investimento, liberação do FGTS, leilões de petróleo, aumento de confiança com a reforma da Previdência podem pôr a economia brasileira rodando a 2,5% no ano que vem”, disse Pessôa. Continuar a ler

Economia de Bolhas à Americana: Aqui-e-Agora?!

Dada a obsessão do tzar do ministério da Economia, um “posto Ipiranga” com todos os poderes econômicos estatais centralizados sob si para transformar à força a economia de endividamento bancário à brasileira em economia de mercado de capitais à americana, vale colocar em debate público no Brasil as principais características dessa última. Em contexto de grande desigualdade social, caberá implantar o jogo de perde-e-ganha de fortunas sem nenhuma cautela? Adotar voluntariamente um regime de capitalização face ao desmantelamento do regime de repartição da Previdência Social será prudente?

A New York Stock Exchange (NYSE) é a Bolsa de Valores de Nova Iorque, localizada em Manhattan, na Wall Street. Foi criada em 1792, seis anos após a Independência dos Estados Unidos. Por que?

Somente depois dos mercadores norte-americanos pioneiros começarem a voltar sua atenção para a ideia de fornecer/tomar dinheiro emprestado ou se associar para criar novos empreendimentos, a ideia de negociar ações e títulos e valores mobiliários se tornou atrativa. Um mercado secundário para esses ativos já existia na Europa, inicialmente na Holanda, há mais de cem anos. A ideia demorou a atravessar o Atlântico.

As bolsas de valores (bourses) europeias foram estabelecidas, no século XVII, como lugares onde os governos poderiam vender seus próprios títulos de dívida pública e as grandes empresas comerciais poderiam arrecadar dinheiro para suas aventuras no exterior. Os holandeses foram os primeiros, em 1611, a desenvolver suas incursões ultramarinas com base em corporações com capital em ações. A bolsa de valores de Londres remonta sua história a 1697, quando um escritório no Coffee-House of Johnatan listou os preços das ações e as cotações das matérias primas.

Além de negociar commodities vitais para o desenvolvimento comércio mercantilista, as duas bolsas de mercadorias começaram a negociar ativamente novos conceitos em financiamento: ações e empréstimos via títulos de dívida direta. Governos e empresas privadas começaram a considerar os investidores privados como fontes de capital. Continuar a ler

Da Conquista do Oeste Americano à Conquista do Norte Brasileiro

Quem assistiu à série documental da Netflix, produzida por Robert Redford e denominada The West, em especial, a sequência onde Crazy Horse lidera a resistência dos indígenas à expansão dos colonos imigrantes europeus para o Oeste, amparada pelo general Custer, não deixa de lembrá-la agora, quando garimpeiros, grileiros, madeireiros, e traficantes de droga invadem reservas indígenas na Amazônia. Pior, estão amparados pela verborragia do líder da casta dos militares reformados na presidência.

Ele usa uma quantidade excessiva de palavras com enorme fluência – e pouca influência. Diz coisas de conteúdo ralo ou sem importância em termos da sabedoria ou da diplomacia esperada de um verdadeiro líder. Por essa postura inadequada a um chefe de Estado, por nepotismo em relação aos filhos e favoritismo com seus pares, demonstra total falta de compostura. Perde apoio político da maioria da população.

Deveria apresentar um nexo para nossa diversidade cultural e social, representar uma ligação das distintas partes para configurar um todo nacional coeso. O cargo maior da República exige um modo de ser – ou de estar –, revelador de sobriedade, educação, comedimento. Um tosco se caracteriza pela rudeza e grosseria em sua linguagem provocadora de inimizades. É destituído de cultura, de refinamento espiritual. Inculto, representa apenas gente limitada, também tosca de espírito. Demonstra uma educação (familiar ou militar) sem nenhum apuro ou refinamento escolar.

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