Paralisia Política Devido à Polarização Intolerante

Nos três capítulos anteriores, Atif Mian e Amir Sufi avaliaram as políticas em potencial possíveis de os governos implementar quando ocorrer uma crise de perdas alavancadas. Salvar os bancos a qualquer custo é contraproducente.

A política monetária e a política fiscal ajudam, mas são inferiores a um ataque direto à dívida das famílias. Este é, afinal, o principal problema nos Estados Unidos – não no Brasil. Aqui, o problema maior é a alavancagem financeira das empresas não-financeiras. A reestruturação da dívida impulsionará de maneira mais eficaz uma economia em dificuldades.

Embora seja útil discutir quais políticas econômicas são melhores, quando ocorre uma crise, essa discussão ignora ‘o enorme elefante na sala’. Se aprendemos alguma coisa sobre política nos últimos anos, devemos saber como os conflitos partidários envenenam governos durante severos contrações econômicas.

Quando é mais necessária, a política econômica a ser aprovada pelo Congresso Nacional se torna inviável politicamente. Aqui, no Brasil golpista, lembre das “pautas-bombas” para sabotar todas as políticas públicas enviadas pelo Poder Executivo para o Poder Legislativo.

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E a Alternativa Fiscal?

 

Man Lifting House — Image by ?Images.com/CORBIS

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): diferentemente das teorias “keynesianas”, a estrutura de perdas alavancadas, cuja análise foi desenvolvida por eles, enfoca a fonte do choque da demanda. Isso leva naturalmente a políticas de modo a atacarem diretamente o problema da dívida excessiva das famílias.

No entanto, os gastos do governo, durante uma crise econômica grave, ajudam porque aumentam a demanda agregada. A maioria dos economistas concorda: em tempos normais, os gastos do governo têm pouco efeito sobre a economia:

  1. porque aglomera em conjunto com os gastos privados e
  2. porque as famílias entendem a “Equivalência Ricardiana”, no futuro, terão de pagar impostos mais altos para financiar os gastos.

De qualquer forma, os gastos do governo podem prejudicar, em tempos normais, porque distorcem os incentivos através da tributação. Mas quando atritos como o limite inferior zero mantêm a economia deprimida, os gastos do governo financiados com dívida podem ter efeitos econômicos positivos. Evidências substanciais mostram os benefícios de curto prazo do estímulo fiscal, especialmente quando a economia está acima do limite inferior zero.

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Expectativas de Aumento de Inflação Durante Grande Crise Deflacionária

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): quando os banqueiros centrais expandem as reservas bancárias, em uma recessão com perdas alavancadas, não há aumento nos empréstimos quando ocorre uma grave e longa queda econômica.

Mas, eventualmente, a economia pode se recuperar e, se o Banco Central mantiver as taxas de juros muito baixas, os bancos retomarão os empréstimos e isso provocará inflação. Alguns argumentam, se o público em geral esperar inflação no longo prazo, a economia pode se beneficiar mesmo no curto prazo.

De acordo com essa visão, as expectativas de inflação podem gerar um aumento nos gastos, mesmo quando a economia está acima do limite inferior zero. No capítulo 4 do citado livro, Atif Mian e Amir Sufi afirmam: as taxas de juros podem precisar ser negativas para induzir algumas famílias a gastar mais.

Em outras palavras, para induzir as famílias a gastarem, elas precisam ser cobradas por economizar, em vez de gastar. Aumentar as expectativas de inflação ajuda a obter uma taxa de juros negativa.

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Canal da Taxa de Juros: Inoperante Durante Fase de Desalavancagem Financeira

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): aumentar a base monetária não é a única maneira de os banqueiros centrais tentarem estimular a atividade econômica em uma crise. Eles também podem colocar as taxas de juros mais baixas de modo a não estar acima do limite inferior zero.

Por exemplo, durante a Grande Recessão e depois, o Federal Reserve comprou agressivamente títulos lastreados em hipotecas para reduzir as taxas de juros das famílias. A crença era de as taxas mais baixas de hipotecas pendentes e outros empréstimos para consumo, através dos quais as famílias gastariam, impulsionariam a economia.

No entanto, as famílias normalmente com a maior propensão marginal a consumir com empréstimos não podem ou não querem tomar mais emprestado. Lembre-se, em um episódio de perdas alavancadas, os mutuários experimentam um choque maciço com perda de sua riqueza.

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Política Monetária e Fiscal

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): nos primeiros quatro anos da Grande Depressão, os preços e os salários caíram notáveis ​​30%. As famílias acumularam enormes dívidas e essa rápida deflação devastou a economia em geral.

Os salários caíram vertiginosamente, mas as obrigações de dívida permaneceram as mesmas em termos de dólar. Assim, as famílias, antes já cortando os gastos devido ao alto endividamento, foram forçadas a cortar ainda mais. Durante a Depressão, dívida e deflação criaram uma mistura mortal. Ela ampliou as forças de perdas alavancadas discutidas pelos coautores.

Dívida e deflação são cúmplices naturais no “crime”. Quando famílias endividadas cortam gastos, as lojas cortam preços para aumentar as vendas em geral. No entanto, isso é sustentável apenas se as empresas ao abaixarem preços também baixarem salários para reduzir custos.

Assim, uma demanda menor se traduz em salários mais baixos, o que agrava ainda mais o problema, aumentando o peso da dívida das famílias em comparação com sua renda. Isso força as famílias a reduzir ainda mais os gastos. E assim por diante.

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Estamos Juntos Nisto: ‘tamo junto, Mano!

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): quando os devedores diminuem drasticamente os gastos das famílias, atritos como o limite inferior zero impedem os poupadores compensarem o déficit.

Mas os efeitos econômicos desastrosos da menor demanda não são suportados exclusivamente pelos devedores. Eles se espalham por toda a economia. As perdas alavancadas afetam mesmo aqueles prudentes sem nunca terem assumido dívidas durante o boom.

O efeito arrasador mais devastador da menor demanda impulsionada por perdas alavancadas é um aumento maciço no desemprego. Mesmo os trabalhadores, vivendo em áreas completamente imunes à crise imobiliária, perdem seus empregos por causa do declínio nos gastos das famílias.

Por exemplo, o norte de Indiana não tinha altos níveis de dívida nem um grande colapso nos preços das casas. Por qual razão seus trabalhadores perderam os empregos?

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Como a economia tenta reagir à Grande Depressão Deflacionária?

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014),  a primeira maneira pela qual a economia tenta evitar uma catástrofe econômica, quando as famílias endividadas cortam seus gastos, é através de uma forte redução nas taxas de juros.

À medida que os mutuários reconstroem seus balanços, reduzindo os empréstimos, a demanda por economizar na economia aumenta. Isso empurra as taxas de juros para baixo, se o dinheiro fluir para o sistema financeiro, onde ninguém empresta.

Eventualmente, as taxas de juros devem ficar baixas o suficiente para induzir as empresas a tomar empréstimos e investir. Isso deve ajudar a compensar os gastos mais baixos dos consumidores.

Além disso, os poupadores da economia, os menos afetados pelo declínio dos preços das casas, devem ser induzidos a gastar mais – taxas de juros extremamente baixas devem incentivar os poupadores a comprar um carro novo ou a reformar sua cozinha.

Esse processo é auxiliado pelo Banco Central. Este, normalmente, responde a uma crise pressionando as taxas de juros de curto prazo para baixo. Os gastos dos poupadores e os investimentos das empresas devem preencher a lacuna deixada pelos mutuários. Desse modo ideal, a economia agregada deve escapar ilesa.

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Estrutura de Perdas Alavancadas

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014), o primeiro ingrediente da estrutura de perdas alavancadas são as diferenças entre a população devido a dívidas.

Existem mutuários e poupadores/investidores na economia, e os mutuários têm alavancagem substancial. Eles tomam empréstimos sob a forma de contratos de dívida junto a poupadores, intermediados por bancos. Esses contratos de dívida exigem pagamento de juros a cada período.

O contrato de dívida dá ao poupador a reivindicação senior [direito à garantia oferecida como colateral dos empréstimos] acima de todos sobre os ativos do tomador. Em outras palavras, no caso de o mutuário não pagar, o poupador tem o direito de excluir os ativos do mutuário.

Se o preço da habitação cair e o mutuário vender, ele ainda deve pagar o valor total da hipoteca. O mutuário tem a reivindicação júnior na casa. Portanto, sofre as primeiras perdas associadas a qualquer queda nos preços da habitação.

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Endividamento Imobiliário: como os endividados (e você) causaram a grande recessão e como impedir isso acontecer novamente

Atif Mian e Amir Sufi publicaram o livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014). No capítulo 4, intitulado “Perdas Alavancadas”, eles expõem a Teoria adotada na análise.

Hal Varian, economista-chefe do Google e professor emérito de Economia da Universidade da Califórnia, Berkeley, acredita no poder dos dados. “Entre o início da civilização e 2003”, ele disse em uma entrevista recente, “criamos apenas cinco exabytes de informação; agora estamos criando esse valor a cada dois dias.” Ele declarou: “o trabalho atraente nos próximos 10 anos será estatístico”.

Varian também entende a explosão de dados requerer maior habilidade na interpretação deles. Como ele disse: “A capacidade de pegar dados, para poder entendê-los, processá-los, extrair valor deles, visualizá-lo e comunicá-lo, será uma habilidade extremamente importante nas próximas décadas.”

Como você já deve ter adivinhado, os coautores compartilham a paixão da Varian por dados. Por isso, passaram os três primeiros capítulos coletando fatos para os ajudar a entender a causa da grave crise econômica. Mas também concordam com a mensagem de Varian sobre as habilidades necessárias para interpretar os dados corretamente.

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Finanças Comportamentais

Por fim, Jean Tirole  (1953- ), ganhador do Prêmio Nobel de Economia 2014, por análise do poder e regulação de mercado, em seu livro Economia do bem comum (1ª.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020), testemunha o desenvolvimento de Finanças Comportamentais.

Visa incorporar na análise dos vieses cognitivos dos agentes dos mercados financeiros e outros desvios do modelo de agente racional. Em geral, a contribuição da Psicologia Econômica para a análise das decisões financeiras cresceu nos últimos vinte anos.

Não é mais aqui (necessariamente) uma questão de contraste entre racionalidade individual e irracionalidade coletiva, mas irracionalidade individual. Há muitos assuntos a serem discutidos:

  1. excesso de otimismo (por exemplo, a tendência dos gestores de fundos de acreditar serem melhores em relação a outros),
  2. atenção limitada ou, pelo contrário, atenção excessiva a certos riscos,
  3. crenças equivocadas (devido a incompreensão da Lei de Bayes ou de vários outros preconceitos),
  4. aversão à perda,
  5. moralidade endógena (devido à existência de espaço de manobra sobre o que é socialmente aceitável), etc.

A pesquisa nesta área possui componentes empíricos e teóricos. Do lado empírico, os pesquisadores documentaram um grande número de pequenas anomalias na precificação de ativos. Elas nem sempre são “arbitradas”: os atores não têm conhecimento de certas correlações ou causalidades, ou categorizam inversamente os ativos em grupos muito grosseiros.

Vemos aqui a sutil fronteira entre racionalidade (os atores são racionais, mas arbitram entre modelagem e custo mais sofisticados dessa modelagem) e irracionalidade (vinculada a um entendimento incorreto do ambiente financeiro).

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Teoria da Agência: Divergência entre Interesse Privado e Coletivo

Jean Tirole  (1953- ), ganhador do Prêmio Nobel de Economia 2014, por análise do poder e regulação de mercado, em seu livro Economia do bem comum (1ª.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020),  distingue racionalidade individual de racionalidade coletiva.

Os atores de um sistema econômico podem se comportar racionalmente, sob seu próprio ponto de vista, mas o resultado pode ser prejudicial do ponto de vista da comunidade como um todo. Esse tema clássico da Economia da Regulamentação surge, repetidamente, ao longo desse livro.

Pegue um ativo arriscado ao qual um banco está altamente exposto. Se as coisas correrem bem, o ativo terá um bom desempenho e os acionistas receberão muito dinheiro. Se as coisas derem errado, o ativo perderá parte de seu valor, os acionistas não receberão nada e os credores e, possivelmente, os trabalhadores também sofrerão.

Existe então uma externalidade negativa nas partes interessadas. Além disso, é possível o banco continuar a conceder empréstimos e receber investimentos, apesar de assumir riscos, se os investidores acreditarem no emprestador em última instância: o Estado virá e salvará o banco em caso de dificuldades.

Nesse caso, a divergência entre interesse individual e coletivo é clara. De acordo com a fórmula estabelecida, os ganhos são privatizados e as perdas socializadas.

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Para o que servem as Finanças?

Jean Tirole  (1953- ), ganhador do Prêmio Nobel de Economia 2014, por análise do poder e regulação de mercado, em seu livro Economia do bem comum (1ª.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020), começa sua resposta pelo óbvio: o financiamento é essencial para a economia. Caso contrário, seria suficiente proibi-lo, salvando-nos de crises e resgates no sistema financeiro.

Obviamente, nenhum país escolheu essa opção. Esquematicamente, o financiamento desempenha duas funções do lado dos mutuários:

  1. financiar ou ajudar a financiar empresas (desde startups até empresas grandes), famílias e Estados;
  2. fornecer soluções de modo a proteger contra riscos possíveis de desestabilizá-los;
  • ao fazer isso, o sistema financeiro também fornece produtos de poupança/investimento financeiro para as famílias.

O financiamento, em particular, envolve a intermediação entre poupadores mal informados (você e eu) e tomadores de empréstimos. Até recentemente, o negócio principal do banqueiro era receber economias das famílias e direcioná-las para empréstimos concedidos a outras famílias, para elas investirem em imóveis e bens de consumo duráveis, ​​e a PME para permita-lhes financiar seu crescimento ou simplesmente atravessar uma passagem difícil.

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