Alta de juros tem impacto moderado sobre empresas

A alta de juros que tenta debelar a inflação tem castigado consumidores e empresas nos últimos meses, gerando aumento de inadimplência e maior rigor por parte de quem concede crédito. Esse cenário mais negativo, entretanto, tem pouco impacto sobre a qualidade do crédito da maior parte das companhias.

Segundo levantamento feito pelas agências Fitch e Moody’s, o número de movimentos negativos no rating das companhias é bastante reduzido. No caso da Fitch, nos últimos dois anos, período em que ocorreu o ciclo de alta de juros, sofreram “downgrade” cinco empresas, quatro delas em 2021 (Eldorado, Andrade Gutierrez Engenharia, General Shopping e USJ) e uma neste ano (Hidrovias), na avaliação em escala internacional da dívida emitida no mercado brasileiro por empresas não financeiras.

Além dessas, outras nove companhias foram rebaixadas pela escala local, sendo cinco em 2021 (Restoque, Smartfit, Ânima, AES Tietê e Inbrands) e quatro neste ano (Aeris, Le Biscuit, Restoque e Espaçolaser).

Para se ter uma ideia, entre 2015 e 2016, último ciclo de aperto monetário, quando a taxa Selic foi elevada para 14%, o número de downgrades somou 49 sob o critério da escala internacional e 94 pela escala de rating local.

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Digitalização da Moeda

A digitalização financeira iniciada na década passada acelerou na pandemia com a massificação de meios eletrônicos e tecnologias como pagamento instantâneo, por aproximação ou em comércio eletrônico. O Pix é a melhor tradução. Em menos de dois anos, movimentou R$ 10 trilhões, com 478 milhões de chaves cadastradas. “É o melhor exemplo da desmaterialização do dinheiro”, diz Bruno Magrani, presidente da Zetta, associação que congrega empresas de serviços financeiros digitais.

Simplicidade e gratuidade do uso foram chaves do sucesso. Outro empurrão foi a inserção de 38 milhões de pessoas no mercado financeiro com o auxílio emergencial pelo aplicativo Caixa Tem. O sistema de cartão de débito virtual desenvolvido com base em QR code, em parceria com a Elo, permitiu pagar contas e compras sem contato, custo do plástico ou necessidade de celulares sofisticados, diz Luciana Bassani, superintendente nacional de estratégia cartões da Caixa.

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Bancarização

Cerca de um terço dos adultos em todo o mundo, ou 1,7 bilhão de pessoas, não tem conta corrente, de acordo com estudo da consultoria global Capco. No Brasil, a parcela de usuários fora do setor bancário caiu de 30%, em 2017, para 16% em 2021. Para acelerar esse ritmo, segundo a análise, as fintechs podem funcionar como portas de entrada no sistema financeiro.

“A digitalização [dos serviços] é fator chave para a inclusão financeira no Brasil, principalmente por conta da extensão territorial, que limita a quantidade de agências bancárias para atendimento”, diz Aline Lemos, consultora da Capco Brasil. “Ao mesmo tempo, temos em média dois celulares para cada brasileiro e os bancos digitais já alcançaram boa parte do público.”

O ano de 2021 terminou com 18.302 agências no país, 2.351 a menos do que o registrado no início de 2020, conforme dados do Banco Central. Números da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de junho de 2022 mostram que o Brasil acumula 259 milhões de celulares, uma densidade de 120,6 aparelhos por cem habitantes. “Essa estrutura digital também torna o serviço financeiro mais barato”, lembra.

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Moeda Abstrata ou Dinheiro do Futuro

Martha Funke (Valor, 26/08/22) avalia: o dinheiro do futuro será múltiplo, mais abstrato, com bases diversificadas, digitais e sem fronteiras. Papel moeda, cartões e suas representações não desaparecerão do dia para a noite, mas pagamentos poderão ser feitos por presença física ou virtual (via um avatar, por exemplo), com suporte de inteligência artificial para transferir valores mediante um contexto ou comportamento, como entrar em um ambiente ou abrir uma latinha de cerveja.

Mesmo pagamentos eletrônicos por cartões de crédito, débito ou Pix verão pela frente carteiras digitais com respaldo automático do saldo em conta-corrente, perfil de crédito e ativos como parcela de uma safra de grãos, pedacinhos de debêntures, moedas digitais ou aluguel recebido por contrato inteligente, entre outras possibilidades que o mundo digital já desenha para ancorar trocas.

“O dinheiro será mais acessível, barato e instantâneo”, diz Armando Castelar, do FGV- IBRE. Um exemplo é o Pix, fluido e sem burocracia. Sistemas deste tipo ainda são limitados por fronteiras, mas poderiam ultrapassá-las com políticas econômicas e acordos de governança monetária mundial. “Nossa vida digital já é global e instantânea, a financeira, não”, compara André Portilho, do BTG Pactual.

A base tecnológica já existe. Nasceu com a criptomoeda, com rede segura, inalterável e criptografada, como uma enorme planilha com as transações realizadas. Por ser descentralizada, ganhou o nome de tecnologia de registro distribuído (DLT, em inglês) ou cadeia de blocos (blockchain). A representação digital do ativo inscrito nestas redes, o token, é suportada por contratos inteligentes (smart contracts), regras para executar transações automaticamente sem intermediação, como pagamento e confirmação de recebimento de um valor para entrega de um bem. No mundo analógico, um exemplo são máquinas de refrigerantes, programadas para receber valores e dispensar produtos e troco.

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Debate sobre Reforma Tributária

Marta Watanabe (Valor, 22/08/22) avalia: a mudança no sistema tributário atual deve ser prioridade já no início da gestão do próximo presidente da República e certamente deve incluir o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), tributo que mais arrecada no país, responsável por receita equivalente a 7% do PIB.

Esse é o grande ponto convergente entre Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal, e Bernard Appy, ex-secretário executivo e de política econômica do antigo Ministério da Fazenda. Os caminhos indicados para solução da diversidade de alíquotas e de normas do imposto, porém, divergem. As opiniões dos dois reconhecidos especialistas são diferentes não somente em relação ao ICMS e outros tributos sobre consumo. Eles discordam também quando o assunto é tributação sobre renda e trabalho, num reflexo sobre o desafio de se chegar a um consenso no tema.

As diferenças entre Everardo e Appy já ficam claras na avaliação da recente redução do ICMS sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações. Para Everardo, a legislação que resultou no corte de alíquotas foi no sentido correto porque obedeceu ao princípio constitucional da seletividade. Por isso também não há que se falar com compensação aos Estados.

Appy avalia de forma diferente. O recente embate entre União e Estados mostra que o modelo atual de tributação está “completamente falido” e que o ICMS está “podre”, tanto pelo efeito negativo para a produtividade quanto do ponto de vista da federação, o que torna mais urgente uma reforma na tributação sobre consumo.

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Empréstimo Consignado para Compra de Votos com Endividamento de Vulneráveis

Em vez de gerar emprego e renda, durante seu desgoverno, na vã tentativa de reeleição, uma das apostas do presidente capetão (PL) é comprar votos do eleitorado de baixa renda, via oferta de crédito consignado para beneficiários do Auxílio Brasil. Os vulneráveis pagarão para votar nele?!

Essa medida eleitoreira é rejeitada pelos maiores bancos privados do país e encontra resistência dentro do próprio governo federal. Até o momento, mesmo as instituições financeiras de médio porte, mais dependentes dos empréstimos com desconto em folha, tendem a não operar a modalidade.

Nas últimas semanas, bancos como Itaú Unibanco, Bradesco e Santander afirmaram que não vão operar a linha, pois consideram que o público-alvo do Auxílio Brasil é composto por vulneráveis. Haveria riscos potenciais ao negócio e danos de imagem.

Guilherme Pimenta, Álvaro Campos e Estevão Taiar (Valor, 22/08/22) apuraram a rejeição pública por parte dessas instituições preocupou o governo, que agora vê um alcance menor da medida. Ainda assim, não há, por enquanto, intenção de adiar o lançamento do crédito, previsto para o início de setembro a tempo de tirar proveito na vã tentativa do genocida ser reeleito.

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Compra de Votos é Crime Eleitoral!

Na véspera da eleição, o governo federal publicou no Diário Oficial da União o decreto que regulamenta a oferta de crédito consignado a beneficiários do Auxílio Brasil, modalidade que tem sido criticada pelos maiores bancos privados do país. Apesar da publicação do decreto, a concessão do crédito ainda depende de normas do Ministério da Cidadania para ser liberada.

Medida Provisória assinada por Bolsonaro permitiu beneficiários do Auxílio Brasil comprometam até 40% do valor do benefício, agora de R$ 600 até o fim deste ano, para empréstimos.

Segundo o texto do decreto, o Ministério da Cidadania poderá reduzir, em ato próprio, o limite de 40% estabelecido em lei. O texto também estabelece que o beneficiário poderá ter mais de um desconto relativo a empréstimo ou financiamento, desde que não seja superior ao limite previsto em lei, observado, no momento da contratação, o comprometimento desse percentual.

“É requisito obrigatório para a obtenção de empréstimo consignado em folha de pagamento do Programa Auxílio Brasil, dentre outros programas estabelecidos em lei ou disciplinados em ato do Ministro de Estado da Cidadania, que o interessado possua número de inscrição no CPF válido, identificado como em situação regular na base de informações do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal – CadÚnico”, explica o decreto.

Caso o valor do consignado contratado ultrapasse o limite previsto, de forma isolada ou combinada com contratações anteriores, o decreto estabelece que serão descontadas prioritariamente as parcelas relativas aos contratos mais antigos. Caberá ao Ministério da Cidadania repassar o valor descontado à instituição financeira.

No comunicado, o governo afirmou que o decreto traz “dispositivos que buscam aliar a facilidade de acesso ao crédito com a mitigação de riscos de superendividamento”.

“A responsabilidade pelo pagamento dos empréstimos e dos financiamentos será direta e exclusiva do beneficiário e a União não será responsabilizada, ainda que subsidiariamente, em qualquer hipótese”, aponta o texto publicado hoje no Diário Oficial da União. O decreto não faz nenhuma menção à palavra “juros”.

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Superávit Primário em Estados e Municípios

Lu Aiko Otta (Valor, 09/08/22) informa: o Tesouro Nacional projeta que os governos regionais (Estados e municípios) encerrarão este ano com um superávit primário de R$ 72 bilhões.

Confirmado, será o melhor resultado já registrado para o período, na série histórica iniciada em 2001. Somente no período de janeiro a maio deste ano, o saldo está positivo em R$ 70,4 bilhões.

A projeção, elaborada internamente pelo Tesouro para compor as projeções de resultado das contas do setor público, reforça a posição do governo federal, segundo a qual Estados e municípios estão numa condição financeira que lhes permite absorver a perda de receitas decorrente do corte do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre combustíveis, energia elétrica, comunicações e transportes para 17% ou 18%, ante algo na faixa de 25% a 30% antes.

Essa lei, aprovada em junho, é questionada no Supremo Tribunal Federal (STF). Há também disputa em torno de outra legislação que mudou a base de cálculo do ICMS de combustíveis para a média dos últimos cinco anos. A redução do imposto afeta finanças de Estados e também dos municípios, que recebem 25% da arrecadação.

O Tesouro calcula que, por causa das desonerações, o resultado primário dos governos regionais ficará R$ 20,7 bilhões menor.

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Pagamento para Tratamento Personalizado como Ricaço

Álvaro Campos (Valor, 15/08/22) informa: em um movimento ousado para a indústria financeira, mas que ao mesmo tempo já ocorre há muito tempo em outros setores, o Santander decidiu abrir a possibilidade de qualquer cliente contratar um atendimento de alta renda, sem precisar comprovar renda ou patrimônio, como acontece até então. A ideia de ampliar o atendimento, que deixará de ser “exclusivo” e se tornará “inclusivo”, é baseada na premissa de que não cabe ao banco decidir se o cliente pode ou não ter acesso àquele serviço – assim como uma loja não tem um departamento separado onde só os ricos podem comprar.

Hoje, os clientes pessoa física do Santander têm três segmentações de renda. A faixa de entrada, o Van Gogh (para renda acima de R$ 4 mil por mês) e o Select (renda de R$ 10 mil ou patrimônio acima de R$ 100 mil investido no banco), sendo que esse último grupo tem 600 mil membros. Além desses quesitos, o Select tem uma tarifa mensal de R$ 96,90.

Agora, qualquer um poderá pagar essa quantia e contratar o serviço, que dá acesso a uma série de benefícios, como atendimento 24 horas por dia e sete dias por semana, agências exclusivas, assessoria profissional de investimentos, diferenciais e isenção de tarifas em serviços internacionais, e descontos e entradas em áreas VIPs de eventos.

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Consequências Sociais da Digitalização do Dinheiro

Amália Safatle (Valor, 22/07/22) avalia: nas ruas, os efeitos da digitalização financeira sobre as camadas mais vulneráveis da população. Mas revela números comprovantes da percepção.

No Brasil, o uso do dinheiro vivo resiste entre as classes mais baixas. Segundo pesquisa realizada pelo Locomotiva, o papel-moeda permanece como a forma mais utilizada para pagar as contas de consumo (como água, luz, aluguel) nas classes D e E, com 72% das preferências. O principal motivo é ter maior controle financeiro sobre o dinheiro, mas também pesa o medo de ser taxado pelos bancos. Segundo o levantamento, 45% dos bancarizados afirmam sacar de uma vez tudo recebido para fugir das tarifas.

Quando cada vez mais a parcela da população com poder aquisitivo opta por andar com pouco ou nenhum dinheiro no bolso, o que acontece com a base da pirâmide? A pandemia, ao fazer o governo distribuir auxílios, colaborou para que parte dessa população entrasse de alguma maneira no sistema bancário, mas ainda há obstáculos.

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Private Banking com Renda Variável perde para Varejo com Renda Fixa

Adriana Cotias (Valor, 03/08/22) informa: com uma série de incertezas no horizonte, a pessoa física deve seguir na toada de privilegiar a renda fixa, a exemplo do que se observou no primeiro semestre e ao longo do ano passado. Em meio ao ciclo de aumento de juros no Brasil, tendo levado a Selic de 2% em março de 2021 para os 13,25% de hoje – e com chance de subir mais hoje -, o comportamento do investidor foi de buscar proteção nas alternativas mais conservadoras. O mau desempenho dos ativos de risco também consumiu a rentabilidade (e a paciência) do investidor que tinha feito um movimento rumo à diversificação.

De janeiro a junho, os investimentos nos segmentos de varejo, alta renda e de private banking alcançaram R$ 4,65 trilhões, um aumento de 2,8%. Na faixa de clientes mais endinheirados, mais expostos às classes internacionais e a alternativas de maior risco, o patrimônio encolheu 1,7%, para R$ 1,75 trilhão, enquanto o varejo de alta renda teve incremento de 5,4%, com R$ 1,29 trilhão. Na base, o varejo tradicional reunia R$ 1,61 trilhão, com alta de 5,9% no primeiro semestre.

No conjunto, a renda fixa passou a representar 61,3% dos volumes da pessoa física, em comparação aos 57,1% de dezembro, retomando os níveis do fim de 2019. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

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Renda Fixa de Longo Prazo: Risco é Volatilidade sem Compensação no Retorno

Adriana Cotias (Valor, 20/07/22) informa: superar o CDI, referência de juros de curto prazo, é mais do que esperado quando se investe em títulos públicos atrelados à inflação. Mas costumam ter mais volatilidade na marcação-a-mercado, mas não ofereceram maior potencial de retorno.

No Brasil da última década, esse tipo de exposição foi vantajoso para quem ficou numa cesta de ativos com vencimento em até cinco anos. Acima disso, sobraram chacoalhadas equivalentes às de bolsa e com retornos sensivelmente menores do que o posicionamento mais conservador.

Esta foi a dedução de um estudo feito pela Sparta, casa especializada na gestão de fundos de renda fixa com crédito privado. A asset considerou o índice de títulos públicos indexados ao IPCA mais conhecido do mercado, o IMA-B, que é composto por dois subíndices: o IMA-B 5, que acompanha o desempenho dos títulos públicos indexados com vencimento em até cinco anos; e o IMA-B 5+, dos papéis com prazo superior a isso, e que no Tesouro Direto se estendem até 2055.

Entre junho de 2012 e junho de 2022, o IMA-B 5 teve um retorno acima do CDI de 2,2% ao ano, com volatilidade anualizada de 3,1%. O IMA-B teve valorização de 1,9% e volatilidade de 7,6%, mais que o dobro de risco. Num momento em que os diversos vencimentos do Tesouro IPCA+ (ou Notas do Tesouro Nacional – série B) asseguram inflação mais um adicional fixo superior a 6,2%, essa é uma informação que pode ser útil para o investidor fazer a sua escolha, em meio às incertezas à frente, embora não haja nenhuma garantia de que o futuro vá repetir o passado.

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