Manifestações em Junho de 2013 e o Surgimento de uma Nova Direita

 

Dialogando com a Repressão

Eleonora Lucena (FSP, 31/10/14) informa sobre a análise do filósofo Paulo Eduardo Arantes, professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo), no final da tarde da quarta-feira (29/10/14), em palestra sobre as manifestações de junho de 2013 no 16º Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação de Filosofia, que acontece nesta semana em Campos do Jordão (SP).

O “surto de impaciência” revelado pelas manifestações de junho de 2013 “provocou um surto simétrico e antagônico que é o surgimento de uma nova direita, um dos fenômenos mais importantes do Brasil contemporâneo. Uma direita não convencional, que não está contemplada pelos esquemas tradicionais da política”.

Ele compara o que acontece aqui com a dinâmica nos Estados Unidos. “A direita norte-americana não está mais interessada em constituir maiorias de governo. Está interessada em impedir que aconteçam governos. Não quer constituir políticas no Legislativo e ignora o voto do eleitor médio. Ela não precisa de voto porque está sendo financiada diretamente pelas grandes corporações”, afirma.

Por isso, seus integrantes podem “se dar ao luxo de ter posições nítidas e inegociáveis. E partem para cima, tornando impossível qualquer mudança de status quo. Há uma direita no Brasil que está indo nessa direção“, diz o filósofo.

Segundo ele, “a esquerda não pode fazer isso porque tem que governar, constituir maiorias, transigir, negociar, transformar tudo em um mingau”. Nesse confronto, surge o que sociólogos nos EUA classificam como uma “polarização assimétrica”, com um lado sem freios e outro tentando contemporizar.

Na avaliação de Arantes, o conceito de polarização assimétrica se aplica ao Brasil. “A lenga-lenga do Brasil polarizado é apenas uma lenga-lenga, um teatro. Nos Estados Unidos, democratas e liberais se caracterizam pela moderação — como a esquerda oficial no Brasil, que é moderada. O outro lado não é moderado. Por isso a polarização é assimétrica”.

“Fora o período da eleição — que é um teatro em se engalfinham para ganhar — um lado só quer paz, amor, beijos, diálogo, tudo. Uma vez que se ganha, as cortinas se fecham e todo mundo troca beijos, ministérios — e governa-se. Mas há um lado que não está mais interessado em governar“, afirma.

O filósofo contestou a visão de protagonistas dos protestos de junho de 2013, para quem “o movimento não foi um raio em céu azul”, já que foi precedido por várias rebeliões por melhoria no transporte público pelo país afora nos últimos anos.

Na opinião de Arantes, todos foram apanhados de surpresa: “Ninguém esperava que isso acontecesse, nem os próprios protagonistas, nessas proporções. Foi absolutamente inesperado. Não temos mais ouvido para decifrar qualquer sinal de alarme”.

Ele criticou o que considerou uma tentativa de sufocar a originalidade do movimento de junho. Discutiu também a visão de que os protestos tiveram fôlego curto.

Citando o compositor Geraldo Vandré, o pensador Ernst Bloch (1885-1977), texto literário, documentário, o filósofo fez um desenho do país: “Desaprendemos a esperar. Isso é que mudou. Mudou a relação entre tempo e política”, disse.

Para ele, essa mudança se reflete em esgotamento de paciência: não dá mais para esperar. “E houve uma reviravolta também do outro lado”. Daí a nova direita.

Exemplo do golpismo dessa “nova direita”, que tenta sistematicamente sabotar a democracia, foi a interferência indevida na véspera da eleição presidencial no segundo turno. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que essa edição da revista “Veja“, em que são atribuídas declarações ao doleiro Alberto Youssef dando conta de que ele e a presidente Dilma Rousseff (PT) sabiam do esquema de corrupção na Petrobras, foi um “panfleto da campanha de Aécio [Neves]”.

A Veja’ se definiu ideologicamente já há muito tempo. Ela odeia o PT, ela odeia os governos do PT“, diz Lula, usando uma camisa com a estrela do partido, em vídeo divulgado, no dia 30/10/14, pelo instituto que leva seu nome.

“Eu vi essa [edição da] revista como um panfleto da campanha do Aécio. Talvez o melhor panfleto da campanha do Aécio”, completou o ex-presidente petista.

Publicada dois dias antes do segundo turno, a edição da revista foi classificada por Dilma em vídeo no horário eleitoral como “terrorismo eleitoral”. Ela disse que daria a “resposta na Justiça”.

A pedido da campanha de Dilma, o Tribunal Superior Eleitoral ordenou que a “Veja” concedesse direito de resposta ao PT em seu site e censurou todo tipo de publicidade dessa edição. Dois dias depois, o TSE determinou que a revista ampliasse o espaço dado ao direito de resposta.

No sábado (25/10/14), Lula disse que também que iria processar a revista: “Da minha parte, a partir do processo eleitoral, [a Veja’] vai ter que explicar na Justiça. Sempre ouvimos que não adianta processar, para deixar pra lá. Mas o que a Veja’ fez não pode ficar pra lá. Ela exagerou”.

Uma das críticas do PT foi sobre o dia da semana em que a revista circula. A “Veja” é entregue em São Paulo aos sábados. Na semana passada, a edição circulou na sexta.

Tanto a velha quanto a nova direita é horrorosa! Veja suas caras, sua ignorância, sua boçalidade… Seus argumentos são só xingamentos. Apelam para a violência e a agressão contra os petistas.

São golpistas que atentam contra o Estado de Direito! Não aceitam as regras da democracia, não aceitam o resultado das urnas.

Um idiota como o cantor Lobão defende a recontagem dos votos das eleições presidenciais. Lidera um movimento que tem como propósito dar um novo golpe militar no país. Com a volta da censura, acha que encontrará ouvintes em um mercado exclusivo para sua baixa capacidade artística. Perdeu a vergonha de censurar e dedurar os verdadeiros artistas…

Até hoje os saudosos de 1964 não resolveram seus problemas pessoais recalcados. “Vai para Cuba”, gritam os velhos anticomunistas.

Defendem um novo golpe militar no país. “É necessário a volta do militarismo. O que vocês chamam de democracia é esse governo que está aí?”, criticou o investigador de polícia Sérgio Salgi, 46, que carregava cartaz com o pedido “SOS Forças Armadas”. É essa gente torturadora…

Com cartazes e faixas, os direitistas neoaecistas/neofascistas acusam o resultado das eleições deste ano de ser a “maior fraude da história” e o PT de ser “o câncer do Brasil”. “Pé na bunda dela [presidente], o Brasil não é a Venezuela”, gritam eles. Desrespeitam as instituições jurídicas: “O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, José Dias Toffoli, é um estagiário do PT”.

Eduardo Bolsonaro armado na Av Paulista 011114

Frame do momento em que a arma do deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, foi exibida no palanque na Avenida Paulista no dia 1 de novembro de 2014. Fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/caio-castor-deputado-bolsonaro-foi-armado-manifestacao-de-fascistas-na-avenida-paulista.html

O deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), filho do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), discursou dizendo que, se seu pai fosse candidato a presidente, ele teria “fuzilado” a presidente. Clamar pelo assassinato da Presidenta, em praça pública, é crime! Ele tem de ser processado e ter cassado o seu direito de tomar posse no Congresso Nacional!

Segundo o sujeito armado, seu pai ultradireitista, Jair Bolsonaro, será candidato em 2018 “mesmo que tenha de mudar de partido”. Veja com quem o boçal se identifica: “Eu voto no Marcola, mas não voto na Dilma, porque pelo menos o Marcola tem palavra”, disse, em referência a Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, um dos chefes da facção criminosa PCC.

Entre as bandeiras carregadas no protesto, estão a do Brasil, a do Estado de São Paulo e da campanha do candidato derrotado do PSDB à Presidência, Aécio Neves. Os “socialdemocratas brasileiros” (sic) ficarão com “cara-de-paisagem” contra esse atentado à democracia?!

2 thoughts on “Manifestações em Junho de 2013 e o Surgimento de uma Nova Direita

  1. Prezado Fernando,
    Não vivi o período da Ditadura Militar, mas, pelo que estudo e leio, não gostaria nem por um minuto de que o Brasil voltasse àquela época. Alguns falam em “censura”: mas que censura é essa em que um povo sai às ruas para manifestar que não tem direito de se manifestar? É, no mínimo, contraditório.

    Me envergonhei ao ler sobre a manifestação na Avenida Paulista, neste fim de semana. Tomando por base alguns dos motivos que levaram essas pessoas às ruas, uma ideia me vêm à cabeça: se o candidato que eu votei perder as próximas eleições, estarei no direito de pedir o impeachment? Acredito que a maioria que vota nesse tal plebiscito que ronda pela internet mau sabe o que significa “impeachment”.

    O povo de São Paulo, do qual faço parte, se acha elitizado. Risos…pois elegemos cada “figura” para a câmara dos Deputados, sem contar os 20 anos de um mesmo partido no governo do Estado. Que mudança é essa que tanto se fala?

    Hoje vejo em meu perfil no facebook diversos “cientistas políticos” – e revoltados – que surgem, do nada, falando como se estudassem o assunto por diversos anos. Engraçado pensar que “O” brasileiro tem uma aversão aos políticos devido à corrupção, mas se acham no direito de, por exemplo, conseguir uma carteirinha de estudante – sem ao menos cursar uma faculdade -, para pagar meia entrada em alguns eventos.

    Em minha página na rede social, praticamente não comentei nada sobre as eleições. Decidi me abster, lá as ideias são fracas e geralmente sem argumento convincente. Beira a hipocrisia…

    1. Prezado Ranielli,
      de pleno acordo. Na resposta ao comentário anterior externei meu ponto-de-vista: voltaram as “vivandeiras de quartéis”!

      É aquela direita rançosa, antidemocrata e golpista que usa a liberdade de livre-expressão na democracia para golpear a própria democracia! Não aceitar a derrota nas urnas é um atentado golpista que deveria ser punido.
      att.

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