Financiamento a Empresas retoma Patamar Pré-Crise

As emissões domésticas no mercado de capitais totalizaram R$ 396,1 bilhões em 2019, o que corresponde a um aumento de 59,3% em relação ao ano anterior. A despeito da participação relevante, os ativos de renda fixa reduziram sua participação no total emitido, de 89,1% para 68,2%, decorrente da maior colocação das ações, que subiram de 4,5% para 22,8%, além dos Fundos de Investimentos Imobiliários que registraram elevação de 6,3% para 9,0%. Este movimento respondeu à redução de 200 pontos base da Taxa Selic em 2019, o que induziu uma realocação dos recursos para o mercado acionário ao longo do ano passado.

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No mercado de renda variável, o grande destaque foram as ofertas subsequentes de ações (follow-ons) que saíram de R$ 4,5 bilhões para R$ 79,9 bilhões, um aumento de mais de 1500,0%, o que corresponde à uma elevação no número de operações de 3 para 37 negócios. Já os IPOs, a oferta inicial de ações, passaram de R$ 6,8 bilhões para R$ 10,2 bilhões, um aumento de 51,7%. Este aumento não se refletiu no número de operações: aumentou apenas de três para cinco negócios em 2019.

As emissões de debêntures mantiveram o perfil de crescimento anual que vem ocorrendo desde 2017, com aumento do volume emitido, de R$ 153,7 bilhões em 2018 para R$ 173,6 bilhões, participação predominante dos investidores institucionais nas ofertas públicas, 51,8% para 53,8% e elevação do prazo médio de colocação, de 5,9 para 6,5 anos. A parcela de debêntures emitida em 2019 caiu em relação ao ano anterior, de 61,8% para 43,8%, queda explicada pelo aumento relativo das operações com ações.

Já as debêntures incentivadas emitidas sob o artigo 2º da Lei 12.431, direcionadas a projetos de infraestrutura e com isenção de IR para pessoas físicas, passaram de R$ 21,8 bilhões para R$ 33,2 bilhões em captação, o que corresponde a um aumento do número de operações no mercado primário de 65 para 70 negócios. O prazo médio de colocação registrou elevação de 10,3 para 12,6 anos.

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A melhora do segmento imobiliário na economia reativou as operações de FIIs (Fundos de Investimentos Imobiliários), sobretudo no segundo semestre. O volume emitido deste instrumento mais do que dobrou em 2019, de R$ 15,7 bilhões para R$ 35,8 bilhões, já representando 9,0% do total emitido no mercado de capitais ano passado. As pessoas físicas continuam como os principais subscritores das ofertas públicas de FIIs com 54,6% do total colocado.

As captações externas totalizaram US$ 25,4 bilhões contra US$ 15,4 bilhões de 2018. Deste total, 95% foram com títulos de dívida e o restante em operações com renda variável. As maiores captações do ano foram de uma emissão soberana de títulos do Governo brasileiro e outra, também de renda fixa, da Petrobrás, ambas no valor de U$$ 3,0 bilhões.

Por Sérgio Tauhata (Valor, 10/01/2020) informa a captação por PJ com ações em ofertas subsequentes e dívida via debêntures compensa recuo do BNDES.

O financiamento do setor corporativo brasileiro já retornou ao patamar visto antes da recessão. Mas, ao contrário dos períodos anteriores à crise, o impulso, dessa vez, vem do forte crescimento dos setores de dívida privada e de renda variável. O mercado de capitais tem substituído com muita folga a queda do crédito subsidiado do BNDES. Além disso, as concessões de empréstimos bancários às empresas, que vivenciaram crescimento mais lento na crise econômica, voltaram a acelerar a partir de 2019.

Segundo levantamento do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec), integrado à Fipe, a soma das captações das empresas não financeiras por meio de ações e renda fixa no país e os desembolsos do BNDES alcançaram R$ 314,15 bilhões em 12 meses até setembro de 2019. Trata-se de patamar quase igual ao de 2013, quando o banco de fomento atingiu o recorde de concessões no crédito subsidiado, de R$ 190,4 bilhões. Continuar a ler

Como organizar as Finanças Pessoais e começar a investir?

Entrevista concedida a Fábio Gallacci (Portal do Banco Safra) em 08/01/20:

1 – Gastos no final do ano, muitas contas chegando em janeiro, impostos, fatura do cartão de crédito…como evitar o descontrole das contas nessa época de retomada da rotina?

Não há como evitar o descontrole das contas de gastos já efetuados a serem ainda pagos. Para todos os gastos, é necessário planejamento financeiro. No caso desses sazonais, antes de ocorrerem. Por exemplo, no caso de IPVA e IPTU, respectivamente, em janeiro e fevereiro, têm de ser previstos com uma reserva adequada para pagá-los.

Pense: “o tempo de minha vida ativa será 35 anos, mas poderei viver mais 20 anos em vida inativa. Então, para manter o padrão de vida alcançado, terei de desdobrar o ganho em um ano para manter-me quase por dois. Para isso, necessito Educação Financeira”.

Em Finanças Comportamentais, aprendizagem de um comportamento racional significa “domesticar os instintos primários”. Com esse autocontrole mental se evita gastos de consumo sob impulso emocional – e não por necessidade básica.

Faça um Orçamento Pessoal/Doméstico e estabeleça metas financeiras. Quando se aposentar, o patrimônio líquido deve ser nove vezes a receita total líquida recebida anualmente, após descontos tributários e previdenciários, em todas as fontes de renda.

O algoritmo denominado “1-3-6-9” sugere acumular, para manter o padrão de vida (ou de consumo) na aposentadoria, nove vezes a remuneração anual aos 65 anos. Com esse valor, é possível um saque mensal por cerca de vinte anos (240 meses) no mesmo valor presente da receita total líquida, supondo juros de 0,5% a.m. para capitalizar o saldo do capital financeiro.

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Fundo de Ações registra a maior captação no ano de 2019  pela primeira vez na indústria de fundos

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Apesar de ter registrado resgate líquido de R$ 51 bilhões em dezembro, a indústria de fundos de investimentos encerra 2019 com captação líquida de R$ 191,6 bilhões, mais do que o dobro registrado no ano anterior (R$ 95,4 bilhões).

Com captação líquida de R$ 16,9 bilhões em dezembro, a classe ações encerrou o ano com o seu melhor resultado anual e com a maior captação líquida da indústria, R$ 86,2 bilhões, o que corresponde a um crescimento de 195% em relação a 2018. Somente o tipo livre, que tem o maior PL dentro dessa classe, registrou entrada de R$ 7,4 bilhões em dezembro e de R$ 45,4 bilhões em 2019.

A classe multimercados ficou com o segundo melhor resultado, tanto no mês como no ano. Após registrar entrada líquida de R$ 7,7 bilhões em dezembro, a classe acumulou captação líquida de R$ 66,8 bilhões em 2019 – crescimento de 37,3% em relação a 2018. Os tipos multimercados livre e investimento no exterior foram os destaques, com entrada de R$ 3,9 bilhões e R$ 2,7 bilhões no mês, respectivamente; e R$ 30,1 bilhões e R$ 25,7 bilhões no ano, nesta ordem.

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Diante das recentes reduções de juros e da renovação das expectativas em relação à manutenção da taxa Selic, intensificou-se o movimento de diversificação na alocação de recursos por parte dos investidores ao longo do ano. Isso explica o melhor desempenho da classe ações na sua história e a maior saída líquida da classe renda fixa dos últimos anos. Continuar a ler

Bull Market seguido de Bear Market: Euforia e Pânico no Mercado de Ações

Touro ataca de baixo para cima. Urso ataca de cima para baixo. São metáforas, respectivamente, para a alta e a baixa do mercado de ações. Em alta, os especuladores até se endividam para apostar mais na euforia. Em baixa, surge o pânico de todos para vender tudo logo, antes de maior queda, e pagar o endividamento.

Marcelo D’Agosto (Valor, 08/01/2020) publicou artigo didático. Compartilho-o abaixo.

“Nos últimos 12 meses a rentabilidade do Ibovespa foi de 31,58%, com altos e baixos. Em maio do ano passado, por exemplo, o índice chegou a acumular queda de quase 7%, mas fechou o mês com alta de 0,7%. Em janeiro de 2019 a bolsa subiu quase 11%, mas logo no mês seguinte caiu quase 2%. O índice também foi negativo nos meses de março e agosto.

Quem preferiu fugir das oscilações do mercado acionário e investiu em aplicações atreladas ao CDI ou à taxa básica Selic ganhou, em 2019, 5,97% sem sustos. Foi substancialmente menos se comparado às alternativas mais arriscadas. [Mas superou a inflação de 4% no ano.]

A diferença entre a rentabilidade da bolsa e da renda fixa foi de 25,61 pontos percentuais no ano passado. Esse número pode ser interpretado como o prêmio de risco. Significa a compensação que o investidor recebe pelo desconforto de ver o valor das aplicações em ações oscilar no dia a dia. Continuar a ler

Fraudes Financeiras Recorrentes em Mercado de Capitais

Tenho postado vários gráficos e dados neste modesto blog pessoal capazes de falsear a “visão otimista” de O Mercado, propagandeada de forma enganosa como no ano passado. Diziam antes: depois de aprovada a Reforma da Previdência tudo será uma maravilha!

 

Para quem? Para os especuladores comprados em ações e esperando a malta em fuga da renda fixa, pela queda dos juros e pela necessidade de capitalização para manter seu padrão de vida em futura aposentadoria.

Quantos são? Um milhão e seiscentos mil investidores, a grande maioria das 800 mil PF ingressantes em 2019 na Bovespa tem até 35 anos — e R$ 35 mil de saldo médio. “Sorte do Iniciante” é a entrada em alta, quando o mercado está “comprado”, e aí as profecias são autorrealizáveis. Virá o boom e depois o crash. Os investidores estrangeiros já estão em fuga.

 

São maus os fundamentos atuais da economia brasileira: desindustrializada e dependente de demanda externa para obter maior dinamismo. Os pobres estão perdendo poder aquisitivo, devido à retomada da inflação de alimentos com a renda estagnada, e o mercado interno popular está se estreitando.

Enfim, não tenho esperança no atual desgoverno — e em seu pressuposto ideológico de “automatismo do livre mercado”. Sua equipe ministerial é a pior de todos os tempos! É composta de gente desqualificada para ocupar seus cargos…

 

Fernando B. do Amaral (Valor, 07/01/2020) publicou artigo para advertir aos 800 mil PF recém-chegados ao mercado de ações brasileiro: tomar cuidado com promessas de ganhos fáceis, em particular as “boas demais para serem verdade”. Compartilho-o abaixo. Continuar a ler

Bolha de Ações com Maus Fundamentos Econômicos

 Fusões e Aquisições:

Fuga de Estrangeiros na Bovespa

Os números e os gráficos falam por si. Mas acrescento algumas informações abaixo para análise do quadro paradoxal de um país em derrocada social, econômica e política, embora com uma bolha de ações para iludir incautos com a “sorte de iniciante”. Os novos especuladores ganham na entrada com base em análise grafista, seguindo tendência de alta, e perderão na súbita fuga de capitais com base em análise fundamentalista.

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Risco Mundial: Juro Baixo – Endividamento – Capital Especulativo em Bolsa de Valores – Boom e Crash

Victor Rezende e Lucas Hirata (Valor, 18/12/2019) advertem quanto ao risco da crise de 1929 se repetir quase um século depois.

O ambiente global de taxas de juros mais baixas já se reflete em um aumento significativo da dívida mundial. Ele deve fechar o ano no nível recorde de US$ 255 trilhões. Com o alto endividamento observado em empresas não financeiras, analistas e instituições reguladoras têm se mostrado mais preocupadas com a questão.

O Federal Reserve (Fed) é uma das mais recentes a emitir sinais de alerta nesse sentido, em linha com o pensamento de profissionais conscientes do fato: ainda se a dívida não se mostrar uma ameaça iminente para o sistema financeiro, choques comerciais e a desaceleração global podem expor vulnerabilidades em empresas alavancadas e em estruturas não testadas de mercado.

Nos EUA, a dívida corporativa está em torno de 45% do Produto Interno Bruto (PIB), maior nível desde a Segunda Guerra. O cenário de crescimento econômico deve ser monitorado. Duas coisas poderiam mudar esse ambiente:

  1. uma elevação substancial das taxas de juros e
  2. uma deterioração do fluxo de caixa das empresas, o que poderia ocorrer em um cenário de desaceleração da atividade econômica.

Se as taxas de juros aumentarem bastante, as empresas veriam seus custos subirem e poderiam ter alguns problemas, mas isso não deve acontecer no curto prazo. O Fed deve manter sua política monetária inalterada ao longo de 2020 — e com mais capital especulativo inflar a bolha de ações na bolsa de valores de NYC.

Quanto a um desaquecimento econômico adicional, várias situações poderiam causar um choque negativo forte. Como exemplos:

  1. uma deterioração substancial das relações sino-americanas e
  2. um cenário em que tropas chineses invadissem Hong Kong. Continuar a ler