⅓ Esquerdistas, Petistas, “Mortadelas”, ⅓ Direitistas, Antipetistas, “Coxinhas”, ⅓ “Isentões”

Em quem você vai votar pra presidente? Questionados assim, na bucha, sete em cada dez brasileiros, dizem que não sabem ou que não vão votar. Outros dois vão se dividir entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O que resta está pulverizado. Este é o voto que gente de pesquisa de opinião chama de espontâneo.

A essa altura, sem campanha formal na rua, é o dado mais valioso de uma pesquisa porque traduz o voto, de fato, consolidado. Lula vem caindo no quesito e Bolsonaro, crescendo. A única novidade do último Datafolha é que o deputado do PSL, pela primeira vez, ultrapassa Lula, ainda na margem de erro. Entre os votos espontâneos, tem 12%, dois pontos percentuais a mais que o petista. Os alheios somam 69%. Dez pontos pingam nos demais candidatos.

Fernando Limongi é professor do DCP/USP e pesquisador do Cebrap. Escreveu (Valor, 19/06/18) sobre o atual panorama eleitoral.

“A Copa começou e ninguém está nem aí. Pelo menos é o que dizem as pesquisas. O Brasil está estranho, para lá de estranho. O pessoal que foi às ruas com a camisa da seleção para protestar não se anima a torcer. Mas o bicho vai pegar se o time acertar e aí o velho fanatismo desperta. Nas eleições, dá-se o inverso, agora é a hora de demonstrar a paixão e marcar posição. Mas, conforme o desfecho se aproximar, o realismo e o cálculo falarão mais alto.

Por enquanto, a opção por alternativas radicais prevalece. Bolsonaro e Lula mantêm a liderança nas pesquisas, mas nem um e muito menos o outro têm chances reais de chegar à final. Para Lula, dado que não poderá ser candidato, o realismo é inevitável. Quem herdará seus votos?

O PT quer crer:

  1. a questão inexiste e se afinca à crença do poder demiúrgico de seu líder;
  2. sua indicação produzirá o milagre da transferência dos votos.

A estratégia de Bolsonaro não é menos irracional: o confinamento autoimposto dos tiros com silenciador.

Os dados da mais recente pesquisa do Datafolha indicam a resiliência da clivagem política sobre a qual gira a política brasileira de 2006 em diante. Bipartidárias desde 1994, as eleições presidenciais ganharam contornos sócioeconômicos claros na reeleição de Lula. Basicamente, o PT tem mais votos entre os mais pobres, enquanto o PSDB entre os mais ricos.

A natureza da relação dos dois partidos com seus eleitores, entretanto, não é a mesma. Quando perguntados se têm um partido, boa parte dos eleitores que votaram em Lula e Dilma se dizia petista. Já os que votaram em Serra, Alckmin e Aécio diziam não ter preferência partidária. Pesquisas acadêmicas recentes e as análises do Datafolha mostram que a despeito de não se declararem tucanos, boa desses eleitores se dizia antipetista.

Assim, política brasileira e, em especial a disputa presidencial, passou a girar em torno dessa clivagem política, uma competição entre os simpatizantes e antagonistas do PT, entre a esquerda e a direita, ‘mortadelas’ e ‘coxinhas’, ou como quer que se queira denominá-los.

Os dois grupos têm mais ou menos a mesma força, algo como um terço do eleitorado. Isso significa que os eleitores do centro, que não se colocam em um desses campos, são decisivos. Portanto, para vencer as eleições, é preciso:

  1. conquistar as preferências do seus simpatizantes naturais e,
  2. em um segundo momento, se mostrar palatável para o centro. Continue reading “⅓ Esquerdistas, Petistas, “Mortadelas”, ⅓ Direitistas, Antipetistas, “Coxinhas”, ⅓ “Isentões””

Arte de Argumentar

A epígrafe de “O livro ilustrado dos maus argumentos”, escrito por Ali Almossawi, traz uma advertência fundamental ao citar Richard P. Feynman: “O primeiro princípio é não enganar a si mesmo – e você é a pessoa mais fácil de ser enganada.”

Este livro é dedicado aos iniciantes na área do raciocínio lógico, principalmente àqueles que – para usar uma expressão de Pascal – são feitos de tal maneira que aprendem melhor por meio de imagens. Ali Almossawi selecionou os 19 erros de argumentação mais comuns. Sua expectativa é o leitor aprender nestas páginas algumas das principais armadilhas encontradas em discursos e debates, para então conseguir identificá-las e evitá-las na prática.

A literatura sobre lógica e falácias lógicas é ampla e variada. Existem diversos livros com proposta de ensinar o leitor a utilizar as ferramentas e paradigmas sustentáculos de um bom raciocínio, de forma a produzir debates mais construtivos. No entanto, ler sobre o que não se deve fazer também é muito útil.

Este livro trata fundamentalmente de o que não se deve fazer em uma argumentação. Continue reading “Arte de Argumentar”

Neuroeconomia e Erros de Pensamento Comuns no Futebol

Neuroeconomia cataloga os erros recorrentes do pensamento humano. O animal humano repete erros, por exemplo, o segundo casamento é a vitória da esperança emocional sobre a experiência racional. A lógica não diz respeito a como pensamos, assim como a gramática não é referência de como falamos.

Um jogo de futebol constitui bom exemplo de conjunto complexo em ação. Com equipes equivalentes e campo neutro, como é na Copa do Mundo, é impossível acertar a priori os resultados de todas as partidas. Estes emergem de circunstâncias incontroláveis – e indeterminadas pelo passado. São onze indivíduos de um lado competindo com onze do outro lado para chutar ou cabecear a bola na rede da meta, ou seja, marcar “goal”.

As balizas de um campo de futebol são formadas por duas traves (ou postes) verticais, com o tamanho de 2,44 metros de altura e separados por um poste (ou travessão), na horizontal com o tamanho de 7,32 metros. Pelo número de gols conseguidos, quando a bola transpõe essa linha fatal, parece ser uma façanha bem mais difícil em relação a remessar uma bola com as mãos dentro de um aro da cesta de 45 centímetros de diâmetro. Os cestos do basquete são colocados a uma altura de 3 metros e 5 centímetros do solo.

Os jogadores selecionados entre os melhores do País são dotados de inteligência cinestésica, ou seja, agudo sentido da percepção de movimento, peso, resistência e posição do corpo, provocado por estímulos do próprio organismo. São treinados para atuar coletivamente. Porém, em poucas e raras vezes, a iniciativa particular coroa o sucesso em lances capitais. O maior número de finalizações vai para fora da meta ou é desviado para escanteio. Falhas dos atacantes são superiores às dos defensores, mas as destes últimos são fatais – e mais notadas. Continue reading “Neuroeconomia e Erros de Pensamento Comuns no Futebol”

O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos

Ali Almossawi, em “O livro ilustrado dos maus argumentos” (Rio de Janeiro: Sextante, 2017), apresenta em anexo uma série de definições apropriadas para o bom entendimento de seus ensinamentos de Lógica.

ARGUMENTO: Série de proposições com o intuito de persuadir por meio do raciocínio. Em um argumento, um subgrupo de proposições, chamadas premissas, apoia outra proposição, chamada conclusão.

proposição: Afirmação que pode ser verdadeira ou falsa, mas não as duas coisas ao mesmo tempo.

premissa: Proposição que dá apoio à conclusão de um argumento. Pode haver uma ou mais premissas para cada argumento.

falseabilidade: Uma proposição é falseável se puder ser refutada e desmentida por meio da observação ou de um experimento. Por exemplo, a asserção “todos os cisnes são brancos” pode ser facilmente refutada ao se apontar para um cisne negro, como se descobriu na Austrália.

Quando uma teoria resiste à refutação pela experiência, então, pode ser considerada comprovada. Por isso, de acordo com o método científico, a falseabilidade é um sinal de força do argumento e não de sua fraqueza. Continue reading “O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos”

Futebol e o Acaso

Simon Kuper & Stefan Szymanski escreveram o livro sobre futebol mais fundamentado em estatística jamais publicado: Soccernomics: Por que a Inglaterra perde, a Alemanha e o Brasil ganham, e os Estados Unidos, o Japão, a Austrália, a Turquia – e até mesmo o Iraque – podem se tornar o esporte mais popular do mundo(Rio de Janeiro; Editora Tinta Negra; 2010).

A maioria dos torcedores entende a sorte ser importante, mesmo eles construindo um história pós-factual sobre o torneio de futebol onde a vitória ou a humilhação parece determinada desde o início. Mas os dados apontam para uma situação ainda mais assustadora em vez da existência de acaso: não há praticamente nenhuma diferença entre equipes inglesas “brilhantes” e “terríveis”. Parece suspeito como se a seleção da Inglaterra fosse sempre mais ou menos igualmente boa.

Isso pode parecer difícil de acreditar. Os torcedores sentem fortemente as distintas qualidades de gerentes e jogadores. Há períodos de otimismo nacional e pessimismo nacional, associado à visão da equipe ser forte ou vergonhosa. Continue reading “Futebol e o Acaso”

Sistemas de Estatísticas Vitais no Brasil para Políticas Públicas Contemporâneas

O Brasil registrou 1.095.535 casamentos civis em 2016, dos quais 1.090.181 entre pessoas de sexos diferentes e 5.354 entre pessoas do mesmo sexo. Houve queda de 3,7% no total de casamentos em relação a 2015. É o que mostra a pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2016, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No Brasil, nas uniões civis entre cônjuges solteiros de sexos diferentes, os homens casam-se, em média, aos 30 anos, e as mulheres, aos 28 anos. Nas uniões entre pessoas do mesmo sexo, a idade média no casamento era de cerca de 34 anos, tanto para homens quanto para mulheres.

Em 2016, a pesquisa apurou que foram concedidos 344.526 divórcios em 1ª instância ou por escrituras extrajudiciais, um aumento de 4,7% em relação a 2015, quando foram registrados 328.960 divórcios.

A maior proporção das dissoluções ocorreu em famílias constituídas somente com filhos menores de idade (47,5%) e em famílias sem filhos (27,2%). A guarda dos filhos menores é ainda predominantemente da mãe e passou de 78,8% em 2015 para 74,4% em 2016. A guarda compartilhada aumentou de 12,9% em 2015 para 16,9% no ano passado.

No ano, 2.793.935 nascimentos foram registrados no Brasil, uma redução de 5,1% na comparação com 2015, quando foram contabilizados 2.945.344 nascimentos. Foi a primeira queda desse número desde 2010.

Para os economistas da felicidade, os índices de divórcio, desemprego, saúde física e mental, dão mais pistas sobre o bem-estar social do que o PIB. Uma separação conjugal tem efeito tão negativo sobre o bem-estar quanto a perda de 2/3 de seus rendimentos. A perda do afeto resulta em dor similar à perda do emprego e da autoestima.

Casamentos chegam ao fim por meio de divórcios formais, concedidos em primeira instância ou por escrituras extrajudiciais. Segundo o IBGE, duram em média 15 anos. Porém, cerca de ⅓ dos casais se separam antes de completarem 5 anos de casamento e,  desses, ⅕ não chegam nem a completar 2 anos.

Idade Média de Divórcios é de homens com 43 anos e mulheres com 40 anos, ou seja, eles não conseguem ultrapassar juntos a crise de meia-idade, depois de cerca de 15 anos casados e mais uns de namoro. Aliás nem sabem o que é Crise de Meia-Idade: uma forma de insegurança sofrida por alguns indivíduos quando estão passando pela “meia-idade”.

Eles percebem o período de sua juventude estar acabando e a idade avançada se aproximando. Essa crise pode ser desencadeada por vários fatores relacionados com essa época da vida, durante a crise da meia-idade, como:

  1. a morte dos parentes,
  2. casos extraconjugais,
  3. andropausa,
  4. menopausa,
  5. sensação de envelhecimento,
  6. insatisfação com a carreira profissional e
  7. saída dos filhos de casa.

Normalmente, quem passa por isso sente uma enorme vontade de mudar seus modos de vida:

  1. fazendo gastos exagerados com aquisições fúteis,
  2. abandonando o emprego ou
  3. terminando o casamento.

Os homens, em geral, desconhecem o que é a crise de meia-idade. Assim como pouco sabem a respeito do ciclo feminino. Eles não compreendem apenas a época da menstruação, quando há uma série de mudanças hormonais. Alteram diretamente as emoções, o humor, o vigor físico e a disposição das mulheres. Os homens necessitam desse conhecimento básico, seja na aprendizagem familiar, seja no ensino escolar, para terem empatia com as mulheres. Continue reading “Sistemas de Estatísticas Vitais no Brasil para Políticas Públicas Contemporâneas”

Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) – 2016

Entre 2007 e 2016, a Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) mostrou uma queda da participação das obras de infraestrutura (de 41,3% para 29,5%) no valor adicionado desse setor, enquanto aumentou a representtividade da construção de edifícios (de 39,7% para 45,9%), e dos serviços especializados (de 19% para 24,6%).

O total da receita bruta chegou a R$ 319,6 bilhões em 2016. O valor das obras e serviços da construção atingiu R$ 299,1 bilhões, sendo que 31,5% vieram das obras contratadas por entidades públicas (R$ 94,1 bilhões) e o restante por pessoas físicas e/ou entidades privadas.

Havia 127 mil empresas ativas da indústria, ocupando cerca de 2,0 milhões de pessoas em 2016. O gasto com salários, retiradas e outras remunerações chegaram a R$ 58,5 bilhões e o salário médio mensal foi de R$ 2.235,16.

Obras e/ ou serviços da construção executados pelas empresas de construção continuou a ser o item mais importante do setor e responsável por 91,4% da sua receita bruta total, o equivalente a R$ 292,1 bilhões em 2016. Outras informações podem ser obtidas no material de apoio do IBGE:

 

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