Trabalhar para Produzir ou Produzir para Trabalhar?

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Na linguagem oficial, não é mais o trabalho que cria os produtos, mas a produção que cria o trabalho. Não se trata mais de trabalhar para produzir, mas sim de produzir para trabalhar.

A economia de guerra e a própria guerra foram, até o presente do capitalismo globalizado, os únicos métodos encontrados para assegurar o pleno emprego da população economicamente ativa e das máquinas criadas, quando a capacidade produtiva ultrapassou a capacidade de consumir.

Os teóricos da sociedade informatizada, no entanto, garantem que métodos menos bárbaros podem “criar trabalho”: consistem essencialmente em fazer com que profissionais especializados e pagos façam o que até aqui as pessoas faziam por sua própria conta e segundo sua fantasia como os cuidados pessoais com saúde, beleza, sexualidade, bebês, educação de crianças, etc.

No momento mesmo em que a automatização e/ou a robotização “arrisca” a dar à população a possibilidade e o tempo de cuidar mais de si mesma, propõe-se a migração massiva de trabalhadores para se transformarem em profissionais do novo Setor Terciário, isto é, em prestadores de serviços pessoais. São chamados a dissuadir as pessoas de fazerem qualquer coisa por conta própria, até mesmo criar seus filhos, deixando tudo para “especialistas”.

É possível criar milhões de ocupações de “cuidadores”, abrindo segmentos de mercado inexplorados para as trocas mercantis, fazendo de cada desocupado o prestador de um único serviço especializado? Em contrapartida, todos virarão consumidores passivos das prestações de serviços oferecidas por outros especialistas? Continue reading “Trabalhar para Produzir ou Produzir para Trabalhar?”

4a. Revolução Industrial: Sociedade do Desemprego ou Sociedade do Tempo Liberado?

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Uma época chega a seu término: a época em que o trabalho humano era fonte de toda riqueza. Começou a 4a. Revolução Industrial. Rompeu-se o vínculo entre crescimento do investimento e crescimento do emprego. Nem o protecionismo do mercado interno nem a retomada do investimento, nada disso conseguirá reduzir o desemprego tecnológico. Cada vez mais será difícil alcançar o “pleno emprego” com políticas keynesianas ou de outras extrações teóricas. Com as neoliberais, a taxa de desemprego só aumenta!

A questão-chave contemporânea é se a 4a. Revolução Industrial levará à Sociedade do Desemprego ou à Sociedade do Tempo Liberado? Vai liberar o ser humano do trabalho mutilante ou vai mutilá-lo ao limite, reduzindo-o à inatividade forçada? Levará à uma Era em que trabalharemos cada vez menos, dispondo de uma massa crescente de riqueza melhor distribuída, para mantermos nosso poder aquisitivo? Condenará uns ao desemprego e outros à hiper produtividade?

Face a tais cenários, a melhor saída, apontada por André Gorz, em Adieux ao Prolétariat (Rio de Janeiro; Editora Forense Universitária; 1982), é a redução progressiva da jornada de trabalho, evidentemente, sem que isso represente uma perda do poder aquisitivo.

Os novos objetivos das lutas sociais e políticas são:

  1. trabalhar menos, produzindo mais,
  2. distribuir melhor os frutos do progresso técnico,
  3. criar um novo equilíbrio entre tempo de trabalho obrigatório e tempo livre disponível para trabalho criativo,
  4. permitir uma vida mais tranquila e atividades mais recompensadoras.

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Negação Radical da Lógica do Capital

tarsila-do-amaral-operariosO que nos falta para podermos nos realizar, nos comunicar com os outros, levar uma vida mais descontraída, estabelecer relações mais fraternais? A previsão econômica ortodoxa não responde a essa questão. A ortodoxia só se preocupa em inventar novas penúrias ou novas carências de acordo com as necessidades de rentabilidade do capital. Este impõe seus produtos por meio dos símbolos que os investe.

André Gorz, em Adieux ao Prolétariat (Rio de Janeiro; Editora Forense Universitária; 1982), considera a publicidade como a força educadora e de ativação capaz de provocar as transformações da demanda que são supostas socialmente necessárias. Emulam o que é um nível de vida mais elevado, em cada época, de modo a aumentar o consumo até que ultrapasse o nível suficiente para ocupar toda a capacidade produtiva, criada de maneira descentralizada por iniciativas particulares.

A ideia de que produção e consumo possam ser decididos a partir das necessidades reais é, por suas implicações, uma ideia politicamente subversiva:

  1. supõe que aqueles que produzem e aqueles que consomem possam se reunir, fazer perguntas e decidir de maneira soberana uma oferta de acordo com a demanda;
  2. supõe que seja abolido o monopólio que O Mercado e/ou O Estado, em outros termos, O Capital, detém em matéria de decisões sobre o investimento, a produção e a inovação;
  3. supõe um consenso sobre a natureza e o nível de consumo aos quais todos devem poder pretender e, por consequência, sobre os tipos de consumo que convém prescrever e sobre os limites que não devem ser ultrapassados por razões ecológico-ambientais;
  4. supõe, enfim, uma gestão econômica que vise a satisfazer o máximo das necessidades com a maior eficácia possível, ou seja, com o mínimo de trabalho, de capital e de recursos naturais – em resumo, com o mínimo de produção mercantil.

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Atividade Autônoma

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Autonomia designa a capacidade de autogovernar-se, de dirigir-se por suas próprias leis ou vontade própria, possuir soberania. É faculdade própria de algumas instituições quanto à decisão sobre organização e normas de comportamento, sem se dobrar ou ser influenciadas por imposições externas.

Autonomia, em Política, é a autodeterminação político-administrativa de que podem gozar partidos, sindicatos, corporações, cooperativas etc., em relação ao país ou comunidade política dos quais fazem parte. Em Administração, é o direito de se administrar livremente, dentro de uma organização mais vasta, liderada por um poder central. Refere-se à liberdade moral ou intelectual do indivíduo, cuja independência pessoal deriva do direito de tomar decisões livremente.

Na Filosofia de Kant, autonomia é a liberdade do homem que, pelo esforço de sua própria reflexão, dá a si mesmo os seus princípios de ação, não vivendo sem regras, mas obedecendo às que escolheu depois de examiná-las. Já em Psicologia, autonomia é a preservação da integridade do Eu.

No caso das máquinas, autonomia é a distância máxima que um veículo, aeronave ou navio podem percorrer (ou tempo de percurso, voo e navegação) sem necessitar de reabastecimento. Em tecnologia, autonomia contempla o Intervalo de tempo em que um sistema ou equipamento pode se manter em funcionamento sem a ação de agentes externos. Na 4a. Revolução Industrial, as “fábricas sem iluminação” operam, incessantemente, 24 horas por dia! Dada a ausência de motoristas, as frotas de caminhões autônomos só param, rapidamente, para se abastecer!

Automóveis autônomos ou automatizados poderão ser compartilhados por uma demanda programada de acordo com horários e locais para o uso contínuo de maneira mais eficiente. Poderemos deixar de ver, especialmente nas metrópoles, automóveis estacionados na maior parte do dia. Calcule o custo da hora parada de seu automóvel: quanto você pagou por ele (e gasta com sua manutenção e tributação) em termos do tempo que você o usa efetivamente… Continue reading “Atividade Autônoma”

Adeus ao Proletariado

adieux-ao-proletariatAndré Gorz publicou a primeira edição francesa de Adieux ao Prolétariat em 1980. Há uma tradução brasileira publicada em 1982 pela Editora Forense Universitária. Como estamos em pleno vigor da 4a. Revolução Industrial, embora esse autor se refira à 3a. Revolução Industrial, parece-me que sua tese principal ganhou atualidade. Vou resenhar as ideias originais apresentadas nesse livro vanguardista que se tornou um clássico ao ser lido por leitores das sucessivas gerações.

O tema central é a liberdade do tempo e a abolição do trabalho. Este se refere ao que apareceu com a relação de produção surgida entre capitalistas e assalariados. Designa uma atividade assalariada que se exerce:

  1. por conta de um terceiro;
  2. em troca de um salário;
  3. segundo formas e horários fixados por aquele que paga;
  4. visando fins que não são escolhidos por quem o executa.

adeus-ao-proletariadoAtividade obrigatória, heterodeterminada, heterônoma – sujeita à vontade de outrem ou regulado por leis de conduta vindas do exterior –, o trabalho é percebido pela maioria dos que o procuram e dos que o “têm” como uma venda de tempo, cujo objeto pouco importa. “Tem-se” um bom ou um mau trabalho antes de mais nada conforme o que se ganhe; só depois é que se pensa na natureza das tarefas e nas condições de sua realização. Continue reading “Adeus ao Proletariado”

Prefácio de Joseph Stiglitz à Edição Portuguesa do Livro de Karl Polanyi “A Grande Transformação”

karl-polanyiÉ difícil – e seria provavelmente um erro – tentar sequer resumir em poucas linhas uma obra tão complexa. Embora certos aspectos do vocabulário e da teoria econômica de um livro escrito há meio século possam tornar hoje a sua leitura menos acessível, as questões e perspectivas formuladas por Polanyi não perderam a sua pertinência.

Entre as suas teses centrais contam-se ideias como as que nos dizem que:

  1. não há mercados autorregulados que possam alguma vez funcionar, e
  2. as suas falhas, não só ao nível do funcionamento interno, mas também nas consequências que acarretam (por exemplo, para os pobres), são de tal ordem que a intervenção do governo se torna necessária.
  3. ao mesmo tempo, o ritmo das transformações é de decisiva importância na determinação das consequências em causa.

A análise de Polanyi torna claro que as doutrinas muito difundidas da teoria do gota a gota (trickle-down economics) – segundo a qual todos, incluindo os pobres, beneficiam do enriquecimento de uns poucos – dificilmente são confirmadas pelas história. Continue reading “Prefácio de Joseph Stiglitz à Edição Portuguesa do Livro de Karl Polanyi “A Grande Transformação””

Obra-Prima de Sociologia Econômica: A Grande Transformação

polanyi-karl-the-great-transformationRui Santos, em outra apresentação de A Grande Transformação, de Karl Polanyi (1886-1964): Questões de Interpretação, em sua edição portuguesa (Lisboa, Edições 70),  afirma que, em praticamente todos os artigos de discussão sobre A Grande Transformação de Karl Polanyi, seus autores apontam algumas ambiguidades das suas proposições que permitem leituras e apropriações diversas e, por vezes, contraditórias.

O exemplo mais importante dessas ambiguidades é a questão, frequentemente referida, da contradição sobre o caráter incrustado ou desincrustado das economias capitalistas reais.

Por um lado, Polanyi afirma que, nas sociedades em que predomina a troca mercantil, os mercados deixaram de estar incrustados em outras instituições sociais e, ao invés, foram estas que passaram a estar incrustadas naqueles. Essa seria a definição por excelência de A Grande Transformação.

É esta a interpretação criticada, quando se afirma que as economias de mercado contemporâneas estão mais incrustadas do que os substantivistas pretendiam. Foi igualmente objeto de crítica ao conceito de incrustação, argumentando-se que “todas as economias estão incrustadas”. É também uma interpretação acolhida em textos introdutórios da nova Sociologia Econômica, que marcam a sua diferença relativamente a Polanyi precisamente pela extensão do conceito à análise das economias de mercado e dos próprios mercados.

Por outro lado, A Grande Transformação classifica também a sociedade regulada por mercados livres e concorrenciais como uma «utopia» do pensamento econômico e político liberal, que uma vez imposta à sociedade pela força política imediatamente geraria rupturas insustentáveis na integração social. Continue reading “Obra-Prima de Sociologia Econômica: A Grande Transformação”