Políticos usam economistas como os bêbados usam o poste: mais para apoiar do que para iluminar

Robinson Borges (Valor, 15/05/18), editor de Cultura, publicou um artigo interessante intitulado “Economistas são de Marte, políticos são de Vênus”. Compartilho-o abaixo.

“Uma candidatura à Presidência começa a se desenhar de forma consistente e logo é convocada a associar sua campanha a economistas, de preferência com algum verniz da academia ou do mercado, para ganhar legitimidade e decolar. Com a chegada do vencedor ao poder, é preciso transformar a poesia da campanha em prosa, um processo com certo potencial de colisão entre as esferas econômica e política e que faz ecoar a máxima de Alan Blinder: “Os políticos usam os economistas como os bêbados usam o poste, mais para apoiar do que para iluminar”.

Blinder sabe do que fala. Além de renomado professor em Princeton, é veterano das guerras de poder em Washington, onde foi vice-presidente do Federal Reserve, conselheiro econômico do ex-presidente Bill Clinton e integrante da equipe de campanhas democratas.

Sua questão é: qual o papel da equipe econômica em um governo? Apesar de estarem no centro de muito do que é formulado, os economistas se tornam, quase sempre, coadjuvantes em sua implementação. “Como muitos economistas, pensava que não havia lógica na política. Mas há: é a lógica política”, diz Blinder em conversa com esta coluna.

Um exemplo está no governo Trump. No fim do ano, ele conseguiu aprovar a redução de impostos, fundamentalmente para as grandes rendas e empresas, sem se preocupar com seu impacto no Orçamento. Menos de dois meses depois, o Congresso passou o maior aumento nos gastos públicos desde a crise de 2009.

A lógica econômica diria que um país com pleno emprego não deveria reduzir impostos, ainda mais considerando um déficit do tamanho do americano. Mas a lógica da política é outra: “As pessoas adoram que impostos sejam diminuídos”, diz.

Sua tese está em seu mais recente livro, “Advice and Dissent“, e não sugere a troca de políticos eleitos por economistas com doutorado. Também não propõe que políticos ajam como economistas. “Os atributos darwinistas que contribuem para o sucesso na economia são diferentes dos que contribuem para o sucesso na política”, diz ele, em referência à ex-presidente e economista Dilma Rousseff.

Para Blinder, a democracia é o melhor regime político. Destaca, porém, que o problema no ambiente de poder atual é que a boa economia quase sempre resulta em má política, e a boa política, em má economia.

Considerando a política como ela é, recomenda: “Os políticos poderiam usar um pouco de economia e entender que uma proposta baseada em pesquisas é provavelmente melhor do que o ‘pensamento positivo’. E os economistas precisam de uma melhor compreensão das pressões sobre os políticos.”

O abismo é grande. Veja o caso brasileiro. Há relativo consenso entre economistas de que o Estado está quebrado e que é imperiosa a recuperação da estabilidade fiscal. O tema, porém, é sensível. Uma pista do terreno pedregoso está na manchete do jornal “O Globo” de domingo, em que os principais pré-candidatos à Presidência evitam pontos polêmicos da reforma da Previdência, como a fixação da idade mínima ou se homens e mulheres devem seguir a mesma regra.

É possível imaginar que um governo com o capital político do início de um mandato conquistado pelas urnas tenha chances de algum sucesso, mas, no mundo ideal, seria importante que a pauta tivesse no horizonte o ajuste fiscal e o bem comum, sem a prevalência do interesse de grupos e a manutenção de privilégios.

Aos colegas que se aventurarem nos próximos governos, Blinder dá uma visão do impacto do problema, que é carregado de nuanças: as pessoas não se comportam como as caricaturas dos modelos econômicos, inabitados. “Nós [economistas] temos de reconhecer que o sentido de justiça é mais significativo para as pessoas do que a noção de eficiência econômica“, afirma.

Os fatores que contribuem para as colisões entre economistas, políticos e opinião pública abundam, mas Blinder concentra-os em três “Is”:

  1. ideologia,
  2. ignorância e
  3. interesse de grupos.

É da dinâmica social que nas questões econômicas mais profundas haja aspectos ideológicos envolvidos, caso da Previdência. A visão do professor, porém, é que o pragmatismo deve ser mais considerado.

Na lista de culpados, o terceiro “I” dá as cartas em Washington. Qualquer semelhança com Brasília não é coincidência. Em seu livro “O Futuro“, o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore constatou que os congressistas americanos gastam cinco horas por dia fazendo ligações e indo a festas para pedir doações para campanhas políticas a pessoas influentes – e com interesses específicos. Nesse contexto, não é difícil presumir quem são os perdedores.

No Brasil, são fartos os episódios da prevalência de interesses políticos e de grupos. Tudo isso fica mais grave porque a política trabalha com o curto prazo: a próxima eleição. Foram muitas as críticas ao populismo cambial de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, que desvalorizou a moeda só após ganhar a reeleição em 1998.

Mas FHC não foi criativo. Maria Cristina Terra e Marco Bonomo, da FGV do Rio, analisaram o comportamento do câmbio antes e depois de eleições e comprovaram que políticos da América Latina, em regimes democráticos, eram tentados a valorizar a moeda antes da votação.

Em ano de eleições como este, há mais dificuldades na relação com o Congresso, que tem no horizonte a renovação dos mandatos e os interesses das bancadas. Como Temer foi alvo de duas denúncias da Procuradoria-Geral da República e dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal, perdeu capital político e poder de negociação.

É nesse contexto, que sua área econômica tenta blindar os cofres públicos, mas enfrenta resistências e pressões. Recentemente fracassou na tentativa de barrar a derrubada de vetos ao Refis das pequenas e médias empresas e das condições mais favoráveis de renegociação de dívidas de produtores rurais. Cenário ideal para colisões. Não por acaso, nos jornais foram publicadas notícias de contrariedades de parte da equipe econômica.

A missão é dura, mas se conseguirem cooperar com políticos para diminuir o prejuízo, Blinder diz acreditar que os economistas terão alcançado o status que Keynes achava que mereciam: “Pessoas humildes e competentes, no mesmo nível dos dentistas.”

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