Ascensão dos Charlatões (por Peter Burke)

Artigo publicado em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/ascensao-dos-charlatoes/

Vivemos numa era de charlatões?

Já se disse muitas vezes que escritores possuem sensibilidade particular para as mudanças culturais de seu tempo. Portanto, a publicação em língua inglesa, nos últimos anos, de dois romances intitulados Charlatans – um de Robin Cook, outro de Jezebel Weiss – pode ser um sinal de alerta de que isso esteja acontecendo.

Talvez esses livros sejam um aviso para que tomemos cuidado com esses indivíduos que, em número crescente, prometem o que não podem cumprir, arrogam-se qualidades que não possuem ou oferecem produtos nada confiáveis, como notícias falsas, remédios suspeitos e trapaças online. A lista desses mestres da ilusão (para usar uma expressão bem-educada) pode incluir também alguns evangelizadores, curandeiros e políticos, bem como, convém não esquecer, certos intelectuais.

O que explica a proliferação dos charlatões em nosso tempo?

Uma das respostas possíveis é que ela resulta das pressões e da sedução exercidas pelos meios de comunicação, sobretudo a televisão e as redes sociais. Mas em que medida essa tendência, essa “charlatanização” da vida pública (para cunhar, agora, um termo pesado) deve nos alarmar?

Continuar a ler

Dia de Luta das Mulheres Negras Latino-Americanas

Li o texto da Magda Barros Biavaschi e Marilane Oliveira Teixeira: Desigualdades, Feminismo e Teorias Libertadoras. Foi publicado em: 

http://www.justificando.com/2021/07/15/desigualdades-feminismo-e-teorias-libertadoras-mulheres-que-combinaram-de-nao-morrer/

Minha primeira impressão, talvez preconceituosa, foi ser mais uma denúncia marxista do capitalismo, no caso, focado na tentativa de defender sua hipótese – “sem trabalho doméstico, os trabalhadores não se reproduzem e, sem trabalhadores, o capital não pode ser reproduzido” – como uma tese. No sentido de reprodução sexual, esse postulado seria um axioma sem necessidade de ser demonstrado.

As coautoras cometem um erro metodológico de análise. Afirmam uma contribuição dado pelo marxismo ao feminismo seria um “método para compreender as bases materiais das relações sociais de desigualdade, exploração e opressão”.

Continuar a ler

Economia da Boa Vida em lugar da Economia da Felicidade

Criador do chamado paradoxo felicidade-renda, ao qual foi conferido seu nome, e pioneiro no estudo da relação entre satisfação pessoal e dinheiro, Richard A. Easterlin chega aos 95 anos, completados em janeiro, batendo na mesma tecla que o inspira desde 1974, quando publicou seu primeiro estudo sobre a questão. Um aumento de renda pode significar no curto prazo uma maior sensação de bem-estar, mas a médio e longo prazos não é o dinheiro que traz felicidade, diz ele, que se considera feliz em parte por se dedicar exatamente a esmiuçar o tema, como disse ao Valor, por e-mail.

Seu mais recente livro, “An Economist’s Lessons on Happiness – Farewell Dismal Science!” (“Lições de um economista sobre felicidade – Adeus, ciência triste!”, em tradução livre), entrou na lista das 16 melhores obras de economia do primeiro semestre de 2021 do “Financial Times”, na seleção feita por Martin Wolf, o principal analista econômico do jornal. Wolf destaca: mais e mais pessoas estão aceitando um ponto fundamental das teses de Easterlin – de ser possível medir (e produzir) a felicidade, e é tarefa dos governos promovê-la, em vez de mirar apenas o aumento da renda.

Download:

Richard A. Easterlin – An Economist’s Lessons On Happiness_ Farewell Dismal Science! -Springer (2021)

Continuar a ler

Brasil: Paciente em Estado de Negação

Amália Safatle (Valor, 21/05/21) escreveu reportagem com certa repercussão. O Brasil já nutria uma péssima autoimagem, que agora está evoluindo para um comportamento autodestrutivo.

Fosse o Brasil uma pessoa, dificilmente se levantaria do berço esplêndido para se deitar em um divã. É preciso admitir a existência de problemas para buscar um tratamento psicanalítico, mas esse sujeito se encontra em estado de negação. O negacionismo, palavra tão em voga, decorre da tentativa de fugir do trauma, um núcleo perturbador, constitutivo do sujeito, que portanto todo mundo tem, em maior ou menor grau. Mas, em vez de atravessar seu trauma, essa pessoa prefere contornar o sofrimento e optar por ideias exógenas, que lhe são mais convenientes.

Essa saída cobra seu preço. O sujeito age como um adolescente, embora já esteja envelhecendo, tendo acumulado questões não resolvidas de um passado doloroso, marcado por violência, autoritarismo e desilusões em série. A idade adulta chegou da pior forma, tornando esse indivíduo melancólico ou até mesmo depressivo. Mas há caminhos de cura – se o paciente aceitar ajuda terapêutica.

Este é um conjunto de visões descritas por psicanalistas convidados pelo Valor a imaginar um certo paciente Brasil, seus traços de personalidade, dores e crises. O exercício de imaginação foi encarado como um jogo por alguns, como Ricardo Goldenberg. Outros, como Sérgio de Castro, membro da Escola Brasileira de Psicanálise, viram como válida a extensão da psicologia individual para uma dimensão social.

Continuar a ler

Esboço do Livro “Fundamentals of Happiness: An Economic Perspective” (abril 2021)

Baixe a Introdução do Livro:

Lall Ramrattan e Michael Szenberg – Fundamentos da Felicidade Uma Perspectiva Econômica – abril 2021

Capítulo 1: Introdução e visão geral da felicidade econômica

Neste primeiro capítulo, pintamos o pano de fundo sobre o qual desenharemos nossos conceitos econômicos de felicidade. Descobrimos o domínio do conceito ser um conjunto aberto de ideias. 

O conceito de utilidade é proeminente nesse domínio e é de suma importância no desenvolvimento da economia. Diz respeito à felicidade dos indivíduos e da sociedade. Ambos têm desafios de mensuração. 

Pode-se adotar uma abordagem subjetiva ou objetiva para a felicidade econômica com base em sua inclinação. Essa é a visão panorâmica do projeto em questão. Ela é elucidada em diferentes capítulos especializados nas ideias substanciais encontradas na literatura.

Continuar a ler

Escopo da Felicidade

Antigos pensamentos sobre felicidade estão ligados à ideia do bem supremo. De acordo com o filósofo Immanuel Kant, “o supremo bem-criado é o mundo mais perfeito, ou seja, um mundo no qual todos os seres racionais são felizes e são dignos de felicidade” (Kant, 1963, p. 6). Isso implica existirem algumas considerações éticas subjacentes à felicidade.

Se alguém alcança a felicidade por meios injustos, então não será digno de felicidade. Visto do ponto de vista do conceito antigo do bem supremo, a riqueza e a saúde são necessárias para o bem-estar, mas devem estar associadas ao mérito e também ao fazer o bem.

A unidade de bem-estar e bem-estar pode ser rastreada até o conceito de simplicidade do cínico e do epicurista sobre prudência

Como Lall Ramrattan e Michael Szenberg mostram no capítulo seguinte do livro Fundamentals of Happiness: An Economic Perspective, outras escolas, como a do Sofista, foram ligadas a Sócrates, Platão e Aristóteles e ancoraram esses conceitos no conhecimento e na sabedoria. 

Por exemplo, pessoas sábias anseiam pela verdade e apreendem coisas ainda mais distantes dos sentidos. Isso contrasta com os cirenaicos a buscarem apenas o prazer.

Continuar a ler

Felicidade na Literatura

No romance The History of Rasselas: Prince of Abyssinia, Samuel Johnson (1889) fez um relato da busca do príncipe pela felicidade. Rasselas morava no Vale da Felicidade. Um dia ele decidiu buscar a felicidade no mundo exterior ao viajar para fora do vale. 

Ele descobriu várias verdades sobre a felicidade

  • primeiro, precisamos de estímulo mental para enfrentar a estagnação da vida; 
  • segundo, ninguém está perfeitamente feliz
  • terceiro, o prazer não pode satisfazer o desejo infinito da alma ansiosa e, portanto, deve-se buscar alguma atividade produtiva ou criativa (Kalpakgian, 2018).

As Teorias de Felicidade, elaborada por Johnson, sustentam uma pessoa não dever “negligenciar o estudo de si mesma, o conhecimento de sua própria posição, nas fileiras do ser humano, e suas várias relações com as inúmeras multidões em torno de si, e com as quais seu Criador o ordenou para estarem unidas para a recepção e comunicação da felicidade” (Probyn, 1978, p. 259).

Essa visão é baseada em preocupações éticas modernas, desde John Locke, a respeito de o autoconhecimento e a prática da piedade cristã (p. 259).

Continuar a ler

Uma Medida Métrica de Felicidade

Ao desenvolver a Teoria da Utilidade, Jeremy Bentham fez a proposição da maior felicidade para a maioria das pessoas. Ele sugeriu o prazer dever ser medido por variáveis ​​como intensidade, duração, certeza, proximidade, fecundidade, pureza e extensão. 

Pode-se seguir Robert McNaughton ao traduzir esse conceito para uma medida métrica de preferências (McNaughton, 1953). Ele especificou um intervalo curto o suficiente para a experiência de felicidade ser a mesma no momento. 

Podemos então comparar esses momentos em experiências com outro momento. Dados dois desses momentos nas experiências, podemos ter relações de preferência e equivalentes entre eles. Então, podemos criar axiomas para medição métrica da seguinte maneira.

Continuar a ler

Função de Utilidade de John Von Neumann e Oskar Morgenstern na Teoria dos Jogos

Em seu famoso livro de Teoria dos Jogos, John Von Neumann e Oskar Morgenstern  apresentaram seu Teorema da Utilidade Esperada. Com um conjunto de axiomas, eles provam existir uma função de utilidade a implicar os tomadores de decisão se comportarem de forma a maximizar sua utilidade esperada. 

Para ser mais preciso, eles “provam esses axiomas implicarem a existência de pelo menos um mapeamento (na verdade, é claro, de um número infinito) dos utilitários em números” (von Neumann e Morgenstern, 1953 [1944], pág. 617). 

Continuar a ler

Utilidade como Método de Avaliação da Felicidade

A abordagem inicial de Jeremy Bentham sugeriu uma medida fundamental de utilidade. Para ele, toda a felicidade está na obtenção do útil, isto é, afastar-se da dor e aproximar-se do prazer. Isto não ocorre em termos de satisfação individual, mas em função da felicidade de todos. Como diz Stigler, “Bentham realmente plantou a árvore da utilidade”.

Nenhum leitor poderia ignorar o conceito de utilidade como uma magnitude numérica, e as implicações para a análise econômica não eram obscuras. Mas elas foram esquecidas (Stigler, 1965, pp. 74‒75). 

Continuar a ler

Algumas Medidas Gerais de Felicidade

A correlação entre felicidade, dinheiro, riqueza, utilidade e renda foi feita ao longo da história. Por exemplo, a Boa Sociedade:

“Há, em primeiro lugar, o requisito absoluto e inescapável de todas as pessoas, em sociedades boas e decentes, terem uma fonte básica de renda. E se isso não está disponível no livre mercado, como agora é chamado. Deve vir do Estado. Nada, não esqueçamos, impõe um limite mais forte à liberdade do cidadão senão a total ausência de dinheiro no bolso (ou no banco)” (Galbraith, 1994, p. 167)

Uma medida do bem-estar de uma nação é o Produto Interno Bruto (PIB). Adam Smith, o pai da economia clássica, queria aumentar a riqueza de uma nação mais rapidamente. Ele escolheu um sistema de interesse próprio em parte porque as pessoas seguidoras de seu interesse próprio beneficiariam, involuntariamente, os outros.

Desde então, os economistas têm se preocupado com o desempenho inferior do sistema capitalista. Para David Ricardo, estava se lutando contra os retornos decrescentes da natureza; para Thomas Malthus, foi o rápido crescimento populacional; e para Karl Marx, era um conflito de classes. 

Continuar a ler

Visão Geral da Felicidade Econômica

Nos tempos antigos, medievais e modernos, as pessoas lutaram pela busca da felicidade. Os humanos tentaram localizar a felicidade do ponto de vista do divino, do homem na terra, e alguma combinação conhecida como Deus-homem ou super-homem. 

A terra foi criada com recursos possíveis de fazer uma pessoa feliz por algum esforço, ação ou escolha guiada pela razão. Alguns psicólogos acham “buscar a felicidade” por meio da intuição, do acaso ou da graça é um conceito primitivo. Alguns filósofos pensam não haver caminho ou método para a felicidade. 

Um conjunto de pessoas pensa ser possível obter felicidade por meio da graça ou um dom de Deus, do Criador ou de um ser sobrenatural. Outro grupo de pessoas pensa a felicidade vir como uma coisa secundária de uma vida virtuosa. Enfim, muitas pessoas pensam isso se relacionar com o ganho de riqueza e renda.

Continuar a ler