Era do Impasse Eleitoral do Parlamentarismo

Gideon Rachman (Financial Times, 05/11/2019) faz uma avaliação do quadro político-eleitoral não estar conseguindo estabelecer uma nítida hegemonia parlamentar em países europeus. Lá não há a fragmentação partidária existente no Brasil e mesmo assim é difícil constituir uma base governista consistente em tempo de intolerância mútua. Na Era do Impasse Democrático, eleições não dão mais o rumo de o resultado ser mais um Parlamento rachado, sem nenhum partido capaz de formar um governo estável.

A Espanha terá eleições – pela quarta vez em menos de quatro anos – em 10 de novembro. Mas são poucas as chances de um partido obter assentos suficientes para tirar o país do impasse político em que se encontra.

Há uma situação parecida em Israel, onde os partidos políticos ainda lutam para formar um governo, depois que as eleições de setembro falharam em resolver o impasse criado pelas eleições de abril. Neste momento, Israel parece caminhar para a terceira eleição em menos de um ano.

Bem-vindos à Era do Impasse Democrático. Países convocam eleições apenas para descobrir que elas não resolvem nada. Então, eles tentam novamente, mas conseguem apenas o mesmo resultado inconclusivo.

Esse padrão emergente em todo o mundo democrático deverá ser uma preocupação para os políticos do Reino Unido. O premiê Boris Johnson convocou uma eleição para 12 de dezembro, alegando que essa é a única maneira de acabar com anos de falta de rumo induzida pelo Brexit. Mas há uma grande possibilidade

Se reeleito, Evo Morales deve ter seu mandato mais difícil na Bolívia.

As situações espanhola e israelense são extremas, mas não são únicas. A quebra do sistema bipartidário alemão levou a cinco dolorosos meses até a formação de um governo de coalizão após as últimas eleições, em 2017. Continuar a ler

Efeitos da Ruptura da “Chimérica” pela Guerra Comercial dos EUA contra a China

Assis Moreira (Valor, 06/11/2019) faz um balanço da atual guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. Ela tem gerado perdas bilionárias para as duas maiores economias do mundo e desvio de comércio, segundo confirmado por um estudo da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

As perdas dos EUA estão amplamente relacionadas a preços mais elevados para os consumidores americanos, enquanto os prejuízos da China se refletem em perda significativa de exportações.

Segundo a Unctad, a sobretaxa de mais de 25% em importações procedentes da China imposta pelo presidente Donald Trump infligiu uma perda de US$ 35 bilhões nas vendas chinesas para os EUA no primeiro semestre. A queda nas vendas é de 25% em relação ao mesmo período do ano passado.

Por sua vez, dados americanos indicam que as exportações em geral dos EUA para o mercado chinês caíram US$ 15,1 bilhões, numa contração de 23,5% entre janeiro e junho. A Unctad não examinou o lado das exportações americanas, mas ao menos parte disso é resultado das sobretaxas chinesas adotadas em retaliação às medidas americanas.

Continuar a ler

Noruega: Combate à Desigualdade de Gêneros; Brasil: Combate à “Ideologia de Gêneros”

Ana Conceição (Valor, 04/11/2019) escreveu reportagem sobre o debate na Noruega sobre como ter mais diversidade de gênero, nacionalidade e etnia.

Morador de Oslo há oito anos, o carioca Ricardo Nunes aproveitava, em meados de outubro, as últimas semanas de licença-paternidade após o nascimento da segunda filha. Na Noruega, pai e mãe têm direito, cada um, a 15 semanas de licença – obrigatórias – e mais outras 16 que podem ser divididas entre eles. Nunes, que trabalha como contador em uma instituição do governo, optou por ficar mais oito semanas com a pequena Enid enquanto a mãe trabalha.

Envolver o homem diretamente no cuidado dos filhos é uma das formas de dar mais poder à mulher num país que criou o conceito de “Estado feminino”, entre os anos 1960 e 1970. Na prática, é um conjunto de políticas que facilitavam a combinação entre vida profissional e familiar, num momento em que o país procurava aumentar sua força de trabalho. Trabalhadores, legisladores e pesquisadores apontam que a dobradinha licença parental-vagas em creches – esse também um direito universal no país – é a mais importante medida do sistema que busca promover a igualdade de gênero na Noruega, o segundo país mais avançado do mundo nesse quesito. O primeiro é a Islândia.

As políticas contra a desigualdade levaram a taxa de participação feminina no mercado de trabalho norueguês de quase zero a 75%, uma das mais altas do mundo – ou seja, três quartos das mulheres em idade para trabalhar estão empregadas ou procurando emprego. No Brasil, o percentual é de 53%.

O sistema do país escandinavo também ajuda a combater a ideia de que a criação da prole é tarefa feminina. “Com minha esposa trabalhando, levanto de madrugada para dar mamadeira, trocar fralda. Quando voltar a trabalhar, em novembro, vou dividir tarefas como cozinhar e lavar”, afirma Nunes, que participa de um “clube de pais”, que também estão em período de licença, para trocar experiências. Nos parques, nos supermercados, no centro de Oslo, ver homens sozinhos ou grupos deles empurrando carrinhos de bebês é uma cena comum.

Ainda no contexto do “Estado feminino”, na década de 1980 foi criada a Lei de Igualdade de Gênero exigindo uma cota de no mínimo 40% de mulheres em organizações públicas. A lei foi estendida aos conselhos de empresas estatais em 2004 e conselhos de administração de companhias abertas em 2006. Em 2018, foi revista para incluir minorias. Continuar a ler

Terminar um relacionamento é difícil: desmembrando a Big Tech

The Economist (24 de outubro de 2019) narra uma estória:

– “Padre Lennon, você tem algum dinheiro? Compre a Standard Oil.”

Isso teria sido dito por John D. Rockefeller disse ao padre parceiro de golfe, quando ouviu a notícia em 1911 de que a Suprema Corte havia decidido sua companhia de petróleo ser dividida em 34 empresas menores. Foi um bom conselho. Dentro de alguns anos, o valor dessas empresas aumentou três vezes. O patrimônio líquido de Rockefeller, possuindo mais de 25% de cada um, cresceu de cerca de US $ 300 milhões em 1911 para US $ 900 milhões em 1913, cerca de US $ 23 bilhões em dólares atuais.

Um rompimento dos titãs da tecnologia de hoje – Google, Amazon, Facebook e Apple – também pode gerar um vasto valor, dizem alguns de olho no setor. Se o plano mais radical proposto por Elizabeth Warren, uma das principais candidatas democratas à presidência dos Estados Unidos, fosse totalmente implementado, segundo alguns cálculos, as partes desmembradas poderiam valer mais de US$ 2 trilhões – cerca da metade do valor das quatro empresas completas atualmente.

Continuar a ler

Elizabeth Warren: um plano para refazer o capitalismo americano

A imprensa de países com capitalismo maduro também toma partido em eleições. The Economist (24 de outubro de 2019), revista neoliberal, prega: “tal como está, o programa do candidato democrata tem muito pouco tempo para mercados ou negócios”. Para conhecimento, traduzo sua reportagem contra a candidata da esquerda do Partido Democrata.

Elizabeth Warren é notável. Nascida em uma família em dificuldades em Oklahoma, ela trabalhou para se tornar professora de Direito em Harvard. Como mãe solteira, na década de 1970, rompeu com a convenção ao seguir uma carreira em período integral. Em uma era de regra comportamental baseada em tweet, ela é uma candidata política sem vergonha de assumir agora ser a candidata democrata à presidência em 2020. As pesquisas sugerem, em uma competição frente a frente, mais americanos votariam nela no lugar hoje ocupado Donald Trump.

[E de lambuja, levaria à derrocada seu submisso populista de direita, ao sul da linha do Equador, sem apoio em nenhum país das Américas e da Europa…]

Mas tão notável quanto a história de Warren é o escopo de sua ambição de refazer o capitalismo americano. Ela tem um plano admiravelmente detalhado para transformar um sistema considerado corrupto e falho no cuidado com pessoas comuns. Muitas de suas ideias são boas. Ela está certa ao tentar limitar os esforços de empresas gigantes para influenciar a política e engolir rivais. Mas, no fundo, seu plano revela uma dependência sistemática de regulamentação e protecionismo. Tal como está, não é a resposta para os problemas da América.

Continuar a ler

À espera do fim do longo ciclo de expansão da economia dos EUA

Reportagem do The Economist (30 de outubro de 2019) anuncia a economia da América estar resistindo à atração da recessão. Um mercado de trabalho saudável mantém os americanos gastando, ajudando a compensar uma queda no investimento das empresas.

Não era assim o esperado. “Quatro, cinco e talvez até seis por cento” de crescimento foi o que o presidente Donald Trump prometeu em dezembro de 2017. Mesmo nas páginas relativamente sóbrias da proposta de orçamento divulgada pelo governo em março deste ano, a equipe de Trump previu taxas de crescimento econômico de 3% ou mais até 2024. Este, supostamente, seria o último ano completo de um segundo mandato de Trump, caso ele for reeleito.

Em vez disso, a economia americana, depois de atingir a meta de crescimento de 3% em 2018, e apesar do aumento da conta fiscal, devido aos impostos cortados pelo presidente, continua perdendo força. No terceiro trimestre deste ano, o PIB, ajustado pela inflação, aumentou a uma taxa anualizada de 1,9%, ante 2% nos três meses anteriores. Uma questão paira sobre Trump e milhões de trabalhadores americanos: exatamente quando a desaceleração ocorrerá e qual será sua profundidade?

Continuar a ler

Remessas de Migrantes e Risco da Desglobalização

Estima-se 270 milhões de migrantes existirem no mundo. Somados, vão enviar um valor total de US$ 689 bilhões de volta a seus países natais neste ano, segundo projeção do Banco Mundial. A quantia representa um marco: neste ano, as remessas vão superar os investimentos estrangeiros diretos como maior fluxo de capital externo aos países em desenvolvimento.

Em outros tempos, as remessas eram vistas por muitos economistas como um fator secundário para os países emergentes, atrás dos investimentos estrangeiros diretos (IED) e dos investimentos em ativos. No entanto, em razão de sua resistência e natureza constante, esses fluxos são agora “o elemento mais importante no cenário em termos de financiamento ao desenvolvimento”, diz Dilip Ratha, chefe da Parceria Mundial de Conhecimento sobre Migração e Desenvolvimento (KNOMAD, na sigla em inglês), do Banco Mundial.

O número de pessoas no mundo que vivem fora de seu país de nascimento aumentou de 153 milhões, em 1990, para 270 milhões, em 2018, de acordo com o Banco Mundial, o que fez as remessas internacionais chegarem às alturas. Com o aumento da migração, essa movimentação financeira tornou-se uma das tendências que melhor definem a globalização dos últimos 25 anos – o lado humano, privado e informal dos fluxos de capitais internacionais.

Para muitos países em desenvolvimento, é uma tábua de salvação.

A reação contra a globalização tem aumentado e o sentimento anti-imigração cresce em muitos países desenvolvidos. É possível, portanto, tanto a migração quanto seus decorrentes fluxos de capital começarem diminuir.

Mas o Banco Mundial prevê: 550 milhões de pessoas entrarão nas forças de trabalho dos países de baixa e média renda até 2030. E a disparidade de renda entre os países desenvolvidos, US$ 43 mil per capita, e os de baixa renda, US$ 8 mil per capita, vai persistir. Então, as oportunidades de trabalho no exterior continuarão atraentes. A mão-de-obra sobra nos países pobres e vai faltar nos mais ricos.

A contradição da desglobalização é desejar livre fluxo de capital, mas proibir o livro fluxo de trabalho.

O aumento na migração tem um subproduto para a economia mundial que muitas vezes é esquecido: o crescimento das remessas feitas pelos migrantes. O envio de dinheiro para as economias de países emergentes caminha para superar os investimentos estrangeiros diretos (IED) como maior fonte de financiamento externo neste ano.

As remessas já representam o triplo do dinheiro enviado via programas oficiais de auxílio ao desenvolvimento. Isso traz tanto benefícios quanto riscos para os países receptores. Em vista do aumento dos fluxos, os riscos deveriam ser mais bem administrados, assim como também se deveria intensificar os esforços para que esse dinheiro seja usado para promover o crescimento.

As remessas são o lado humano dos fluxos globais de capital – os trabalhadores expatriados que enviam dinheiro às famílias em seu país natal. Os fluxos decolaram de pouco mais de US$ 100 bilhões, há 20 anos, para US$ 689 bilhões, em 2018, reflexo do enorme aumento no número de migrantes econômicos. Índia, China, México e Filipinas estão entre os países que tiveram os maiores fluxos de remessas em 2018, em termos de dólares. El Salvador e Honduras também receberam grandes volumes.

Continuar a ler