Boom de Commodities e Inflação Importada

Assis Moreira (Valor, 26/05/21) informa: o comércio internacional de mercadorias das maiores economias do mundo, participantes do G-20, atingiu um recorde em termos de dólares no primeiro trimestre de 2021, impulsionado pela alta dos preços das commodities.

Levantamento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE) mostra continuidade na recuperação, com as exportações e importações aumentando 8,0% e 8,1%, respectivamente, em valor entre janeiro e março deste ano comparado ao trimestre anterior. Somente o Reino Unido não teve crescimento no comércio global de mercadorias.

A depreciação do dólar e a alta nos preços das commodities desempenharam um papel na recuperação do comércio global de bens diz a OCDE. Os preços das commodities agrícolas, incluindo cereais e óleos vegetais, aumentaram mais de 10% no primeiro trimestre. Os preços dos metais também subiram.

Entre os maiores beneficiários dessa dinâmica estão a Argentina com aumento das exportações acima de 33,3% em valor, a Austrália alta de 17,5%, o Brasil de 14,7%, e a África do Sul de 17,3% – entre os maiores exportadores desses produtos dentro do G-20.

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Conservadorismo Reacionário contra Biden

A União Europeia (UE) avançou ontem na direção para abrir suas fronteiras para turistas de fora do bloco, ao definir normas para a para permitir a entrada de visitantes totalmente vacinados, sem a necessidade de quarentena. Brasileiros, no entanto, continuarão impedidos de entrar.

Os 27 países da UE acertaram o relaxamento dos critérios para que um país seja considerado seguro em relação à covid-19, o que permitirá aos cidadãos desses países viajar para a UE, a depender de seu status com respeito ao coronavírus e à vacinação. Pelos critérios atuais, a lista só inclui sete países. O Brasil, porém, deverá continuar na lista de países não seguros.

Este é o resultado provocado por um governo de extrema-direita apoiado por gente estúpida!

Enfrentar o conservadorismo reacionário é difícil em todo o mundo. Biden está pedindo aos americanos para absorverem um rompimento na doutrina econômica junto com uma mudança do contexto social, mas seu mandato é frágil para depositar tanta atividade

Janan Ganesh (Financial Times, 26/05/21) avalia isso: até mesmo o maior dos líderes democráticos do último século escolheu suas batalhas. Ao moldar uma nova política econômica, o New Deal, Franklin Roosevelt preservou grande parte do velho pacto na cultura. A causa dos direitos civis foi adiada para outra geração. Leis rígidas de imigração foram mantidas, mesmo com massas oriundas da Europa suplicando para entrar nos EUA.

Se havia no ar uma vileza pós-Era do Jazz, ela não se limitou a Washington. Hollywood começou a fazer valer seu código contra temas obscenos.

É difícil prestar conta da mistura de reforma material e retrocesso cultural naqueles anos. Mas uma teoria se apresenta. Uma sociedade só consegue absorver um número limitado de mudanças por vez.

Se as regras da vida econômica estão em evolução, as pessoas anseiam por estabilidade e mesmo uma regressão em outras áreas. Visto desse ângulo, o conflito dos anos 60 pode ser interpretado como os espasmos de uma nação tentando mudar demais em frentes demais em um período de tempo muito curto.

A questão é se o suposto herdeiro de Roosevelt aceita essa limitação. Uma alta recente da inflação vem alimentando a ideia de que está a caminho uma reação ao “Estado Grande” do presidente Joe Biden. Mas não é sua ousadia econômica por si só, que é excepcional. É sua coincidência com outra grande mudança.

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Orçamento de Biden versus Reação dos Republicanos para Manipulação de Futuras Eleições

Jaime Politi (Financial Times, 28/05/21) informa: o presidente dos EUA, Joe Biden, anunciará uma proposta de orçamento de US$ 6 trilhões para o ano fiscal 2022, reforçando sua proposta de planos de investimentos em grande escala do governo, com uma aposta de que a inflação recuará após o avanço deste ano.

O primeiro orçamento do governo Biden representa um aumento significativo em relação ao último orçamento do governo Trump, para o atual ano fiscal, que foi de US$ 4,8 trilhões.

Por outro lado, o déficit orçamentário deve cair de US$ 3,1 trilhões para US$ 1,8 trilhão no próximo ano – o último ano do governo Trump foi marcado por um déficit recorde, resultado da queda da receita e aumentos dos gastos por conta da pandemia de covid-19. Na média, a Casa Branca estima déficits anuais de mais de US$ 1,3 trilhão durante a próxima década, segundo informações antecipadas pelo jornal “The New York Times”.

A proposta orçamentária da Casa Branca incorpora os planos de gastos de oito anos apresentados pelo presidente: US$ 2,3 trilhões em infraestrutura, US$ 1,8 trilhão do Famílias Americanas e fornece detalhes sobre o pedido de US$ 1,5 trilhão para o Pentágono e agências federais. Os gastos públicos vão subir para US$ 8,2 trilhões em 2031, enquanto a dívida crescerá dos 100% do PIB, previstos para este ano, para 117% na próxima década, superando o recorde do fim da Segunda Guerra Mundial.

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Queda da Taxa de Natalidade na China

Os resultados de censo de uma década apresentam à China e seu presidente, Xi Jinping, uma escolha extrema: acabar com os controles do Partido Comunista sobre o planejamento familiar e a imigração, ou manter as políticas e correr o risco de incorrer numa queda do crescimento econômico.

Há poucos dias, o governo da China disse que os nascimentos caíram pelo quarto ano seguido em 2020 e a taxa geral de crescimento da população diminuiu ao ponto de quase estagnar, com o número total da população crescendo para 1,41 bilhão. Quase 20% dos cidadãos têm 60 anos ou mais.

Wang Feng, professor de sociologia da Universidade da Califórnia em Irvine, acredita que a população da China começará a encolher dentro de cinco anos. “Será um declínio sem fim.”

A estagnação do crescimento populacional, mesmo para a populosa China, se traduz em menos pessoas jovens para gerar poder econômico, uma vez que o crescente número de idosos representa um dreno para as finanças. Isso é o inverso do perfil demográfico que sustentou o milagre econômico chinês, basicamente um aumento da produtividade baseado numa oferta sem fim de mão-de-obra barata.

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Nos EUA, covid-19 afetou mais a renda de pessoas com baixa escolaridade

As consequências econômicas da pandemia de covid-19 se concentraram entre as minorias, as mulheres e os trabalhadores sem terminarem o ensino médio, segundo nova pesquisa do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA).

Cerca de 75% dos adultos americanos informaram que tinham uma condição econômica ao menos satisfatória em novembro de 2020, parcela mantida inalterada se comparada a anos anteriores.

Mas esse dado mascara divergências significativas no bem-estar econômico entre os trabalhadores que mantiveram seus empregos e os demitidos, entre famílias com maior grau de instrução e as com menor grau e as que têm filhos e as que não têm.

Entre adultos com escolaridade inferior ao ensino médio completo, 45% informaram que estão em condição econômica satisfatória, parcela inferior aos 54% que deram essa resposta em 2019. Entre os com nível universitário ou pós-graduação esse percentual sobe para 89%, de 88% em 2019, disse o Fed em sua pesquisa de Economia e Tomadas de Decisão das Famílias, com mais de 11 mil indivíduos.

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Vitória da Esquerda no Chile

Marsílea Gombata (Valor, 18/05/21) informa: os partidos antes dominantes se revezaram no poder desde a redemocratização no Chile. Eles foram os principais derrotados na eleição dos membros da Assembleia Constituinte no fim de semana. A votação foi um castigo contra a direita no governo, mas também contra a centro-esquerda. Ela sai enfraquecida.

A coligação Vamos pelo Chile, formada por partidos de direita que apoiam o presidente Sebastián Piñera, ficou com 37 assentos. A centro-esquerda conquistou 25 cadeiras na Constituinte. A esquerda ficou com 28 assentos, e independentes, 65 assentos. Os independentes são de diferentes correntes políticas, fora dos partidos tradicionais, e muitos não estavam organizados em listas.

Assim, a direita não terá um terço mais um necessário – 52 cadeiras – para bloquear mudanças que estarão na Constituição que substituirá a Carta de 1980, herdada do regime de Augusto Pinochet. Esta é a primeira vez que a direita ficará impedida de barrar reformas, em parte devido ao maior efeito da reforma eleitoral de 2017. Historicamente, a tendência era haver dois deputados de cada distrito – um de direita e um de centro-esquerda. A reforma instituiu sistema proporcional que levou partidos menores a conseguir maior representação.

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Economia dos EUA não está superaquecida: sem Inflação de Demanda, mas sim de Custos

J. Bradford DeLong ex-secretário adjunto do Tesouro dos EUA, é professor de economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador associado do Departamento Nacional de Pesquisa Econômica. Em artigo (Valor, 05/05/21) critica os neoliberais pregadores da inflação de demanda por conta de pressuposto aquecimento excessivo da economia norte-americana.

Nos últimos tempos, o noticiário financeiro e econômico nos Estados Unidos esteve dominado por preocupações sobre a inflação. “A inflação fora de controle é o maior risco para os investidores”, alerta Jim Paulsen, do Leuthold, segundo o canal de TV a cabo CNBC. Como potencial proteção contra a inflação, “a hora do bitcoin está chegando depressa”, relata Robert Hackett, da Fortune.

Segundo o Relatório de Notícias dos EUA e do Mundo, “muito tem se falado de inflação em 2021, à medida que os temores de gastos públicos elevados espreitam e a recente retomada de preços aos níveis pré-pandêmicos vêm alarmando alguns investidores para a possibilidade de que a tendência continue durante algum tempo”.

No entanto, também é possível ler que “os rendimentos do Tesouro dos EUA se mantêm firmes mesmo com a inflação se recuperando”. Após crescer a um índice anualizado de 33,4% no terceiro trimestre de 2020, 4,3% no quarto trimestre e 6,4% no primeiro trimestre deste ano, a economia americana está a caminho de uma recuperação plena.

A expectativa é que o índice de crescimento do segundo trimestre seja de ao menos 8%, e talvez até significativamente maior, o que significa que a economia dos EUA, em termos agregados, terá retornado completamente a seu nível de produtividade pré-pandemia até o terceiro ou quarto trimestre deste ano.

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Incerteza Política sobre Planos de Biden

Kate Davidson (Dow Jones Newswires, 03/05/2021) informa: o pacote de alívio à covid-19 de US$ 1,9 trilhão do presidente americano, Joe Biden, foi financiado totalmente com dinheiro emprestado. Agora, ele está propondo gastar mais cerca de US$ 4,5 trilhões em programas sociais e de infraestrutura, sem aumentar os déficits.

“Podemos fazer isso sem aumentar os déficits”, disse Biden, em sessão do Congresso na quarta-feira (28/04/21), onde detalhou aumentos de impostos sobre ricos e empresas, para pagar os programas. Eles vão de construção de estações de carregamento de baterias de carros elétricos à assistência à infância.

Mas alcançar esse objetivo dependerá de uma série de variáveis políticas e econômicas, algumas fora de seu controle. Entre elas, a aceitação de sua proposta de aumento de impostos por democratas moderados e duração desses aumentos por tempo suficiente para cobrir os custos extras.

Juntas, as propostas acrescentariam US$ 1,3 trilhão aos déficits do governo nos próximos dez anos, segundo a Comissão por um Orçamento Federal Responsável (CRFB, na sigla em inglês) e da Cornerstone Macro Research. Eles afirmam que o rombo será compensado nos anos posteriores, se os aumentos dos impostos forem mantidos e parte dos gastos, reduzida.

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Moeda Digital: Negócio da China

Sérgio Tauhata (Valor, 30/04/2021) avalia: a desconfiança sobre o lançamento do yuan digital exibida por parte da mídia e governos ocidentais, no início de abril, ecoou em alguma medida o sentimento do início da guerra fria nos anos 60 diante das especulações sobre a eventual concorrência para a hegemonia do dólar. Se a possibilidade de o yuan digital ameaçar a supremacia da divisa americana no comércio exterior é vista como ainda prematura, um ponto é avaliado como certo pelos especialistas: trata-se do tiro de largada de uma corrida pela digitalização das moedas nacionais.

O projeto capitaneado pelo Banco Popular da China (PBoC), o banco central do país asiático, tem potencial de causar grandes mudanças. Assim como na época da corrida espacial, está em jogo é o domínio de uma tecnologia capaz de aumentar a influência das nações. Agora, porém, a competição é para ocupar um lugar de destaque no futuro sistema monetário global.

O lançamento do yuan digital representa o início de um movimento a ser feito por BCs de várias partes do mundo. Mais de 60 bancos centrais têm estudado, desde 2014, a emissão de moedas digitais.

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Polêmica sobre População Chinesa

A China deverá informar seu primeiro declínio populacional desde a catastrófica fome que acompanhou o Grande Salto para Frente, a desastrosa política econômica de Mao Tsé-tung do fim dos anos 50 que causou a morte de dezenas de milhões de pessoas.

A atual queda acontece apesar de um relaxamento das rígidas políticas de planejamento familiar, cujo objetivo foi reverter uma queda da taxa de natalidade na nação mais populosa do mundo.

O mais recente censo chinês foi concluído em dezembro de 2020, mas seus resultados ainda não foram divulgados. Ele deverá mostrar a população total do país em menos de 1,4 bilhão, segundo fontes a par do estudo. Em 2019, a população da China foi anunciada como tendo superado a marca de 1,4 bilhão.

Esse número é considerado muito sensível e não será anunciado até que vários órgãos do governo não chegarem a um consenso sobre a informação e suas implicações.

“Os resultados do censo terão um impacto enorme sobre a maneira como a população chinesa vê seu país e como funcionam os vários órgãos do governo”, diz Huang Wenzheng, sócio do Center for China and Globalization, um centro de estudos de Pequim.

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Tributação Progressiva e Apoio à Sindicalização: sai Capitalismo de Livre Mercado, entra Capitalismo de Estado de Bem-Estar Social

O principal assessor econômico do governo dos EUA, Brian Deese, confirmou o plano do presidente Joe Biden para aumentar as alíquotas do imposto sobre ganho de capital para quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano. Segundo Deese, apenas 0,3% dos contribuintes serão afetados, o equivalente a 500 mil famílias.

O objetivo da medida é ampliar a arrecadação do governo federal para financiar outros projetos, como uma proposta ainda a ser detalhada por Biden para aumentar os investimentos em educação.

“Não há evidências” de a taxação sobre ganhos de capital ter impacto negativo nos investimentos de longo prazo.

Segundo o Financial Times, o governo Biden quer aumentar a maior alíquota do imposto de renda de 37% para 39,6% e aplicar taxas normais de imposto de renda sobre ganhos de capital e pagamentos de dividendos para quem ganha mais de US$ 1 milhão. Lá como cá, renda e ganho do capital são isentos!

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Bidenomics: Radical ou Moderada?

Edward Luce (Financial Times, 30/04/2021) afirma: não importa se você perguntar a americanos ou estrangeiros, esquerdistas ou direitistas, a Presidência de Joe Biden é vista pela maioria das pessoas como surpreendentemente radical. Em seus primeiros cem dias, Biden elevou os gastos do governo dos EUA em cerca de 15% do PIB, embarcou em ofensiva de sedução dos aliados, voltou a reivindicar a liderança americana contra o aquecimento global e deixou Donald Trump para trás no resort de Mar-a-Lago.

Alguns dos fãs mais extravagantes de Biden o comparam a Franklin Roosevelt, cuja arrancada inicial no governo 1. criou a base do Estado de bem-estar social dos EUA e 2. aniquilou o fantasma do fascismo americano. É difícil achar uma troca presidencial mais abrupta face à vista entre Trump e Biden.

Mas em certos aspectos há menos radicalismo em Biden do que se crê à primeira vista. O elemento mais surpreendente neste início de governo é o volume de gasto desejado ser aprovado no Congresso:

US$ 1,9 trilhão, da Lei de Socorro Americano, já aprovada em março, que ajudará a estimular um crescimento em torno de 7% na economia dos EUA neste ano;

US$ 2,3 trilhões, do Plano de Empregos Americanos, para atualizar a infraestrutura do país, incrementar a ajuda a idosos e vários outros investimentos, como o US$ 50 bilhões para a indústria americana de semicondutores; e

US$ 1,8 trilhão, do Plano Famílias Americanas, proposto nesta semana, que equipararia os benefícios sociais de trabalhadores, pais e crianças nos EUA aos de outros países ricos.

A ocasião anterior quando os gastos públicos saltaram dessa forma foi na Segunda Guerra Mundial. A farra fiscal dos EUA, porém, começou há 400 dias, com os US$ 2,3 trilhões do primeiro pacote de estímulo de Trump, seguidos por US$ 900 bilhões aprovados em dezembro para ajudar o país a atravessar a pandemia. Os objetivos de Biden são bem diferentes. Mas o rio de dólares começou a fluir meses antes de ele assumir o cargo.

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