Vieses Cognitivos Determinantes do Voto

O voto não é tão racional. Veja como alguns vieses influem na sua decisão

Jaime Rubio Hancock (El País, 21 JUN 2016) informa que todos somos vítimas de vieses cognitivos, que são interpretações ilógicas da informação disponível. “Mais que erros, são atalhos, mecanismos que usamos todos os dias e funcionam muito bem para tomar decisões rápidas, mas, às vezes, nos conduzem ao erro”, explica Helena Matute, psicóloga espanhola da Universidade de Deusto, em Bilbao.

Não é fácil corrigi-los, sobretudo porque na maior parte do tempo nem sequer estamos conscientes deles. A única coisa que podemos fazer é “estar alerta e ser mais críticos”, diz Matute. Em política, a situação se agrava porque se adicionam elementos como emoção e sentimento de pertencimento.

Estes são alguns dos vieses cognitivos que podem influir em nosso voto:

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Seu cérebro acata apenas as notícias que lhe dão razão

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Houve um momento em que o fato de Donald Trump mentir obscenamente (em obsceno se englobaria, por exemplo, negar declarações que estavam gravadas em vídeo) sobre algo deixou de ser motivo de escândalo, de ser notícia. Essa é a essência da palavra da moda, pós-verdade, que a Fundação do Espanhol Urgente (Fundéu) define como “relativa às circunstâncias nas quais os fatos objetivos influem menos na hora de modelar a opinião pública do que os chamados à emoção e à crença pessoal”.

Durante as eleições presidenciais de 2004, submeteram alguns eleitores dos Estados Unidos a um aparelho de ressonância magnética que lia seus cérebros. Para eleitores democratas eram apresentadas frases contraditórias de seu candidato, John Kerry, que mostravam que estava sendo desonesto. E aos eleitores republicanos faziam o mesmo, mas com George W. Bush. Perguntados sobre essas contradições, os eleitores partidários ativavam as partes de seu cérebro associadas ao controle das emoções, não à razão. Sua resposta vinha das entranhas, e não da fria análise das frases.

Preferimos que as notícias nos deem razão e, no caso contrário, nos encarregamos de que os dados se encaixem em nossos esquemas mentais. Na década de 1990, a psicóloga social Ziva Kunda consolidou o conceito de raciocínio motivado: “Existem provas consideráveis de que é mais provável que as pessoas cheguem às conclusões às quais desejam chegar”, escreveu.

Este viés de auto atribuição ou validação ilusória é algo que fazemos constantemente em política:

  • ante uma corrupção do partido em que votamos, pensamos em como atenuar sua importância;
  • se for do partido rival, transformamos de imediato a história em algo importante.

Javier Salas (El País, 20/12/16) informa que, nos últimos anos, surgiram numerosos experimentos de fact-checking, ou verificação das afirmações, dos políticos. Na campanha de 2012, Barack Obama disse falsidades em 25% de suas afirmações, segundo o Politifact. Seu rival, Mitt Romney, chegou a 40%. Donald Trump alcançou 70%, mas os eleitores republicanos não deram importância a isso, embora ele tenha sido flagrado em quase todas as mentiras. A maioria reconhece que se um órgão da mídia informa sobre a falsidade de seu líder, prefere acreditar nele em vez de se fiar na notícia, segundo uma pesquisa do YouGov (PDF).

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Guia de Escrita – Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância

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Luiz Antônio Giron (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 04/11/16) resenhou o último livro de Steven Pinker, linguista e psicólogo canadense naturalizado americano, produziu o “Guia de Escrita – Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância” (editora Contexto, tradução de Rodolfo Ilari; 256 págs., R$ 49,90).

capa-guia-de-escritaManuais de estilo estão por toda parte. Eles são tanto fontes de consulta como de equívocos. Boa parte das lições desse tipo de guia para melhorar a qualidade da escrita já se revelou inútil, como usar frases e parágrafos curtos e cortar palavras “desnecessárias” – porque o que importa realmente é escrever com fluência e lógica. Os manuais vêm sendo publicados desde meados do século XIX. Como cada vez mais se faz necessário escrever com nitidez e graça, os escritores, acadêmicos e outros profissionais precisam de orientação para se livrar do “academiquês”, do “corporativês” e da literatice.

Foi pensando em quem já escreve que Pinker disse: “Confesso que gosto de ler manuais de estilo. Mas, apesar de divertidos, eles contêm falhas. Por isso, percebi a necessidade de um guia para o escritor do século XXI, baseado nas últimas aquisições da linguística da psicologia cognitiva.”

Não adianta, segundo Pinker, tentar impor regras às pessoas que escrevem hoje como no passado, pois elas costumam ser céticas e questionar a autoridade. Ele diz que a humanidade dispõe de conhecimento suficiente para distinguir procedimentos que favorecem clareza e lógica de mitos construídos por velhos gramáticos.

Steven Pinker, de 62 anos, é professor na Universidade Harvard e um dos maiores pesquisadores em ciência cognitiva da atualidade. Ele é autor de “Os Anjos Bons da Nossa Natureza” (2011), que provocou polêmica ao afirmar que os seres humanos se tornaram crescentemente pacíficos e acomodados.

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Difusão da Pressão pela Previdência e Autocontrole

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Norbert Elias, no segundo tópico da Sinopse “O Processo civilizador: volume 2 – Formação do Estado e Civilização”, afirma que o que empresta ao processo civilizador no Ocidente seu caráter especial e excepcional é o fato de que, aqui, a divisão de funções atingiu um nível, os monopólios da força e tributação uma solidez, e a interdependência e a competição uma extensão, tanto em termos de espaço físico quanto do número de pessoas envolvidas, que não tiveram iguais na história mundial.

Até então, redes extensas de moeda ou comércio, com monopólios razoavelmente estáveis de força física em seus centros, haviam se desenvolvido quase exclusivamente ao longo de vias navegáveis, isto é, acima de tudo nas margens de rios e costas de oceanos. As grandes áreas do interior permaneciam mais ou menos no nível da economia de troca, isto é, as pessoas continuavam na maior parte autárquicas e eram curtas suas cadeias de interdependência, mesmo quando algumas artérias de comércio cruzavam as áreas e existiam alguns grandes mercados.

Tendo a sociedade ocidental como ponto de partida, desenvolveu-se uma teia de interdependência que não só abrange os oceanos em maior extensão do que em qualquer tempo no passado, mas se estende às terras aráveis mais distantes do interior remoto.

Correspondendo a tudo isso, surgiram a necessidade de sincronização da conduta humana em territórios mais amplos e a de um espírito de previsão no tocante a cadeias mais longas de ações como jamais haviam existido. Ocorreu ainda o fortalecimento do autocontrole e a permanência das compulsõesa inibição de paixões e o controle de pulsões — impostas pela vida no centro dessas redes. Continue reading “Difusão da Pressão pela Previdência e Autocontrole”

O Processo Civilizador: Volume 2 – Formação do Estado e Civilização

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Na apresentação do livro “O Processo civilizador: volume 2 – Formação do Estado e Civilização”, Renato Janine Ribeiro informa que o autor “Norbert Elias demorou a ser reconhecido, ou sequer conhecido, no mundo acadêmico. Ele faleceu a 1º de agosto de 1990, em idade avançada — menos de dois meses antes, completara noventa e três anos. E no entanto, embora tenha escrito este Processo Civilizador na década de 1930 (primeira edição, 1939, na Suíça), somente nos anos 70 é que ele alcançou um reconhecimento mais amplo, começando sua obra a ser citada e a inspirar novas pesquisas. Com efeito, muitas questões que se consideravam menores, por exemplo a da etiqueta ou das boas maneiras, adquiriram, graças ao uso que Elias fez da ideia de “processo”, um sentido. Provavelmente, aliás, é a questão do sentido que deve nortear uma apreciação das indicações mais notáveis desse sociólogo de vocação interdisciplinar”.

O Volume I de O Processo Civilizador intitula-se Uma história dos Costumes. Ele consiste de dois capítulos. O Volume II, publicado em inglês pela primeira vez em 1982, consistia inicialmente do Capítulo 3 (em duas Partes) e de uma Sinopse. Essas divisões são designadas na edição da Zahar como Parte I (composta de dois capítulos) e Parte II: Sinopse.

Ao olhar para o passado, não devemos nunca nos esquecer que a sociedade humana se torna predominantemente urbana há pouco tempo. Em dimensão planetária, isso ocorreu em 2010, quando a população urbana chinesa ultrapassou a rural. No Brasil, o Censo Demográfico de 1970 registrou essa ultrapassagem. Na Índia, com apenas cerca de 1/3 de sua população morando em cidades, embora tenha o maior número de grandes metrópoles do mundo, isso ainda demorará algumas décadas para ocorrer.

Antes, em uma sociedade rural, a riqueza predominante era constituída pela posse de terras. Houve época em que a conquista de terras se dava pela força da violência…

As lutas entre a nobreza, a Igreja e os príncipes por suas respectivas parcelas no controle e produção da terra prolongaram-se durante toda a Idade Média. Nos séculos XII e XIII, emerge mais um grupo como participante nesse entrechoque de forças: os privilegiados moradores das cidades, a “burguesia”. Continue reading “O Processo Civilizador: Volume 2 – Formação do Estado e Civilização”

Discussão da Conduta Humana

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Norbert Elias, no livro “O Processo civilizador: volume 1 – Uma História dos Costumes” (Rio de Janeiro; Zahar; 1995), pergunta-se: o que aborda o tratado de autoria de Erasmo de Rotterdam, De civilitate morum puerilium (Da civilidade em Crianças), que veio à luz em 1530?

Com grande cuidado, Erasmo delimita em seu tratado toda a faixa de conduta humana, as principais situações da vida social e de convívio. Com a mesma naturalidade fala das questões mais elementares e sutis das relações humanas.

No primeiro capítulo, trata das “condições decorosa e indecorosa de todo o corpo”, no segundo da “cultura corporal”, no terceiro de “maneiras nos lugares sagrados”, no quarto em banquetes, no quinto em reuniões, no sexto nos divertimentos e no sétimo no quarto de dormir. Na discussão dessa faixa de questões Erasmo deu um novo impulso ao conceito de civilitas.

Nem sempre pode nossa consciência, sem hesitação, recordar essa outra fase de nossa própria história. Perdeu-se para nós a franqueza despreocupada com que Erasmo e seu tempo podiam discutir todas as áreas da conduta humana. Grande parte do que ele diz ultrapassa nosso patamar de delicadeza.

Mas este é precisamente um dos problemas que Norbert Elias, no livro “O Processo civilizador: volume 1 – Uma História dos Costumes”, se propõe a estudar. Rastreando a transformação de conceitos através dos quais diferentes sociedades procuraram se expressar, recuando do conceito de civilização para seu ancestral civilité, descobrimo-nos de repente na pista do próprio processo civilizador, da mudança concreta no comportamento que ocorreu no Ocidente. Continue reading “Discussão da Conduta Humana”

Desenvolvimento do Conceito de Civilidade

Civilidade em ÔnibusNorbert Elias, no livro “O Processo civilizador: volume 1 – Uma História dos Costumes” (Rio de Janeiro; Zahar; 1995), pergunta-se: o que aborda o tratado de autoria de Erasmo de Rotterdam, De civilitate morum puerilium (Da civilidade em Crianças), que veio à luz em 1530? Seu tema deve nos explicar para que fim e em que sentido era necessário o novo conceito. Deve conter indicações das mudanças e processos sociais que puseram a palavra em moda.

O livro de Erasmo trata de um assunto muito simples: o comportamento de pessoas em sociedade — e acima de tudo, embora não exclusivamente, “do decoro corporal externo”. É dedicado a um menino nobre, filho de príncipe, e escrito para a educação de crianças.

Contém reflexões simples, enunciadas com grande seriedade, embora, ao mesmo tempo, com muita zombaria e ironia, tudo isso em linguagem clara e polida e com invejável precisão. Pode-se dizer que nenhum de seus sucessores jamais igualou esse tratado em força, clareza e caráter pessoal.

Examinando-o mais detidamente, percebemos por trás dele um mundo e um estilo de vida que, em muitos aspectos, para sermos exatos, assemelha-se muito ao nosso, embora seja ainda bem remoto em outros. O tratado fala de atitudes que perdemos, que alguns de nós chamaríamos talvez de “bárbaras” ou “incivilizadas”. Fala de muitas coisas que desde então se tornaram impublicáveis e de muitas outras que hoje são aceitas como naturais. Continue reading “Desenvolvimento do Conceito de Civilidade”