Sobre Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SP - Brasil. Autor do livro "Brasil dos Bancos". Ex-VP Caixa (2003-07).

Aplicação da Teoria Monetária Moderna: Baixe o Livro

A dívida pública disparou, desde a crise financeira de 2008, e especialmente durante a pandemia de covid-19. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a relação dívida pública sobre PIB nas economias avançadas aumentou a partir de uma média em cerca de 70% em 2007 para 124% em 2020. 

O temor de a crescente dívida pública alimentar futuras crises fiscais foi amortecido, em parte, pelo fato de os encargos financeiros com os títulos de dívida pública estarem baixos desde então. Eles foram mantidos baixos pelo “afrouxamento quantitativo” (QE, nas iniciais em inglês), após as Grandes Depressões de 2008 e de 2020. 

Os enormes gastos fiscais foram justificáveis para aliviar os sofrimentos decorrentes desses episódios. Mas os defensores da Teoria Monetária Moderna (TMM) levam essa lógica abstrata para além das circunstâncias locais. São distintas para os Estados Unidos, os demais países avançados e os países atrasados, submetidos ao Império do Dólar.

Os adeptos da TMM alegam, quando a dívida pública é denominada na própria moeda do país, não há motivo para temer uma crise fiscal, porque não pode ocorrer um calote. Qualquer retirada de estímulo fiscal, dado durante as crises, assim, deve ser gradual. 

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Escolha entre Investimento Financeiro Prefixado, Pós-fixado e Atrelado à inflação

O ano de 2021 foi da renda fixa na indústria de fundos de investimentos. Depois de um 2020 negativo, com saídas de R$ 38,6 bilhões, 2021 registrou recorde de captação, com R$ 291,5 bilhões até o dia 29 de dezembro, segundo os dados da Anbima, entidade que representa o mercado de capitais e de investimentos.

O fluxo acompanhou o ciclo de alta de juros, com a Selic saindo de 2%, em janeiro do ano passado, para 9,25% ao ano no fim de 2021. Multimercados e fundos de ações perderam ritmo, especialmente nos últimos meses. Só em dezembro, saíram R$ 12,7 bilhões dos fundos mistos, com a captação no ano ficando em R$ 54,8 bilhões até o dia 29. Nas carteiras de ações, houve saque de R$ 2,9 bilhões em dezembro, com o saldo positivo do ano em apenas R$ 970,9 milhões.

Com expectativas de que a taxa referencial chegue a 11,5% ao fim do atual ciclo de aperto monetário, conforme coleta do Banco Central (BC) no boletim semanal Focus, a renda fixa tende a ser um lugar considerado confortável para o investidor. O modo rentista foi reativado com a tríade segurança, liquidez e retorno. E se a inflação ceder, como se espera, a classe volta a proporcionar ganhos reais.

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10 Tendências Tecnológicas para 2022. 

João Luiz Rosa e Daniela Braun (Valor, 03/01/22) informam: o metaverso promete eliminar as fronteiras entre o mundo físico e o digital. Eles está no centro da lista das dez tendências tecnológicas para 2022.

Ainda é difícil determinar que contornos esse novo ambiente assumirá no futuro, mas a recente decisão do Facebook de mudar seu nome corporativo para Meta, numa alusão a esse conceito, mostra como as “Big Techs” estão determinadas a construir essa rede e definir os modelos de negócio que a tornarão viável e lucrativa.

Os usuários poderão tanto imergir em universos virtuais, na pele de representações digitais ou avatares, como sobrepor imagens e dados digitais ao mundo concreto, podendo interagir com essas informações.

Na prática, trata-se de uma combinação de duas vertentes tecnológicas já existentes – a realidade virtual e a realidade aumentada – acrescida do caráter aglutinador das redes sociais.

“O metaverso é o próximo paradigma computacional da humanidade”, diz Hugo Barra, executivo brasileiro que já passou por cargos internacionais de comando em empresas como Google, Xiaomi e Facebook.

A cada 15 ou 20 anos, afirma Barra, a tecnologia ingressa em um novo ciclo. Foi assim com os mainframes nos anos 50, os minicomputadores nos 60, os PCs na década de 80, e os dispositivos móveis a partir de meados dos anos 90, quando o uso da internet passou a se disseminar. A fase atual, caracterizada pelos smartphones e os aplicativos, começou em 2010.

“Faz 11 anos que entramos nesse paradigma. Então, se a história se repetir, teremos um novo salto até o fim da década. Em cinco anos, já veremos mudanças significativas.”

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Perdão das Dívidas do FIES: Risco Moral

Paulo Meyer Nascimento é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor visitante da Escola de Políticas Públicas e Governo da Fundação Getulio Vargas. Publicou artigo (Valor, 04/01/22) sobre a política eleitoreira do atual desgoverno.

No apagar das luzes de 2021, o governo editou medida provisória, prometida há meses, com regras de anistia para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A anistia alcança dívidas em atraso superior a 90 dias – parâmetro que as tornam, sob a ótica oficial, de difícil recuperação. Joga-se para a torcida anistiando dívidas já contabilizadas como prejuízo ao erário. De todo modo, anistia pura e simples não é a melhor solução e isso já é bem sabido. Trata-se de caminho rápido – e ruim.

O Fies é um programa de empréstimos, não de bolsas. Quando um contrato do Fies é assinado, o governo paga as mantenedoras das instituições de ensino com títulos a serem usados apenas para honrar débitos fiscais e previdenciários.

De tempos em tempos, o próprio governo recompra os títulos das mantenedoras sem dívidas pendentes. Contratos assinados até 2017 exigem, durante o curso, pagamentos de R$ 150 a cada 3 meses, a título de amortização; contratos posteriores exigem coparticipação mensal, que varia de caso a caso. Em todos, findas matrícula e carência, emitem-se boletos das prestações propriamente ditas, durante prazo preestabelecido.

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Pobres no Ativo, Ricos no Passivo: Baixe o Livro

Niall Ferguson, em seu livro “A Ascensão do Dinheiro”, no segundo capítulo trata do mercado de títulos de dívida pública. Denomina-o de “Servidão Humana”.

“Depois da criação do crédito pelos bancos, o nascimento dos títulos foi a segunda grande revolução na ascensão do dinheiro”, afirma.

Desde o início modesto, nas Cidades-Estado do norte da Itália, cerca de oitocentos anos atrás, o mercado para títulos cresceu amplamente. Hoje, todos habitantes do planeta são afetados pelo mercado de títulos de duas maneiras importantes. 

Em primeiro lugar, uma grande parte do dinheiro em reserva financeira para a aposentadoria dos trabalhadores acaba sendo investida no mercado de títulos. 

Em segundo lugar, por sua dimensão e porque os grandes governos são considerados como os mais confiáveis tomadores de empréstimos, o mercado de títulos estabelece as taxas de juros de longo prazo para a economia como um todo. 

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Armadilhas da Pobreza

A revolução keynesiana na HPE (História do Pensamento Econômico) foi propiciar uma visão macro sistêmica aos economistas, diferenciando-a da visão microeconômica dos homens de negócios. Estes — e os economistas não dotados dessa visão holística — padecem do individualismo metodológico e extrapolam as experiências vivenciadas para o todo.

Não percebem as interações entre os agentes econômicos resultarem em um todo distinto da mera agregação das partes porquanto elas se alteram em suas interdependências e/ou interconexões. Consequência disso foi Keynes mostrar o desemprego não ser responsabilidade individual de trabalhadores, embora um compete com outro quando há poucas vagas, mas sim da criação massiva de empregos por gastos de investimentos dos capitalistas, expandindo capacidade produtiva.

Observe como o viés do individualismo metodológico prejudica a análise da chamada “armadilha da pobreza” no artigo compartilhado abaixo de autoria do Tiago Cavalcanti (Valor, 05/01/22), professor de Economia da Universidade de Cambridge e da FGV-SP.

Em artigo de 2007 publicado no Journal of Economic Perspectives, Abhijit Banerjee e Esther Duflo, vencedores do prêmio Nobel de Economia de 2019, investigaram de forma detalhada a vida de pessoas que vivem na extrema pobreza em um conjunto de 13 países.

Verificou-se serem indivíduos que vivem em famílias numerosas, gastando de 56 a 75% da renda com alimentação. Cerca de 10% dos gastos dessas famílias são com ritos sociais, a exemplo de casamentos e velórios, enquanto, em média, 10% dos gastos são com álcool ou cigarro. Tais famílias quase não investem em educação e dependem do Estado ou de organizações não governamentais para receberem algum tipo de investimento em capital humano.

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Novo ciclo de investimentos na expansão e modernização do parque industrial após o fim do atual desgoverno

Thiago de Moraes Moreira é consultor em planejamento estratégico e professor do Corecon-RJ, Ibmec-RJ e IE-UFRJ. Publicou artigo (Valor, 05/01/22) sobre fragilidades (e oportunidades) reveladas pela inflação.

Chegamos ao fim de 2021 em um contexto de deterioração do ambiente macroeconômico brasileiro, caracterizado por uma inflação de dois dígitos, bem como pelas consequências traduzidas na redução do poder de compra e na escalada da taxa de juros. A raiz principal da piora no prognóstico de desempenho econômico para 2022 está, sem dúvida, associada ao atual processo inflacionário.

Neste sentido, para uma análise de possíveis cenários futuros, vale a reflexão sobre as origens desta inflação, destacando em que medida elas revelam fragilidades, ao mesmo tempo em que podem também apontar para algumas oportunidades.

Muito tem se discutido sobre as causas (externas e internas) da atual inflação. No front externo, o grande destaque é para o que se convencionou chamar de “desarticulação das cadeias globais de suprimentos”. Trata-se de um fenômeno decorrente da pandemia, contemplando aspectos conjunturais e potencialmente estruturais.

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CBDCs: Moedas Digitais dos Bancos Centrais

Armando Castelar (Valor, 07/01/22) publicou artigo sobre as Moedas Digitais dos Bancos Centrais.

O Banco Central (BC) da China, que já emite o yuan digital há algum tempo, em caráter experimental, deve ampliar seu uso este ano, tornando-o disponível para os turistas que visitarem o país durante as Olimpíadas de Inverno. E, mais globalmente, segundo Benoît Curé, que até pouco tempo chefiava o departamento de inovação do BIS (o BC dos bancos centrais) além de ser membro do Comitê Executivo do Banco Central Europeu, há a expectativa de um acordo internacional sobre esse tema este ano.

Segundo conclui Curé em entrevista para o Financial Times, “certamente o tempo para uma regulação consistente chegou”, referindo-se não apenas às CBDCs, mas também aos chamados criptoativos em geral (ver on.ft.com /3z8mkxy).

Os BCs da maioria dos países têm trabalhado intensamente para desenvolver suas moedas digitais. Não obstante, o tema tem sido pouco discutido porque, me parece, muitos BCs estão fazendo isso, não por acharem essa uma grande ideia, mas por se sentirem forçados a tal.

De um lado, pela competição que está sendo imposta pelo dinheiro privado e por todas as inovações financeiras que esse permite, muitas delas fora do controle das autoridades, mas nem por isso isentas de tornar o sistema financeiro mais arriscado.

De outro, pelo receio de que outros países ganhem espaço no mercado financeiro internacional, se saírem na frente na criação de suas CBDCs. Há, assim, uma disputa por espaço, e muitos BCs querem estar preparados para rapidamente introduzir suas CBDCs, caso julguem necessário.

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Processo de “commoditização” das Exportações Estaduais

Daniel Rittner (Valor, 07/01/22) informa: o processo de “commoditização” das exportações avança sobre o mapa do Brasil. Em todas as regiões do país, produtos ligados ao agronegócio ou à indústria extrativista terminaram o ano dominando a pauta de vendas ao exterior. A soja tornou-se campeã de embarques em dez Estados, petróleo bruto ou derivados estão na liderança em três unidades federativas e o minério de ferro agora é a principal mercadoria exportada em outras três.

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), a participação da indústria de transformação nas exportações brasileiras encolheu de 63% em 2010 para 51,3% em 2021. Essa categoria também abrange produtos do agronegócio que passam por algum tipo de processamento industrial, como carnes, celulose e açúcar refinado.

Até São Paulo, o Estado mais industrializado do país, tem sua pauta de exportações liderada por commodities. Açúcar (US$ 5,6 bilhões no ano passado) e petróleo bruto (US$ 4,3 bilhões) – cuja produção disparou nos últimos anos por causa do pré-sal – são os dois bens mais vendidos ao exterior. As aeronaves da Embraer, primeiro item puramente da indústria, vêm depois e contribuíram com US$ 2,3 bilhões.

No Paraná, os automóveis de passageiros – que aparecem na frente entre os bens manufaturados fora do agro ou do extrativismo – são apenas o oitavo produto mais exportado. Também em oitavo estão os calçados no Rio Grande do Sul. Os dois Estados tiveram soja em grãos como mercadoria de destaque em 2021.

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SPACs: Special Purpose Acquisition Company ou Sociedade de Propósito Específico – SPE

Denis Morante é sócio-fundador da Fortezza Partners. Escreveu artigo (Valor, 07/01/22) explicando o que são as SPACs.

Desde 2020, temos visto a expressão Spac aparecer em jornais de negócios brasileiros – o que parece ser uma onda chegando ao nosso mercado. Este artigo explora o que são, dimensão do mercado, como funcionam, histórico nos EUA e os aspectos da recente chegada dessa tendência ao mercado brasileiro, bem como a nossa previsão de possíveis desdobramentos desse tipo de operação em território nacional.

As Spacs (sigla de Special Purpose Acquisition Company ou, em português, Sociedade de Propósito Específico – SPE) são normalmente criadas pelos “sponsors”, que são profissionais de renome no mercado, cuja credibilidade é capaz de atrair milhões de dólares em capital na listagem.

Esses sponsors costumam ser ex-executivos bem-sucedidos de empresas líderes em seus mercados de atuação, bem como gestores de fundos de investimento. Atualmente, há grandes gestores internacionalmente conhecidos que têm iniciado suas Spacs.

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Tributação de Criptomoedas Usadas em Atividades Ilícitas

Criminosos usaram uma quantia recorde de criptomoedas para fins ilícitos em 2021, mas o crescimento dos mercados de ativos digitais como um todo superou o aumento do número de golpes.

A quantidade de criptomoedas enviadas para endereços que têm ligações conhecidas com grupos criminosos disparou para um recorde de US$ 14 bilhões no ano passado, mais do que o dobro em relação a 2020, de acordo com uma pesquisa da empresa de dados Chainalysis.

Golpes, “ransomware” e roubos aumentaram 79%, em termos de dólares, no ano passado, mas o mercado como um todo teve uma expansão de 550%, com US$ 15,8 trilhões em criptomoedas negociados em 2021. Isso significa que a proporção de atividades ilícitas com relação ao total caiu para o nível mais baixo de sua Varejo história.

As tendências anuais sugerem o crime estar se tornando uma parte menor do ecossistema das criptomoedas.

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Queima do Capital Excedente: Fusões e Aquisições

O capitalismo vai bem, mas a economia e o povo vão mal… Mudou em relação ao dito pelo ditador militar na época do chamado “milagre econômico brasileiro”. 

O mercado de capitais não reflete sempre os fundamentos microeconômicos, setoriais ou macroeconômicos. Por exemplo, A Apple estabeleceu uma nova marca no mercado acionário mundial, no início de 2022, ao se tornar a primeira empresa de capital aberto a ultrapassar o valor de mercado de US$ 3 trilhões. Impressiona o ritmo com o qual a empresa chegou ao valor menos de 500 dias após alcançar a marca de US$ 2 trilhões.

O valor de mercado da Apple subiu cerca de US$ 2 trilhões desde a baixa causada pela pandemia em março de 2020. Para comparar, o valor de mercado de 398 companhias abertas na bolsa de valores de São Paulo atingiu R$ 4,5 trilhões (52% do PIB brasileiro de R$ 8,6 trilhões) ou US$ 815 bilhões em 30/12/21. Valem pouco mais de ¼ da Apple…

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