Condições Financeiras para Próximo Governo Social-Desenvolvimentista

Daniela Meibak e Sérgio Tauhata (Valor, 13/09/18) informam: o cenário eleitoral indefinido, além do ambiente mais avesso aos mercados emergentes, impôs um aperto das condições financeiras no Brasil, com forte subida do juro real, mesmo com a taxa básica sendo mantida pelo Banco Central em 6,5% ao ano desde maio de 2018. O mercado de taxas futuras embute uma alta de quase dois pontos percentuais em relação à Selic para o prazo de um ano, o que tende a pressionar o custo do crédito e as expectativas para a economia.

O juro real ex-ante, considerando o swap de juro de 360 dias, na casa dos 8,2%, descontada a inflação de 3,8% esperada para os próximos 12 meses, alcança 4,14%, quase dois pontos acima da taxa de 2,17% registrada em 27 de abril de 2018, menor patamar desde junho de 2012.

Por afetar as decisões financeiras dos investidores, o efeito imediato desse aumento é o encarecimento do custo de captação das instituições financeiras. Como o custo de captação representa 39% do ICC (Indicador do Custo de Crédito), pode se traduzir em aumento do juro dos empréstimos na ponta tomadora se esse cenário persistir. Outro reflexo é a paralisação da demanda por crédito de médio e longo prazos. Continue reading “Condições Financeiras para Próximo Governo Social-Desenvolvimentista”

Cenário Promissor para o Plano Lula com Haddad

Jonathan Wheatley, um dos principais colunistas e jornalistas cobrindo mercados emergentes para o Financial Times, jornal econômico acompanhado por grande parte de O Mercado (e ex-correspondente no Brasil), afirmou em podcast (20/09/18) no jornal.

“Fernando Haddad é um moderado que governou São Paulo por quatro anos, foi fiscalmente responsável e adotou ideias progressistas para transporte público que foram apoiadas pela classe média alta. Mas vem de um partido que se radicalizou muito por causa do impeachment e, economicamente, o partido quer levar o país para onde estava oito anos atrás, com Lula, um governo de grandes gastos dependente do boom das commodities, Vai ser difícil para um governo Haddad lidar com as pressões do PT e do Congresso, que certamente será hostil ao PT. Sera um equilíbrio difícil, não sei se ele tem experiência para isso.”

Os estrangeiros formadores da opinião especializada de economistas neoliberais enxergam tudo de bom ocorrido no governo Lula tenha sido “obra e graça da sorte”, isto é, ter sido “um governo de grandes gastos dependente do boom das commodities“. Mito, mentira, ignorância. Confira acima o menor fluxo de comércio exterior em relação ao PIB do Brasil, demonstrando a maior importância relativa do mercado interno, para seu desenvolvimento, e abaixo o superávit primário de 2003 a 2013:

O cenário a partir de 2019 é otimista com o retorno de governo social-desenvolvimentista mesmo porque a taxa de inflação e a taxa de juros estarão muito menores do que estavam no início de 2003. Com políticas sociais ativas, política de crédito e investimento público, maiores gastos públicos compensados com o fim de subsídios e desonerações fiscais em benefício apenas de empresas sem contrapartida de investimentos e recebedores de lucros e dividendos, haverá retomada do mercado interno com o crescimento da renda e do emprego.

Quanto à solidez das contas externas do Brasil, nos 12 meses até agosto de 2018, o déficit em conta corrente ficou em US$ 15,5 bilhões, o que corresponde a 0,8% do PIB. É mais que o piso de 0,44% do PIB nos 12 meses até janeiro, mas está longe de ser um número alarmante. Continue reading “Cenário Promissor para o Plano Lula com Haddad”

Dos Discípulos À Mestra: Atualidade do Pensamento de Conceição Tavares

Encontra-se disponível, para download, o Texto para Discussão do IE-UNICAMP:
Fernando Nogueira da Costa Dos discípulos à Mestra – Atualidade do pensamento de Conceição Tavares 09/2018

O objetivo deste artigo-resenha é verificar se o método histórico-estruturalista da obra de Maria da Conceição Tavares se reproduz na análise da economia contemporânea realizada por seus discípulos.

TDIE 348 – Dos Discípulos  à Mestra – Atualidade do Pensamento da Conceição Tavares

Desalavancagem Financeira e Capacidade de Retomada do Endividamento

Gosto de ler os artigos de Paulo Gala, embora eu não concorde com todas suas avaliações, achando algumas exageradas face aos dados. Por exemplo, diagnosticar ter havido “bolhas” na economia brasileira recente. No compartilhado abaixo (Valor, 09/08/18) ele fala a respeito do peso das dívidas na recuperação econômica brasileira. Não me parece ser esse o impedimento crucial. O endividamento para investimento em “casa própria” compromete pouco o fluxo da renda corrente e mais o estoque. O endividamento para consumo deve ser controlado através de retomada do crescimento da renda e educação financeira. Confira os gráficos acima.

“A grande mudança que existe hoje no Brasil e no mundo é o tamanho das dívidas das famílias e empresas.

Todos viraram poupadores líquidos tanto no Brasil, quanto no Japão, EUA e Europa. O único setor que se endivida é o governo, ou seja, a demanda que ainda surge no mundo depende muito do déficit público.

[Essa informação não bate com as seguintes: o volume global de dívida no primeiro trimestre de 2018 atingiu US$ 247,2 trilhões, o equivalente a 318% do PIB global, segundo dados do Instituto de Finanças Internacionais (IIF). A dívida das empresas não financeiras somou US$ 186 trilhões, ou 75% do total.

O total de dívida nos mercados emergentes, excluindo as empresas financeiras, alcançou um novo recorde de US$ 58,5 trilhõesO nível de endividamento das famílias em relação ao PIB entre os emergentes aumentou notadamente na China (quase 50%), Chile (ultrapassando 45%) e Colômbia (30%). Já a dívida pública tem aumentado mais fortemente no Brasil, Arábia Saudita, Nigéria e Argentina. A dívida em moeda estrangeira dos mercados emergentes atingiu recorde de alta e somou US$ 5,5 trilhões, com as empresas não financeiras respondendo por 78% do total.] Continue reading “Desalavancagem Financeira e Capacidade de Retomada do Endividamento”

Dinheiro, Dinheiro

O livro de autoria de João Sayad, “Dinheiro, Dinheiro” (São Paulo: Portfolio Penguin – Editora Schwarz S.A.; 2015), se coloca no 45º. capítulo a mesma pergunta colocada por mim em um tópico do livro a ser lançado pela Editora Contexto – Métodos de Análise Econômica: “Por que as taxas de juros reais no Brasil estão entre as mais altas do mundo?”.

Examino abaixo as semelhanças e as dessemelhanças entre sua análise e a minha. Vou enumerá-las para facilitar a comparação.

No meu caso, analisei as seguintes hipóteses:

Hipótese 1: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa da dívida pública.

Hipótese 2: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa do histórico de alta e volátil taxa de inflação.

Hipótese 3: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa da esterilização do impacto monetário da ampliação das reservas cambiais em situação de escassez de poupança.

Hipótese 4: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa dafragilidade das instituições políticas e econômicas brasileiras.

Hipótese 5: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa da overdose necessária para sobrepor-se ao sistema de crédito brasileiro.

Hipótese 6: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa da necessidade de regular a expectativa dos investidores quanto à taxa de câmbio.

Hipótese 7: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa da impossibilidade real de realinhamento estável dos preços relativos básicos TJKCW (Tributo-Juro-Capital-Câmbio-Salário) justificar a atuação do COPOM em um processo contínuo favorável à concentração da riqueza financeira.

Diz João Sayad, no livro “Dinheiro, Dinheiro”: Continue reading “Dinheiro, Dinheiro”

Taxa de Desemprego + Taxa de Subutilização da Força de Trabalho + Taxa de Desalento = Catástrofe Social pela Volta da Velha Matriz Neoliberal

Thaís Carrança (Valor, 17/08/18) informa: o país tinha um contingente de 4,8 milhões de pessoas em desalento – ou que desistiram de procurar emprego – no segundo trimestre deste ano, de acordo com dados complementares da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o maior contingente da série histórica da Pnad Contínua, iniciada em 2012. O número supera o recorde anterior, registrado no primeiro trimestre (4,6 milhões), e o do segundo trimestre de 2017 (4 milhões).

Desalentada é a pessoa que está fora da força de trabalho. Ou seja, não está empregada nem procurando vaga, por diferentes razões, como achar que não conseguiria trabalho, que não tinha a experiência necessária, por se considerar muito jovem ou idosa ou por não encontrar emprego na localidade. São, portanto, pessoas que não estão procurando emprego, mas aceitariam uma vaga se alguém oferecesse.

A taxa de desalento no segundo trimestre de 2018 ficou em 4,4% da força de trabalho ampliada, também maior percentual da série histórica. Entre as unidades da Federação, Alagoas (16,6%) e Maranhão (16,2%) registraram as maiores taxas de desalento, e Rio de Janeiro e Santa Catarina, as menores, 1,2% e 0,7%, respectivamente.

O mercado de trabalho do país piorou de tal forma nos últimos anos que apenas a taxa de desemprego não dá mais conta de explicar a situação. Continue reading “Taxa de Desemprego + Taxa de Subutilização da Força de Trabalho + Taxa de Desalento = Catástrofe Social pela Volta da Velha Matriz Neoliberal”

Vale Comparar Minério e Petróleo

Outra exportação de commodity fundamental para o balanço comercial brasileiro é o de minérios pela Vale.

Renato Rostás (Valor, 29/06/18) informa: as matérias-primas industriais continuam sujeitas à geopolítica. De um lado, o nervosismo em torno da guerra comercial de Estados Unidos à China, promovida pelo presidente americano Donald Trump, derrubou os preços do minério de ferro em junho de 2018. Do outro, a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de elevar a produção de petróleo chegou a deixar a cotação instável, mas a percepção de que o mercado segue equilibrado deixou a commodity no azul.

O minério, inclusive, tem contrariado os próprios fundamentos econômicos de seu mercado. A China, maior compradora do insumo no mundo, bateu recorde histórico de produção mensal de aço no mês passado, com 81,1 milhões de toneladas. O minério é o principal ingrediente da fabricação do aço. Ao mesmo tempo, a oferta global diminuiu, principalmente com:

  1. a parada do Minas-Rio, da Anglo American, e
  2. a “força maior” da Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) – ambos, do Brasil.

Mesmo assim, os preços se encaminham para queda em junho de 2018. No fim do mês, terminaram em US$ 64,44 a tonelada, segundo a “Metal Bulletin“, queda de 1,3% no acumulado do mês. No primeiro semestre, já caem 11,3%. A referência é o produto com pureza de 62% entregue no porto chinês de Qingdao. Continue reading “Vale Comparar Minério e Petróleo”