Governo Neoliberal na Argentina: Crônica de um Fracasso Anunciado

Os brasileiros necessitam refletir sobre o caso argentino, para avaliar as melhores condições políticas para o próximo governo social-desenvolvimentista não assumir um país polarizado. Têm de votar na democracia contra a regressão ao regime autoritário militar. Uma aliança progressista em busca de uma histórica conciliação nacional contra discursos de ódio mútuo e em favor do bem-estar social é a solução para ultrapassar essa terrível página da história brasileira durante 2013-2018.

Daniel Rittner (Valor, 12/09/18) avalia: o presidente da Argentina, Mauricio Macri, passou de príncipe dos mercados, que permitiu à Argentina ser estrela no Fórum de Davos e emitir títulos da dívida externa com resgate em cem anos, para chegar aos mil dias de mandato, na segunda semana de setembro de 2018, com zero de crescimento acumulado da economia e dois pedidos de ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em quatro meses.

Macri anunciou, então, um duro pacote de ajuste em meio a uma dúvida geral: por que O Mercado deu as costas a um de seus grandes queridinhos no mundo emergente? snif, snif…  🙂

Logo no início do governo, Macri acabou com o controle cambial e concluiu as negociações com os credores mais resistentes (“holdouts“) da Argentina, que ainda detinham títulos da dívida em situação de default. Isso lhe garantiu acesso ao crédito barato no exterior, em tempos de alta liquidez e juros baixíssimos nos Estados Unidos, para financiar duas distorções da economia argentina que só foram aumentando: os déficits gêmeosfiscal e de conta corrente.

Para cobrir o rombo, a Argentina tem emitido mais de US$ 30 bilhões por ano em títulos da dívida. À diferença do Brasil, cujo governo Lula desdolarizou a dívida pública e se desvinculou da dependência ao FMI, o Tesouro faz a maior parte das captações com títulos de dívida pública com correção em dólares (Letes). Em seguida, vem o Banco Central e enxuga a base monetária por meio da emissão de letras próprias (Lebacs). Assim, o BC busca conter a sobrevalorização do peso e evitar uma disparada da inflação, já elevada, mas o sucesso foi apenas relativo.

Essa fórmula resultou em aumento do endividamento e do desequilíbrio cambial. Em termos reais, o peso já estava valendo, antes da desvalorização de maio de 2018, quase a mesma coisa que nos anos 1990. No ano passado, a Argentina teve o pior déficit comercial de sua história: US$ 8,4 bilhões. O déficit na conta de turismo chegou a US$ 10,6 bilhões, também histórico.

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Bíblias de O Mercado abandonam Bolsonaro

 

Patrícia Campos Mello é repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA. É vencedora do prêmio internacional de jornalismo Rei da Espanha. Escreveu resenha jornalística (FSP, 21.set.2018) sobre noticiário internacional sobre o dano à imagem exterior do País com a ameaça da volta do regime militar autoritário.

Jornais e revistas financeiros internacionais criticam candidato e sinalizam trégua com Haddad

“Bolsonaro, cujo nome do meio é Messias, promove a salvação; na realidade, ele é uma ameaça para o Brasil e a América Latina.”

“Se ele ganhar, pode colocar em risco a sobrevivência da democracia do maior país da América Latina”

“Se Bolsonaro ganhar, o próximo governo não conseguirá nenhuma (das reformas) acima citadas. Pior, seus instintos autoritários podem enfraquecer ainda mais a democracia brasileira”

Não, não foi o Granma, o jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, que publicou essas frases. Isso estava no editorial (e em um briefing) da revista Economist, a bíblia dos livre-mercadistas e cabeças pensantes do mercado.

“Nos últimos dois meses, enquanto a maioria dos investidores em emergentes acordaram para o dólar forte, as taxas de juros em ascensão e a redução na liquidez barata que vinha sendo o grande motor dos mercados emergentes por tantos anos, eles também acordaram para a ideia de que talvez eles não consigam ter um presidente (no Brasil) pró-reformas. Começam a pensar mais na possibilidade de Bolsonaro não acreditar em reformas… Paulo Guedes certamente é um reformista, mas isso não significa que Bolsonaro vá ouvi-lo…e mesmo que Bolsonaro fosse o mais fervoroso reformista, ele provavelmente não conseguiria aprovar nada no Congresso. Então é irônico que aquele que era o azarão desta eleição até pouco tempo atrás, Fernando Haddad (…) é, na realidade, uma pessoa séria. Apesar de o programa do PT ser muito contrário a reformas, e inclusive prega que sejam desfeitas as reformas bem pequenas que foram feitas, ele é um cara sério que acredita em deixar a Petrobras e outras petrolíferas determinarem preços, acredita em uma previdência unificada, acabando com o sistema de previdência injusto que beneficia o setor público em detrimento de todo o resto. Então o mercado pode acabar conseguindo o que quer, do jeito que menos espera”.

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Projeto da Nova Rota da Seda: Sabedoria Chinesa no Uso de Crédito

Chineses sabem: economia funciona tal e qual uma bicicleta, se não pedalar, cai! Sem alavancar financeiramente projetos com crédito, não há crescimento sustentado. Qual é o limite? Quando estiver em pleno emprego. Uma sociedade com 1,35 bilhão de habitantes — e um mundo a ser integrado — já o alcançou?

A China aprendeu, por conta da crise financeira global, que a dependência excessiva do Ocidente em questões de comércio e economia é perigosa. Ela precisa ampliar sua cooperação com países não ocidentais. Como resultado, a China tornou-se cada vez mais ativa internacionalmente, promovendo algumas agendas influentes, entre elas, a Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI, na sigla em inglês), anunciada em 2013, é a mais significativa.

A BRI, também conhecida como a Nova Rota da Seda, é um grande programa de financiamento e construção de infraestrutura na Ásia, África, Europa e mais além. Há mais de 65 economias ao longo de sua rota, na maioria, países em desenvolvimento.

Algumas pessoas comparam a BRI ao Plano Marshall, o principal programa de assistência dos Estados Unidos que ajudou a reconstruir a Europa ocidental de 1948 a 1952. Essas pessoas temem que a BRI vá servir como um instrumento de geopolítica para que a China forje uma aliança de países beneficiários para confrontar o Ocidente.

O Plano Marshall se desenvolveu como um meio de conter a expansão do comunismo e da União Soviética na Europa, ao unir 16 países da Europa ocidental como beneficiários e manter os comunistas fora de seus governos. Nesse sentido, a BRI é mais inclusiva que o Plano Marshall. Ela atravessa civilizações.

Em segundo lugar, a BRI não tem implicações militares e de segurança. Seus objetivos essenciais se baseiam em cinco prioridades oficiais de cooperação, no centro das quais está a conectividade de infraestrutura. As Cinco Interconectividades, como são chamadas, formam uma estrutura complicada que envolve indivíduos, empresas, sociedades e seus governos, sem implicações militares. Contrariamente, outra coisa surgiu do Plano Marshall, um plano marcial, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), e as duas iniciativas trabalharam juntas para conter a URSS.

Há mais de 70 anos, a União Soviética decidiu se confrontar com o que via como uma ação hostil dos EUA para conter sua influência e deu as costas ao Ocidente. Hoje, a China não tem nem o desejo nem a capacidade para iniciar uma nova Guerra Fria. Simplesmente, a China não possui o poder econômico e militar que os EUA tinham ao fim da 2a Guerra Mundial. E tem uma geopolítica econômica planejada!

Jaime Kynge (Valor, 13/08/18) informa: o líder da China, Xi Jinping, chamou-a de o “projeto do século”. Ela prenunciaria uma “Era de Ouro” da globalização. Continue reading “Projeto da Nova Rota da Seda: Sabedoria Chinesa no Uso de Crédito”

Dois Terços (US$ 1,07 trilhão) da Moeda Americana circulam fora dos EUA

Jo Craven McGinty (Valor, 10/07/18) informa: um volume recorde de dinheiro americano está em circulação, mas a população dos EUA não está gastando a maior parte dele. Então, onde está o dinheiro? Até dois terços — US$ 1,07 trilhão — são mantidos fora dos EUA. Cerca de US$ 80 bilhões seguem em casa por instituições depositárias. O restante – cerca de US$ 453 bilhões – está nas mãos de empresas e indivíduos americanos.

A distribuição exata é desconhecida porque, quando o dinheiro é transferido para fora dos cofres do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), é praticamente impossível rastreá-lo.

As estimativas sobre as posições são deduzidas de ordens apresentadas por instituições depositárias, relatórios subsequentes ao Conselho Diretor do Fed e o que pode ser discernido com base nas denominações em circulação. Continue reading “Dois Terços (US$ 1,07 trilhão) da Moeda Americana circulam fora dos EUA”

Dívida Global: US$ 247 Trilhões ou mais de 3 vezes o PIB Global

Silvia Rosa (Valor, 11/07/18) informa: o volume global de dívida cresceu US$ 8 trilhões no primeiro trimestre de 2018 em relação ao quarto trimestre do ano passado, atingindo US$ 247,2 trilhões, o equivalente a 318% do PIB global, segundo dados do Instituto de Finanças Internacionais (IIF). Essa participação em relação ao PIB cresceu pela primeira vez desde o terceiro trimestre de 2016. A dívida das empresas não financeiras somou US$ 186 trilhões, ou 75% do total.

Com o crescimento global perdendo força e se tornando mais divergente e o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, as preocupações com o risco de crédito estão voltando a ganhar frente em muitas economias maduras. As dívidas corporativas estão em recorde de alta no Canadá, França e Suíça.

A dívida pública dos governos em relação ao PIB tem aumentado nos Estados Unidos, Austrália e Grécia, enquanto a Alemanha tem mostrado um notável declínio.

Já o total de dívida nos mercados emergentes, excluindo as empresas financeiras, subiu US$ 2,5 trilhões, para um novo recorde de US$ 58,5 trilhões. Ao longo do último ano, Colômbia, Argentina e Filipinas mostraram um forte aumento na relação dívida/PIB. De outro lado, Turquia e China tiveram um declínio. Continue reading “Dívida Global: US$ 247 Trilhões ou mais de 3 vezes o PIB Global”

Portugal, quantas léguas a nos separar…

Foi postado no Jornal GGN uma trilogia de minha autoria com 3 posts mapeando o debate eleitoral no Brasil:

Debate I: Prioridade à Retomada do Crescimento da Renda e do Emprego

Debate II: Linhas Ideológicas das Candidaturas em 2018

Debate III: Programas Econômicos dos Candidatos em 2018

No primeiro artigo, eu conclamo:

“Copiemos o exemplo recente de Portugal. Conforme a miséria se aprofundava esse país assumiu uma posição ousada. Em 2015, descartou as medidas de austeridade impostas por seus credores europeus e iniciou um ciclo virtuoso, colocando sua economia de volta no rumo do crescimento. O governo de centro-esquerda reverteu os cortes em salários, pensões e na seguridade social e ofereceu incentivos às empresas.

Os eleitores colocaram no poder Costa, um líder de centro-esquerda, no final de 2015, depois dele prometer a reversão dos cortes em suas rendas pessoais. Ele formou uma aliança incomum com o Partido Comunista e partidos de esquerda radical.”

Depois, achei prudente solicitar informações mais detalhadas sobre o que se passa em Portugal ao nosso estimado “correspondente europeu”: Miguel Amaral, amável seguidor português deste modesto blog pessoal. Ele me enviou os seguintes comentários, os quais compartilho com sua autorização.

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Política de Combate à Pobreza e Igualitária Versus Teologia da Prosperidade e Segurança

Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional em Harvard. Publicou artigo (Valor, 2/04/18) com a resposta à pergunta do título “O que está detendo a esquerda?“. Reproduzo-a abaixo. Para esse debate sobre a esquerda norte-americana (e mundial), em especial, a política identitária, leia também: Reflexão para a Esquerda: Tática Eleitoral e Estratégia Igualitária.

“Por que os sistemas políticos democráticos não reagiram suficientemente cedo às queixas que populistas autocráticos exploraram com sucesso – desigualdade e preocupação econômica, declínio do status social, abismo entre as elites e os cidadãos comuns? Se os partidos políticos, particularmente os de centro-esquerda, tivessem perseguido uma agenda mais ousada, talvez os movimentos políticos anti-imigração de direita pudessem ter sido evitados.

Em princípio, maior desigualdade produz uma demanda por mais
redistribuição. Políticos do partido democrata deveriam responder impondo impostos mais altos aos ricos e gastando os recursos recolhidos em benefício dos menos favorecidos. Essa noção intuitiva é formalizada num artigo bastante conhecido de economia política, de Allan Meltzer e Scott Richard: quanto maior a diferença de renda entre o eleitor mediano e o eleitor médio, maiores os impostos e maior a redistribuição.

Na prática, porém, as democracias seguiram no rumo oposto. A progressividade dos impostos sobre a renda diminuiu, a dependência em relação aos impostos regressivos sobre o consumo aumentou e a tributação sobre o capital iniciou uma corrida mundial para baixo. Em vez de impulsionar investimentos em infraestrutura, os governos adotaram políticas de austeridade, prejudiciais para os trabalhadores de baixa qualificação. Grandes bancos e companhias foram socorridos, mas as famílias, não. Nos EUA, o salário mínimo não foi suficientemente ajustado, permitindo que ele se desvalorizasse em termos reais.

Parte da razão para isso, pelo menos nos EUA, é que a adoção, pelo Partido Democrata, de “políticas de identidade” e outras causas socialmente liberais veio à custa de questões mais importantes de subsistênciarenda e empregos. Como escreve Robert Kuttner em um novo livro, a única coisa ausente na plataforma de Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016 foi classe social. Continue reading “Política de Combate à Pobreza e Igualitária Versus Teologia da Prosperidade e Segurança”