A humanidade só será feliz quando o último rentista for enforcado com as tripas do último banqueiro

“A humanidade só será feliz quando o último padre for enforcado com as tripas do último rei”. A frase é atribuída a Diderot, mas tem origem diferente. “Eu gostaria, e este será o último e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre”. Esta frase foi escrita por pelo padre francês Jean Meslier, no seu livro “Memória dos pensamentos e sentimentos do abade Jean Meslier”. A frase foi sendo modificada durante o tempo e adaptada ao momento histórico. Hoje, os velhos esquerdistas, que ainda sofrem da “doença infantil”, proclamam: “A humanidade só será feliz quando o último rentista for enforcado com as tripas do último banqueiro”!

Infelizmente, tenho escutado algo parecido no debate sobre spread bancário no Brasil. Temo pela própria pele: “Se descobrem que ‘estive’, durante quatro anos e meio, como Diretor-Executivo da FEBRABAN (Federação Brasileira dos Bancos) serei enforcado… e estripado! Ai, ai, ai.”

Para salvar minhas tripas, tentarei apelar: “Marx, quando condenava ‘a figura do capital’, não personalizava o alvo dos ataques ideológicos! A culpa é do sistema! A eutanásia do rentista é a inflação corroer sua renda prefixada, e não enforcá-lo com as tripas do último banqueiro!” Talvez eu escape por um triz…

A “marcha da insensatez” se iniciou com um papa da Renascença que levou a Igreja Católica a tal nível de desmoralização e desordem que acabou provocando a cisão protestante. Infelizmente para milhares de pessoas, principalmente mulheres, Inocêncio VIII logo no início de seu pontificado, teve a atenção voltada para a questão da bruxaria, e emitiu, em dezembro de 1484, a bula “Summis desiderantes affectibus”. Os dois inquisidores dominicanos encarregados do assunto produziram, em seguida, um dos mais tenebrosos documentos já escritos, o “Malleus Maleficarum” (Martelo das Feiticeiras), no qual apresentaram justificativas teológicas e “oficializaram” as superstições da época que provocavam a perseguição às supostas bruxas. Logo tornou-se o manual dos que se dedicavam a essa tarefa. A importância histórica desta bula é que através dela a Igreja reconheceu a existência das bruxas e da bruxaria. Deste modo, autorizou as perseguições que se seguiram em todos os países em que tinha influência.

Por sua vez, o bode expiatório era um animal que era apartado do rebanho e deixado só na natureza selvagem como parte das cerimônias hebraicas do Yom Kippur, o Dia da Expiação. No rito,  dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício. No Templo de Jerusalém, os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento, na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente, para ser reclamado pelo anjo caído Azazel.

Na teologia cristã, a história do bode expiatório é interpretada como uma prefiguração simbólica do auto-sacrifício de Jesus, que chama a si os pecados da Humanidade. Em sentido figurado, um “bode expiatório” é alguém que é escolhido arbitrariamente para levar sozinho a culpa de alguma calamidade, crime ou qualquer evento negativo. Geralmente, ele não participou do ato isoladamente. A busca do bode expiatório é um ato irracional de determinar que uma pessoa ou um grupo de pessoas seja totalmente responsável por um problema coletivo sem a constatação real dos fatos.

A busca do bode expiatório é importante instrumento de propaganda. Os judeus durante o período nazista constituíram um exemplo clássico. Os grupos usados como bode expiatórios foram (e são) muitos ao longo da História, variando de acordo com o local e o período. Recentemente, esta tendência está sendo levada novamente a seu extremo. Em época de crise financeira, essa perseguição aos “rentistas” alcança inclusive trabalhadores inativos, isto é, aposentados.

Usura é o nome dado a prática de se cobrar juros excessivos pelo empréstimo de determinada quantia de dinheiro. Até a Idade Média, a prática de cobrar juro era proibida, pois a Igreja católica acreditava que “dinheiro não poderia gerar dinheiro”. A cobrança de juros era considerada uma forma de se explorar alguém que estava passando por situação difícil. Mas por que alguém emprestaria seu dinheiro, propiciando ganho ao devedor, sem receber nenhum prêmio por isso?!

Quando esta tendência de expurgar os pecados via bode expiatório, caça às bruxas, perseguição aos usuários, entre outras reações emocionais, é levada ao seu extremo, podem ser criadas regras sociais de controle da linguagem, como no caso do politicamente correto. Parece ser “in” condenar a “financeirização” ou a “dominância financeira”. É classificado como “out” alertar que todos nós, trabalhadores assalariados, somos (ou seremos) rentistas, quando aposentarmos, devido a longevidade da vida inativa. Pior, pode ser condenado a arder para o inferno (ou então a receber gelo) aquele que salientar que, no Brasil, a gestão dos grandes bancos é realizada não por genuínos banqueiros, mas sim por profissionais que ascenderam na carreira.

A esquerda brasileira é cristã e medieval?!

Na atual crise financeira, os banqueiros em geral e os rentistas em particular são apresentados, respectivamente, como os “bodes”  e o “touro” (símbolo da alta na Bolsa de Valores) que vão para o sacrifício, levando consigo os pecados de toda a gente que se aproveitou da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Envolve desde os subprimes até as economias do resto do mundo que aceitaram financiar o consumismo norte-americano, pois nunca houve um ciclo expansivo tão generalizado – e ninguém queria ficar de fora!

1 thought on “A humanidade só será feliz quando o último rentista for enforcado com as tripas do último banqueiro

  1. O cara perde tanto tempo pra tirar uma frase filosófica de seu contexto em defesa do capital… Só posso concluir que o capitalismo é indefensável…

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