Moldura Mental versus Fatos e Dados

Helio Gurovitz é jornalista e blogueiro do portal G. Resenhou um livro com conteúdo muito pertinente ao esclarecimento de como falsear e se contrapor aos idiotas divulgadores de “fake News“. Na verdade, quem tem a estrutura mental limitada pela ignorância, em razão de crenças infundadas e falta de estudos científicos, descarta todos os fatos e dados contrários ao seu arcabouço “intelectual”.

THE ALL NEW DON’T THINK OF AN ELEPHANT! The Essentials Guide for Progressives – George Lakoff, Chelsea Green Publishing; 2014 | 192 páginas | US$ 15

“O método é o mesmo. O presidente solta ou reverbera um tuíte de origem duvidosa. Sabe que, por ser presidente, o fato será tratado como notícia pela imprensa. Se for uma agressão à própria imprensa, com mentiras e distorções, melhor. Mais os acólitos aplaudirão, mais os adversários atacarão.

Criada a polêmica, terá polarizado a agenda do debate nacional nos próprios termos, para agradar a própria plateia. O tema pode ser a “pouca-vergonha do Carnaval”, o “Hino Nacional nas escolas”, a “mídia mentirosa” ou qualquer outro, mesmo irrelevante, desde que dê margem a controvérsia. É uma clássica manobra diversionista.

O que importa não são os fatos ou a verdade, mas o poder de despertar amor e ódio, de mobilizar cliques e curtidas, de trazer a política para o próprio terreno, ainda que (ou talvez mesmo porque) nada tenha de racional ou razoável. A estratégia de Donald Trump — tornar o país refém de seus tuítes — tem sido reproduzida por Jair Bolsonaro nas últimas semanas.

Lá como cá, a imprensa tem agido do modo como sabe agir: apontando as mentiras, os absurdos, as contradições, fazendo jornalismo enfim. Lá como cá, isso tem se mostrado insuficiente para resgatar a sanidade. Por quê? Continuar a ler

Masculinidade Americana no Fim de uma Era

O livro “Angry white men : American masculinity at the end of an era” (NY: Nation Books; 2013) de autoria de Michael Kimmel, em seu Prefácio, esclarece seu propósito.

“Sempre quando as pessoas me perguntaram sobre o assunto do meu novo livro, eu mal consegui dizer-lhes as três palavras do título antes de me presentearem com histórias de raiva cega sendo dirigida a elas, incivilidade diária testemunhada ou experimentada. Elas se sentiram, ouviram ou expressaram indignação. Eu ouvi muitos gritos nos corredores do Congresso contra os caras falando na TV ou em entrevistas de rádio. Eles falaram em terem ficado furiosos com manifestações, confrontados por contra-argumentos de moderadores igualmente enfurecidos.

Já ouvi falar de pessoas se comportando de forma assassina em estradas, de meus amigos terem medo de se sentar nas arquibancadas nos jogos de hóquei dos filhos ou entrarem nos bastidores de suas partidas de futebol. E quase todos se queixam de trolls da Internet. Os escondidos em anonimato se escondem em comentários de sites de notícias e blogs prontos para atacar violentamente qualquer um com quem possam discordar.

As pessoas me disseram estarem mais irritadas como jamais estiveram. Alguns sujeitos estavam preocupados por eles estarem muito mais irritados, mesmo quando se lembram da irritação com seus pais. Outros tentaram manter um limite entre a raiva política e a fúria contra suas famílias, embora até mesmo a fronteira pareça, para alguns, indescritível. “A pressão sanguínea nacional está elevada”, disse meu amigo Dan, um médico dado a metáforas fisiológicas. “É assustadoramente alto. Os betabloqueadores culturais estão em ordem.” Continuar a ler

Neurocognição: mudança de antigos conceitos das Ciências Humanas

Existem vários conceitos tradicionais redefinidos pela Neuroeconomia, da escolha intertemporal à utilidade indireta do dinheiro, tomada de decisão em estado de risco e incerteza, inclusive os comportamentos típicos citados na Teoria dos Jogos.

As mais fortes críticas à Neuroeconomia foram endereçadas por Gul e Pesendorfer (Gul, F., & Pesendorfer, W. (2005). The case for mindless economics. In A. Caplin & A. Schotter (Eds.), Handbook of economic methodology. Oxford: Oxford University Press). Eles a acusam de não fornecer um exemplo exato de aplicação em pesquisa empírica, ou seja, não ser possível “um parâmetro de escolha – como o coeficiente de aversão ao risco ou o fator de desconto – ser observado ao se visualizar atividade cerebral”.

Camerer (Camerer, C., Loewenstein, G., & Prelec, D. (2005). Neuroeconomics: How neuroscience can inform economics. Journal of Economic Literature, XLIII(1), 9–64. & Camerer, C. (2007). The case for a ‘mindful’ economics. In A. Caplin & A. Schotter (Eds.), Handbook of economic methodology. Oxford: Oxford University Press.) responde isso não ser verdade. Ele se refere à série de experimentos ligando parâmetros de escolha a processos neurais. Isso foi obtido para o grau de aversão à ambiguidade, aversão à perda, a taxa de desconto e muitos outros meios de escolha econômica.

Outra tentativa de salvar a Teoria da Racionalidade tradicional é a insidiosa tentativa de tentar demonstrar a incorporação no comportamento do cérebro dos princípios de racionalidade econômica. Por exemplo, tem sido dito existirem neurônios capazes de codificar a gratificação esperada ou o sistema nervoso usar modelos de probabilística bayesiana durante a aprendizagem sensorial motora. Se isso puder até ser justificado para tarefas elementares, comuns às outras atividades da vida, não é verdade para os mais importantes aspectos do comportamento econômico. Estes contemplam cálculos complexos e interação com um ambiente pouco previsível.

Para concluir essa resenha sobre Neurocognição em Economia, a pesquisa neuroeconômica está mudando a forma como a pesquisa econômica é realizada. Antes de tudo, é uma ajuda poderosa para a pesquisa cognitiva e experimental testar empiricamente os modelos de tomada de decisão ou ação econômica. Em segundo lugar, apresenta novos problemas e questões, como os da prevalência de processos afetivos automáticos. Isso mudará profundamente os mesmos conceitos econômicos. Continuar a ler

Ferramentas para Estudo do Cérebro

Até algumas décadas atrás, os neurocientistas tinham ferramentas muito limitadas à sua disposição para estudar o cérebro. Basearam-se principalmente na análise da influência de condições patológicas em áreas limitadas do cérebro por acidente traumático ou lesões vasculares e degenerativas. Foi possível extrapolar, usando o método indutivo do princípio da diferença, cuja função mental foi alterada por uma lesão em uma área específica do cérebro. Numerosos casos podem ser encontrados na literatura com esses estudos neuropatológicos.

Uma das patologias mais estudadas é a do “split brain”, onde as conexões entre os hemisférios esquerdo e direito do cérebro são cortadas. O hemisfério direito permite ao paciente interpretar a linguagem, mas não falar, o que é função do hemisfério esquerdo fazer.

Por exemplo, em um caso descrito por LeDoux (1996), o hemisfério direito foi convidado a fazer um sinal com a mão, com base em um convite projetado na parte esquerda de uma tela, para ser processado somente pelo hemisfério direito. O hemisfério esquerdo viu a mão fazer um sinal, mas não foi ciente das instruções dadas ao hemisfério direito. Quando o paciente foi perguntado para explicar a razão de seu comportamento, o hemisfério esquerdo tendeu a inventar uma razão racional como: – “Eu vi um amigo, então eu acenei para ele”. Este comportamento reflete a tendência egocêntrica do cérebro para racionalizar.

Outro tipo de técnica usada no passado foi o eletroencefalógrafo (EEG). Ele mede a energia elétrica da atividade relacionada a estímulos ou comportamentos através de eletrodos aplicados no couro cabeludo. Ambas técnicas fornecem uma grande quantidade de informações, mas a primeira depende muito de detecção de patologias disponíveis, enquanto o EEG tem uma baixa resolução e pode detectar apenas a atividade nas regiões de superfície.

Recentemente, foi introduzida uma técnica poderosa e fácil de usar até mesmo em regiões profundas do cérebro: fMRI (ressonância magnética funcional). Ela determina o fluxo sanguíneo para o cérebro, a partir de mudanças observadas em propriedades magnéticas, devido à oxigenação do sangue. Estas técnicas – e muitas outras com emprego de estimulação elétrica, magnética ou farmacológica, e análise psicofísica (batimento cardíaco, pressão arterial, suor, atividade comportamental, etc.) – literalmente tornou possível “abrir a caixa preta” do cérebro e construir hipóteses cada vez mais realistas sobre as causas do comportamento humano. Continuar a ler

Sinais Sociais

Em seu livro sobre comunicação interpessoal, Sinais Honestos, Alex Pentland mostrou os padrões de interação, independentemente de conteúdo, serem uma medida precisa do fluxo de ideias e tomada de decisões. Conforme relatado na revista Nature, isso acontece porque o padrão de interação – quem interrompe quem, como muitas vezes as pessoas falam e para quem – são sinais sociais de dominância, fluxo de ideias, concordância e engajamento.

Portanto, geralmente podemos ignorar completamente o conteúdo das discussões e usar apenas os sinais sociais visíveis para prever:

  1. o resultado de uma negociação ou um discurso de vendas,
  2. a qualidade da tomada de decisões em grupo e
  3. os papéis assumidos pelas pessoas dentro de um grupo.

Como esses sinais sociais interagem com a linguagem nos humanos modernos? A evolução raramente descarta instrumentos de trabalho bem-sucedidos. Geralmente, ela constrói estruturas adicionais e, ao mesmo temp, retém as capacidades antigas ou inclui estruturas antigas como elementos do novo. Quando nossos recursos de linguagem começaram a evoluir, nossos mecanismos de sinalização existentes foram incorporados ao novo design. Como consequência, nossos antigos sinais sociais ainda moldam nossos padrões modernos de conversação. Continuar a ler

Como Padrões de Interação se traduzem em Inteligência Coletiva

Figura 6: (a) um padrão improdutivo de interação, (b) um bom padrão de interação.

Alex Pentland, no livro “Física social: como boas ideias são disseminadas – as lições de uma nova ciência” (“Social Physics: How Good Ideas Spread-The Lessons from a New Science”. New York: The Penguin Press; 2014), para continuar construindo uma compreensão de como funciona a física da interação social, examina as interações em grupos menores de pessoas.

Grupos de pessoas, assim como comunidades, também possuem uma inteligência coletiva diferente da inteligência individual de cada membro do grupo. Além disso, a inteligência desse grupo é um fator tão importante na previsão do desempenho do grupo quanto o QI na previsão do desempenho individual.

Essa descoberta surpreendente, publicada na revista Science por minhas colegas Anita Woolley, Christopher Chabris, Nada Hashmi e Tom Malone, e Alex Pentland, é baseada em pesquisas para exame da inteligência coletiva de grupos, estudando centenas de pequenos grupos solicitados a realizar uma ampla gama de tarefas de brainstorming, julgamento e planejamento, e fazer testes de QI como um grupo.

Qual é a base da inteligência coletiva descoberta? Inesperadamente, descobriram os fatores, cuja maioria das pessoas geralmente considera como impulsionadores do desempenho do grupo, ou seja, coesão, motivação e satisfação, não eram estatisticamente significativos.

O maior fator na previsão da inteligência de grupo foi a igualdade de tomada de turnos conversacionais. Grupos onde algumas pessoas dominavam a conversa eram menos coletivamente inteligentes em comparação àqueles com uma distribuição mais igual de conversação. Continuar a ler

Física Social: Uma Bem-Fundamentada Ciência Social

Alex Pentland, no livro “Física social: como boas ideias são disseminadas – as lições de uma nova ciência” (“Social Physics: How Good Ideas Spread-The Lessons from a New Science”. New York: The Penguin Press; 2014), avalia: a maioria das Ciências Sociais atuais é baseada na análise de fenômenos de laboratório ou em pesquisas, ou seja, em descrições de médias ou estereótipos. Essas abordagens não levam em conta a complexidade da vida real, quando todas as nossas peculiaridades mentais operam ao mesmo tempo.

Elas também sentem falta do fato crítico: os detalhes sobre as pessoas com quem interagimos e como interagimos com elas. Importam tanto quanto as forças de mercado ou as estruturas de classe. Os fenômenos sociais são, na verdade, compostos de bilhões de pequenas transações entre indivíduos. Essas pessoas negociam não apenas bens e dinheiro, mas também informações, ideias ou apenas fofocas.

Há padrões nessas transações individuais geradoras de fenômenos como colisões financeiras. Precisamos entender esses micropadrões, porque eles não apenas medem a maneira clássica de entender a sociedade. O Big Data nos dá a chance também de ver a sociedade em toda a sua complexidade, através das milhões de redes de trocas pessoa a pessoa.

O objetivo deste livro de autoria de Alex Pentland é explicar como a Física Social reúne grandes dados sobre comportamento humano. Esses novos fundamentos das Ciências Sociais propiciam uma ciência prática. Ela pode ser – e, na verdade, já está sendo –aplicada em muitos cenários do mundo real. Continuar a ler