Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Fundamentos da Economia Narrativa: Causalidade e Constelações

O objetivo deste livro de autoria de Robert J. Shiller, “Narrative Economics: How Stories Go Viral & Drive Major Economic Events” (Princeton University Press; 2019), é melhorar a capacidade das pessoas de antecipar e lidar com grandes eventos econômicos, como depressões, recessões ou estagnação secular, ou seja, de longo prazo. Incentiva-as a identificar e incorporar em seus pensamentos as narrativas econômicas. Elas ajudam a definir esses eventos.

Antes de podermos prever com confiabilidade, precisamos entender as verdadeiras causas finais desses eventos. O principal problema é determinar o que é uma causa versus o que é uma consequência.

Embora os economistas modernos tendam a ser muito atentos à causalidade, como regra geral eles não atribuem nenhum significado causal à invenção de novas narrativas. Shiller quer argumentar aqui não apenas a causalidade existir, mas também ser nos dois sentidos: novas narrativas contagiosas causam eventos econômicos e eventos econômicos causam mudanças nas narrativas.

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A Bolsa ou A Vida

A Grande Guerra (1914-1918), a Grande Depressão (1929-1939) e a ascensão do nazi fascismo (1919 e 1939) foram consequências diretas das tentativas de organizar a economia global com base no liberalismo de mercado. Esta hipótese foi defendida por Karl Polanyi (1886-1964) em seu livro clássico “A Grande Transformação” (1944).

O neofascismo tupiniquim não tem sido também uma reação política de parcela inculta da população às lamentáveis consequências socioeconômicas da volta do neoliberalismo desde 2015? Paradoxalmente, resultou em uma aliança oportunista entre a casta dos militares e a dos mercadores. Daí o preposto atuante como “Posto Ipiranga”, centralizador de tudo sob seu ministério da Economia, com o propósito de tornar o Estado mínimo e O Mercado autorregular a si e também a sociedade!

Karl Polanyi destacava, ao longo da história, sempre a economia esteve incrustada na sociedade. Criticava qualquer espécie de determinismo econômico.

Rejeitava, em consequência, a concepção da economia como sistema autossuficiente de relacionamentos entre mercados capazes de ajustarem entre si a oferta e a procura através do mecanismo dos preços relativos. Economistas ortodoxos ainda adotam essa ideia do modelo de equilíbrio geral. Não reconhecem, exceto na crise, a necessidade do auxílio dos governos para superar as falhas do funcionamento do livre-mercado.

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Aprendendo com a Venezuela: Más Consequências do Abandono da Democracia

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), continua o estudo do caso da Venezuela: reeleito presidente da Venezuela em 2000, Hugo Chávez consolidou ainda mais o poder em suas mãos.

Quanto mais isso acontecia, mais a oposição se manifestava. Os pais protestavam contra os planos do Ministério da Educação de rever os livros didáticos de história. Eles iriam demonizar os primeiros quarenta anos de democracia venezuelana — “cubanizando” os livros didáticos, acusava-se. Diante da oposição dos pais, o governo voltou atrás, por algum tempo.

Além disso, milícias locais chamadas de “círculos bolivarianos”, tendo como modelo os Comitês de Defesa da Revolução cubanos, para, como anunciou Chávez, criar “uma grande rede humana” de defesa da revolução.

Entre os novos controles sobre os meios de comunicação estavam a determinação de que a imprensa poderia ser punida por espalhar “notícias falsas” ou “meias-verdades”.

Especialmente alarmante, porém, era o pacote de 49 leis que ampliavam bastante o poder do Estado e que passou a vigorar sem a aprovação da Assembleia Nacional.

Ao mesmo tempo, Chávez estendeu seu controle sobre a empresa estatal de petróleo. A contínua politização da PDVSA estava desgastando sua eficácia e seu profissionalismo, características pelas quais a empresa ficara conhecida no mundo inteiro.

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Manifesto de Professores(as) e Pesquisadores(as) Abaixo-Assinados do IE-UNICAMP

Manifesto de Professores(as) e Pesquisadores(as) Abaixo-Assinados do Instituto de Economia (IE) da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Coronacrise e Medidas de Enfrentamento

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia do COVID-19. Ele produz uma combinação de crise sanitária, econômica e social sem precedentes na história recente.

Devido a seu enorme potencial de contágio, o novo coronavírus sobrecarrega os sistemas de saúde e exige medidas restritivas, como o isolamento social e a decretação de quarentenas. Evidentemente, essas medidas sanitárias, fundamentais para conter o espraiamento do vírus, promovem a paralisação da atividade econômica, levam à perda de empregos e renda da população, e provocam a falência de diversas empresas, em particular as de menor porte e sem capital de giro.

A quarentena em diversas localidades rompe a divisão internacional do trabalho interdependente e especializada. Interrupções nas cadeias globais de produção culminam em depressão econômica em nível mundial.

Nesse cenário, a atuação conjunta da Comunidade, do Estado e do Mercado torna-se fundamental para impedir a crise tomar proporções catastróficas. No plano da política econômica, em curto prazo, cabe a utilização massiva da política fiscal. Política monetária, isoladamente, será insuficiente.

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Fluxo de Caixa e Alavancagem Financeira das Grandes Corporações

Reportagem do Valor sobre o fluxo de caixa e a alavancagem financeira das Sociedades Abertas (SA) se utiliza de dados de balanços do fim do ano passado. O valor de mercado delas caiu, radicalmente, ao fim do primeiro trimestre de 2020 com o crash da Bolsa de Valores, quando explodiu a bolha de ações. Logo, o capital próprio marcado a mercado diminuiu em relação à dívida financeira.

Fernando Torres (Valor, 27/03/2020) informa: a grande maioria das empresas da bolsa brasileira tem dinheiro em caixa para cobrir mais de um ano de pagamento da folha de salários de seus funcionários, segundo levantamento do Valor Data com base em dados de balanços do fim do ano passado.

O argumento do jornalista é: se elas parassem de vender e receber pelas vendas por causa da quarentena a que muitas estão sujeitas por causa da pandemia do novo coronavírus, 85% delas conseguiriam honrar seus compromissos trabalhistas por 12 meses com o dinheiro que possuem no banco. Metade dos 15% restantes conseguiria cobrir ao menos seis meses de salários e, por coincidência ou não, as demais são majoritariamente de setores que devem sofrer menos com a crise, como serviços públicos, farmácias e produção de alimentos.

Os dados se referem a 97 empresas não financeiras. Elas fazem parte do Ibovespa e do Small Caps com seus balanços de 2019 já divulgados. Se a amostra for de 67 empresas integrantes do Ibr-X, o resultado é parecido: 84% conseguem cobrir 12 meses de folha de pagamento.

A lista não inclui instituições financeiras pela contabilidade diferente, mas é certo os grandes bancos do país, empregadores de centenas de milhares de brasileiros, também têm folga financeira para pagar salários por muito tempo.

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Da Exuberância Irracional À Economia Narrativa

Este livro de Robert J. Shiller, “Economia Narrativa” (2019), é a pedra angular de uma linha de pensamento desenvolvida ao longo de grande parte da sua vida. Ele se baseia no trabalho dele e seus colegas, principalmente George Akerlof, realizado ao longo de décadas, culminando em seu discurso presidencial, “Narrative Economics“, em sua posse na American Economic Association em 2017 e nas suas Marshall Lectures na Cambridge University em 2018.

Este livro faz uma ampla tentativa de sintetizar as ideias em todos esses trabalhos, vinculando essas ideias à epidemiologia (o ramo da Ciência preocupado com a disseminação de doenças) e propondo a noção de os vírus pensados ​​serem responsáveis ​​por muitas das mudanças observadas nas atividades econômicas. A “história” de nossos tempos e de nossas vidas pessoais está mudando constantemente, mudando assim como mudam nossos comportamentos.

As ideias sobre Economia Narrativa apresentadas neste livro se encaixam nos recentes avanços na tecnologia da informação e nas mídias sociais, porque esses são os canais pelos quais as histórias viajam pelo mundo e se tornam virais em milissegundos. Daí tiveram efeitos profundos no comportamento econômico.

No entanto, este livro também examina um longo período da história quando as comunicações eram mais lentas, quando as histórias eram repetidas por telefone e telégrafo e por jornais entregues por caminhão ou trem.

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Juro Real na Mínima Histórica

Lucas Hirata e Victor Rezende (Valor, 27/03/2020) avaliam: em um movimento quase inimaginável há alguns anos, a taxa de juro real do Brasil recuou praticamente a zero nos últimos dias. Em tempos normais, sinalizaria uma política monetária bastante estimulante.

No entanto, diante de um choque sem precedentes na atividade em todo o mundo, a percepção de boa parte dos participantes de O Mercado é no sentido de pressionar o Banco Central efetuará cortes adicionais na Selic para tentar dar impulso à recuperação da economia mais à frente. Devem estar “comprados em dólar”!

A expectativa por novas rodadas de afrouxamento monetário tem derrubado as taxas futuras de juros na B3, em movimento resultante em novas mínimas históricas do juro real de curto prazo. Isto tem levado a MtM (Market-to-Market) ou MAM (Marcação-a-Mercado) nos FIF RF e à perda de capital de investidores PF com suas reservas para aposentadoria em títulos prefixados.

Cálculo do Valor Data a partir do contrato de swap de juro de 360 dias, descontada a projeção de inflação no Boletim Focus para um ano, apontou no dia 25 de março de 2020 uma taxa de juro real de 0,08%, o nível mais baixo em toda a série histórica, iniciada em 2002.

A queda do juro real leva à fuga de capital para o exterior porque a bolha de ações inflou e já explodiu. Nos últimos dias, bancos como J.P. Morgan e Barclays pressionam para uma redução de 0,50 ponto percentual na Selic, apesar do discurso adotado pelo Banco Central de o juro em 3,75% aa estar em um nível adequado.

Ele sabe o tamanho da dívida corporativa em dólares ter elevado ¼ quando o dólar aumentou seu patamar médio de R$ 4/US$ para R$ 5/US$ em um trimestre. Veja acima a dívida corporativa externa em reais no fim de 2019 e multiplique por 1,25.

O Relatório de Inflação divulgado na véspera comemorava o resultado do ano passado!

“O estoque de endividamento amplo das firmas passou de R$ 2.892,8 bilhões em dezembro de 2018 para R$ 3.051,1 bilhões ao final de 2019. Apesar do aumento da dívida total, a participação da dívida externa recuou 0,6 p.p. no período – único decréscimo anual nos últimos cinco anos – passando de 41,1% para 40,5%. Esse movimento foi mais do que compensado pelo aumento do financiamento junto ao mercado doméstico de capitais (Gráfico 1).” Só 🙂

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