Pós-Golpe: Afundando em Poço sem Fundo

Sergio Lamucci (Valor, 22/06/2020) informa: a produtividade na economia brasileira caiu com força no primeiro trimestre deste ano, recuando 1,7% em relação ao mesmo período de 2019, a maior queda desde a baixa de 2,6% do quarto trimestre de 2015. A queda já reflete o impacto da pandemia da covid-19. Ela agravou o quadro de retração da produtividade total dos fatores (PTF) iniciado no começo de 2018, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

“A paralisação da economia decorrente da pandemia resulta em perdas imediatas na eficiência do processo produtivo, com consequente redução da PTF”, diz o economista Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV. “No Brasil, como as medidas de distanciamento social só começaram a ser implementadas na segunda quinzena de março, os efeitos da pandemia sobre a produtividade não foram plenamente captados no indicador do primeiro trimestre.” Para ele, a PTF terá mais uma queda forte no segundo trimestre, provavelmente maior que a do primeiro.

Medida da eficiência com que os fatores capital e trabalho se transformam em produção, a PTF tem registrado desempenho muito ruim no Brasil, apontando dificuldades para um crescimento a taxas mais altas de modo sustentado. Com o fim do bônus demográfico (o período quando a população em idade ativa cresce acima da população total), “a única forma de aumentar a renda per capita do Brasil nas próximas décadas será por meio da elevação da produtividade”, destacam, em nota, Veloso e os economistas Silvia Matos e Paulo Peruchetti, também pesquisadores do Ibre/FGV.

Na recessão do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016, a PTF teve um desempenho muito negativo, recuando em todos os 11 trimestres do período de retração econômica. Em 2017, a produtividade subiu, crescendo a uma média de 0,45% por trimestre. Em 2018, porém, o indicador voltou ao vermelho, e desde então já amargou nove trimestres consecutivos em queda.

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Perspectivas Péssimas segundo o FMI

Sérgio Tauhata (Valor, 26/06/2020) informa: o mercado financeiro e a economia real vivem um momento de desconexão, aponta o Fundo Monetário Internacional (FMI) em sua atualização do divulgada no dia 25 de junho [download abaixo]. De acordo com o diretor do departamento de mercado de capitais e monetário do órgão, Tobias Adrian, e do diretor associado Fabio Natalucci, uma reversão súbita do otimismo atual dos investidores diante de um agravamento da crise pode amplificar os riscos à retomada da atividade.

Os investidores têm mantido um grande apetite ao risco e “parecem estar apostando em um apoio forte e duradouro dos bancos centrais que irá sustentar uma rápida recuperação, ainda que os dados econômicos apontem para uma recessão mais profunda que a esperada”, avaliam. Os especialistas compararam a situação a um cabo de guerra entre mercados e o mundo real.

O problema, alerta a dupla, é as incertezas sobre o cenário da pandemia ainda estarem muito altas. Inúmeros fatores poderiam levar a uma frustração das expectativas de investidores, o que amplificaria os riscos à própria recuperação econômica após a pandemia, se ocorrer uma grande correção nos preços de ativos.

Segundo Adrian e Natalucci, “a recessão pode ser mais profunda e longa do que a antecipada atualmente pelos investidores”. Além desse cenário, os diretores do FMI alertam para uma eventual possibilidade de ocorrer uma segunda onda de infecções pelo coronavírus e, como consequência, trazendo mais medidas de contenção.

Tensões geopolíticas e uma disseminação de uma inquietação social em resposta ao aumento da desigualdade podem levar a uma reversão do atual sentimento dos investidores. “E finalmente, as expectativas sobre a extensão do suporte dos BCs globais podem se revelar excessivamente otimistas, levando os investidores a reavaliar o apetite e a precificação do risco.”

Com o otimismo injetado pelos BCs globais, que já expandiram os balanços em mais de US$ 6 trilhões, o mercado acionário voltou a passar por um rali, após as fortes quedas de fevereiro e março. Segundo os economistas do FMI, os níveis de preços voltaram aos vistos em janeiro, enquanto os spreads de crédito reduziram significativamente.

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Menos da metade (49,5%) da população em idade para trabalhar (14 anos ou mais) ocupada

Bruno Villas Bôas (Valor, 01/07/2020) avalia: embora os falsos propagandistas dizerem abril ter sido o “fundo do poço”, em diferentes setores da economia o “poço está sem fundo”!

A crise do mercado de trabalho se aprofundou no trimestre móvel encerrado em maio, quando 7,8 milhões de pessoas perderam suas ocupações. Pela primeira vez na série temporal da PNADC, desde 2012, menos da metade (49,5%) da população em idade para trabalhar (14 anos ou mais) estava ocupada.

Segundo economistas, os sinais não são de melhora do emprego nos próximos meses. Mesmo se a flexibilização do isolamento social permitir uma retorno dos informais às ruas, a expectativa é de mais dispensas nas empresas nos próximos meses ou, na melhor das hipóteses, de uma estabilização.

Dados divulgados pelo IBGE mostram a população ocupada – empregados, empregadores, conta própria, servidores – era de 85,9 milhões no trimestre até maio de 2020, queda de 8,3% frente aos três meses anteriores. Houve uma perda de 7,8 milhões de vagas. É o pior resultado da série histórica, iniciada em 2012.

O destaque negativo foi a perda de 1,98 milhão de ocupações no comércio, o que representa redução de 11,1% ante os três meses anteriores. Mas outras atividades tiveram perdas expressivas, como indústria (-1,23 milhão de postos), construção (-1,08 milhão) e serviços domésticos (-1,17 milhão).

Apesar dos resultados tão negativos, a taxa de desemprego do país cresceu relativamente pouco: de 11,6% no trimestre até fevereiro para 12,9% no trimestre até maio, por causa do desalento. O país tinha 12,9 milhões de desempregados.

Segundo economistas, a taxa de desemprego do país não mostrou a realidade do mercado de trabalho. O IBGE segue metodologias internacionais e não há nada de errado com seus cálculos. Para o órgão, desempregado é quem procura trabalho e não encontra. O problema é que a quarentena dificulta ou impede essa busca. Nos cálculos da MCM Consultores, sem essa marcha para fora da força de trabalho, o desemprego teria atingido 20 milhões de pessoas e a taxa estaria em 18,9%.

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Falso Dilema: Vida acima do Pleno Emprego

Malu Delgado (Valor, 15/06/2020) informa: o Brasil vai agonizar por um longuíssimo período, com mortes diárias por covid-19, pelo fato de não ter adotado uma política pública mais radical de isolamento social. Praticamente todos os Estados anunciam processos graduais de retomada da atividade econômica, incluindo São Paulo. O alerta é feito pelo economista, professor do Insper e formulador de políticas públicas com base em evidências, Ricardo Paes de Barros. Ele recorre sempre aos números para argumentar: a escolha brasileira não é o melhor caminho.

Principal formulador do programa Bolsa Família, ele preparou estimativas que mostram qual seria o cenário do país se nenhuma política pública de distanciamento social fosse adotada. Considerando essa hipótese, o Brasil teria em torno de 325 mil mortes em um ano – cálculo baseado na atual média diária de óbitos.

Todas as evidências apontam, segundo o economista: “a melhor coisa para a saúde e para a economia é o maior nível de isolamento social possível, de tal maneira que se reduza a taxa de transmissibilidade para o nível mais baixo possível”. Ele afirma não compreender como os gestores brasileiros ignoram as evidências e as experiências exitosas – e as de fracasso – em várias partes do mundo.

Para chegar aos números, Paes de Barros considera a taxa de contágio (R0) igual a 4 (R0 = 4). Quer dizer: cada indivíduo contaminado tem potencial para transmitir o vírus a outros quatro. Esse indicador é adotado (o R basal), porque está muito próximo da capacidade real de transmissibilidade do vírus, considerando a taxa de contágio da síndrome respiratória aguda grave (Sars) é de 3,5 pessoas contaminadas por portador do vírus.

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Mau Caráter de “Gente de Bem”: ⅓ das Famílias das Classes AB

A recessão provocada pela pandemia de covid-19 vai reduzir o nível da renda per-capita no Brasil se comparada à da maioria dos países, mostra levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), com base nas projeções mais recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI).

De acordo com o levantamento, o PIB per capita brasileiro – divisão do Produto Interno Bruto (PIB) pela população total – deve recuar para US$ 13.602 neste ano, 5,9% abaixo do ano passado. O valor leva em conta o critério de paridade de poder de compra (PPP, na sigla em inglês).

O resultado será pior do que 63% dos 192 países com previsões de PIB per capita acompanhados pelo FMI. Apesar disso, a posição do país no ranking global de PIB per capita pouco vai se alterar, passando da 87a posição em 2019 para 85a posição em 2020 entre 192 países.

A queda prevista para o PIB per capita brasileiro será mais intensa comparada às dos países emergentes como Rússia (-5,3%) e Colômbia (-3,3%), por exemplo. Outras economias podem mesmo crescer a renda per capita como China (+0,9%) e Índia (+0,5%).

O quadro se revela mais dramático sobretudo nos países desenvolvidos mais afetados pelo coronavírus. Projeções do FMI analisadas pelo pesquisador apontam para recuo mais intenso do PIB per capita da Itália (-8,9%), Espanha (-8,4%) e Estados Unidos (-6,4%). Continuar a ler

PIB: Correlação com Consumo das Famílias

O Produto Interno Bruto (PIB) apresentou retração de 1,5% no primeiro trimestre de 2020 (comparado ao quarto trimestre de 2019), na série com ajuste sazonal. Na comparação com igual período de 2019, o PIB teve variação negativa de 0,3%. No acumulado nos quatro trimestres, terminados em março de 2020, registrou aumento de 0,9%, comparado aos quatro trimestres imediatamente anteriores.

Período de comparação Indicadores
PIB AGROPEC INDUS SERV FBCF CONS. FAM CONS. GOV
Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal) -1,5% 0,6% -1,4% -1,6% 3,1% -2,0% 0,2%
Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior (sem ajuste sazonal) -0,3% 1,9% -0,1% -0,5% 4,3% -0,7% 0,0%
Acumulado em quatro trimestres / mesmo período do ano anterior (sem ajuste sazonal) 0,9% 1,6% 0,7% 0,9% 3,0% 1,3% -0,4%
Valores correntes no 1º trimestre (R$) 1,8 trilhão 119,7 bilhões 305,5 bilhões 1,1 trilhão 285,1 bilhões 1,2 trilhão 343,5 bilhões
Taxa de investimento (FBCF/PIB) no 1° trimestre de 2020 = 15,8%
Taxa de poupança (POUP/PIB) no 1° trimestre de 2020 = 14,1%

Em valores correntes, o PIB no primeiro trimestre de 2020 totalizou R$ 1,803 trilhão, sendo R$ 1,538 trilhão referente ao Valor Adicionado (VA) a preços básicos e R$ 265,0 bilhões aos Impostos sobre Produtos líquidos de Subsídios.

No primeiro trimestre de 2020, a taxa de investimento foi de 15,8% do PIB, acima da observada no mesmo período de 2019 (15,0%). O material de apoio das Contas Nacionais Trimestrais está à direita desta página.

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Emenda Constitucional 106/2020: “Orçamento de Guerra”

Jairo Saddi é Doutor em Direito Econômico pela USP. Pós-Doutorado pela Universidade de Oxford, Bacharel em Direito pela FDUSP, Administrador de Empresas pela FGV-SP. Ele comenta a nova emenda autorizando o Banco Central a comprar e a vender ativos específicos em mercados secundários em artigo (Valor, 25/05/2020). Compartilho-o abaixo.

“É da maior importância o novo art. 7o, II, da Emenda Constitucional no 106/2020, que recentemente entrou em vigor, e trata da atuação excepcional limitada ao enfrentamento da calamidade pública nacional decorrente da pandemia causada pela covid-19, provocada pelo coronavírus (Sars-CoV-2), reconhecida pelo Decreto Legislativo no 6, de 20 de março de 2020 e com vigência e efeitos restritos ao período de sua duração.

A nova EC 106/20 autoriza o Banco Central a comprar e a vender ativos específicos em mercados secundários nacionais no âmbito de mercados financeiros, de capitais e de pagamento.

Bancos centrais de diversos países já detêm a prerrogativa de comprar ativos. Desde 2008, por exemplo, o Fed anuncia programas específicos de compra de ativos para estimular a economia. E, mesmo em tempos não-extraordinários, no curso normal da política monetária, o Fed chega a comprar mensalmente vários e vários bilhões em ativos e também em títulos do Tesouro Americano.

A chamada “operação Twist”, quando o Fed vende títulos públicos americanos com vencimentos curtos para financiar a compra de papéis com vencimento longo, é um bom exemplo disto.

No Brasil, desde a Carta de 1988, é expressamente proibida ao BC a aquisição de títulos do Tesouro Nacional ou a qualquer órgão ou entidade que não seja instituição financeira, facilmente explicável pelo histórico ruim de relações promíscuas no Estado. A vedação era forma de assegurar a estabilidade monetária que já era um objetivo a ser perseguido quando acabou a conta-movimento entre BC e Banco do Brasil, em 1986. Quando veio a Constituição de 1988, muitos defendiam o cumprimento do artigo 164 como premissa para a inflação desaparecer da história brasileira.

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Retorno = Custo de Capital Antes da Coronacrise

Hugo Passarelli (Valor, 25/05/2020) informa: pela primeira vez desde 2010, a taxa de retorno dos investimentos superou o custo de capital para as empresas de capital aberto, mostra levantamento com dados de 2019 do Centro de Estudo de Mercado de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

O resultado abriria espaço para que as companhias aumentassem a capacidade produtiva neste ano, ajudando a acelerar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), estacionado em 1% desde 2017. Mas a pandemia do coronavírus bagunçou as planilhas de custos e vai interromper a frágil recuperação econômica.

Segundo o Cemec, a taxa de retorno de companhias com capital aberto ficou em 11,3% no ano passado, acima do custo de capital (10,8%). Embora os dois itens tenham caído em 2019, o recuo foi mais intenso no segundo. O recorte considera os balanços das maiores empresas de capital aberto, sem Petrobras, Eletrobras e Vale. Com inclusão das três, o dado é um pouco menos favorável: o custo de capital foi de 10,6%, e o retorno, de 10,4%.

Em ambas as métricas, a sinalização era de as condições mais vantajosas para ampliar a capacidade produtiva estarem dadas. Mesmo assim, não foi o que se observou. No conjunto das companhias abertas e fechadas, o investimento foi equivalente a 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, queda ante os 3,86% registrados no ano anterior, revertendo a trajetória de recuperação observada desde 2017. Continuar a ler

Choque Cambial sobre Balanços de Empresas

Nelson Niero e Rita Azevedo (Valor, 18/05/2020) informam: a combinação do real desvalorizado com o início da pandemia cobrou uma conta alta das empresas brasileiras no primeiro trimestre. Foram R$ 21 bilhões em prejuízo, considerando-se 112 companhias de capital aberto que publicaram suas demonstrações financeiras até a manhã de sexta-feira. No mesmo período do ano passado, essas empresas tiveram juntas um lucro líquido de R$ 11,7 bilhões.

Para evitar uma distorção na análise, a amostra não inclui a Petrobras, que fez uma reavaliação gigantesca de seus ativos de exploração e produção depois da reviravolta nos preços dos petróleo e fechou o trimestre com prejuízo recorde de quase R$ 50 bilhões (ver Petróleo barato dá tônica de balanços). A mineradora Vale também ficou de fora por causa da baixa contábil que fez no primeiro trimestre de 2019, quando aconteceu o desastre em Brumadinho (MG).

O efeito do câmbio sobre as dívidas, um fator recorrente nas várias crises vividas pelo país na era do real – a maxidesvalorização de 1999 é o marco inicial -, voltou a desarrumar os balanços no trimestre em que o real desvalorizou-se quase 30% em relação ao dólar, moeda com a qual é fechada a maior parte dos contratos de dívidas externas das empresas.

Como a contabilidade tenta refletir com a maior fidelidade possível os fatos econômicos, a cada fim do período fiscal esse estoque de dívida é convertido em reais para ser apresentado nas demonstrações financeiras, “marcado” ao valor de mercado. Vencendo ou não naquele exercício, o valor é corrigido na totalidade. O efeito na maior parte se restringe aos livros, sem se materializar num dispêndio de caixa (ver reportagem abaixo), mas as manchetes assustam e o choque pode, sim, ter efeitos práticos, como forçar o vencimento antecipado de dívidas. Continuar a ler

Taxa de Câmbio / Taxa de Juros: Cupom Cambial

Alex Ribeiro (Valor, 14/05/2020) informa: o mais recente corte de juros feito pelo Banco Central foi o principal motor da forte subida do dólar ocorrida na semana passada, mostram cálculos do economista Livio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/ FGV), usando um modelo que decompõe os fatores que mexem na taxa de câmbio.

Mais do que isso: na semana passada, a cotação do dólar passou a responder com mais força do que o habitual à redução dos juros básicos da economia. Ou seja, um mesmo corte de juros passou a produzir uma desvalorização cambial maior (tecnicamente, aumentou a chamada elasticidade da taxa de câmbio ao diferencial entre os juros interno e externo).

Depois da última reunião do Copom, o diferencial de juros respondeu por 76% da alta do dólar, que passou de R$ 5,58 para R$ 5,73 entre os dias 5 e 8 de maio. Fatores domésticos deram uma contribuição de alta de 28%, enquanto que fatores globais ajudaram a atenuar a disparada do dólar, com uma contribuição de 4%.

Um eventual aumento permanente da sensibilidade da taxa de câmbio à queda de juros é uma das preocupações do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, segundo ata da sua última reunião, divulgada na última terça-feira. Os membros do colegiado discutiram limites dos cortes na taxa básica de juros nesta pandemia, entre eles eventuais efeitos da Selic nos preços de ativos financeiros.

A discussão tem repercussões práticas. Se o câmbio passou a responder de forma crescente aos cortes de juros, em tese o Banco Central poderá levar a inflação para a meta com uma queda menor na meta da taxa Selic. Continuar a ler

COVID 19 e o Fim do Individualismo

https://informationisbeautiful.net/visualizations/covid-19-coronavirus-infographic-datapack/

Diane Coyle é professora de Políticas Públicas da Universidade de Cambridge, e autora de Markets, State, and People: Economics for Public. Publicou artigo (Valor, 11/05/2020) interessante sobre a atual pandemia. 

“Aristóteles estava certo. Os seres humanos nunca foram indivíduos atomizados, mas seres sociais cujas decisões afetam outras pessoas. E agora a pandemia da covid-19 enfatiza este ponto fundamental: cada um de nós é moralmente responsável pelos riscos de contágio que criamos para os outros com o nosso comportamento.

Aliás, essa pandemia é apenas um dos muitos problemas que a humanidade enfrenta e exigem uma ação coletiva, tais como: mudanças climáticas; a perda catastrófica de biodiversidade; resistência a antibióticos; tensões nucleares alimentadas pela incerteza geopolítica crescente e até ameaças potenciais, como uma colisão com um asteroide.

Como a pandemia demonstrou, no entanto, não são esses perigos para a existência, mas as atividades econômicas cotidianas que revelam o caráter coletivo e conectado da vida moderna sob a fachada individualista de direitos e contratos.

Aqueles de nós que têm empregos de colarinho-branco e podem trabalhar em casa e trocar dicas sobre massa de pão somos mais dependentes do que imaginávamos dos trabalhadores de áreas essenciais, antes invisíveis, como faxineiros e médicos de hospitais, funcionários de supermercados, entregadores de encomendas e técnicos de telecomunicações que mantêm nossa conectividade.

Da mesma forma, os fabricantes dos novos produtos de primeira necessidade, como máscaras faciais e reagentes químicos, dependem de importações do outro lado do mundo. E muitas pessoas que estão doentes, autoisoladas ou subitamente desempregadas dependem da bondade de vizinhos, amigos e estranhos para conseguir sobreviver.

A parada repentina da atividade econômica sublinha uma verdade sobre a economia moderna e interconectada: o que afeta algumas partes de forma substancial afeta o todo. Essa rede de ligações, portanto, torna-se uma vulnerabilidade quando interrompida. Mas também é uma força, porque mostra mais uma vez como a divisão do trabalho deixa todos em melhor situação, exatamente como Adam Smith apontou há mais de dois séculos.

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