Política de Combate à Pobreza e Igualitária Versus Teologia da Prosperidade e Segurança

Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional em Harvard. Publicou artigo (Valor, 2/04/18) com a resposta à pergunta do título “O que está detendo a esquerda?“. Reproduzo-a abaixo. Para esse debate sobre a esquerda norte-americana (e mundial), em especial, a política identitária, leia também: Reflexão para a Esquerda: Tática Eleitoral e Estratégia Igualitária.

“Por que os sistemas políticos democráticos não reagiram suficientemente cedo às queixas que populistas autocráticos exploraram com sucesso – desigualdade e preocupação econômica, declínio do status social, abismo entre as elites e os cidadãos comuns? Se os partidos políticos, particularmente os de centro-esquerda, tivessem perseguido uma agenda mais ousada, talvez os movimentos políticos anti-imigração de direita pudessem ter sido evitados.

Em princípio, maior desigualdade produz uma demanda por mais
redistribuição. Políticos do partido democrata deveriam responder impondo impostos mais altos aos ricos e gastando os recursos recolhidos em benefício dos menos favorecidos. Essa noção intuitiva é formalizada num artigo bastante conhecido de economia política, de Allan Meltzer e Scott Richard: quanto maior a diferença de renda entre o eleitor mediano e o eleitor médio, maiores os impostos e maior a redistribuição.

Na prática, porém, as democracias seguiram no rumo oposto. A progressividade dos impostos sobre a renda diminuiu, a dependência em relação aos impostos regressivos sobre o consumo aumentou e a tributação sobre o capital iniciou uma corrida mundial para baixo. Em vez de impulsionar investimentos em infraestrutura, os governos adotaram políticas de austeridade, prejudiciais para os trabalhadores de baixa qualificação. Grandes bancos e companhias foram socorridos, mas as famílias, não. Nos EUA, o salário mínimo não foi suficientemente ajustado, permitindo que ele se desvalorizasse em termos reais.

Parte da razão para isso, pelo menos nos EUA, é que a adoção, pelo Partido Democrata, de “políticas de identidade” e outras causas socialmente liberais veio à custa de questões mais importantes de subsistênciarenda e empregos. Como escreve Robert Kuttner em um novo livro, a única coisa ausente na plataforma de Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016 foi classe social. Continue reading “Política de Combate à Pobreza e Igualitária Versus Teologia da Prosperidade e Segurança”

Reflexão para Esquerda: Tática Eleitoral e Estratégia Igualitária

mark lilla

A velha ideia única de “colocar ‘o povo’ na rua” está sendo ultrapassado pelos fatos. Os manifestantes presenciais sempre serão restritos pelo lugar e hora.

Sem dúvida, participar de manifestação no vão do MASP ou de passeata na Avenida Paulista é catártico. Provoca a liberação de emoções ou tensões reprimidas e tem um efeito liberador produzido pela encenação de certas ações políticas, especialmente as que fazem apelo ao medo e à raiva. Mas é suficiente para ganhar eleições?

As manifestações organizadas e contínuas, inclusive nos comentários cotidianos na grande imprensa, enfrentando a direita organizada, parece atingir um público muito maior. A “maioria silenciosa” hoje não grita na rede social?

Em entrevista à Patrícia Mello Campos (FSP, 24/03/18), o cientista político Mark Lilla, da Universidade Columbia, autor do artigo político mais lido do New York Times em 2016, defende que a esquerda precisa de menos manifestantes e mais vitórias eleitorais. Ele critica a política identitária abraçada pelos democratas e a falha do partido em conceber visão de país na qual diferentes grupos se reconheçam.

Mark Lilla se tornou um dos mais polêmicos dos pensadores de centro-esquerda ao criticar, em artigo no New York Times, em 2016, logo após a eleição de Donald Trump, a política identitária abraçada pelo Partido Democrata. Para o cientista político e professor da Universidade Columbia, o discurso que enfatiza identidades e isola os eleitores de grupos minoritários é responsável pelas seguidas derrotas dos democratas nos Estados Unidos.

Ao segmentar o eleitorado e customizar a mensagem para hispânicos, negros, mulheres e cidadãos LGBT, os liberais americanos — no sentido que a palavra tem nos EUA, de pessoas de centro-esquerda que defendem atuação do Estado para reduzir desigualdade — teriam perdido a capacidade de formular uma visão de país que atraísse toda a população.

O texto “O fim do liberalismo identitário” foi o artigo político mais lido do jornal naquele ano, e acabou se transformando em um livro, “The Once and Future Liberal: After Identity Politics” (O liberal de então e o do futuro: depois da política identitária), lançado nos EUA em agosto do ano passado pela HarperCollins. Novamente, seu argumento foi recebido com críticas viscerais.

Lilla, que virá ao Brasil para participar de uma das conferências do ciclo Fronteiras do Pensamento, em novembro de 2018, diz que se transformou em um elemento “tóxico” para a esquerda, mas dobra a aposta. “Não se trata de parar de lutar pelos direitos das minorias, mas sim de começar a ganhar essas lutas“, disse, em entrevista à Folha.

Para ele, uma outra prova de que as políticas identitárias são equivocadas é que líderes autoritários populistas de direita, como Vladimir Putin, o húngaro Viktor Orbán e até o grupo racista americano Ku Klux Klan fazem da identidade sua razão de ser.

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Queda da Indústria Brasileira no Atual Contexto Mundial Benigno

Confira, no ranking mundial, a queda de PIB baseado em PPC do Brasil com a volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015. Em 2005, durante o Governo Lula, a indústria brasileira era 2,9% da mundial; em 2016, sua representatividade caiu para 1,8%. Enquanto isso, a China e a Índia, utilizando-se da alavancagem financeira propiciada por seus bancos públicos, elevam seus PIBs. A China ultrapassou os EUA em 2014.

Confirme abaixo a importância de líderes como Lula, Obama e Merkel para seus países adotarem estratégia desenvolvimentista e compare com o quadro depressivo atual em função do golpe de Estado “semi-parlamentarista”.

 

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Baixa Taxa de Natalidade: Demografia X Economia

Raine Tiessalo (Valor, 25/09/17) afirma que “você sabe que você tem um problema quando mesmo as melhores cabeças não têm uma solução”. A Finlândia, um lugar excelente para ser mãe, registrou o menor número de recém nascidos em quase 150 anos. A taxa de natalidade vem caindo de forma constante desde o início da década, e há pouca coisa que sugira uma reversão da tendência.

Demografia é uma preocupação em todo o mundo desenvolvido, isso já sabemos. Mas é particularmente problemático para países com um generoso Estado de bem-estar, uma vez que coloca em risco sua sobrevivência de longo prazo.

A estatística é “assustadora”. Ela mostra a rapidez com que nossa sociedade está mudando e não temos soluções prontas para deter o fenômeno. Tem um grande setor público e o sistema precisa de contribuintes futuros no regime de repartição, quando ativos cobrem inativos.

Para isso, a taxa de fertilidade precisaria ser igual a dois filhos por mulher. As projeções apontavam para 1,57 em 2016, segundo a Statistics Finland. [A do Brasil já está abaixo desse nível, mas é a quinta maior população no mundo.]

Esse é um nível surpreendentemente baixo, em vista dos esforços do Estado para incentivar a geração de filhos. Continue reading “Baixa Taxa de Natalidade: Demografia X Economia”

Inflação Baixa: Armadilha da Liquidez ou Lei de Say?

Economistas neoclássicos/pré-keynesianos defendem a Ley de Say: a canalização exata de poupança para investimento propicia o equilíbrio entre demanda e oferta agregada. Na realidade, o sistema bancário não adota esse comportamento hipotético. Porém,  quando a taxa de inflação está baixa, os ultraliberais juram que é uma prova (ex-post) do acerto dessa sua previsão!

Economistas keynesianos retrucam que essa coincidência nivela por baixo e coloca a economia na “santa paz dos cemitérios”. Que “equilíbrio” é este, só visto pelos neoliberais, com desempregados procurando empregos sem os achar?!

Ora, o mundo está em plena armadilha da liquidez. Esta é a preferência pela liquidez generalizada que só ocorre durante uma Grande Depressão — e não é permanente como advogam economistas pós-keynesianos.

Segundo Sérgio Lamucci (Valor, 15/09/17) o economista argentino Guillermo Calvo avalia que, no mundo rico, a inflação permanece baixa mesmo com o crescimento um pouco mais forte da economia porque a grande quantidade de dinheiro em circulação não tem sido efetivamente canalizada para o crédito.

Professor da Universidade Columbia, em Nova York, Calvo diz que os bancos não estão dispostos a emprestar como antes da crise financeira global, que se intensificou depois do colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. No caso dos EUA, a regulação mais rigorosa do setor financeiro também tornou mais difícil a concessão de empréstimos, afirma ele, numa referência à chamada lei Dodd-Frank.

“Nós estamos num tipo de regime de armadilha de liquidez, em que a liquidez está presa no setor bancário”, afirma ele. “Há muito dinheiro em circulação, eu concordo, mas esse dinheiro não se traduz em instrumentos de crédito.”

Nas atuais circunstâncias, a recuperação em curso no mundo rico levaria a uma alta de preços se houvesse a expectativa de aumento muito agressivo da oferta de dinheiro na economia, segundo Calvo. Não é isso, contudo, o que está ocorrendo. Continue reading “Inflação Baixa: Armadilha da Liquidez ou Lei de Say?”

Adeus ao Proletariado e à Socialdemocracia Alemã

Guy Chazan (Valor, 22/08/17) informa que os operários da região industrial do Vale do Ruhr sempre votaram nos social-democratas. Mas até agora têm dúvidas em relação ao partido que apoiaram a vida inteira, pois o SPD é bem menos ‘social’ hoje do que já foi.

A apenas seis semanas das eleições para o Bundestag, a Câmara Baixa do Parlamento alemão, as apreensões de operários eleitores da centro-esquerda estão transformando a política no país. Durante décadas, o SPD foi o partido natural da classe trabalhadora. Isso vem mudando.

Apoiado por gerações de mineiros e metalúrgicos leais, o SPD dominou a política local de regiões industriais, como o Vale do Ruhr, por décadas. Mas um número crescente de operários vem voltando as costas para o partido.

Alguns pararam completamente de votar, enquanto outros agora apoiam o partido populista de direita Alternativa para a Alemanha, o AfD. Esse desencanto terá um impacto profundo nas eleições do mês que vem, nas quais o líder do SPD, Martin Schulz, espera derrotar Angela Merkel, a premiê de longa data da Alemanha, e introduzir um novo governo de esquerda.

Mas suas chances estão cada vez menores: uma pesquisa recente de intenção de voto coloca o SPD, hoje parceiro menor da coalizão de governo liderada pelo Partido Democrata Cristão (CDU), em 25%, 12 pontos atrás do bloco CDU/CSU de Merkel. Continue reading “Adeus ao Proletariado e à Socialdemocracia Alemã”

Crescimento Sincronizado na OCDE

Josh Zumbrun (Valor, 25/08/17) informa que, pela primeira vez em dez anos, as maiores economias do mundo estão crescendo em sincronia, resultado dos prolongados estímulos proporcionados pelas baixas taxas de juros dos bancos centrais e do gradual diminuição das crises que reverberaram pelo planeta nos últimos anos, desde os EUA e a Grécia até o Brasil.

Todos os 45 países acompanhados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estão no rumo para crescer neste ano, sendo que 33 deles deverão acelerar-se em comparação a 2016, segundo o grupo. É a primeira vez desde 2007 que todos estão em expansão e é o maior número de países em aceleração desde 2010, quando muitos vivenciaram uma recuperação passageira da crise financeira global.

Em julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetava uma expansão de 3,5% da produção econômica global neste ano e de 3,6% em 2018 – de 3,2% em 2016.

Nos últimos 50 anos, foi raro ver um crescimento simultâneo em todos os países acompanhados pela OCDE. Além da década passada, isso aconteceu apenas no fim dos anos 80 e, por poucos anos, antes da crise do petróleo de 1973. Continue reading “Crescimento Sincronizado na OCDE”