Desalavancagem Financeira das Empresas Não-Financeiras

Raquel Brandão (Valor, 04/11/2019) informa: a redução dos juros no país e o maior acesso ao mercado de dívida ajudaram a melhorar a saúde financeira das companhias, mas esse “quadro clínico” mais otimista ainda está bastante restrito às grandes companhias. Os resultados do terceiro trimestre ainda deverão mostrar esse diagnóstico.

O segundo trimestre de 2019 reforçou a tendência de queda do endividamento das empresas. A relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA, na sigla em inglês) nas empresas de capital aberto chegou ao patamar de 1,97 vez no acumulado de 12 meses encerrados ao fim de junho. Observando os últimos oito anos, esse indicador só esteve mais baixo do que isso em 2011, quando chegou a 1,49 vez.

Os dados do terceiro trimestre começaram a ser divulgados pelas empresas. Eles deverão reforçar essa trajetória, segundo o professor e pesquisador Carlos Rocca, mas também deverão manter sem grandes mudanças um panorama muito menos animador: a geração de caixa das médias e pequenas empresas ainda não supera as despesas financeiras. Continuar a ler

Efeitos da Ruptura da “Chimérica” pela Guerra Comercial dos EUA contra a China

Assis Moreira (Valor, 06/11/2019) faz um balanço da atual guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. Ela tem gerado perdas bilionárias para as duas maiores economias do mundo e desvio de comércio, segundo confirmado por um estudo da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

As perdas dos EUA estão amplamente relacionadas a preços mais elevados para os consumidores americanos, enquanto os prejuízos da China se refletem em perda significativa de exportações.

Segundo a Unctad, a sobretaxa de mais de 25% em importações procedentes da China imposta pelo presidente Donald Trump infligiu uma perda de US$ 35 bilhões nas vendas chinesas para os EUA no primeiro semestre. A queda nas vendas é de 25% em relação ao mesmo período do ano passado.

Por sua vez, dados americanos indicam que as exportações em geral dos EUA para o mercado chinês caíram US$ 15,1 bilhões, numa contração de 23,5% entre janeiro e junho. A Unctad não examinou o lado das exportações americanas, mas ao menos parte disso é resultado das sobretaxas chinesas adotadas em retaliação às medidas americanas.

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À espera do fim do longo ciclo de expansão da economia dos EUA

Reportagem do The Economist (30 de outubro de 2019) anuncia a economia da América estar resistindo à atração da recessão. Um mercado de trabalho saudável mantém os americanos gastando, ajudando a compensar uma queda no investimento das empresas.

Não era assim o esperado. “Quatro, cinco e talvez até seis por cento” de crescimento foi o que o presidente Donald Trump prometeu em dezembro de 2017. Mesmo nas páginas relativamente sóbrias da proposta de orçamento divulgada pelo governo em março deste ano, a equipe de Trump previu taxas de crescimento econômico de 3% ou mais até 2024. Este, supostamente, seria o último ano completo de um segundo mandato de Trump, caso ele for reeleito.

Em vez disso, a economia americana, depois de atingir a meta de crescimento de 3% em 2018, e apesar do aumento da conta fiscal, devido aos impostos cortados pelo presidente, continua perdendo força. No terceiro trimestre deste ano, o PIB, ajustado pela inflação, aumentou a uma taxa anualizada de 1,9%, ante 2% nos três meses anteriores. Uma questão paira sobre Trump e milhões de trabalhadores americanos: exatamente quando a desaceleração ocorrerá e qual será sua profundidade?

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Baixa Taxa de Retorno / Custo de Capital: Investimento Privado Paralisado

Be-a-bá keynesiano: Quando não há gasto privado por conta das expectativas negativas, o gasto público em investimentos em infraestrutura e subsídios em financiamento de habitações de interesse social tem de o substituir. Só assim haverá o arranque para crescimento da renda e emprego.

Mais da metade das cias. abertas pequenas e médias  ainda têm geração de caixa inferior às despesas financeiras.

Hugo Passarelli (Valor, 18/10/2019) informa: a lenta recuperação do investimento, iniciada a partir de 2016 e sustentada pelo setor privado, perdeu fôlego no segundo trimestre deste ano corrente com a equipe econômica ultra-liberal inerte. Embora as taxas de retorno estejam mais atraentes para as empresas que desejam investir, o alto nível de incerteza e as perspectivas de baixo crescimento da economia jogaram contra a continuidade de melhora do indicador.

As conclusões são de estudo Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), elaborado a partir das demonstrações financeiras de 240 empresas de capital aberto e de 421 companhias fechadas.

De 2016 a 2018, a taxa da investimento mostrou leve alta, de 14,97% para 15,42% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as estimativas do estudo. O processo se interrompeu no ano encerrado no segundo trimestre, quando o indicador retrocedeu a 15,14% do PIB. O levantamento do Cemec-Fipe analisa os dados nos 12 meses terminados a cada trimestre para evitar distorção nas comparações.

Com a retração dos investimentos públicos, a retomada teria de ser capitaneada pelo setor privado, mostra o estudo. As companhias, fechadas e abertas, aumentaram seus investimentos de 2016 a 2018 de 1,79% para 3,46% do PIB. A maior parte do bolo cabe às empresas de capital aberto. Elas ampliaram a cifra de 1,1% do PIB em 2016 para 2,65% no período anual encerrado no primeiro trimestre deste ano. No segundo trimestre de 2019, porém, o indicador caiu a 2,5% do PIB.

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Relatório de Estabilidade Financeira do FMI: especulação em ativos de risco por retornos maiores face aos juros baixos

Lucinda Pinto e Paola de Orte (Valor,17/10/2019) avaliam: um mundo de taxas de juros muito baixas, onde a busca por melhores retornos, amplia o risco e a vulnerabilidade dos mercados, exige mais atenção por parte dos formuladores de políticas. Os sinais de alerta devem ser monitorados. Essa é a mensagem central do Relatório de Estabilidade Financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado durante a reunião anual do organismo.

O FMI estima a parcela de dívida de empresas com fraca capacidade de pagamento da dívida já ser considerável em várias economias importantes. Em um cenário de desaceleração da economia global, poderia atingir US$ 19 trilhões — o equivalente a 40% de toda a dívida corporativa das economias desenvolvidas –, volume superior ao observado na crise financeira de 2008. As dívidas das empresas incapazes de cobrir os gastos com juros com suas receitas, chamada de dívida corporativa de risco, podem subir para US$ 19 trilhões em um cenário com quase a metade da severidade da crise financeira global.

Nos últimos seis meses, o vaivém da guerra comercial atingiu o mercado financeiro, fazendo com o clima de negócios piorar e crescerem as preocupações com os riscos de desaceleração econômica. A atuação dos bancos centrais, dando mais incentivos monetários e muitas vezes adotando juro negativo, contribui para amenizar esses riscos de desaceleração no curto prazo. Mas, ao mesmo tempo, essa política eleva os riscos financeiros e aumenta a vulnerabilidade, colocando em risco o crescimento a médio prazo.

Hoje, o volume de bônus com rendimento de juro negativo já equivale a US$ 15 trilhões, sendo mais de US$ 7 trilhões de bônus de governos de países desenvolvidos. Os juros de 10 anos agora estão negativos em países como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Bélgica, França, Alemanha, Japão, Países Baixos, Suíça e Suécia.

Quando se olha para os preços de mercado, a expectativa é cerca de 20% dos bônus soberanos estarem negativos até 2022. Em alguns casos, os juros desses papéis de longo prazo caem sem haver fundamentos para justificar esse movimento.

[FNC: Ora, quando aumenta a demanda por títulos prefixados de longo prazo já emitidos com juros maiores, elevam-se seus preços de mercado e caem então os juros reminescentes. Confira a figura abaixo.]

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Curso Forçado do Real evitará “a Argentina ser aqui”?

Alex Ribeiro (Valor, 09/10/2019) informa: o projeto de lei de liberalização cambial enviado pelo governo ao Congresso flexibiliza algumas restrições históricas do regime cambial brasileiro como a proibição de compensação privada de pagamentos ao exterior e a vedação de pagamentos em dólares em transações dentro do país. O objetivo é facilitar investimentos em infraestrutura e permitir maior integração das empresas às cadeias de produção global.

Essas duas regras remontam a década de 1930 e foram criadas para garantir o curso forçado da moeda nacional. Nos surtos inflacionários, foram essenciais para evitar a dolarização da economia, um mal capaz de afetar países vizinhos, como a Argentina. O governo “ultraliberal” diz não querer abrir mão disso.

A vedação à compensação privada impede uma empresa ter um valor a receber e uma valor a quitar com uma outra empresa no exterior fazer um encontro de contas, pagando ou recebendo a diferença. O sentido dessa vedação é impedir a desintermediação das operações de câmbio. Isso seria uma brecha para usar o dólar nas operações em vez de fechar o câmbio em real.

Hoje, há uma exceção a essa regra para o setor aéreo. Ela permite a empresas nacionais e estrangeiras compensarem o pagamento de passagens de brasileiros voando trechos em empresas estrangeiras e vice-versa.

A Lei no 13.506, de 2017, permitiu ao BC abrir exceções a essa regra para atender, por exemplo, empresas participantes de cadeias globais e, ao mesmo tempo, importando e exportando de suas matrizes. O BC, porém, até agora não abriu nenhuma exceção porque a lei de 2017 não previu mecanismos para a coleta de dados dessas operações para serem monitoradas. O projeto de lei de liberalização cambial preenche essa lacuna ao criar a obrigação de prestar informações. Continuar a ler

Remessas de Migrantes e Risco da Desglobalização

Estima-se 270 milhões de migrantes existirem no mundo. Somados, vão enviar um valor total de US$ 689 bilhões de volta a seus países natais neste ano, segundo projeção do Banco Mundial. A quantia representa um marco: neste ano, as remessas vão superar os investimentos estrangeiros diretos como maior fluxo de capital externo aos países em desenvolvimento.

Em outros tempos, as remessas eram vistas por muitos economistas como um fator secundário para os países emergentes, atrás dos investimentos estrangeiros diretos (IED) e dos investimentos em ativos. No entanto, em razão de sua resistência e natureza constante, esses fluxos são agora “o elemento mais importante no cenário em termos de financiamento ao desenvolvimento”, diz Dilip Ratha, chefe da Parceria Mundial de Conhecimento sobre Migração e Desenvolvimento (KNOMAD, na sigla em inglês), do Banco Mundial.

O número de pessoas no mundo que vivem fora de seu país de nascimento aumentou de 153 milhões, em 1990, para 270 milhões, em 2018, de acordo com o Banco Mundial, o que fez as remessas internacionais chegarem às alturas. Com o aumento da migração, essa movimentação financeira tornou-se uma das tendências que melhor definem a globalização dos últimos 25 anos – o lado humano, privado e informal dos fluxos de capitais internacionais.

Para muitos países em desenvolvimento, é uma tábua de salvação.

A reação contra a globalização tem aumentado e o sentimento anti-imigração cresce em muitos países desenvolvidos. É possível, portanto, tanto a migração quanto seus decorrentes fluxos de capital começarem diminuir.

Mas o Banco Mundial prevê: 550 milhões de pessoas entrarão nas forças de trabalho dos países de baixa e média renda até 2030. E a disparidade de renda entre os países desenvolvidos, US$ 43 mil per capita, e os de baixa renda, US$ 8 mil per capita, vai persistir. Então, as oportunidades de trabalho no exterior continuarão atraentes. A mão-de-obra sobra nos países pobres e vai faltar nos mais ricos.

A contradição da desglobalização é desejar livre fluxo de capital, mas proibir o livro fluxo de trabalho.

O aumento na migração tem um subproduto para a economia mundial que muitas vezes é esquecido: o crescimento das remessas feitas pelos migrantes. O envio de dinheiro para as economias de países emergentes caminha para superar os investimentos estrangeiros diretos (IED) como maior fonte de financiamento externo neste ano.

As remessas já representam o triplo do dinheiro enviado via programas oficiais de auxílio ao desenvolvimento. Isso traz tanto benefícios quanto riscos para os países receptores. Em vista do aumento dos fluxos, os riscos deveriam ser mais bem administrados, assim como também se deveria intensificar os esforços para que esse dinheiro seja usado para promover o crescimento.

As remessas são o lado humano dos fluxos globais de capital – os trabalhadores expatriados que enviam dinheiro às famílias em seu país natal. Os fluxos decolaram de pouco mais de US$ 100 bilhões, há 20 anos, para US$ 689 bilhões, em 2018, reflexo do enorme aumento no número de migrantes econômicos. Índia, China, México e Filipinas estão entre os países que tiveram os maiores fluxos de remessas em 2018, em termos de dólares. El Salvador e Honduras também receberam grandes volumes.

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