É um equívoco misturar o discurso político com o religioso

É um precedente muito perigoso este da extrema-direita ao abandonar o pacto social para um Estado laico e instituições públicas apartidárias e fazer “o aparelhamento”, aliás uma acusação feita antes contra o PT, quando era governo. Agora, a imprensa tucana emudece. Partidos oportunistas buscam evangélicos e policiais para se candidatar a vereadores e prefeitos das capitais.

Malu Delgado (Valor, 13/01/2020) informa: professor da PUC-SP disse aos petistas, em encontros para analisar voto evangélico, a estratégia do PT ser equivocada.

Líder do Grupo de Estudos do Protestantismo e Pentecostalismo (GEPP) da PUC em São Paulo, o professor Edin Sued Abumanssur foi convidado a participar de ao menos três encontros com lideranças do PT em 2019 para discutir elos possíveis dos neopentecostais com partidos progressistas e o fenômeno de aproximação deste segmento com o presidente Jair Bolsonaro.

O cientista social já chegou a ser filiado do PT, mas se desvinculou do partido nos anos 90. De família protestante, do Líbano, Edin tem hoje interesses estritamente acadêmicos sobre o tema. Ele conta que falou “com todas as letras”, aos petistas: é um equívoco misturar o discurso político com o religioso.

Para Edin, o PT só terá eficácia nesta reaproximação se ela ocorrer pela via política, com o desenvolvimento de políticas públicas e sociais voltadas para as classes C, D e E, onde se concentra, em massa, o eleitor evangélico. O professor acredita, ainda, ser muito mais eficaz se o PT se preocupar em entender os rumos da Igreja Católica. Veja a seguir, os principais trechos da entrevista: Continuar a ler

“Narrow Corridor” (Corredor Estreito) entre Desgoverno e Autoritarismo

Obs.: o dado de 2020 é a expectativa oficial “chapa-branca”, ou seja, ficção. Confira a queda até 2019 dos investimentos públicos em infraestrutura.

Robinson Borges é editor de cultura. Em artigo (Valor, 21/01/2020) resenha o livro recém-lançado “Narrow Corridor” (Corredor Estreito) de coautoria de Daron Acemoglu e James Robinson. Ele estava no meu iPad, aguardando a leitura. Motivou-me a ler logo e, a partir de amanhã, farei uma série de posts-resenhas a respeito do livro. Reproduzo abaixo seu artigo-resenha, oportuno para a crítica à relação oportunista entre a casta dos mercadores e a casta dos militares no Brasil, apoiada também pela casta dos sabidos pastores evangélicos e conservadores em geral.

“O governo federal pode ser compreendido como a aliança de quatro grandes blocos vivendo em um mesmo condomínio:

  1. o econômico,
  2. o militar,
  3. o jurídico e
  4. o de costumes.

Apesar de serem vizinhos, tem sido comum a percepção de parcela da sociedade de que os blocos são independentes, têm a sua própria portaria e o que ocorre em cada um tem caráter autônomo. São frequentemente celebradas as vitórias da agenda liberal na economia, por exemplo, mas minimizados os impactos das medidas da ala ideológica, como se fosse mais um ruído daquela turma barulhenta lá do bloco do fundo.

Os blocos, de fato, têm perfis, importâncias, qualidades e realizações distintos e, às vezes, contraditórios e complementares. No entanto, é impossível ignorar que um condomínio, como um governo, funciona de forma sistêmica. Assim, quando um secretário adensa o estoque de elogios a Estados despóticos e divulga vídeo com citações de discursos de ministro nazista, seu efeito vai muito além do endereço reservado para os “costumes”. Ele se esparrama por todos os espaços do condomínio.

Foi acertada, portanto, a decisão do presidente de exonerar seu secretário especial da Cultura, Roberto Alvim. Este neonazista ultrapassou todos os limites. Mas é preciso ressaltar que ele não é o centro do problema. Alvim pode ser visto como mais um sintoma do grupo de políticos que chegou ao poder, pelas vias democráticas, elogiando Carlos Alberto Brilhante Ustra. Continuar a ler

Juiz de Garantias para evitar Perseguição Política ou Lawfare

Lawfare originalmente se refere a uma forma de guerra na qual a lei é usada como arma. Basicamente, seria o emprego de manobras jurídico-legais como substituto de Força Armada, visando alcançar determinados objetivos de política externa ou de segurança nacional.

O ministro do Supremo Luiz Fux suspendeu ontem a implantação do juiz de garantias, criado no pacote anticrime aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Bolsonaro. A decisão vale até o tema ser analisado pelo plenário da corte, mas isso não tem prazo para acontecer. / o globo

A decisão revoga uma outra determinação, do presidente do Supremo, Dias Toffoli. Ela definia a figura jurídica entrar em vigor em julho de 2020. Para Fux, o Judiciário ainda tem de analisar a constitucionalidade da nova lei em plenário. / estadão

O ministro da Justiça, Sergio Moro, elogiou a decisão. A criação da nova figura é vista principalmente como uma resposta à sua atuação como juiz na Lava Jato. Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, chamou a determinação de Fux “desrespeitosa com o Parlamento”. / folha

Filipe Magliarelli (Valor, 16/01/2020), sócio das áreas de Penal Empresarial e Compliance & Investigações do KLA Advogados, explica abaixo a importância de se ter um Juiz de Garantias. Juízes respeitados internacionalmente expressaram enorme espanto quanto ao processo movido pelo ministro da Justiça do adversário do candidato mais popular para aprisioná-lo e tirá-lo do páreo eleitoral. É um escândalo no mundo jurídico e está registrado na história como uma página vergonhosa do nosso país.

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Antipluralismo Bolsonarista (por Cláudio Gonçalves Couto)

Obs.: veja acima o resultado da submissão do atual (des)governo ao Trump: elevação do superávit do balanço comercial em favor dos EUA contra o Brasil!

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP. Como colunista convidado do Valor (09/01/2020) publicou uma análise realista sobre o neofascismo tupiniquim.

“Uma das principais referências políticas do bolsonarismo é a Hungria de Viktor Orbán — como já deixou claro em mais de uma ocasião o filho 03, Eduardo Bolsonaro, líder ideológico local do movimento capitaneado pelo pai. Em célebre discurso de 2014, Orbán expressou seu desejo de transformar a Hungria em uma “democracia iliberal”, como já o seriam a Rússia de Vladimir Putin e a Turquia de Recep Tayyp Erdogan. Nesses regimes, o apoio plebiscitário de uma maioria ao líder entronizado lhe permite governar passando por cima de eventuais limites.

Assim, restringe-se ou mesmo se elimina a liberdade de imprensa; perseguem-se e até se encarceram opositores; combate-se a independência dos centros de produção intelectual autônoma – como as universidades e as artes; deslegitima-se a oposição, apontando-lhe como formada por traidores da pátria – não existiria, como no Reino Unido, uma oposição “de” Sua Majestade, mas apenas “a” Sua Majestade.

O modus operandi da democracia iliberal passa por sufocar as divergências e subalternizar as minorias não alinhadas à linha dominante, personificada pelo líder máximo e amparada plebiscitariamente no apoio de uma maioria baseada em critérios identitários – como valores, etnia, religião ou um conjunto de todas essas coisas. Continuar a ler

Direita Evangélica Antipetista X Esquerda Ateia Petista

Malu Delgado (Valor, 17/12/2019) fez uma entrevista para reflexão política.Tem quase metade da população brasileira “despolitizada”: ela não é petista nem antipetista. Eles votam com o afeto em valores morais ou de acordo com o estado da economia.

Preocupado em identificar antipatias partidárias, e não necessariamente as simpatias, como captavam os institutos de pesquisa do país, o cientista político Cesar Zucco, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape)/Fundação Getúlio Vargas, no Rio, pesquisa em detalhes o antipetismo. Em entrevista ao Valor, Zucco, ex-professor titular em Princeton, explica as conclusões recentes a partir da atualização de estudos que embasaram o seguinte livro:

Partisans, Antipartisans, and Nonpartisans: Voting Behavior in Brazil

Foi escrito em parceria com o professor David Samuels e lançado em 2018.

Com base em microdados de pesquisas do Datafolha e Ibope, e sobretudo em surveys acadêmicos, os pesquisadores concluíram que de 1989 até aproximadamente 2014, os petistas e os antipetistas eram grupos com grande semelhança sociodemográfica. A partir desta data, no entanto, antipetistas se tornam mais ricos e mais escolarizados.

A diferenciação crucial vem em 2018, com a predominância de evangélicos entre os antipetistas, conclusão mais recente comprovada por Zucco. “A coalizão antipetista é a dos mais ricos, mais escolarizados e também evangélicos.” Questionado se o crescimento gradual do antipetismo inviabilizaria uma vitória eleitoral do PT nos próximos anos, Zucco sugere que tudo dependerá da economia e da capacidade do partido tentar fazer pontes com o heterogêneo universo das igrejas evangélicas. A seguir, os principais trechos da entrevista: Continuar a ler

Fuga de Cérebros: “o último apaga a luz do aeroporto!”

No mês passado, tive uma confirmação de uma impressão: o cientista ou intelectual com possibilidade de emigrar do país para ir trabalhar em outro mais civilizado, não está tendo dúvidas! O fator de repulsão daqui está muito forte!

Uma ex-aluna, hoje colega como professora e pesquisadora de destaque do IE-UNICAMP fez concurso para a UNCTAD e passou entre muitos outros candidatos de todo o mundo. Está se mudando para Genebra, Suíça. Ela tem pós-graduação no exterior e é uma intelectual promissora.

Como ficar em um país onde o ministro da Educação ataca diariamente as Universidades públicas?! Despeja a TV Escola! Desrespeita alunos e professores! Mas não é só ele…

Anaïs Fernandes e Marcos de Moura e Souza (Valor, 16/12/2019) conta outras histórias.

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Resistência Partidária contra o Neofascismo Brasileiro

Neste gráfico, o Nexo apresenta como os partidos se posicionam em relação ao governo do capitão. Os dados foram obtidos com a API do Congresso Nacional e vão desde o início da atual legislatura até o dia 22 de outubro de 2019. Para atribuir o posicionamento do governo em determinado assunto, tomamos como base o voto do líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo, do PSL de Goiás. Dentre as atribuições do líder está justamente a articulação de bancadas aliadas em votações de interesse do governo.

Depois do próprio PSL, o Novo é o partido que mais se alinha com o governo em suas votações. Ao todo, são 18 siglas com mais de 80% de alinhamento ao governo. Neste grupo estão partidos tradicionais, como PSDB, DEM e MDB, e siglas menores, como Patriotas, Podemos e PMN. Dos partidos de oposição, as siglas que mais se aproximaram do governo foram PDT, PSB e Rede, com mais de 30% de alinhamento. A mais distantes foram o PT, com 11%, PSOL, com 16%, e PCdoB, com 22%.

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