Conheça a trajetória de Joseph Safra, o homem mais rico do Brasil

Evolução da fortuna de Joseph Safra na lista de bilionários brasileiros da Forbes

Quando fiz minha pesquisa em arquivos jornalísticos sobre obituários dos maiores banqueiros brasileiros não descobri o publicado pela FORBES (10/12/2020) quando faleceu, aos 82 anos, de causas naturais, Joseph Safra, o homem mais rico do Brasil e o banqueiro com maior patrimônio do mundo. Achei outros, mas este tem algumas informações merecedores de reflexão. Destaco: fortuna em ações depende de especuladores acharem-nas representativas de bons negócios e desejarem se associar a eles. Se muitos compartilham da mesma opinião (ou rumor), os controladores majoritários se enriquecem mais… É simples assim ser bilionário… 🙂

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Fernando Nogueira da Costa – Bancos e Banquetas. jan2021

Nascido em 1938, em Beirute, no Líbano, e naturalizado brasileiro, Safra foi uma figura bastante reservada durante toda sua vida. Ao contrário de outros bilionários, ele era avesso a entrevistas, aparições midiáticas e posicionamentos polêmicos.

O banqueiro residia em uma mansão de 130 cômodos, distribuídos em cinco andares e 11 mil metros quadrados no Morumbi, um dos bairros mais nobres de São Paulo. Corintiano, casado com Vicky, pai de quatro filhos e avô de 14, Safra era chamado de Zé pelos mais íntimos e se deslocava pela cidade apenas de helicóptero.

A postura de discrição e comunicações concisas renderam ao banqueiro a imagem de alguém inabalável e inatingível que, com punho de ferro, comandou um império financeiro que começou com o pai, Jacob Safra, no início do século 1920.

Após a Primeira Guerra Mundial, Jacob se mudou da Síria para o Líbano e fundou, na capital Beirute, o Jacob Safra Maison de Banque. No começo dos anos 1950, após o fim da Segunda Guerra Mundial, marcada pela perseguição aos judeus, o empreendedor imigrou com a família para o Brasil, com medo de um terceiro grande conflito armado. Em 1955, fundou no país o Banco Safra, com uma operação que se resumia a sete funcionários.

Junto ao pai, os irmãos Joseph, Moise e Edmond dividiam o comando das operações do banco no Brasil e no exterior. A instituição sempre foi sinônimo de gestão conservadora: um reduto para grandes fortunas, investimentos e crédito para negócios de médio porte.

O filho mais velho, Edmond, ávido pelas operações internacionais, fundou em 1966 o Republic National Bank of New York, instituição que se tornou referência para operações que envolviam ouro. Em 1999, o banco foi vendido para o HSBC – o que, segundo rumores, teria causado desavenças entre Edmond e Moise.

O primogênito morreu em dezembro de 1999, em seu apartamento, em Mônaco, onde vivia com sua esposa Lilly, por conta de um incêndio criminoso causado por um dos enfermeiros que trabalhava para o banqueiro, diagnosticado com mal de Parkinson. Na ocasião, Edmond se trancou em um banheiro de sua residência e faleceu intoxicado pela fumaça.

Em 2008, ano marcado pela crise financeira da bolha imobiliária norte-americana, Joseph Safra se preparava para passar o comando das operações da família para seus três filhos, Jacob, Alberto e David – algo que acabou não acontecendo em função do momento conturbado. Joseph era a cara da instituição no mercado e, naquele cenário, a prioridade era manter a confiança dos clientes nos alicerces inabaláveis do Banco Safra.

O processo de sucessão foi retomado em 2013 depois que o banqueiro adquiriu, no ano anterior, o banco Sararin, de origem suíça, em uma transação avaliada em US$ 1,1 bilhão na época. A nova marca internacional impulsionou o volume financeiro sob gestão da família.

Os três filhos homens de Safra estiveram juntos por seis anos no comando do banco até que, no quarto trimestre de 2019, Alberto deixou a instituição. O movimento gerou certo burburinho de que Alberto e David, que dividiam a administração no Brasil, nutriam desentendimentos sobre a gestão. Por meio de um comunicado oficial, Joseph Safra disse que a saída do filho era exclusivamente para se dedicar a outro projeto junto a família.

Diagnosticado com mal de Parkinson, assim como seu irmão Edmond, Joseph passou os últimos anos em sua mansão com a família. Sua única filha, Esther, é casada com Carlos Dayan, do banco Daycoval, e dirige a escola judaica Beit Yaacov em São Paulo.

Em 2014, Joseph se aventurou com José Luís Cutrale – colega do clube do bilhão e proprietário de uma das maiores fabricantes de suco de laranja do mundo – na compra da Chiquita, maior produtora de bananas do planeta.

A negociação durou três meses. Na época, a empresa chegou a anunciar uma fusão com a irlandesa de produtos frescos Fyffes, mas os brasileiros ofereceram mais pelas ações e acabaram levando. Após três ofertas recusadas, a Chiquita foi finalmente adquirida por US$ 1,3 bilhão. Joseph, que detém 50% do negócio, viu o movimento como uma diversificação do portfólio de empreendimentos da família.

Ainda em 2014, Joseph começou a atuar em investimentos imobiliários e, por meio do Grupo Safra, adquiriu o icônico edifício de escritórios 30 St. Mary Axe, em Londres, conhecido popularmente como The Gherkin (pepino, na tradução literal). A construção foi projetada pelo renomado arquiteto Norman Foster. Na época, a transação do que era considerado o sétimo maior arranha-céu do mundo foi avaliada em R$ 3 bilhões.

O interesse do banqueiro por empreendimentos em solos ingleses não parou por aí. Em 2019, num local bem próximo ao The Gherkin, o bilionário trabalhou pela aprovação do projeto do arranha-céu batizado de The Tulip, projetado pelo escritório de Norman Foster, o Foster and Partners. Planejada para ter mais de 300 metros de altura, a construção do edifício foi rejeitada pelo prefeito de Londres, Sadiq Khan. Em comunicado, a equipe de Khan concluiu: “Os benefícios públicos do projeto são limitados e não compensariam os danos. Considera-se que a proposta é de baixa qualidade, hostil, proporciona um ambiente desnecessariamente confinado para pedestres e provê estacionamento inadequado para bicicletas”.

O banqueiro também possui outras propriedades comerciais em Manhattan, distrito de Nova York, e no Brasil.

Em 2019, o nome de Joseph ganhou os holofotes mais uma vez depois que Antonio Palocci fez sua controversa delação premiada. Segundo o ex-ministro, mandatários de instituições financeiras do país – entre elas o Banco Safra -, teriam feito doações eleitorais no valor de R$ 50 milhões para o Partido dos Trabalhadores em troca de favores. Os citados alegaram que as acusações eram falsas e que o ex-ministro buscava criar versões para obter benefícios na Justiça.

Joseph não era reconhecido apenas por ser low profile, mas também por suas iniciativas filantrópicas. O bilionário foi um dos maiores doadores dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês e financiava a escola dirigida pela filha. Também destinou parte de sua fortuna à construção de uma sinagoga em São Paulo e doou as esculturas de Rodin, que hoje fazem parte do acervo da Pinacoteca da capital paulista, e o manuscrito da Teoria da Relatividade de Albert Einstein que integra as obras do Museu de Israel.

Desde 2012, quando a Forbes passou a fazer uma lista exclusiva com os bilionários do país, o banqueiro viu seu patrimônio aumentar ano após ano.

Ao longo dos oito anos do levantamento, a fortuna de Joseph cresceu 458,52%, de R$ 25,97 bilhões em 2012 para R$ 119,08 em agosto de 2020. Neste ano, o bilionário, pela primeira vez, fincou seu nome no topo do ranking com uma diferença considerável para a do segundo colocado, Jorge Paulo Lemann, cujo patrimônio foi estimado em R$ 91 bilhões no período da publicação da lista (agosto de 2020).

Na véspera de sua morte, a fortuna de Joseph Safra está avaliada – no ranking em tempo real da Forbes norte-americana – em US$ 23,2 bilhões (R$ 118,5 bilhões). A diferença para o vice, Lemann, agora é de “apenas” US$ 3,2 bilhões (R$ 16,35 bilhões). Joseph Safra ocupava a 64ª posição entre os mais ricos do mundo.

Safra apareceu pela primeira vez na lista de bilionários do Mundo da Forbes no ano 2000, com uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões, dividida entre ele e seu irmão Moise.

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