Desempenho das Empresas Não Financeiras

Fernando Torres (Valor, 02/08/18) informa: pela primeira vez desde 2011, as empresas de capital aberto brasileiras tiveram, na média, no primeiro trimestre de 2018, retorno sobre o patrimônio acima da taxa básica de juros. Isso significa que os negócios dessas empresas, no período de 12 meses até março, renderam mais do que a aplicação de renda fixa de menor risco do país. A informação consta de estudo do Centro de Estudos de Mercados de Capitais (Cemec).

O fenômeno se deu a partir de um movimento “positivo” das duas variáveis. O
retorno médio das empresas aumentou, chegando a 8,4% na última medição,
ao mesmo tempo em que a Selic, já descontada o Imposto de Renda, caiu para 7,1% no período de 12 meses até março.

Quando se adiciona um prêmio de 6% ao ano sobre a taxa básica em cada ano, para tentar chegar a uma aproximação sobre custo de capital próprio – dado que investir na economia real envolve mais risco do que comprar título público, o que pressupõe expectativa de rentabilidade maior -, a média dos retornos ainda está abaixo da linha d’água.

Porém, é crescente o percentual das empresas que consegue superar essa marca mínima de rentabilidade, considerada fundamental para a sustentabilidade de um negócio no longo prazo. Elas representavam 27% da amostra em 2016, 32% em 2017 e chegaram a 38% do total nos 12 meses encerrados e março, aponta o estudo do Cemec, órgão que hoje é associado à Fipe.

O diretor do Cemec, Carlos Antonio Rocca, diz seus estudos indicarem o retorno sobre patrimônio acima do custo de capital ser um dos dois indicadores mais correlacionados com a realização de investimentos pelas empresas – o outro é a projeção de crescimento do PIB em três anos à frente. Seria uma aproximação da expectativa de aumento da demanda. Continue reading “Desempenho das Empresas Não Financeiras”

Cenário para 2019: Mercado Interno e/ou Vocação Agrícola

Arícia Martins (Valor, 04/12/18) informa: o cenário de expansão mais forte da economia previsto para 2019 deve contar com maior poder de consumo segundo as projeções do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). A massa salarial ampliada disponível, soma de rendimentos do trabalho e benefícios governamentais, vai acelerar a alta de 1,5% para 2% entre este ano e o próximo, impulsionada pela leve melhora no mercado de trabalho.

Seriam R$ 9 bilhões, a preços de outubro de 2018. O cálculo engloba, além da combinação do salário médio real e do contingente de trabalhadores, a evolução dos ganhos de programas de proteção social, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e os benefícios previdenciários. Aliado ao fôlego maior na renda disponível, economistas avaliam: o menor endividamento e inadimplência das famílias, com juros ainda baixos, também contribuirá para avanço maior da demanda.

Não é possível projetar como será o comportamento dos benefícios previdenciários e assistenciais no próximo ano. Dependerão das diretrizes do novo governo. Mesmo assim, a massa tende a mostrar desempenho um pouco mais expressivo em razão da renda do trabalho. Representa 73% do total de rendimentos.

O curto voo-da-galinha, isto é, o baixo ímpeto da atividade — no cenário do Ibre, o Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer 1,5% em 2019 — deve propiciar pequeno aumento das contratações, assim como composição de maior qualidade do emprego, com alta na participação de vagas formais. Nas projeções da entidade, a taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, vai recuar para cerca de 11% na passagem de 2018 para 2019. Continue reading “Cenário para 2019: Mercado Interno e/ou Vocação Agrícola”

Distopia Brasileira

Ano de 2022. Os Estados Unidos do Brasil comemoram ter trocado as 27 estrelas de sua bandeira por apenas uma. Não cabia a 51ª. estrela na dos Estados Unidos da América. Oficialmente declarado Estado Livre Associado do Brasil, tal como Porto Rico, passou a ser um território não incorporado dos Estados Unidos das Américas (acrescentado), localizado na América do Sul. Acima da Pátria, só Deus – e acima de todos os EUA. Abaixo os 200 anos de independência! Seriam comemorados neste ano…

Seus habitantes não possuem representação no Congresso e nem participam das eleições presidenciais norte-americanas. Ao mesmo tempo, os brasileiros ganharam o status de cidadãos norte-americanos, sujeitos ao serviço militar e às leis federais, porém, têm o impedimento de lá trabalhar, dado o excesso de latinos em disputa de vagas de trabalho manual mal remunerado.

Dentro do acordo de servidão voluntária, o governador brasileiro continuará a ser nomeado para um mandato de quatro anos, escolhido na dinastia estabelecida pelo clã Bolsonaro. Garantidos pelo menos mais três mandatos, o único dissidente deste regime evangélico-militar foi o midiático ministro da Justiça, dado seu projeto de ser tornar governador desta nova colônia norte-americana. Certamente, um providencial encarceramento na República de Curitiba o levará à voluntária autocrítica.

De 2018 a 2022, a política brasileira foi dominada por um partido defensor da associação voluntária com os EUA. O PSL, favorável à transformação do Brasil em estado norte-americano, ganhará em troca pelo menos mais três nomeações para governador. Aliás, o sistema partidário é uma excrescência, dada a demasiada quantidade de partidos, foi fragmentado em excesso, tornou-se uma superfluidade. Desequilibra a harmonia de um todo dominado pelas quatro bancadas de interesses (BBBB) sem fidelidade partidária.

Desde a campanha de 2018, o projeto foi apresentado, de maneira límpida, tornando desnecessária a perda de tempo em debatê-lo: criar um quadrúpede chamado Brasil apoiado por quatro patas. Para ganhar a eleição, as duas patas dianteiras: bíblia e bala, tendo na retaguarda o boi e a banca. Para governar, trocam de posições, ficando na linha-de-frente o agronegócio e os bancos de negócios, e colocando o projeto sob a garantia ou do evangelismo ou do armamentismo. As quatro bancadas foram contempladas em seus interesses corporativos via nomeações. Continue reading “Distopia Brasileira”

Viva México: Pobre México tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos

Assisti várias séries no Netflix filmadas no México. A última foi Narcos: México sobre o Cartel de Guadalajara. Será este o futuro do Brasil com o crime organizado relacionado ao narcotráfico entranhado no aparelho de Estado, inclusive dominando a casta da farda?

Marsílea Gombata (Valor, 17/07/18) informa: desde a implementação do Nafta, a economia mexicana sofreu uma profunda transformação, na qual o petróleo tem cada vez menos peso e os setores de indústria e serviços crescem.

Petróleo bruto e derivados correspondiam em 1995 a 9% das exportações do México e hoje não chegam a 4%, de acordo com o Atlas de Complexidade Econômica, da Universidade Harvard. Produtos manufaturados atualmente respondem por 70% do total exportado. Os EUA são destino de 80% das exportações mexicanas.

O setor de serviços, cada vez mais proeminente, é hoje responsável por 60% do PIB. Os ramos mais importantes são os setores financeiro, de turismo e transporte voltado para o comércio exterior.

Relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), do início do mês, mostra que nas últimas décadas, a estrutura produtiva do México passou por mudanças orientadas por políticas públicas, nas quais a manufatura destinada à exportação foi a principal protagonista.

Apesar de o início da orientação exportadora do México estar associada a programas de fomento industrial com as indústrias “maquiladoras”, depois da adesão do México ao Gatt e a abertura comercial impulsionada pelo Nafta, o setor manufatureiro começou a ser o principal destino de investimentos estrangeiros. O documento destaca que entre 2010 e 2017, o setor manufatureiro, em especial a indústria automotiva, eletrônica e aeroespacial, foi responsável por 54% das entradas de investimento estrangeiro direto (IED). Continue reading “Viva México: Pobre México tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”

Guerra Comercial entre EUA e China

Andre Soares é non-resident fellow do Adrianne Arsht Latin America Center do Atlantic Council e ex- Coordenador do Conselho Empresarial Brasil-China. Alerta para o Brasil, como um dos maiores beneficiados deste embate comercial entre EUA e China, estar atento ao transcorrer desta guerra comercial.

“Antes de entrar nos impactos no Brasil, vale a pena entender o que já está na mesa. Desde o início da guerra comercial, os EUA impuseram um aumento de tarifas de 10% a US$ 250 bilhões em importações, o que representa quase 50% do total das importações vindas da China. Além disso, os americanos têm demonstrado grande preocupação com o avanço chinês em segmentos de alta tecnologia, como robótica, inteligência artificial e comércio digital. Para tentar conter os chineses, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, sigla em inglês) tem se utilizado da seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que prevê sanções para empresas e governos que tenham causado algum dano à economia americana.

Na última atualização de sua investigação contra os chineses, o USTR ampliou ao escopo de causas de danos na economia americana a alegação de que a China tem roubado e manipulado os direitos de propriedade intelectual de empresas americanas, assim como forçado as empresas americanas presentes na China a transferir tecnologia para empresas chinesas. Esta atualização também ataca os investimentos chineses no exterior e suas aquisições de empresas europeias de tecnologia.

Apesar do relatório ainda não indicar claramente que tipo de sanções seriam impostas contra as empresas chinesas, ele estabelece as bases legais para os americanos imporem restrições à atuação das empresas de tecnologia chinesas no exterior, restringindo assim seu catch-up tecnológico e avanços em mercados desenvolvidos. Também neste sentido, o governo americano buscou modernizar a atuação do Comitê de Investimentos Estrangeiros dos EUA, que agora possui abrangência para vetar projetos de fusão e aquisição de empresas estrangeiras que possuam participação minoritária em empresas americanas. Esse é um mecanismo para barrar o ingresso do capital chinês em fundos de venture capital e startups do Vale do Silício. Continue reading “Guerra Comercial entre EUA e China”

Protecionismo e Riscos de Ruptura das Cadeias Globais de Valor

Outros países veem os EUA como um modelo. Se o protecionismo for o novo modelo, todos os países também começarão a agir do mesmo modo.

Trump mudou por completo a política comercial de Washington desde quando assumiu o cargo no começo de 2017, impondo tarifas sobre aliados estratégicos como o Canadá, Japão e União Europeia, e lançando os EUA em um confronto comercial com a China. Trata-se de um grande contraste com os esforços de seus antecessores, incluindo George W. Bush e Barack Obama, de conduzir o mundo em direção a um comércio mais aberto.

Bush entendia o protecionismo prejudicar os interesses dos EUA. Hoje, predomina a visão contrafactual e revisionista do presidente Trump de os EUA serem vítimas, em vez de beneficiários, da globalização e dos mercados abertos.

Entre as maiores economias do mundo, o Brasil é a menos afetada em termos de emprego pela intensificação da guerra comercial, deflagrada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, segundo levantamento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em seu “Interim Economic Outlook Forecasts“, a OCDE alerta que as tensões comerciais, com a imposição de sobretaxas, seguidas de medidas retaliatórias, já começaram a elevar os custos, e que sua intensificação prejudicará investimentos, crescimento e empregos.

A entidade fez uma comparação entre as maiores economias, envolvendo o emprego (na indústria e nos serviço) dependente da demanda final estrangeira. Continue reading “Protecionismo e Riscos de Ruptura das Cadeias Globais de Valor”

“Chinalização” da Pauta Exportadora Brasileira e Risco de Submissão aos EUA

Marta Watanabe e Álvaro Fagundes (Valor, 12/11/18) avaliam: a disputa comercial liderada pelo americano Donald Trump contra a China já é sentida pelo Brasil. O país nunca foi tão dependente das exportações para o país asiático como neste ano.

Os chineses, de janeiro a outubro de 2017. já respondiam pela compra de 22,5% dos embarques brasileiros. Ampliaram a fatia para 26,8% nos dez primeiros meses deste ano.

Como resultado do conflito comercial com os EUA, a China comprou mais produtos básicos brasileiros (grãos, carnes e minério, por exemplo). Quase metade deles (47,7%, ou US$ 47,3 bilhões) foi para o país asiático, no acumulado até outubro, um avanço de 6,1 pontos percentuais em relação a igual período do ano passado. O desempenho fez os chineses aumentarem sua vantagem como maior parceiro comercial do Brasil. Os EUA, segundo lugar nas exportações, têm menos da metade: 12%.

Desde 2001, as exportações de commodities não estavam tão concentradas em um único destino. Naquele ano, a União Europeia respondeu por 50,6% das vendas brasileiras de commodities, que somaram US$ 13,2 bilhões no período, mas em uma pauta muito menor. As commodities já representam US$ 99,2 bilhões das vendas de janeiro a outubro deste ano.

As exportações totais para os chineses aumentaram em 28,8% neste ano (para US$ 53,2 bilhões), ritmo muito maior que os 8,5% no total das exportações – sem os chineses, a alta foi de 2,6%. A maior dependência vem num momento de tensão nas relações sino-brasileiras em razão das declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, que durante a campanha demonstrou que vê com restrições os investimentos chineses. Continue reading ““Chinalização” da Pauta Exportadora Brasileira e Risco de Submissão aos EUA”