Boom de Commodities e Inflação Importada

Assis Moreira (Valor, 26/05/21) informa: o comércio internacional de mercadorias das maiores economias do mundo, participantes do G-20, atingiu um recorde em termos de dólares no primeiro trimestre de 2021, impulsionado pela alta dos preços das commodities.

Levantamento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE) mostra continuidade na recuperação, com as exportações e importações aumentando 8,0% e 8,1%, respectivamente, em valor entre janeiro e março deste ano comparado ao trimestre anterior. Somente o Reino Unido não teve crescimento no comércio global de mercadorias.

A depreciação do dólar e a alta nos preços das commodities desempenharam um papel na recuperação do comércio global de bens diz a OCDE. Os preços das commodities agrícolas, incluindo cereais e óleos vegetais, aumentaram mais de 10% no primeiro trimestre. Os preços dos metais também subiram.

Entre os maiores beneficiários dessa dinâmica estão a Argentina com aumento das exportações acima de 33,3% em valor, a Austrália alta de 17,5%, o Brasil de 14,7%, e a África do Sul de 17,3% – entre os maiores exportadores desses produtos dentro do G-20.

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Inflação nos EUA

Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro e assessor econômico de presidentes democratas, voltou a argumentar a atual perspectiva de política monetária do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) correr o risco de causar graves problemas. Ele criticou o recente interesse do banco central americano por mudança climática!

Summers, foi um dos candidatos ao cargo de presidente do Fed, perdeu a “boquinha” e tem destilado seu rancor desde então. Disse: as configurações de política monetária muito expansivas e sua decisão, no ano passado, de adiar a elevação das taxas de juros até a chegada da inflação, em vez de tomar providências para administrar uma ameaça teórica, poderão permitir uma explosão das pressões sobre os preços. Isso, por sua vez, obrigaria o banco central a adotar uma reação drástica de política monetária, afirmou.

No Fed, “projeta-se serenidade com relação à inflação”, disse Summers durante participação virtual em um simpósio realizado pelo Fed de Atlanta.

Summers também criticou duramente a investida do Fed sobre o espaço da política [de combate ao] aquecimento global. Para ele, o banco central deveria, em vez disso, se preparar para riscos mais palpáveis, como o representado pelo coronavírus e por outras possíveis ameaças à saúde.

O Fed transformou as preocupações com mudança climática em uma parte de seu trabalho de supervisão dos bancos, e quer garantir que as empresas financeiras consigam se empenhar no enfrentamento de eventos climáticos graves.

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Risco Hidrológico e Risco de Plano de Saúde: Ambos Mortais para a Inflação

Victor Rezende e Felipe Saturnino (Valor, 19/05/21) informam: com o risco de piora do quadro inflacionário no centro das atenções, o mercado tem adotado postura mais defensiva nas últimas semanas e colocado nos preços dos ativos níveis de inflação cada vez mais elevados tanto para este ano quanto para 2022. A procura por Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B) aumentou de forma significativa e levou o Tesouro Nacional a realizar ontem o maior leilão da história em termos de risco.

O maior risco colocado no mercado se deveu, principalmente, à venda de 1,5 milhão de NTN-Bs com vencimento em maio de 2055. Quanto maior o prazo, mais alto é o risco que o mercado tem de absorver, o que gera uma elevação dos juros. Ontem, as taxas futuras subiram, em um movimento de ajuste após o megaleilão de NTN-Bs.

Com a venda de papéis de longo prazo, o Tesouro colocou no mercado R$ 16,7 milhões em risco (dv01, métrica que ajuda a verificar a quantidade de risco que o mercado absorve). O aumento da demanda dos papéis atrelados à inflação vem, justamente, numa temporada em que os riscos estão em alta e têm impulsionado as taxas de inflação embutidas nos ativos.

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Grande Depressão Inflacionária

Lu Aiko Otta e Fabio Graner (Valor, 19/05/21) informam: mesmo após uma década de baixo crescimento econômico e com a atividade impactada pela pandemia, o Brasil encontra-se no momento sob risco de escassez de energia elétrica e alta no preço. O risco hidrológico foi apontado pelo secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, como um elemento que pode elevar a inflação e atrapalhar a recuperação da economia e soma a outros riscos para este ano, como a pandemia e a própria questão fiscal.

“Significa que temos um problema não só conjuntural de chuvas, mas também estrutural que precisa ser endereçado”, disse. Esse quadro reforça a importância da agenda de concessões, privatizações e aprovação de marcos legais mais eficientes, argumentou o secretário.

Em momento quando se debatem, no mundo inteiro, estratégias para reativar a atividade no pós-pandemia, a incompetente equipe econômica reafirma a estratégia imbecil de insistir na consolidação fiscal e nas reformas pró-mercado, como faz o governo de Jair Bolsonaro. “Essa é a nossa garantia que um choque transitório será apenas transitório e que poderemos retomar o patamar pré-crise de maneira sustentável”, repete a ladainha neoliberal.

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Lucros: Bancos versus Empresas Não-Financeiras

Álvaro Campos (Valor, 19/05/21) informa: os grandes bancos lidaram com a pandemia de coronavírus melhor do que se esperava quando a crise começou, em março de 2020. Um ano depois dos primeiros impactos nos balanços, o lucro subiu fortemente – impulsionado pela queda nas provisões de crédito, é verdade -, mas a margem financeira começa a dar sinais de melhora.

Daqui para a frente, o maior desafio será recuperar as receitas de prestação de serviços, que já vinham pressionadas pelo aumento da concorrência e agora sentiram também o baque das medidas de isolamento social.

Os dez maiores bancos do país em termos de carteira de crédito tiveram lucro líquido de R$ 38,6 bilhões no primeiro trimestre, alta de 52,8% quando comparado ao mesmo período do ano passado. A carteira de crédito teve expansão de 8,9%, chegando a R$ 4,2 trilhões. O levantamento feito pelo Valor contempla dados de Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Santander, BNDES, Safra, BV, BTG e Banrisul.

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Revisão nas Estatísticas do Comércio Exterior

Alex Ribeiro (Valor, 04/05/2021) informa: o Brasil caminhava para registrar o primeiro superávit em conta corrente desde 2007, mas uma revisão nas estatísticas do comércio exterior mostrou que as importações são maiores do que se estimava e o ganho na balança comercial, menor.

A projeção oficial do Banco Central (BC) é de um superávit em conta corrente de US$ 2 bilhões. É quase um número de equilíbrio, mas, de qualquer forma, em terreno positivo. As estimativas da autoridade monetária foram feitas quando o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses até fevereiro estava calculado em US$ 6,9 bilhões, ou 0,48% do PIB. Com a revisão estatística, porém, passou a ser de US$ 18,1 bilhões, ou 1,26% do PIB.

Grande parte dessa revisão está ligada à mudança na maneira como a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) calcula as importações. Uma das alterações mais significativas foi feita no chamado Recof, um regime especial de importação de produtos que serão usados pra fabricar outros itens exportados ou destinados ao mercado interno.

Com isso, as importações ficaram cerca de US$ 10 bilhões maiores a cada ano (foram US$ 10,4 bilhões de Recof em 2020), reduzindo o superávit no balanço comercial na mesma magnitude. Também houve impacto, menor, de mudanças nas regras de contabilização das importações de energia de Itaipu.

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Economia dos EUA não está superaquecida: sem Inflação de Demanda, mas sim de Custos

J. Bradford DeLong ex-secretário adjunto do Tesouro dos EUA, é professor de economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador associado do Departamento Nacional de Pesquisa Econômica. Em artigo (Valor, 05/05/21) critica os neoliberais pregadores da inflação de demanda por conta de pressuposto aquecimento excessivo da economia norte-americana.

Nos últimos tempos, o noticiário financeiro e econômico nos Estados Unidos esteve dominado por preocupações sobre a inflação. “A inflação fora de controle é o maior risco para os investidores”, alerta Jim Paulsen, do Leuthold, segundo o canal de TV a cabo CNBC. Como potencial proteção contra a inflação, “a hora do bitcoin está chegando depressa”, relata Robert Hackett, da Fortune.

Segundo o Relatório de Notícias dos EUA e do Mundo, “muito tem se falado de inflação em 2021, à medida que os temores de gastos públicos elevados espreitam e a recente retomada de preços aos níveis pré-pandêmicos vêm alarmando alguns investidores para a possibilidade de que a tendência continue durante algum tempo”.

No entanto, também é possível ler que “os rendimentos do Tesouro dos EUA se mantêm firmes mesmo com a inflação se recuperando”. Após crescer a um índice anualizado de 33,4% no terceiro trimestre de 2020, 4,3% no quarto trimestre e 6,4% no primeiro trimestre deste ano, a economia americana está a caminho de uma recuperação plena.

A expectativa é que o índice de crescimento do segundo trimestre seja de ao menos 8%, e talvez até significativamente maior, o que significa que a economia dos EUA, em termos agregados, terá retornado completamente a seu nível de produtividade pré-pandemia até o terceiro ou quarto trimestre deste ano.

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Real: Moeda mais Descolada de Commodities

Felipe Saturnino e Marcelo Osakabe (30/04/21) informam: a pandemia interrompeu um comportamento padrão da economia global: a tendência das moedas de países exportadores de commodities se valorizarem acompanhando a alta dos preços das matérias-primas no mercado. Desde o início da crise da covid-19, houve um claro descasamento entre as divisas ligadas a essas mercadorias e o recente “boom” desses produtos, algo verificável tanto entre os países desenvolvidos quanto os emergentes.

Dentro desse último grupo, o real se destaca negativamente: a moeda brasileira mais se descolou das cotações das commodities, de acordo com estudo do Itaú Unibanco.

De acordo com a instituição financeira, a crise do coronavírus interrompeu o movimento sincronizado entre commodities e moedas de exportadores, tendo gerado, por um lado, restrições temporárias de oferta. E, de outro, afetando a perspectiva de crescimento e o fundamento fiscal dos países, que passaram a depender cada vez mais da evolução da pandemia e do cenário de vacinação.

O levantamento considerou as divisas cujos desempenhos estão amplamente relacionados aos insumos básicos, as chamadas “commodity currencies”, que incluem ainda o peso chileno, o peso colombiano, o rand sul-africano e o rublo russo, entre os emergentes, e o dólar canadense e o dólar australiano, entre os desenvolvidos.

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Capacidade Ociosa e Falta de Insumos na Indústria

Esther Dweck é professora do Instituto de Economia da UFRJ. Ex-Secretária do Orçamento Federal. Marília Bassetti Marcato é professora do Instituto de Economia da UFRJ. Publicaram (Valor, 05/04/2021) importante artigo sobre a capacidade ociosa e a falta de insumos na indústria. Compartilho-o abaixo.

“A flutuação do grau de utilização da capacidade instalada é um fenômeno típico do ciclo econômico, desdobrando-se em um indicador do nível de atividade econômica e da dinâmica dos investimentos privados. Operar com alguma margem desejada de capacidade ociosa cumpre a função de fazer frente às flutuações na demanda e também possui papel estratégico até mesmo para manipulação de preços em mercados oligopolizados.

No Brasil, o ritmo lento da atividade econômica deteriorou-se ainda mais na pandemia, com contração do PIB de 10,9% no segundo trimestre de 2020 e queda no valor adicionado da indústria de transformação de 20,9% em relação ao mesmo período de 2019. A consequência dessa contração foi uma forte queda no grau de utilização da capacidade instalada da indústria, atingindo o nível de 57,3% ou 66,5% em abril de 2020, de acordo com as séries da FGV e CNI.

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Desempenho das Sociedades Anônimas em 2020: Perdas em Ações de Bancos

Nelson Niero, Rita Azevedo e Ana Luiza de Carvalho (Valor, 05/04/2021) informam: as empresas brasileiras de capital aberto atravessaram uma das piores crises da história com seus balanços inteiros. Houve vítimas graves, mas tomada em conjunto a situação, em dezembro, era melhor do que no fim de 2019, antes do início da pandemia que já matou mais de 2,8 milhões de pessoas no mundo e continua a ser uma ameaça à economia, principalmente dos países mais pobres.

A amostra de 339 empresas mostra, no geral, elas estarem preparadas, pelo menos em termos financeiros, para enfrentar a nova e mais dura onda da pandemia. O quarto trimestre já havia sido excelente e janeiro e fevereiro mantiveram o ritmo, até que a piora da crise em março trouxe novamente a incerteza sobre a volta à normalidade.

Juntas, essas companhias somaram R$ 2,07 trilhões em vendas em 2020, R$ 240 bilhões de lucro operacional e R$ 60 bilhões de lucro líquido (ver tabela). Petrobras e Vale foram excluídas para reduzir as distorções – só no quarto trimestre, a estatal teve, sozinha, lucro de R$ 59,89 bilhões, o equivalente ao de todas outras empresas no ano.

Exportações, produtos com preços dolarizados e auxílio emergencial do governo, que sustentou o consumo interno, foram fatores que deram a essas companhias de setores diversos o impulso necessário para fechar 2020 com uma receita de vendas 10% maior do que a obtida em 2019, batendo com folga a inflação de 4,52% do ano passado.

O Valor acompanha, desde 2000, os resultados das companhias com ações em bolsa. Com certa regularidade, essas empresas não costumam ficar longe desses dois dígitos, sem considerar a inflação. No pior momento, em 2016, ano do golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff e de queda de 3,6% no Produto Interno Bruto (PIB), as vendas da amostra de empresas da época cresceram 1,5%.

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Ajuste Fiscal ou Elevação do Emprego por Gastos Públicos Produtivos: Neoliberais X Desenvolvimentistas

Leia:

IPEA – Substituição da captação de Dados do CAGED pelo e-Social mar 2021

Economistas de O Mercado se mostram indiferentes ao drama social da elevada desocupação e só demandam ajuste fiscal. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), considerada pela maior parte dos analistas o principal indicador de solvência do setor público, atingiu o patamar de 90% do Produto Interno Bruto (PIB) pela primeira vez na história. Em fevereiro, o indicador ficou em R$ 6,744 trilhões, que corresponde justamente a 90% do PIB. No mês anterior estava em 89,4%. Os números foram divulgados pelo Banco Central (BC), cuja metodologia usada atualmente para o indicador teve início em 2008.

Depois de uma pequena queda, de menos de um ponto percentual, em 2019, a dívida bruta voltou a subir muito no ano passado. A alta foi puxada por fatores ligados à pandemia, como gastos extraordinários e menor arrecadação decorrente da recessão. Em 2020, o indicador subiu mais de 14 pontos percentuais, de 74,3% para 88,8%.

Embora também siga em patamar elevado, a dívida líquida do setor público vem em trajetória oposta à da bruta neste começo de ano, apresentando ligeira queda. De maneira simplificada, para calcular a dívida líquida, são descontadas da dívida bruta as reservas internacionais.

Entre janeiro e fevereiro, o indicador caiu de 62,7% para 61,6%. O recuo foi consequência principalmente da desvalorização cambial de 6,4% no período. Isso porque, com a depreciação do câmbio, as reservas internacionais ganham valor quando medidas em reais.

De forma geral, economistas fiscalistas, ortodoxos e neoliberais só têm mostrado preocupação com o alto grau de envidamento público do Brasil. Pensam o contrário dos economistas keynesianos, heterodoxos e desenvolvimentistas: estes propõem investimentos públicos produtivos para recuperar renda e emprego, por consequência, aumentar a arrecadação fiscal. Os neoliberais desconhecem o beabá keynesiano!

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Especulação com Ações de Exportadoras por conta do Ciclo de Commodities

Olívia Bulla (Valor, 05/04/21) avalia: uma década depois do último superciclo das commodities, em vigor de 2002 a 2011, a bolsa brasileira se prepara para uma nova temporada de alta dos preços dos insumos básicos, antecipando uma forte recuperação econômica global, sustentada pela China. Mas o novo boom de matérias-primas terá características diferentes, devido às “ambições verdes” do país asiático.

O foco de Pequim na agenda ESG (de melhores práticas ambientais, sociais e de governança) tende a provocar efeitos distintos em diferentes segmentos no mercado acionário local. A primeira impressão é a de a recente alta nos preços do petróleo, do minério de ferro, da soja e do milho, somada à resposta do governo chinês para a retomada da atividade pós-pandemia, resultar no consumo crescente e prolongado de commodities industriais.

Porém, é preciso antes compreender o novo estágio de desenvolvimento econômico chinês. A China deve crescer mais de 6% neste ano, abaixo da previsão de crescimento da economia americana, de 8%, no mesmo período. A China reduziu a importância em relação à meta de expansão do Produto Interno Bruto (PIB). O crescimento econômico continua sendo importante, mas a velocidade não parece ser tão importante quanto antes.

Afinal, a China já não é mais a mesma de dez anos atrás. “Não é aquela que consumia uma insanidade de commodities”, explica o diretor da gestora do banco Fator, Paulo Gala. Ele lembra: no último superciclo, o PIB chinês crescia mais de 10% ao ano, com forte demanda da metalurgia para a construção de projetos de infraestrutura, de transporte ferroviário e urbanização das cidades. “Isso hoje já está construído e a demanda chinesa [por matérias-primas] não é mais tão intensiva”, afirma.

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