Para onde foram as vagas da indústria?

J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário-assistente do Departamento de Tesouro dos EUA, é professor de economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA. Publicou artigo (Valor, 04/05/17) se perguntando: para onde foram as vagas da indústria?

“Nas duas décadas entre 1979 e 1999, o número de postos de trabalho na indústria de transformação dos Estados Unidos recuou de 19 milhões para 17 milhões. Mas nos dez anos seguintes, entre 1999 e 2009, o número despencou para 12 milhões. Essa queda mais drástica originou a ideia de que a economia americana teria deixado, repentinamente, de funcionar – pelo menos para operários do sexo masculino – na virada do século.

Mas é equivocado sugerir que tudo estava bem na indústria antes de 1999. Os empregos industriais vinham sendo fechados naquelas décadas iniciais também. Mas os empregos perdidos em uma região e em um setor eram, geralmente, substituídos – em termos absolutos, se não como parcela da população economicamente ativa – por novos empregos em outra região ou setor. Continue reading “Para onde foram as vagas da indústria?”

Guinada à Esquerda do Partido Trabalhista Britânico

Gary Dymski tinha enviado o link para o Manifesto do Partido Trabalhista britânico: Labour’s Manifesto proposals could be just what the economy needs | The big issue.

Marsílea Gombata (Valor, 08/06/17) publicou breve reportagem sobre a guinada à esquerda do Partido Trabalhista britânico, que esvaziou a centro-esquerda no Reino Unido. Ela é uma resposta à falência de um modelo econômico incapaz de prover um Estado de bem-estar social mínimo. A afirmação é do cineasta Ken Loach (abaixo), para quem os trabalhistas antes da ascensão de Jeremy Corbyn se portavam como um partido de direita.

“É uma guinada essencial, viável eleitoralmente e resultado da situação econômica atual. As pessoas têm empregos precários, salários muito baixos, não conseguem se sustentar nem encontrar lugar para morar. Os serviços sociais estão ruindo, e os de saúde, falindo. É um projeto liberal claramente em colapso“, afirmou em entrevista ao Valor .

Para ele, trabalhistas como o ex-premiê Tony Blair criticam as posições mais à esquerda de Corbyn porque são políticos de direita dentro da legenda que era de centro-esquerda. “Blair é tão a favor do neoliberalismo como era [Margareth] Thatcher. Era o líder de um partido que deveria estar à esquerda, mas tinha políticas de direita.” Continue reading “Guinada à Esquerda do Partido Trabalhista Britânico”

Panorama da Economia Mundial

A Carta IEDI 786 informa que o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou recentemente, no “Panorama da Economia Mundial” (World Economic Outlook – WEO) de abril, seu cenário atual para o desempenho econômico global, que prevê uma retomada de dinamismo, em contraste com o tom pessimista das duas edições anteriores. Este contexto, se confirmado, favorecerá a economia brasileira após a pior recessão da sua história, muito embora o Fundo tenha reduzido a projeção de crescimento da economia brasileira em 2017 de mero 0,5% para 0,2%.

O FMI projeta uma expansão de 3,5% da economia mundial em 2017, implicando um impulso após dois anos de desaceleração (3,4% em 2014, 3,2% em 2015 e 3,1% em 2016) e o melhor desempenho desde 2012. Além disso, o Fundo espera que essa trajetória ascendente persista em 2018 (+3,6%). Notar, todavia que o ritmo de expansão global continuará num patamar inferior ao registrado no boom que precedeu a crise financeira global (2003 a 2007), bem como no biênio imediatamente posterior (2010-2011). Em contraste, o Banco Mundial, no seu relatório anual “Perspectivas para a Economia Global” (Global Economic Prospects) divulgado em janeiro estima um crescimento de 2,7%, ou seja, uma desaceleração de 0,4 p.p. frente ao ano anterior. Continue reading “Panorama da Economia Mundial”

Obstrução da Justiça + Tráfico de Influência + Prevaricação = Fora, Temer! E Trump!

O que tem de comum entre Trump e Temer? Obstrução da Justiça: um crime comum pelos quais Presidentes da República podem ser processados e cassados.

Este cargo eleito — ou nomeado pelos congressistas — exige seguir o Princípio da Impessoalidade, pois ele não se refere ou não se dirige a uma pessoa em particular, que tenha acesso privilegiado ao Estado, mas sim às pessoas em geral. Significa que a Administração Pública não pode atuar com vistas a prejudicar ou beneficiar pessoas determinadas, uma vez que é sempre o interesse público que tem que nortear o seu comportamento.

Receber e dar aval às ações corruptoras de um sujeito investigado pela Justiça que narra como ele está obstruindo, ilegalmente, a investigação e corrompendo agentes públicos?! Fora, Temer!

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Felicidade Interna Bruta em 2017

A felicidade nos EUA está em declínio e espera-se que continue em um caminho descendente, com as políticas de Donald Trump previstas para aprofundar a crise social do país. Os EUA caíram para o 14º lugar no World Happiness Report 2017, produzido pelas Nações Unidas. A superpotência econômica mundial está bem atrás da Noruega, embora permaneça acima da Alemanha em 17º lugar, no Reino Unido em 19º e na França em 32º lugar.

A Noruega derrubou a Dinamarca do primeiro lugar como o país mais feliz do mundo, com a Islândia e a Suíça a terminarem entre os quatro primeiros. Os autores do relatório ressaltam, contudo, que os quatro primeiros estão tão próximos que as mudanças não são estatisticamente significativas.

A próxima camada de países é regularmente encontrada na liderança em pesquisas de felicidade internacional: a Finlândia está em quinto lugar, seguida pelos Países Baixos, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Suécia.

Os países “infelizes” do mundo estão todos no Oriente Médio e na África: o Iêmen e a Síria, atingidos pela guerra, estão entre os 10 primeiros, com a Tanzânia, o Burundi e a República Centro-Africana integrando os três últimos.

O relatório da ONU, que se baseia em pesquisas Gallup de auto-relato de bem-estar, bem como percepções de corrupção, generosidade e liberdade, este ano tem um foco especial na “história de felicidade reduzida” nos EUA. Continue reading “Felicidade Interna Bruta em 2017”

A Força do Povo X Em Nome do Povo

Enquanto aqui se luta contra o retrocesso em conquistas sociais, na França se propõe no debate eleitoral um avanço em direção a novas conquistas sociais.

No Brasil, o relator da reforma trabalhista, deputado do PSDB, portanto, representante das castas dos mercadores e dos sábios-neoliberais, propõe a flexibilização do mercado de trabalho. Seu relatório amplia o principal ponto do projeto do governo golpista, que é fazer os acordos entre sindicatos e empresas prevalecerem sobre a legislação em alguns pontos, como o cumprimento da jornada de trabalho, desde que respeitadas a Constituição (máximo de 44 horas semanais); banco de horas; adicional por produtividade; participação nos lucros e resultados. A oposição criticou e disse que muitos sindicatos são “capturados” pela empresa e aceitam regras prejudiciais aos trabalhadores. As centrais sindicais reclamam ainda que o projeto fortalece a negociação coletiva ao mesmo tempo que enfraquece os sindicatos, ao acabar com o pagamento obrigatório do imposto sindical.

Compare com as propostas em debate na França. Assis Moreira (Valor, 12/04/17) informa que a possibilidade de a eleição presidencial na França ser decidida por “dois populistas”, um de extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon, e outra de extrema-direita, Marine Le Pen, em maio de 2017, elevou o nervosismo nos mercados financeiros e o risco de uma crise política sem precedentes na segunda maior economia da Europa.

A ascensão de Mélenchon como o terceiro mais forte candidato, a menos de duas semanas do primeiro turno, no dia 23 de abril, fez investidores internacionais venderem ações e títulos soberanos franceses. O prêmio dos títulos da dívida francesa de dez anos subiu para quase 1%, enquanto que o dos títulos da Alemanha, vistos como ativo seguro, é de apenas 0,2%. Os bancos BNP Paribas, Crédit Agricole e Société Générale perderam ontem mais de 1% em valor de mercado.

O cenário de um voto “anti-establishment na eleição francesa cresceu com Mélenchon passando a 19% das intenções de voto no primeiro turno, em empate técnico com o candidato da direita tradicional, François Fillon, que tem 18,5%, e se aproximando do centrista Emmanuel Macron, com 23%, e de Marine Le Pen, 24%, segundo pesquisa do instituto Ifop.

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60 Anos da União Europeia

Valentina Pop (Valor, 25/03/17) informa que, para os líderes da União Europeia (UE), o encontro, em Roma, para comemorar o 60o aniversário do tratado de fundação do bloco, pretendia ser uma celebração genuína de um experimento bem-sucedido visando a reconstrução de um continente marcado pelas cicatrizes de duas guerras mundiais. Mas o Brexit, o mal-estar econômico, a imigração, a hostilidade russa, a indiferença dos Estados Unidos e o crescente ânimo nacionalista em toda a Europa estragaram a festa de aniversário.

Essa nuvem de problemas, claramente reforçada pela ausência da primeira-ministra britânica Theresa May na comemoração, revela profundas divisões entre as nações mais ricas e mais pobres do bloco, entre os falcões fiscais no norte e as nações devedoras no sul, e entre países ex-comunistas do leste e países membros do oeste.

Manter sintonizadas as seis nações que originalmente assinaram o Tratado de Roma em 1957 — que dirá as 22 que aderiram posteriormente — parece agora um grande desafio.

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