A Jogada do Século = A Grande Aposta

Oscar Pilagallo (Valor, 02/02/16) publicou uma resenha sobre o livro “A Jogada do Século” de autoria de Michael Lewis (tradução de Adriana Ceschin Rieche. 322 págs., R$ 45,00; Best Business). Como pretendo submeter o filme que ele inspirou a uma discussão em sala-de-aula, compartilho abaixo sua resenha.

“Uma maneira de tornar interessante uma história conhecida é contá-la a partir de um novo ângulo. Foi essa a bem- sucedida estratégia narrativa de Michael Lewis ao abordar a gênese e os bastidores do colapso financeiro americano de 2008 em “A Jogada do Século“, relançado por ocasião da estreia do filme “A Grande Aposta”, que se baseia no livro.

[FNC: como em quase todos os filmes sobre a crise financeira de 2008, exceto “Margin Call”, especialistas apreciam, leigos detestam. Leia a respeito a monografia que orientei: CAROLINA AFONSO – Monografia – Crise Vista no Cinema]

O relato convencional da crise é centrado nos prejuízos bilionários do sistema bancário e na operação de salvamento das grandes instituições americanas, que perderam fortunas em arriscadas operações no mercado de crédito imobiliário, o que teve forte impacto sobre a economia mundial.

No livro, o autor buscou o avesso dessa perspectiva. Garimpou casos de um punhado de investidores excêntricos e contou como eles, após detectar a irracionalidade do mercado, amealharam milhões de dólares apostando contra a tendência ditada por um otimismo inexplicável que fez disparar artificialmente os preços das casas nos Estados Unidos.

Estima-se que apenas 15 investidores tenham enfrentado o consenso do mercado. Lewis se concentra em dois deles: Michael Burry e Steve Eisman.

Burry é o mais improvável: formado em medicina, tem um olho de vidro, trabalha de bermuda, ouve heavy metal para se acalmar e, como autista, desenvolveu um interesse obsessivo pelo mercado de títulos, que o levou a ler os extensos e obscuros contratos que estabelecem as regras de cada um deles. Sua condição psicológica, que o afasta das pessoas, lhe dava extraordinária capacidade de concentração no objeto do seu interesse e o tornava quase imune à reprovação alheia, o que foi fundamental durante os vários meses em que esteve na contramão do que parecia lógico.

Quanto a Eisman, é fã de super-heróis de histórias em quadrinho e, quando criança, estudou o Talmud apenas para apontar contradições internas do texto sagrado judaico. Sua trajetória ideológica é ainda mais surpreendente. Tendo participado de organizações de direita na juventude, assumiu posições de esquerda após chegar a Wall Street. “Eisman estava a caminho de se tornar o primeiro socialista do mercado financeiro”, diz Lewis. “Ele se considerava um paladino, defensor dos fracos e oprimidos, [e] se achava o próprio Homem-Aranha.”

De forma independente, Burry e Eisman chegaram à mesma conclusão, cerca de três anos antes de a crise estourar, em setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers: tratava-se de um típico esquema Ponzi, insustentável no médio prazo. Ou seja, quem estivesse na ponta contrária da aposta do mercado multiplicaria o capital quando a corrente arrebentasse. Com essa convicção, arriscaram milhões de dólares, deles próprios e de seus investidores. E ganharam.

O lucro excepcional de poucos e a penúria de muitos, que logo seriam afetados pela crise, tiveram uma origem comum: a falta de regulamentação do setor. Uma pergunta formulada após 2008 foi por que os bancos de investimento atuavam sem restrições no mercado de títulos, ao contrário do que acontecia no mercado de ações.

Lewis tem uma boa resposta: “A presença de milhões de pequenos investidores havia politizado o mercado de ações. Ele fora legislado e regulado para, pelo menos, parecer justo. O mercado de títulos, por consistir principalmente em grandes investidores institucionais, não sofreu pressão política populista semelhante”.

Longe do olhar das autoridades monetárias, o mercado estava livre para fazer o que bem entendesse. Foi assim que, em 2005, surgiram os títulos hipotecários subprime, uma ideia de Burry que, além de ter a função de hedge para os empréstimos mais duvidosos, servia de instrumento para viabilizar apostas contra o mercado. Com a disseminação desse título e de outros derivativos mais opacos para os leigos, os bancos de investimento passaram a se comportar como cassinos.

O modelo assentava-se sobre empréstimos a pessoas que queriam comprar casas mesmo sem renda para isso, por ganharem pouco ou até estarem desempregadas. Os pretendentes eram atraídos por taxas baixas e fixas, que dois anos mais tarde se tornariam altas e flutuantes. O pulo do gato era que, quando os mutuários não conseguissem mais pagar as prestações, o risco já teria sido transferido dos bancos para investidores que compravam os títulos subprime.

Mas como é possível que ninguém enxergasse na época o que depois seria óbvio? Lewis tem uma boa resposta também para essa pergunta: a fraude contava com o papel vergonhoso das agências de classificação de risco, como a Moody’s e a Standard & Poor’s. O autor simplesmente demole as agências.

Para começar, são instituições que não conseguem acompanhar o nível salarial de Wall Street e, portanto, não seguram profissionais de talento. Além disso, eram claramente manipuladas pelos bancos de investimento, avaliando como seguros títulos sem chances de serem honrados. O comportamento de seus diretores variava entre o de bandido e o de idiota, observa um analista citado por Lewis. “As agências de classificação de risco eram a escória, o que havia de pior no setor”, afirma o autor.

Mas quem as levava a sério? “Os alemães idiotas”, diz um corretor do Deutsche Bank. No período que precedeu o desmoronamento do esquema, investidores de Düsseldorf foram os grandes compradores desses títulos fadados à inadimplência. “Os alemães levam as agências de classificação a sério. Eles acreditam nas regras.”

Egresso de Wall Street, onde trabalhou entre 1985 e 1988 no Salomon Brothers, Michael Lewis tem autoridade para tratar o assunto. Mestre pela prestigiosa London School of Economics, ele é também autor de “O Pôquer dos Mentirosos”, em que descreve sua decepcionante experiência no mercado financeiro.

“A Jogada do Século” tem poucos problemas. Alguma redundância, desnecessária porque muitos casos tratados são equivalentes, e um vai e vem cronológico nem sempre bem resolvido. No mais, trata-se talvez da mais didática e atraente abordagem da anatomia de uma crise cujos efeitos ainda não se dissiparam.”

Leia mais: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/12/22/a-crise-vista-no-cinema/

Para Entender o Desenvolvimento Sustentável

Para-entender-o-desenvolvimento-sustentavel-710522_m1_635838748975946000Ricardo Abramovay é professor titular do Instituto de Energia e Ambiente da USP, autor de “Beyond the Green Economy” (Routledge). Resenhou (Valor, 01/12/15) o livro “Para Entender o Desenvolvimento Sustentável” de autoria de José Eli da Veiga, publicado pela Editora 34. Compartilho sua resenha abaixo.

“Rigor na definição dos termos não pode ser encarado como uma espécie de luxo diletante reservado a um punhado de especialistas e de pouca incidência sobre a vida prática. Num ambiente cultural em que opiniões pessoais são expostas sem a menor preocupação com seus fundamentos ou sua consistência, a busca de precisão no significado e no uso das palavras torna-se condição básica do debate público democrático.

A grande virtude do mais recente livro (seu 25o.), de José Eli da Veiga, professor titular da Universidade de São Paulo, é resgatar a sustentabilidade e o desenvolvimento sustentável da cacofonia generalizada que toma conta das expressões de grande sucesso. Não são chaves que abrem qualquer porta. Subjacentes às diferentes maneiras como os termos são empregados, encontram-se não apenas imprecisões e incoerências, mas visões de mundo que podem e devem ser amplamente discutidas. Continue reading “Para Entender o Desenvolvimento Sustentável”

Literatura da Crise

Crunch Lit

Andrew Hill (FT, 01/12/15) resenha o livro “Crunch Lit” de autoria de Katy Shaw (208 págs., US$ 29,95; Bloomsbury).

Escritores de ficção podem, às vezes, nos ajudar a compreender melhor o mundo das finanças do que os jornalistas? Teria sido melhor prestar atenção aos romancistas, em vez de aos economistas, nos primeiros sinais de alerta da crise financeira de 2007-08? Pode a onda de livros, filmes e peças sobre a crise do crédito mudar nossa atitude em relação às finanças?

Em “Crunch Lit“(“Literatura da Crise” em tradução livre), resultado de sua pesquisa sobre os “escritos da recessão” daquele período, Katy Shaw sugere que a resposta é “sim” para as três perguntas. Mas ela está certa apenas em relação à primeira. Continue reading “Literatura da Crise”

“Pescando Tolos” de George Akerlof e Robert Shiller

 

650x1000 - Pescando Tolos

A editora Alta Books comprou o direito da tradução e publicação do livro no Brasil com o título “Pescando Tolos – A Economia da Manipulação e Fraude“.

http://www.altabooks.com.br/pescando-tolos-a-economia-da-manipulacao-e-fraude.html

Greg Ip (WSJ, 25/09/2015) do jornal liberal The Wall Street Journal está injuriado. Suas fontes contumazes — economistas ultraliberais — estão sendo atacados por gente mais sensata… Reproduzo sua indignação abaixo.

“O mês foi bom para os céticos do livre mercado. No Reino Unido, um socialista confesso é o novo líder do Partido Trabalhista. O papa Francisco, que condena o mercado por promover o “consumismo extremo”, foi recebido, ao chegar nos EUA como um astro do rock. E agora, justo aqueles que supostamente deveriam sair em defesa do mercado, os economistas, estão aderindo ao ataque!

“Mercados competitivos, por sua própria natureza, produzem engano e trapaça”, escrevem dois ganhadores do Prêmio Nobel, George Akerlof e Robert Shiller, em seu novo livro, “Phishing for Phools“, que deve ser lançado no Brasil pela Alta Books.

Com base em lições da Economia Comportamental, os autores sustentam que o mercado incentiva empresas a explorar fraquezas comportamentais, como o desejo do consumidor de gratificação imediata em detrimento do bem-estar de longo prazo. Empresas que se negam a descer a esse nível seriam sobrepujadas pelas menos escrupulosas. E isso “não é um infortúnio ocasional. Ocorre em tudo quanto é lugar”, escrevem. Continue reading ““Pescando Tolos” de George Akerlof e Robert Shiller”

Fugger: Banqueiro de Reis no Século XVI, o homem mais rico que já existiu

Banqueiro dos ReisLauren Young (Valor, 19/08/15) entrevista o autor do livro sobre Fugger: banqueiro de reis no séc. XVI. Jacob Fugger, o financista alemão que, durante o Renascimento:

  1. monopolizou o mercado da prata,
  2. tornou-se banqueiro de reis,
  3. convenceu o papado a legalizar o empréstimo de dinheiro e
  4. preparou o caminho para o atual mercado de bônus.

No auge de sua carreira no século XVI, Fugger acumulou uma fortuna imensa, correspondente a uma parcela significativa da atividade econômica da Europa. Mesmo assim, poucas pessoas ouviram falar dele.

Um novo livro sobre Fugger, “The Richest Man Who Ever Lived” [O homem mais rico que já existiu, na tradução livre], inclui lições sobre dinheiro para os investidores. Abaixo, trechos de uma entrevista com o autor do livro, Greg Steinmetz, que é analista de ações e já trabalhou como jornalista em Nova York.

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Negócio da China

Ranking PIB PPC WB 2013Pelo ranking acima, o BRIC (grandes países emergentes como Brasil, Rússia, Índia e China), em 2013, não estava tão longe de ganhar posições em relação a algumas economias ícones do capitalismo maduro (EUA, Japão e Alemanha) em termos de PIB PPC.

No Brasil, onde a China substituiu os Estados Unidos como maior parceiro comercial do país, o primeiro-ministro chinês Li assinou acordos de pesquisa conjunta sobre a viabilidade de construir uma ferrovia através dos Andes para ligar o cinturão agrícola do Brasil à costa peruana no Pacífico. Esse antigo e ambicioso projeto, que até agora não saiu do papel, tem a meta de reduzir os custos de transporte das exportações brasileiras para a China. Na Nicarágua, uma empresa chinesa planeja construir um canal interoceânico de 277 quilômetros de extensão que vai comportar grandes navios, num momento em que o Panamá também expande seu canal.

A delegação chinesa também divulgou planos de investir US$ 53 bilhões em projetos de infraestrutura no Brasil, uma muito necessária injeção de capital para um governo tentando equilibrar suas contas com o ajuste fiscal. Para comparação, no ano passado, os financiamentos da China para a América Latina alcançaram US$ 22 bilhões, ultrapassando os empréstimos combinados de instituições tradicionais como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, segundo estimativas do Diálogo Interamericano.

Edson Pinto de Almeida (Valor, 19/05/15) resenhou dois novos livros sobre a China. Com o objetivo de registrar para futura leitura, compartilho a resenha abaixo. Por ela, os autores preocupam-se mais em defender a ideologia do Livre Mercado e imaginam a possibilidade de um “equilíbrio de forças” na geoeconomia mundial…

A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2015, exportações e importações movimentaram cerca US$ 21 bilhões, com um superávit de US$ 2,5 bilhões favorável a Pequim. A corrente de comércio entre os dois países alcança US$ 90 bilhões (2014). A ofensiva pela América do Sul faz parte da estratégia da China de ampliar a presença econômica no mundo para além de sua área de influência natural, na Ásia. A investida no Brasil, se concretizada totalmente, dobrará o estoque de investimentos chineses no país.

Em dois livros agora publicados no Brasil, os autores analisam fatores que impulsionaram o crescimento da China e quais são as perspectivas para o futuro do país. O economista russo Ivan Tselichtchev, no livro “China Versus Ocidente“, utiliza uma série de estatísticas e análises quantitativas para demonstrar a tese de que, apesar de seu rápido crescimento e ascensão, a China não deve assumir o papel de predominância semelhante ao que o Reino Unido, no século XIX, e Estados Unidos, do século XX para cá, exerceram de forma unilateral. Para o autor (que leciona na Nigata University of Management, no Japão), a dinâmica da globalização levará a um equilíbrio de forças cujo resultado final passa longe de previsões já desgastadas sobre a derrocada do Ocidente.

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Indústria e Desenvolvimento Produtivo no Brasil

Indústria-e-Desenvolvimento-Produtivo-no-Brasil_GNo último seminário que fiz no IBRE-FGV-RJ, ganhei um livro sobre a indústria brasileira que reúne pesquisadores de pensamentos divergentes, de liberais a desenvolvimentistas. Logo à primeira vista, coloquei-o na lista de minhas próximas leituras, assim que passar a atual fase de viagens-e-palestras semanais.

Com 712 páginas e o propósito de apresentar uma pluralidade de visões, a Fundação Getulio Vargas (FGV) lançará amanhã, no Rio, o livro “Indústria e Desenvolvimento Produtivo no Brasil“. O volume apresenta os desafios para a Indústria de Transformação, cuja participação na economia já encolheu 6,5 pontos percentuais em uma década: de 17,4% do PIB em 2005 para 10,9% no ano passado.

Cristian Klein (Valor, 18/05/15) informa que, com artigos de 36 autores, o livro da FGV é baseado em estudos apresentados em seminário organizado em São Paulo, em 2014, pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) e pela Escola de Economia de São Paulo (EESP), ambos da FGV.

“A relevância da indústria no processo de retomada do desenvolvimento é o ponto comum entre os autores, mas as estratégias é que são variadas“, afirma Nelson Marconi, professor da EESP e um dos organizadores do livro, ao lado de Mauricio Canêdo Pinheiro (Ibre), Laura Carvalho (USP) e do ministro do Planejamento Nelson Barbosa, oriundo da UFRJ, com passagem pelo IBRE-FGV.

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