Injustiça no Tucanistão

Segui toda a carreira acadêmica, baseada no mérito de defesas de teses e publicações, a partir de 1985. Já podia me aposentar desde 2011, porém não o fiz pelo prazer de ser ainda intelectualmente produtivo, conseguindo aprender e ensinar. Mas minha frustração é, no final de uma longa carreira, estar ganhando hoje, em termos líquidos, o mesmo valor nominal que ganhava em 2012, cinco anos atrás!

Graças ao capricho pessoal do governador do Estado mais rico do País, codinome Santo, que não reajusta seu salário há quatro anos, pois ele não necessita dele para financiar sua campanha de “fake de caçador de marajás” na eleição presidencial de 2018. Por ter se tornado o terceiro salário mais baixo de todos os governadores, impõe-me um redutor constitucional todo o mês de R$ 4.332,29, ou seja, furta-me R$ 56.319,77 por ano desde julho de 2015. No total, já dá R$ 112.639,54.

A reação imediata é exclamar: juro, vai me pagar com juro!

No entanto, recorrer à Justiça paulista é perda de tempo, pois o conluio promíscuo entre os Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo, no Tucanistão, é total. Construíram um pacto de autoproteção conforme registra a excelente resenha “O consórcio bandeirante dos Três Poderes”, publicada por Maria Cristina Fernandes (Valor, 21/07/17). Reproduzo-a abaixo para que você, eleitor no próximo ano, veja a face real do Santo — ou de seu afilhado, o prefeito “coxinha” de SP.  Continue reading “Injustiça no Tucanistão”

Advogado-do-Diabo em Defesa do Populismo

Depois de atuar como advogado-do-diabo em defesa de uma reflexão mais profunda sobre Financeirização (Advogado do Diabo em Favor da Financeirização) e Desindustrialização (Advogado do Diabo em Favor da Desindustrialização), desta feita dei uma entrevista para a gente pensar mais sobre o real significado de Populismo. No fundo, por que ele é maldito? Ou mal-amado? Não é uma questão de esnobismo?

Significado de esnobismo: s.m. Admiração inautêntica por tudo aquilo que está em voga nos ambientes que passam por refinados. / Tendência para desprezar os humildes e apreciar exageradamente a elite. / Ato de demonstrar falsa e exagerada superioridade; pernosticismo, afetação: esnobismo intelectual.

Exemplo desse esnobismo é a declaração do Armínio Fraga, ex-operador de George Soros, ex-presidente do Banco Central do FHC, ex-futuro ministro da Fazenda do Aecim, o candidato corrupto para quem trabalhou nas eleições de 2014, em entrevista (FSP, 08/08/17). Ele já ameaça a escolha democrática dos eleitores brasileiros: “Se a mudança imprimida na direção da política econômica [pelos golpistas] for mantida, consolida uma coisa muito boa” [grande depressão, desemprego para 14 milhões de pessoas, corte de direitos trabalhistas, etc.], diz. “Mas pode acontecer o contrário, uma guinada populista, e ir tudo para o brejo.”

Diz, em seu palanque no PIG, “temer [ato falho] que a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na campanha de 2018 elimine qualquer chance de um debate consistente sobre os rumos do país“.  Esse golpista neoliberal não se emenda: abomina a democracia, tem pavor do voto popular.

Viva o populismo! Morra o neoliberalismo!

Link para entrevista:
http://www.ihu.unisinos.br/569216-economia-populista-e-aquela-voltada-ao-bem-estar-social-entrevista-especial-com-fernando-nogueira-da-costa

A revista da Unisinos completa dedicada ao tema (online ou em pdf) pode ser baixada em: http://www.ihuonline.unisinos.br/edicao/508

Continue reading “Advogado-do-Diabo em Defesa do Populismo”

Foi golpe, mas foi top (por Gregório Duvivier)

O Brasil precisa urgente parar de brigar com essa coisa de: “Foi golpe ou não foi golpe?”. A gente precisa falar a verdade. Foi golpe? Foi. Teve crime de responsabilidade? Não. Mas foi merecido? Foi. Mais que isso: foi top? Foi.

Pensa bem: agora você não precisa mais dar folga pra sua funcionária grávida que trabalha em ambiente insalubre. É disso que o Brasil precisava pra economia deslanchar. Agora vai, Brasil! Por isso que eu digo: esse foi o golpe mais top do planeta.

Se esse golpe fosse um casaco, seria de cachemira. Se fosse uma moto, seria uma Harley. Se fosse uma bebida, esse golpe piscaria. Quem disse foi meu amigo Magal: foi golpe, mas foi top.

Foi golpe, mas ainda se pode cometer um belo crime à luz do dia. Aecinho pediu R$ 2 milhões e continua solto. Perrella também. Os helicópteros de cocaína continuam voando pra cima e pra baixo. Até o Rocha Loures, o homem da mala, continua solto. Todo o mundo com a boca na botija e fazendo a festa.

Ou seja: foi golpe, mas foi sussa. O que não quer dizer que tudo seja permitido. Também não é assim. Dilma foi afastada e Lula condenado. Ou seja: foi golpe, mas foi topzêra: acabou a farra do lulo-petismo no Brasil. Foi golpe, mas foi mara. Foi golpe, mas a nossa bandeira jamais será vermelha. Foi golpe, mas Lula vai ser preso amanhã.

Foi golpe, mas passou. Temer instalou um misturador de vozes no Planalto e agora pode falar sobre o que quiser com quem quiser. Ufa. Um presidente ouvido pela polícia no Brasil não dura uma semana. E tudo bem que foi golpe. Mas já deu. Foi golpe, mas tá bom. Parou.

Foi golpe, mas foi pica das galáxias. Acabou a frescura na Amazônia. Não que tivesse muita frescura antes. Mas agora liberou o Jamanxim e legalizou a grilagem. Tudo nosso. Foi golpe, mas foi nosso.

Foi golpe, mas foi patrão. Teve PEC do Teto, reforma da Previdência, reforma trabalhista, mas ninguém mexeu no nosso auxílio-moradia, no auxílio-toga, na pensão das filhas solteiras, ninguém resolveu impostar dividendos nem grandes fortunas, nem ninguém inventou de taxar igreja. Hashtag gratidão. Foco, força e fé. Foi golpe, mas foi Deus. Foi golpe, mas tá amarrado em nome de Jesus. Foi golpe, mas foi dez, Crivella dez. Agora vai.

Foi golpe, mas foi show: a bolsa subiu, o dólar baixou. Ou seja: tudo o que o Brasil precisava era de um golpinho de vez em quando. E quem não gostou que faça o seu próprio golpe.

Fonte: FSP, 24/07/2017

Economista Panfletário de Direita: Ódio Antipetista em Lugar de Ideias Originais

Prometo que, por ora, será a última, pois não suporto mais qualquer leitura de entrevistas dos economistas defensores do Capitalismo de Livre-Mercado, aquele ser fictício (ou inexistente) que ninguém nunca viu em tempo algum e lugar nenhum.

Desta feita, comento as poucas ideias de um obsessivo publicador de panfletos contra a Nova Matriz Macroeconômica e em defesa da Velha Matriz Neoliberal: o economista Renato Fragelli, da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Para ele, um antipetista radical, eleitor preferencial de Boçalnaro (sic), “o problema do gigantismo do Estado é um dos principais fatores que explicam a promiscuidade entre o setor privado e o sistema político no Brasil, e foi ainda mais ampliado nos governos do PT”!

Soberania nacional, para ele, não existe. “A mudança no marco regulatório do petróleo, ao reservar à Petrobras o papel de operadora única do pré-sal, ampliou as oportunidades para a promiscuidade. Após a gigantesca capitalização de 2010, a Petrobras ficou cheia de dinheiro para distribuir aos amigos do poder”, afirma Fragelli, para quem a injeção pelo Tesouro de cerca de 10% do PIB no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi na mesma linha. Ele ignora com má-fé a importante atuação anticíclica do Banco, investindo em infraestrutura (energia e mobilidade urbana em destaques), sustentando o PIB e baixando a taxa de desemprego.

Para combater esse problema, o economista diz que é fundamental reduzir o tamanho do Estado, com privatização generalizada. “Por que o país precisa de uma estatal do petróleo? Como se viu no petrolão, a Petrobras não foi capaz de proteger o cidadão que a sustenta.” [A direita moralista, agora, adotou essa tese supostamente moralizante: a volta da privataria tucana!]

Outro motivo para a relação promíscua entre empresas e o sistema político é o caráter fechado da economia brasileira, afirma Fragelli, para quem o problema também se acentuou nos governos petistas. [Eu não disse que ele é obcecado com o PT?! E não pondera tudo mais de muito pior na política brasileira…] Ignora que foi o único período seguido de cinco anos de superávit no balanço de transações correntes.

“Quando o Estado fixa índices de nacionalização ousados na indústria petrolífera, há majoração de preços por fornecedores agraciados pelas regras, o que é regiamente retribuído sob forma de propina aos legisladores que instituíram o privilégio.”

Por fim, também causa problemas a legislação partidária e eleitoral, ao estimular a multiplicação de partidos e elevar o custo das campanhas. “Com duas dúzias de partidos representados no Congresso, o governo só consegue angariar apoio à sua agenda legislativa distribuindo cargos na mastodôntica máquina administrativa federal e em empresas estatais”, diz Fragelli. Segundo ele, os muitos indicados políticos, “que ocupam postos e comandam verbas, extorquem os fornecedores do Estado” com o objetivo de financiar campanhas caras, além de guardarem para si “parte do butim”.

Na entrevista concedida a Sérgio Lamucci (Valor, 30/05/17), Fragelli também fala da nova crise política. Para ele, sem a aprovação da reforma da Previdência, não haverá a recuperação sustentada do emprego, um dos motivos pelos quais Michel Temer precisa sair da Presidência. O outro é de ordem moral: “Um presidente que recebe um notório corruptor na calada da noite, fora da agenda presidencial, e o ouve relatar crimes, tinha a obrigação de denunciá-lo aos órgãos competentes”, diz Fragelli, ao comentar a gravação feita pelo empresário Joesley Batista, da JBS, de uma conversa com Temer. É o único consenso, por motivos distintos, entre a direita e a esquerda brasileira: Fora, Temer!

Reproduzo abaixo apenas as partes que apresentam a visão de Capitalismo de Livre-Mercado, idealizado pelos neoliberais, mas jamais implantado em lugar nenhum, nem lá nos States, onde os PhDeuses fizeram a lavagem cerebral.

Continue reading “Economista Panfletário de Direita: Ódio Antipetista em Lugar de Ideias Originais”

E agora, Armínio? Quer ir para Aecim, Aecim não há mais…

Dando a continuidade à série de posts “para tentar entender a cabeça de economistas da direita“, cuja leitura provoca muitas vezes enjôo, náuseas ou mesmo vômito, vamos neste analisar o pensamento do ex-futuro Ministro da Fazenda do ex-futuro presidente da República, o Aecim da Casta dos Aristocratas Governantes, herdeiro de dinastia de São João D’ El Rey das Minas Gerais, aquele que toma “empréstimo” forçado pelo credor, o açougueiro da JBS. Para Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, a eventual saída de Michel Temer da Presidência da República não vai atrasar a recuperação da economia, cujo ritmo está sendo ditado pelo processo sucessório de 2018 e suas incertezas.

“O econômico, agora, não é tão importante”, disse ele. “O mais importante é que as instituições funcionem” e resolvam a crise política e moral sem apelar para a economia. “Se houver perda de credibilidade nas instituições, porque elas estão agindo de forma errática, será mais grave”, salientou. Na sua opinião, a situação de Temer deteriorou-se bastante após a divulgação da gravação e da delação de Joesley Batista, da JBS.

Em entrevista a Cláudia Safatle (Valor, 12/07/17), Arminio lançou ao debate a ideia de ampla privatização das empresas estatais, inclusive da Petrobras e do Banco de Brasil, velhas joias da coroa tratadas como tabus quando o assunto é privatização. Veja com ele não se coloca como membro da casta dos sábios-intelectuais orgânicos, mas sim como um verdadeiro membro da casta dos mercadores-financistas. O que ele quer é oportunidade para fazer um bom negócio, para si e para seus clientes dos quais é o “testa-de-ferro”!

“Se não estava claro até o caso da Petrobras, agora não pode haver mais dúvida de que esse modelo de estatal é muito vulnerável, cheio de problemas e precisa ser repensado. Eu não vejo, sinceramente, justificativa para se ter empresa estatal. Nenhuma“, disse ele, referindo-se ao propinoduto instalado na Petrobras e desvendado pela Operação Lava-Jato. Que visão de história! Que visão de futuro para o Brasil! Sem Estado, seja Estado empreendedor, seja Estado-de-Direito!

Se Temer for substituído pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), como desfecho do processo que corre no Congresso e no Judiciário, Armínio defende a permanência da equipe econômica liderada por Henrique Meirelles durante esse período. “Isso seria o ideal”, disse. O que lhe importa é apenas manter os representantes diretos de sua casta lá no Planalto Central, “dando as cartas”, favoráveis aos empresários, desastrosas aos trabalhadores!

Quanto à possibilidade de vir a ocupar o cargo de Ministro da Fazenda em alguma administração futura, ele responde que já esteve por duas vezes no governo e não tem intenção de voltar. “Muito menos” de vir a ser um eventual candidato à Presidência da República, como um dia sugeriu Larry Summers, economista e ex-secretário do Tesouro americano. Não é de dar vômito a subserviência aos próceres estrangeiros por parte dos PhDeuses formados lá nos States?!

A seguir, a pesquisa se nessa entrevista ele fala algo relevante e/ou original sobre o futuro do País: Continue reading “E agora, Armínio? Quer ir para Aecim, Aecim não há mais…”

Candidatos Vermelho, Azul, Verde e… Camisa Preta

O quadro acima é apontado por pesquisa do Datafolha que mede a opinião ideológica no país. As perguntas elaboradas buscam demarcar as diferenças entre convicções associadas à direita e à esquerda, em temas econômicos e comportamentais.

Com base nas respostas, os eleitores são agrupados em uma das cinco posições da escala ideológica (esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita).

Na comparação com o levantamento anterior, feito em setembro de 2014, nota-se uma maior sensibilização de brasileiros a questões que envolvem a igualdade, possível reflexo da crise econômica e do alto desemprego que atingem o Brasil nos últimos anos.

Subiu, por exemplo, de 58% para 77% a parcela que acredita que a pobreza está relacionada à falta de oportunidades iguais para todos. Já a que crê que a pobreza é fruto da preguiça para trabalhar caiu de 37% para 21%.

No mesmo campo de ideias à esquerda, cresceram:

  1. a tolerância à homossexualidade (64% para 74%),
  2. a aceitação de migrantes pobres (63% para 70%) e
  3. a rejeição à pena de morte (52% para 55%).

Estabelecer essas classificações ideológicas é sempre muito complexo. A noção de igualdade é ampla. Pode ser materializada no Bolsa Família, nas cotas, no aumento do salário mínimo. E aí o cidadão pode apoiar ou refutar cada uma dessas aplicações concretas. Continue reading “Candidatos Vermelho, Azul, Verde e… Camisa Preta”

Inovação no Sistema de Pagamentos: Meritocracia versus Nepotismo

Publiquei o seguinte artigo há cerca de um ano e meio, ainda durante o Governo Dilma:

Fernando Nogueira da Costa – Diferenciação entre os preços à vista e a prazo – Valor, 21.12.2015

No entanto, foi o atual presidente golpista e impopular que sancionou a medida provisória que permite a cobrança de preços diferentes dependendo do prazo ou do meio de pagamento utilizado. A iniciativa faz parte da estratégia do governo de apresentar uma série benesses para contrabalançar a repercussão da atual crise política, cuja solução mais rápida e menos dolorosa para a Nação — caso ele tivesse ética (e vergonha) — seria sua renúncia.

Outra demanda dos lojistas que continua em avaliação no governo é a redução do prazo de repasse de recursos de bancos e operadoras de cartão de crédito para lojistas. A diferenciação de preços vai permitir uma queda nos custos para lojistas e consumidores, contribuir para maior concorrência, dar segurança jurídica e promover justiça social.

Os menos favorecidos não têm cartão de crédito. Por isso, pagavam mais do que precisavam pagar, ou seja, o preço a prazo com cartão de crédito era apresentado como sendo o preço à vista para todos, inclusive os “sem-cartão”. O desconto no preço à vista é requisito básico deduzido da Teoria das Finanças Racionais. Tem o potencial de “desinflar o custo-de-vida”. 

O foco da medida sancionada é diminuir o custo da transação para o consumidor e o varejista. O lojista, no entanto, não é obrigado a conceder os descontos nas compras à vista. Mas ele pode reduzir de 5% a 7% o preço, devido a receber à vista.

A medida vai facilitar a negociação entre lojistas e consumidores, o que pode ajudar na redução de preços, além de impedir a transferência de renda em desfavor dos mais pobres “sem-cartão”.

A medida de, finalmente, adotar a diferenciação de preços, que estimula a redução de custo de vida, tem a influência de um dos bons servidores públicos concursados que trabalham na máquina governamental. Ele é o diretor de regulação do Banco Central, Otávio Damaso. Eu tive a oportunidade de conhecê-lo.

Damaso ressaltou que a autoridade monetária continua estudando a diminuição do prazo de repasse de recursos de bancos e operadoras de cartão de crédito para lojistas. “Está em estudo o prazo de pagamento. Não tem nada definido”, disse o diretor. Hoje o prazo para o repasse aos lojistas está na casa de 30 dias.

A partir desse exemplo, com a “fácil sabedoria ex-post” constatamos o erro de manter ministros e tecnocratas da área de Economia, nomeados politicamente, por muito tempo em seus cargos. Muitos criam promiscuidade com corruptores do setor privado. Tratam a “coisa pública” como “cosa nostra”… e não têm iniciativas nem tomam medidas necessárias sugeridas pela opinião especializada. Continue reading “Inovação no Sistema de Pagamentos: Meritocracia versus Nepotismo”