Sete Proposições de Economia Narrativa

Até agora, vimos no livro de Robert J. Shiller, “Narrative Economics: How Stories Go Viral & Drive Major Economic Events” (Princeton University Press; 2019), as narrativas populares ao se tornaram virais têm consequências econômicas. O autor propõe os economistas modelarem esse relacionamento para ajudar a antecipar eventos econômicos.

Porém, necessitamos ter algumas proposições básicas sobre narrativas econômicas de modo a podermos as usar para:

  1. entender as narrativas historicamente importantes e
  2. identificar novas narrativas enquanto elas se desenvolvem.

Antes de começar a apresentação desses usos, Shiller resume e revisa alguns dos principais recursos das narrativas econômicas.

Uma narrativa econômica:

  1. lembra as pessoas de fatos possíveis delas terem esquecido,
  2. oferece uma explicação sobre como as coisas funcionam na economia e
  3. afeta como as pessoas pensam sobre a justificativa ou o objetivo das ações econômicas.

A narrativa pode implicar algo sobre o modo como o mundo funciona – por exemplo, na narrativa do Bitcoin, a noção de os computadores estarem assumindo o controle, estarmos entrando em uma nova era cosmopolita, livre dos problemas perenes da incompetência e corrupção do governo local – e como podemos usar essa informação para nossa vantagem.

Ou a narrativa pode sugerir a execução de uma ação econômica específica é uma experiência de aprendizado útil a trazer possíveis benefícios no futuro. Às vezes, realizar a ação econômica é uma maneira de nos envolvermos na narrativa, fazermos parte da história. Por exemplo, comprando Bitcoin, nos juntamos à elite capitalista internacional.

Proposição 1: epidemias podem ser rápidas ou lentas, grandes ou pequenas

As epidemias narrativas econômicas ocorrem em diversos tamanhos e prazos. Não existe um curso padrão para uma epidemia narrativa, e o rápido crescimento de uma epidemia rápida não significa ela ter significado em longo prazo.

No apêndice deste livro, Shiller revisa modelos da epidemiologia médica. Eles mostram os parâmetros de contágio e recuperação poderem ser escolhidos para os modelos. Implicam grandes epidemias rápidas, pequenas epidemias rápidas, grandes epidemias lentas e pequenas epidemias lentas.

Como uma narrativa pode ir e vir por muitas décadas, ela pode durar mais além de qualquer série de dados, onde os economistas confiam, para medir o impacto da narrativa. Portanto, não devemos nos apressar a julgar o impacto de uma narrativa.

Por exemplo, se assumirmos uma narrativa econômica viral ser exatamente como um meme viral no Facebook ou no Twitter por um período de dias, perderemos a possibilidade de um boom histórico longo ser o resultado de uma epidemia ocorrida ao longo de um período um prazo muito maior.

 

Proposição 2: Narrativas econômicas importantes podem incluir uma porcentagem muito pequena de conversas populares

Ao tentar julgar a importância das epidemias de narrativas econômicas, não devemos basear nossas conclusões no pressuposto de as narrativas economicamente mais importantes serem aquelas sobre as quais se fala constantemente. Epidemias muito significativas podem gerar muito pouca conversa.

Além disso, como as pessoas estão sempre conversando, algum tipo de narrativa está sempre se espalhando. Ao estudar narrativas econômicas, não devemos nos distrair com a conversa fiada. Ela não é útil para explicar as mudanças econômicas.

 

Proposição 3: Constelações narrativas têm mais impacto face a qualquer narrativa

As narrativas ocorridas em conjunto em uma constelação podem ter origens diferentes, mas, em nossa imaginação, elas parecem agrupadas em termos de alguma ideia básica e reforçam o contágio uma da outra.

Termos alternativos para constelações narrativas incluem narrativa principal, narrativa principal e metanarrativa, mas Shiller prefere não os usar. Sugerem mais organização ou qualidade intelectual em vez de se justificar quando um simples contágio de histórias espalha narrativas por um público amplo.

Às vezes, as narrativas dentro de uma constelação são despojadas de identificação de nomes ou lugares, e a narrativa assume a forma de “Eles dizem isso …” sem declarar quem são “eles”. Ao usar o pronome “eles”, o narrador da narrativa “Dizem…” transmite haver uma constelação de narrativas caracterizadas ou contadas por pessoas aparentemente autorizadas.

As fronteiras de tais constelações narrativas podem ser redesenhadas de tempos em tempos, com uma narrativa particular tomando emprestado contágio de outras narrativas atualmente contagiosas.

É difícil definir os parâmetros exatos das constelações narrativas. Muitas vezes, podemos encontrar apenas exemplos superficiais de algumas de suas histórias. A maioria das narrativas nunca é escrita e se perde para sempre.

Além disso, as narrativas ficam em segundo plano e raramente são expressas quando as decisões são tomadas. Por exemplo, se você estiver discutindo com seu cônjuge se deseja comprar um carro novo este ano ou esperar até os tempos parecerem mais seguros, é improvável contar ao seu cônjuge uma das histórias capaz de o fazer se sentir seguro ou inseguro.

Assim, torna-se difícil estabelecer uma conexão entre as narrativas e a ação. O elo final entre uma narrativa verbal e a ação econômica pode, em última análise, não ser verbal.

 

Proposição 4: O impacto econômico das narrativas pode mudar com o tempo

O impacto de uma narrativa econômica no comportamento depende de detalhes da mutação atual da narrativa e de outras narrativas relacionadas. Quando contamos com dados digitalizados em palavras ou frases sinalizadoras de narrativas, devemos resistir à tentação de assumir todas as narrativas com esses sinalizadores terem o mesmo significado ao longo do tempo.

Temos de ler as narrativas em termos de suas implicações para a ação, pelo menos no contexto onde foram faladas. No futuro, alguma inovação no processamento de informações poderá tornar esse empreendimento menos dependente do julgamento humano.

Devemos prestar atenção aos nomes atribuídos pelas pessoas às suas narrativas. Mudanças aparentemente pequenas no nome de uma narrativa podem ter muita importância, especialmente se o novo nome se atribuir a uma constelação diferente de narrativas.

Na Linguística, os sinônimos nunca têm exatamente o mesmo significado. Se pressionadas, as pessoas podem expressar pensamentos complexos sobre as conotações ligeiramente diferentes dos sinônimos. Na Neurolinguística, sinônimos têm conexões diferentes na rede neural. Algumas dessas conexões podem ser muito importantes em termos das ideias econômicas apoiadas por elas.

 

Proposição 5: A verdade não é suficiente para impedir falsas narrativas

De repente, narrativas econômicas proeminentes às vezes aparecem misteriosamente e sem motivo aparente. Uma dessas narrativas ocorreu após a crise financeira mundial de 2007–2009, quando taxas de juros próximas a zero foram interpretadas como prenúncios de uma “década perdida”, como haviam ocorrido no Japão nos anos 90.

A história japonesa de “décadas perdidas” é apenas um exemplo, apenas uma observação e, portanto, sem significado estatístico, mas era contagiosa o suficiente em todo o mundo para reacender as narrativas da Grande Depressão. Daí lançou sérios temores sobre a “estagnação secular”.

De fato, essas narrativas e medos podem ter efeitos sérios na economia e em nossas vidas.

Por analogia, as atividades econômicas nem sempre são baseadas em informações atualizadas. Às vezes, eles são baseados em qualquer narrativa tendo ela se tornado viral em um determinado momento.

Embora o conhecimento geral avance constantemente em muitos aspectos, não vemos necessariamente uma progressão constante no conhecimento capaz de afetar o comportamento econômico.

As narrativas em torno do Bitcoin fornecem um exemplo. Existem brilhantes cientistas da computação. Eles são fascinados por criptomoedas, mas nada diz se as ideias cativantes geradoras de empolgação pública estão certas ou erradas. É a Falácia da Prova Social: o fato de muitas pessoas acreditar em algo não o transforma em verdade.

Felizmente, em questões de fato simples, livre de qualquer interesse humano ou qualidade da história, a sociedade moderna geralmente permanece no alvo, ou pelo menos disposta a ser corrigida em caso de erro.

Por exemplo, a maioria das pessoas pode nomear as várias rodovias da casa corretamente e aceitará a correção se um erro for apontado. Eles também confiam rotineiramente nos médicos para lhes contar a verdade sobre coisas sobre as quais nada sabem.

As pessoas são mais propensas a compartilhar informações novas. O contágio reflete o desejo de excitar e surpreender os outros.

Podemos acrescentar outra reviravolta a essa conclusão: uma nova história ao corrigir uma história falsa pode não ser tão contagiosa quanto a história falsa. Isto significa a narrativa falsa poder ter um grande impacto na atividade econômica muito depois de corrigida.

 

Proposição 6: Contágio de narrativas econômicas baseia-se em oportunidades de repetição

O contágio depende da frequência de oportunidades para inserir uma narrativa em uma conversa. Geralmente é indelicado ou rude mudar de assunto da conversa, a menos se justificado por alguma circunstância extraordinária.

Novas ideias e conceitos podem aumentar as oportunidades de contágio. Por exemplo, a taxa de contágio de narrativas sobre o mercado de ações provavelmente aumentou quando, nas décadas de 1920 e 1930, o público começou a prestar atenção nos índices de preços das ações.

O mesmo aconteceu com as epidemias narrativas sobre habitação após os anos 1970, quando corretores e compradores de imóveis começaram a reconhecer os índices de preços das residências. Nos dois casos, os redatores da mídia, procurando novos fatos para justificar a redação de uma história capaz de chamar a atenção, se viram revisando esses índices com frequência.

Um novo contágio pode começar silenciosamente, sem mencionar o autor da mudança, sendo ele irremediavelmente esquecido. Isso leva a uma vasta constelação de narrativas, por exemplo, envolvendo uma música infundida em filmes, programas de TV e mídias sociais, entre outros formatos.

 

Proposição 7: Narrativas prosperam no apego por interesse humano, identidade ou patriotismo

Geralmente, as narrativas econômicas contam com histórias de interesse humano para seu contágio, porque os seres humanos são atraídos por tais histórias. Quando uma personalidade identificada é associada a uma narrativa, um rosto possível de ser imaginado, em nossas mentes, então nosso cérebro envolve nossos modelos de pessoas, vozes e rostos com a história, diminuindo a probabilidade de esquecimento. Mas as próprias histórias de interesse humano podem não ser suficientes para tornar uma narrativa contagiosa.

Às vezes, uma narrativa econômica bem-sucedida é a invenção de mentes criativas. Elas sentem o que é contagioso e o que não é. Aí juntam os elementos o suficiente para lançar uma narrativa contagiosa.

Aqueles aspirantes a criar narrativas virais devem escolher suas celebridades com cuidado, porque as narrativas funcionam melhor quando o público-alvo reconhece e se identifica pessoalmente com a celebridade.

Frequentemente, o elemento básico de interesse humano de uma narrativa econômica é incorporado em histórias um pouco diferentes. Elas se tornam virais ao mesmo tempo.

Versões diferentes da narrativa substituem celebridades diferentes cada qual apropriada para certo público-alvo. Para novas narrativas envolvendo celebridades, já existem narrativas familiares sobre as celebridades na memória, o que pode melhorar o contágio.

A constelação de narrativas construídas em torno de celebridades é auto-reforçadora. Em casos extremos, as celebridades alcançam status sobre-humano, e as ideias associadas começam a parecer naturais e óbvias.

Às vezes, as pessoas comuns inventam citações apropriadas ou expressivas, mas essas citações só se tornam contagiosas depois de a história ser alterada para substituir o nome de uma pessoa famosa como o autor da citação.

O site Wikiquotes rastreia as origens de citações famosas e, normalmente, a pessoa famosa estava citando outra pessoa, se for verdade ela ter dito alguma coisa. Mas, não importa: não obstante, os wikiquotes, a história da verdadeira fonte da citação nunca será viral, porque não é contagiosa.

E o contágio é o elemento mais importante: se as narrativas não forem repetidas nas comunicações humanas, elas serão gradualmente esquecidas. Narrativas envolvendo celebridades podem repentinamente perder seu contágio se algum evento desacreditar a celebridade, se as ideias na narrativa são verdadeiras ou boas ou não.

Como vimos, a escolha de celebridades tem dimensões patrióticas, pois as pessoas têm preferência por indivíduos em seu próprio país ou em seu próprio grupo étnico. Essa preferência ajuda a explicar por que a disseminação epidêmica de narrativas geralmente não é vista ou reconhecida. Para reconhecê-lo, normalmente é necessário admitir sua origem estrangeira.

Praticamente ninguém tem um incentivo para apresentar uma ideia como vinda do exterior, exceto em circunstâncias incomuns. Portanto, temos a ilusão de ideias importantes chegaram espontaneamente a um compatriota e não vemos nada da verdadeira epidemia mundial da ideia. Além das celebridades, há questões de lealdade regional ou religiosa.

Patriotismo não significa apenas afirmações de lealdade. É também a sensação de somente em nosso país alguma coisa importante, boa ou ruim, acontece. Muitos americanos pensam os Estados Unidos serem todo o mundo, apesar de ter apenas 5% da população mundial.

Robert J. Shiller, no livro “Economia Narrativa” (2019), apresenta sete proposições importantes com relação às narrativas econômicas:

  1. As epidemias podem ser rápidas ou lentas, grandes ou pequenas. O cronograma e a magnitude das epidemias podem variar amplamente.
  2. Narrativas econômicas importantes podem incluir uma porcentagem muito pequena de conversas populares. As narrativas podem ser raramente ouvidas e ainda economicamente importantes.
  3. Constelações narrativas têm mais impacto face a qualquer uma narrativa. Constelações importam.
  4. O impacto econômico das narrativas pode mudar com o tempo. Mudar detalhes é importante conforme as narrativas evoluem ao longo do tempo.
  5. A verdade não é suficiente para impedir narrativas falsas. A verdade importa, mas apenas se for óbvia.
  6. O contágio de narrativas econômicas se baseia em oportunidades de repetição. O reforço é importante.
  7. Narrativas econômicas prosperam no interesse humano, identidade e patriotismo. O interesse humano, a identidade e o patriotismo são importantes.

Na parte III do livro, usa essas sete proposições como uma estrutura para examinar narrativas econômicas historicamente importantes, para identificar o que podemos aprender com as narrativas econômicas e suas consequências no mundo real.

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