Consequências Sociais da Digitalização do Dinheiro

Amália Safatle (Valor, 22/07/22) avalia: nas ruas, os efeitos da digitalização financeira sobre as camadas mais vulneráveis da população. Mas revela números comprovantes da percepção.

No Brasil, o uso do dinheiro vivo resiste entre as classes mais baixas. Segundo pesquisa realizada pelo Locomotiva, o papel-moeda permanece como a forma mais utilizada para pagar as contas de consumo (como água, luz, aluguel) nas classes D e E, com 72% das preferências. O principal motivo é ter maior controle financeiro sobre o dinheiro, mas também pesa o medo de ser taxado pelos bancos. Segundo o levantamento, 45% dos bancarizados afirmam sacar de uma vez tudo recebido para fugir das tarifas.

Quando cada vez mais a parcela da população com poder aquisitivo opta por andar com pouco ou nenhum dinheiro no bolso, o que acontece com a base da pirâmide? A pandemia, ao fazer o governo distribuir auxílios, colaborou para que parte dessa população entrasse de alguma maneira no sistema bancário, mas ainda há obstáculos.

É preciso diferenciar os impactos da digitalização sobre os ambulantes e pequenos negócios informais e os impactos sobre quem vive na extrema pobreza – embora uma ou outra pessoa em situação de rua já use Pix para receber dinheiro. Mas, de forma geral, enquanto para os trabalhadores da economia informal meios digitais funcionam como um facilitador para os negócios, nas parcelas mais vulneráveis isso pode ser um complicador, especialmente na camada mais baixa da pirâmide social.

É o que se vê na maior cidade do país, onde 31.884 pessoas vivem em situação de rua, segundo o Censo Pop Rua, levantamento realizado em 2021 pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo. Desse total, 13,6% dizem pedir dinheiro como forma de obter renda.

A menor circulação de papel-moeda pode, sim, afetar a dinâmica de renda dessa população. São aproximadamente 4 mil pessoas nessa condição somente em São Paulo. Por isso, as portas de saída da condição de rua são urgentes. O Censo Pop Rua também mostra: 27% das pessoas em situação de rua trabalham catando recicláveis e 18,9% não fazem nada para obter renda.

O atual contexto torna a situação mais dramática. A pobreza e a extrema pobreza alcançaram níveis que não haviam sido observados nas últimas décadas. Isso impacta de forma muito clara em uma piora dos índices de desigualdade, enquanto há obstáculos enormes para a retomada do crescimento econômico. O número de pessoas que vivem nas ruas cresceu 31%, enquanto a quantidade que declara vínculo familiar com alguém em situação de rua cresceu 111%, comparado com o levantamento de 2019. Houve, de fato, um aumento no número de famílias na rua.

Aproximadamente 4 km separam a barraca de Regiane Cristina daquela que é considerada a meca do mercado financeiro brasileiro, a sofisticada avenida Faria Lima. Em situação de rua, a açougueira por profissão vive na informalidade após ter sido demitida de uma grande rede de supermercados. “Eu faço meus corres”, diz ela. Vende artesanato e balas, trabalha com reciclagem e tem uma conta poupança, mas prefere receber por meio do Pix. Ela acha mais seguro do que ficar contando o dinheiro na mão, no meio da rua, apesar do receio de que o celular seja roubado ou de acabar virando mais uma vítima de golpe, que se tornou comum no Pix.

O aparelho é hoje seu principal atalho a um sistema financeiro que tem ganhado novos contornos no país e que hoje se depara com o desafio de incluir as classes populares. Do outro lado, milhões de informais, ambulantes e pedintes “se viram” para gerir as contas em meio à onda da digitalização. Quem está preparado para vencer as distâncias entre os dois mundos?

O celular de Regiane Cristina não veio de graça. Um casal passava na rua e ficou sensibilizado ao ver a família dormindo em um papelão – ela, Jamaica (o marido) e dois cachorros, no parque localizado na esquina da alameda Ministro Rocha Azevedo com a avenida Paulista. “Eles me deram essa barraca, a lona e uns cobertores e me ofereceram um celular. Aí eu perguntei o que eu tinha de fazer para ganhar o aparelho. Porque eu não roubo, não mato e não vendo meu corpo. Me disseram para fazer umas faxinas e ir abatendo o valor, e então aceitei. Agora, o meu marido está me ensinando a pagar as coisas pelo Pix”, diz a mulher de 36 anos. Ela estava grávida, mas acabou de sofrer um aborto.

Quando a bateria do celular acaba, o casal recorre ao McDonald’s ali ao lado. “O pessoal do Méqui deixa a gente carregar o celular, mas não pode ser todo dia.” Na lanchonete e no parque, usam o sinal de internet livre.

Compõem o número de 38,5 milhões de trabalhadores informais no Brasil – e também a quantidade de transações no Pix. Chegou à casa de 1,6 bilhão por mês, segundo dados relativos a março de 2022, passado pouco mais de um ano que o sistema de transferência foi criado.

Em fevereiro, o Pix passou a ser o principal meio de pagamento em quantidade de transações, liderança que ampliou em março: foi responsável por 1,6 bilhão de transações, em comparação com 1,5 bilhão de crédito; 1,3 bilhão de débito; 311 milhões de boleto; 88 milhões de TED e 21 milhões de DOC, TEC (transferência especial de crédito) e cheque. Um ano atrás, o Pix somava 746 milhões de transações e perdia para crédito e débito.

“Do total de 1,6 bilhão [de transações por Pix], cerca de 1,5 bilhão são transações que teriam sido feitas em dinheiro”, afirma o diretor executivo de Inovação, Produtos e Serviços Bancários da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

A estimativa leva em conta a quantidade de papel-moeda em circulação. Em abril deste ano, houve queda de 6% em relação ao mesmo mês do ano passado. Com uma inflação próxima a 10%, seria mais natural que o numerário circulante aumentasse em vez de diminuir.

Pessoas antes fazendo transações em dinheiro e migraram para o digital. A maior parte das transações foi de pessoa para pessoa. O Pix acabou atendendo um público de autônomos. Estes são os grandes beneficiários do sistema Pix, gerando inclusão financeira.

Embora exaltem os benefícios do Pix, alguns especialistas consideram que ainda é cedo para comemorar a inclusão financeira. Os professores de economia Guilherme Mello, da Unicamp, e Antonio Lacerda, da PUC-SP, veem no Pix uma forma louvável de o setor público reduzir os custos de transação para as empresas e as pessoas, a partir de um instrumento da autoridade monetária que é o Banco Central. Isso porque a modalidade ajuda a substituir transferências sobre as quais há cobrança de taxas, como TED e DOC, e também as maquininhas de cartão.

Mas esse advento, que acaba servindo como uma porta de entrada para as finanças digitais e a bancarização, também impõe desafios, na medida em que falta, por grande parte da população brasileira, o letramento necessário para navegar nos produtos bancários sem incorrer em aumento de endividamento. Sem falar no analfabetismo funcional.

Este é um dos motivos pelos quais Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que bancarização não é sinônimo de inclusão financeira. “Para que de fato gere desenvolvimento, a inclusão precisa ser considerada em três âmbitos: acesso, uso e qualidade”, diz. A pessoa pode até acessar o sistema, mas não usá-lo, ou usá-lo sem que isso se reverta em melhoria da qualidade de vida.

“Um exemplo clássico é olhar quem está no Cadastro Único. Muitas dessas pessoas pobres ou extremamente pobres têm ou poderiam ter conta, mas não veem muita utilidade nela. A pessoa pode não estar só incluída ou excluída: ela pode estar mal incluída”, explica.

A qualidade, portanto, deve ser avaliada quando se olham os números da bancarização no Brasil, que variam de 70% a 75% da população adulta, considerando estudos do Banco Central e do Banco Mundial. Com a pandemia e o pagamento do “coronavaucher”, a Caixa Econômica Federal estima a entrada de 15 milhões a 20 milhões de pessoas novas no sistema, embora não haja divulgações oficiais.

Houve uma melhora significativa na dimensão do acesso, seguida pela dimensão do uso, mas há dúvidas em relação à dimensão da qualidade. “Por exemplo, se for oferecido um ‘produto de prateleira’ sem diferenciação entre classe de renda, com taxas de juros muito altas, isso provavelmente fará com que elas entrem na espiral de endividamento. Nesse caso, isso serviria apenas para os bancos e o sistema financeiro ganharem mais dinheiro em cima dos pobres”, diz. Hoje, o número de endividados no Brasil chega a 65,7 milhões, segundo o Serasa.

Para o professor de finanças do Insper Ricardo Rocha, o conceito de bancarização é controverso. “No entendimento do Banco Central, se eu tiver um cartão da loja Marisa, da Renner ou de qualquer private label, eu sou bancarizado. O BC vai dizer que eu tenho acesso a crédito”, diz. “Mas não há dúvidas que a digitalização e o movimento do Pix estão acelerando o processo de bancarização”, acrescenta.

E novas modalidades do Pix vêm por aí, segundo a Febraban. “Da forma como é hoje, ele já atende uma boa camada da população. Mas tem mais coisas que nós, juntamente com o Banco Central, podemos fazer, como o Pix parcelado e o Pix por aproximação. Este, por meio de transação offline, pode ser usado no transporte urbano ou para compra no comércio ambulante, por exemplo. É muito mais conveniente porque a pessoa não precisa entrar no aplicativo”.

O executivo da Febraban acredita: a inclusão no sistema bancário é capaz de gerar maior educação financeira, elevação do consumo e aquecimento da economia. “A economia gira mais e aumenta a geração de riqueza da sociedade em todos os setores, como o comércio e a indústria. É um forte impulsionador da economia.”

Isso em meio à tendência de redução do papel-moeda irreversível. A federação estima que cerca de 40% das transações no Brasil sejam feitas hoje em espécie, número que em Portugal, a título de comparação, é de 22%. “Não acho que a gente consiga chegar em 22% no curto prazo, mas é extremamente razoável imaginar que pode cair para 30%, o que trará mais efeitos positivos, como maior controle, rastreabilidade e arrecadação de tributos”.

Mas, segundo economistas, se a transição para meios de pagamentos digitalizados não for bem conduzida, será posta mais uma barreira de exclusão social, considerando que no Brasil 47 milhões de pessoas ainda não têm acesso à internet. O professor da FGV lembra: a exclusão digital já havia afetado o acesso de muitas pessoas ao Auxílio Emergencial em 2020. De acordo com estudo de sua autoria, dos motivos para o não recebimento do auxílio pelas classes D e E – justamente as mais necessitadas -, 22% deveram-se a problemas de acesso à internet e 20% por falta de aparelho celular.

A China é citada como um exemplo de economia cashless, tendo praticamente abolido o uso do dinheiro em espécie. Da gorjeta do garçom ao trocado do pedinte, as transferências são feitas com uso de código QR e do WeChat, o serviço local de mensagens instantâneas.

Já na Índia, segundo Gonzalez, a retirada do dinheiro em espécie da economia, promovida pelo governo, causou transtornos. “Houve uma ruptura grande em alguns circuitos de comércio locais pela ausência de papel- moeda”, o que afetou notadamente os mercados informais, servindo como um alerta para o Brasil.

No Brasil, se a digitalização e a navegação no sistema financeiro são desafiadoras para os diferentes perfis das camadas populacionais de baixa renda, a recíproca é verdadeira. “Os bancos ainda não estão preparados para fazer uma ‘escoragem’ de crédito para essas pessoas”, afirma Meirelles, do Locomotiva, referindo-se à avaliação do risco nas operações de financiamento.

Isso explicaria por que a digitalização das transações financeiras – que cresceu no último ano de pandemia, impulsionada basicamente pelo Auxílio Emergencial – não se refletiu, por parte das classes mais populares, em acesso a crédito, a seguros, a um investimento mínimo ou a uma conta que rendesse mais.

O resultado disso são perdas para os dois lados: os bancos deixam de operar em um nicho com demanda enorme, e os mais pobres acabam caindo em empréstimos com taxas exorbitantes. “Quem tem menos dinheiro paga mais juros”, o que não faz sentido quando se vê que o nível de inadimplência nas classes baixas não é maior que nas demais faixas de renda.

“Na medida em que os bancos possuírem mais informações sobre os clientes, os modelos serão ajustados naturalmente, como já é feito atualmente”, afirma a Febraban. A pandemia foi o maior exemplo de que os bancos já se ajustaram a uma nova realidade econômica e novos comportamentos do consumidor.

“A questão dos clientes de baixa renda está muito mais relacionada à questão de assimetria de informações, pois não possuímos fontes de informações confiáveis ao prover crédito para esse segmento de clientes. A dificuldade de inferirmos os rendimentos e capacidade de endividamento desse segmento dificulta muito a aprovação de crédito. Precisamos reduzir a assimetria de informações”.

Para Meirelles, os bancos têm interesse em incluir essa clientela, mas não sabem como fazer. “Os bancos tentam ir para um lado, tentam ir para o outro, e então a inadimplência cresce. Não é trivial para eles.” Só os negativados movimentam cerca de R$ 800 bilhões por ano, segundo a Locomotiva. “Só que ninguém dá crédito para esses caras. Por acaso eles andam sem roupa, por acaso não comem? O modelo de escoragem está errado.”

Uma mudança nesses critérios, especialmente no crédito produtivo, ajudaria a combater as desigualdades, fazendo a economia crescer de baixo para cima, e espalhando riquezas para toda a sociedade – inclusive os bancos.

Segundo Michel Alcoforado, fundador do Grupo Consumoteca e antropólogo especializado nas relações de consumo, os bancos terão de trabalhar a inclusão da baixa renda se quiserem continuar crescendo. “A quantidade de usuários é fundamental para determinar o valuation do banco. Antigamente, a solução para aumentar o número de correntistas era comprar um outro player. Mas há muito tempo que ninguém compra ninguém, porque esse deixou de ser o melhor jeito. A melhor maneira agora é colocar gente [novos clientes] para dentro.”

Mas só isso também não basta. “Os principais bancos digitais têm cliente ‘pra chuchu’, mas que não dão rentabilidade porque não transacionam. E não transacionam por uma questão simples: o banco não cabe na vida deles”. Estão em jogo as dimensões de acesso, uso e qualidade.

Isso acontece porque a lógica do sistema financeiro, ao desenhar e ofertar os produtos, parte da realidade das classes média e alta. Um dos descompassos é a oferta de produtos voltados ao cliente individual, enquanto o público de baixa renda se vale enormemente dos laços familiares e comunitários, mas não encontra alternativas financeiras adaptadas a essa característica.

“A lógica de gestão financeira dessas famílias de baixa renda está muito atrelada à coletividade e à própria rede de apoio. É o famoso ‘tirar no seu nome’: você paga tal coisa pra mim? E o banco não abre nenhuma brecha para esse tipo de coisa”, exemplifica.

Segundo a Febraban, mais uma vez a assimetria de informações dificulta inovações nesse campo. “Não podemos generalizar, pois os diferentes perfis de cliente desse segmento não podem ser tratados todos como iguais.

Hoje, há 30 milhões de trabalhadores autônomos, com diferentes formatos de rendimentos e diferentes laços comunitários. O acesso a essas informações traria muito valor para o consumidor e maior oferta de crédito. O Brasil deu um passo significativo com a aprovação do Bureau de Crédito positivo, e está avançando agora com o Open Finance, que irá atuar no centro da questão de acesso às informações para ofertas de crédito mais assertivas.

Outro ponto a demandar inovação por parte dos bancos é tornar a interface bancária mais amigável e intuitiva do ponto de vista das classes baixas. O principal entrave no desenvolvimento do Pix está no fato de o erro cometido na hora da transação ser incorrigível.

Além disso, golpes se tornaram mais frequentes com roubos de celular e o uso do Pix. Eles são fonte de receio também por parte dos mais pobres.

Enquanto o cliente de classe média ou alta pode recorrer a um gerente no banco tradicional para resolver um problema, ou se comunicar adequadamente com um robô por meio do chat, os menos alfabetizados têm grande dificuldade em ler, entender e escrever em canais digitais.

Daí vem o sucesso das lotéricas, onde a comunicação se dá diretamente com humanos. “Vou na lotérica, entro em contato com um moço, pago a minha conta de luz, ele me dá o recibo que eu paguei, eu grampeio e guardo esse comprovante”, diz um pobre, exemplificando por que a materialidade ainda é um elemento tão importante na gestão financeira das camadas populares.

Os bancos já demonstram a capacidade de ajustar os canais de atendimento à realidade do consumidor. Hoje, 67% das 103 bilhões de transações anuais já são realizadas por celular ou computador.

Mas, para o antropólogo, há uma questão mais complexa no relacionamento entre os mais pobres e o sistema financeiro tradicional, que diz respeito à temporalidade, ou seja, à gestão da vida das pessoas no presente e no futuro. Enquanto as classes média e alta entendem as finanças como um instrumento para planejar o tempo futuro – estudos, carreira, investimentos, filhos -, nas classes baixas o amanhã não existe. “Não porque elas não tenham a capacidade de se programarem, mas porque não têm a chance”.

Por exemplo, uma moça da periferia é revendedora de cosméticos, porque consegue comprar com desconto. Ela vai aplicar essa sobra de dinheiro em um pequeno estoque para obter margem maior nas próximas vendas – e não aplicar esse dinheiro na Selic. Portanto, a noção de investimento dela está atrelada ao hoje, enquanto o banco trabalha com a noção de investimento atrelado ao amanhã.

“A noção abstrata de um tempo futuro não faz parte das classes populares e desse grupo que está entrando agora no sistema financeiro. O processo de bancarização não se dá só pela aquisição de um serviço de conta bancária, ele cobra uma mudança de mindset sobre a gestão da própria vida”, afirma o antropólogo. Que o digam tantos milhões de brasileiros sem futuro a viverem neste lugar antes chamado de país do futuro

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