Partido Republicano dos EUA: Morte com a América Conservadora

J. Bradford DeLong, ex-secretário assistente do Tesouro dos Estados Unidos, é professor de economia na Universidade da Califórnia (Berkeley) e pesquisador associado do National Bureau of Economic Research. Em seu artigo (Valor, 07/10/21) dá a dica de leitura de um livro possível de baixar em: http://library.lol/main/5E53C013CB43FB518A227630661BAC53

Se você está preocupado com o bem-estar dos Estados Unidos e interessado no que o país pode fazer para se ajudar, pare o que estiver fazendo e leia o excelente livro de 2012 do historiador Geoffrey Kabaservice, “Rule and Ruin: The Downfall of Moderation and the Destruction of the Republican Party, from Eisenhower to the Tea Party” (“Regra e Ruína: A Queda da Moderação e a Destruição do Partido Republicano, de Eisenhower ao Tea Party”, em tradução livre do inglês). Para entender o porquê, permitam-me um breve histórico.

Até aproximadamente o início do século XVII, as pessoas em geral tinham de olhar para trás no tempo para encontrar evidências da grandeza humana. A humanidade chegou a seu ápice nas eras de ouro perdidas dos semideuses, grandes pensadores e monumentais projetos de construção.

Quando as pessoas olhavam para o futuro em busca da promessa de um mundo melhor, era uma visão religiosa que invocavam – uma cidade de Deus, não do homem. Quando olhavam para sua própria sociedade, viam que era quase igual à do passado, com Henrique VIII e seu séquito presidindo a corte da mesma forma que Agamenon, Tibério César ou Arthur.

Foi então que, por volta de 1600, as pessoas na Europa Ocidental notaram que a história vinha se movendo em grande parte numa direção particular, graças à expansão das capacidades tecnológicas da humanidade. Em resposta à nova doutrina europeia de progresso no século XVII, as forças conservadoras vinham representando uma visão amplamente aceita de como as sociedades deveriam responder às implicações políticas da mudança tecnológica e social. Ao fazer isso, elas foram se agrupando em quatro tipos diferentes de partidos políticos, de modo geral.

O primeiro partido é composto pelos reacionários: aqueles que simplesmente querem ficar “diante da história gritando ‘PARE’”, como William F. Buckley Jr. disse em uma frase célebre. Os reacionários se consideram em guerra com uma “doutrina armada” distópica e com quem um compromisso não é possível nem desejável. Na luta contra esse inimigo, nenhuma aliança deve ser rejeitada, mesmo que seja com facções que, em outras condições, seriam julgadas más ou desprezíveis.

O segundo tipo de partido favorece “medidas Whig e homens Tory” (referência aos partidos britânicos Whig, liberal, e Tory, conservador). Esses conservadores podem ver que a mudança tecnológica e social pode ser aproveitada para o benefício humano, contanto que as mudanças sejam conduzidas por líderes com um forte reconhecimento do nosso patrimônio histórico e dos perigos de destruir as instituições existentes antes de construir outras. Como Tancredi explica a seu tio, o príncipe de Salina, no livro de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, “O Leopardo”, “se quisermos que as coisas continuem iguais, as coisas vão ter de mudar”.

O terceiro tipo de partido conservador é encontrado principalmente (mas não exclusivamente) na América. Surge como uma adaptação a uma sociedade que se vê como extremamente nova e liberal. Não é um partido de tradição e status herdado, mas sim de riqueza e negócios. Em suas fileiras estão conservadores que desejam remover os obstáculos impostos pelo governo à inovação tecnológica, ao empreendedorismo e às empresas. Confiantes de que o mercado livre detém a chave para gerar riqueza e prosperidade, eles, de modo incansável, apregoam os méritos de surfar em suas ondas de destruição criativa schumpeteriana.

Por último (quarto partido), há a casa dos medrosos e dos vigaristas que os exploram. Este grupo inclui todos aqueles que acreditam que serão destruídos criativamente pelos processos de mudança histórica. Eles sentem (ou são levados a acreditar) que estão cercados por todos os lados por inimigos internos e externos mais poderosos do que eles e ansiosos para “substituí-los” ou “cancelá-los”.

O que aprendi com os cientistas políticos da universidade de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em seu best-seller de 2018, “Como as Democracias Morrem”, é que os países democráticos podem ser bem governados apenas se seus partidos conservadores caírem na segunda ou terceira das quatro categorias acima. Quando os conservadores se aglutinam em torno da reação ou do medo, as instituições democráticas correm perigo.

Levitsky e Ziblatt oferecem muitos exemplos para demonstrar isso, mas deixem-me acrescentar mais um. Há pouco mais de um século, a Grã-Bretanha experimentou um declínio surpreendentemente rápido de sua posição de hiperpotência política e econômica mundial. Este processo foi acelerado de modo significativo pela transformação de seu Partido Conservador em um partido combinando os tipos um e quatro.

Esta foi a festa das celebrações da Noite de Mafeking (Guerra dos Bôeres) e da resistência armada à reforma constitucional irlandesa. No período de 1910-14, George Dangerfield lembrou mais tarde, o mundo testemunhou a “estranha morte da Inglaterra liberal”.

Isso nos traz de volta ao livro de Kabaservice, que conta a história de como o Partido Republicano americano se colocou em uma trajetória análoga. Quando olho para o cenário político atual, vejo muito poucos elementos das categorias dois e três no Partido Republicano. E as que sobraram estão desaparecendo depressa.

Os políticos republicanos hoje estão desesperados para pegar o manto de Donald Trump, sem dúvida um dos piores presidentes da história americana. Obviamente, essa tendência perigosa e embaraçosa precisa ser revertida o mais rápida e completamente possível. Mas eu mesmo não consigo ver como isso pode ser feito.

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