Protecionismo e Riscos de Ruptura das Cadeias Globais de Valor

Outros países veem os EUA como um modelo. Se o protecionismo for o novo modelo, todos os países também começarão a agir do mesmo modo.

Trump mudou por completo a política comercial de Washington desde quando assumiu o cargo no começo de 2017, impondo tarifas sobre aliados estratégicos como o Canadá, Japão e União Europeia, e lançando os EUA em um confronto comercial com a China. Trata-se de um grande contraste com os esforços de seus antecessores, incluindo George W. Bush e Barack Obama, de conduzir o mundo em direção a um comércio mais aberto.

Bush entendia o protecionismo prejudicar os interesses dos EUA. Hoje, predomina a visão contrafactual e revisionista do presidente Trump de os EUA serem vítimas, em vez de beneficiários, da globalização e dos mercados abertos.

Entre as maiores economias do mundo, o Brasil é a menos afetada em termos de emprego pela intensificação da guerra comercial, deflagrada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, segundo levantamento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em seu “Interim Economic Outlook Forecasts“, a OCDE alerta que as tensões comerciais, com a imposição de sobretaxas, seguidas de medidas retaliatórias, já começaram a elevar os custos, e que sua intensificação prejudicará investimentos, crescimento e empregos.

A entidade fez uma comparação entre as maiores economias, envolvendo o emprego (na indústria e nos serviço) dependente da demanda final estrangeira. Continue reading “Protecionismo e Riscos de Ruptura das Cadeias Globais de Valor”

Estado Nacional Reacionário: Livre Fluxo de Capital X Repressão ao Fluxo de Gente

Manifestantes em Frankfurt durante ato em setembro em favor dos imigrantes. Na avaliação de Streeck, a abertura das fronteiras na Alemanha favoreceu grupos de extrema-direita e dividiu a União Europeia Foto: Thomas Lohnes / Getty ImagesManifestantes em Frankfurt durante ato em setembro de 2018 em favor dos imigrantes. Na avaliação de Streeck, a abertura das fronteiras na Alemanha — um ato humanitário — favoreceu grupos de extrema-direita e dividiu a União Europeia. Foto: Thomas Lohnes / Getty Images

O sociólogo alemão Wolfgang Streeck é um pop star entre os críticos da globalização. Segundo ele, a direita nacionalista cresce ao explorar falhas do capitalismo neoliberal, enquanto a centro-esquerda é incapaz de reconhecer essas falhas. Será?

A esquerda critica sim o livre fluxo de capital sem a contrapartida do livre fluxo de gente. Por esse tipo de globalização a riqueza se concentra cada vez mais no centro, onde moram os grandes acionistas mundiais, e a pobreza é reprimida na periferia, onde não se encontram oferta de empregos suficientes para atende toda a demanda populacional.

Como os miseráveis podem sobreviver nessa economia de mercado desigual e combinada?!  A realidade miserável impõe a imigração para a Europa e os EUA.

8 Perguntas para Wolfgang Streeck

1. Qual é a relação entre o fim do “capitalismo democrático” e a atual onda do chamado “populismo de direita”?

Muitas coisas diferentes são chamadas de “populismo”. Na Europa, os partidos centristas falam do populismo para desacreditar novos partidos, de esquerda ou direita, que representem os cidadãos em questões das quais os centristas desistiram há muito tempo. O que está por trás disso é o declínio geral do que podemos ver como o padrão da democracia do pós-guerra, inspirado pelo New Deal e apoiado pelos Estados Unidos em sua rivalidade global com o comunismo: dois partidos centristas, um de centro-esquerda e outro de centro-direita, eleições razoavelmente livres, sindicatos fortes e dissídios coletivos institucionalizados, políticas industriais nacionais protegendo os cidadãos de mudanças econômicas muito rápidas, Estado do Bem-Estar Social, desigualdade relativamente baixa, uma imprensa livre consciente de sua responsabilidade pública etc. Grande parte disso desapareceu na revolução neoliberal que começou nos anos 70, então os cidadãos procuram novas forças políticas que proporcionem o que as velhas não entregam mais ou se recusam a entregar.

2. A preferência dos eleitores por políticos direitistas é frequentemente descrita como irracional. O senhor parece discordar. Por quê?

O voto não é uma questão só de demanda, mas também de oferta. Os eleitores só podem escolher dentro do que está sendo oferecido. Se a esquerda tem pouco ou nada a oferecer, seus eleitores potenciais podem escolher não votar ou votar em outros partidos. Sem uma esquerda com credibilidade, os eleitores das classes trabalhadoras ou mais pobres são e sempre foram vulneráveis à demagogia direitista, especialmente hoje, com os novos meios de comunicação. O que é ou não “irracional” é uma questão de definição. O fato é que a esquerda não desenvolveu uma resposta política convincente para o que é chamado de “globalização”. Enquanto não houver essa resposta, não deveríamos ficar surpresos ao ver as coisas sair politicamente do controle.

Continue reading “Estado Nacional Reacionário: Livre Fluxo de Capital X Repressão ao Fluxo de Gente”

Antieconomicismo: Economistas X Plutocratas

Plutocracia se refere à influência ou o poder do dinheiro, ou seja, argentarismo. Significa o exercício do poder ou do governo pelas classes mais abastadas da sociedade, no caso, a influência dos ricos ou do dinheiro na sociedade ou no governo.

J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário-assistente do Departamento de Tesouro dos EUA, é professor de Economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA. Publicou artigo (Valor, 06/11/18) sobre um tema recorrente: economistas teriam tanta responsabilidade sobre a crise econômica quanto policiais teriam sobre os assassinatos.

“Agora que estamos testemunhando o que parece ser a queda histórica do Ocidente, vale a pena perguntar que participação os economistas tiveram nos desastres da última década.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial até 2007, os dirigentes políticos ocidentais pelo menos agiram como se estivessem interessados em alcançar o pleno emprego, a estabilidade dos preços, uma distribuição de renda e de riqueza aceitavelmente justa e uma ordem internacional aberta na qual todos os países se beneficiariam com o comércio externo e o sistema financeiro.

Esses objetivos, é verdade, estavam sempre em tensão, de modo que às vezes punhamos os incentivos ao crescimento antes da igualdade de renda, e a abertura antes dos interesses de trabalhadores ou setores específicos. No entanto, o propósito geral da formulação de políticas públicas abrangia todos os quatro objetivos.

Aí sobreveio 2008, quando tudo mudou. A meta do pleno emprego saiu do radar dos dirigentes do Ocidente, embora não houvesse nem a ameaça de inflação nem vantagens adicionais a serem auferidas a partir de uma maior abertura. No mesmo sentido, o objetivo de criar uma ordem internacional que atendesse a todos foi sumariamente abandonado. Ambos os objetivos foram sacrificados em favor do restabelecimento da sorte dos super-ricos, talvez com uma distante esperança de que a riqueza “se infiltrasse lenta e paulatinamente” sobre as camadas inferiores algum dia.

No nível macro, a história da década pós-2008 é quase sempre entendida como um erro de análise econômica e de comunicação. Nós, economistas, supostamente deixamos de transmitir aos políticos e burocratas o que precisava ser feito, por não termos analisado correta e integralmente a situação em tempo real. Continue reading “Antieconomicismo: Economistas X Plutocratas”

Divisão Rural-Urbana nos EUA: Econômica e Ideológica

Sam Fleming (Valor, 16/10/18) reporta: uma pesquisa revelou uma divisão geográfica gritante na economia dos EUA, na qual 80% dos municípios rurais têm menos empresas do que antes da crise financeira, enquanto as grandes cidades prosperam.

Relatório do grupo de estudos Economic Innovation Group (EIG), divulgado nessa segunda-feira, mostra: em apenas 20% dos municípios predominantemente rurais com menos de 100 mil habitantes houve aumento líquido no número de empresas entre 2007 e 2016. No mesmo período, houve crescimento líquido no número de empresas em 58% dos municípios com ao menos 500 mil habitantes.

O quadro contrasta com outros períodos de recuperação da economia americana no passado e coloca em evidência a divisão rural-urbana no país. Ela também é uma força marcante na política dos EUA. Áreas rurais ajudaram a sustentar a ascensão de Donald Trump à Presidência do país e continuam sendo fortes bases de apoio do presidente e do Partido Republicano, mesmo depois de a guerra comercial fomentada por seu governo ter resultado em tarifas retaliatórias sobre produtos agrícolas americanos e estar prejudicando muitos agricultores. Continue reading “Divisão Rural-Urbana nos EUA: Econômica e Ideológica”

Governo Neoliberal na Argentina: Crônica de um Fracasso Anunciado

Os brasileiros necessitam refletir sobre o caso argentino, para avaliar as melhores condições políticas para o próximo governo social-desenvolvimentista não assumir um país polarizado. Têm de votar na democracia contra a regressão ao regime autoritário militar. Uma aliança progressista em busca de uma histórica conciliação nacional contra discursos de ódio mútuo e em favor do bem-estar social é a solução para ultrapassar essa terrível página da história brasileira durante 2013-2018.

Daniel Rittner (Valor, 12/09/18) avalia: o presidente da Argentina, Mauricio Macri, passou de príncipe dos mercados, que permitiu à Argentina ser estrela no Fórum de Davos e emitir títulos da dívida externa com resgate em cem anos, para chegar aos mil dias de mandato, na segunda semana de setembro de 2018, com zero de crescimento acumulado da economia e dois pedidos de ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em quatro meses.

Macri anunciou, então, um duro pacote de ajuste em meio a uma dúvida geral: por que O Mercado deu as costas a um de seus grandes queridinhos no mundo emergente? snif, snif…  🙂

Logo no início do governo, Macri acabou com o controle cambial e concluiu as negociações com os credores mais resistentes (“holdouts“) da Argentina, que ainda detinham títulos da dívida em situação de default. Isso lhe garantiu acesso ao crédito barato no exterior, em tempos de alta liquidez e juros baixíssimos nos Estados Unidos, para financiar duas distorções da economia argentina que só foram aumentando: os déficits gêmeosfiscal e de conta corrente.

Para cobrir o rombo, a Argentina tem emitido mais de US$ 30 bilhões por ano em títulos da dívida. À diferença do Brasil, cujo governo Lula desdolarizou a dívida pública e se desvinculou da dependência ao FMI, o Tesouro faz a maior parte das captações com títulos de dívida pública com correção em dólares (Letes). Em seguida, vem o Banco Central e enxuga a base monetária por meio da emissão de letras próprias (Lebacs). Assim, o BC busca conter a sobrevalorização do peso e evitar uma disparada da inflação, já elevada, mas o sucesso foi apenas relativo.

Essa fórmula resultou em aumento do endividamento e do desequilíbrio cambial. Em termos reais, o peso já estava valendo, antes da desvalorização de maio de 2018, quase a mesma coisa que nos anos 1990. No ano passado, a Argentina teve o pior déficit comercial de sua história: US$ 8,4 bilhões. O déficit na conta de turismo chegou a US$ 10,6 bilhões, também histórico.

Continue reading “Governo Neoliberal na Argentina: Crônica de um Fracasso Anunciado”

Bíblias de O Mercado abandonam Bolsonaro

 

Patrícia Campos Mello é repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA. É vencedora do prêmio internacional de jornalismo Rei da Espanha. Escreveu resenha jornalística (FSP, 21.set.2018) sobre noticiário internacional sobre o dano à imagem exterior do País com a ameaça da volta do regime militar autoritário.

Jornais e revistas financeiros internacionais criticam candidato e sinalizam trégua com Haddad

“Bolsonaro, cujo nome do meio é Messias, promove a salvação; na realidade, ele é uma ameaça para o Brasil e a América Latina.”

“Se ele ganhar, pode colocar em risco a sobrevivência da democracia do maior país da América Latina”

“Se Bolsonaro ganhar, o próximo governo não conseguirá nenhuma (das reformas) acima citadas. Pior, seus instintos autoritários podem enfraquecer ainda mais a democracia brasileira”

Não, não foi o Granma, o jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, que publicou essas frases. Isso estava no editorial (e em um briefing) da revista Economist, a bíblia dos livre-mercadistas e cabeças pensantes do mercado.

“Nos últimos dois meses, enquanto a maioria dos investidores em emergentes acordaram para o dólar forte, as taxas de juros em ascensão e a redução na liquidez barata que vinha sendo o grande motor dos mercados emergentes por tantos anos, eles também acordaram para a ideia de que talvez eles não consigam ter um presidente (no Brasil) pró-reformas. Começam a pensar mais na possibilidade de Bolsonaro não acreditar em reformas… Paulo Guedes certamente é um reformista, mas isso não significa que Bolsonaro vá ouvi-lo…e mesmo que Bolsonaro fosse o mais fervoroso reformista, ele provavelmente não conseguiria aprovar nada no Congresso. Então é irônico que aquele que era o azarão desta eleição até pouco tempo atrás, Fernando Haddad (…) é, na realidade, uma pessoa séria. Apesar de o programa do PT ser muito contrário a reformas, e inclusive prega que sejam desfeitas as reformas bem pequenas que foram feitas, ele é um cara sério que acredita em deixar a Petrobras e outras petrolíferas determinarem preços, acredita em uma previdência unificada, acabando com o sistema de previdência injusto que beneficia o setor público em detrimento de todo o resto. Então o mercado pode acabar conseguindo o que quer, do jeito que menos espera”.

Continue reading “Bíblias de O Mercado abandonam Bolsonaro”

Projeto da Nova Rota da Seda: Sabedoria Chinesa no Uso de Crédito

Chineses sabem: economia funciona tal e qual uma bicicleta, se não pedalar, cai! Sem alavancar financeiramente projetos com crédito, não há crescimento sustentado. Qual é o limite? Quando estiver em pleno emprego. Uma sociedade com 1,35 bilhão de habitantes — e um mundo a ser integrado — já o alcançou?

A China aprendeu, por conta da crise financeira global, que a dependência excessiva do Ocidente em questões de comércio e economia é perigosa. Ela precisa ampliar sua cooperação com países não ocidentais. Como resultado, a China tornou-se cada vez mais ativa internacionalmente, promovendo algumas agendas influentes, entre elas, a Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI, na sigla em inglês), anunciada em 2013, é a mais significativa.

A BRI, também conhecida como a Nova Rota da Seda, é um grande programa de financiamento e construção de infraestrutura na Ásia, África, Europa e mais além. Há mais de 65 economias ao longo de sua rota, na maioria, países em desenvolvimento.

Algumas pessoas comparam a BRI ao Plano Marshall, o principal programa de assistência dos Estados Unidos que ajudou a reconstruir a Europa ocidental de 1948 a 1952. Essas pessoas temem que a BRI vá servir como um instrumento de geopolítica para que a China forje uma aliança de países beneficiários para confrontar o Ocidente.

O Plano Marshall se desenvolveu como um meio de conter a expansão do comunismo e da União Soviética na Europa, ao unir 16 países da Europa ocidental como beneficiários e manter os comunistas fora de seus governos. Nesse sentido, a BRI é mais inclusiva que o Plano Marshall. Ela atravessa civilizações.

Em segundo lugar, a BRI não tem implicações militares e de segurança. Seus objetivos essenciais se baseiam em cinco prioridades oficiais de cooperação, no centro das quais está a conectividade de infraestrutura. As Cinco Interconectividades, como são chamadas, formam uma estrutura complicada que envolve indivíduos, empresas, sociedades e seus governos, sem implicações militares. Contrariamente, outra coisa surgiu do Plano Marshall, um plano marcial, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), e as duas iniciativas trabalharam juntas para conter a URSS.

Há mais de 70 anos, a União Soviética decidiu se confrontar com o que via como uma ação hostil dos EUA para conter sua influência e deu as costas ao Ocidente. Hoje, a China não tem nem o desejo nem a capacidade para iniciar uma nova Guerra Fria. Simplesmente, a China não possui o poder econômico e militar que os EUA tinham ao fim da 2a Guerra Mundial. E tem uma geopolítica econômica planejada!

Jaime Kynge (Valor, 13/08/18) informa: o líder da China, Xi Jinping, chamou-a de o “projeto do século”. Ela prenunciaria uma “Era de Ouro” da globalização. Continue reading “Projeto da Nova Rota da Seda: Sabedoria Chinesa no Uso de Crédito”