Vida Comunitária e Relações de Afeto

Em Sobre A Arte De ViverRoman Krznaric deduz a vida simples envolver mais que:

  1. reduzir as próprias despesas diárias ou
  2. repensar os próprios termos de comparação social.

É também uma questão de vida comunitária.

O florescimento humano é algo que dificilmente se alcança sozinho. Um dos resultados deletérios da ideologia consumista foi encorajar uma cultura extrema de individualismo possessivo, em que estamos interessados nos nossos próprios prazeres e de olho no Número Um.

No Ocidente, o único objetivo é acumular riqueza pessoal e propriedades. Cinquenta e cinco por cento dos americanos com menos de trinta anos pensam que acabarão ficando ricos. “E se você vai ser rico, para que precisa de qualquer outra pessoa?”

Essa obsessão pelo interesse pessoal nos cegou para o papel que a comunidade desempenha na criação de vínculos sociais que muito contribuem para o nosso senso de bem-estar. Deveríamos lembrar o que Aristóteles nos disse: somos animais sociais, tão gregários quanto abelhas. Continue reading “Vida Comunitária e Relações de Afeto”

Filosofia Transcendentalista

Transcendente é um adjetivo colocado quando algo não é comum e está além dos limites convencionais, sendo considerado superior. O transcendente está além do conhecimento concreto e não se baseia somente em dados e conclusões metódicas.

Em Sobre A Arte De ViverRoman Krznaric, o autor conta: no século XIX, os Estados Unidos testemunharam o florescimento de experimentos utópicos de vida simples. Muitos tinham raízes socialistas, como a efêmera comunidade fundada em 1825, em New Harmony, Indiana, por Robert Owen, reformador social galês e fundador do movimento cooperativo britânico.

Outros foram inspirados pela filosofia transcendentalista do poeta e ensaísta Ralph Waldo Emerson. Ele pregou a simplicidade material como caminho para:

  1. a verdade espiritual,
  2. a autodescoberta e
  3. a união com a natureza.

Enquanto os quacres viviam segundo seus ideais em uma comunidade religiosa cheia de normas e regulamentos, os transcendentalistas eram muito mais apóstolos do individualismo. O mais famoso deles, até hoje um ícone para adeptos da vida simples no mundo todo, foi uma personalidade um tanto irascível, com certa queda por trocadilhos infames e a desobediência civil: Henry David Thoreau. Continue reading “Filosofia Transcendentalista”

Meta da Vida Simples: Lazer Criativo e Independência Financeira

Em Sobre A Arte De Viver,   Roman Krznaric cita: “Se nos consideramos afluentes, estamos errados”. Isso é o que diz o antropólogo Marshall Sahlins, ao afirmar, nos anos 1970, que as sociedades realmente afluentes eram as comunidades de caçadores-coletores.

Nosso desejo de bens de consumo nos compele a passar a maior parte de nossas horas de vigília trabalhando para pagar por eles, deixando-nos pouco tempo livre para a família, os amigos e os prazeres do ócio. Mas os aborígines no norte da Austrália e o povo indígena !Kung, em Botswana, trabalhavam apenas de três a cinco horas por dia para se sustentar, e, salienta Sahlins, “em vez de ser um trabalho contínuo, a busca de alimento é intermitente, abundante em lazer, e há maior quantidade de sono durante o dia per capita a cada ano que em qualquer outra condição na sociedade”.

Essa talvez tenha sido uma descrição excessivamente rósea do que era uma existência difícil e precária, em que o alimento estava muitas vezes longe da abundância, e a fome, nunca longe da mente. Não há nada de invejável na pobreza.

Apesar disso, a ideia de Sahlins ainda é pertinente: uma vez satisfeitas as nossas necessidades de subsistência, talvez estivéssemos em melhor situação se vivêssemos com mais simplicidade e dependendo de menos dinheiro.

Isso é especialmente relevante em uma época em que as jornadas de trabalho estão aumentando, e muitos sentem que o trabalho rouba tempo de outras partes de suas vidas. Continue reading “Meta da Vida Simples: Lazer Criativo e Independência Financeira”

Respeito: Busca de Reconhecimento

Em Sobre A Arte De Viver, Roman Krznaric (clique para ler outros posts a respeito desse livro), o autor afirma, ao longo de toda a história do trabalho, o desejo de reconhecimento – outros reconhecerem nossa existência e mostrarem apreciação por nosso mérito – ter se rivalizado com o dinheiro como ambição primordial.

Uma das formas mais procuradas de reconhecimento é o status: chegar a uma posição ou classe elevada na hierarquia social.

  • Na China, por mais de mil anos, o status mais elevado foi concedido aos literatos, uma elite instruída conhecida como puo che, ou “bibliotecas vivas”, cujos membros eram recompensados com cargos como funcionários do governo.
  • Na Europa pré-moderna, os que recebiam o maior respeito em geral não eram os ricos da casta dos mercadores, mas indivíduos de destaque como membros da casta dos guerreiros heróicos e da casta dos sábios, seja clérigos piedosos, seja homens (e ocasionalmente mulheres) de grande sabedoria.
  • Hoje, embora haja uma associação muito mais estreita entre riqueza e status da casta dos mercadores, em relação à existente no passado, ainda há profissões na casta dos sábios – como as de advogado ou cirurgião – cujo grau de prestígio social não pode ser reduzido simplesmente a seu poder aquisitivo.

Sempre houve algo vazio no reconhecimento através do status social. Podemos ser reverenciados por trabalho não considerado relevante por nós mesmos, mas socialmente valioso, ou nos sentir admirados pela imagem representada – “empresário importante” ou “eminente diplomata” –, e não por nossa individualidade. No fim, descobrimos o modo como a sociedade nos classifica não ser tão importante quanto aquele como somos percebidos por nossa família, nossos amigos e colegas. Continue reading “Respeito: Busca de Reconhecimento”

Erros de Pensamento na Análise do Futuro

Como no dia a dia o sucesso do vencedor produz maior visibilidade do que o fracasso do perdedor, superestimamos sistematicamente nossa perspectiva de sucesso. É o nosso viés de sobrevivência em um mundo concorrencial e hostil.

Superestimamos, sistemática e maciçamente, nosso conhecimento e nossa capacidade de prognosticar. É o efeito do excesso de autoconfiança. Prometemos e não entregamos. No caso dos brasileiros, simplesmente, adiamos…

Quem adverte que “pode piorar antes de melhorar” não se compromete. Se logo melhorar, sua receita foi acertada. Se custar mais um pouco a melhorar é porque melhoraria de qualquer jeito independentemente da receita. Em todos os casos de transição, percebe-se relativamente rápido se as medidas estão dando certo.

A falácia da regressão à média leva a ficar imóvel com a falsa esperança de que tudo que sobe (ou desce), em certo um dia, inverterá a direção, voltando a um pressuposto equilíbrio. Se este é visto como uma média móvel, ele é a média de todos elementos do subconjunto menos o primeiro e mais o primeiro elemento do próximo subconjunto a seguir na série temporal. Médias móveis são comumente usadas com séries temporais para suavizar flutuações curtas e destacar tendências de longo prazo. Continue reading “Erros de Pensamento na Análise do Futuro”

Erros de Pensamento na Análise do Presente

A cooperação social, talvez muito mais do que a competição, foi fundamental para evolução da humanidade. Dessa herança genética deriva nosso sentimento humano de suportar mal se sentir culpado pela não reciprocidade. Se recebemos qualquer coisa, mesmo sem a pedir, achamos que temos de dar algo em troca. Quanto mais simpático alguém é conosco, tanto mais tendemos a ajudá-la ou comprar dessa pessoa vendedora.

As pessoas reagem aos estímulos, mas não à intenção que há por trás deles. Se queremos saber qual é o real comportamento de uma pessoa, necessitamos examinar qual é o sistema de estímulo que está por trás dela.

Deixamo-nos ofuscar por um aspecto e, a partir dele, deduzimos a imagem completa. Fala-se em “efeito halo” tal como há um círculo luminoso em torno da representação de uma figura sagrada. São fatos fáceis de serem percebidos ou especialmente marcantes, mas, no fundo, estereotipagem resultante de preconceito.

À primeira vista, apenas com base em experiência pregressa com alguém parecido, olhamos o outro ser humano e, de imediato, já o classificamos segundo critério de amor ou ódio sem nenhuma nuance. O Efeito Halo leva a erro de pensamento. Continue reading “Erros de Pensamento na Análise do Presente”

Erros de Pensamento na Análise do Passado

Nosso cérebro é uma máquina de fazer associações: se erramos, em tese, evitamos repetir o erro; se acertamos, repetimos a ação. Repetição é aprendizagem. O problema é o falso conhecimento derivado de associação causal para algo casual.

São comuns as inversões entre causas-e-efeitos. Essa falsa causalidade, deduzida a partir de uma correlação casual, nos induz a erro de pensamento.

Fazemos uma ideia do mundo com base na facilidade com a qual exemplos nos ocorrem. Se duas coisas acontecem ao mesmo tempo ou se uma antecede imediatamente à outra, esse acaso vira, em pensamento automático, uma relação de causalidade.

Organizamos o caos de detalhes eventuais em nossa vida como fosse uma história com fio-condutor. Queremos que nossa vida forme uma sequência que possamos entender – e seguir. Algo novo passa sempre ser visto como “eu sempre soube disso”. Do ponto de vista retrospectivo, tudo parece ser uma clara consequência lógica e necessária.

Nossa tendência pragmática é avaliar decisões com base no resultado — e não com base na correção do processo anterior à cada decisão. Falácia do historiador é julgar o processo a partir do resultado, fazendo “profecia reversa”, ou seja, contar a história a partir da linha-de-chegada no presente. Nessa história dos vencedores, os vencidos (e os dilemas entre caminhos alternativos) ficam esquecidos. Continue reading “Erros de Pensamento na Análise do Passado”