Cuidados com Idosos: Problema de Finanças Públicas e Pessoais

Damien Ng (Valor, 24/05/19) analisa o envelhecimento populacional. O mundo está à beira de uma transformação demográfica verdadeiramente notável. Pela primeira vez na história humana, espera-se que o número de pessoas com 60 anos ou mais ultrapasse o de crianças com menos de 10 anos, até 2030.

Havia cerca de 962 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2017 em todo o mundo, mais que o dobro de 1980 (382 milhões). Este número, de acordo com o Relatório sobre o Envelhecimento Populacional das Nações Unidas 2017, deverá crescer para quase 1,41 bilhão até 2030 e para cerca de 2,1 bilhões até 2050. Em comparação, a fatia de pessoas com mais de 80 anos deve crescer ainda mais rapidamente, de 137 milhões para 425 milhões em 2050, um aumento de três vezes.

Esse crescimento é resultado principalmente de quatro fatores:

  1. taxas de fertilidade mais baixas,
  2. queda na taxa de mortalidade em todas as faixas etárias,
  3. melhores tratamentos médicos e
  4. mudanças no estilo de vida e dieta. Continuar a ler

Ciclos de Endividamento: Alavancagem e Desalavancagem Financeira

O segredo do negócio capitalista é dar escala ao investimento e multiplicar sua rentabilidade com a alavancagem financeira. Este é termo usado para designar a obtenção de recursos de terceiros, somando-os aos recursos próprios, e fornecer uma composição passiva capaz de lastrear maiores valores nos ativos do empreendimento.

Pode-se formular os seguintes indicadores da alavancagem financeira:

  1. a utilização de recursos provenientes de terceiros na composição da estrutura do capital de uma empresa, objetivando obter economia de escala:
    [R3º / (R3º + RP) ou R3º / PT] onde R3º significa Recursos de Terceiros, RP, Recursos Próprios, e PT, Passivo Total;
  2. a compra de títulos e/ou bens com recursos de terceiros (R3º / AT), onde AT são Ativos Totais, iguais aos Passivos Totais (PT);
  3. a participação percentual dos empréstimos contraídos em relação à estrutura de capital da empresa (P3º / PL), onde PL é Patrimônio Líquido (Capital + Reservas).

Gosto de dar um exemplo simples. Caso você tenha 100 mil reais para investir em algum ativo (forma de manutenção de riqueza) com firme tendência de alta, por exemplo, 25% a cada dois anos, você aplica o seu dinheiro para o comprar ainda barato e vender mais caro no fim desse período. Você ganha R$ 25 mil apenas com esse capital inicial.

Com recursos de terceiros, isto é, dos outros depositados em bancos, em vez de investir 100 mil reais, você pode fazer um investimento de 400 mil reais. Você toma emprestados os 300 mil reais restantes de um banco. Após dois anos, com a mesma valorização de 25%, você o vende por 500 mil reais. Aí amortiza o empréstimo ao banco e sai do negócio com aproximadamente 200 mil reais, descontados os juros.

Em vez de ganhar meros 25%, você dobrou o seu dinheiro ao usar o dinheiro dos outros. Teria rentabilidade de 100% sobre o capital inicial em caso de juro zero. O limite do juro a ser pago tem de ser inferior à rentabilidade patrimonial inicial (25%) para valer a pena.

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Pagamentos Instantâneos: Atraso do Brasil em relação à China e à Índia

O sistema de pagamentos instantâneos em desenvolvimento pelo Banco Central (BC) pode ter menos apelo no Brasil se comparado com o da China, segundo as maiores bandeiras de cartões.

“É difícil chegarmos à participação de mercado obtido na China, porque lá tem outras características. Mas o P2P [pagamentos instantâneos] também vai ser importante aqui”, afirmou João Pedro Paro Neto, presidente da Mastercard para Brasil e Cone Sul.

“Não acredito que o P2P vai matar as maquininhas. Ja tem um parque instalado enorme no Brasil”, disse o presidente da Visa, Fernando Teles.

Os pagamentos instantâneos se alastraram na China porque no país poucos consumidores usavam cartões de crédito e débito. No Brasil, entretanto, os cartões representam 40% do consumo das famílias. Continuar a ler

Finanças Comportamentais adotadas para Aconselhamentos Financeiros

Adriana Cotias (Valor, 10/06/19) narra: dois macacos-pregos são recompensados desigualmente ao executar a tarefa de devolver pedrinhas para o cientista. Um deles recebe uvas, alimento preferido da espécie, que costuma viver em grupo. O outro é pago com fatias de pepino. Ao ver esse sistema se repetir, o animal que ganha o vegetal e vê o seu par agraciado com a frutinha reage à injustiça. Balança raivosamente a divisória que o separa da pessoa que o alimenta, atira o pepino de volta, bate no patamar fora do cercado, mostrando a sua contrariedade (o vídeo pode ser visto acima).

O experimento, feito pelo professor alemão Frans de Waal, especialista em comportamento de primatas da Universidade de Emory, em Atlanta (EUA), dá pistas a respeito das reações emocionais e o senso de justiça não serem características exclusivas da espécie humana.

São vieses cognitivos, isso ilustra bem a aversão a perdas e mostra mesmo os macaquinhos estarem sujeitos a vieses. Errar não é só humano, faz parte da evolução biológica da espécie.

Há evidências de decisões irracionais serem tomadas por pessoas o tempo todo. O excesso de confiança ou a aversão a perdas acabam tendo influência muito grande na tomada de decisão e têm influência nos preços dos ativos.

A partir de 2002, quando o psicólogo israelense Daniel Kahneman ganhou o Nobel de Economia, as Finanças Comportamentais ganharam popularidade. Essa linha de pesquisa coloca em xeque a teoria econômica tradicional. Esta considera as tomadas de decisões, capazes de moverem as forças de mercado, serem essencialmente racionais. Para Kahneman, há duas formas de pensar:

  1. uma rápida, intuitiva e emocional; e
  2. a outra, mais lenta, examinada e mais lógica.

Os desvios sistemáticos de racionalidade identificam as várias tendências humanas. Ao tomar consciência delas, é possível traçar estratégias para evitar certas armadilhas mentais. Continuar a ler

Independência do Banco Central só com Mandato Dual senão Todo o Poder para Tecnocratas Não Eleitos

Alex Ribeiro (Valor, 16/04/19) avalia: ao definir o controle da inflação como o único objetivo da política monetária, o projeto de lei que concede independência ao Banco Central se afasta do modelo adotado em 1964 pelo então ministro da Fazenda, Otávio Gouvêa de Bulhões. Naquele período, havia a preocupação também com a atividade econômica, por isso foi incluído o “combate às depressões” entre as atribuições da política monetária.

Bulhões passou à história como um ministro da Fazenda austero, ao comandar o duro ajuste econômico que abriu caminho para o Milagre Brasileiro durante o regime militar. Mas, por ter vivido a Grande Depressão, ele também tinha preocupações com as grandes oscilações da economia.

O governo do capitão sem nenhum conhecimento de Economia propõe na lei de independência do BC a política monetária ter um único objetivo – o controle da inflação -, justamente em um momento quando bancos centrais de países desenvolvidos lançam mão de instrumentos monetários extraordinários para tirar suas economias da Grande Recessão. Faz sentido?!

Há duas tradições nos modelos de banco central.

  • De um lado, a tradição dos Estados Unidos, cuja principal tragédia econômica foi a Grande Depressão e que decidiu adotar um banco central com mandato dual: estabilidade de preços e máximo nível de emprego.
  • De outro, a tradição alemã, cuja experiência com a hiperinflação levou à ascensão do nazismo e que adotou a estabilidade de preços como único objetivo. Esse modelo foi adotado pelo Banco Central Europeu (BCE). Continuar a ler

Flash Crash de 2010

Nick Bostrom, no livro “Superinteligência: Caminhos, perigos, estratégias”, narra: na tarde do dia 6 de maio de 2010, os mercados de ações dos Estados Unidos já apresentavam uma queda de 4% em virtude da preocupação com a crise de endividamento europeia.

Às 14h32, um grande vendedor (um conglomerado de fundos de investimento) iniciou um algoritmo de venda para liquidar um grande número de contratos futuros E-Mini S&P 500 a uma taxa de venda relacionada à liquidez medida minuto-a-minuto na transação.

Esses contratos foram comprados por algoritmos de negociação de alta frequência programados para eliminar rapidamente suas posições longas temporárias, vendendo os contratos para outros negociadores.

Com uma fraca demanda por parte de compradores fundamentais, os algoritmos de negociação começaram a vender E-Minis principalmente para outros algoritmos de negociação, criando um efeito de “batata quente”. Ele elevou o volume das negociações e isso foi interpretado pelo algoritmo de venda como um indicador de alta liquidez, induzindo o aumento da taxa com a qual os contratos E-Mini eram colocados no mercado, elevando a tendência de queda.

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Cinco Perfis Psicológicos conforme nossa relação com O Dinheiro

Francesc Miralles (El País, 26/05/2019) é escritor e jornalista, especialista em Psicologia Comportamental. Afirma nosso extrato bancário refletir mais fielmente quem somos em vez de muitos testes de personalidade.

Embora na nossa cultura o dinheiro seja quase um tabu, um assunto sobre o qual muitos evitam falar, certo é o dinheiro falar de nós. A forma de usá-lo revela se somos reflexivos ou impulsivos. As coisas com as quais gastamos mostram nossas prioridades vitais.

Segundo o espanhol Joan Antoni Melé, promotor da ética nos bancos e da economia consciente, o extrato bancário permite fazer uma radiografia das motivações da pessoa e dos seus pontos fracos. Esse é um dos temas abordados em Money Mindfulness, um ensaio de Cristina Benito. Ele foi traduzido a sete idiomas (não ao português). A economista traça cinco perfis psicológicos conforme nossa relação com o dinheiro.

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