Conhecimento e Verdade

Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, afirma que a essência do conhecimento está estreitamente ligada ao conceito de verdade. Só o conhecimento verdadeiro é conhecimento efetivo. “Conhecimento não-verdadeiro” não é propriamente conhecimento, mas erro e engano.

Em que consiste, então, a verdade do conhecimento? A verdade deve consistir na concordância da “figura” com o objeto. Um conhecimento é verdadeiro na medida em que seu conteúdo concorda com o objeto intencionado.

Consequentemente, o conceito de verdade é um conceito relacional. Ele expressa um relacionamento, a saber, o relacionamento do conteúdo do pensamento, da “figura”, com o objeto.

O próprio objeto, ao contrário, não pode ser nem verdadeiro nem falso. De certo modo, ele está para além da verdade e da inverdade. Uma representação inadequada, por sua vez, pode ser verdadeira, pois apesar de incompleta pode ser correta, se as características que contém existirem efetivamente no objeto.

O conceito de verdade que obtivemos a partir da consideração fenomenológica do conhecimento pode ser chamado conceito transcendente de verdade, vale dizer, ele tem a transcendência do objeto como pressuposto. É esse o conceito de verdade da consciência ingênua e também o da consciência científica. Ambos visam, com a verdade, a concordância do conteúdo do pensamento com o objeto.

Em que posso reconhecer um conhecimento como verdadeiro? Essa é a questão-chave acerca do critério da verdade. Continue reading “Conhecimento e Verdade”

A Grande Saída não respeita as Fronteiras das Disciplinas Acadêmicas. E isso é bom.

O livro A Grande Saída: Saúde, Riqueza e as Origens da Desigualdade de autoria do vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2015, Angus Deaton, sem dúvida, merece ser lido. Segundo o próprio autor, ele trata da eterna dança entre progresso e desigualdade, de como o progresso gera desigualdade e como a desigualdade pode às vezes ser útil — ao mostrar caminhos ou proporcionar incentivos para que as pessoas os alcancem —, e às vezes danosa, quando aqueles que encontraram a saída escondem o caminho das pedras erguendo barreiras por onde passam. Essa é uma história que já foi contada muitas vezes, mas Deaton quer contá-la de um jeito diferente.

É fácil pensar que a fuga da pobreza está relacionada apenas ao dinheiro — possuir o bastante para não precisar mais viver com a corrosiva ansiedade de não saber se haverá o bastante amanhã, ou temer que surja alguma emergência para a qual faltarão  recursos  e  que  acabará  arruinando  você  e  sua  família.

Dinheiro é, de fato, parte central da história. Porém, tão ou mais importante quanto ele é ter uma saúde melhor e uma chance maior de viver tempo suficiente para conseguir prosperar. Continue reading “A Grande Saída não respeita as Fronteiras das Disciplinas Acadêmicas. E isso é bom.”

Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações

O próprio Paulo Gala apresenta seu livro Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações. Reproduzo sua apresentação abaixo.

“O processo de desenvolvimento sempre intrigou os economistas. Pensadores do passado – como o italiano Antonio Serra, de Nápoles, no início do século XVII; John Cary, de Bristol, no final do século XVII; ou Duarte Ribeiro de Macedo, de Portugal, na mesma época – indagavam sobre o que fazer para acelerar o progresso do reino e alcançar riqueza para todos. Muito antes de Adam Smith ter escrito o livro que se tornou clássico, esses economistas já observavam a questão da riqueza e da pobreza das nações, que perdura até hoje e continua inflamando corações e mentes.

Desde os clássicos da economia, como David Ricardo, Karl Marx e Adam Smith, passando pelos antigos economistas do desenvolvimento da tradição  anglo-saxã, como Ragnar Nurkse, Gunnar Myrdal e Rosestein-Rodan, ou da tradição latino-americana, como Raúl Prebisch e Celso Furtado, ou ainda pelo pensamento mais recente de economistas institucionalistas, como Douglass North, e de economistas mais neoclássicos, como Dani Rodrik e Daron Acemoglu – o que, afinal explica a pobreza e a riqueza das nações? O que explica o desenvolvimento econômico?

O livro procura responder essa questão a partir de duas perspectivas:

(i) a antiga tradição estruturalista em economia, para a qual a chave para a riqueza das nações estava na especialização produtiva em atividades econômicas com retornos crescentes de escala e

(ii) a moderna concepção da complexidade econômica, que parte de um enfoque parecido com o dos estruturalistas, mas usa muito a abordagem empírica, analisando enormes bancos de dados de Big Data e redes para o comércio internacional. Continue reading “Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações”

Por que a Informação Cresce: A Evolução da Ordem, de Átomos à Economia

Navegando na internet em busca do livro de Cesar Hidalgo com o título acima, achei apenas uma resenha dele, postada em 29 de setembro de 2016 por Fabio Hideki Ono. Há crescente importância da Economia de Dados e Informações – foco que adoto na disciplina “Métodos de Análise Econômica” que ministro no 2o. semestre letivo –, em que se busca transformar a complexidade de grandes planilhas de dados, orientado por teorias e conceitos, em simplicidade analítica, propiciando novas reflexões.

Compartilho abaixo, destacando passagens importantes da resenha de Fabio Hideki Ono. Continue reading “Por que a Informação Cresce: A Evolução da Ordem, de Átomos à Economia”

Trabalhar para Produzir ou Produzir para Trabalhar?

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Na linguagem oficial, não é mais o trabalho que cria os produtos, mas a produção que cria o trabalho. Não se trata mais de trabalhar para produzir, mas sim de produzir para trabalhar.

A economia de guerra e a própria guerra foram, até o presente do capitalismo globalizado, os únicos métodos encontrados para assegurar o pleno emprego da população economicamente ativa e das máquinas criadas, quando a capacidade produtiva ultrapassou a capacidade de consumir.

Os teóricos da sociedade informatizada, no entanto, garantem que métodos menos bárbaros podem “criar trabalho”: consistem essencialmente em fazer com que profissionais especializados e pagos façam o que até aqui as pessoas faziam por sua própria conta e segundo sua fantasia como os cuidados pessoais com saúde, beleza, sexualidade, bebês, educação de crianças, etc.

No momento mesmo em que a automatização e/ou a robotização “arrisca” a dar à população a possibilidade e o tempo de cuidar mais de si mesma, propõe-se a migração massiva de trabalhadores para se transformarem em profissionais do novo Setor Terciário, isto é, em prestadores de serviços pessoais. São chamados a dissuadir as pessoas de fazerem qualquer coisa por conta própria, até mesmo criar seus filhos, deixando tudo para “especialistas”.

É possível criar milhões de ocupações de “cuidadores”, abrindo segmentos de mercado inexplorados para as trocas mercantis, fazendo de cada desocupado o prestador de um único serviço especializado? Em contrapartida, todos virarão consumidores passivos das prestações de serviços oferecidas por outros especialistas? Continue reading “Trabalhar para Produzir ou Produzir para Trabalhar?”

4a. Revolução Industrial: Sociedade do Desemprego ou Sociedade do Tempo Liberado?

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Uma época chega a seu término: a época em que o trabalho humano era fonte de toda riqueza. Começou a 4a. Revolução Industrial. Rompeu-se o vínculo entre crescimento do investimento e crescimento do emprego. Nem o protecionismo do mercado interno nem a retomada do investimento, nada disso conseguirá reduzir o desemprego tecnológico. Cada vez mais será difícil alcançar o “pleno emprego” com políticas keynesianas ou de outras extrações teóricas. Com as neoliberais, a taxa de desemprego só aumenta!

A questão-chave contemporânea é se a 4a. Revolução Industrial levará à Sociedade do Desemprego ou à Sociedade do Tempo Liberado? Vai liberar o ser humano do trabalho mutilante ou vai mutilá-lo ao limite, reduzindo-o à inatividade forçada? Levará à uma Era em que trabalharemos cada vez menos, dispondo de uma massa crescente de riqueza melhor distribuída, para mantermos nosso poder aquisitivo? Condenará uns ao desemprego e outros à hiper produtividade?

Face a tais cenários, a melhor saída, apontada por André Gorz, em Adieux ao Prolétariat (Rio de Janeiro; Editora Forense Universitária; 1982), é a redução progressiva da jornada de trabalho, evidentemente, sem que isso represente uma perda do poder aquisitivo.

Os novos objetivos das lutas sociais e políticas são:

  1. trabalhar menos, produzindo mais,
  2. distribuir melhor os frutos do progresso técnico,
  3. criar um novo equilíbrio entre tempo de trabalho obrigatório e tempo livre disponível para trabalho criativo,
  4. permitir uma vida mais tranquila e atividades mais recompensadoras.

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Negação Radical da Lógica do Capital

tarsila-do-amaral-operariosO que nos falta para podermos nos realizar, nos comunicar com os outros, levar uma vida mais descontraída, estabelecer relações mais fraternais? A previsão econômica ortodoxa não responde a essa questão. A ortodoxia só se preocupa em inventar novas penúrias ou novas carências de acordo com as necessidades de rentabilidade do capital. Este impõe seus produtos por meio dos símbolos que os investe.

André Gorz, em Adieux ao Prolétariat (Rio de Janeiro; Editora Forense Universitária; 1982), considera a publicidade como a força educadora e de ativação capaz de provocar as transformações da demanda que são supostas socialmente necessárias. Emulam o que é um nível de vida mais elevado, em cada época, de modo a aumentar o consumo até que ultrapasse o nível suficiente para ocupar toda a capacidade produtiva, criada de maneira descentralizada por iniciativas particulares.

A ideia de que produção e consumo possam ser decididos a partir das necessidades reais é, por suas implicações, uma ideia politicamente subversiva:

  1. supõe que aqueles que produzem e aqueles que consomem possam se reunir, fazer perguntas e decidir de maneira soberana uma oferta de acordo com a demanda;
  2. supõe que seja abolido o monopólio que O Mercado e/ou O Estado, em outros termos, O Capital, detém em matéria de decisões sobre o investimento, a produção e a inovação;
  3. supõe um consenso sobre a natureza e o nível de consumo aos quais todos devem poder pretender e, por consequência, sobre os tipos de consumo que convém prescrever e sobre os limites que não devem ser ultrapassados por razões ecológico-ambientais;
  4. supõe, enfim, uma gestão econômica que vise a satisfazer o máximo das necessidades com a maior eficácia possível, ou seja, com o mínimo de trabalho, de capital e de recursos naturais – em resumo, com o mínimo de produção mercantil.

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