Dois Terços (US$ 1,07 trilhão) da Moeda Americana circulam fora dos EUA

Jo Craven McGinty (Valor, 10/07/18) informa: um volume recorde de dinheiro americano está em circulação, mas a população dos EUA não está gastando a maior parte dele. Então, onde está o dinheiro? Até dois terços — US$ 1,07 trilhão — são mantidos fora dos EUA. Cerca de US$ 80 bilhões seguem em casa por instituições depositárias. O restante – cerca de US$ 453 bilhões – está nas mãos de empresas e indivíduos americanos.

A distribuição exata é desconhecida porque, quando o dinheiro é transferido para fora dos cofres do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), é praticamente impossível rastreá-lo.

As estimativas sobre as posições são deduzidas de ordens apresentadas por instituições depositárias, relatórios subsequentes ao Conselho Diretor do Fed e o que pode ser discernido com base nas denominações em circulação. Continue reading “Dois Terços (US$ 1,07 trilhão) da Moeda Americana circulam fora dos EUA”

Dívida Global: US$ 247 Trilhões ou mais de 3 vezes o PIB Global

Silvia Rosa (Valor, 11/07/18) informa: o volume global de dívida cresceu US$ 8 trilhões no primeiro trimestre de 2018 em relação ao quarto trimestre do ano passado, atingindo US$ 247,2 trilhões, o equivalente a 318% do PIB global, segundo dados do Instituto de Finanças Internacionais (IIF). Essa participação em relação ao PIB cresceu pela primeira vez desde o terceiro trimestre de 2016. A dívida das empresas não financeiras somou US$ 186 trilhões, ou 75% do total.

Com o crescimento global perdendo força e se tornando mais divergente e o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, as preocupações com o risco de crédito estão voltando a ganhar frente em muitas economias maduras. As dívidas corporativas estão em recorde de alta no Canadá, França e Suíça.

A dívida pública dos governos em relação ao PIB tem aumentado nos Estados Unidos, Austrália e Grécia, enquanto a Alemanha tem mostrado um notável declínio.

Já o total de dívida nos mercados emergentes, excluindo as empresas financeiras, subiu US$ 2,5 trilhões, para um novo recorde de US$ 58,5 trilhões. Ao longo do último ano, Colômbia, Argentina e Filipinas mostraram um forte aumento na relação dívida/PIB. De outro lado, Turquia e China tiveram um declínio. Continue reading “Dívida Global: US$ 247 Trilhões ou mais de 3 vezes o PIB Global”

Portugal, quantas léguas a nos separar…

Foi postado no Jornal GGN uma trilogia de minha autoria com 3 posts mapeando o debate eleitoral no Brasil:

Debate I: Prioridade à Retomada do Crescimento da Renda e do Emprego

Debate II: Linhas Ideológicas das Candidaturas em 2018

Debate III: Programas Econômicos dos Candidatos em 2018

No primeiro artigo, eu conclamo:

“Copiemos o exemplo recente de Portugal. Conforme a miséria se aprofundava esse país assumiu uma posição ousada. Em 2015, descartou as medidas de austeridade impostas por seus credores europeus e iniciou um ciclo virtuoso, colocando sua economia de volta no rumo do crescimento. O governo de centro-esquerda reverteu os cortes em salários, pensões e na seguridade social e ofereceu incentivos às empresas.

Os eleitores colocaram no poder Costa, um líder de centro-esquerda, no final de 2015, depois dele prometer a reversão dos cortes em suas rendas pessoais. Ele formou uma aliança incomum com o Partido Comunista e partidos de esquerda radical.”

Depois, achei prudente solicitar informações mais detalhadas sobre o que se passa em Portugal ao nosso estimado “correspondente europeu”: Miguel Amaral, amável seguidor português deste modesto blog pessoal. Ele me enviou os seguintes comentários, os quais compartilho com sua autorização.

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Política de Combate à Pobreza e Igualitária Versus Teologia da Prosperidade e Segurança

Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional em Harvard. Publicou artigo (Valor, 2/04/18) com a resposta à pergunta do título “O que está detendo a esquerda?“. Reproduzo-a abaixo. Para esse debate sobre a esquerda norte-americana (e mundial), em especial, a política identitária, leia também: Reflexão para a Esquerda: Tática Eleitoral e Estratégia Igualitária.

“Por que os sistemas políticos democráticos não reagiram suficientemente cedo às queixas que populistas autocráticos exploraram com sucesso – desigualdade e preocupação econômica, declínio do status social, abismo entre as elites e os cidadãos comuns? Se os partidos políticos, particularmente os de centro-esquerda, tivessem perseguido uma agenda mais ousada, talvez os movimentos políticos anti-imigração de direita pudessem ter sido evitados.

Em princípio, maior desigualdade produz uma demanda por mais
redistribuição. Políticos do partido democrata deveriam responder impondo impostos mais altos aos ricos e gastando os recursos recolhidos em benefício dos menos favorecidos. Essa noção intuitiva é formalizada num artigo bastante conhecido de economia política, de Allan Meltzer e Scott Richard: quanto maior a diferença de renda entre o eleitor mediano e o eleitor médio, maiores os impostos e maior a redistribuição.

Na prática, porém, as democracias seguiram no rumo oposto. A progressividade dos impostos sobre a renda diminuiu, a dependência em relação aos impostos regressivos sobre o consumo aumentou e a tributação sobre o capital iniciou uma corrida mundial para baixo. Em vez de impulsionar investimentos em infraestrutura, os governos adotaram políticas de austeridade, prejudiciais para os trabalhadores de baixa qualificação. Grandes bancos e companhias foram socorridos, mas as famílias, não. Nos EUA, o salário mínimo não foi suficientemente ajustado, permitindo que ele se desvalorizasse em termos reais.

Parte da razão para isso, pelo menos nos EUA, é que a adoção, pelo Partido Democrata, de “políticas de identidade” e outras causas socialmente liberais veio à custa de questões mais importantes de subsistênciarenda e empregos. Como escreve Robert Kuttner em um novo livro, a única coisa ausente na plataforma de Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016 foi classe social. Continue reading “Política de Combate à Pobreza e Igualitária Versus Teologia da Prosperidade e Segurança”

Reflexão para Esquerda: Tática Eleitoral e Estratégia Igualitária

mark lilla

A velha ideia única de “colocar ‘o povo’ na rua” está sendo ultrapassado pelos fatos. Os manifestantes presenciais sempre serão restritos pelo lugar e hora.

Sem dúvida, participar de manifestação no vão do MASP ou de passeata na Avenida Paulista é catártico. Provoca a liberação de emoções ou tensões reprimidas e tem um efeito liberador produzido pela encenação de certas ações políticas, especialmente as que fazem apelo ao medo e à raiva. Mas é suficiente para ganhar eleições?

As manifestações organizadas e contínuas, inclusive nos comentários cotidianos na grande imprensa, enfrentando a direita organizada, parece atingir um público muito maior. A “maioria silenciosa” hoje não grita na rede social?

Em entrevista à Patrícia Mello Campos (FSP, 24/03/18), o cientista político Mark Lilla, da Universidade Columbia, autor do artigo político mais lido do New York Times em 2016, defende que a esquerda precisa de menos manifestantes e mais vitórias eleitorais. Ele critica a política identitária abraçada pelos democratas e a falha do partido em conceber visão de país na qual diferentes grupos se reconheçam.

Mark Lilla se tornou um dos mais polêmicos dos pensadores de centro-esquerda ao criticar, em artigo no New York Times, em 2016, logo após a eleição de Donald Trump, a política identitária abraçada pelo Partido Democrata. Para o cientista político e professor da Universidade Columbia, o discurso que enfatiza identidades e isola os eleitores de grupos minoritários é responsável pelas seguidas derrotas dos democratas nos Estados Unidos.

Ao segmentar o eleitorado e customizar a mensagem para hispânicos, negros, mulheres e cidadãos LGBT, os liberais americanos — no sentido que a palavra tem nos EUA, de pessoas de centro-esquerda que defendem atuação do Estado para reduzir desigualdade — teriam perdido a capacidade de formular uma visão de país que atraísse toda a população.

O texto “O fim do liberalismo identitário” foi o artigo político mais lido do jornal naquele ano, e acabou se transformando em um livro, “The Once and Future Liberal: After Identity Politics” (O liberal de então e o do futuro: depois da política identitária), lançado nos EUA em agosto do ano passado pela HarperCollins. Novamente, seu argumento foi recebido com críticas viscerais.

Lilla, que virá ao Brasil para participar de uma das conferências do ciclo Fronteiras do Pensamento, em novembro de 2018, diz que se transformou em um elemento “tóxico” para a esquerda, mas dobra a aposta. “Não se trata de parar de lutar pelos direitos das minorias, mas sim de começar a ganhar essas lutas“, disse, em entrevista à Folha.

Para ele, uma outra prova de que as políticas identitárias são equivocadas é que líderes autoritários populistas de direita, como Vladimir Putin, o húngaro Viktor Orbán e até o grupo racista americano Ku Klux Klan fazem da identidade sua razão de ser.

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Queda da Indústria Brasileira no Atual Contexto Mundial Benigno

Confira, no ranking mundial, a queda de PIB baseado em PPC do Brasil com a volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015. Em 2005, durante o Governo Lula, a indústria brasileira era 2,9% da mundial; em 2016, sua representatividade caiu para 1,8%. Enquanto isso, a China e a Índia, utilizando-se da alavancagem financeira propiciada por seus bancos públicos, elevam seus PIBs. A China ultrapassou os EUA em 2014.

Confirme abaixo a importância de líderes como Lula, Obama e Merkel para seus países adotarem estratégia desenvolvimentista e compare com o quadro depressivo atual em função do golpe de Estado “semi-parlamentarista”.

 

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Baixa Taxa de Natalidade: Demografia X Economia

Raine Tiessalo (Valor, 25/09/17) afirma que “você sabe que você tem um problema quando mesmo as melhores cabeças não têm uma solução”. A Finlândia, um lugar excelente para ser mãe, registrou o menor número de recém nascidos em quase 150 anos. A taxa de natalidade vem caindo de forma constante desde o início da década, e há pouca coisa que sugira uma reversão da tendência.

Demografia é uma preocupação em todo o mundo desenvolvido, isso já sabemos. Mas é particularmente problemático para países com um generoso Estado de bem-estar, uma vez que coloca em risco sua sobrevivência de longo prazo.

A estatística é “assustadora”. Ela mostra a rapidez com que nossa sociedade está mudando e não temos soluções prontas para deter o fenômeno. Tem um grande setor público e o sistema precisa de contribuintes futuros no regime de repartição, quando ativos cobrem inativos.

Para isso, a taxa de fertilidade precisaria ser igual a dois filhos por mulher. As projeções apontavam para 1,57 em 2016, segundo a Statistics Finland. [A do Brasil já está abaixo desse nível, mas é a quinta maior população no mundo.]

Esse é um nível surpreendentemente baixo, em vista dos esforços do Estado para incentivar a geração de filhos. Continue reading “Baixa Taxa de Natalidade: Demografia X Economia”