Taxa de Juros Real Negativa e Aposta em Bolha de Ações inflada pelo Regime de Capitalização

O nível negativo (taxa de juro nominal abaixo da taxa de inflação) da taxa de juro real impulsiona investidores saírem da renda fixa com risco soberano para investirem em renda variável com alto risco. Se houver um choque de demanda por ativos, no caso, ações, para atender às carteiras dos Fundos de Previdência Privada Complementar, os especuladores ganharão em curto prazo. Depois do estouro da bolha artificial, os futuros aposentados não terão recursos para custear suas necessidades básicas, tal com no Chile dos Chicago’s Boys.

Adriana Cotias (Valor, 02/05/19) informa: a bolsa despontou como um dos ativos de melhor desempenho em abril de 2019 dentre as aplicações financeiras. Os estrategistas de investimentos ainda acreditam: quem partir para a diversificação com uma parcela da carteira em ações será premiado.

Porém, não é hora de colocar todas as fichas nesse tipo de risco porque até a reforma da Previdência ser aprovada com Regime de Capitalização substituindo o Regime de Repartição, para os trabalhadores de renda superior ao teto do INSS, é de se esperar muito vaivém de cotações. A recomendação é tomar o mesmo passo dos gestores profissionais e deixar um pouco mais dinheiro em caixa, ou seja, em aplicações atreladas ao CDI ou à Selic, para aproveitar eventuais oportunidades. Continuar a ler

Carência de Educação Financeira dos Investidores e Sorte de Iniciante

Sorte do Iniciante é o viés heurístico de quem aprende as coisas por si só, através de tentativa e erro. Faz uma associação (falsa) a êxitos anteriores, projetando a permanência de êxitos no futuro. Os primeiros lucros dão motivação para o iniciante mais investir. Obviamente, esse êxito nada tem a ver com sua capacidade individual, mas sim por entrar em ciclo de alta.

Júlia Moura (FSP, 09/05/19) informa: a Bolsa de Valores brasileira atingiu 1.046.244 de investidores pessoa física em abril de 2019. O Tesouro Direto também superou a marca de 1 milhão, com 1.006.547 investidores no mês.

Confira o histórico de perfil dos investidores pessoas físicas de Abril de 2019.

O cálculo é feito por meio dos CPFs cadastrados em corretoras. Dentre 1 milhão de investidores em Bolsa, 5% são CPFs duplicados, ou seja, investidores com conta em mais de uma corretora.

Os números, anunciados pela B3, seguem a especulação com retroalimentação de elevação de cotações por causa da predominância da compra de ações, visando antecipar o inflar de uma bolha com a implantação obrigatória de um regime de capitalização na reforma da previdência do “banqueiro de negócios”. O Chile é aqui!

Em março de 2019, o Ibovespa, maior índice acionário do país, chegou alcançar 100 mil pontos ao longo do dia, mas encerrou pouco abaixo, com 99.993 pontos.

Com a queda do juro básico de referência (SELIC/CDI), indexador da renda fixa, para o menor patamar histórico, segue a tendência dos últimos anos. Ao fim de 2017, eram 619 mil investidores. Em 2018, o número saltou para 813 mil.

A aceleração se deve aos ganhos da Bolsa brasileira no período. A partir de 2016, o Ibovespa teve ganhos expressivos. A valorização dos papéis listados — preço por ação multiplicado pela quantidade de ações que compõem o índice — saltou de 43 para 60 mil pontos de 2015 para 2016, uma alta de 39% após recessão econômica e turbulências políticas.

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Queda das Emissões Domésticas em 2019

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Em 2014, fim da Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014), o total de financiamento empresarial foi R$ 336,6 bilhões, sendo R$ 148,8 bilhões em emissões de debêntures e ações. Em 2018, o total baixou para R$ 281,4 bilhões, mas essas emissões atingiram R$ 212,1 bilhões, ou seja, o aumento de R$ 63,3 bilhões nessas emissões no mercado de capitais não compensou a queda de R$ 118,5 bilhões nos financiamentos do BNDES.

Em abril de 2019, segundo a ANBIMA, as emissões no mercado de capitais doméstico (sem contar com as demais ofertas públicas ainda não encerradas) registraram um volume de R$ 9,0 bilhões, 55% abaixo do mês anterior. O resultado acumulado em 2019 foi de R$ 60,7 bilhões contra R$ 74,0 bilhões do mesmo período do ano passado, o equivalente às 180 operações contra 265 do ano anterior.

As debêntures registraram em abril um volume de R$ 4,7 bilhão, 59% abaixo do volume emitido em março. O total das emissões deste ativo no ano foi de R$ 29,1 bilhões contra R$ 46,2 bilhões do mesmo período de 2019, o que corresponde à uma queda de 37,0%.

Todos os papéis foram colocados através de sete emissões pela Instrução nº 476, sendo a de maior volume referente à uma emissão do segmento de transporte e logística (R$ 1,4 bilhões), três de energia elétrica (R$ 1,7 bilhão) e as restantes referentes à   Educação, Financeiro e Comunicação. Não houve registro de colocação de debênture incentivada, emitida através da Lei n° 12.431. Continuar a ler

Mercado de Debêntures: Substituição do BNDES?

Partindo da premissa muito otimista de a economia brasileira crescer 2,5% a.a. nos próximos 12 anos, o impacto sobre a base atual de ativos seria de um crescimento anual médio de 6,4% para o período de 2019 a 2030. Esse aumento da base viria acompanhado de uma mudança na composição das carteiras dos investidores, fruto do crescimento do estoque de ações e debêntures, ao mesmo tempo que a emissão de títulos públicos decairia, dada a menor necessidade de financiamento da dívida pública. Enquanto os títulos do governo sairiam de uma participação relativa de 54% em 2018 para 36% em 2030, as ações avançariam de 19% para 30% e as debêntures corporativas (somadas com as notas promissórias) elevariam sua participação de 6% para 9%.

Se do lado do investidor o momento é de disputa – e algum estresse – por títulos de crédito corporativo, no lado das empresas emissoras elas estão captando a taxas mais favoráveis, próximas ao CDI, e os prazos estão cada vez mais alongados.

Em resumo, o mercado atual é “do emissor e não do comprador”. O tamanho do mercado de debêntures está sendo dado pela capacidade das empresas de tomar recursos. Hoje, a demanda pelos papéis é muito maior face à quantidade de operações indo a mercado. Continuar a ler

Desmanche do BNDES: Devolução do Funding do FAT

Edna Simão (Valor, 30/04/19) informa: o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) conta com a devolução de R$ 54 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), entre 2019 e 2021, para fechar as contas no equilíbrio, segundo boletim de informações financeiras do FAT referente ao último bimestre de 2018.

Nos últimos anos, o Tesouro cobriu boa parte do rombo para viabilizar o pagamento de seguro-desemprego e abono salarial sem que tivesse que solicitar ao BNDES a devolução de recursos ou reduzir patrimônio do fundo. Somente de 2013 a 2017, a União injetou no fundo R$ 52,4 bilhões. Com a restrição fiscal, o governo interrompeu os aportes.

Em 2017, o FAT registrou superávit nominal de R$ 1,1 bilhão em 2017 graças a uma ajuda financeira de R$ 13,8 bilhões do Tesouro. No ano passado, no entanto, o FAT encerrou o ano passado com um rombo de R$ 7,8 bilhões. No ano passado, o repasse da União ao fundo foi de apenas R$ 145,2 milhões. Entre este ano e 2021, a previsão do FAT é de que o déficit seja crescente. O resultado nominal é a diferença entre todas as receitas do fundo e as obrigações.

Para 2019, o rombo estimado é de R$ 12,9 bilhões, saltando para R$ 16,3 bilhões em 2020 e R$ 19,7 bilhões em 2021. Para cobrir o resultado negativo, segundo o boletim, o BNDES deverá devolver ao fundo R$ 12 bilhões neste ano, R$ 19 bilhões no ano que vem e R$ 23 bilhões em 2021. Continuar a ler

Crise do Subprime Brasileira “Avant la Lettre”: CVS

Raquel Balarin (Valor, 30/04/19) fez uma reportagem crucial sobre um problema histórico da dívida pública brasileira a respeito do qual sequer a opinião especializada costuma ter conhecimento. Hoje, eu o denomino “crise do subprime brasileira”. É “avant la lettre” (antes da criação da palavra) porque ela ocorreu no fim do regime ditatorial militar (1984) com um “populismo de direita” (também “avant la lettre“): perdão das dívidas dos mutuários do SFH, consequente quebra do BNH e passagem do “mico-preto” para o balanço da Caixa Econômica Federal. Quando lá estive como VP, cerca de 10% dos ativos totais do banco público correspondiam ao FCVS (Fundo de Compensação de Variações Salariais) ainda a serem novados — e sem renderem nenhum juros.

Novação, aprendi então, é a substituição de uma obrigação por outra, quando se faz a extinção de uma dívida anterior (FCVS) por uma nova, criada sob a denominação de CVS. A partir de 2010 renderia juros e terá vencimento em 2027. É um jeitinho à brasileira para o Brasil exportar para os EUA solucionar sua crise de subprime: cria um banco público e “varre para debaixo do tapete”, i.é, para dentro do seu balanço. A dívida pública, pagável 42 anos depois da geração do problema, deixa todos os mutuários com a sensação de… “e viverem felizes para sempre”.

Não é fácil encontrar nos balanços dos bancos, mas está lá. Algumas das principais instituições financeiras do país têm feito provisões para o que é, na prática, uma possível dívida pendente com bancos liquidados na época do PROER.

Para quem não se lembra, este foi um programa lançado no governo Fernando Henrique Cardoso para sanear o sistema financeiro. Ele havia entrado fortemente em crise pelo fim do ganho com a inflação (passivos sem remuneração e ativos com correção monetária) e acumulava, em alguns casos, várias irregularidades. Foi nessa época quando os bancos Nacional, Econômico e Bamerindus, entre outros, foram à bancarrota. Continuar a ler

Contra “Financeirização”: Gestão de Recursos eleva PIB

Sérgio Tauhata (Valor, 24/04/19) informa uma tese contra-corrente da literatura sobre “financeirização“, vista como parasita do capital industrial. Eu discordo dessa literatura por outra razão: achar a alavancagem financeira ser o segredo do negócio capitalista, ou seja, capital financeiro é a fusão do capital industrial e do capital bancário. O sistema capitalista é um sistema financeiro complexo com múltiplos componentes interativos e interdependentes.

A tese heterodoxa da casta dos mercadores-financistas é: a evolução da indústria de gestão de recursos vai trazer um significativo ganho para a economia do país. O impacto seria potencializado, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), se esse desenvolvimento estiver apoiado em uma agenda para aprimorar legislação, transparência e inovação.

Conforme a entidade, no período entre 2019 e 2023, o crescimento do setor acrescentaria 1,36 ponto percentual à expansão do PIB, com aumento médio de 0,27 ponto anual, criaria 402 mil empregos a mais e levaria o governo a arrecadar 0,30% de impostos extras a cada ano.

Os cálculos desse cenário futuro idílico fazem parte de um estudo elaborado pela consultoria EY. Serviu de base para a compilação da agenda formulada pela Anbima.

Percebe-se uma correlação ser transformada em uma causalidade inversa: o que é efeito — sobras de renda (valor adicionado) ou trocas de propriedades (valor apropriado) — passa a ser visto como causa: o crescimento da renda. Seria como dizer: “os dias ensolarados mais curtos no inverno são causados pelo frio”!

O mapa completo para impulsionar a área de gestão de recursos no país foi divulgado durante o X Congresso de Fundos de Investimentos. A entidade pretende apresentar ainda o documento ao Banco Central (BC) e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), além da Receita Federal e do Ministério da Economia. Continuar a ler