População Desalentada no Brasil

O recrudescimento dos casos de covid-19 pode atrasar uma recuperação mais consistente do mercado de trabalho no país. Já teria um ano difícil em 2021 sem esse fator. Segundo economistas, mesmo crescendo entre 3% e 4% neste ano, a economia não deve gerar ocupação suficiente para a massa de desempregados deixada pela pandemia. Agora, a possibilidade de reintrodução de medidas mais restritivas de isolamento social em algumas regiões pode atrasar principalmente a recuperação do mercado informal, o que mais oferece trabalho aos brasileiros.

Segundo levantamento feito com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid e Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi recuperado um emprego para cada cinco perdidos na pandemia. É improvável voltar em 2021 ao patamar anterior. Ele já não era bom com a estagnação econômica

Estimativa do banco Credit Suisse aponta a criação de 5 milhões de postos de trabalho neste ano, entre formais e informais, o que está longe de recompor os cerca de 8 milhões perdidos em 2020. A taxa de desemprego média pode subir de 13% para cerca de 15% em 2021.

O número é alto, mas, assim como ocorreu em 2020, não deve refletir totalmente a realidade do mercado, porque uma parte da população deve continuar inativa por inúmeros motivos, como o medo da contaminação, desalento e cuidados com a família. Do total de pessoas em idade de trabalhar, 30% estão desalentados, desempregados ou subocupados.

Além da necessidade de dinheiro, os arranjos intrafamiliares também pesam na decisão de buscar trabalho. O choque da pandemia não é só de renda, é também de saúde pública, com muitos chefes de família doentes, outros com sequelas psicológicas. Muitas famílias perderam membros relevantes na composição da renda e os remanescentes terão de sair em busca de ocupações para complementar o orçamento.

Agravando a situação, o recrudescimento de casos e mortes por covid-19 ocorre em um contexto de fim do auxílio emergencial e do programa de sustentação do emprego formal (BEm), criado para ajudar a frear as demissões. Essa retirada das transferências tem impacto negativo na atividade. As pessoas vão ter de procurar mais emprego, mas a demanda por mão de obra deve ser menor porque o consumo deve ser afetado. O cenário não é bom, pelo contrário, é péssimo!

Haverá mais pessoas retornando ao mercado em lugar de encontrando emprego por um tempo razoável ao longo de 2021. Essa hipótese ilusória, aliada à inércia e defasagem natural com a atividade econômica, se traduz em um pico de desemprego no segundo trimestre de 2021, quando a taxa deve ficar próxima a 15,8%.

Se a retomada do emprego ainda terá um longo caminho, a recuperação da renda também será gradual, em especial a dos informais. De acordo com levantamento do Banco Safra, a massa salarial mensal dos trabalhadores informais e por conta própria caiu R$ 15,8 bilhões no segundo trimestre de 2020 em comparação ao período pré-pandemia. Ela teve uma pequena alta de R$ 3,4 bilhões no terceiro trimestre e, considerando as informações da Pnad de outubro, a mais recente, deve ter subido R$ 6,7 bilhões de outubro a dezembro.

Assim, ainda há um déficit remanescente de aproximadamente R$ 8 bilhões mensais (1,1% do PIB) para ser recomposto. Parte da queda dessa massa (36,5%) se deu pela diminuição de 13% do rendimento efetivo comparado ao rendimento habitual dos que permaneceram ocupados nesse período, enquanto o restante (63,5%) decorre dos que perderam suas ocupações, calcula o banco.

A pandemia recrudesceu e e a vacinação demorará meses para surtir efeitos. Ela permitiria a volta do setor de serviços à normalidade. Uma retomada mais consistente da atividade parece ter sido postergada pela inépcia e irresponsabilidade do governo composto por militares até na área da Saúde Pública!

O IDados mantém por enquanto as estimativas de taxa de desemprego para o fim do primeiro trimestre em 16% e fim de 2021 em 12,9%, mas elas devem ser revistas. O maior impacto do recrudescimento da pandemia na atividade se dá menos por novas medidas de isolamento e mais pelo aumento da incerteza com o futuro, o que contribui para manter baixa a oferta de trabalho.

A vacinação tardia em meio ao recrudescimento da pandemia também está afetando a incerteza fiscal, outra variável crítica para a recuperação da economia, segundo o ASA Investiments. Esse cenário aumenta o risco de “alguma aventura fiscal” em contexto de eleição das mesas da Câmara e do Senado.

Especulações quanto à reedição do decreto de calamidade e defesa da volta do auxílio emergencial novamente impulsionaram o dólar e a estrutura a termo da taxa de juros para cima, apertando as condições financeiras na margem.

Nos níveis atuais de afrouxamento monetário, as condições financeiras estão em terreno estimulante de inflação de ativos, embora menos se comparado ao fim de 2020. Elas se mostram compatíveis com uma expansão no PIB de apenas 1%, e não os 2,4% estimados pela casa para este ano.

1 thought on “População Desalentada no Brasil

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    O desalento é a situação mais crítica, quando o brasileiro desiste de procurar emprego ou ocupação. Três frases acendem a preocupação com os destinos do Brasil, duas delas destacadas pelo professor:
    … foi recuperado um emprego para cada cinco perdidos na pandemia.
    Do total de pessoas em idade de trabalhar, 30% estão desalentados, desempregados ou subocupados.
    … pico de desemprego no segundo trimestre de 2021, quando a taxa deve ficar próxima a 15,8%.
    Mas, para entender mais, vale o estudo da lição ministrada por Fernando Nogueira:

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