A Professora: baixe o livro da Maria da Conceição Tavares

“Não quero que ele fale só; quero que escute o seu discípulo falar por sua vez” (Montaigne [1533-1592] em Ensaios: Da Instrução de Crianças).

Há muita sabedoria acumulada na relação entre mestre e aluno. Ninguém poderá ser mestre na escrita sem ter sido antes aluno. O mestre diante da turma se encontra na difícil situação de quem se espera, sempre e necessariamente, ter a razão. Sua missão de educador é vista como a de revelador da verdade. Mas o verdadeiro mestre não é o repetidor de alguma verdade, provisória tal como toda verdade demonstra ser. Ele ensina sim o método de busca, pois a verdade é sobretudo o caminho da verdade.

O mestre duvida de si mesmo e se deixa persuadir. Seu ensino mais relevante não está no dito por ele, mas sim no não dito – e descoberto pelo ex-aluno. “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”, definiu João Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”.

Obs.: alguns (bem poucos) erros foram detectados na versão divulgada antes. A editora conseguiu fazer as alterações para uma versão final:

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Estado da Arte na Economia: Download Gratuito do Livro

Reuni meus artigos postados originalmente nos sites GGNCarta MaiorBrasil Debate e reproduzidos neste blog Cidadania & Cultura, durante o primeiro semestre de 2019, em um livro eletrônico gratuito.

Gosto de escrever e palestrar para colaborar intensamente com o debate público em favor das liberdades democráticas e dos direitos civis ameaçados. Compartilho minhas reflexões contigo (clique no link para download): Fernando Nogueira da Costa – Estado da Arte da Economia

 

PS: favor o redistribuir para sua rede de relacionamentos. Necessitamos (in)formar a opinião pública nessa difícil conjuntura nacional.

Leia seu Prefácio abaixo.

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O que há de errado com o protecionismo?

Este pequeno livro, publicado em 2018 por The Rowman & Littlefield Publishing Group (Lanham, Maryland – USA), responde a sete objeções comuns ao livre comércio correspondentes às sete seções da resenha reproduzida abaixo. Ele aponta com sucesso as falácias subjacentes a essas objeções, apresentando Teorias de Livre Comércio e fornecendo exemplos e estatísticas correspondentes. O autor da resenha, Bangyu He, resume alguns conceitos e conclusões consideradas mais importantes e interessantes.

Como o objetivo deste livro é combater concepções errôneas sobre o protecionismo, o livro enfatiza os trabalhos conceituais, em vez de estudos quantitativos. Ele esclarece conceitos econômicos relevantes e teorias do comércio no corpo de cada capítulo. Nos ensaios após cada capítulo, as aplicações desses conceitos e teorias são coletadas na forma de estudos de caso ou extensões.

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Bolha, Boom e Crash: Dinâmica das Finanças e Estagdesigualdade

Kate Raworth, autora do livro “Economia de Donut: sete maneiras de pensar como um economista do século 21” [Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist] (Rio de Janeiro: Zahar; 16/05/2019), faz uma analogia: se os comerciantes financeiros fossem pássaros, suas travessuras seriam de fato semelhantes àquelas de um bando de estorninhos (aves) pulando no céu (a diferença óbvia é os estorninhos nunca caírem).

Essas palhaçadas financeiras se devem ao chamado pelo especulador George Soros de “reflexividade dos mercados”: o padrão de feedbacks surge quando:

  1. as opiniões dos participantes do mercado influenciam o curso dos acontecimentos, e
  2. o curso dos eventos visualizados influencia o comportamento dos participantes.

Quer sejamos negociantes financeiros ou adolescentes (ou ambos), o nosso autorretrato emergente revela não sermos indivíduos isolados conduzidos por preferências fixas: somos profundamente influenciados por aquilo a acontecer em nossa volta – e frequentemente nos divertimos em fazer parte de isto.

As tendências são lançadas quando a popularidade de um produto aumenta a preferência de outros consumidores, aumentando ainda mais sua popularidade, gerando o brinquedo indispensável da temporada, o gadget mais popular e a última moda de dança viral.

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Complexidade na Economia: Dinâmica Caótica em lugar de Equilíbrio Estável

Kate Raworth, autora do livro “Economia de Donut: sete maneiras de pensar como um economista do século 21” [Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist] (Rio de Janeiro: Zahar; 16/05/2019), diz a compreensão da Economia precisa adotar a análise dinâmica. Mas isso não é, de forma alguma, uma observação recente.

Nos últimos 150 anos, economistas de todos os tipos tentaram romper com a imitação da Física newtoniana, mas seus esforços foram muitas vezes movidos a vapor pelo domínio da Teoria do Equilíbrio e de suas equações satisfatórias. O próprio Jevons tinha um pressentimento de a análise econômica dever ser dinâmica, mas faltando-lhe a Matemática, ele optou pela Estatística Comparativa. Ela compara instantâneos de dois pontos no tempo: foi um desafortunado compromisso porque o afastou, e não o aproximou em direção ao insight buscado por ele.

Na década de 1860, Karl Marx descreveu como os rendimentos dos trabalhadores e dos capitalistas aumentariam e diminuiriam continuamente, devido a ciclos de produção e emprego se autoperpetuando.

No final do século XIX, Thorstein Veblen criticava a economia por estar “indefesamente atrasada em não ser evolucionária”. Portanto, ela era incapaz de explicar mudanças ou desenvolvimento.

Alfred Marshall argumentava contra metáforas mecânicas. Em vez disso, seria mais frutífero ver a Economia como “um ramo da Biologia, amplamente reinterpretado”.

As tentativas do século XX de reconhecer o dinamismo inerente da Economia foram também feitas por escolas de pensamento profundamente opostas, mas nem mesmo elas puderam desalojar o pensamento de equilíbrio.

Na década de 1920, John Maynard Keynes criticou o uso da Estatística Comparativa, apontando estar precisamente em o que acontece entre os instantâneos de eventos econômicos aquilo de maior interesse. “Os economistas definem a si mesmos uma tarefa fácil demais e inútil”, escreveu ele, “se em temporadas tempestuosas eles só podem nos dizer que quando a tempestade já passou, o oceano está novamente plano”.

Na década de 1940, Joseph Schumpeter se baseou em insights de Marx sobre dinamismo para descrever como o processo inerente do capitalismo de “destruição criativa”, através de ondas contínuas de inovação e declínio, dando origem a ciclos de negócios.

Na década de 1950, Bill Phillips criou seu MONIAC ​​precisamente com o objetivo de substituir Estática Comparativa pela Dinâmica do Sistema, completada com as defasagens temporais e as flutuações. Elas podem ser observadas conforme a água flui para dentro e para fora dos tanques. Fluxos levam à acumulação de estoques.

Na década de 1960, Joan Robinson criticou o pensamento econômico de equilíbrio, insistindo em dizer: “um modelo aplicável à história real deve ser capaz de sair do equilíbrio; na verdade, normalmente não deve estar nele”.

Na década de 1970, o pai do neoliberalismo, Friedrich Hayek, lamentou a “propensão do economista a imitar, tanto quanto possível, os procedimentos das Ciências Físicas, brilhantemente bem-sucedidas, mas uma tentativa em nosso campo capaz de levar a um erro total”.

Então, Kate Raworth propõe, finalmente, economistas prestarem atenção ao conselho coletivo de grandes teóricos, empurrar o pensamento de equilíbrio para um lado e começar a pensar nos sistemas.

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Inovação Disruptiva do Pensamento Econômico: Complexidade

Kate Raworth, autora do livro “Economia de Donut: sete maneiras de pensar como um economista do século 21” [Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist] (Rio de Janeiro: Zahar; 16/05/2019), afirma no núcleo do pensamento sistêmico estar três conceitos enganosamente simples:

  1. estoques e fluxos,
  2. feedback e
  3. atraso.

Eles parecem simples o suficiente, mas o pensamento alucinante começa quando eles começam a interagir. De suas interações emergem muitos dos eventos surpreendentes, extraordinários e imprevisíveis do mundo.

Se você já ficou fascinado com a visão de milhares de estorninhos (aves) se aglomerando ao pôr do sol – em um espetáculo poeticamente conhecido como murmuração – então você saberá o quão extraordinárias podem ser essas “propriedades emergentes”. Cada pássaro gira e gira em voo, usando uma agilidade fenomenal para ficar a uma mera envergadura à parte de seus vizinhos, enquanto inclina. Mas como dezenas de milhares de pássaros se reúnem, todos seguindo essas mesmas regras simples, a revoada como um todo se torna uma surpreendente massa pulsante contra o céu noturno.

Então, o que é um sistema? Simplesmente é um conjunto de coisas interligadas de maneiras a produzirem padrões distintos de comportamento, sejam elas células de um organismo, manifestantes em uma multidão, pássaros em um rebanho, membros de uma família, ou bancos em uma rede financeira. São as relações entre as partes individuais, moldadas por seus estoques e fluxos, feedbacks e atrasos, capazes de dar origem ao seu comportamento emergente.

Estoques e fluxos são os elementos básicos de qualquer sistema: coisas possíveis de serem acumuladas depois de recebidas, assim como a água em um banho, os cardumes de peixes no mar, as pessoas no planeta, a confiança em uma comunidade ou o dinheiro no banco.

Os níveis de um estoque mudam com o tempo devido ao saldo entre suas entradas e saídas, ou seja, devido aos fluxos. Uma banheira enche ou esvazia dependendo da rapidez com a qual a água escorre da torneira versus a rapidez com a qual ela escorre do ralo. Um bando de galinhas cresce ou encolhe dependendo da taxa de pintos nascidos em relação às galinhas mortas. Um cofrinho fica cheio se mais moedas forem adicionadas em lugar das retiradas.

Se os estoques e fluxos são os elementos centrais de um sistema, então os ciclos de feedback são suas interconexões. Em cada sistema, existem dois tipos de ciclos de feedback:

  1. reforço (ou “positivo”) e
  2. balanceamento (ou “negativo”).

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Do Equilíbrio Mecânico À Complexidade Dinâmica

Kate Raworth, autora do livro “Economia de Donut: sete maneiras de pensar como um economista do século 21” [Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist] (Rio de Janeiro: Zahar; 16/05/2019), cobra: a maçã de Newton tem muito a responder. Em 1666, quando o brilhante jovem cientista se sentou no jardim de Lincolnshire de sua mãe, ele ficou maravilhado – como se diz – com a forma como uma maçã caiu: por que nunca de lado ou para cima, mas sempre para baixo?

A resposta provocou sua famosa percepção da gravidade e das Leis do Movimento. Isso revolucionou a Ciência.

Mas, dois séculos depois, essas mesmas leis também deram origem:

  1. à inveja da Física,
  2. a metáforas equivocadas e
  3. a um pensamento dolorosamente limitado em Economia.

Se apenas – pouco antes da queda da maçã – o jovem Isaac também se maravilhasse com o crescimento, em uma interação fascinante e em constante evolução de árvores e abelhas, sol e folhas, raízes e chuva, flor e sementes, isso poderia levá-lo a insights igualmente revolucionários sobre a natureza de sistemas complexos, transformando assim a história da Ciência.

Teria mudado também o curso da Economia, inspirando seus admiradores econômicos com uma metáfora muito mais frutífera. Hoje estaríamos falando não do mecanismo de mercado, mas do organismo de mercado – e nós seríamos muito mais sábios por isso.

Infelizmente, apenas o modo como a maçã caiu chamou a atenção de Isaac e levou a suas descobertas inovadoras. Desejando a autoridade da Ciência, os economistas imitaram as Leis do Movimento de Newton em suas teorias, descrevendo a Economia como se fosse um sistema mecânico estável.

Mas agora [sob inspiração de Charles Darwin] sabemos: é muito melhor compreendido como um complexo sistema adaptativo, composto de seres humanos interdependentes em um mundo dinâmico e vivo.

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