Planejamento Financeiro para a Longevidade

Aura Rebelo (Valor,14/02/19) publicou artigo sobre tema do meu curso no último semestre da graduação do IE-UNICAMP. É uma disciplina eletiva denominada por mim de “Finanças Comportamentais para Planejamento da Vida Financeira“. O público-alvo são estudantes próximos a se formarem no Ensino Superior e necessitados, desde logo, de planejar suas Finanças Pessoais. Muitos economistas nunca aprenderam a fazer isto. Compartilho seu artigo abaixo.

“Muito tem se discutido sobre o aumento da longevidade do brasileiro. Estamos vivendo cada vez mais e a expectativa de vida média no país, hoje, é de cerca de 75 anos. Esse processo de envelhecimento populacional é intenso e contínuo. Além da inversão na pirâmide demográfica, com a redução da taxa de natalidade, o que reduz a proporção de jovens, os avanços médicos, tecnológicos e sociais são inúmeros e ajudam a prolongar a vida dos mais velhos.

Essas tendências acarretam implicações em diversas áreas: por exemplo, o Brasil tem hoje no Sistema Único de Saúde (SUS) um pediatra para cada 1.500 crianças e adolescentes de 0 a 17 anos. Em compensação, contamos com apenas um geriatra para cada 12 mil idosos.

Nos últimos dez anos, o número de pessoas com mais de cem anos no Brasil aumentou dez vezes, de pouco mais de 3 mil para 35 mil. E em mais algumas décadas, serão 1 milhão de centenários. Nos aspectos sociais, também fervem novidades: idosos hoje já se casam mais, se separam mais, viajam mais, empreendem… O conceito de expectativa de vida estendida abre espaço para a expectativa de qualidade de vida, também estendida.

Porém, ao contrário do que se imagina, vários estudos mostram que os últimos anos da vida de uma pessoa são os mais caros. Sem entrar na complexa discussão sobre a Previdência Social brasileira, é necessário conscientizarmos a população sobre os desafios de uma vida mais longeva. Afinal, se seus planos eram se aposentar aos 60 e “viver de renda”, pode ser que os seus recursos não sejam suficientes. Continuar a ler

Depósitos Compulsórios: por que pagar se recolhimento do excesso de liquidez pode ser de graça?

Os depósitos compulsórios têm múltiplos componentes. Alguns incidem sobre “dinheiro comprado”: passivos remunerados com juros. Assim seus recolhimentos compulsórios também têm de ser remunerados. Sobre depósitos à vista esses recolhimentos não recebem juros.

O argumento é puramente baseado na TQM (Teoria Quantitativa da Moeda), mas readequada para regime de meta inflacionária. Os economistas ortodoxos alegam o excesso de liquidez, inclusive em “quase-moeda”, impediria o BCB colocar o juro Selic-mercado no patamar anunciado pelo COPOM para a Selic-meta.

Em outros termos, o país tem excesso de liquidez represada pelos compulsórios (+/- R$ 450 bi) e operações compromissadas (+/- R$ 1,1 tri): sem esse represamento a taxa de juro de mercado seria menor.

Fabio Graner e Isabel Versiani (Valor, 11/02/19) informa: mesmo com a agenda de racionalização dos depósitos compulsórios implantada na gestão de Ilan Goldfajn no Banco Central, o nível desses recursos recolhidos dos bancos ainda é relativamente alto. Em dezembro do ano passado, as instituições financeiras deixaram no BC um total de R$ 443 bilhões, montante muito próximo ao verificado no fim de 2015 e de 2016 e 45,8% superior aos R$ 304 bilhões (em valores atualizados pela inflação oficial) de 2008.

Aquele ano foi marcado pela mais grave crise internacional desde 1929 e esse colchão de recursos foi fortemente utilizado pela autoridade monetária como ferramenta de combate aos efeitos no país da turbulência global, sobretudo para garantir liquidez aos bancos de menor porte e algum fôlego para o crédito, que havia sofrido uma súbita paralisação.

Quando se olha em relação à oferta de dinheiro na economia, os compulsórios tiveram uma queda mais significativa no último ano, representando 6,6% do chamado M4 (moeda em circulação, depósitos à vista e a prazo, e aplicações em títulos públicos, privados e fundos de renda fixa), o nível mais baixo da série iniciada em 2001. Em 2015 e 2016, oscilaram entre 7,4% e 7,5% do M4.

Com o juro básico em nível historicamente baixo e a economia e o crédito ainda em ritmo lento, é natural a discussão sobre se o BC não deveria também ser mais agressivo na liberação de compulsórios, de modo a tentar dar mais fôlego ao nível de atividade. O compulsório elevado é apontado pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) como um dos fatores que explicam os spreads altos. Continuar a ler

Fora regime de capitalização em ações!

Marcelo Mello (Valor, 01/03/19) publicou artigo sobre a gestão de investimentos ativa ou passiva. Apesar de ter se intensificado recentemente, não é nova.

John C. Bogle criou a famosa gestora americana de investimentos Vanguard e sua família de fundos passivos em 1975. Atualmente, a Vanguard é a maior casa de administração de carteiras de investimentos do mundo com mais de US$ 5 trilhões de recursos sob administração. Fundos passivos buscam seguir um índice de referência, como o CDI para renda fixa ou o Ibovespa para ações, sem a pretensão de superá-los no longo prazo.

Portanto, esses fundos possuem taxas de administração mais baixas.

Do outro lado, temos os fundos ativos, que são aqueles cujo gestor aplica no dia a dia toda sua experiência e conhecimento para, no longo prazo, superar tais índices de referência. Nos fundos ativos, os investidores estão dispostos a pagar uma taxa de administração maior por conta desse retorno adicional, como acontece com a gestora do Warren Buffett, Berkshire Hathaway.

Parafraseando o próprio Bogle: “Investimento de longo prazo é um ato de fé”. Quando compramos a estratégia de gestão passiva, estamos exercitando nossa crença de que, no longo prazo, a economia irá desenvolver bem e por consequência terá efeitos positivos nos mercados financeiros. Já na gestão ativa, a crença é o gestor fazer os ajustes necessários para evitar solavancos. Continuar a ler

Cartilha de Finanças Pessoais: Baixe o Livro

Cartilha de Finanças Pessoais

Com a edição revista e ampliada desta Cartilha de Finanças Pessoais – 2019 completei dezoito livros organizados no período desfrutado de Licenças-Prêmio e férias acumuladas. Você os encontrará para download gratuito na aba acima denominada Obras (Quase) Completas.

Fui entrevistado por uma estação de radio gaúcha e perguntado se era um recorde publicar dezoito livros em um ano. Obviamente, dei uma risada e expliquei: o material revisto para organizar esses livros eletrônicos foram posts e resenhas de livro publicados neste modesto blog pessoal desde 22/01/2010.

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Risco do Regime de Capitalização

Faço uma crítica contumaz à tentativa da equipe econômica da Escola de Chicago de implantar à força militar, ou seja, à la chilena, uma economia de mercado de capitais (renda variável) em lugar de uma economia de endividamento (renda fixa).

Aqui no Brasil, ao contrário dos EUA nos primórdios (século XIX), a distribuição de renda e riqueza é péssima — a 19a. pior entre 156 países — incapacitando a maioria de se associar às corporações (SAs). Então, a maior parte da população ocupada (90%) não investe nem fundos e nem em títulos e valores mobiliários. Com um mercado de ações muito restrito, fica sujeito ao entra-e-sai de investidores estrangeiros. Eles movimentam 50% do valor negociado a cada dia. Fatores exógenos ao país afetam esse mercado, independentemente dos fundamentos da economia brasileira.

Daí o risco “chileno” de atrelar as futuras aposentadorias à volatilidade desse mercado de capitais. De imediato, haverá um “choque de demanda” pelos poucos ativos existentes, provocando artificialmente um boom e uma euforia do enriquecimento fácil. Depois do descolamento dos fundamentos, qualquer choque (ou notícia escandalosa) levará ao crash. Em pânico, os aposentados com a queda brutal do padrão de vida se matam! Continuar a ler

Preocupação Financeira e Produtividade no Trabalho

Aquiles Mosca é responsável por distribuição não tradicional e pelo projeto digital do BNP Paribas Asset Management. É professor de Finanças Comportamentais e preside o comitê de educação da Anbima

Aquiles Mosca (Valor, 12/02/19) te pergunta: sua empresa ou seu chefe já se interessaram alguma vez por sua situação financeira?

“A grande maioria responderá que não, sem precisar pensar muito. Há quem prefira que seja assim. Afinal, é algo muito pessoal e não é da conta de ninguém. Certo? Estudos recentes de Finanças Comportamentais (Mani, A., Mullainathan, S., Shafir, E., & Zhao, J. – 2013) revelam que não é bem assim. Preocupações financeiras são prejudiciais às habilidades cognitivas, isto é, à capacidade de absorver e processar informações.

Uma característica das preocupações financeiras mapeada pelos pesquisadores é que elas têm um caráter permanente. Tal constância é exaustiva para o cérebro. Quando se está com falta de dinheiro, nível de endividamento elevado e contas se amontoando, o indivíduo se vê constantemente distraído por tais pensamentos. Continuar a ler

Pesquisa Anapar Finanças Pessoais e Previdência Brasil 2018

Com o objetivo de compreender a percepção dos brasileiros sobre a previdência e identificar comportamentos que determinam as decisões dos cidadãos quanto a seu futuro, a Associação Nacional dos Participantes dos Fundos de Pensão (ANAPAR) realizou uma pesquisa inédita com a população. Entre as descobertas, uma constatação preocupante: três fatores, combinados, levam a maioria a não guardar dinheiro para a aposentadoria, produzindo um quadro de verdadeiro “desalento previdenciário” no país:

  1. renda insuficiente,
  2. falta de perspectiva e
  3. um elevado grau de endividamento.

Pesquisa ANAPAR Finanças Pessoais e Previdência Brasil 2018, encomendada ao Instituto FSB Pesquisa, realizou entrevistas domiciliares com 2.045 pessoas a partir de 16 anos, em 152 municípios, entre 8 e 13 de novembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. Continuar a ler