Experiência é um farol voltado para trás…

Down Jones (14/06/22) informa: as últimas semanas, altos funcionários do governo do presidente Joe Biden e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) admitiram publicamente que cometeram erros ao lidar com a inflação. Por trás de seus erros estava uma leitura equivocada da economia.

Assessores do presidente Biden e funcionários do Fed temiam a pandemia de covid-19 e as restrições relacionadas ao evento trazerem consequências semelhantes à crise financeira de 2007-2009: demanda fraca, crescimento lento, longos períodos de alto desemprego e inflação muito baixa.

Então eles aplicaram a última cartilha à nova crise. O Fed apostou em políticas de juros baixos que acreditava terem sido eficazes e geralmente benignas, e prometeu não recuar prematuramente. Autoridades eleitas concluíram terem confiado demais no Fed anteriormente e decidiram gastar mais agressivamente desta vez, começando com o presidente Donald Trump e culminando com o US$ 1,9 trilhão em estímulos do governo Biden.

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FMI preocupado com Endividamento Mundial

O crescimento recorde da dívida privada deve retardar a recuperação econômica, mas o grau de atraso da retomada vai variar entre os países e dentro deles, diz o Fundo Monetário Internacional (FMI). Essa variação terá impactos nas medidas de aperto ou alívio fiscal e, consequentemente, nas taxas de crescimento econômico desses países.

Em seu relatório “Dívida do setor privado e a recuperação global”, divulgado ontem, o FMI avalia que as ações dos governos diminuíram o sofrimento econômico da pandemia de covid-19, fornecendo liquidez para consumidores e empresas por meio de garantias de crédito, empréstimos subsidiados e moratórias no pagamento de juros. Mas essas medidas também elevaram o endividamento privado, ampliando a alavancagem iniciada pelas condições de juros ultrabaixos a partir da crise financeira global de 2008.

A dívida privada global aumentou para 13% do produto interno bruto mundial em 2020 – mais do que durante a crise financeira de 2008. Para os analistas do FMI, tal alavancagem pode reduzir a recuperação econômica em 0,9% do PIB nas economias mais ricas e em 1,3% nos países emergentes, em média, nos próximos três anos.

“Durante a pandemia, em particular em sua fase mais aguda, as políticas de estímulo governamentais ajudaram a manter acesso ao crédito, evitando que a recessão fosse ainda mais profunda em 2020”, afirma o documento. “Com os países se preparando agora para normalizar sua política monetária, avaliar como essa alavancagem está distribuída é fundamental para prever o ritmo da recuperação e calibrar a retirada dos estímulos dados durante a pandemia”, alerta o estudo.

O impacto da pandemia nas finanças das famílias e empresas variou não só entre os países como também no âmbito doméstico deles, observou o FMI, ressaltando a complexidade do monitoramento a ser realizado. “As diferenças entre os países são grandes, com importantes implicações para o crescimento futuro”, assinala o documento.

À medida que as economias iniciam uma retomada e a inflação se acelera, os governos precisam levar em conta o impacto do aperto fiscal e monetário sobre consumidores e empresas para ajustar o ritmo de retirada das políticas de apoio extraordinárias.

Segundo o FMI, os setores não financeiros mais alavancados durante a emergência da pandemia foram os de semicondutores, software e serviços de tecnologia de informação (TI), farmacêutico e de biotecnogia e de equipamentos de saúde.

“As análises mostram que a recuperação deve ser mais lenta em países onde a alavancagem está concentrada em empresas vulneráveis e famílias de baixa renda, o espaço fiscal é limitado, os processos de insolvência são ineficazes e a política monetária precisa ser apertada mais rápido”, diz o FMI.

Para evitar que o aperto rápido da política monetária cause rupturas grandes e potencialmente duradouras, os governos devem estar atentos a consequências adversas no setor financeiro.

Essa atenção é especialmente importante em países nos quais uma onda de falências em setores fortemente atingidos pela pandemia podem se espalhar para o restante da economia.

Para evitar essas consequências, o Fundo recomenda que os países incentivem a reestruturação em vez da liquidação e, se necessário, estendam o apoio à solvência. Mecanismos de reestruturação serão necessários para promover a rápida realocação de capital e trabalho para empresas mais produtivas.

O Fundo considera fundamental, para calibrar o ritmo de retirada das medidas de estímulo, o monitoramento cuidadoso dos balanços das famílias de baixa renda e de empresas vulneráveis.

“Para estimar o impacto da recessão da covid-19 no endividamento das famílias, é preciso acompanhar, além de dados macroeconômicas, variáveis como renda e dívida”, diz o estudo. “Dados regionais e setoriais como salários, emprego, desemprego, preços da habitação e empréstimos bancários devem ser são usados para estimar as mudanças no padrão de endividamento”, conclui.

Os bancos em países emergentes passaram a exibir níveis recordes de dívida soberana em seus balanços ao longo da pandemia, informa o Fundo Monetário Internacional (FMI) no capítulo 2 do Relatório de Estabilidade Financeira Global (GSFR, na sigla em inglês) de abril de 2022. Segundo o órgão, “nível de dívida soberana dos bancos sobe para um recorde à medida que os governos gastam para amortecer impacto da pandemia”.

O FMI enxerga um aumento do risco à estabilidade financeira pelas pressões sobre as finanças do setor público. “As autoridades devem agir rapidamente para minimizar esse risco”, aponta a entidade. Governos de todo o mundo têm gastado agressivamente para ajudar as famílias e empregadores a enfrentar o impacto econômico da pandemia, na visão do fundo. “A dívida pública aumentou porque os governos emitiram títulos para cobrir seus déficits orçamentários.”

A razão média de dívida pública em relação ao PIB – uma medida chave da saúde fiscal de um país – subiu para um recorde de 67% no ano passado em países de mercados emergentes, de acordo com o capítulo 2 do GSFR.

Conforme o FMI, os bancos de mercados emergentes forneceram a maior parte desse crédito. Esse cenário fica claro quando se observa o patamar da participação de dívida do governo em relação aos ativos das instituições financeiras. Segundo o fundo, essa fatia também atingiu um recorde de 17% em 2021.

“Em algumas economias emergentes, a dívida do governo equivale a um quarto dos ativos bancários”, diz o órgão. O resultado, de acordo com o fundo, é que os governos emergentes dependem muito de seus bancos para crédito, e esses bancos dependem muito dos títulos do governo como investimentos que podem ser usados como garantia de financiamentos do banco central.

O cenário de risco se eleva diante do aperto das condições financeiras globais, aumento das tensões geopolíticas e grandes necessidades de financiamento público. “Dada a natureza multifacetada do vínculo soberano-banco, a resposta política para mitigar os riscos deve ser adaptada às circunstâncias específicas do país”, afirma o FMI.

O órgão sugere que os governos façam melhor direcionamento dos gastos em países com espaço fiscal e restrições de endividamento para aumentar a resiliência e mitigar o impacto de um choque adverso e preservem recursos bancários para absorver perdas, restringindo a distribuição de capital quando necessário.

Outra medida recomendada é a realização de testes de estresse bancário, levando em consideração os múltiplos canais de transmissão dessa relação entre governo e bancos. A busca de opções para reduzir as vulnerabilidades trazidas por essa relação, como sobretaxas de capital sobre as participações dos bancos em títulos soberanos acima de certos limites, também é uma iniciativa desejável, segundo o Fundo – uma vez que a recuperação econômica tenha se consolidado e relacionado à pandemia as medidas de apoio ao setor financeiro foram retiradas. Há ainda a recomendação para que os países promovam esforços contínuos para incentivar uma base de investidores profunda e diversificada, e assim fortalecer a resiliência nos mercados de títulos em moeda local subdesenvolvidos.

O FMI sugere que o Comitê de Supervisão Bancária da Basileia considere retomar esforços para desenvolver padrões internacionais, com uma “discussão sobre uma [eventual] regulamentação e supervisão”. O fundo propõe que, dentro desse escopo, os bancos sejam obrigados a divulgar dados sobre todas as exposições relevantes soberanas.

Desde o início da pandemia, em março de 2020, o Fed mais que dobrou seu balanço patrimonial de US$ 4,1 trilhões para US$ 9 trilhões. Antes da crise de 2008, o balanço somava US$ 900 bilhões.

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O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai iniciar uma redução significativa em seu balanço patrimonial – que já atinge US$ 9 trilhões – a partir da próxima reunião de seu Comitê de Mercado Aberto, o Fomc, em maio. É um esforço concentrado, junto com a alta de juros, para combater a inflação, que já chega perto dos 8%, a maior em quatro décadas.

A sinalização foi dada ontem pela conselheira do Fed, Lael Brainard, em conferência virtual da regional de Mineápolis do BC dos EUA. Brainard espera confirmação do Senado americano para assumir a vice-presidência do Fed.

Disse: a redução do balanço, aliada à elevação dos juros, vai levar a política monetária para uma posição mais neutra – que não acelera nem desacelera a economia – até o fim do ano.

Desde o início da pandemia, em março de 2020, o Fed mais que dobrou seu balanço patrimonial de US$ 4,1 trilhões para US$ 9 trilhões, por meio da compra de títulos do Tesouro e papéis atrelados a hipotecas, para dar suporte aos mercados financeiros nos dois anos após o início da pandemia. Antes da crise de 2008, o balanço somava US$ 900 bilhões.

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Uso do Mercado como Arma

O ex-presidente do Banco Central da Índia Raghuram Rajan defende uma nova arquitetura global que comece com a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) após a invasão da Rússia na Ucrânia. O uso de ferramenta financeiras como arma nesta guerra, diz, é a prova de que o sistema internacional não está mais funcionando.

É neste contexto, segundo o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), que se deve discutir uma nova ordem financeira mais democrática e métricas claras para que empresas decidam se querem, ou não, manter-se presentes em determinados países. Mais de 200 companhias anunciaram a suspensão ou encerramento de operações na Rússia nos últimos dias.

“Há circunstâncias em que a justiça e o Estado de direito importam mais. Mas temos de ter um sistema que determine quando isso ocorre. Não podemos depender da raiva que se tenha de um determinado país. Isso levaria ao colapso dos investimentos transnacionais globais, porque neste caso poderia haver um tipo de sanção que levaria companhias a fazerem complôs umas contra as outras, para eliminar a concorrência”, afirma o professor da Universidade de Chicago em entrevista ao Valor (14/03/22).

Rajan, 59 anos, critica o que chama de hipocrisia dos países ricos para lidar com o dinheiro sujo de cleptocratas. “Os grandes países são cúmplices nisso. Falam de corrupção, paraísos fiscais e países emergentes, mas sabem perfeitamente que oligarcas não querem manter seus ativos em países do Terceiro Mundo. Querem manter seu dinheiro em Londres, Miami ou Milão.” Rajan destaca que a pandemia ainda é um dos principais desafios da economia global e que a guerra deve aprofundar a preocupação com a inflação.

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Desglobalização segundo Dani Rodrik

O economista Dani Rodrik está convencido de que a era da “hiperglobalização”, iniciada nos anos 1990, chegou ao fim. A pandemia e a guerra da Ucrânia enterraram o tempo em que a integração econômica e financeira deixavam em segundo plano preocupações geopolíticas e com a segurança nacional, afirma o professor de Harvard.

Para ele, a economia global que emerge neste momento é mais fragmentada e regionalizada. A produção, as cadeias de fornecedores e as relações financeiras estarão organizadas a partir de três polos – EUA, Europa e China (com o Sudeste Asiático).

O Brasil, acredita Rodrik, ficará naturalmente mais próximo do mercado americano do que é hoje. No entanto, potências médias – grupo em que ele também inclui países como Índia e África do Sul – devem atuar como pontes entre esses polos. No caso do Brasil, o maior desafio nessa economia global em transformação não é integrar-se ao mundo, mas domesticamente: disseminar a inovação e alta produtividade de seus setores de ponta para aqueles considerados retardatários.

O professor da John F. Kennedy School of Government, da Universidade de Harvard (EUA), foi o principal palestrante, na semana passada, do 9o Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria, realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Sebrae.

A seguir os principais pontos da entrevista dada Daniel Rittner (Valor, 15/03/22), logo após a sua palestra no evento:

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Consequências Econômicas da Guerra

Gabriel Galípolo, mestre em Economia Política pela PUC-SP, é sócio da Galípolo Consultoria.
Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Escreveram artigo (Valor, 08/03/22) com título de célebre artigo de Keynes.

Entre as sanções anunciadas no dia 26 de fevereiro para isolar a Rússia do sistema financeiro internacional, concentraram as atenções a remoção de bancos russos selecionados do SWIFT e as medidas restritivas para impedir o BC russo de usar suas reservas internacionais.

Não é a primeira vez que o SWIFT é utilizado como instrumento de poder geopolítico. Em 2006, o sistema foi alvo de divergências envolvendo EUA e União Europeia, após a descoberta do chamado “acordo swift”. Por meio de um software, os EUA acessam a base de dados (informações confidenciais) sobre transferências bancárias, sem o conhecimento de bancos e seus clientes, em um esforço secreto do “Terrorist Finance Tracking Program”, criado pela política de “Guerra ao Terror” da administração Bush.

Ainda em 2006, o governo belga (o SWIFT é sediado em Bruxelas) declarou que o acordo violava as leis do país e da UE. Em 11 de fevereiro de 2010 o “acordo swift” foi rejeitado pelo Parlamento Europeu, com a perda de seus efeitos jurídicos na Europa para preservar os direitos dos cidadãos europeus.

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Novo Mundo de Desordem Monetária

Martin Wolf (FT apud Valor, 30/03/22) publicou artigo sobre o cenário futuro.

No fim de janeiro, a Rússia detinha US$ 469 bilhões em reservas cambiais. Esse tesouro nasceu da prudência ensinada por seu episódio de inadimplência de 1998 e, assim esperava Vladimir Putin, também constituía uma garantia de sua independência financeira. Mas, com o início de sua “operação militar especial” na

Ucrânia, ele ficou sabendo que mais de metade de suas reservas foram congeladas. As moedas de seus inimigos deixaram de ser dinheiro utilizável. Esse ato não é significativo apenas para a Rússia. Uma desmonetização dirigida das moedas mais globalizadas do mundo tem grandes implicações.

O dinheiro é um bem público. Um dinheiro global – um de que as pessoas dependem em suas transações e decisões de investimento transfronteiras – é um bem público global. Mas os provedores desse bem público são governos nacionais. Mesmo pelo padrão de troca antigo do ouro também era assim.

Na nossa era de moeda “fiat” (criada pelo governo), desde 1971 isso tem sido ainda mais obviamente assim. No terceiro trimestre de 2021, 59% das reservas cambiais mundiais eram denominadas em dólares, outros 20% em euros, 6% em ienes e 5% em libras esterlinas. O yuan da China respondia por menos que 3%. Atualmente, o dinheiro mundial é emitido pelos Estados Unidos e seus aliados, inclusive os pequenos.

Isso não resulta de um complô. O dinheiro útil é o de economias abertas, dotadas de mercados financeiros com liquidez, estabilidade monetária e Estado de Direito. Mas o uso dessas moedas como armas, e dos sistemas financeiros, que as gerenciam solapa essas propriedades para qualquer detentor que teme ser atingido. As sanções ao banco central da Rússia são um choque. Que país será o próximo, perguntam os governos? O que isso significa para a nossa soberania?

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Ruptura do Padrão-Dólar?

Sérgio Tauhata (Valor, 24/03/22) fez extensa reportagem sobre como o conflito na Ucrânia abalou os alicerces do mundo contemporâneo e suas consequências vão reverberar por décadas. Como legado, antecipam economistas e analistas, o mundo emergirá mais inseguro, polarizado, desigual, fragmentado e com potencial de crescimento menor.

“Claramente nós estamos testemunhando o mais complexo ambiente econômico e político de nossas vidas”, afirma o diretor do departamento monetário e de mercado de capitais do Fundo Monetário Internacional (FMI), Tobias Adrian. “Ainda que alguns efeitos não fiquem aparentes por muitos anos, o aumento da tensão geopolítica eleva o risco de fragmentação econômica, especialmente para [setores de] comércio e tecnologia”.

Na visão do diretor executivo para as Américas da Eurasia, Cristopher Garman, as sanções sem precedentes impostas pelos países ocidentais vão durar anos e terão como consequência uma ruptura de laços entre a economia da Rússia e a Europa. Além disso, esse movimento tende ainda a se complementar com um aprofundamento da relação entre a Rússia e a China. “Esse alinhamento dificilmente não vai se traduzir em um relacionamento ainda mais tenso entre EUA e China”.

A guerra “vai exacerbar o diagnóstico de Pequim sobre sua relação com o sistema global financeiro e de comércio. A China vai buscar diminuir a dependência dos sistemas de pagamento do Ocidente” e acelerar o processo de internacionalização do yuan. A lógica de sistemas paralelos está se aprofundando.

Para Adrian, “no longo prazo, a ordem econômica e geopolítica global podem evoluir conforme mude [o eixo] do comércio global de energia e as cadeias de suprimentos são reconfiguradas”. O diretor do Fundo avalia ainda que “a fragmentação das redes de pagamentos e o rebalanceamento das reservas em moedas internacionais dos países também podem ter um impacto [na reorganização de blocos econômicos]”.

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Sanções provocam Crise Financeira Sistêmica

Durante a Guerra da Crimeia, entre 1854 e 1856, Grã-Bretanha, França e Rússia travaram batalhas sangrentas no território da atual Ucrânia. Centenas de milhares morreram em decorrência de ferimentos ou doenças. No entanto, ao longo de tudo isso o Tesouro britânico continuou pagando suas dívidas com o governo czarista e a Rússia continuou pagando juros aos detentores britânicos de sua dívida soberana.

Segundo a nova história das sanções de Nicholas Mulder, o livro “The Economic Weapon” (a arma econômica, em tradução livre), um ministro britânico declarou ser óbvio para as “nações civilizadas” que dívidas públicas deveriam continuar sendo pagas a um inimigo durante uma guerra.

Mas os tempos mudaram. Em resposta à invasão da Ucrânia por Vladimir Putin, os Estados Unidos e seus aliados proibiram negócios com o governo russo, expulsaram alguns bancos russos do sistema de pagamentos Swift e congelaram os ativos do banco central da Rússia. Em vez de pagar dívidas ao inimigo, a resposta padrão de hoje é paralisar a economia do agressor – mesmo que você não esteja envolvido na luta.

Congelar as reservas do banco central da Rússia foi um ato particularmente inesperado, implacável e eficaz. A decisão impediu Moscou de estabilizar sua moeda. O rublo entrou em colapso. Mas o uso de uma sanção tão poderosa despertou temores de consequências não intencionais para o sistema financeiro internacional. Se as reservas de um banco central em dólares podem ser congeladas quando mais precisa delas, então qual é o sentido de mantê-las?

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Fim da Ordem Internacional Neoliberal pós-1989

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, é presidente da Associação Econômica Internacional. Compartilho seu artigo (Valor, 11/03/22) abaixo.

A invasão da Ucrânia pela Rússia – uma flagrante violação do direito internacional que resultou em um desastre humanitário – fechou o caixão da ordem internacional “liberal” pós-1989. A isenção liberal já estava em seu leito de morte, tendo sido mortalmente ferida pelo conflito geopolítico entre a China e os Estados Unidos e a reação contra a hiperglobalização. Quaisquer esperanças de sua reanimação receberam agora um golpe final e decisivo.

A ordem global que estamos deixando para trás se baseou na premissa de que o mundo poderia contar com interesses econômicos – principalmente de grandes corporações, bancos e investidores baseados nos EUA e na Europa Ocidental – para espalhar prosperidade e mitigar conflitos. À medida que potências médias e em ascensão, como Rússia e China, se tornassem mais ricas, elas se tornariam mais parecidas com o “Ocidente”, e os imperativos da competição geopolítica dariam lugar à busca de ganhos com o comércio.

Enquanto economistas do livre mercado forneceram a narrativa fundadora da velha ordem, geopolíticos “realistas” irão moldar a ordem vindoura. E a imagem que eles pintam não é bonita: um mundo de competição de soma zero entre grandes potências, onde a busca pela segurança nacional, a inevitável incerteza sobre os motivos dos adversários e a ausência de um aplicador de regras globais levarão principalmente ao conflito em vez de cooperação.

Em mundo assim, a questão dominante que o Ocidente enfrenta é como conter a Rússia e a China. É possível promover uma cisão entre eles? Ou o Ocidente deveria acomodar os objetivos da Rússia na Europa para formar uma frente comum com ela contra o desafio econômico e tecnológico mais potente apresentado pela China? Todos os outros assuntos, incluindo comércio, investimentos, mudança climática, pobreza global e saúde pública estarão subordinados a essas questões.

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Moeda Paralela Privada como Fuga das Sanções de Guerra

Em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia, o mercado global de criptomoedas atingiu o valor de US$ 2 trilhões, segundo dados da CoinGecko. O patamar não era visto desde 16 de fevereiro. No dia 23, véspera do início do conflito, estava em US$ 1,774 trilhão.

As moedas digitais voltaram a se valorizar no fim do primeiro dia de ataques e têm se mantido em alta. Analistas destacam que, conforme as sanções contra a Rússia se aprofundam e a Ucrânia implementa um controle bancário, a demanda por criptomoedas aumenta.

No dia 28 de fevereiro de 2022, houve um aumento nos endereços com mais de mil bitcoins – o salto alimenta a suspeita de que “players” relevantes ampliaram sua exposição a criptomoedas. Porém, é difícil ter certeza de que o motivo seja a guerra, já que não é possível identificar quem são os agentes por trás dessa movimentação.

não são necessariamente as compras de criptomoedas pela população dos dois países que impulsiona a cotação de ativos como o bitcoin. No entanto, ele avalia que a tese das moedas virtuais como reserva de valor se fortalece quando governos passam a intervir no sistema financeiro tradicional. “É a única forma de reserva que as pessoas têm e que é inexpropriável.”

Esta é a primeira guerra onde os criptoativos desempenham um papel. O governo ucraniano anunciou um “airdrop” para quem doou para seus endereços oficiais de criptografia. O país enviará uma quantidade gratuita de tokens de criptoativos para quem está doando para ajudar os esforços de resistência. Do outro lado, a União Europeia planeja incluir as moedas virtuais nas sanções contra a Rússia.

Pode haver dificuldade do acesso tanto de ucranianos quanto de russos a criptomoedas via corretoras neste momento. Enquanto a Rússia sofre sanções e exchanges internacionais são pressionadas a bloquear operações do país, os ucranianos estão com acesso limitado a dinheiro fiduciário a ser trocado por cripto.

Tal situação deve ampliar as transações “peer to peer” (P2P), mercado menos organizado que o das corretoras e sem a referência de preço em tela. Se retirar essa camada de visibilidade das corretoras, isso fará os governos perderem um grande aliado, pois o controle é muito menor no P2P.

Mais de 5,5 milhões de ucranianos têm criptomoedas, ou 12,7% da população do país. Na Rússia, há 17,38 milhões de detentores de moedas virtuais, ou 11,91% dos cidadãos.

Apesar do rali, o mercado ainda está distante da máxima histórica, em 8 de novembro de 2021, quando alcançou US$ 3,069 trilhões.

A respeito do futuro da moeda digital, Armando Castelar Pinheiro (Valor, 04/03/22) resenhou o livro de Eswar Prasad, “The Future of Money: How the Digital Revolution is Transforming Currencies and Finance” (Harvard University Press, 2021). Compartilho a resenha abaixo.

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Era do Renminbi Digital: Quebra da Hegemonia do Dólar

Renato Baumann é técnico do Ipea. Publicou (Valor, 24/01/22) artigo sobre a moeda digital chinesa.

Nos jogos de inverno a China anunciará sua moeda digital. A digitalização das transações comerciais naquele país já faz parte da vida diária há algum tempo. E o país vem adotando projetos-piloto na direção que agora chega ao seu ápice, com a moeda emitida pelo Banco Central em formato digital. Ainda não estão claros os detalhes, mas é possível se especular sobre alguns efeitos que isso poderá ter.

A adoção de moeda digital emitida pela autoridade monetária tem se convertido em tema universal. Este tema está sendo considerado por mais de 100 países. Nos Estados Unidos há estudos sendo feitos pelo Banco Central (Fed) e o MIT sobre um possível dólar digital, o Banco Central Europeu também sinalizou estudos nessa direção, alguns países já adotam moeda digital, e aqui no Brasil o Banco Central tem anunciado a realização de estudos nesse sentido.

Há, mesmo, um exercício coordenado pelo BIS envolvendo a Austrália, Suriname, Malásia e África do Sul, para criar a primeira moeda comum digitalizada.

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