O Andar do Bêbado: Como O Acaso Determina Nossa Vida

Nas últimas décadas, surgiu novo campo de investigação acadêmica que pesquisa o modo como as pessoas fazem julgamentos e tomam decisões quando defrontadas com informações imperfeitas ou incompletas. Em situações que envolvem o acaso, nossos processos cerebrais costumam ser deficientes. É área que reúne muitas disciplinas, não só a matemática e as ciências tradicionais, como também a psicologia cognitiva, a economia comportamental e a neurociência moderna. Embora um de seus principais autores, Daniel Kahneman, tenha ganhado Prêmio Nobel de Economia, em 2002, suas lições, em grande parte, ainda não são conhecidos do grande público.

Este livro, O Andar do Bêbado: Como o Acaso Determina Nossa Vida (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Educação., 2009, 249 páginas), está na lista dos mais vendidos de Não Ficção, no Brasil. Ele é uma tentativa de popularizar a Teoria da Aleatoriedade. Trata dos princípios que governam o acaso, do desenvolvimento dessas idéias e da maneira pela qual elas atuam em política, negócios, medicina, economia, esportes, lazer e outras áreas da atividade humana. Também trata do modo como tomamos decisões e dos processos que nos levam a julgamentos equivocados e decisões ruins quando confrontados com a aleatoriedade ou a incerteza.

Doutor em Física pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Leonard Mlodinow hoje ensina as Teorias da Aleatoriedade no Instituto de Tecnologia da Califórnia. Por puro acaso, ele estava no World Trade Center na hora dos ataques terroristas do 11 de setembro de 2001, e, também por puro acaso, sobreviveu. Antes, já tinha escrito livros de sucesso, inclusive com Stephen Hawking, Uma Nova História do Tempo.

O título O Andar do Bêbado vem da analogia que descreve o movimento aleatório e serve como metáfora para a nossa vida. Podemos empregar as ferramentas usadas na compreensão do andar do bêbado para entendermos os acontecimentos da vida diária.

Outro autor de prestígio em Finanças Comportamentais, Richard Thaler, tinha dito o seguinte. “Um bêbado andando em um campo pode criar um caminho aleatório, embora ninguém possa chamar sua escolha de direção racional. Se os preços dos ativos dependem do trajeto que o bêbado adotou, seria boa idéia estudar como bêbados se orientam”…

Essa afirmação, ironicamente, faz referência ao “caminho aleatório” da Hipótese do Mercado Eficiente. Como os investidores não adivinham se o conteúdo da nova notícia será positivo, isto é, favorável à alta, ou negativa, levando à baixa das cotações, esse “caminho aleatório” recomenda que a melhor atitude é acompanhar o mercado e não tentar superá-lo. Nenhum investidor conseguiria isso de maneira sistemática, ao longo de vários anos. Esse “caminho aleatório”, paradoxalmente, é seguido pelas Finanças Racionais…

O objetivo do livro de Mlodinow é ilustrar o papel do acaso no mundo que nos cerca e mostrar de que modo podemos reconhecer sua atuação nas questões humanas. Gostei mais do décimo e último capítulo, justamente, o intitulado O Andar do Bêbado.

Nele, Mlodinow começa criticando a doutrina do determinismo: a idéia de que o estado do mundo no momento presente determina precisamente a maneira como o futuro se desenrolará. Na vida cotidiana, o determinismo pressupõe que nossas qualidades pessoais e as propriedades de qualquer situação ou ambiente levam direta e inequivocamente a conseqüências precisas. Nesse suposto mundo ordenado, tudo pode ser antecipado, computado, previsto. Mlodinow se pergunta, pelo contrário, sobre o quanto a aleatoriedade contribui para a situação em que nos encontramos na vida, e com que precisão somos capazes de prever para onde nos dirigimos.

Os cientistas, geralmente, pressupunham que se as condições iniciais de algum sistema fossem ligeiramente alteradas, sua evolução também se alteraria apenas ligeiramente. Lorenz descobriu que pequenas diferenças levavam a alterações grandes no resultado. O fenômeno conhecido como “Efeito Borboleta”, com base na idéia de que ínfimas alterações atmosféricas, como as causadas pelo bater das asas de um borboleta, poderiam ter grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais.

Uma seqüência cinematográfica fantástica para ilustrar como eventos aleatórios, aparentemente inconseqüentes, podem levar a grandes mudanças pessoais está no filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Envolve a cena quando a personagem Daisy, a bailarina interpretada por Cate Blanchett, é atropelada em Paris.

Na verdade, o determinismo se mostra incapaz de satisfazer as condições de previsibilidade nas questões humanas às quais aludiu Laplace. Além de ser imprevisível, o comportamento humano é, freqüentemente, irracional, agindo inclusive de modo contrário aos próprios interesses, como demonstrado por Kahneman e Tversky.

Mesmo que conseguíssemos descobrir as leis dos assuntos humanos, é impossível conhecermos ou controlarmos precisamente as circunstâncias de nossas vidas. As questões humanas são tão complexas que, mesmo que compreendêssemos as leis e possuíssemos todas as informações, dificilmente conseguiríamos realizar os cálculos necessários. Por isso, o determinismo é modelo fraco para descrever a experiência humana. Como o ganhador de Prêmio Nobel, Max Born, disse, “o acaso é conceito mais fundamental que a causalidade”.

Nos estudos científicos dos processos aleatórios, o “andar do bêbado” é o arquétipo. Os eventos aleatórios nos empurram, continuamente, em uma direção e, depois, em outra. O futuro de cada indivíduo é impossível de prever. Todos devemos muito mais ao acaso do que somos capazes de perceber. Não temos como evitar certas forças inesperadas e imprevisíveis. Essas forças aleatórias e nossas reações a elas são responsáveis por muito do que constitui o trajeto particular que seguimos na vida.

Entretanto, na vida cotidiana, o passado parece óbvio, mesmo que não tivéssemos a possibilidade de haver previsto. Em qualquer série complexa de eventos na qual cada evento se desenrola com algum elemento de incerteza, existe assimetria fundamental entre o passado e o futuro. O movimento sem rumo prossegue em alguma direção. Até que atinge alguma posição significativa que, finalmente, chama nossa atenção. Então, investigamos o motivo da ocorrência desse acontecimento inesperado.

Em retrospecto, conseguimos explicar, claramente, porque o passado ocorreu de determinada forma, embora não tenhamos previsto de antemão o trajeto. Isso teria envolvido número quase inimaginável de cálculos matemáticos, série muito maior, em escopo e dificuldade, que a lista de eventos necessária para entendermos o passado. Essa assimetria fundamental pode ser expressa por ditado como “depois da onça morta, todo o mundo é caçador”.  Aparecem os “engenheiros de obra feita”.

Há processo probabilístico cujo futuro é difícil de prever, mas cujo passado é fácil de entender. A sucessão lógica de eventos, deduzida a posteriori, é o modo como vemos a coisa em retrospecto, tendo pouca relevância na previsão de eventos futuros. A ordem do passado se dissolve quando extrapolada para o futuro.

Sistematicamente, deixamos de enxergar o papel do acaso no sucesso de empreendimentos e de pessoas. Acreditamos, irracionalmente, que os erros do passado devem ser conseqüências da ignorância ou da incompetência. Confiamos demais nas previsões excessivamente precisas de pessoas, desde comentaristas políticos ou esportivos até especialistas em Finanças, passando por consultores de negócios, cujo histórico supostamente demonstra serem grandes conhecedores desse assuntos. Os palpites se transformam em fórmulas que alegam possuir precisão de várias casas decimais, mas os resultados esperados são, na verdade, grandes chutes!

Os historiadores, cuja profissão consiste em estudar o passado, sabem que não é possível prever a maneira como decorrerão as coisas. É a ilusão de inevitabilidade.

Pior, após qualquer tragédia, surge sempre o jogo de culpas no qual pessoas, geralmente do governo, são acusadas por não terem previsto o que estava por acontecer. Os eventos, vistos em retrospecto, certamente parecem apontar em direção óbvia. Se começarmos a analisar bem antes do fato e acompanharmos os eventos progressivamente, a sensação de inevitabilidade se dissolve rapidamente. Afirma Mlodinow: “o estudo da aleatoriedade nos mostra que enxergar os eventos por bola de cristal é possível, mas, infelizmente, apenas depois que eles já aconteceram”.

O conhecimento de porque aconteceu algo é vazio, ou seja, tem pouca utilidade se quisermos saber o que acontecerá no futuro. É fácil construir histórias para explicar o passado ou convencer de algum desdobramento futuro duvidoso. Para nos imunizarmos contra os erros da intuição, temos de enxergar tanto as explicações ex-post como as profecias com ceticismo. Em vez de confiarmos em nossa capacidade de prever os acontecimentos futuros, com base em nosso arcabouço determinístico automático, devemos nos concentrar na capacidade de reagir a eles.

A nova Teoria dos Acidentes codifica o argumento central de Mlodinow: em sistemas complexos, entre os quais a nossa vida, devemos esperar que fatores menores, que geralmente ignoramos, possam causar grandes acidentes em função do acaso. Os sistemas modernos são formados por milhares de partes, incluindo seres humanos falíveis e as decisões tomadas por eles, que se inter-relacionam de maneiras impossíveis de rastrear e prever individualmente. Os acidentes acabarão por ocorrer, sem causas claras, sem a presença de erros evidentes e vilões irresponsáveis, tão perseguidos por Comissões Parlamentares de Inquéritos na busca de “bodes expiatórios”.

Há também a visão determinística do mercado, segundo a qual o sucesso é governado principalmente pelas qualidades intrínsecas da pessoa ou do produto. Porém, há a visão não determinística, segundo a qual há muitos livros, cantores e atores de alta qualidade, porém desconhecidos, e o que faz com que um deles se destaque é, em grande parte, conspiração de fatores pequenos e aleatórios, isto é, a sorte. Talvez a explicação do sucesso de “O Andar do Bêbado” seja apenas isso: sorte.

Nossa sociedade se apressa em transformar os ricos em heróis e os pobres em bodes expiatórios. Obviamente, pode ser erro julgarmos o brilhantismo das pessoas em proporção à sua riqueza. Não enxergamos o potencial individual, apenas o resultados, pensando que estes devem refletir o interior. A Teoria do Acidente Normal não nos mostra que, na vida, a conexão entre ações e resultados é aleatória, mas sim que influências aleatórias são tão importantes quanto nossas qualidades e ações. As pessoas superestimam a capacidade de inferir a habilidade de determinada pessoa em função de seu sucesso.

As classificações de popularidade não concordam com a qualidade intrínseca determinada por avaliadores isolados. A aparente popularidade influencia os futuros compradores. Depois de ouvirem alguns elogios, os futuros consumidores/expectadores tendem a gostar mais daquele produto. Pequenas influências casuais criam “bola de neve”, gerando o “efeito borboleta” para seu sucesso. Daí, a maioria das pessoas não consegue evitar o julgamento intuitivo de que o que ganha o produtor se correlaciona ao valor pessoal.

Por exemplo, os autores devem ser julgados por seu modo de escrever e não pelas vendas de seus livros, ou seja, a pessoas devem ser julgadas mais por suas habilidades que por seus êxitos. A linha que une a habilidade e o sucesso é tênue. A habilidade não garante conquistas, e as conquistas não são proporcionais à habilidade. Não se pode esquecer o papel do acaso.

Quando desistimos de algum projeto por acreditarmos no julgamento dos outros, ou do mercado, em vez de acreditarmos em nós mesmos, trata-se realmente de uma tragédia. O que Mlodinow aconselha é “seguir em frente, pois a grande idéia é a de que, como o acaso efetivamente participa de nosso destino, um dos mais importantes fatores que levam ao sucesso está sob o nosso controle: o número de vezes que nos arriscamos, ou seja, o número de oportunidades que aproveitamos”.

Devemos identificar e agradecer a sorte que temos e reconhecer os eventos aleatórios que contribuem para nosso sucesso. Temos de aprender a aceitar também os eventos fortuitos que nos causam sofrimento. Mas, acima de tudo, é importante apreciar a ausência de azar, a ausência de eventos que poderiam ter nos derrubado e a ausência das doenças, das guerras, da fome e dos acidentes que não, ou ainda não, nos acometeram.

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4 thoughts on “O Andar do Bêbado: Como O Acaso Determina Nossa Vida

  1. Fernando,

    Para os sonhadores, plagiamos Johnny Alffi, de Eu e a Brisa, faz muito tempo … oh! brisa fique, pois talvez quem sabe, o inesperado faça uma surpresa e traga alguém que queira me escutar e junto a mim queira ficar …

    Eu, particularmente, não gosto da “escola comportamental” que se originou nos EUA, no campo da psicologia e da sociologia e que, junto com os ensinamentos de Pigou, migrou para o campo da Economia. Os institucionalistas, em geral, colocam o pé na questão, pois o comportamento dos “indivíduos institucionalizados” moldam,também, a sociedade.

    Obviamente, não dá para discordar integralmente, mas creio que esta é uma parte da questão. Se estou estudando comportamento, certamente quero entender a tomada de decisão dos agentes, inclusive do consumidor, seja de bens móveis ou imóveis. Mas se estou pensando na arquiterura sistêmica, a teoria fica perneta.

    1. Glorinha,
      concordo que é grande desafio intelectual avaliar se há possibilidade de deduzir de comportamentos “quase racionais”, ou seja, irracionais, alguma racionalidade sistêmica. Será que as instituições que balizam o mercado e/ou o sistema social constituem o Centro, a Primeira Causa ou o Princípio Unificador? Não sei…
      Questiona-se, atualmente, o monoteísmo científico: por que Universo e não Multiverso ou Megaverso? Por que a beleza da simetria matemática e não a estética da assimetria? O desequilíbrio ou a explosão não explicam mais do que o equilíbrio e a calmaria?
      Na Economia, não rompemos com as premissas neoclássicas para se atingir o equilíbrio geral: atomismo, informações perfeitas e flexibilidade de preços? Não argumentamos que existem sim oligopólios, assimetria de informações e rigidez de preços?
      A ciência moderna, ao mesmo tempo que mostra que não existe “o design inteligente” ou “o grande plano da Criação”, coloca a humanidade no centro do cosmo: é o “humanocentrismo”. Se podemos nos questionar sobre quem somos, sobre o mundo, inclusive sobre as instituições sob as quais vivemos, nossa existência terá significado, margem de livre arbítrio e… acaso.
      Abraço.

  2. Olá Prof. Fernando,
    Tomei conhecimento da sua página há pouco e agradeço-lhe por mantê-la tão interessante, em especial pela recomendação deste livro. Acredito que me ajudará bastante. Esta é uma grande crítica.
    Abs,

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