Aparente Paradoxo: Queda do Consumo… e da Poupança!

Raquel Brandão (Valor, 31/03/2021) informa: o espaço para o consumo está se estreitando no Brasil e os gastos das famílias devem cair neste ano, voltando para os patamares de 2015 e 2016, quando o país enfrentava sua maior recessão. A avaliação é de analistas das principais consultorias de consumo do país.

Há indicadores desanimadores. O índice de desemprego é crescente, a inflação acelerou, a pandemia da covid-19 faz milhares de vítimas diariamente e leva a novos bloqueios de atividades, enquanto o auxílio emergencial não chega ao bolso de quem precisa.

Estudo da XP Investimentos mostra as vendas do varejo restrito, calculadas pelo IBGE, provavelmente, mostrarem queda de 5,5% no primeiro trimestre em relação aos três últimos meses de 2020. Pelo conceito ampliado, que inclui automóveis e materiais de construção, a baixa deverá ser mais intensa, de 6,5%.

A dinâmica vai se refletir no consumo das famílias dentro do Produto Interno Bruto (PIB), que poderá ter quedas de 0,4% e 0,9% no primeiro e segundo trimestres, sempre em relação aos três meses anteriores, segundo a XP. Parte da influência negativa virá dos números de março, que podem mostrar queda de 10% do varejo ampliado ante fevereiro.

“As multinacionais estão preocupadas com as questões econômicas no Brasil, não só pela pandemia. Principalmente as mais expostas a [preços de] commodities”, diz Ricardo De Carli, sócio da Bain & Company.

Os especialistas ouvidos pelo Valor acreditam que não é de se esperar volumes maiores no segundo trimestre em comparação ao mesmo período do ano passado, quando houve aumento nas vendas de produtos de consumo básico. “Ao menos 55% das famílias brasileiras tiveram retração de renda e ela não se recupera no mesmo ritmo que a retomada das atividades acontece”, diz Domenico Tremaroli Filho, diretor da NielsenIQ.

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o índice médio de desocupação para o ano de 2020 foi de 13,5%, o maior desde 2012. A inflação em 12 meses medida pelo IPCA está acumulada em 5,20%, no limiar do teto da meta, que é de 5,25%.

Nesse cenário, o consumidor está mais receoso com o futuro e menos disposto a gastar. Em março, o índice de confiança do consumidor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV) chegou a 68,2 pontos, o menor valor desde maio, mês em que os primeiros beneficiários do auxílio emergencial começaram a receber o pagamento. A medida aumentou a receita de mais de 68 milhões de pessoas em 2020.

“O consumidor está mais pessimista do que estava no passado. Alguns achavam que 2019 era bom e já não era, mas agora o espaço para o consumo está menor”, observa David Fiss, da consultoria Kantar. Segundo ele, o consumidor, que teve acesso a novas categorias ano passado por causa do “coronavoucher”, terá de manter as compras somente do básico. “A classe baixa já está abrindo mão de vários itens, como carne e certos itens de higiene pessoal.”

Pesquisa feita pela Kantar mostra que os gastos de quem recebeu o auxílio ficaram especialmente concentrados em itens essenciais, como os perecíveis e de higiene e limpeza, mas houve maior acesso a produtos de maior valor.

“Agora, a renda para o consumo discricionário da classe média para baixo está achatada. Alimentos, produtos de beleza, higiene e limpeza vão continuar, mas o

restante cai. Consumo se ganha em massa, não se move com a minoritária classe A, que continua comprando”, diz Felipe Mendes, diretor da GfK Brasil. Para ele, esse quadro faz com que o investimento das empresas em marketing ganhe ainda mais importância para “manter a vontade do consumo”.

O consumidor está mais racional tanto nas classes de menor renda como na classe média. “Mais que marcas baratas, o consumidor vai buscar custo-benefício. A pessoa não pode errar na compra”, diz o diretor da NielsenIQ. Há maior procura por produtos de marca própria e embalagens econômicas.

Além disso, a intensificação da digitalização do consumo no ano passado também deixou o consumidor mais pragmático, diz o antropológo e sócio do instituto Consumoteca, Michel Alcoforado. Segundo ele, no consumo mais digital, não se tem a mesma fidelização à marca, vale mais o que tiver condição mais vantajosa.

Diante disso, alguma retomada deve ficar para os últimos meses de 2021 e começo de 2022. “Acredito que o último trimestre do ano vai ser pelo menos de estabilidade. Mas a gente vai ter de piorar para melhorar”, diz o presidente da auditoria KPMG no Brasil e na América do Sul, Charles Krieck. 

“Diria que, no momento, o risco é de haver queda ainda maior em março”, diz Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos e autor das projeções. Também pesa a herança negativa do varejo deixada por 2020, seguida de outra baixa das vendas varejistas também em janeiro.

Fevereiro deve ter um ‘rebote’, mas insuficiente para compensar a perda esperada para o trimestre. O risco é também de “queda adicional” do varejo no segundo trimestre.

Na saída da queda gerada pela pandemia de covid-19, o varejo mostrou forte reação e atingiu, em média, níveis acima do pré-crise já em agosto do ano passado. Desagregado, o dado mostra que os segmentos do varejo ligados à disponibilidade de renda das famílias, impulsionados pelo auxílio emergencial, puxaram o resultado e, no acumulado de 12 meses até janeiro, têm alta de 3%. Já as vendas ligadas à disponibilidade de crédito têm perdas de 7,8% em 12 meses até janeiro.

“Com a deflagração da pandemia e das principais medidas de suporte do governo, como o auxílio emergencial, o varejo mais sensível à renda reagiu de forma surpreendente. E, até outubro do ano passado, mesmo alguns setores do varejo ligado ao crédito ainda tinham uma dinâmica favorável, o que não ocorre agora”, afirma Margato.

Dois deles são emblemáticos e relacionados às necessidades mais básicas da população: o de artigos farmacêuticos, com avanço de 8,8% nas vendas nos últimos 12 meses até janeiro, e o de supermercados, com alta de 5,2%. Na via inversa, o setor de veículos tem retração de 15,6%.

Mesmo com a reedição do auxílio emergencial, o volume de recursos distribuídos em 2021 será menor, o que explica a redução projetada pela XP de 8% na massa de renda ampliada no primeiro semestre em comparação com os seis meses anteriores. Além disso, a confiança dos consumidores, como atestam as sondagens da Fundação Getulio Vargas (FGV), também indicam menos propensão ao consumo.

“No curto prazo, em março e começo do segundo trimestre, praticamente todos os segmentos do varejo vão cair. Isso vale também para os setores sensíveis à renda, embora boa parte desses itens tenham resiliência”, diz o economista. A nota extra de cautela é que, ao contrário de 2020, o governo não tem mais fôlego fiscal para financiar a recuperação.

Mesmo que a retomada se confirme, o ano será de relativa estagnação. O PIB deve crescer 3,2% em 2021 nas contas da XP, abaixo da herança estatística (carry-over) deixado por 2020. Ela era de 3,6%, isto é, boa parte da retomada é fruto da aceleração já ocorrida no ano passado.

Já o consumo das famílias tem cenário mais favorável, mas ainda tímido: o crescimento deverá ser de 2,7% neste ano, pouco acima da herança de 2,1% de 2020.

1 thought on “Aparente Paradoxo: Queda do Consumo… e da Poupança!

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Além do vírus, que prematuramente encerrou a vida de mais de 337 mil brasileiros, e da pior gestão pandêmica no mundo, outra pesquisa da mesma XP mostra a percepção de o governo estar no mau caminho para com os vivos: a maioria acha isso e identifica o responsável-chefe.

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