Crédito dirigido pela Demanda Efetiva

Maurício Furtado (Valor, 24/04/19) publicou artigo sobre a relação entre crédito e atividade econômica. Reproduzo-o abaixo, advertindo o crédito ser dirigido pela demanda, ou seja, só haverá oferta de crédito efetivada se houver demanda por ele.

A demanda de crédito de PJ, quando não for para capital de giro e sim para investimento, depende de:

  1. grau de endividamento para alavancagem financeira (“princípio do risco crescente”),
  2. ritmo de vendas (expectativa de lucro),
  3. grau de utilização ou ociosidade da capacidade produtiva,
  4. inovação tecnológica e
  5. fatores demográficos.

Para PF, o endividamento depende de:

  1. “prestação caber no bolso” (juros e prazo face à renda esperada),
  2. ameaça de desemprego,
  3. necessidades básicas,
  4. consumismo para mobilidade e/ou status social.

No entanto, a demanda de crédito habitacional para PF, em caso de déficit habitacional, é perene. Da mesma forma, uma política pública de financiamento da concessão de serviços de utilidade pública em infraestrutura (mobilidade urbana, logística em transportes fluviais, rodovias, portos e aeroportos — e energia) é necessária em um planejamento estratégico para a economia brasileira retomar um crescimento sustentado. Continuar a ler

Motores do Crescimento rateando: Consumo, Investimento e Exportação em baixa

Sem uma injeção extra de recursos na renda, como ocorreu via FGTS e PIS-Pasep nos últimos anos, o poder de consumo das famílias deverá crescer lentamente neste ano, se não há a recuperação do emprego e da atividade econômica.

Projeções do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) mostram a massa salarial ampliada, somando a renda do trabalho e benefícios sociais, atingir R$ 1,18 trilhão neste ano, apenas 1,1% a mais em relação à do ano passado (R$ 1,17 trilhão).

É um crescimento muito lento e pouco gradual. Apesar de ser um dado de crescimento, ele reforça a permanência na crise, uma das maiores da história. O indicador havia crescido 1,1% em 2018.

Além da massa dos salários, os cálculos do Ibre/FGV englobam os ganhos de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC, concedidos para pessoas com deficiência e idosos de baixa renda), assim como benefícios previdenciário. Também inclui os saques do FGTS em 2017 e os do PIS/Pasep no ano passado.

O mercado de trabalho não contribui para o crescimento da massa salarial, especialmente pelo aumento do número de trabalhadores ocupados (empregados, empregadores, informais). Os rendimentos de aposentadoria devem seguir crescendo pela pressão de se aposentar logo devido à ameaça de corte de direitos adquiridos. Aumentará a quantidade de aposentados com baixas pensões. Continuar a ler

Fuga de Capitais em 2018

Isabel Versiani e Alex Ribeiro (Valor, 29/01/19) informam: investidores estrangeiros tiraram do país US$ 7,682 bilhões investidos em ações e em fundos de investimento no ano eleitoral de 2018, segundo o Banco Central, o maior volume desde 2008, quando US$ 10,850 bilhões deixaram o país em meio à crise financeira global desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers.

Dados preliminares do BC para janeiro já mostram reversão parcial desse fluxo negativo. Até o dia 24, US$ 3,088 bilhões tinham ingressado no país para compra de ações e aplicações em fundos de investimento. Segundo o BC, essas aplicações obedecem a certa sazonalidade, com concentração de retiradas no final do ano. Elas tendem a voltar parcialmente em janeiro.

Ainda assim, o número de 2018 chama a atenção, após nove anos consecutivos de fluxos positivos de estrangeiros para a compra de ações e cotas de fundos, com média anual de entrada de US$ 12,957 bilhões. Ao longo de 2018, houve meses de ingresso de recursos, mas as saídas prevaleceram, principalmente ao longo do segundo semestre. Continuar a ler

Economia brasileira aprofunda a recessão e neoliberais não se importam

Aloisio Campelo Jr. e Claudio Considera do IBRE-FGV destacaram hoje (Valor, 26/03/19): ao final deste primeiro trimestre de 2019 completa-se o triste aniversário de cinco anos desde o início da recessão de 2014-16. Com o ciclo quinquenal da seca, iniciada no fim de 2012, impulsionando a inflação de alimentos, houve a retomada do crescimento da taxa de juros em abril de 2013 para atingir 14,25% aa em junho de 2015 e se manter neste patamar até outubro de 2016. Depois, vieram as “gloriosas” jornadas de junho de 2013. O resultado foi os golpistas saírem do armário e o locaute empresarial se iniciar. Na “armadilha do golpe” eles se enredaram e até hoje a economia brasileira não saiu da estagnação.

Passados dois anos (2017 e 2018) com crescimento de 1,1% aa, a economia brasileira havia recuperado, até o final do ano passado, apenas 42% do produto perdido desde o início da recessão no segundo trimestre de 2014.

Durante a depressão (2015-2016), o PIB caiu 8,1%. Nos oito trimestres (dois anos) com crescimento de 1,1% aa, cresceu apenas 3,4%. Com isso, a queda acumulada entre o primeiro trimestre de 2014 e o último de 2018 foi de 5%, o pior resultado de todas as recessões brasileiras desde 1980.

Apesar da dificuldade de se comparar ciclos históricos, do ponto de vista estrito do crescimento econômico, estes últimos cinco anos foram os mais difíceis de nossa história recente. A relação do golpe da direita com a economia foi um atraso histórico. O gráfico acima explicita isso: somente em 1992 o crescimento quinquenal havia se aproximando de números próximos a -5%, e ainda assim, por pouco tempo.

A essa longa crise conjuntural se somou uma crise estrutural de desindustrialização já com início de fuga da indústria automobilística do País através da Ford.

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Assimetria da Política Monetária: Juros Altos derrubam Economia, Juros Baixos não expandem Economia

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT. Publicou artigo (FT, 13/03/19) sobre o esgotamento da política monetária.

“Por que as taxas de juros estão tão baixas?

Será que a hipótese da “estagnação secular” ajuda a explicar isso?

Qual é a implicação de taxas de juros tão baixas sobre a provável eficácia da política monetária durante uma nova recessão?

Que outras políticas poderiam ser necessárias experimentar, como alternativa à política monetária ou como uma maneira de elevar sua eficácia?

Essas são as perguntas de macroeconomia mais importantes. São também muito polêmicas.

Recente estudo de Lukasz Rachel e Lawrence Summers joga luz sobre essas interrogações. Seu ponto principal é respaldar e desenvolver a hipótese da “estagnação secular”, revitalizada pelo professor Summers em 2015 como relevante para a nossa era. A mais relevante inovação desse estudo é tratar as grandes economias avançadas como um bloco único. Seguem- se quatro de suas conclusões. Continuar a ler

Austeridade Fiscal: Declínio da Civilização Ocidental

Está “caindo a ficha” em país civilizado ao ver o crescimento das economias asiáticas enquanto o velho mundo novo fica estagnado?

Chris Giles (Valor, 11/02/19) afirma estar acontecendo uma notável transformação, quase sem estardalhaço, em toda a Europa. Os anos de austeridade fiscal muitas vezes dolorosos estão chegando ao fim, à medida que os governos, desde os tradicionalmente perdulários até os mais conservadores, afrouxam os limites e aceitam a necessidade de mais estímulos fiscais.

A flexibilização dos orçamentos europeus tem sido visível nos planos orçamentais há algum tempo, mas só agora, com a economia europeia sofrendo uma desaceleração aguda e inesperada, tornou-se uma das principais vias para evitar uma grave recessão. Economistas acreditam que, desta vez, a injeção de recursos pode ser oportuna.

Finalmente, os governos estão atentos aos riscos do enfraquecimento da econômica do continente piorar. Reconheceram o Banco Central Europeu — leia-se política monetária — não ser mais a única opção para lidar com problemas, especialmente em relação ao setor industrial em dificuldades. É a volta do keynesianismo fiscal para tristeza (e demonstração de burrice) dos Chicago’s Oldies tupiniquins! Continuar a ler