Economia da Felicidade

Armando Castelar (Valor, 02.09.22) escreveu artigo sobre Economia e Felicidade, linha analítica há anos incorporada em meu curso de Finanças Comportamentais no IE-UNICAMP.

Ele informa sobre a liderança dos países nórdicos no World Happiness Report publicado esta semana (worldhappiness.report/). A Finlândia aparece mais uma vez como o país mais feliz dentre os 146 países analisados, seguida pela Dinamarca e Islândia. A Suécia e Noruega estão na sétima e na oitava posições, respectivamente. O Brasil aparece relativamente bem, na 38a colocação.

Nesta sua décima edição, o relatório busca aprofundar uma série de questões sobre o tema da felicidade, inclusive a permanente pergunta sobre o que faz as pessoas felizes. Dois temas mais relacionados à economia me pareceram especialmente interessantes:

1. a felicidade como alternativa ao PIB, enquanto métrica de progresso, e

2. como foco das políticas públicas, em lugar do crescimento econômico.

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Aprender a Pensar

O que significa “aprender a pensar”?

Seria uma questão de aprender certas habilidades intelectuais, como a leitura fluente, a lógica ou a expressar-se claramente?

Exigiria familiaridade com alguns textos transcendentais ou fatos históricos?

Talvez consista em corrigir certos preconceitos capazes de obscurecerem nosso discernimento?

Recentemente, Tim Harford (Financial Times apud Valor, 19/06/22) leu um ensaio instigante do psicólogo Barry Schwartz, mais conhecido pelo livro “O Paradoxo da Escolha”. Escrevendo há alguns anos no jornal “The Chronicle of Higher Education”, Schwartz argumentou: um dos objetivos do ensino universitário, em especial o ensino de artes liberais, é ensinar os alunos a pensar. O problema é: “ninguém sabe realmente significado disso”.

Schwartz propõe suas próprias ideias. Ele mostra mais interesse em virtudes intelectuais em lugar de habilidades cognitivas. “Todos os traços que discutirei têm uma dimensão moral fundamental”, diz, antes de argumentar a respeito de nove virtudes:

1. amor à verdade;

2. honestidade quanto às próprias deficiências;

3. imparcialidade;

4. humildade e vontade de procurar ajuda;

5. perseverança;

6. coragem;

7. ouvir com atenção;

8. empatia e olhar por meio de outros pontos de vista; e, por fim,

9. sabedoria quando não se peca pelo excesso em nenhuma dessas outras virtudes.

Se uma pessoa é altamente versada e brilhantemente racional, mas deixa a desejar nessas outras virtudes, por ser 1. indiferente à verdade, 2. negar os próprios erros, 3. preconceituosa, 4. arrogante, 5. facilmente desencorajada, 6. covarde, 7. desdenhosa, 8. narcisista e 9. propensa a todo tipo de excesso.

Poderia essa pessoa realmente ser descrita como alguém com a sabedoria de pensar?

Sem dúvida, seria o tipo de pessoa inadequada para colocar no comando de qualquer coisa.

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Ciências Comportamentais para Políticas Públicas

Richard Thaler 

Pablo Acosta é economista líder de Desenvolvimento Humano para o Brasil do Banco Mundial e doutor em Economia pela Universidade de Illinois (EUA). Sua coluna (FSP, 21/02/22) foi escrita em colaboração com seus colegas do Banco Mundial Juliana Neves Soares Brescianini, analista de operações, e Luis A. Andrés, líder de programa do setor de Infraestrutura. Compartilho-a abaixo.

Tradicionalmente, os gestores elaboram políticas públicas tendo como base um agente econômico racional, ou seja, uma pessoa capaz de avaliar cada decisão, maximizando sua utilidade para interesse próprio. Ignoram, porém, as poderosas influências psicológicas e sociais que afetam o comportamento humano e desconsideram que pessoas são falíveis, inconstantes e emocionais: têm problemas com autocontrole, procrastinam, preferem o status quo e são seres sociais. É com base nesse agente “não tão racional” que as ciências comportamentais se apresentam para complementar a forma tradicional de fazer política.

Por exemplo: já nos aproximamos da marca de dois anos desde a declaração pela Organização Mundial da Saúde de estado de pandemia da Covid-19 em 11 de março de 2020. Foram anos desafiadores para governos, empresas e indivíduos.

Mas apesar de 2021 ter apresentado sinais de recuperação, há ainda um longo e árduo caminho a ser percorrido para retornar ao menos às condições pré-pandemia. Não apenas na saúde, mas também no equilíbrio das economias, no aumento da produtividade, na retomada de empregos, na recuperação das lacunas de aprendizagem, na melhora do ambiente de negócios, no combate às mudanças climáticas, etc.

Obviamente, essa não é uma tarefa simples para governos e organizações. Poderíamos encarar esses desafios de forma diferente e adaptar a maneira de fazer políticas públicas para torná-las mais eficientes e custo-efetivas, aumentando seus impactos e alcance?

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Dicas de Livros para Investidores Iniciantes

Os livros sobre investimentos são muito importantes para as pessoas interessadas pela área. Os livros são como portas abertas para o conhecimento acerca de algo. 

Todo investidor famoso já abriu a porta do conhecimento através dos livros. Warren Buffet, inclusive, um dos maiores investidores do mundo indica vários. E vários autores o “psicografam”…

Invariavelmente, os investidores precisam “beber da água do conhecimento” através da literatura sobre Finanças Pessoais. Nathalia Arcuri, Primo Rico, Bruni Perini e outros influentes Youtubers já indicaram vários livros. Esta é a lista de livros indicados por Raul Sena, CEO e fundador do site Investidor Sardinha.

Os livros digitais são acessíveis a todos. Para quem quer se aventurar no mundo dos investimentos, ler bons livros é fundamental. 

Muitas pessoas, entrando nesse mundo, perguntam sobre livros. Dessa forma, essa é uma lista de indicações. Porém, não se limite a ela. Depois de ler os livros aqui indicados, vá além e busque novos autores e novas portas se abrirão.

Raul Sena apresenta sua lista de 10 melhores livros sobre investimentos. Alguns desses livros falam um pouco sobre a vida pessoal do autor, como ele fez para chegar aos milhões de dólares. Predominam autores estrangeiros, portanto, dizendo respeito ao mercado de ações norte-americano: uma realidade bastante distinta da brasileira.

Eu, Fernando Nogueira da Costa, acrescentarei no fim de outra lista, no próximo post, minha Cartilha de Finanças Pessoais, usado como guia do meu curso sobre Finanças Comportamentais para Planejamento da Vida Financeira.

Isso é importante para entender como a teoria pode ser aplicada à prática. Alguns livros são como um Manual, com ensinamentos importantes sobre investimentos.

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Ray Dalio: História de Vida, Carreira e Princípios

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Ray Dalio é famoso tanto por sua empresa e carreira de sucesso, quanto por seguir na sua empresa Princípios polêmicos para seus críticos conservadores. 

Ele é um investidor bilionário e fundador sócio do Bridgewater Associates. É considerada como a mais lucrativa e a maior gestora de hedge funds do mundo todo. Dessa forma, a companhia possui cerca de 1.500 funcionários e mais de US$ 140 bilhões sob a sua gestão. 

Através de suas estratégias de investimento, a Bridgewater Associates se tornou o maior fundo hedge do mundo. Um fundo hedge é um fundo de investimento multimercado.  

Além de ser dono da Bridgewater, Ray Dalio lançou livros famosos. Os livros tratam sobre assuntos inspiradores para outros investidores, mas, também, trazem princípios considerados extremos por algumas pessoas. Um desses princípios é a da transparência ao extremo.

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Ascensão dos Charlatões (por Peter Burke)

Artigo publicado em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/ascensao-dos-charlatoes/

Vivemos numa era de charlatões?

Já se disse muitas vezes que escritores possuem sensibilidade particular para as mudanças culturais de seu tempo. Portanto, a publicação em língua inglesa, nos últimos anos, de dois romances intitulados Charlatans – um de Robin Cook, outro de Jezebel Weiss – pode ser um sinal de alerta de que isso esteja acontecendo.

Talvez esses livros sejam um aviso para que tomemos cuidado com esses indivíduos que, em número crescente, prometem o que não podem cumprir, arrogam-se qualidades que não possuem ou oferecem produtos nada confiáveis, como notícias falsas, remédios suspeitos e trapaças online. A lista desses mestres da ilusão (para usar uma expressão bem-educada) pode incluir também alguns evangelizadores, curandeiros e políticos, bem como, convém não esquecer, certos intelectuais.

O que explica a proliferação dos charlatões em nosso tempo?

Uma das respostas possíveis é que ela resulta das pressões e da sedução exercidas pelos meios de comunicação, sobretudo a televisão e as redes sociais. Mas em que medida essa tendência, essa “charlatanização” da vida pública (para cunhar, agora, um termo pesado) deve nos alarmar?

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Dia de Luta das Mulheres Negras Latino-Americanas

Li o texto da Magda Barros Biavaschi e Marilane Oliveira Teixeira: Desigualdades, Feminismo e Teorias Libertadoras. Foi publicado em: 

http://www.justificando.com/2021/07/15/desigualdades-feminismo-e-teorias-libertadoras-mulheres-que-combinaram-de-nao-morrer/

Minha primeira impressão, talvez preconceituosa, foi ser mais uma denúncia marxista do capitalismo, no caso, focado na tentativa de defender sua hipótese – “sem trabalho doméstico, os trabalhadores não se reproduzem e, sem trabalhadores, o capital não pode ser reproduzido” – como uma tese. No sentido de reprodução sexual, esse postulado seria um axioma sem necessidade de ser demonstrado.

As coautoras cometem um erro metodológico de análise. Afirmam uma contribuição dado pelo marxismo ao feminismo seria um “método para compreender as bases materiais das relações sociais de desigualdade, exploração e opressão”.

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Economia da Boa Vida em lugar da Economia da Felicidade

Criador do chamado paradoxo felicidade-renda, ao qual foi conferido seu nome, e pioneiro no estudo da relação entre satisfação pessoal e dinheiro, Richard A. Easterlin chega aos 95 anos, completados em janeiro, batendo na mesma tecla que o inspira desde 1974, quando publicou seu primeiro estudo sobre a questão. Um aumento de renda pode significar no curto prazo uma maior sensação de bem-estar, mas a médio e longo prazos não é o dinheiro que traz felicidade, diz ele, que se considera feliz em parte por se dedicar exatamente a esmiuçar o tema, como disse ao Valor, por e-mail.

Seu mais recente livro, “An Economist’s Lessons on Happiness – Farewell Dismal Science!” (“Lições de um economista sobre felicidade – Adeus, ciência triste!”, em tradução livre), entrou na lista das 16 melhores obras de economia do primeiro semestre de 2021 do “Financial Times”, na seleção feita por Martin Wolf, o principal analista econômico do jornal. Wolf destaca: mais e mais pessoas estão aceitando um ponto fundamental das teses de Easterlin – de ser possível medir (e produzir) a felicidade, e é tarefa dos governos promovê-la, em vez de mirar apenas o aumento da renda.

Download:

Richard A. Easterlin – An Economist’s Lessons On Happiness_ Farewell Dismal Science! -Springer (2021)

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Brasil: Paciente em Estado de Negação

Amália Safatle (Valor, 21/05/21) escreveu reportagem com certa repercussão. O Brasil já nutria uma péssima autoimagem, que agora está evoluindo para um comportamento autodestrutivo.

Fosse o Brasil uma pessoa, dificilmente se levantaria do berço esplêndido para se deitar em um divã. É preciso admitir a existência de problemas para buscar um tratamento psicanalítico, mas esse sujeito se encontra em estado de negação. O negacionismo, palavra tão em voga, decorre da tentativa de fugir do trauma, um núcleo perturbador, constitutivo do sujeito, que portanto todo mundo tem, em maior ou menor grau. Mas, em vez de atravessar seu trauma, essa pessoa prefere contornar o sofrimento e optar por ideias exógenas, que lhe são mais convenientes.

Essa saída cobra seu preço. O sujeito age como um adolescente, embora já esteja envelhecendo, tendo acumulado questões não resolvidas de um passado doloroso, marcado por violência, autoritarismo e desilusões em série. A idade adulta chegou da pior forma, tornando esse indivíduo melancólico ou até mesmo depressivo. Mas há caminhos de cura – se o paciente aceitar ajuda terapêutica.

Este é um conjunto de visões descritas por psicanalistas convidados pelo Valor a imaginar um certo paciente Brasil, seus traços de personalidade, dores e crises. O exercício de imaginação foi encarado como um jogo por alguns, como Ricardo Goldenberg. Outros, como Sérgio de Castro, membro da Escola Brasileira de Psicanálise, viram como válida a extensão da psicologia individual para uma dimensão social.

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Esboço do Livro “Fundamentals of Happiness: An Economic Perspective” (abril 2021)

Baixe a Introdução do Livro:

Lall Ramrattan e Michael Szenberg – Fundamentos da Felicidade Uma Perspectiva Econômica – abril 2021

Capítulo 1: Introdução e visão geral da felicidade econômica

Neste primeiro capítulo, pintamos o pano de fundo sobre o qual desenharemos nossos conceitos econômicos de felicidade. Descobrimos o domínio do conceito ser um conjunto aberto de ideias. 

O conceito de utilidade é proeminente nesse domínio e é de suma importância no desenvolvimento da economia. Diz respeito à felicidade dos indivíduos e da sociedade. Ambos têm desafios de mensuração. 

Pode-se adotar uma abordagem subjetiva ou objetiva para a felicidade econômica com base em sua inclinação. Essa é a visão panorâmica do projeto em questão. Ela é elucidada em diferentes capítulos especializados nas ideias substanciais encontradas na literatura.

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Escopo da Felicidade

Antigos pensamentos sobre felicidade estão ligados à ideia do bem supremo. De acordo com o filósofo Immanuel Kant, “o supremo bem-criado é o mundo mais perfeito, ou seja, um mundo no qual todos os seres racionais são felizes e são dignos de felicidade” (Kant, 1963, p. 6). Isso implica existirem algumas considerações éticas subjacentes à felicidade.

Se alguém alcança a felicidade por meios injustos, então não será digno de felicidade. Visto do ponto de vista do conceito antigo do bem supremo, a riqueza e a saúde são necessárias para o bem-estar, mas devem estar associadas ao mérito e também ao fazer o bem.

A unidade de bem-estar e bem-estar pode ser rastreada até o conceito de simplicidade do cínico e do epicurista sobre prudência

Como Lall Ramrattan e Michael Szenberg mostram no capítulo seguinte do livro Fundamentals of Happiness: An Economic Perspective, outras escolas, como a do Sofista, foram ligadas a Sócrates, Platão e Aristóteles e ancoraram esses conceitos no conhecimento e na sabedoria. 

Por exemplo, pessoas sábias anseiam pela verdade e apreendem coisas ainda mais distantes dos sentidos. Isso contrasta com os cirenaicos a buscarem apenas o prazer.

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Felicidade na Literatura

No romance The History of Rasselas: Prince of Abyssinia, Samuel Johnson (1889) fez um relato da busca do príncipe pela felicidade. Rasselas morava no Vale da Felicidade. Um dia ele decidiu buscar a felicidade no mundo exterior ao viajar para fora do vale. 

Ele descobriu várias verdades sobre a felicidade

  • primeiro, precisamos de estímulo mental para enfrentar a estagnação da vida; 
  • segundo, ninguém está perfeitamente feliz
  • terceiro, o prazer não pode satisfazer o desejo infinito da alma ansiosa e, portanto, deve-se buscar alguma atividade produtiva ou criativa (Kalpakgian, 2018).

As Teorias de Felicidade, elaborada por Johnson, sustentam uma pessoa não dever “negligenciar o estudo de si mesma, o conhecimento de sua própria posição, nas fileiras do ser humano, e suas várias relações com as inúmeras multidões em torno de si, e com as quais seu Criador o ordenou para estarem unidas para a recepção e comunicação da felicidade” (Probyn, 1978, p. 259).

Essa visão é baseada em preocupações éticas modernas, desde John Locke, a respeito de o autoconhecimento e a prática da piedade cristã (p. 259).

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