Salvar o Capitalismo dos Capitalistas

Luigi Zingales e Raghuram G Rajan, coautores do livro “Saving Capitalism From the Capitalists: Unleashing the Power of Financial Markets to Create Wealth and Spread Opportunity” (edição publicada pela primeira vez na Índia em 2014 pela Collins Business, uma marca da HarperCollins Publishers India por acordo com a Crown Business, Nova York), defendem o sistema capitalista como ele precisasse de defesa!

Um sistema complexo como o capitalista é emergente a partir de interações entre múltiplos componentes. Não é fruto de uma ou poucas mentes humanas. É auto organizado em autorregulação de uma economia de mercado limitada por instituições, estas sim criações humanas de caso pensado.

Dizem os coautores: “o capitalismo, ou mais precisamente, o sistema de livre mercado, é a maneira mais eficaz de organizar a produção e a distribuição encontrada pelos seres humanos. Enquanto os mercados livres, particularmente mercados financeiros livres, engordam as carteiras das pessoas, eles fizeram surpreendentemente poucas incursões em seus corações e mentes. Os mercados financeiros estão entre as partes mais criticadas e menos compreendidas do sistema capitalista.

O comportamento dos envolvidos em escândalos recentes, como o colapso da Enron, apenas solidifica a convicção pública de esses mercados serem simplesmente ferramentas para os ricos ficarem mais ricos às custas do público em geral. No entanto, como argumentam os coautores neoliberais, “mercados financeiros saudáveis ​​e competitivos são uma ferramenta extraordinariamente eficaz na disseminação de oportunidades e no combate à pobreza”.

Por causa de seu papel no financiamento de novas ideias, os mercados financeiros mantêm vivo o processo de “destruição criativa” – por meio do qual velhas ideias e organizações são constantemente desafiadas e substituídas por novas e melhores. Sem mercados financeiros vibrantes e inovadores, as economias invariavelmente ossificariam e declinariam. Continuar a ler

Pro Market, Não Pro Business

Luigi Zingales, no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana” (A capitalism for the people : recapturing the lost genius of American prosperity. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data; 2012), pergunta: o que as pessoas desejam mais da vida? Bem-estar material?

Isso é importante, mas a liberdade é pelo menos tão importante, e os dois estão intrinsecamente relacionados. Como argumentou neste livro, aqui resenhado, a liberdade intelectual não pode existir sem liberdade econômica; nem a liberdade econômica pode existir sem a liberdade intelectual. Por sua vez, tanto o sistema econômico quanto o sistema político precisam de valores capazes de os legitimarem.

Após a queda do Muro de Berlim, a democracia capitalista foi triunfante. Esse modelo tornou próspero o Ocidente norte-americano e europeu, impulsionou os tigres asiáticos para o mundo desenvolvido, tornou-se o ideal dos antigos países comunistas da Europa Oriental e venceu a Guerra Fria. Os vinte anos seguintes – Era Neoliberal dos anos 80 e 90 – testemunharam o aparentemente completo triunfo ideológico do modelo capitalista. Parecia não haver alternativa aos yuppies neoliberais.

A hegemonia intelectual do capitalismo, no entanto, levou à complacência e ao extremismo:

  1. complacência com a degeneração do sistema,
  2. extremismo na aplicação de suas premissas ideológicas.

O dinheiro, independentemente da forma como foi obtido, assegurou não apenas o sucesso financeiro, mas também o prestígio social. “A ganância é boa” – frase icônica de filme norte-americano representativo da época do auge de Wall Street – tornou-se a norma e não a exceção desaprovada. O capitalismo perdeu seu terreno moral mais alto. Continuar a ler

Sabe com qual populismo você está falando?!

Luigi Zingales, no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana” (A capitalism for the people : recapturing the lost genius of American prosperity. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data; 2012), afirma: fora dos Estados Unidos, o populismo é geralmente associado a dois extremos igualmente ruins.

Por um lado, há o populismo reacionário. Ele pode se desenvolver quando líderes maquiavélicos alimentam sentimentos primitivos – racismo, medo, intolerância religiosa – para construir apoio a um regime impopular. Um exemplo é o peronismo, o movimento iniciado na década de 1940 na Argentina por Juan Perón, na época secretário do trabalho. O peronismo explorou o nacionalismo argentino para promover uma forma de nacionalismo corporativo, obscurecendo as distinções entre corporações e governo. Os movimentos fascista e nazista eram formas mais assustadoras de populismo reacionário.

Por outro lado, existe o populismo de esquerda. Ele joga com a inveja e com a luta de classes, colocando malsucedidos contra bem-sucedidos, em um esforço para destruir a meritocracia e introduzir uma nova alocação política de recursos. A forma mais extrema de populismo de esquerda foi a louca Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Entre 1966 e 1976, exterminou a elite intelectual da China e custou milhões de vidas ao país.

A América também teve sua parcela de populismo de direita, incluindo o da Ku Klux Klan e do político segregacionista George Wallace. Mas há outra tendência, mais positiva na história americana, estendendo-se de volta à própria Revolução Americana, na qual a elite e os não-elites formaram uma aliança contra o poder colonial. Continuar a ler

Muito Grande para Quebrar: Risco de Crise Sistêmica pelo Efeito Contaminação

Luigi Zingales, no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana” (A capitalism for the people : recapturing the lost genius of American prosperity. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data; 2012), diz: outra razão pela qual os grandes bancos são politicamente influentes é a sua morte criar uma ruptura catastrófica na economia – pelo menos, os políticos acreditam. Se eles estão certos ou não é irrelevante.

Suponhamos um grande asteroide estar em direção à Terra, como no filme Armageddon, e tenha 5% de chance de atingir o planeta, gerando US $ 10 trilhões em danos físicos nos Estados Unidos. Se você é o presidente, deveria autorizar uma missão de US $ 700 bilhões para destruir o asteroide e evitar o desastre? Se você raciocinar em termos puramente econômicos, o custo esperado de não agir (0,05 × US $ 10.000 bilhões = US $ 500 bilhões) é muito menor em lugar do custo de agir.

Mas se você gastar o dinheiro para parar o asteroide, ninguém saberá se ele realmente teria atingido a Terra, se você tivesse negligenciado a ação. Então, você pode deixar de entrar para a história como o presidente salvador do planeta. Por outro lado, se você não fizer nada, terá 5% de chance de entrar para a história como o presidente incapaz de evitar a catástrofe, embora conhecesse o risco. A Operação Armagedom para destruir o asteroide, de repente, não parece ser muito mais atraente?

“Antecipando resgates do governo em caso de emergência, os credores estão dispostos a emprestar a grandes instituições financeiras de forma muito barata e sem restrições. Oferecidos com crédito barato, os administradores dessas instituições financeiras acham atraente pedir muito dinheiro emprestado e fazer apostas extremamente arriscadas, porque podem maximizar seus lucros ao fazê-lo. Infelizmente, as apostas arriscadas também maximizam a probabilidade de o governo intervir, bem como o custo que o governo pagará quando o fizer.

O valor desse subsídio governamental implícito para os bancos considerados ‘grandes demais para quebrar’ é estimado em meio ponto percentual de juros. Multiplicado pela dívida das dezoito holdings bancárias, corresponde a um subsídio de US$ 34,1 bilhões por ano.

Ao reduzir o custo do crédito para grandes bancos considerados ‘grandes demais para falir’, esse subsídio também distorce a concorrência, prejudicando a capacidade dos pequenos bancos de competir. O resultado, naturalmente, é um aumento no número de grandes bancos talvez necessários de serem resgatados no futuro”.

Quando comparamos sistemas financeiros, seja historicamente, seja entre países, a distinção mais relevante não é entre bancos e mercados, mas entre:

  1. financiamento baseado em relacionamentos e
  2. financiamento baseado em condições de concorrência.

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Financiamento por Compadrio

Luigi Zingales, no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana” (A capitalism for the people : recapturing the lost genius of American prosperity. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data; 2012), afirma: “o financiamento é um ingrediente essencial na injeção da competição em um sistema econômico. O amplo acesso a ele é crucial para atrair novos empreendedores ao sistema e dar a eles a chance de prosperar e crescer. As finanças também são um grande equalizador: quando o sistema financeiro funciona da maneira devida, as ideias são mais importantes em relação ao dinheiro, logo, as pessoas talentosas podem competir cara-a-cara com qualquer pessoa, independentemente da riqueza individual. Sem esse acesso a fundos, os talentosos não podem atacar sozinhos, e muitas vezes acabam trabalhando para os ricos, apenas enriquecendo os ricos. As finanças podem transformar o sonho americano em realidade”.

Recentemente, no entanto, em vez de engraxar as engrenagens do crescimento econômico, as finanças têm sido mais parecidas com a areia em suas engrenagens. Da explosão da bolha da Internet aos escândalos da Enron e da WorldCom, da crise das hipotecas subprime à fraude ruinosa de Bernard Madoff, as finanças parecem estar no cerne de muitos problemas contemporâneos. Além disso, parece estar contribuindo para resultados econômicos extremamente desiguais, e não uma equalização de pontos de partida.

“É difícil culpar essa situação pela falta de competição, porque em muitas áreas das finanças, a competição é intensa, muitas vezes violenta. As finanças também são meritocráticas, com talentos altamente compensados. Já se foram os dias quando os executivos da Ivy League fechavam as portas dos templos das finanças para italianos, judeus e outras minorias. Mozillo era filho de um açougueiro do Bronx e agora é bacharel pela Fordham University”.

O problema, ou pelo menos uma parte significativa disso, é a crescente hegemonia política do setor financeiro. Neste capítulo, Luigi Zingales discute como a justiça das regras para regerem as finanças e o processo determinante dessas regras são cruciais para fazer o capitalismo funcionar para todos. Também explica como, graças a seus recursos e esperteza, o setor financeiro tem sido cada vez mais capaz de manipular as regras em benefício próprio. Isso prejudicou não apenas a economia, mas o próprio setor financeiro. Continuar a ler

Igualdade de Oportunidades e/ou Igualdade de Resultados

Luigi Zingales, no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana”, destaca também a existência de uma divergência entre produtividade e salários. Ela é particularmente pronunciada no início do novo milênio. Transferir a culpa pela tecnologia não resolve nossos problemas. O aumento da desigualdade de renda está minando o consenso popular em favor de um sistema de livre mercado.

Nesse capítulo, há um ponto de vista comum entre os igualitários de oportunidades (neoliberais) e de resultados (socialdemocratas) a respeito do necessário a ser feito. Não basta tentar equalizar os pontos de partida, reformando o sistema educacional de maneira a aumentar a qualidade do ensino. Para reduzir o efeito pernicioso de uma “economia de super-astros” – com “celebridades” ganhando mensalmente uma quantia não ganha anualmente, por exemplo, por Professores Titulares – precisamos promover a concorrência nos mercados onde ela é deficiente: no mercado de talentos?!

“Há uma inépcia temporária natural da fase da vida conhecida como adolescência. Os EUA e a economia mundial estão agora nesta fase adolescente, crescendo de economias em sua maioria locais para uma totalmente global. Embora este processo tenha trazido uma melhoria tremenda para o mundo, também criou dificuldades”.

Tentar parar a globalização ou “corrigir” as escolhas de mercado seria uma negligência econômica. No entanto, intervir para minimizar os efeitos colaterais e assegurar um nível saudável de competição em todos os setores não é apenas uma boa política: é uma condição necessária. Zingales destaca as áreas de intervenção necessárias. Continuar a ler

Capitalismo Meritocrático contra Capitalismo de Compadrio: agenda pró-mercado versus agenda pró-negócios

Sintetizo em uma série de posts as principais conclusões de Luigi Zingales, ao fim dos 16 capítulos do livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana”.

Os benefícios conferidos pelo capitalismo meritocrático – em princípio, o norte-americano – não são nem tão grandes nem tão difundidos como antes. Essa mudança enfraquece o apoio político ao sistema de mercado. Mas o que mais prejudica o sistema de livre mercado é a percepção de as regras não se aplicarem igualmente a todos, porque o sistema é fraudulento.

Alguém com as instruções oficiais em mãos, protestaria contra sua inocência quanto a esse trapaceio. Diria: ele nunca inventou nenhuma regra. Mas o crítico também está certo: o acusado está envolvido em uma lembrança seletiva das regras, contando com a ignorância alheia e destacando apenas as regras a seu favor. O crítico popular sente falta de justiça e emprega a única resposta disponível: desistir da economia de mercado.

Essa frustração é semelhante ao sentido por muitas pessoas cada vez mais a respeito do sistema dos EUA como um todo: o jogo parece manipulado. A maioria das pessoas não entende como é manipulada, muito menos como consertar isso, e alguns críticos de esquerda acham a resposta ser “parar o capitalismo”. Eles não entendem, ao rejeitar todo o sistema, tornam mais difícil mudá-lo. A fim de restaurar a justiça ao sistema, eles – na verdade, todos nós – precisam entender o que deu errado, em primeiro lugar.

Na Introdução a este livro, Luigi Zingales mencionou 51% dos americanos concordarem com a afirmação “As grandes empresas distorcem o funcionamento dos mercados em benefício próprio”. Essa convicção é compartilhada não apenas por aqueles costumeiramente desconfiados do livre mercado, mas também por aqueles apoiadores dele, “porque o livre mercado é o melhor sistema para gerar riqueza”.

A distinção entre uma agenda pró-mercado e uma agenda pró-negócios não escapou à atenção da maioria dos americanos. Embora as duas agendas às vezes coincidam – como no caso da proteção dos direitos de propriedade, direito humano representativo da conquista republicana contra o monopólio da riqueza por parte da nobreza dinástica e do clero – elas geralmente estão em desacordo. Uma agenda probusiness visa maximizar os lucros das empresas existentes; uma agenda  promarket, ao contrário, visa incentivar as melhores condições de negócios para todos. Continuar a ler