Liberalismo Progressista X Liberalismo Conservador

Yuval Levin, na conclusão de seu livro “O grande debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e direita”, mostra que o modo como a direita e a esquerda mudaram em relação às visões expostas por Burke e Paine é no mínimo tão interessante quanto o modo como suas visões persistiram. Este livro só arranha a superfície dessa complexa evolução, mas mesmo essas amplas linhas podem nos ajudar a ver como Burke e Paine permanecem profundamente relevantes, tanto como instrutivos pontos de origem quanto como úteis corretivos para a direita e a esquerda de hoje.

O objetivo utópico fundamental no âmago do pensamento de Paine — o objetivo de liberar o indivíduo das obrigações impostas a ele por seu tempo, seu lugar e suas relações com os outros — permanece essencial para a esquerda americana.

Mas o fracasso dos princípios liberais iluministas e das instituições construídas a partir deles em realizar essa ousada ambição e, consequentemente, o fracasso da esperança de Paine de erradicar o preconceito, a pobreza e a guerra parecem forçá-la a uma escolha entre as Teorias de Direitos Naturais que ele achou que ofereceriam os meios para atingir esse objetivo e o próprio objetivo. Com o tempo, o objetivo utópico ganhou preferência, e uma visão do Estado como provedor direto das necessidades básicas e amplamente livre das restrições do liberalismo iluminista de Paine surgiu para defendê-lo.

Podemos começar a discernir as raízes iniciais desse modo de pensar nos textos revolucionários tardios do próprio Paine, que propõem um Estado de bem-estar primordial. Mas esse modo de pensar avançou bastante em relação às opiniões de Paine, pois, com o tempo, alguns progressistas americanos, influenciados pelo pensamento socialdemocrata europeu, passaram a acreditar em um assertivo governo nacional.

Eles achavam que tal governo poderia fornecer alguns benefícios materiais, bem como remover algumas das instituições sociais e cívicas que se colocavam entre o indivíduo e o Estado. Estas instituições, como Paine, eles consideravam portadoras de atraso e preconceito.

Dessa maneira, o governo poderia livrar as pessoas simultaneamente da necessidade material e das obrigações morais diretas para com aqueles imediatamente em seu entorno. Tal governo tornaria as pessoas mais iguais e livres entre si e, assim, mais capazes de exercer suas escolhas individuais.

A esquerda atual exibe claramente essa combinação entre coletivismo material e individualismo moral. Inicialmente, o papel que concede ao governo e seus elos com o pensamento social europeu podem sugerir que sua atitude se inclina na direção do comunitarismo. Mas sua forma americana é, na verdade, uma forma radical de individualismo, movida por praticamente a mesma paixão por justiça de Paine e pelo mesmo desejo de libertar as pessoas dos grilhões da tradição, da religião e das expectativas morais ou sociais dos outros. Continue reading “Liberalismo Progressista X Liberalismo Conservador”

Questões Básicas da Filosofia Política

Yuval Levin, na conclusão de seu livro “O grande debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e direita”, mostra que a tensão entre essas duas disposições se resume a algumas questões básicas da Filosofia Política:

  • Nossa sociedade deve ser capaz de responder às demandas de inflexíveis e abstratos compromissos com ideais como a igualdade social ou aos padrões de suas próprias e concretas tradições e bases políticas?
  • O relacionamento dos cidadãos com a sociedade deve ser definido acima de tudo pelo direito de livre escolha do indivíduo ou por uma rede de obrigações e convenções não inteiramente de sua escolha?
  • Os grandes problemas públicos são resolvidos mais satisfatoriamente por meio de instituições criadas para aplicar o conhecimento técnico explícito dos especialistas ou por meio daquelas instituições que canalizam o conhecimento social implícito da comunidade?
  • Devemos ver as falhas de nossa sociedade como um grande problema a ser resolvido pela transformação compreensiva ou como um conjunto de imperfeições pontuais que devem ser eliminadas por meio da construção sobre o que funciona toleravelmente bem para corrigir o que não funciona?
  • Que autoridade o caráter do mundo dado deve exercer sobre nosso senso do que gostaríamos de ser?

Essas questões se constroem umas sobre as outras e se transformam em maneiras bastante distintas de pensar a Política. Cada pessoa olha para seu país e vê uma mistura de coisas boas e más.

  • Mas quais nos atingem mais poderosamente?
  • Ao confrontar a sociedade, ficamos antes gratos pelo que funciona bem e motivados a reforçar e construir a partir daí ou ultrajados com o que funciona mal e motivados a destruir e transformar?

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Dilema das Gerações Em Uma Sociedade Liberal

Yuval Levin, em seu livro “O grande debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e direita”, se pergunta:

  • Qual é a relação adequada entre as gerações em uma sociedade?
  • Apenas porque a geração de nossos antepassados fazia algo de certa maneira, precisamos fazer o mesmo ou podemos pôr de lado suas práticas e abrir nosso próprio caminho?
  • Devemos a nossos filhos a preservação das instituições sociais e políticas que herdamos, a fim de que possam viver como vivemos, ou devemos a eles a liberdade de escolherem seu próprio caminho?
  • É possível entender nossa vida civil em termos de consentimento e liberdade de escolha se ela envolve uma ordem política que herdamos ao nascer e de cuja escolha não participamos?
  • A sociedade que herdamos e nosso lugar nessa sociedade possuem qualquer autoridade legítima sobre o modo como vivemos nossas vidas?

O debate Burke–Paine tem muito a nos dizer sobre como e por que devemos pensar nessas difíceis questões. O dilema das gerações em uma sociedade liberal se agiganta em seu pensamento político e está presente, logo abaixo da superfície, em muitas das disputas que os dividem. Eles abordam o assunto frequentemente e em uma ampla variedade de contextos. Desse modo, mais que apenas outro ponto de disputa, ele forma uma espécie de corrente unificadora entre os temas que discutiram.

Paine busca entender o homem separadamente de seu contexto social, ao passo que Burke acha que ele é incompreensível longe das circunstâncias em que nasceu e que foram criadas pelas gerações anteriores.

Burke descreve um todo social densamente estratificado que define o lugar de cada um de seus membros, enquanto Paine pensa que cada pessoa nasce com o mesmo direito de moldar seu destino.

A política da razão defendida por Paine pede recurso direto aos princípios em face de práticas antigas, mas pouco razoáveis. A prescrição defendida por Burke é baseada na continuidade geracional. Continue reading “Dilema das Gerações Em Uma Sociedade Liberal”

Conhecimento e Verdade

Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, afirma que a essência do conhecimento está estreitamente ligada ao conceito de verdade. Só o conhecimento verdadeiro é conhecimento efetivo. “Conhecimento não-verdadeiro” não é propriamente conhecimento, mas erro e engano.

Em que consiste, então, a verdade do conhecimento? A verdade deve consistir na concordância da “figura” com o objeto. Um conhecimento é verdadeiro na medida em que seu conteúdo concorda com o objeto intencionado.

Consequentemente, o conceito de verdade é um conceito relacional. Ele expressa um relacionamento, a saber, o relacionamento do conteúdo do pensamento, da “figura”, com o objeto.

O próprio objeto, ao contrário, não pode ser nem verdadeiro nem falso. De certo modo, ele está para além da verdade e da inverdade. Uma representação inadequada, por sua vez, pode ser verdadeira, pois apesar de incompleta pode ser correta, se as características que contém existirem efetivamente no objeto.

O conceito de verdade que obtivemos a partir da consideração fenomenológica do conhecimento pode ser chamado conceito transcendente de verdade, vale dizer, ele tem a transcendência do objeto como pressuposto. É esse o conceito de verdade da consciência ingênua e também o da consciência científica. Ambos visam, com a verdade, a concordância do conteúdo do pensamento com o objeto.

Em que posso reconhecer um conhecimento como verdadeiro? Essa é a questão-chave acerca do critério da verdade. Continue reading “Conhecimento e Verdade”

A Grande Saída não respeita as Fronteiras das Disciplinas Acadêmicas. E isso é bom.

O livro A Grande Saída: Saúde, Riqueza e as Origens da Desigualdade de autoria do vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2015, Angus Deaton, sem dúvida, merece ser lido. Segundo o próprio autor, ele trata da eterna dança entre progresso e desigualdade, de como o progresso gera desigualdade e como a desigualdade pode às vezes ser útil — ao mostrar caminhos ou proporcionar incentivos para que as pessoas os alcancem —, e às vezes danosa, quando aqueles que encontraram a saída escondem o caminho das pedras erguendo barreiras por onde passam. Essa é uma história que já foi contada muitas vezes, mas Deaton quer contá-la de um jeito diferente.

É fácil pensar que a fuga da pobreza está relacionada apenas ao dinheiro — possuir o bastante para não precisar mais viver com a corrosiva ansiedade de não saber se haverá o bastante amanhã, ou temer que surja alguma emergência para a qual faltarão  recursos  e  que  acabará  arruinando  você  e  sua  família.

Dinheiro é, de fato, parte central da história. Porém, tão ou mais importante quanto ele é ter uma saúde melhor e uma chance maior de viver tempo suficiente para conseguir prosperar. Continue reading “A Grande Saída não respeita as Fronteiras das Disciplinas Acadêmicas. E isso é bom.”

Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações

O próprio Paulo Gala apresenta seu livro Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações. Reproduzo sua apresentação abaixo.

“O processo de desenvolvimento sempre intrigou os economistas. Pensadores do passado – como o italiano Antonio Serra, de Nápoles, no início do século XVII; John Cary, de Bristol, no final do século XVII; ou Duarte Ribeiro de Macedo, de Portugal, na mesma época – indagavam sobre o que fazer para acelerar o progresso do reino e alcançar riqueza para todos. Muito antes de Adam Smith ter escrito o livro que se tornou clássico, esses economistas já observavam a questão da riqueza e da pobreza das nações, que perdura até hoje e continua inflamando corações e mentes.

Desde os clássicos da economia, como David Ricardo, Karl Marx e Adam Smith, passando pelos antigos economistas do desenvolvimento da tradição  anglo-saxã, como Ragnar Nurkse, Gunnar Myrdal e Rosestein-Rodan, ou da tradição latino-americana, como Raúl Prebisch e Celso Furtado, ou ainda pelo pensamento mais recente de economistas institucionalistas, como Douglass North, e de economistas mais neoclássicos, como Dani Rodrik e Daron Acemoglu – o que, afinal explica a pobreza e a riqueza das nações? O que explica o desenvolvimento econômico?

O livro procura responder essa questão a partir de duas perspectivas:

(i) a antiga tradição estruturalista em economia, para a qual a chave para a riqueza das nações estava na especialização produtiva em atividades econômicas com retornos crescentes de escala e

(ii) a moderna concepção da complexidade econômica, que parte de um enfoque parecido com o dos estruturalistas, mas usa muito a abordagem empírica, analisando enormes bancos de dados de Big Data e redes para o comércio internacional. Continue reading “Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações”

Por que a Informação Cresce: A Evolução da Ordem, de Átomos à Economia

Navegando na internet em busca do livro de Cesar Hidalgo com o título acima, achei apenas uma resenha dele, postada em 29 de setembro de 2016 por Fabio Hideki Ono. Há crescente importância da Economia de Dados e Informações – foco que adoto na disciplina “Métodos de Análise Econômica” que ministro no 2o. semestre letivo –, em que se busca transformar a complexidade de grandes planilhas de dados, orientado por teorias e conceitos, em simplicidade analítica, propiciando novas reflexões.

Compartilho abaixo, destacando passagens importantes da resenha de Fabio Hideki Ono. Continue reading “Por que a Informação Cresce: A Evolução da Ordem, de Átomos à Economia”