Assimetria da Política Monetária: Causa Depressão, Mas Não Retomada Econômica

  • “Política monetária é como uma mola, serve para puxar, mas para impulsionar não é de grande valia”.
  • “Política monetária é como uma corda: você laça o touro, mas se ele se volta contra você, ela não serve para retrocedê-lo”.
  • “Controlar a economia com a política monetária é o mesmo que segurar um tigre por seu rabo”.
  •  “Enxugar a liquidez da economia é o mesmo que enxugar gelo”.
  •  “Você pode levar um cavalo à fonte, mas não pode obrigá-lo a beber, assim como pode dar liquidez à economia, mas não consegue expandi-la”.

O que há de comum entre essas metáforas? Todas tratam do papel assimétrico exercido pela política monetária e creditícia, no controle e na criação de liquidez, para o sistema econômico. Essa política, no sentido contracionista, sem dúvida, tem o significado de contrair a liquidez real, se, efetivamente, limita a capacidade de criação de poder de compra ex-nihilo pelos bancos. Mas a política monetária e creditícia expansionista pode não expandir a liquidez do sistema, se não forem acompanhadas de decisões de gastos dos agentes econômicos. Se os privados estão pessimistas, o gasto público deve substituir os gastos privados até a retomada econômica. Isto é beabá do keynesianismo, mas o asnismo dos economistas neoliberais o ignora

Alex Ribeiro (Valor, 23/04/18) informa: o Banco Central do Brasil está confiante que os cortes de juros estão cumprindo o papel de estimular a economia! Os dados mais fracos deste começo de ano são oscilações normais numa trajetória de retomada consistente da atividade. Os juros bancários e concessões de crédito estão respondendo aos estímulos monetários.

Autoridades do BC tem repetido essas mensagens em encontros fechados e abertos com investidores, muitos dos quais estão céticos sobre o ritmo da retomada. Alguns deles fizeram estudos que sugerem entupimento em parte dos canais de transmissão da política monetária, como crédito e investimentos.

“Esse ciclo é diferente?”, questionou, de forma retórica, o diretor de assuntos internacionais do BC, Tiago Berriel, em apresentações a investidores nas reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington. Para o BCB, não há nada de novo.

Estudo divulgado no relatório de inflação de março de 2018 sustenta que, depois que o BC cortou a Selic, os juros bancários caíram e as concessões de crédito aumentaram, seguindo o padrão dos quatro ciclos de distensão dos últimos 15 anos. “A política monetária tem sido efetiva em reduzir o custo de financiamento e estimular o crescimento econômico”, conclui o estudo.

Parece um debate apenas de especialistas, mas há repercussões práticas: se os juros não surtiram efeito para recuperar a economia da maior recessão em décadas, o Comitê de Política Monetária (Copom) teria que cortar mais. O BC defende a eficácia dos juros justamente quando, em meados de maio, fez uma pausa na distensão monetária. Continue reading “Assimetria da Política Monetária: Causa Depressão, Mas Não Retomada Econômica”

Contas Nacionais Trimestrais do 1º trimestre de 2018

André Perfeito, economista-chefe agora da corretora Spinelli, informa o IBGE ter acabado de divulgar as Contas Nacionais Trimestrais do 1º trimestre de 2018. A variação na margem do PIB veio em 0,4%, acima portanto da nossa projeção de 0% na mesma comparação.

O resultado mais positivo se calcou mais uma vez no comportamento mais robusto da Agricultura. Subiu na margem 1,4% enquanto os outros componentes da Oferta – Indústria e Serviços – permaneceram fracos subindo apenas 0,1%.

Do lado da Demanda Final, também não há nenhuma grande notícia: Consumo das Famílias continua se arrastando com 0,5% na margem e a Formação Bruta de Capital Fixo (que havia dado esperança no final do ano passado para uma recuperação mais forte da economia) recuou para 0,6% na margem.

Mantemos nossa projeção de 1,6% do PIB para 2018 na série acumulada com crescimento de 0,3% no 2º trimestre seguido de 0,7% e 0,8% respectivamente para os outros trimestres o que aponta para uma variação média trimestral similar ao do ano passado.

O ajuste recessivo feito não surtiu o efeito desejado no Investimento particular, a grande aposta do Governo para a retomada. Juros baixos são condição necessária, mas não suficiente para animar os “espíritos animais” do empresariado.

Com a ociosidade ainda elevada (em nível pior que a crise de 2008, vide gráfico anterior) e a Demanda ainda reprimida tanto pela ponta do Consumo do Governo quanto pela baixas expansão da capacidade das famílias em gastar, o empresário está tendo de lamber as próprias feridas em um processo bastante agudo de desalavancagem. ele não encontra “saída” em governo com todas as torneiras fechadas (exceção feita aos generosos REFIS). Isso tem levado a uma queda da Formação Bruta em relação ao PIB para patamares extremamente baixos, rodando hoje abaixo de 16%.

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Autoengano ou “me engana que eu gosto”?

Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão

Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão

Mas chora!

Chora!
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar

Está muito engraçado assistir a reação de O Mercado contra a Autoridade Monetária por ter sido “enganado” por ela não baixar a Selic e dar um ganho aos detentores de títulos prefixados. Vejo a cena como o palhaço vê o circo pegar fogo…

Os economistas-chefe dos bancos e consultorias, confiantes por sempre pautarem as decisões da Autoridade Monetária, via imprensa, agora se comportam como cornos. Choramingam para A Imprensa oficiosa: “Como justificar toda a propaganda enganosa do passado recente? Como continuar brigando contra os números? Todos os indicadores falsearam nossa louvação da ilusória “retomada do crescimento”! snif, snif…” 😦

E A Imprensa golpista retruca: como tirar da lama nossa imagem de apoiadores do golpe? A maioria da população já constata ter sido enganada com a falsa ideia do “rito legal do impeachment para inglês ver”. A perseguição político-partidária seletiva ficou desmascarada com o apoio inicial dessa imprensa ao governo mais impopular da história recente. Agora o risco é um fascistoide ganhar a eleição.  “Enganamos momentaneamente o povo, mas não conseguimos enganar a história! snif, snif…” 😦

O importante, na próxima eleição, é eleger um presidente com programa social-desenvolvimentista. Fascistas, não passarão!

Uma informação relevante para os elaboradores desse programa dá Murillo Camarotto (Valor, 17/05/18): o carregamento das reservas internacionais do Brasil custou R$ 691 bilhões entre 2001 e 2016. O montante representa a metade do estoque atual das reservas, de cerca de US$ 381 bilhões (R$ 1,4 trilhão ao câmbio de 17/05/18). Continue reading “Autoengano ou “me engana que eu gosto”?”

Empatia com os Desempregados

O número de brasileiros à espera de uma oportunidade de emprego acumulava 12,3 milhões de pessoas ao final de 2017. A pesquisa “O desemprego e a busca por recolocação profissional no Brasil”, realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em todas as capitais mostra que o tempo médio de desemprego já chega a 14 meses entre os entrevistados, maior do que o observado em 2016, quando girava em torno de 12 meses.

O estudo mostra o seguinte perfil dos desempregados:

  • 59% são do sexo feminino, com média de idade de 34 anos;
  • 54% têm até o ensino médio completo,
  • 95% pertencem às classes C/D/E e
  • 58% têm filhos, a maioria menor de idade.

Entre os que já tiveram um emprego antes, 34% atuavam no segmento de serviços, enquanto 33% no setor de comércio e 14% na indústria. A média de permanência no último emprego foi de aproximadamente dois anos e nove meses.

No último emprego, 40% dos desempregados possuíam carteira assinada, 14% eram informais e 11% autônomos ou profissionais liberais. Já 8% dos desempregados atuais estão buscando a primeira oportunidade profissional. Um cenário de recuperação no mercado de trabalho ainda é um movimento tímido. No momento, permanece concentrado na informalidade, o que implica em contratações sem carteira assinada e atividades feitas por conta própria.

As pessoas sabem que não podem ficar esperando em casa pelo reaquecimento do mercado e por isso buscam por alternativas de sobrevivência. Porém, informalidade também implica em fragilidade. O trabalhador que atua nessas condições não tem proteção e está sujeito às variações do mercado. Por isso, é importante informar-se e buscar a formalização. Uma atividade feita por conta própria pode, por exemplo, encaixar-se na modalidade MEI – microempreendedor individual. Com ela é possível ter CNPJ, emitir nota fiscal e contribuir para a aposentadoria, dentre outras possibilidades. Continue reading “Empatia com os Desempregados”

Cenário Externo e Político, Queda dos Juros Longos ou Aumento da Produtividade: Dilemas entre Economistas

Produtividade é o resultado da divisão da produção física obtida numa unidade de tempo (hora, dia, ano) por um dos fatores empregados na produção (trabalho, terra, capital). Em termos globais, a produtividade expressa a utilização eficiente dos recursos produtivos, tendo em vista alcançar a máxima produção na menor unidade de tempo e com os menores custos.

Comumente, o termo “produtividade” se refere à produtividade resultante do trabalho humano com a ajuda de determinados meios de produção (máquinas, ferramentas e equipamentos). Essa produtividade do trabalho é o quociente da produção pelo tempo do trabalho em que foi obtida. A produtividade do capital, por sua vez, é a quantidade produzida por unidade de capital investido.

Vários são os fatores que influem na elevação da produtividade do trabalho:

  1. desenvolvimento tecnológico dos equipamentos empregados (meios de produção),
  2. nível da divisão social do trabalho,
  3. grau de especialização e escolaridade da mão-de-obra,
  4. qualidade das matérias- primas utilizadas e
  5. organização e controle na produção.

É difícil quantificar globalmente a taxa de produtividade do trabalho, pois ela varia conforme a empresa, a região e os fatores acima relacionados. Contudo, podem-se estabelecer comparações entre empresas, regiões ou países. É importante notar que a produtividade tende a ser maior nas empresas de capital intensivo e menor nas de trabalho intensivo.

“Detalhe” desconhecido por economistas neoliberais: a intensificação da produtividade pela adoção de melhorias tecnológicas tem repercussões sociais negativas, uma vez que pode causar desemprego. Quando há pleno emprego, eleva o poder de barganha dos trabalhadores e os empresários receiam perder mão-de-obra treinada. “Elevar a produtividade” através do aumento do desemprego é um eufemismo usado pelos neoliberais para defenderem a elevação do grau de exploração dos trabalhadores ainda ocupados.

O aumento da produtividade do trabalho com o emprego de novos equipamentos e especialização do trabalhador corresponde a um aumento da exploração da mão-de-obra. Na economia marxista, isso equivale a uma maior produção de mais-valia: o trabalhador produz em menor tempo o suficiente para reproduzir o valor de sua força de trabalho, deixando ao empresário um maior excedente de produção. Continue reading “Cenário Externo e Político, Queda dos Juros Longos ou Aumento da Produtividade: Dilemas entre Economistas”

Lula Livre ou Fuga de Capitais e Especulação com Dólar

José de Castro (Valor, 27/04/18) informa: a forte demanda por dólares no mercado de derivativos tem ditado a espiral de baixa que pressionou o real nas últimas semanas. Os investidores estrangeiros já sustentam apostas favoráveis à divisa americana por meio desses contratos, mas a surpresa tem ficado com os fundos de investimento e tesourarias. Elas compraram US$ 3 bilhões em um intervalo de apenas três semanas. Considerando apenas contratos de dólar futuro, a tomada de moeda é ainda maior: US$ 5 bilhões.

Mais do que o estoque de contratos, a variação das posições dá uma ideia melhor das mudanças de demanda por moeda estrangeira. Com posições líquidas diferentes, percebe-se tanto estrangeiros quanto fundos locais terem preferido comprar dólares, seja para proteção, seja para apostas direcionais.

Apenas no dia 25/04/18, dia em que a cotação superou R$ 3,50 pela primeira vez em quase dois anos, os investidores institucionais nacionais — grupo do qual fazem parte os fundos de investimento e tesourarias de bancos — compraram, em termos líquidos, o equivalente a US$ 1,179 bilhão. As operações se deram via contratos de dólar futuro e cupom cambial (DDI) negociados na B3.

O estoque de posições vendidas em dólar (ganham com a queda da moeda) por parte dos institucionais caiu para pouco mais de US$ 11 bilhões, aproximando-se dos menores níveis desde junho de 2014.

E não apenas os fundos de investimentos têm atuado firme na compra de moeda estrangeira. Apenas em abril, os investidores estrangeiros quase dobraram suas “apostas” na alta do dólar via derivativos da B3: de US$ 12,3 bilhões para US$ 22,4 bilhões. Ou seja, em apenas três semanas, esses agentes compraram mais de US$ 10 bilhões. Continue reading “Lula Livre ou Fuga de Capitais e Especulação com Dólar”

Custo Desinflacionário: Queda do Custo Unitário do Trabalho pela Grande Depressão

Alex Ribeiro (Valor, 23/03/18) divulga que “a economia brasileira está pagando hoje um preço menos alto em termos de desemprego para baixar a inflação em direção às metas”, segundo um estudo do economista-chefe consultoria e professor da PUC-Rio. Ele já usou estrelinha na lapela, mas se vendeu e ficou conhecido como mais um “chapa-branca” para mitificar a realidade em declarações irresponsáveis que a imprensa oficiosa colhe sistematicamente. Aumenta o faturamento da consultoria estar na mídia.

Segundo essa ilusão, “isso tem implicações importantes para a condução da política monetária neste ano, dificultando a aceleração da inflação em direção às metas e abrindo espaço para quedas adicionais nos juros, como o corte da taxa básica sinalizado pelo Banco Central para maio, ou sua manutenção em patamares menores por mais tempo.”

Este mito é o Banco Central ter conseguido colocar a inflação de serviços na meta, de 4,5%, em dezembro passado com uma “economia” de cerca de quatro pontos percentuais na taxa de desemprego. Foi necessário um desemprego de só 13% da força de trabalho, em vez de uma taxa de 17% que deveria se esperar pelo padrão histórico brasileiro. Só ele percebeu esse “padrão”…

O insensível não tem a menor empatia com os 14 milhões desocupados! Não correlaciona a elevação da violência urbana em sua cidade com a falta de esperança fora da criminalidade! Continue reading “Custo Desinflacionário: Queda do Custo Unitário do Trabalho pela Grande Depressão”