Herança Maldita do Golpe Depressivo: Reformas Neoliberais e Informalidade

Thais Carrança (Valor, 02/10/17) informa que o aumento da informalidade no mercado de trabalho será um dos legados da mais longa e profunda crise econômica registrada no Brasil. Apesar da queda na taxa de desemprego, desde o pico de 13,7% e 14,2 milhões de desempregados de março de 2017, a informalidade mantém trajetória de crescimento, o que aponta para uma piora qualitativa do mercado de trabalho, como resultado da prolongada recessão.

A taxa de informalidade da mão de obra chegou a 46,4% no segundo trimestre, valor mais alto já registrado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, cuja série histórica começa em 2012. Desde o segundo trimestre de 2014 – considerado o início da recessão pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) – o avanço foi de 2,6 pontos percentuais.

A crise reverteu a tendência anterior de queda da informalidade. Do primeiro trimestre de 2012 ao segundo trimestre de 2014, a taxa de informalidade havia recuado de 45,7% a 43,9%, queda de 1,8 ponto percentual. Continue reading “Herança Maldita do Golpe Depressivo: Reformas Neoliberais e Informalidade”

Preferência por Liquidez em vez de Emprego para os 13 milhões desocupados

É assustadora a evolução dos Saldos de Operações Compromissadas realizadas pelo Banco Central do Brasil:

31/12/04: R$ 46,2 bilhões

29/12/06: R$ 60,0 bilhões

31/12/09: R$ 427,9 bilhões

31/12/14: R$ 791,6 bilhões

31/12/15: R$ 894,5 bilhões

31/12/16: R$ 1.026,4 bilhões

31/08/17: R$ 1.136,6 bilhões

No primeiro mandato do Governo Lula, era razoável o uso desse instrumento de política monetária. No segundo, justificava-se pela esterilização do impacto monetário da aquisição das reservas cambiais e conversão de dólares em reais. No primeiro mandato do Governo Dilma, mal aconselhada por economistas não-financistas, houve uma “barbeiragem” com a troca forçada de títulos da dívida pública pós-fixados por prefixados, levando os grandes carregadores dessa dívida se refugiarem em operações compromissadas com juros fixados no dia-a-dia. 

Na última Nota Econômico-Financeira para Imprensa sobre Mercado Aberto, emitida pelo BCB, referente a agosto de 2017, ele anuncia que “as operações compromissadas, excluídas as realizadas com o Banco Central, alcançaram médias diárias de R$ 1,0 trilhão e de 6.360 operações. As operações intradia apresentaram médias diárias de R$ 3,3 bilhões e de 9 operações. As operações overnight corresponderam a 99,4% do total das operações compromissadas, com médias diárias de R$ 1,0 trilhão e de 6.296 operações”.

Em agosto de 2017, o BCB contabilizava 25,69% do total de R$ 4.422,99 bilhões aplicados em títulos de dívida pública (ou R$ 1,136 trilhão) em operações de mercado aberto. Continue reading “Preferência por Liquidez em vez de Emprego para os 13 milhões desocupados”

Queda da Inflação: Redução dos Preços de Alimentos no Domicílio

O boxe do Relatório de Inflação do Banco Central do Brasil divulgado em setembro de 2017, sob o título acima, analisa o comportamento recente da taxa de inflação. Sua grande queda foi provocada pela Grande Depressão ou pela superação da Grande Seca, com uma grande safra de alimentos, decorrente de fator climático benigno no ano corrente? Se foi isso, o BCB confessa ter cometido uma “barbeiragem na política monetária” com overdose de juros para combater quebra de oferta por acidentalidade climática!

A inflação em doze meses, medida pelo IPCA, registrou forte ciclo de aceleração e arrefecimento nos últimos anos, quando avançou de 6,41%, em dezembro de 2014, para 10,71%, em janeiro de 2016, e recuou para 2,46%, em agosto de 2017 (Gráfico 1). Nesse contexto, este boxe analisa o recente ciclo de inflação com base em estimativas de persistência, que permitem comparar a velocidade de ajuste dos preços dos segmentos do IPCA após a incidência de choques.

A persistência da inflação de um determinado setor pode ser calculada pela soma dos componentes autoregressivos. Quanto maior a dependência da série em relação às suas próprias defasagens, maior sua persistência.

Foram estimadas a persistência de:

  1. a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA);
  2. a inflação dos segmentos alimentação no domicílio, monitorados, bens industriais e serviços; e
  3. a média das medidas de núcleo de inflação calculadas pelo Banco Central.

As estimativas mencionadas encontram-se no Gráfico 2 (eixo horizontal), que relaciona estes resultados com as respectivas médias mensais da aceleração inflacionária ocorridas de dezembro de 2014 a janeiro de 2016. No Gráfico 3, encontra-se a comparação entre a persistência e a desinflação mensal média observada de janeiro de 2016 a agosto de 2017.

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Propaganda Enganosa do Conluio Governo Golpista e Mídia Chapa-Branca

O investimento no OGU (orçamento público) está à míngua. Antes consideradas um motor para a economia, principalmente ao liderar projetos de infraestrutura, as empresas estatais sob controle da União investiram no primeiro semestre de 2017 o valor menor desde 2008.

Elas desembolsaram R$ 23,5 bilhões entre janeiro e junho de 2017, segundo dados fornecidos pelo Ministério do Planejamento. Para se ter uma ideia do encolhimento, trata-se de praticamente metade do que gastaram no mesmo período de 2013. Petrobras e Eletrobras puxaram o desempenho para baixo. Juntas, as duas gigantes federais respondem tradicionalmente por R$ 9 em cada R$ 10 dos investimentos das estatais.

Outras empresas — como Infraero, Companhias Docas, Telebrás e Correios — também perderam iniciativa com dirigentes do governo golpista neoliberal, esperando que O Mercado as substitua. Tudo somado, as 89 estatais não dependentes do Tesouro Nacional executaram até junho apenas 25,8% dos investimentos programados para todo o ano. Proporcionalmente, é a pior execução da última década.

Sem crescimento econômico não há demanda por crédito. A relação crédito/PIB declinou para 47,1% em agosto de 2017, comparativamente a 58,9% em dezembro de 2014, quando o PIB nominal era estimado pelo BCB em R$ 5.113 bilhões. Depois, o IBGE o reviu para R$ 5.779 bilhões.

Com a Grande Depressão a partir da volta da Velha Matriz Neoliberal “o cobertor encurtou”, i.é, houve queda em termos reais do PIB de -7,2% no biênio de 2014 a 2016: menos R$ 488 bilhões (quase ½ trilhão de reais) de poder aquisitivo real. Em dólares, comparando 2016 com 2011, quando a moeda nacional estava muito apreciada, antes da explosão da “bolha de commodities“, o valor adicionado  foi menor em US$ 815 bilhões no último ano (-31%), pois o PIB caiu de US$ 2,6 bilhões para US$ 1,8 bilhão.

Com essa Grande Depressão, provocada por economistas neoliberais, o Brasil despenca nos rankings internacionais, inclusive de PIB PPC. Confira abaixo que foi o único País que teve queda de tal dimensão, consequência do locaute golpista. Como o ano corrente sendo também perdido, pois a economia brasileira continua estagnada, é possível que seja ultrapassado pela Indonésia.

Indonésia é um país localizado entre o Sudeste Asiático e a Austrália, sendo o maior arquipélago do mundo. A localização entre dois continentes — Ásia e Oceania — faz da Indonésia uma nação transcontinental.

A história da Indonésia tem sido influenciada por poderes estrangeiros atraídos por seus vastos recursos naturais. Comerciantes árabes muçulmanos trouxeram o islamismo, agora a religião dominante no país. As potências europeias trouxeram o cristianismo e, além disso, lutaram entre si para monopolizar o comércio de especiarias durante a Era dos Descobrimentos. Depois de três séculos e meio de colonialismo holandês, a Indonésia conquistou sua independência após a Segunda Guerra Mundial. A história do país desde então tem sido turbulenta, com desafios colocados por catástrofes naturais, corrupção política, movimentos separatistas, processo de democratização e períodos de rápidas mudanças econômicas.

Com mais de 250 milhões de habitantes, é o quarto país mais populoso do mundo e o primeiro entre os países islâmicos. Através de suas 17 508 ilhas, o povo indonésio está distribuído por distintos grupos étnicos, linguísticos e religiosos. O lema nacional Bhinneka Tunggal Ika (“Unidade na Diversidade”) articula a diversidade que há na nação. A Indonésia é um país rico em questão de recursos naturais, contrastando com sua população, que é, em sua maioria, de baixa renda.

Apesar desse quadro de calamidade pública, Edna Simão e Fábio Pupo (Valor, 13/09/17) informam que continua a propaganda governamental enganosa, afirmando que o processo de desalavancagem financeira das empresas deve ser intensificado neste segundo semestre e, junto com a queda da taxa de juros, vai impulsionar os investimentos nos próximos meses.

Essa é a avaliação do secretário de Planejamento de Assuntos Econômicos, Marcos Ferrari, que vê nesse e em outros indicadores motivos para crer que o país está definitivamente saindo do período de recessão. Ora, quem vai investir com a extraordinária capacidade produtiva ociosa?!

A taxa de investimento chegou a 15,5% do PIB no segundo trimestre, o pior para o período desde, pelo menos, o ano 2000. Mas, na visão do governo temoroso, “o consumo em alta vai puxar a melhoria da atividade em outros indicadores”. [?!]

“Conforme as pessoas ganham renda [como?!], isso aquece a economia e faz com que empresas contratem mais”, diz o ilusionista. Com a queda da taxa de inflação, depois de safras boas que abaixaram a inflação de alimentos e a overdose que provocou a Grande Depressão (-7%), o poder aquisitivo real deixa de ser corroído no mesmo ritmo, mas não se tem aumento de renda!

Para o governo temeroso da oposição democrática, os recordes na bolsa e o avanço do real frente ao dólar são sinais de que O Mercado também voltou a enxergar fundamentos sólidos no Brasil. [?!]

O falso discurso otimista é feito depois da surpresa com a “aceleração” [?!] da atividade no segundo trimestre. Ferrari afirma que, até conhecer os dados de maio de 2017, a equipe econômica esperava um PIB negativo. No fim das contas, o país cresceu só 0,2% na comparação contra o primeiro trimestre, na série com ajuste sazonal. E ainda comemoram?! Continue reading “Propaganda Enganosa do Conluio Governo Golpista e Mídia Chapa-Branca”

Balanço Comercial do Agronegócio

Cristiano Zaia (Valor, 14/09/17) informa que, puxadas por soja e carnes, as receitas com as exportações do agronegócio brasileiro tiveram alta de 18,5% em agosto em relação ao mesmo mês de 2016, alcançando US$ 9 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic), compilados pelo Ministério da Agricultura. Com o resultado, o setor foi responsável por 46,4% de todas as vendas externas do Brasil no mês.

De acordo com o ministério, as importações de produtos agropecuários recuaram 4% em agosto, para US$ 1,2 bilhão, em comparação com o mesmo período de 2016. Com o resultado, o superávit setorial ficou em US$ 7,8 bilhões, 23,8% acima de agosto de 2016.

Entre os itens mais exportados pelo país está o “complexo soja” (inclui grão, farelo e óleo), que geralmente lidera o ranking das exportações agrícolas do país. As vendas externas do complexo totalizaram US$ 2,7 bilhões em agosto, 28% superior a igual intervalo de 2016. Continue reading “Balanço Comercial do Agronegócio”

Inflação Baixa: Armadilha da Liquidez ou Lei de Say?

Economistas neoclássicos/pré-keynesianos defendem a Ley de Say: a canalização exata de poupança para investimento propicia o equilíbrio entre demanda e oferta agregada. Na realidade, o sistema bancário não adota esse comportamento hipotético. Porém,  quando a taxa de inflação está baixa, os ultraliberais juram que é uma prova (ex-post) do acerto dessa sua previsão!

Economistas keynesianos retrucam que essa coincidência nivela por baixo e coloca a economia na “santa paz dos cemitérios”. Que “equilíbrio” é este, só visto pelos neoliberais, com desempregados procurando empregos sem os achar?!

Ora, o mundo está em plena armadilha da liquidez. Esta é a preferência pela liquidez generalizada que só ocorre durante uma Grande Depressão — e não é permanente como advogam economistas pós-keynesianos.

Segundo Sérgio Lamucci (Valor, 15/09/17) o economista argentino Guillermo Calvo avalia que, no mundo rico, a inflação permanece baixa mesmo com o crescimento um pouco mais forte da economia porque a grande quantidade de dinheiro em circulação não tem sido efetivamente canalizada para o crédito.

Professor da Universidade Columbia, em Nova York, Calvo diz que os bancos não estão dispostos a emprestar como antes da crise financeira global, que se intensificou depois do colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. No caso dos EUA, a regulação mais rigorosa do setor financeiro também tornou mais difícil a concessão de empréstimos, afirma ele, numa referência à chamada lei Dodd-Frank.

“Nós estamos num tipo de regime de armadilha de liquidez, em que a liquidez está presa no setor bancário”, afirma ele. “Há muito dinheiro em circulação, eu concordo, mas esse dinheiro não se traduz em instrumentos de crédito.”

Nas atuais circunstâncias, a recuperação em curso no mundo rico levaria a uma alta de preços se houvesse a expectativa de aumento muito agressivo da oferta de dinheiro na economia, segundo Calvo. Não é isso, contudo, o que está ocorrendo. Continue reading “Inflação Baixa: Armadilha da Liquidez ou Lei de Say?”