Revolução nos Costumes: a Re-evolução de Herbert Daniel

A biografia “Revolucionário e gay – A vida extraordinária de Herbert Daniel: Pioneiro na luta pela democracia, diversidade e inclusão” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018. 378 p.), escrita por James Green, registra para a história “o meu 68”: o ano de 1982. “Em junho de 1982, em plena campanha eleitoral, Daniel notou que as pessoas que trabalhavam com [Liszt] Vieira eram ‘estranhamente incríveis’. Em vez de dedicar tempo a reuniões infindáveis, como era de costume no seu início de carreira política em meados de 1960, ‘aglomeram-se e levam em frente’. Embora houvesse poucos gays e lésbicas no comitê da campanha, elaboravam ‘uma plataforma integrando as questões do nosso tempo, principalmente ecologia e sexualidade, dentro de uma concepção de democracia com alternativa da vida” (p. 262, citando Herbert Daniel, “Meu Corpo Daria Um Romance”, p. 359).

Daniel e eu escrevemos a plataforma eleitoral para a campanha, denominada “Por Uma Vida Alternativa”. Anunciava: “Lutamos contra todas as formas de violência e preconceito. Lutamos pelos direitos de todos à terra, ao trabalho e à liberdade. Queremos uma sociedade socialista, libertária, democrática e ecológica, onde não haja exploradores e onde se respeite a dignidade de cada um e o meio ambiente”.

Liszt Vieira se lembra da tensão entre o desenvolvimentismo da esquerda e as preocupações com o meio ambiente. “Quando voltamos do exílio, a esquerda daqui do Brasil e o próprio PT diziam: no Brasil não tem questão ecológica, só tem questão social”.

Jim conta: “Fernando Nogueira da Costa, um jovem [31 anos] economista radical [epa!] que conheceu Daniel durante a campanha de 1982, lembrou-se de que o mural [do Largo do Machado no Rio de Janeiro] retratava uma ‘cidade feliz’ – um jogo entre as palavras feliz e cidade: felicidade. O colorido mural tornou-se uma marca registrada da campanha e contrastava marcadamente com o vermelho geralmente usado nas propagandas de partidos de esquerda” (p. 261-2).

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Passagem pelo Sonho da Revolução Política

A biografia “Revolucionário e gay – A vida extraordinária de Herbert Daniel: Pioneiro na luta pela democracia, diversidade e inclusão” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018. 378 p.), escrita por James Green, dá elementos para entender mais uma decisão crucial em sua vida: a opção pela luta armada. É necessário situá-la no contexto. Retração no bem-estar social em período de recessão (como na crise da estabilização de 1964-1967) gera expansão na repressão policial, minimalismo governamental provoca maximalismo penal. Mas não é só o contexto econômico o que importa. O debate político o influencia.

Eram “guias espirituais” o sucesso da Revolução Cubana e as ideias de Régis Debray, um jornalista francês marxista, sobre estratégias de guerrilha, isso sem referir à Frente Nacional para a Libertação do Vietnam, cujos combatentes eram também chamados vietcongues. Foi um exército formado por norte-vietnamitas para lutar na Guerra do Vietnã junto ao exército do Vietnã do Norte contra a coalizão formada pelos Estados Unidos e pelo governo do Vietnã do Sul. Era composto principalmente por milícias aptas para táticas de guerrilha, embora contasse também com unidades militares perenes.

A Revolução Cultural Chinesa também era parte daquele contexto. Foi uma profunda campanha político-ideológica levada a cabo a partir de 1966 na República Popular da China, pelo então líder do Partido Comunista Chinês, Mao Tsé-tung.  Acompanhada por vários episódios de violência, instigada principalmente pela Guarda Vermelha, grupos de jovens organizados nos chamados “comitês revolucionários” atacavam aqueles suspeitos de deslealdade política ao regime, à figura de Mao e ao Maoísmo, a fim de consolidar (ou restabelecer) o poder do líder onde fosse necessário.

Grupos de trotskistas como a Polop [Organização Revolucionária Marxista – Política Operária] também expressavam uma crítica à transformação do leninismo em ortodoxia, durante o período stalinista, quando o termo marxismo-leninismo acabou por substituir leninismo. A denominação “marxista-leninista” passou a designar a doutrina oficial da União Soviética, bem como dos partidos membros da Internacional comunista como o PCB [Partido Comunista Brasileiro] do qual a Polop discordava ou possuía dissidentes. De fato, o termo refere-se à interpretação stalinista do pensamento de Lenin. Tal interpretação seria alçada à condição de única possível e verdadeira, sendo qualquer outra, como a dos trotskistas, portanto, estigmatizada como herética. Continue reading “Passagem pelo Sonho da Revolução Política”

Revolucionário e gay – A vida extraordinária de Herbert Daniel

O historiador norte-americano James Green entrevistou 72 pessoas, inclusive a mim em 25 de outubro de 2010, para escrever a biografia “Revolucionário e gay – A vida extraordinária de Herbert Daniel: Pioneiro na luta pela democracia, diversidade e inclusão” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018. 378 p.). A motivação para escrever a biografia veio da percepção da mãe do Herbert (codinome Daniel), quando foi entrevistada. Argumentou: mesmo com toda a sua importância no ativismo de esquerda e pelos direitos humanos, Daniel estava esquecido. Ela lhe solicitou encarecidamente para ele contar sua história.

O autor argumenta, para ser aceito nos grupos de esquerda e participar da luta armada, Daniel ter precisado reprimir sua homossexualidade, vista com maus olhos pelos militantes da época. Então, viveu uma espécie de “exílio interno” antes de viver o exílio no exterior. Ficou conhecido no fim da ditadura militar brasileira, depois da Lei da Anistia, como “o último exilado”, porque ele não tinha sido anistiado. O argumento era ele ter se envolvido em ações com vítimas fatais. Daniel me disse nunca ter dado um tiro na vida.

Daniel e eu nos conhecemos durante a campanha eleitoral de Liszt Vieira para deputado estadual em 1982 no Rio de Janeiro. Como amigos, conversamos muito até eu mudar para Campinas em 1985 para fazer meu doutoramento. Encontramos pela última vez em uma visita para lhe apresentar meu filho nascido em 1987. Ele, quem me informou pela primeira vez o que era a doença AIDS, já tinha recebido o diagnóstico em 1989. Morreu em 1992 aos 46 anos. Nasceu em 14 de dezembro de 1946 em Bom Despacho – Minas Gerais. Teve uma vida relativamente curta, porém com muitos eventos socialmente marcantes. Não se pode dizer ter sido uma vida “desperdiçada” como foi a de tantos talentosos jovens da geração baby-boom ou 68.

A sinopse de sua biografia, segundo a editora do livro, é curta. “Estudante de Medicina em Belo Horizonte no início da década de 1960, Herbert Daniel logo se juntou às fileiras da resistência à ditadura civil-militar instaurada no Brasil em 1964. Entrou para a luta armada e conviveu com nomes ilustres do movimento, como o capitão Carlos Lamarca e a ex-presidente Dilma Rousseff. Um dos últimos brasileiros a voltar do exílio, na década de 1980, escreveu e editou livros e ainda se engajou nas campanhas pela defesa do meio ambiente e das minorias. Foi um importante ativista pelos direitos das pessoas portadoras de HIV/Aids no Brasil.” Continue reading “Revolucionário e gay – A vida extraordinária de Herbert Daniel”

Interdisciplinaridade e Diálogo Acadêmico

Karina Kuschnir, no livro Antropologia da Política(Rio de Janeiro: Zahar; 2007), afirma o campo da política ser potencialmente interdisciplinar.Além da “Antropologia Política” ou “Antropologia da Política”, ele tem sido intensamente estudado por tradições caracterizadas como “Sociologia Política”, “Ciência Política” ou “História Política”.

É comum, no entanto, haver incompreensões e resistências ao diálogo entre pesquisadores dessas áreas. Muitas vezes, isso se deve ao desconhecimento de tradições intelectuais diferentes daquela na qual nos especializamos, o que tende a fortalecer estereótipos e visões equivocadas sobre nossos “outros” acadêmicos.

Não é tarefa simples compreender visões diferentes sobre política. O vocabulário político é de tal ordem naturalizado no cotidiano dos pesquisadores que frequentemente surgem nos seus textos termos do senso comum. Eles não fazem parte do universo pesquisado. Termos empregados pela população estudada, em certo sentido, difere daquele da cultura do pesquisador. É preciso uma atenção permanente e um bom senso de discriminação para não cair nessas armadilhas.

Outro aspecto criador de grandes dificuldades para uma pesquisa de Antropologia da Política é o problema da corrupção, da ilegalidade e da circulação de cargos e dinheiro. Raros pesquisadores conseguiram dados precisos e em grande escala a esse respeito. Embora desejável, uma pesquisa com esse fim dificilmente pode ser realizada com base em observação participantesem trazer um risco considerável também para quem a conduz. A Sociedade de Esquina, livro de autoria de Foote Whyte, é um exemplo excepcional nesse campo. Continue reading “Interdisciplinaridade e Diálogo Acadêmico”

Política, Espaço Urbano e Mediação

Karina Kuschnir, no livro Antropologia da Política (Rio de Janeiro: Zahar; 2007), pergunta: quais as características específicas da agenda da Antropologia da Política em meio urbano?

A observação participante em grandes cidades requer a compreensão das diferenças culturais entre os vários segmentos da população, bem como as representações e práticas políticas a estes associadas. Ao acompanhar candidatos e ocupantes de mandato em uma metrópole, o antropólogo encontra diferentes universos de eleitores, bem como importantes distinções espaciais impregnadas de significados.

Análises sobre o modo de vida metropolitano têm enfatizado justamente a dimensão do anonimato e do individualismo. No entanto, mesmo dentro de uma cidade há ambientes com características de sociabilidade personalizadas e holistas. Esses espaços, simbolicamente distantes, assemelham-se mais aos modos de vida “interioranos”, com um repertório de valores tradicionais, laços de vizinhança e solidariedade.

O cotidiano de certos bairros é valorizado por seus valores “familiares”, sua tranquilidade, pela religiosidade de seus moradores, pela existência de espaços de convivência coletivos, como as praças e campos de esporte, e privados, como os quintais e jardins de casas particulares.

Mapas subjetivos da metrópole seguem uma certa “organização moral”, baseada nos hábitos, costumes e estilo de vida de seus habitantes. Diferentes regiões e bairros da cidade se distribuem segundo um “mapa de prestígio”. Na maior parte das vezes, os locais onde vivem a elite são um símbolo da vida “sofisticada” e “cosmopolita”.

Na prática política, podemos observar como se atualizam as diferenças culturais entre os espaços sociais da cidade. As motivações políticas dos atores sociais estão intimamente relacionadas à sua sociabilidade, crença religiosa e visão de mundo. Continue reading “Política, Espaço Urbano e Mediação”

Ritual da Eleição

A interpretação Karina Kuschnir, no livro Antropologia da Política(Rio de Janeiro: Zahar; 2007), é festas durante campanha eleitoral encenarem, de forma minúscula e estilizada, o próprio ritual da eleição, sendo:

  1. o momento da votação propriamente dito (isto é, os votos sendo colocados na urna), o símbolo da igualdade entre os participantes; e
  2. o momento da ocupação do mandato, o símbolo da sua diferença.

Podemos ler a festa como um ritual (em etapas mais ou menos ideais):

  1.  político faz promessas de bens (ou acessos a bens públicos);
  2. Os moradores oferecem comida ao candidato;
  3. Todos comem juntos;
  4. Os moradores fazem promessas de votos.

A visita do político à casa do eleitor muitas vezes é vista como homenagem e reconhecimento prestado pelo candidato ao dono da residência, visto como fonte de votos em potencial. Ser convidado ou “recebido” pelo eleitor é muito diferente de entrar na sua casa “atrás de voto”. Continue reading “Ritual da Eleição”

Rituais e Política

Karina Kuschnir, no livro Antropologia da Política(Rio de Janeiro: Zahar; 2007), afirma haver uma importante tradição antropológica de se estudar a política e sua dimensão ritual. No Brasil, essa abordagem também vem sendo valorizada.

Em suas próprias pesquisas de campo, empreendeu um estudo sobre rituais de comensalidade em campanhas políticas, definidos como celebrações para encenação simbólica da eleição do político. São eventos marcados pelo consumo de comidas e bebidas por parte de eleitores e candidatos. Os papéis desses personagens são bem definidos, com falas e comportamentos previsíveis. Os cenários são recorrentes, assim como os elementos e participantes acessórios.

Rituais são cerimônias de modo a reforçar e atualizar papéis sociais.Concepções a respeito da política e do mundo social são na maioria das vezes confirmadas, forjando, ainda que temporariamente, a identidade dos participantes como grupo.

Há situações, no entanto, em que isso não ocorre, principalmente quando se estabelece um conflito ou, dependendo da intensidade, um “drama social”, a respeito daquilo que está em jogo. No caso das campanhas políticas, “conquistar” eleitores não é a motivação principal desses rituais, uma vez que a maioria dos participantes já está predisposta a votar no candidato celebrado.

Sua motivação central é certificar a identidade do candidato como político digno do exercício de um mandato, justamente em um momento em que esta identidade está ameaçada pela aproximação das eleições e pelo caráter secreto do voto. No caso de candidatos à reeleição, trata-se de compensar o enfraquecimento progressivo, a perda crescente dessa identidade, ocorrida ao longo dos anos não-eleitorais e posta em risco pelo novo pleito. Continue reading “Rituais e Política”