Consequências da Era dos Baixos Juros

Robin Harding (Financial Times apud Valor, 31/07/19) informa: esta será uma semana desconfortável e determinante para a economia mundial. Não porque o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) esteja a ponto de cortar os juros. Mas por causa do nível impressionantemente baixo das taxas de juros a partir do qual o Fed vai começar o ciclo de corte: uma faixa de apenas 2,25% a 2,5%.

Depois de mais de uma década de expansão econômica, e apesar de tudo, desde as tarifas alfandegárias até as reduções de impostos, parece esse ser o ponto mais alto alcançado pelas taxas de juros dos EUA. Enquanto isso, o Banco Central Europeu (BCE) debate se vai reduzir sua taxa negativa ainda mais. Até este mês, era possível imaginar uma volta eventual dos níveis anteriores à crise financeira, de 4% a 5%. Não mais.

As autoridades do Fed estimam: as taxas vão se acomodar em 2,5% no longo prazo. Se descontados os 2% de meta de inflação, o retorno real do capital será de mísero 0,5%. A taxa equivalente na Europa e no Japão será certamente muito mais baixa. Esses níveis tão baixos são uma mudança profunda com relação ao passado. Em 2000, a taxa referencial de juro nos EUA era de 6,5% e a real de cerca de 4%. Embora as taxas de juro afetem quase todos os aspectos da vida econômica, o mundo desenvolvido continua em profunda negação sobre as consequências desta Era dos Baixos Juros.

Há pelo menos oito temas para reflexão de investidores e formuladores de políticas. Continuar a ler

Liberalismo à Americana X Neoliberalismo à Brasileira

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do Financial Times. Escreveu artigo (Valor, 03/07/19) onde esboça, com um olhar europeu, as diferenças de concepções entre o liberalismo à americana e as concepções adotadas na Europa e no Brasil. Aqui, o neoliberalismo só dá importância ao liberalismo econômico, isto é, à liberdade das forças de mercado. Seus adeptos não se vexam em aliar, de maneira oportunista para alcançar seus intentos rejeitados eleitoralmente pela comunidade, com a extrema-direita!

Então, os neoliberais brasileiros não se incomodam com a defesa dos direitos da minoria. Este é um pressuposto dos liberais à americana. Eles defendem os mercados competitivos como um princípio para viabilizar empreendimentos da comunidade contra a proteção governamental para grandes corporações. Contra o capitalismo de compadrio, A Comunidade se ergue como um terceiro pilar entre O Estado e O Mercado.

“Há também a chamada ideia liberal, que já viveu além de sua utilidade. Nossos parceiros ocidentais têm admitido que alguns elementos da ideia liberal, como o multiculturalismo, não são mais sustentáveis”. Foi assim que Vladimir Putin reivindicou estar do lado certo da história, em entrevista notável ao “Financial Times“.

Mas, como poderia dizer Mark Twain, as notícias sobre a morte do liberalismo são demasiado exageradas. As sociedades baseadas em ideias liberais básicas são as mais bem-sucedidas na história. Elas precisam ser defendidas contra seus inimigos.

O que é “liberalismo”? Para responder a essa questão, primeiro, pediria aos leitores americanos para esquecerem o que liberalismo significa para eles: o oposto de conservadorismo. Trata-se de um significado singularmente americano, que faz sentido no contexto americano: imigrantes que fundaram seu novo Estado com base em um conjunto de ideias liberais – liberais no sentido europeu, de oposição ao autoritarismo.

Quando Thomas Jefferson escreveu sobre a “vida, liberdade e a busca da felicidade” na declaração da independência, ele estava criando a partir de um dos grandes pensadores liberais, John Locke, substituindo “propriedade” por “felicidade”. Continuar a ler

Envelhecimento da População Asiática, exceto na Índia e Indonésia

Mitsuru Obe (Valor, 16/04/19) informa: o século asiático será grisalho. Do Japão à Coreia do Sul, da China a alguns países do sudeste asiático, o envelhecimento das populações está prestes a provocar transformações profundas nas sociedades, nas políticas governamentais e nas estratégias empresariais. A tendência também pode inclinar a balança de equilíbrio do poder mundial e regional, pois alguns países estão estagnados, enquanto outros continuam a crescer graças à mão de obra ainda abundante.

A ameaça do envelhecimento tem sido discutida há anos, mas sinais recentes indicam que os piores temores da região começam a se tornar realidade.

“Quero um filho”, disse uma mulher sul-coreana, casada, na faixa dos 30 anos. “Mas ainda não temos uma casa e, quando pensamos no dinheiro, nos sentimos incapazes de mergulhar nisso.”

Muitos sul-coreanos pensam parecido e evitam ter filhos. A população economicamente ativa, que vai dos 15 aos 64 anos, caiu pela primeira vez em 2017 no país. Agora, também se prevê queda na população total, talvez já a partir de 2020, segundo alerta da agência de estatística do país de março.

Em 2065, Coreia do Sul deverá se tornar o país desenvolvido com a população mais idosa.

Na China, o governo abandonou a política do filho único em 2016, mas parece ter sido muito pouco e tarde demais. A taxa de nascimentos continuou caindo.

O número de chineses com idade entre 16 e 59 começou a cair em 2014, segundo a ONU. Em 2018, pela primeira vez essa faixa ficou abaixo de 900 milhões de pessoas. Para piorar esse cenário, a taxa de casamentos na China caiu pelo quarto ano seguido em 2017.

Cada vez mais, as empresas precisam pensar em como atender uma nação de solteiros. Em 2018, o site de comércio eletrônico Tmal, do Alibaba, constatou que seus produtos mais vendidos eram destinados para uma pessoa, como garrafas de vinho tinto de 200 ml e pacotes de arroz de 100 gramas.

O Japão está à frente nesse processo. Sua população entre 15 e 65 anos começou a cair em 1995, na mesma época em que o país entrava nas “décadas perdidas” de deflação e estagnação. A população total está em queda desde 2008.

As projeções de longo prazo para os três países são ainda mais sombrias: de 2020 a 2060, a população economicamente ativa (PEA) deverá encolher 30% no Japão, 26% na Coreia do Sul e 19% na China, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essas estimativas se baseiam numa faixa etária ainda mais ampla, dos 15 aos 74 anos.

Os aposentados com 65 anos ou mais deverão ser mais de 30% das populações desses países em 2060. Hong Kong, Cingapura e Tailândia devem seguir trajetória similar. Continuar a ler

China Desenvolvida com Alavancagem Financeira X Brasil Decadente com Desalavancagem Financeira

O debate econômico apresentado na imprensa brasileira é parcial, porque apresenta apenas um viés ortodoxo (“Economia da Confiança”), segregando o ponto de vista heterodoxo. A consequência pior da ausência de pluralismo não é só a discriminação contra a vanguarda teórica, mas também levar a erros, tanto dos empresários na análise de contextos, cenários e alternativas, quanto de eleitores na hora do voto. Ambos mal-informados cometem muita burrice, por exemplo, terem acreditado no mito neoliberal encarnado no “Posto Ipiranga”.

Agora, outro mito está se propagando com a louvação do mercado de capitais e a demonização dos bancos públicos, em particular o BNDES. Confira a diferença de perspectiva entre o capitalismo de compadrio no Brasil e o capitalismo de Estado na China.

Claudia Safatle (Valor, 21/06/19) avalia haver boas e más notícias sobre a possibilidade de expansão dos investimentos do setor privado no país. Esta será a base da retomada do crescimento econômico em algum momento no futuro. Esmiuçando os dados dos balanços de 319 grandes companhias de capital aberto não financeiras, identifica-se:

  1. acentuada queda do nível de endividamento,
  2. aumento da rentabilidade e
  3. redução do custo de capital.

Ao mesmo tempo há uma “revolução” em curso no financiamento das empresas. De 2005 para cá 1.369 novas companhias, na maioria (62,8%) fechadas, entraram no mercado de dívidas corporativas.

A situação das pequenas e médias empresas, porém, contrasta frontalmente com a das grandes, o que é um fator negativo. Em dezembro de 2017, havia 4,937 milhões de pequenas e médias empresas inadimplentes. No ano passado esse número já era de 5,305 milhões. Continuar a ler

Economia da Índia: Potência Mundial

 

Por um lado

Jorge Pasin é economista do departamento de pesquisa econômica da Área de Planejamento Estratégico do BNDES e mestre em Economia, com ênfase Estudos Internacionais Comparados pela UFFRJ. Publicou o artigo abaixo (Valor, 14/06/19), o qual reproduzo pela importância de seu tema.

“Com a postura revisionista sobre os acordos comerciais adotada pelo governo Trump e a consequente onda de protecionismo, o comércio internacional vem desacelerando desde 2017. Essa tendência, agravada pela recente intensificação da contenda comercial entre EUA e China, traz impactos negativos sobre a atividade produtiva no mundo. Hoje, um dos fatores capazes de contrabalancear esses efeitos é a forte expansão econômica da Índia.

Desde o início da década passada a economia da Índia cresce a taxas elevadas, com expansão anual média do PIB acima de 7%. A inflação apresenta trajetória de queda desde 2012, beirando hoje a casa dos 2% ao ano (dados do FMI). Os números do lado fiscal estão em patamar sustentável e a relação dívida/PIB, que beirava os 85% em 2003, está abaixo dos 70%. Do ponto de vista macro, portanto, a Índia está com a casa arrumada. Continuar a ler

Melhor jogo, menor pagamento: onde as futebolistas femininas são mais populares, mas recebem menos

FÃS EXCITADOS em bonés de beisebol da águia careca assistiram como o time de futebol feminino dos Estados Unidos derrotou a Espanha para avançar para as quartas-de-final da Copa do Mundo em 24 de junho. Isso não foi um choque. O Stars and Stripes é o lado mais bem-sucedido na história do futebol feminino, tendo conquistado a Copa do Mundo por três vezes e a medalha de ouro olímpica quatro. Este ano, eles passaram pela fase de grupos com uma pontuação total de 18-0, um total inflacionado por seu recorde de 13-0 na derrota da Tailândia.

Este sucesso no campo, no entanto, é marcado por controvérsias no tribunal. Os membros da equipe de mulheres dos Estados Unidos marcaram o Dia Internacional da Mulher em 8 de março, com uma ação coletiva contra seu empregador, a Federação de Futebol dos Estados Unidos (USSF). A ação alegou as diferenças nas condições salariais e de emprego entre a equipe feminina e masculina violarem a Lei de Igualdade de Pagamento e o Título VII da Lei de Direitos Civis. Apesar de se engajar em “trabalho substancialmente igual”, a equipe feminina recebe muito menos. Se cada time jogasse 20 amistosos ao longo de um ano e vencesse todos, as mulheres receberiam US $ 99.000, enquanto os homens receberiam US $ 263.320, de acordo com o pedido.

É comum que atletas do sexo feminino recebam menos que os homens. Os salários combinados das 1.693 mulheres disputadas nas sete principais ligas de futebol somam US $ 41,6 milhões, um pouco menos em relação ao salário de US $ 41,7 milhões pago ao Neymar, um atacante brasileiro acusado de estupro, pelo Paris Saint-Germain. Mas o futebol nos Estados Unidos é incomum: lá a equipe feminina é paga menos se comparado à masculina, apesar de mais pessoas se conectarem para assisti-los.

Tais diferenças de pagamento são admissíveis se o empregador puder provar uma de quatro “defesas afirmativas” se aplicar:

  1. um sistema de antiguidade,
  2. um sistema de mérito,
  3. um sistema de remuneração baseado na quantidade ou qualidade de produção
  4. ou qualquer outro fator além do sexo.

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Como os populistas ganham? (por Daron Acemoglu e James A. Robinson)

Daron Acemoglu é professor de economia no MIT. James A. Robinson é professor de governo na Harvard University. São coautores de Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty — aqui já resenhado. Publicaram artigo (Valor, 03/06/19) sobre o populismo de direita.

“Na Idade Média, as cidades-Estados italianas capitanearam a “revolução comercial” europeia com inovações no sistema financeiro, comércio e tecnologia. Aconteceu então uma coisa estranha. Em 1264, para tomar um exemplo, a população de Ferrara decretou que “O magnífico e ilustre fidalgo Obizzo… será o comandante, o governador, general e senhor perpétuo da cidade”. De uma hora para outra, uma república democrática optou pelo voto por deixar de existir.

Na verdade, esse não era um episódio pouco comum no norte da Itália na época. Como explica Nicolau Maquiavel em “O Príncipe”, o povo, ao ver que não consegue resistir à nobreza, dá seu apoio a um homem, a fim de ser defendido por sua autoridade. A lição é a de que o povo abandona a democracia se estiver preocupado com a possibilidade de uma elite ter capturado suas instituições.

As instituições democráticas da Itália medieval tinham sucumbido ao que poderíamos chamar atualmente de populismo: uma estratégia antielitista, antipluralista e excludente para montar uma coalizão dos descontentes. O método é excludente porque repousa em uma definição específica do “povo”, cujos interesses têm de ser defendidos contra não apenas as elites, como também todos os outros.

Por isso, no Reino Unido, o líder do Brexit, Nigel Farage, prometeu que um voto por “sair” em 2016 seria uma vitória para o “verdadeiro povo”. Como disse Donald Trump em comício de campanha no mesmo ano, “o outro povo não significa nada”. No mesmo sentido, o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, muitas vezes fala das “pessoas de bem”.

Existem dois motivos óbvios pelos quais esse populismo é ruim:

  1. em primeiro lugar, seus elementos antipluralistas e excludentes minam as instituições democráticas e os direitos fundamentais;
  2. em segundo lugar, ele dá preferência a uma concentração excessiva de poder político e à desinstitucionalização, o que leva a:
    1. um fornecimento precário de bens públicos e a
    2. um desempenho medíocre da economia. Continuar a ler