É possível “comprar votos” com auxílio emergencial de R$ 600?

Segundo Bruno Boghossian (FSP, 30/06/20)  o capitão populista de extrema-direita chegou ao poder como um negacionista da pobreza. Crítico contumaz de programas de transferência de renda, ele disse no ano passado a fome no Brasil ser “uma grande mentira” e o papel do governo era facilitar a vida “de quem quer produzir”.

Sob risco, o presidente se converteu. O governo anunciou o pagamento do auxílio emergencial do coronavírus por mais dois meses. A prorrogação poderia ser um ato burocrático, mas ele organizou uma cerimônia no Planalto e chamou o programa de “o maior projeto social do mundo”.

O presidente adiou o fim do benefício por uma questão de sobrevivência política. As novas parcelas e o plano de reformulação do Bolsa Família se tornaram decisivos para sua permanência no cargo e para sua aposta na reeleição em 2022. Continuar a ler

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Pedro Cafardo (Valor, 15/06/2020) escreve bem, embora eu não aprecie o ritual cristão de confessar a culpa para expiar os pecados. Compartilho o artigo abaixo, confirmado pelos dados da pesquisa acima.

“O título acima, em latim, não precisa de tradução. Vem de uma reza tradicional da Igreja Católica, o “Confiteor” (Eu confesso), na qual o fiel reconhece seus erros perante o Criador.

A prática do mea culpa é rara no Brasil. O PT foi e ainda é muito cobrado para fazer autocrítica e reconhecer erros cometidos durante os anos em que esteve no poder, nos governos Lula e Dilma. Nunca os reconheceu, nunca pediu desculpas.

Há hoje, no Brasil, uma extensa lista de entidades e pessoas que precisam fazer o mea culpa pela escolha de 2018, quando a disputa democrática oferecia pelo menos seis ou sete candidatos melhores que o eleito. Continuar a ler

Centrão Mussoliniano

César Felício (Valor, 12/06/20) escreveu ótima coluna baseada na leitura do soberbo livro “M- O filho do século”, uma biografia romanceada de Benito Mussolini que levou Antonio Scurati a ganhar, no ano passado, o Prêmio Strega, o principal da literatura italiana.

Ele tem sido muito usado para traçar analogias entre a ascensão do fascismo na Itália e o que pode estar acontecendo no próprio país de origem do livro, em outras nações e no Brasil, sem que estejamos percebendo claramente. A carapuça serve a várias cabeças.

A leitura impressiona quando se pensa no Brasil, sem que seja preciso forçar a barra em considerar o bolsonarismo como a versão cabocla e contemporânea do fascismo. Banalizar o que foi Mussolini é uma afronta às vítimas do horror da ditadura que arrasou a Itália entre 1922 e 1943.

Por mais que seja inegável o caráter populista e autoritário do bolsonarismo, ainda há um oceano a separá-lo de Mussolini em termos de brutalidade política. Aqui não se sodomiza deputados esquerdistas com cassetete e nem se executa sindicalistas a pauladas no meio da rua, em expedições punitivas pela madrugada. Detalhe: essas duas barbaridades, relatadas no livro, aconteceram antes da ascensão de Mussolini ao poder, em tempos em que o fascismo apenas ganhava forças.

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Somos 70% X Populismo Militarista e Evangélico

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP e colunista convidado do “Valor”. Publicou artigo (Valor, 05/06/2020) sobre o governo militar, demostrando o grande número de militares no governo, em ministérios ou noutros cargos, comprometer as Forças Armadas com seu destino. O atual governo não é só familista: é também militar e apoiado pela casta dos sabidos-pastores evangélicos. Compartilho-o abaixo.

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Vai acabar, vai acabar o regime militar!

Na frente ampla para conter o presidente Jair Bolsonaro, objetivos eleitorais não podem ser colocados e a articulação precisa ir muito além da esquerda. César Felício e Daniela Chiaretti (Valor, 25/05/2020) entrevistaram o cientista político André Singer, membro da Comissão Arns, professor da USP e ex- secretário de comunicação no governo Lula, é crucial que os interessados em um impeachment do presidente Bolsonaro se aproximem de setores que se afastaram do bolsonarismo.

“Existe muito ressentimento, mas objetivos mais altos interessam a todos. Neste momento exato o desafio é envolver o presidente da Câmara”, disse, referindo-se ao deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A frente ampla se justifica, na opinião de Singer, pelo fato de ele enxergar a permanência de Bolsonaro no poder como uma ameaça à democracia. Acredita que o Brasil vive uma etapa do que o cientista político Adam Przeworski chama de “autoritarismo furtivo”, que se caracteriza pelo solapamento das instituições por dentro, sem ruptura do Estado de Direito, de maneira lenta.

“Existem núcleos de resistência ao presidente dentro das instituições, mas o fato é que Bolsonaro lentamente vai dissolvendo os contrapoderes. A polêmica sobre a interferência na Polícia Federal mostra isso”, disse. E explicou: no fim de tudo, Bolsonaro conseguiu trocar o superintendente na Polícia Federal, como queria. E sua aproximação com o Centrão abalou a autonomia de ação de Maia.

Para Singer, ao contrário do que aconteceu durante os impeachment de Fernando Collor e Dilma Rousseff, no caso de Bolsonaro o vice-presidente é um elemento complicador. Hamilton Mourão desperta preocupação como alternativa de poder, após a publicação de artigo no jornal “O Estado de S.Paulo” em que criticou todas as frentes que opõem resistência aos planos do presidente.

Singer interpreta o comportamento de Bolsonaro em meio à crise da pandemia como análogo ao do presidente americano Donald Trump. Ambos estariam buscando se livrar do peso político da depressão econômica provocada pela catástrofe sanitária. Ao romper o diálogo com a classe científica, tentam transferir o ônus da paralisia produtiva para a oposição.

A seguir, os principais tópicos da conversa por videoconferência que Singer concedeu ao Valor: Continuar a ler

Imagem Internacional do Populismo de Direita no Brasil

Gideon Rachman (Financial Times, 26/05/2020) faz uma narrativa pessoal: em visita ao Brasil no ano passado, conversei com uma destacada financista sobre os paralelos entre Donald Trump e Jair Bolsonaro.

“Eles são muito parecidos”, disse ela, antes de acrescentar: “Mas Bolsonaro é muito mais burro”. Essa resposta me pegou de surpresa, uma vez que o presidente dos Estados Unidos não é tido, de modo geral, como um grande intelecto. Mas minha amiga insistiu. “Veja só”, disse ela. “Trump administrou uma grande empresa. Bolsonaro nunca conseguiu passar de um capitão no Exército.”

A pandemia de coronavírus me recordou essa observação. O presidente do Brasil tomou uma atitude impressionantemente semelhante à de Trump – mas ainda mais irresponsável e perigosa. Ambos os dirigentes ficaram obcecados com as supostas virtudes curativas do medicamento antimalária hidroxicloroquina.

Mas, enquanto Trump simplesmente assume essa defesa por conta própria, Bolsonaro obrigou o Ministério da Saúde brasileiro a emitir novos protocolos, que recomendam o medicamento para pacientes de coronavírus. O presidente dos EUA brigou com seus assessores científicos. Mas Bolsonaro demitiu um ministro da Saúde e levou seu substituto a pedir exoneração. Trump manifestou simpatia por manifestantes anticonfinamento; Bolsonaro participou de suas manifestações.

Infelizmente, o Brasil já está pagando um preço alto pelas travessuras de seu presidente – e as coisas estão se agravando de forma acelerada. O coronavírus chegou ao Brasil de forma relativamente tardia. Mas o país tem a segunda maior taxa de infecção do mundo e o sexto maior número de vítimas fatais da covid-19. O número de mortes no Brasil, que responde por cerca de metade da população da América Latina, agora dobra a cada duas semanas, comparativamente à frequência de cada dois meses registrada no duramente atingido Reino Unido.

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Presidente do BNDES: Vergonhoso Apoio a “Passar a Boiada”

O “gado” bolsonarista cometeu seguidos atos-falhos explicados por Freud na reunião ministerial tornada pública. “Passar a boiada”, na área ambiental, enquanto a imprensa está focalizando o pandemia, expressa o típico mau-caráter desse gado.

Arthur Koblitz (UOL, 25.mai.2020) destaca a intervenção menos comentada pela imprensa do presidente do BNDES, Gustavo Montezano, durante a propalada reunião ministerial do presidente Jair Bolsonaro.

Frise-se que Montezano é responsável pela principal instituição que o estado brasileiro dispõe para enfrentar a atual crise e coordenar a recuperação da economia. Sua intervenção na reunião resumiu-se a três objetivos:

1) mostrar sua total submissão aos desígnios de Paulo Guedes;

2) apoiar integralmente a escandalosa e repudiada fala de Ricardo Salles;

3) fazer marketing sobre sua administração ao presidente Bolsonaro.

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Ministro da Economia: Desonestidade Intelectual e Leviandade

[Ao ler a transcrição, na íntegra, do vídeo da reunião ministerial realizada no dia 22/04/2020, para apresentar um plano de retomada do crescimento após a crise econômica gerada pela pandemia, muita coisa estarrece a quem não sofre de cegueira ideológica, comungando as mesmas estultices do capitão eleito e sua equipe composta de gente despreparada para os cargos.

“Se quiser conhecer verdadeiramente um Homem, dê-lhe autoridade.”

Quem se cerca só de oportunistas e puxa-sacos, certamente é desqualificado para o cargo de presidente. Não é crime de responsabilidade defender uma guerra civil?!]

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É um equívoco misturar o discurso político com o religioso

É um precedente muito perigoso este da extrema-direita ao abandonar o pacto social para um Estado laico e instituições públicas apartidárias e fazer “o aparelhamento”, aliás uma acusação feita antes contra o PT, quando era governo. Agora, a imprensa tucana emudece. Partidos oportunistas buscam evangélicos e policiais para se candidatar a vereadores e prefeitos das capitais.

Malu Delgado (Valor, 13/01/2020) informa: professor da PUC-SP disse aos petistas, em encontros para analisar voto evangélico, a estratégia do PT ser equivocada.

Líder do Grupo de Estudos do Protestantismo e Pentecostalismo (GEPP) da PUC em São Paulo, o professor Edin Sued Abumanssur foi convidado a participar de ao menos três encontros com lideranças do PT em 2019 para discutir elos possíveis dos neopentecostais com partidos progressistas e o fenômeno de aproximação deste segmento com o presidente Jair Bolsonaro.

O cientista social já chegou a ser filiado do PT, mas se desvinculou do partido nos anos 90. De família protestante, do Líbano, Edin tem hoje interesses estritamente acadêmicos sobre o tema. Ele conta que falou “com todas as letras”, aos petistas: é um equívoco misturar o discurso político com o religioso.

Para Edin, o PT só terá eficácia nesta reaproximação se ela ocorrer pela via política, com o desenvolvimento de políticas públicas e sociais voltadas para as classes C, D e E, onde se concentra, em massa, o eleitor evangélico. O professor acredita, ainda, ser muito mais eficaz se o PT se preocupar em entender os rumos da Igreja Católica. Veja a seguir, os principais trechos da entrevista: Continuar a ler

“Narrow Corridor” (Corredor Estreito) entre Desgoverno e Autoritarismo

Obs.: o dado de 2020 é a expectativa oficial “chapa-branca”, ou seja, ficção. Confira a queda até 2019 dos investimentos públicos em infraestrutura.

Robinson Borges é editor de cultura. Em artigo (Valor, 21/01/2020) resenha o livro recém-lançado “Narrow Corridor” (Corredor Estreito) de coautoria de Daron Acemoglu e James Robinson. Ele estava no meu iPad, aguardando a leitura. Motivou-me a ler logo e, a partir de amanhã, farei uma série de posts-resenhas a respeito do livro. Reproduzo abaixo seu artigo-resenha, oportuno para a crítica à relação oportunista entre a casta dos mercadores e a casta dos militares no Brasil, apoiada também pela casta dos sabidos pastores evangélicos e conservadores em geral.

“O governo federal pode ser compreendido como a aliança de quatro grandes blocos vivendo em um mesmo condomínio:

  1. o econômico,
  2. o militar,
  3. o jurídico e
  4. o de costumes.

Apesar de serem vizinhos, tem sido comum a percepção de parcela da sociedade de que os blocos são independentes, têm a sua própria portaria e o que ocorre em cada um tem caráter autônomo. São frequentemente celebradas as vitórias da agenda liberal na economia, por exemplo, mas minimizados os impactos das medidas da ala ideológica, como se fosse mais um ruído daquela turma barulhenta lá do bloco do fundo.

Os blocos, de fato, têm perfis, importâncias, qualidades e realizações distintos e, às vezes, contraditórios e complementares. No entanto, é impossível ignorar que um condomínio, como um governo, funciona de forma sistêmica. Assim, quando um secretário adensa o estoque de elogios a Estados despóticos e divulga vídeo com citações de discursos de ministro nazista, seu efeito vai muito além do endereço reservado para os “costumes”. Ele se esparrama por todos os espaços do condomínio.

Foi acertada, portanto, a decisão do presidente de exonerar seu secretário especial da Cultura, Roberto Alvim. Este neonazista ultrapassou todos os limites. Mas é preciso ressaltar que ele não é o centro do problema. Alvim pode ser visto como mais um sintoma do grupo de políticos que chegou ao poder, pelas vias democráticas, elogiando Carlos Alberto Brilhante Ustra. Continuar a ler

Juiz de Garantias para evitar Perseguição Política ou Lawfare

Lawfare originalmente se refere a uma forma de guerra na qual a lei é usada como arma. Basicamente, seria o emprego de manobras jurídico-legais como substituto de Força Armada, visando alcançar determinados objetivos de política externa ou de segurança nacional.

O ministro do Supremo Luiz Fux suspendeu ontem a implantação do juiz de garantias, criado no pacote anticrime aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Bolsonaro. A decisão vale até o tema ser analisado pelo plenário da corte, mas isso não tem prazo para acontecer. / o globo

A decisão revoga uma outra determinação, do presidente do Supremo, Dias Toffoli. Ela definia a figura jurídica entrar em vigor em julho de 2020. Para Fux, o Judiciário ainda tem de analisar a constitucionalidade da nova lei em plenário. / estadão

O ministro da Justiça, Sergio Moro, elogiou a decisão. A criação da nova figura é vista principalmente como uma resposta à sua atuação como juiz na Lava Jato. Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, chamou a determinação de Fux “desrespeitosa com o Parlamento”. / folha

Filipe Magliarelli (Valor, 16/01/2020), sócio das áreas de Penal Empresarial e Compliance & Investigações do KLA Advogados, explica abaixo a importância de se ter um Juiz de Garantias. Juízes respeitados internacionalmente expressaram enorme espanto quanto ao processo movido pelo ministro da Justiça do adversário do candidato mais popular para aprisioná-lo e tirá-lo do páreo eleitoral. É um escândalo no mundo jurídico e está registrado na história como uma página vergonhosa do nosso país.

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