Economia Interdisciplinar e Riqueza Imobiliária

O artigo sobre “Riqueza Imobiliária”, que os alunos – Tatiana Rimoli Gzvitauski, Marcel Roberto Santos Dias, Rafael Bertazzi Costa Rosa, Daniel Herrera Pinto – e eu fomos coautores, como trabalho de avaliação no curso de Doutoramento no segundo semestre de 2016, foi o trabalho vencedor do I PRÊMIO LARES IBAPE/SP. O prêmio foi conferido na XVII Conferência Internacional da LARES 2017, onde foi apresentado. Nos tínhamos o publicado como Texto para Discussão 284 do IE-UNICAMP (TDIE).

Essa é uma experiência didática que se tem revelado frutífera. Na primeira vez, o artigo – “Economia Interdisciplinar” –, cujos coautores foram Taciana Santos, Daniel Pereira da Silva, Samir Luna de Almeida e eu, foi selecionado como o número 1 da primeira revista da UFABC. Esta Universidade, que busca fazer pesquisa na vanguarda tecnológica, queria criar uma revista para a Agência de Inovação da UFABC.

Seu editor me disse que o perfil editorial seria inovação, empreendedorismo, startups, negócios. Queria imprimir um perfil de artigos baseados mais nos modelos da complexidade e do evolucionismo. Estava procurando membros para o Conselho Editorial e artigos para o primeiro número. Solicitou-me sugestões.

Coincidentemente, na ocasião, meus alunos e eu estávamos debatendo e pretendendo publicar uma breve resenha sobre tema do curso Economia Interdisciplinar: Comportamental, Institucionalista, Evolucionária e Complexa. Enviamos e recebemos parecer nos parabenizando “pelo excelente artigo. Era exatamente o que precisávamos para o primeiro número, um artigo que mostra o perfil pretendido da revista no campo teórico. O resumo do artigo é perfeito para o foco que pretendemos. Este artigo também vai ajudar muito as nossas disciplinas ligadas à C&T”. Continue reading “Economia Interdisciplinar e Riqueza Imobiliária”

Perfis dos Investidores Financeiros no Brasil

A pesquisa da ANBIMA sobre a trajetória financeira do brasileiro ganhou dados quantitativos. Uma rápida olhada acima dá para verificar que a diferença substantiva de Educação Financeira entre o Ensino Fundamental e o Ensino Superior é que, entre estes, há mais “sonhadores”. E entre as gerações é de se esperar pela “ordem natural de amadurecimento” que os jovens até 21 anos sejam proporcionalmente mais “sonhadores”. E os velhos baby-boomers planejam menos, afinal, entre 53 e 72 anos, estão na fase de desfrute (consumo) e não de acumulação.

Na primeira etapa, a pesquisa identifica as cinco formas mais comuns das pessoas se relacionarem com dinheiro (veja a descrição e a distribuição de cada um deles no material para download no final do post) que deram origem aos perfis:

  1. despreocupado: 11%,
  2. camaleão: 29%,
  3. construtor: 30%,
  4. sonhador: 8%,
  5. planejador: 22%.

Na segunda fase, os pesquisadores foram às ruas, com ajuda do DataFolha, para saber quantos somos em cada um desses segmentos. Ouviram 2.653 pessoas das classes A, B e C de 130 municípios do Brasil.

O levantamento identificou que para apenas 22% da população, os chamados planejadores, guardar dinheiro é um compromisso. Essas pessoas são consideradas organizadas e têm uma relação forte e sadia com o dinheiro.

O trabalho é parte de uma iniciativa maior, liderada pela área de Educação da ANBIMA, que teve como ponto de partida buscar explicações para a baixa poupança do brasileiro.

[Fernando Nogueira da Costa: simples, posso explicar ou desenhar de graça, é por causa do crescimento em ritmo muito baixo da renda agregada em comparação com o padrão de consumo das diversas classes de renda.] Continue reading “Perfis dos Investidores Financeiros no Brasil”

Educação Financeira: Necessária, Mas Não Suficiente para a Boa Vida

Acho impressionante a capacidade reducionista que tem a “opinião especializada” brasileira, predominantemente, com formação ortodoxa em Economia, de “analisar o mundo a partir do próprio umbigo”!

Essa formação é tão precária a ponto de pessoas incultas — “que se acham superiores aos heterodoxos (sic)” — desconhecerem a diferença entre individualismo metodológico e holismo metodológico. O primeiro estabelece que as explanações sobre os fenômenos sociais, políticos ou econômicos somente devem ser consideradas adequadas se colocadas em termos de crenças, atitudes e decisões dos indivíduos. O segundo, pelo contrário, postula que os conjuntos sociais têm fenômenos sistêmicos que não podem ser reduzidos a crenças, atitudes e ações dos indivíduos que os fazem.

Evidentemente, o conhecimento específico de um macroeconomista “heterodoxo” o dota de uma visão holística que o microeconomista “ortodoxo” desconhece. Exemplo mais comum disso diz respeito ao Paradoxo da Parcimônia: se todos poupam, i.é, cortam gastos, caem as vendas e, em consequência, a renda se torna menor. Como o padrão básico de consumo permanece, ao fim e ao cabo, a posteriori, ex-post, etc., cairá a poupança ao contrário do que esperava a visão individualista e era a intenção da pessoa inicialmente.

Outro equívoco rudimentar dos economistas ortodoxos: não diferenciar entre poupadores — aqueles que, passivamente, verificam a sobra de renda no fim do mês — e investidores — aqueles sujeitos ativos que planejam seu “débito automático” e/ou seu “consignado” (desconto do fluxo de renda recebida) mensal para realizar investimentos. Estes sabem que têm de investir durante 360 meses 20% da renda recebida para, após esses trinta anos, já obter uma renda do capital financeiro suficiente para substituir sua renda do trabalho, isso considerando a taxa de juros média mensal de 0,5%. No Brasil “neoliberal”, esta costuma ser a taxa de juro real…

Adriana Cotias (Valor, 09/11/17) avalia que “as iniciativas de Educação Financeira no país nos últimos anos têm sido insuficientes para incrementar a poupança do brasileiro“. É o que sugere sua leitura de um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que mostra que apenas cerca de um quarto da população economicamente ativa (24%) faz algum tipo de investimento. Entre os que guardam dinheiro, a maioria pertence à classe A (42%), com a classe C na ponta oposta (18%). E o instrumento preferido daqueles que deram esse passo é a caderneta de poupança, uma via de eficiência questionável.

Esses dados constam na pesquisa “Relatório ANBIMA – Debate-Relação do Brasileiro com Dinheiro“. Na coleta, feita pelo Datafolha em junho, foram ouvidas 2.653 pessoas com mais de 16 anos das classes A, B e C, em 130 municípios de todo o Brasil. O recorte sobre investimentos foi aberto pela Anbima. O estudo confirma um diagnóstico feito pelo Banco Mundial, que em 2014 apontava que os poupadores representavam 28% da população brasileira, metade do percentual em outras economias. Regionalmente, no Brasil se guarda menos dinheiro do que em países com renda per capta menor na América do Sul, caso de Bolívia ou Paraguai.

[Fernando Nogueira da Costa: para se ver o baixo nível da formação ortodoxa brasileira, os economistas, convencionalmente, tomam o dado de poupança na Contabilidade Social para diagnosticar as reservas financeiras individuais! Ora, uma economia depressiva e/ou rastejante, como está a brasileira atualmente, o ritmo de crescimento do fluxo da renda está inferior ao do fluxo de consumo, portanto, a variável contábil residual “poupança macroeconômica ex-post” está muito baixa. E daí? Os haveres financeiros, segundo o indicador M4/PIB, estão em torno de 100% do PIB!] Continue reading “Educação Financeira: Necessária, Mas Não Suficiente para a Boa Vida”

Inovações Financeiras: operações online em tempo real

Daniel Rittner (Valor, 24/10/17) informa que, na China, um aplicativo de pagamento por celular faz 600 milhões de transações por dia.

“Insira o cartão no sentido apontado pelo adesivo sobre a máquina”, avisa a placa no museu histórico de Shenzhen – uma sonolenta vila de pescadores miseráveis nos anos 1970, hoje transformada em espécie de Vale do Silício asiático, com mais de 10 milhões de habitantes.

A relíquia é um caixa eletrônico e o cartaz explica, em cinco passos, como sacar dinheiro. Em boa parte da China, diante de um equipamento como esse, é justo dizer que crianças e adolescentes talvez não enxerguem utilidade.

O mundo usa cada vez menos papel-moeda, mas a viagem para o futuro empreendida pelos chineses é feita sem escalas. Dá um salto nos cartões de débito e de crédito – sinônimos de inclusão bancária no Ocidente. De lojas de grife nos grandes aeroportos até pequenas mercearias nos bairros residenciais, eles já adotaram o uso massivo do celular como sistema de pagamento corrente.

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Captações via Mercado de Capitais X BNDES

Os “gênios da profissão” estão “felizes como pinto no lixo” porque já obtiveram o que almejavam:

  1. criminalizar o financiamento desenvolvimentista do BNDES;
  2. nivelar por baixo o BNDES;
  3. inferiorizar o BNDES face ao Banco Mundial;
  4. abrir espaço para o mercado de capitais privado, derrubando o BNDES.

Sérgio Tauhata (Valor, 09/11/17) informa que Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec- Ibmec) afirma que:

  • o crescimento recente do mercado de capitais e
  • a tendência de manter essa expansão nos próximos anos têm ligação direta com:
  1. a queda da taxa de juros para perto da mínima histórica e
  2. a mudança da política de desembolsos do BNDES.

Segundo o pesquisador, a maior parte das companhias financiadas pelo banco de fomento até o início da crise econômica eram de porte grande, com modelo de governança, transparência e balanço auditado, ou seja, aptas a recorrer ao mercado de capitais. “Essa fonte alternativa de recursos mais interessante afastou essas companhias das emissões”. Continue reading “Captações via Mercado de Capitais X BNDES”

I PRÊMIO LARES IBAPE/SP

Caros seguidores deste modesto blog: compartilho uma boa notícia. O artigo que meus alunos e eu fomos coautores, escrito no curso de Doutoramento do IE-UNICAMP, na disciplina “Economia Interdisciplinar”, ministrada no segundo semestre de 2016,  foi o trabalho vencedor do I PRÊMIO LARES IBAPE/SP.

O I PRÊMIO LARES IBAPE/SP foi conferido na XVII Conferência Internacional da LARES 2017. Veja: http://lares.org.br/lares2017/
 
Leia o trabalho vencedor: TDIE 284 – Riqueza Imobiliária

Interações entre os Componentes Regionais do Sistema Bancário Nacional

Fui convidado para o Seminário Internacional Geografia e Finanças que ocorreu em abril de 2016 no Departamento de Geografia da USP. Seus participantes colaboraram com o envio de um artigo para compor o Dossiê abaixo.

Curiosamente, a revista do CEDEPLAR-FACE-UFMG, em faculdade que me formei, rejeitou meu artigo, alegando que “ele não tinha base teórica”!

Ora, usei teorias que o parecerista, provavelmente, desconhece:

  • Economia Institucionalista, para análise do papel das Instituições Financeiras Públicas Federais contrapondo-se à concentração regional do crédito,
  • Economia Evolucionária, para reconhecer que “a história importa” e impõe uma concentração regional da captação de recursos no centro financeiro (SP), e
  • Economia da Complexidade, para verificar a emergência do Sistema Financeiro Nacional a partir das interações desses seus componentes regionais.

Na verdade, desconfio — como “bom mineiro” conhecedor das práticas nepotistas da minha terra e corporativistas da minha profissão — que o parecerista usou do corporativismo em sua avaliação, simplesmente, porque falseei com dados a hipótese levantada por seus colegas pós-keynesianos. Eles prognosticaram uma progressiva concentração regional do crédito porque generalizaram um conceito equivocado para todos os bancos, independentemente de serem privados ou públicos: preferência por liquidez e/ou aversão ao risco de conceder crédito na periferia. Não se atentaram para as diferenças entre o SFN e o de onde está teoria foi inspirada: lá, economia de mercado de capitais, aqui, economia de endividamento bancário com crédito público.

Mas esse veto ao método científico acabou sendo bom porque a revista da GEOUSP é muito mais ranqueada… 🙂

GEOUSP: Espaço e Tempo (Online)

Revista dos Programas de Pós-Graduação em Geografia Humana e Geografia Física do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – Brasil
ISSN: 2179-0892

v. 21, n. 2 (2017): Dossiê Geografia Econômica

Sumário Continue reading “Interações entre os Componentes Regionais do Sistema Bancário Nacional”