Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Pobres Brasileiros: Sem Dinheiro para Comprar de Microcomputadores e Estudar

O número de domicílios com acesso à internet em áreas rurais e urbanas aumentou durante a pandemia. O celular continuou como principal canal para acessar a internet, mas de 2019 a 2021, a televisão ultrapassou o computador.

Os dados são da pesquisa TIC (tecnologias da informação e comunicação) Domicílios, feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). O Cetic.br faz parte do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Em 2019, 51% dos domicílios rurais tinham acesso à internet – em 2021, a fatia subiu a 71%. Nas áreas urbanas, eram 75% dos domicílios em 2019, e 85% no ano passado.

O estudo mostra, em relação ao dispositivo usado para conexão, a TV ter ultrapassado o computador. Em 2014, apenas 7% das pessoas acessavam internet pela televisão, índice que disparou para 50% em 2021. Enquanto isso, o uso do computador caiu de 80%, em 2014, para 36%, em 2021. O celular é o campeão para acesso à internet – saindo de 76%, em 2014, para 99%, em 2021.

O acesso à internet por meio da TV é principalmente para atividades culturais como assistir filmes, séries, esportes e programas, e ouvir música.

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Apresentação do do Relatório de Desenvolvimento Mundial 2022

Carmem M. Reinhart, Vice-presidente sênior e economista-chefe   Banco Mundial, escreveu a seguinte apresentação do Relatório do Desenvolvimento Mundial 2022.

Em meio a uma incerteza excepcional, formuladores de políticas públicas ao redor do mundo viram-se obrigados a lidar com a delicada tarefa de reduzir as medidas de apoio econômico implementadas durante os estágios iniciais da pandemia de Covid-19 (causada pelo coronavírus), incentivando, ao mesmo tempo, a criação das condições necessárias para restaurar a atividade econômica e o crescimento.

Um desafio significativo é a falta de transparência — criada ou reforçada pela pandemia e (involuntariamente) exacerbada por ações políticas — sobre os riscos embutidos nos balanços patrimoniais dos setores público e privado.

A recessão de 2020, induzida pela pandemia, levou ao maior aumento anual da dívida global em décadas. Antes da pandemia, a dívida privada já havia alcançado níveis recorde em muitas economias avançadas e emergentes, deixando muitas famílias e empresas despreparadas para resistir a um choque adverso de renda.

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Diagnóstico e Terapia Econômico-Financeira

A Professora Maria da Conceição Tavares me ensinou: – Fernando, nunca diga nada sobre a economia brasileira sem apresentar evidências empíricas! Senão, dirão ser ideologia…

Necessitamos obter uma visão macrossistêmica das redes de interconexões. Assim, veremos os vínculos e/ou as interações entre os principais componentes da economia, por meio dos quais os riscos em um subsistema (pagamentos, gestão de dinheiro ou financiamento) podem afetar o sistema econômico-financeiro complexo, emergente de interações dele com os demais.

Ao compararmos as taxas de variações do PIB real entre Argentina, Brasil, China e Estados Unidos, nas duas primeiras décadas do século XXI, observamos os dois países periféricos terem feito uma disputa à parte em termos de depressões econômicas, ou seja, quedas absolutas do PIB. Em 21 anos, a Argentina “goleou” o Brasil de 10 X 3. As ocorridas no Brasil foram em 2015 (-3,5%), 2016 (-3,3%) e 2020 (-4,06%.

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World Bank. Relatório de Desenvolvimento Mundial 2022: Finanças a Serviço de uma Recuperação Equitativa

Uma nova edição do Relatório de Desenvolvimento Mundial traça um roteiro para enfrentar as vulnerabilidades financeiras criadas pela crise da Covid-19. Vou reproduzi-lo em uma série de posts com tradução para o português.

O novo Relatório de Desenvolvimento Mundial tem seu foco nos riscos econômicos inter-relacionados das famílias, empresas, instituições financeiras e governos ao redor do mundo, enfrentados em consequência da crise da Covid-19. O relatório oferece novos insights de pesquisas sobre os vínculos entre balanços patrimoniais e potenciais dispersões entre os setores.

Além disso, oferece recomendações de políticas com base nesses insights. Mais especificamente, trata de como reduzir os riscos financeiros decorrentes das políticas extraordinárias adotadas em resposta à crise da Covid-19, apoiando uma recuperação equitativa.

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Eleições 2022: Educação na Encruzilhada

A oportunidade trazida pela transição demográfica no país, com redução do contingente de crianças e jovens, é um dos eixos centrais de um estudo enviado às equipes dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais de todo o país com propostas para a educação. O trabalho argumenta que a mudança na composição etária da população abre espaço para que, com os mesmos recursos, seja possível fazer mais pela qualidade do ensino básico no país (inclui da pré-escola ao ensino médio).

A ideia é investir mais em gestão e eficiência para garantir um salto no ensino, especialmente com nova política de atração e treinamento de professores, sem necessidade de mais dinheiro. Entre especialistas, no entanto, não há consenso. Há quem defenda que ainda assim é preciso ampliar orçamento para permitir melhores alcance e qualidade da educação.

Com mais de 70 páginas, o documento “Eleições 2022: a educação na encruzilhada” foi encomendado pelo Instituto Alfa e Beto à consultoria IDados, do mesmo grupo, e defende que a nova estrutura etária reduz a pressão por demanda de vagas. O estudo cita dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) de redução do número de matrículas.

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Promoção de Setores Estratégicos na China

Financial Times 17/06/22) publicou a seguinte reportagem sobre promoção de setores estratégicos na China.

Quando Xi Jinping revelou seu primeiro grande manifesto político após assumir o comando do Partido Comunista da China, ele eletrizou o mundo das finanças com uma postura pró-mercado, defendendo o recuo das empresas estatais para que os mercados passassem a representar um papel “decisivo” na segunda maior economia do mundo.

Mas nos anos que se seguiram, ondas de volatilidade nos mercados de ações e moeda da China, a ameaça de ruptura financeira dos magnatas do setor de tecnologia e os temores de que a abertura de capital das empresas chinesas no exterior pudessem violar a segurança dos dados, serviram para reforçar o argumento entre as autoridades de que se os mercados iriam desempenhar um “papel decisivo”, então o papel do Partido Comunista deveria ser ainda mais decisivo.

“Os líderes chineses acham que sabem mais do que o mercado e muitas de suas ações causaram danos reais ao mercado e à economia”, disse Weijian Shan, um dos financistas mais experientes e bem-sucedidos da China, em uma videoconferência com brokers durante o recente lockdown contra a covid-19 em Xangai. Shan disse que seu grupo de private equity PAG, com foco na Ásia e que gerencia mais de US$ 50 bilhões, se diversificou para fora da China.

As duras críticas de Shan, há muito um grande defensor de Pequim, vieram num momento crítico para os mercados de capitais do país. Uma repressão regulatória na China reduziu em US$ 2 trilhões o valor de mercado dos grupos de tecnologia de capital aberto nos últimos 12 meses, enquanto Xi protestava contra a “expansão desordenada do capital”.

No lugar dos mercados abertos, o cenário para a captação de recursos que emergiu na China é cada vez mais moldado pelas prioridades estratégias mais amplas de Xi – focadas em tecnologias consideradas fundamentais para a disputa econômica com o Ocidente, dirigidas pelo Estado e marcadas por suspeitas de influências externas.

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Aprender a Pensar

O que significa “aprender a pensar”?

Seria uma questão de aprender certas habilidades intelectuais, como a leitura fluente, a lógica ou a expressar-se claramente?

Exigiria familiaridade com alguns textos transcendentais ou fatos históricos?

Talvez consista em corrigir certos preconceitos capazes de obscurecerem nosso discernimento?

Recentemente, Tim Harford (Financial Times apud Valor, 19/06/22) leu um ensaio instigante do psicólogo Barry Schwartz, mais conhecido pelo livro “O Paradoxo da Escolha”. Escrevendo há alguns anos no jornal “The Chronicle of Higher Education”, Schwartz argumentou: um dos objetivos do ensino universitário, em especial o ensino de artes liberais, é ensinar os alunos a pensar. O problema é: “ninguém sabe realmente significado disso”.

Schwartz propõe suas próprias ideias. Ele mostra mais interesse em virtudes intelectuais em lugar de habilidades cognitivas. “Todos os traços que discutirei têm uma dimensão moral fundamental”, diz, antes de argumentar a respeito de nove virtudes:

1. amor à verdade;

2. honestidade quanto às próprias deficiências;

3. imparcialidade;

4. humildade e vontade de procurar ajuda;

5. perseverança;

6. coragem;

7. ouvir com atenção;

8. empatia e olhar por meio de outros pontos de vista; e, por fim,

9. sabedoria quando não se peca pelo excesso em nenhuma dessas outras virtudes.

Se uma pessoa é altamente versada e brilhantemente racional, mas deixa a desejar nessas outras virtudes, por ser 1. indiferente à verdade, 2. negar os próprios erros, 3. preconceituosa, 4. arrogante, 5. facilmente desencorajada, 6. covarde, 7. desdenhosa, 8. narcisista e 9. propensa a todo tipo de excesso.

Poderia essa pessoa realmente ser descrita como alguém com a sabedoria de pensar?

Sem dúvida, seria o tipo de pessoa inadequada para colocar no comando de qualquer coisa.

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Inflação e Transmissão da Política de Juros

Escrevi um relatório de pesquisa com dois grandes objetivos. O primeiro é repensar a atualidade das Teorias de Inflação existentes antes do Plano Real, implementado em 1994. O segundo é entender quais são os critérios de análise do COPOM para a fixação de juros disparatados em relação aos do resto do mundo. Clique para download:

Fernando Nogueira da Costa – Inflação e Transmissão da Política de Juros – junho 2022

Há, na atual equipe econômica, dois típicos Vieses Heurísticos (ou “irracionalidades”).

A diretoria do Banco Central do Brasil pratica o Viés da Ação, ou seja, torna-se ativa mesmo quando de nada adianta. Age como os homo sapiens, no início da evolução humana, quando a atividade compensava face à reflexão. A prudência na espera (ou inação) não valeria nenhum reconhecimento público.

Já a equipe do Ministério da Economia só é notável pelo Viés da Omissão. Como tanto uma omissão quanto uma ação, pensa o prócer dela, não evitaria o retrocesso econômico nacional, de acordo com sua ideologia, ele opta pela omissão.

Para os adeptos do Estado mínimo parece ser mais inofensivo. Um dos mantras ilusionistas do ministro da Economia, cujo único (e irônico) sucesso pode ser medido pelo número de executivos de banquetas e empresas repetindo um lugar-comum: “seu mérito não está naquilo feito, mas sim naquilo deixado de ser malfeito pelo Estado”.

Alimentando esta ilusão neoliberal, o ministro da Economia busca seu apoio entre os idiotas, aqueles sem desconfiar do mal, feito a si e aos outros. Desafia quem duvidava de sua coabitação com o oportunismo das “pedaladas fiscais” eleitoreiras…

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Contrarreforma do Sistema de Pagamentos com Cartões de Crédito

Fui convidado para participar de um Seminário Internacional para debater o tema “Bancos comerciais no financiamento do setor produtivo e missão social”. Será realizado no dia 21 de junho de 2022, a Câmara dos Deputados. O evento será realizado das 17h às 18h30 e será transmitido ao vivo pela TV Câmara: www.camara.leg.br.

Minha questão-chave para os representantes dos bancos é simples, embora o sistema bancário seja complexo: como mudar o sistema de pagamentos no varejo com cartões de crédito no próximo governo? Analiso aqui possíveis objeções.

O primeiro contra-argumento é o desse sistema já ter sido transformado pelos consumidores brasileiros em uma instituição imutável. Em quantidade de transações, foram ao todo 31,1 bilhões de pagamentos com cartões no ano passado, o equivalente a quase 85 milhões por dia, 33% a mais se comparado ao volume do ano anterior.

Instituições são estruturas ou mecanismos de ordem social. Regulam, formal ou informalmente, o comportamento de um conjunto de indivíduos dentro de uma determinada comunidade. São identificadas com uma função social, transcendente às intenções particulares dos indivíduos, mediando regras estabelecidas pelo costume ou comportamento social.

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Funcionalidade do Sistema Bancário

Download do Relatório de Pesquisa:

Fernando Nogueira da Costa – Bancos Financiamento e Missão Social – junho 2022

Fui convidado para participar de um Seminário Internacional para debater o tema “O papel do financiamento na retomada do crescimento da economia brasileira”. Será realizado no dia 21 de junho de 2022, terça-feira, no auditório Freitas Nobre, Anexo IV da Câmara dos Deputados. O evento será realizado das 9h30 às 18h30, subdividido em mesas temáticas e será transmitido ao vivo pela TV Câmara: www.camara.leg.br.

Comporei a mesa “Bancos comerciais no financiamento do setor produtivo e missão social” (17:00-18:30), para fazer comentários em 15 minutos sobre o dito por representantes dos “big five” bancos comerciais brasileiros. Faço aqui um resumo do possível de falar brevemente, “colocando o dedo-na-ferida”.

Para começar a análise de um sistema complexo emergente de interações entre três subsistemas (de pagamentos, de gestão de dinheiro e de financiamento) é necessário partir de uma visão holista, isto é, do todo. Inseridos na economia global estão seus múltiplos agentes econômicos – governo e Banco Central, sistema financeiro nacional, Pessoas Jurídicas e Pessoas Físicas –, estas últimas respectivamente subdivididas por porte, natureza de atividades econômico-financeiras, e ocupações, renda e riqueza.

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Endividamento com Cartões de Crédito

O percentual de famílias com dívidas a vencer (cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, prestação de carro e de casa) alcançou 77,7% em abril, o maior nível desde janeiro de 2010, início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). Há um ano, a proporção de endividados era de 67,5%, 10,2 pontos percentuais abaixo.

A inflação alta, persistente e disseminada (IPCA em 11,3% ao ano naquele mês), e a taxa de desocupação (10,5% da PEA) mantêm elevadas as necessidades de crédito para recomposição da renda. As famílias encontram nos recursos de terceiros uma saída para manter seu nível de consumo. Pior, usam e abusam de um instrumento emergencial – cartões de crédito – com juros elevadíssimos (350% aa).

O percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso bateu um novo recorde, atingindo 28,6% do total de famílias, 4,3 pontos percentuais acima do apurado em abril de 2021, mostrando significativa piora na evolução no ano corrente. O cartão de crédito segue como o tipo de dívida mais procurado pelos consumidores em geral (88,8%), mesmo sendo a modalidade com os custos mais elevados.

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Perda de Renda durante Atual Desgoverno

Leonardo Vieceli (FSP, 10/06/22) informa: a perda de renda afetou pobres e ricos em 2021, mas foi mais intensa para os brasileiros com menos condições financeiras, indica pesquisa divulgada nesta sexta-feira (10) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Conforme o levantamento, que vai além do mercado de trabalho e também analisa outras fontes de recursos, incluindo programas sociais, os 5% da população com menor renda tiveram queda de 33,9% no rendimento médio de 2020 para 2021.

A baixa é a mais intensa entre 13 classes pesquisadas pelo IBGE. Todas elas amargaram recuos na comparação dos dois últimos anos, sinaliza o instituto.

De 2020 para 2021, os 5% mais pobres viram o rendimento médio domiciliar per capita recuar de R$ 59 para R$ 39 por mês. Vem dessa comparação a queda de 33,9%.

A renda domiciliar per capita corresponde ao ganho total dividido pela quantidade de pessoas em cada residência.

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