Segredo do Negócio Capitalista: Alavancagem Financeira

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Charles Wheelan, em “Economia nua e crua”, afirma que uma das coisas fascinantes na vida, particularmente nos Estados Unidos, é que podemos gastar grandes somas de dinheiro que não nos pertence. Os mercados financeiros nos possibilitam tomar dinheiro emprestado.

Às vezes isso significa que Visa e MasterCard saciam nossa sede de consumir hoje o que, na verdade, não podemos nos permitir até o ano que vem, isto se for o caso de termos um emprego seguro com renda garantida. Mais amiúde – e mais significativo para a economia –, tomar emprestado possibilita todo tipo de investimento.

  • Nós tomamos emprestado para pagar a mensalidade da faculdade.
  • Tomamos emprestado para comprar casas.
  • Tomamos emprestado para construir fábricas e comprar equipamentos ou montar novos negócios.
  • Tomamos emprestado para fazer coisas que melhoram nossa vida mesmo se depois temos que pagar o custo do empréstimo.

Às vezes aumentamos o capital sem tomar empréstimo. Podemos vender participação do nosso negócio para o público. Assim, dispomos de um pedaço da nossa propriedade e, portanto, uma reivindicação de lucros futuros, em troca de dinheiro vivo.

Empresas e governos podem tomar emprestado diretamente do público emitindo títulos. Essas transações podem ser simples, como um empréstimo para um carro novo, ou complexas, como uma injeção de liquidez de vários bilhões de dólares por parte do Fundo Monetário Internacional.

A essência nunca muda: indivíduos, empresas e governos necessitam de capital para fazer hoje coisas que de outra forma não poderiam fazer no presente, talvez apenas no futuro, depois do sacrifício de não ir gastando tudo que recebe de renda e/ou arrecadação fiscal. Os mercados financeiros fornecem esse capital – por um preço. Que ninguém gosta de pagar!

Economias modernas não podem sobreviver sem crédito. De fato, a comunidade de desenvolvimento internacional começou a perceber que tornar crédito acessível aos empreendedores no mundo em desenvolvimento, mesmo pequenos empréstimos de US$ 50 ou US$ 100, pode ser uma ferramenta poderosa para combater a pobreza através do microcrédito.

Sob o ponto de vista empresarial, o segredo do negócio capitalista é trabalhar com recursos de terceiros para alavancar o próprio negócio com ganho de escala, aumentando sua rentabilidade! Continue reading “Segredo do Negócio Capitalista: Alavancagem Financeira”

Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil

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Pedro Rossi, um dos mais talentosos colegas da nova geração de professores do IE-UNICAMP, acaba de lançar seu primeiro livro, Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil, pela FGV Editora. Para um professor universitário, ter seu livro lançado por editora de outras Universidades ou Faculdades é motivo de orgulho, pois significa que o reconhecimento profissional vai além dos seus colegas-amigos mais próximos. Pedro Rossi possui não só o saber teórico, mas reúne uma personalidade cativante, porque é muito educado e cordial no trato pessoal. Encontrar economista acadêmico sem arrogância não é tão fácil…

O livro é excepcional em sua capacidade de síntese de assunto que se situa entre os mais complexos encontrados no conhecimento profissional dos economistas. Na Parte I, trata da taxa de câmbio em seus aspectos teóricos, históricos e conceituais. Na Parte II, refere-se ao sistema monetário internacional e as taxas de câmbio. Na Parte III, apresenta a taxa de câmbio e a política cambial no Brasil.

Humildemente, porém não sendo correto, Pedro diz que “as eventuais contribuições deste livro se encontram principalmente nos capítulos 6 [O Mercado de Câmbio Brasileiro], 8 [Especulação e Arbitragem no Brasil: Um Estudo de Caso] e 9 [Política Cambial no Brasil], que derivam diretamente de artigos publicados em revistas acadêmicas”. Talvez seja o viés desta nova “geração Qualis”, que acha bom só o que foi publicado por revistas acadêmicas, ou seja, só observa o sucesso de crítica e não o sucesso de público. Para ser lido por público mais amplo, os artigos-sínteses, os artigos-resenhas e os artigos-de-combate em rede social são muito mais apreciados.

Na verdade, todo o livro de Pedro Rossi é extraordinário (fora-do-comum) em sua capacidade de síntese de temas intricados como derivativos, cupom cambial e especulação. Apresenta os diferentes mercados: primário, interbancário, derivativos e offshore de reais. Mostra o significado do preço do dólar futuro e a relação entre arbitragem e o cupom cambial. Revela a motivação dos agentes no mercado futuro de câmbio. Focaliza, especialmente, o circuito especulação-arbitragem.

Como amostra de sua excelência, apresentarei abaixo o resumo e as conclusões do primeiro capítulo. Resumir é a forma que uso para estudar e atualizar-me sobre matéria em que fui professor durante mais de uma década: os determinantes da taxa de câmbio em uma macroeconomia aberta. Recomendo enfaticamente a leitura deste livro por todos que desejam conhecer mais profundamente tanto a economia brasileira quanto o sistema monetário internacional. Continue reading “Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil”

Uma Segunda Revolução Verde?

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), pergunta: viveremos uma segunda revolução verde?

Entre janeiro de 2007 e abril de 2008, após vários anos de estabilidade, o preço do trigo duplicou abruptamente, o do arroz triplicou e o do milho aumentou 50%. Pela primeira vez desde o início dos anos 1970, tumultos provocados pela falta de alimentos explodiram em vários países simultaneamente. No Haiti, o primeiro-ministro foi obrigado a renunciar por multidões em protesto, que entoavam: “Estamos com fome!”

Duas dúzias de pessoas morreram em tumultos semelhantes em Camarões. O presidente do Egito mobilizou o exército e ordenou aos soldados que começassem a assar pão. Nas Filipinas, foi introduzida uma nova lei tornando a estocagem de arroz crime punível com prisão perpétua.

Após anos em que agricultores e especialistas em desenvolvimento lamentaram os baixos preços dos alimentos básicos, a era da comida barata parecia ter terminado abruptamente. Sob muitos aspectos, as origens dessa crise alimentar estão nas consequências da revolução verde. Continue reading “Uma Segunda Revolução Verde?”

Problemas com a Revolução Verde

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), adverte que novas tecnologias muitas vezes têm consequências imprevistas, e as tecnologias da revolução verde não são exceção. Variedades de sementes de alto rendimento, que requerem fertilizantes artificiais, outros produtos químicos agrícolas e grandes quantidades de água causaram problemas ambientais em muitas partes do mundo.

A água não absorvida pelo solo e carregada de nitrogênio que escoa de terras cultivadas para os cursos d’água criou “zonas mortas” em algumas áreas litorâneas, estimulando o crescimento de algas e plantas aquáticas e reduzindo a quantidade de oxigênio na água, o que afetou os peixes e as populações de mariscos.

Em alguns casos, variedades mais produtivas mostraram-se menos resistentes a pragas ou doenças do que as variedades tradicionais. Isso exigiu um uso mais intenso de pesticidas, cujo excesso pode contaminar o solo e prejudicar insetos benéficos e outros animais selvagens, reduzindo a biodiversidade.

Pesticidas também podem causar problemas de saúde para agricultores. Segundo a Organização Mundial da Saúde, eles são responsáveis por cerca de um milhão de casos de envenenamento agudo inintencional por ano, e estão também ligados a cerca de 2 milhões de tentativas de suicídio, levando a cerca de 220 mil mortes por ano. (A disponibilidade “pesticidas fez do envenenamento com eles o método mais difundido de suicídio no mundo em desenvolvimento.) Continue reading “Problemas com a Revolução Verde”

O Fantasma de Malthus

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Uma segunda consequência a longo prazo da revolução verde foi o impacto demográficosobre o tamanho e a estrutura da população global. Mais uma vez, é preciso dar um passo atrás na história. Em 3000 a.C., quando as primeiras civilizações emergiam, a população mundial não passava de cerca de 10 milhões de pessoas, ou aproximadamente a população de Londres hoje. Em 500 a.C., quando a Grécia entrava na Idade de Ouro, a população do mundo crescera para 100 milhões. Foi só em 1825, cerca de 10 mil anos após o surgimento da agricultura, que a população humana chegou pela primeira vez a 1 bilhão. Levou mais um século para chegar a 2 bilhões, em 1925; e meros 35 anos para chegar a 3 bilhões, em 1960.

O rápido crescimento foi equiparado, na época, a uma explosão, e levou a medonhas previsões de fome iminente. Mas a expansão da oferta de comida possibilitada pela revolução verde significou que a população continuou a crescer, chegando a 4 bilhões em 1975, 5 bilhões em 1986, e 6 bilhões em 1999. O quinto bilhão foi adicionado em apenas 11 anos; o sexto bilhão em outros 13. A população chegou a 7 bilhões em 2012, após mais 13 anos, segundo a Agência do Censo dos Estados Unidos. Em retrospecto, portanto, está claro que a expansão demográfica começou agora a desacelerar.

O crescimento populacional impele a produção de alimentos, ou vice-versa? Demógrafos demonstraram as duas coisas. Uma população em rápido crescimento cria incentivos para a descoberta de novas maneiras de aumentar a oferta de comida, mas maior disponibilidade de comida também significa que as mulheres ficam mais férteis e as crianças mais saudáveis e com mais chances de sobreviver. Não há, portanto, resposta simples.

A história mostra claramente, porém, que em casos em que a maior disponibilidade de alimento permite a um país industrializar-se há uma explosão da população, seguida por uma queda na taxa desse crescimento à medida que as pessoas ficam mais ricas – um fenômeno chamado “transição demográfica”. Continue reading “O Fantasma de Malthus”

Revolução Verde na China e Índia

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), afirma que o renascimento da Ásia tem muitas causas, mas não teria sido possível sem o espetacular aumento da produtividade agrícola provocado pela revolução verde. Entre 1970 e 1995, a produção de cereais na Ásia dobrou, o número de calorias disponíveis por pessoa aumentou 30% e os preços do trigo e do arroz caíram.

O impacto imediato do progresso agrícola é a redução da pobreza, pela simples razão de que os pobres têm maior probabilidade de trabalhar na agricultura e de que a comida é responsável pela maior parte dos seus gastos familiares. Realmente, a faixa da população da Ásia que vive na pobreza caiu de cerca de 50% em 1975 para 25% em 1995. O número absoluto de asiáticos nessa condição também declinou, de 1,15 bilhão para 825 milhões no período considerado acima, ainda que a população tenha crescido 60%. O progresso agrícola pôs a Ásia no caminho para o desenvolvimento econômico e a industrialização.

Para que o aumento da produtividade agrícola se traduza em crescimento econômico mais amplo e industrialização, no entanto, várias outras coisas precisam acontecer:

  1. os agricultores devem ter incentivos para aumentar a produção;
  2. deve haver infraestrutura para transportar sementes e produtos químicos para as fazendas bem como para permitir o escoamento dos produtos a partir delas; e
  3. deve haver acesso adequado a crédito para permitir aos agricultores comprar sementes, fertilizante, tratores e assim por diante.

O progresso agrícola pode desencadear súbito crescimento econômico, mas a rapidez com que ele ocorre depende crucialmente da introdução simultânea de reformas não agrícolas. Consideremos os exemplos da Índia e da China. Continue reading “Revolução Verde na China e Índia”

Paradoxos da Abundância

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), afirma que, para melhor avaliar o impacto da revolução verde, é importante ter uma visão abrangente sobre a atividade econômica mundial. O quadro geral é que durante a maior parte da história humana, a maioria das pessoas era pobre. Antes de 1700, a renda per capita média era baixa, razoavelmente constante ao longo do tempo, variando muito pouco entre os países. Algumas pessoas em cada país eram fabulosamente ricas, é claro. Mas a renda média era notavelmente uniforme: segundo certo cálculo, teria sido o equivalente a 500 dólares por ano (medida em dólares de 1990) para a maior parte do mundo nos dois últimos milênios.

Hoje, no entanto, há amplas variações entre os países. A Grã-Bretanha foi o primeiro a experimentar uma “decolagem de crescimento” quando iniciou o processo de industrialização, no século XVIII. Logo foi seguida por outras nações europeias e por “ramificações” da Europa (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Em 1900, a renda per capita média desses lugares era dez vezes maior que na Ásia ou na África.

Hoje alguns países são ricos, outros pobres, porque a industrialização se deu primeiro nos ricos. Os países pobres são aqueles em que ela se deu muito mais tarde, ou não aconteceu em absoluto. Por que então a industrialização começou em momentos diferentes e avança em ritmos diferentes? Essa é uma das questões mais fundamentais na economia do desenvolvimento. Continue reading “Paradoxos da Abundância”