Juros Negativos em Depósitos Voluntários em Risco Soberano

Lucas Hirata e Ana Paula Ragazzi (Valor, 15/10/2019) afirmam: juros negativos não são uma realidade no Brasil, e ninguém aposta nesse fenômeno estar para acontecer por aqui. Mas o tema desafia os modelos de teoria financeira e está cada vez mais presente no dia a dia dos principais gestores do mercado.

Hoje, o volume de títulos de governos com juros negativos chegou a US$ 17 trilhões pelo mundo neste ano, aproximadamente 27% do mercado mundial de bônus  soberanos. Três países concentram 70% desses papéis: Japão, Alemanha e França. Mas existem títulos de empresas, como a Louis Vuitton, com retorno negativo, por conta de emissões que têm como referência os títulos de governo.

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Princípio do Fim para os Grandes Bancos?! Ora, ora…

Rodrigo Lowndes (Valor, 11/10/2019) foi presidente do Banco Morgan Stanley no Brasil e responsável pela empresa de private equity Southern Cross no Brasil. É sócio da empresa XPRT Consulting de assessoria financeira. Reproduzo seu artigo abaixo.

A tecnologia vem mudando significativamente a dinâmica de negócios tradicionais nos últimos 20 anos. Chegou a vez do setor financeiro. Em sua primeira onda, a tecnologia reduziu sensivelmente os custos operacionais dos bancos estabelecidos, através de caixas eletrônicos, internet banking e meios de pagamento digital. Esse movimento beneficiou inicialmente os grandes bancos, que conseguiram melhorar seus processos e reduzir seus custos. Mas essa redução de custos via tecnologia abriu caminho também para uma nova dinâmica de negócios no setor, permitindo a entrada de novos competidores.

Nesta nova fase, as mudanças tecnológicas vêm beneficiando enormemente novas plataformas financeiras digitais, seja através da redução do custo de captação de clientes ou novas formas de interação. Em seu primeiro movimento, as novas plataformas financeiras digitais estão buscando principalmente clientes mais lucrativos. Eles tradicionalmente compram produtos caros dos grandes bancos. Foi assim com as plataformas abertas de investimentos, como XP, Easynvest ou Genial, que trouxeram mais opções, melhores rentabilidades e menores custos de investimentos.

Foi assim também com as novas emissoras e processadoras de cartões de crédito, como a Nubank, Stone e PagSeguro, que utilizaram estratégias mais agressivas de marketing e precificação para ganhar mercado. Mais recentemente, os bancos digitais, como Inter, Nubank, Original e C6, vêm aumentando rapidamente o número de clientes, via facilidade de interação (completamente diferentes das plataformas digitais dos grandes bancos) e gratuidade de tarifas.

Em um futuro próximo, as plataformas digitais oferecerão, sem aumento de custos, serviços muito superiores aos atuais.

Por que preencher um formulário de perfil de risco se um algoritmo de inteligência artificial pode calcular seu perfil baseado em seus dados pessoais, situação familiar e profissional, estilo de vida (se a regulação permitir) e, subsequentemente, te oferecer os melhores investimentos, cartões e experiências?

Por que se acomodar com uma opção de financiamento oferecida pela concessionária de veículos ou loja de eletrodomésticos se um algoritmo pode instantaneamente analisar diversas ofertas de empréstimo disponíveis no mercado e te oferecer a melhor opção para financiar sua compra?

Por que as taxas de juros não variam dependendo do perfil de risco de cada pessoa buscando um empréstimo? Continuar a ler

Relatório de Estabilidade Financeira out 2019

Flávia Furlan e Talita Moreira (Valor, 11/10/2019) informam: a queda da taxa Selic em mais de oito pontos percentuais desde outubro de 2016, para a mínima histórica de 5,5% ao ano, ainda não teve influência significativa na rentabilidade dos bancos. Pelo contrário, no período, o indicador das principais instituições apresentou recuperação, após ter sido impactado pelo aumento da inadimplência nos anos de recessão. O atual patamar de juro, no entanto, representa uma pressão para as margens daqui para frente no contexto de aumento da competição no sistema financeiro.

Projeções de analistas acompanhantes do setor — e sempre equivocados em suas previsões — acham o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) em patamar superior a 20%, apresentado pelos grandes bancos, não deverá ser mais a realidade nos próximos anos. Seus números fictícios apontam para uma queda a partir de 2021, chegando a um intervalo entre 15% e 20%, mais próximo dos padrões internacionais.

Eles se justificam pela perda de força dos fatores a neutralizar o efeito do juro menor na rentabilidade dos bancos:

  1. a reversão das elevadas provisões para perdas com crédito;
  2. os ganhos de eficiência operacional; e
  3. o ritmo mais lento de renovação dos empréstimos, protelando o repasse das taxas mais baixas, em comparação ao impacto, imediato, nos custos de captação. Continuar a ler

Mercado de Capitais: volume recorde de captação

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O mercado de capitais doméstico registrou captação de R$ 268,9 bilhões em 2019 (até setembro), 42% superior ao volume captado, R$ 189,5 bilhões, no mesmo período do ano passado. Esse resultado é o maior da série histórica, mesmo na comparação com os dados de janeiro até dezembro dos anos anteriores. As debêntures mantêm-se a parcela mais representativa desse montante, com 45,5% do total – o equivalente ao volume de R$ 122,3 bilhões.

Os investidores institucionais são os principais demandantes nas ofertas públicas de debêntures, com 60,6%, seguidos das instituições coordenadoras das ofertas, com 35,5%.

O refinanciamento dos passivos representa o maior montante da destinação dos recursos das emissões, com 44,3% (incluindo nessa parcela a recompra ou resgate de debêntures de emissão anterior), seguido do financiamento do capital de giro, com 29%. Continuam as grandes empresas brasileiras em fase de desalavancagem financeira, abaixando o custo financeiro e alongando o perfil de suas dívidas.

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Queda da Propensão a Consumir

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Dados da ANBIMA confirmam minha hipótese: paradoxalmente para muitos, a queda da taxa de juros está levando a menor propensão a consumir em vez de aumentar os gastos das famílias e, daí, os investimentos e a demanda efetiva. Para manter o planejamento financeiro até a aposentadoria, parte do valor adicionado distribuído como renda do trabalho se dirige para aplicações financeiras em busca de recomposição patrimonial de acordo com os planos realizados com taxas de juros mais elevadas.

A indústria de fundos de investimentos encerrou setembro com captação líquida de R$ 28,1 bilhões e acumula, em 2019, saldo positivo de R$ 205,7 bilhões. Isso corresponde a um crescimento de 180% em relação ao mesmo período do ano passado. A renovação dos juros no patamar mais baixo da história somada às perspectivas de novos cortes na taxa Selic ainda este ano reforçam o bom momento para indústria de fundos, principalmente nas classes que buscam rentabilidade em ativos de maior risco. Continuar a ler

Fuga dos Estrangeiros do Mercado Secundário e Preferência pelo Mercado Primário de Ações

Juliana Machado e Ana Carolina Neira (Valor 12/09/2019) informam: a forte presença do capital externo nas ofertas de ações neste ano está longe de indicar uma retomada da disposição desse investidor em ampliar a exposição ao mercado brasileiro. Os estrangeiros permanecem altamente seletivos na alocação de recursos em ativos brasileiros. A quantidade de dinheiro novo dedicada ao país ainda é muito pequena e esbarra na baixa demanda por risco.

Este ano, as novas ofertas de ações — duas iniciais (IPOs) e 17 subsequentes (follow-ons) — giraram R$ 53,8 bilhões, sendo que R$ 25,02 bilhões corresponderam a capital externo. Desse total adquirido por estrangeiros, R$ 14,1 bilhões – mais da metade, portanto – ficaram concentrados em só três empresas: dois follow-ons do IRB Brasil (um em fevereiro e um em julho), um da Petrobras e outro da BR Distribuidora. Sozinha, as distribuições de papéis do IRB, uma empresa de base acionária internacional, concentraram uma fatia de estrangeiros de R$ 7 bilhões. O estrangeiro destinou seus recursos basicamente às velhas conhecidas: grandes companhias, de baixo risco e base acionária já bastante internacionalizada.

Já no mercado secundário, onde são negociadas ações já listadas, a saída do estrangeiro soma R$ 23,3 bilhões em 2019 até 9 de setembro. Considerando a entrada de R$ 25 bilhões do mercado primário, portanto, a exposição dessa classe de investidor a toda a bolsa está positiva em R$ 1,8 bilhão no ano.

Esse número ainda é um dos menores desde, pelo menos, 2004. Isso quer dizer: as novas ofertas conseguiram amenizar o efeito do fluxo negativo para a bolsa este ano, mas não a ponto de colocar a participação do não residente nos patamares observados em momentos de entusiasmo. Nos últimos seis anos, as entradas de estrangeiros nos segmentos primário e secundário sempre ficaram em dois dígitos. Volta, PT! Continuar a ler

Em busca de inflar uma Bolha de Ativos

Veja o vídeo acima insuflando a volta ao padrão-ouro! Naturalmente, estão “comprados em ouro”, esperando a malta…

Álvaro Campos (Valor, 24/09/19) avalia: com o aumento das turbulências nos mercados financeiros internacionais nos últimos meses e os juros negativos em muitas partes do mundo, um ativo antes meio ofuscado voltou a ganhar brilho recentemente: o ouro. No dia 23/09/19, o ativo fechou em alta de 1,07% em Nova York, a US$ 1.531,50 a onça-troy, perto dos maiores níveis em seis anos, impulsionado pela guerra comercial e renovados sinais de fragilidade na economia da zona do euro.

Recentemente, o Citigroup divulgou relatório afirmando as tensões entre Estados Unidos e China e outras incertezas geopolíticas, como o Brexit e as instabilidades no segmento de petróleo no Oriente Médio, poderem levar o ouro para o patamar recorde de US$ 2 mil a onça-troy nos próximos dois anos.

Além dos contratos futuros de ouro negociados na Bolsa Mercantil de Nova York, os investidores individuais podem apostar no ouro basicamente de outras quatro formas:

  1. metal físico;
  2. Exchange Traded Commodities (ETC), uma espécie de fundo negociado em bolsa (ETF) para acompanhar a cotação do mercado à vista;
  3. ações de mineradoras; e
  4. fundos investidores no metal, oferecidos por grandes bancos e gestoras.

Além de ativo financeiro, outra importante função do ouro é como reserva de valor. Segundo o World Gold Council, entidade internacional divulgadora de dados sobre o setor, a demanda pelo metal cresceu na primeira metade deste ano e deve continuar positiva nos próximos meses, puxada inclusive pelos bancos centrais. Grandes países da Europa e os Estados Unidos mantêm mais de 60% das suas reservas internacionais em ouro.

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