Concentração Bancária no Brasil: Queda dentro da Margem de Erro

Álvaro Campos e Larissa Garcia (Valor, 06/10/22) informam: com apenas cinco grandes bancos e a saída de instituições estrangeiras importantes na última década, a concentração bancária sempre foi um tema polêmico no Brasil. Por um lado, pode resultar em maior solidez do sistema financeiro, mas, por outro, muitas vezes é apontada como um dos motivos para os altos juros praticados no país.

Seja como for, em meio ao esforço do Banco Central para estimular a competição, desde 2016 a concentração vem caindo de forma ininterrupta. Esse movimento é justificado pela retração dos bancos públicos e a ascensão das cooperativas, mas a expectativa é que, daqui para frente, as fintechs também comecem a colaborar de forma mais significativa.

A concentração do sistema financeiro medida pelo Índice Herfindahl-Hirschman normalizado (IHHn) permaneceu em trajetória de queda e fechou o ano passado em 0,0928, considerando os ativos totais, segundo o Relatório de Economia Bancária (REB) 2021, divulgado pelo BC. Segundo a autoridade monetária, valores 0 e 0,10 indicam baixa concentração, acima de 0,10 até 0,18, moderada, e acima de 0,18 até 1, elevada.

Pela nova métrica adotada pelo BC, os quatro maiores bancos concentravam 59,3% do mercado de crédito em 2021, queda de 0,1 ponto percentual em relação a 2020. O grupo representava ainda 60,1% dos depósitos, 2,6 pontos a menos do que no ano anterior.

A metodologia exclui o quinto colocado da lista dos maiores bancos, o Santander, que era considerado no cálculo pelo formato antigo. Na regra anterior, que tem período maior divulgado para comparação, as cinco maiores instituições financeiras do país concentravam 78,7% do mercado de crédito no segmento bancário em 2021, queda de 0,5 ponto percentual em relação ao ano anterior.

A participação dos bancos públicos era de 47,6% em 2019. Caiu a 43,5% em 2021. Enquanto isso, as cooperativas subiram de 4,3% para 6,1%. As fintechs não saíram do 0,0% nos últimos três anos.

Nos últimos anos, a queda da concentração pode ser atribuída principalmente à retração dos bancos públicos, especialmente do BNDES, e ao avanço das cooperativas. “A concentração do SFN [setor financeiro nacional] reduziu-se entre 2019 e 2021 nos agregados contábeis considerados, especialmente nos depósitos totais”, destacou o relatório.

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Nobel de Economia em 2022: Estudos de Crises Bancárias

Nobel de Economia 2022

O Riksbank, banco central da Suécia, às vezes é acusado, meio que de brincadeira, de conceder o prêmio Nobel em memória à pesquisa econômica décadas depois de a pesquisa em questão ter feito alguma diferença. Alguém poderia ser perdoado por desejar que a acusação fosse verdadeira hoje.

O trabalho homenageado pelo prêmio de 2022 – corridas a instituições financeiras, os danos que elas causam e como evitá-las – permanece deprimentemente oportuno.

Os laureados – o ex-presidente do Federal Reserve Ben Bernanke e os professores de economia Douglas Diamond e Philip Dybvig – demonstraram o papel fundamental que os bancos desempenham na economia e acima de tudo o papel que desempenham quando as coisas dão errado.

O modelo Diamond-Dybvig, um marco no ensino de economia desde quando foi desenvolvido nos anos 80, esclarece como os bancos fazem a intermediação entre os correntistas que desejam acesso imediato às suas economias e as empresas que necessitam de financiamento de investimento de longo prazo.

O modelo estabelece como e por que os bancos são, portanto, vulneráveis às corridas aos depósitos e estabelece o argumento central para o seguro de depósitos do governo.

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Inovações Financeiras com 5G

Álvaro Campos (Valor, 02/09/22) cita fazer uma visita virtual a um imóvel que se pretende financiar, pagar uma compra sem passar pelo caixa, ter transações financeiras executadas automaticamente em seu nome como alguns dos possíveis usos do 5G no setor financeiro, onde a nova tecnologia para redes móveis deve provocar uma revolução… tecnológica.

oferecer tráfego de dados rápido e estável, o 5G proporciona inúmeras aplicações para a chamada internet das coisas (IoT, na sigla em inglês). Sua chegada é comparável à mudança proporcionada quando se passou do telefone analógico para o celular. Além de possibilitar um barateamento de custos para os bancos, as possibilidades para o desenvolvimento de produtos e serviços são as mais diversas.

Um dos primeiros e mais óbvios usos do 5G é a substituição de redes físicas tradicionais, que são mais caras e exigem manutenção constante. Como por enquanto a nova tecnologia está disponível em poucas capitais — e muito provavelmente ainda será preciso manter algum tipo de

redundância com o link físico por certo tempo — os bancos ainda não têm as contas de quanto será possível economizar, mas todos os grandes concordam que é um porcentual substancial. Outra possibilidade é o chamado “edge computing”, criando uma espécie de mini data center mais perto do local de uso, o que pode diminuir ainda mais o tempo de resposta das operações e elevar a chance de oferecer ofertas bastante assertivas.

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Fuga de Depósitos em Dólares, Risco de Bancarrota e Novo “Corralito” na Argentina

Os argentinos sacaram pouco mais de US$ 1 bilhão de depósitos em dólar do sistema bancário do país nas últimas sete semanas, segundo noticiou o jornal Valor em 24/08/22, enquanto o governo luta para convencê-los de que o peso, a moeda nacional, se estabilizará.

Os poupadores começaram a sacar seus dólares de contas bancárias em ritmo acelerado quando o ex-ministro da Economia Martín Guzmán renunciou em 2 de julho de 2022, mergulhando o governo ainda mais na crise. O terceiro ministro da economia da Argentina desde então, Sergio Massa, desfrutou de uma breve recuperação do mercado após assumir, antes que os depósitos caíssem novamente.

Embora alguns depósitos em dólar constituam uma parte das reservas de moeda forte da Argentina, que também estão em declínio, eles não são considerados parte das reservas líquidas do banco central porque normalmente não podem ser usados para sustentar a moeda.

Os depósitos totais caíram para US$ 14,55 bilhões em 16 de agosto, mostram dados do banco central, menos da metade do nível máximo de cerca de US$ 32 bilhões visto em 2019 antes de uma votação primária mostrar que o presidente Alberto Fernández viria a ganhar a eleição. Os argentinos retiraram vários bilhões de dólares em depósitos entre essa votação e a posse de Fernández.

Os depósitos oferecem um termômetro quase em tempo real das expectativas econômicas dos argentinos. No final de 2001, durante uma das piores crises do país, o governo proibiu grandes saques em caixas eletrônicos, ajudando a alimentar o caos social.

Reservas Cambiais BRA X ARG 2000-2021

O Banqueiro Comunista: Leia o Livro

Há 100 anos, Fernando Pessoa escreveu O Banqueiro Anarquista. O xará é inspirador. Em homenagem, eu, Fernando Costa, escrevi O Banqueiro Comunista.

É o primeiro artigo publicado no primeiro número da RBMEF – REVISTA BRASILEIRA DE ECONOMIA MONETÁRIA E FINANCEIRA, publicação semestral do grupo de pesquisa Observatório do Banco Central (OBC), apenas por acaso com sigla coincidente com O Banqueiro Comunista… 😉

Centralizado no IE-UFRJ, tem professores de diversas Universidades, participantes no Grupo de Discussão sobre Política Monetária.

Com a pesquisa sobre a história dos banqueiros na economia ocidental, escrevi uma síntese no livro digital com link abaixo, inclusive com vários conceitos analíticos e dicas úteis para o enriquecimento pessoal. Em seu Apêndice, encontra-se o artigo publicado em: https://www.observatoriodobancocentral.com.br/?page_id=798

Baixe o livro:

Fernando Costa. O Banqueiro Comunista. Versão Livro. março 2022

O Banqueiro Comunista: Leia o Artigo na RBEMF

Poucas profissões são mais estigmatizadas senão a minha de banqueiro, em particular, sou mais por ser comunista! Sempre fui retratado como uma figura mesquinha, gananciosa e desalmada. Shylock, personagem central de “O Mercador de Veneza”, peça teatral de Shakespeare, é visto como meu arquétipo.

Arquétipo é um conceito da Psicologia, utilizado para representar padrões de comportamento associados a um personagem ou papel social. Esse conceito foi desenvolvido por Carl G. Jung.

Para ele, os arquétipos estão no inconsciente coletivo e por isso são percebidos de maneira similar por todos. São uma herança psicológica, resultante das experiências de milhares de gerações de seres humanos no enfrentamento das situações cotidianas.

As imagens dos arquétipos são encontradas em mitos, lendas, na literatura, nos filmes e aparecem nos nossos sonhos de enriquecimento. Vou aqui explicar o meu arquétipo, O Banqueiro Comunista.

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Consequências Sociais da Digitalização do Dinheiro

Amália Safatle (Valor, 22/07/22) avalia: nas ruas, os efeitos da digitalização financeira sobre as camadas mais vulneráveis da população. Mas revela números comprovantes da percepção.

No Brasil, o uso do dinheiro vivo resiste entre as classes mais baixas. Segundo pesquisa realizada pelo Locomotiva, o papel-moeda permanece como a forma mais utilizada para pagar as contas de consumo (como água, luz, aluguel) nas classes D e E, com 72% das preferências. O principal motivo é ter maior controle financeiro sobre o dinheiro, mas também pesa o medo de ser taxado pelos bancos. Segundo o levantamento, 45% dos bancarizados afirmam sacar de uma vez tudo recebido para fugir das tarifas.

Quando cada vez mais a parcela da população com poder aquisitivo opta por andar com pouco ou nenhum dinheiro no bolso, o que acontece com a base da pirâmide? A pandemia, ao fazer o governo distribuir auxílios, colaborou para que parte dessa população entrasse de alguma maneira no sistema bancário, mas ainda há obstáculos.

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Maiores Bancos do Mundo e Maiores Bancos da América Latina

Álvaro Campos (Valor, 04/07/22) informa: os principais bancos do mundo saíram mais fortes depois do distanciamento social provocado pela pandemia, apesar do baque inicial causado por ela. No fim de 2021, pela primeira vez as mil maiores instituições financeiras globais ultrapassaram a marca de US$ 10 trilhões em capital de nível 1, de melhor qualidade, composto por ações, reservas de lucros e resultados acumulados. É o que mostra uma pesquisa da publicação especializada “The Banker”.

os bancos estão mais capitalizados do que nunca, o que é um importante sinal de solidez do sistema financeiro num momento em que se discute a possibilidade de uma recessão global. As pesadas medidas de estímulos monetário e fiscal adotadas por bancos centrais e governos e a reação rápida das instituições financeiras ao oferecer pausas nos pagamentos e renegociar as dívidas dos clientes ajudaram. A fotografia também é resultado do aumento na exigência de capital regulatório que se adotou após a crise financeira de 2008.

O reforço no capital, agora, ajudará as instituições a atravessar um outro momento. Com a redução dos estímulos, inflação e juros nos maiores níveis em décadas, guerra na Ucrânia e eleições – no caso do Brasil -, o setor bancário está diante de um cenário que impõe desafios de outra natureza.

Joy Macknight, editora da “The Banker”, afirma que os lucros dos bancos tiveram uma recuperação em 2021, com o resultado agregado antes de impostos atingindo um recorde de US$ 1,44 trilhão. Trata-se de um aumento de 53,7% em relação ao ano anterior, e isso após uma queda anual de 19,2% registrada em 2020. Grande parte dessa melhora pode ser atribuída a uma redução ou reversão das provisões para devedores duvidosos (PDD) do ano anterior, já que os calotes esperados por causa da pandemia não se materializaram.

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Correlação Causal entre Juros

Correlação é a relação estatística entre duas variáveis, mas nem sempre implica em causalidade. Remete a uma falácia lógica, denominada cum hoc ergo propter hoc, do latim, “com isto, logo por causa disto”.

Há a possibilidade de haver uma causa em comum para ambas, ou seja, as duas variáveis em questão não terem nenhuma relação de causa, e a sua aparente conexão ser só uma coincidência. Em função de um terceiro elemento, é chamada de “correlação espúria”.

Uma variação comum é a falácia post hoc ergo propter hoc (depois disto, logo por causa disto). Muito comum no jornalismo superficial, a relação causal é presumida porque simplesmente uma coisa acontece antes de outra coisa, daí se deduz equivocadamente a segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira.

As Notas para a Imprensa, divulgadas mensalmente pelo Banco Central do Brasil, apresentam a evolução das Estatísticas Monetárias e de Crédito. Elaborei uma tabela síntese (veja acima) onde se observa uma correlação entre a taxa de juro do crédito rotativo, isto é, um empréstimo de emergência concedido por um mês ao comprador com cartão de crédito inadimplente no pagamento da fatura, e o Índice do Custo do Crédito para Pessoas Físicas.

Esta é a taxa de juro média ponderada de todas as operações de crédito com as Pessoas Físicas. No fim de 2021, a únicas exageradas eram a do cheque especial (128% aa) e as dos cartões de crédito: rotativo (350% aa) e parcelado (159% aa). As demais eram mais “civilizadas”.

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Diagnóstico e Terapia Econômico-Financeira

A Professora Maria da Conceição Tavares me ensinou: – Fernando, nunca diga nada sobre a economia brasileira sem apresentar evidências empíricas! Senão, dirão ser ideologia…

Necessitamos obter uma visão macrossistêmica das redes de interconexões. Assim, veremos os vínculos e/ou as interações entre os principais componentes da economia, por meio dos quais os riscos em um subsistema (pagamentos, gestão de dinheiro ou financiamento) podem afetar o sistema econômico-financeiro complexo, emergente de interações dele com os demais.

Ao compararmos as taxas de variações do PIB real entre Argentina, Brasil, China e Estados Unidos, nas duas primeiras décadas do século XXI, observamos os dois países periféricos terem feito uma disputa à parte em termos de depressões econômicas, ou seja, quedas absolutas do PIB. Em 21 anos, a Argentina “goleou” o Brasil de 10 X 3. As ocorridas no Brasil foram em 2015 (-3,5%), 2016 (-3,3%) e 2020 (-4,06%.

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Funcionalidade do Sistema Bancário

Download do Relatório de Pesquisa:

Fernando Nogueira da Costa – Bancos Financiamento e Missão Social – junho 2022

Fui convidado para participar de um Seminário Internacional para debater o tema “O papel do financiamento na retomada do crescimento da economia brasileira”. Será realizado no dia 21 de junho de 2022, terça-feira, no auditório Freitas Nobre, Anexo IV da Câmara dos Deputados. O evento será realizado das 9h30 às 18h30, subdividido em mesas temáticas e será transmitido ao vivo pela TV Câmara: www.camara.leg.br.

Comporei a mesa “Bancos comerciais no financiamento do setor produtivo e missão social” (17:00-18:30), para fazer comentários em 15 minutos sobre o dito por representantes dos “big five” bancos comerciais brasileiros. Faço aqui um resumo do possível de falar brevemente, “colocando o dedo-na-ferida”.

Para começar a análise de um sistema complexo emergente de interações entre três subsistemas (de pagamentos, de gestão de dinheiro e de financiamento) é necessário partir de uma visão holista, isto é, do todo. Inseridos na economia global estão seus múltiplos agentes econômicos – governo e Banco Central, sistema financeiro nacional, Pessoas Jurídicas e Pessoas Físicas –, estas últimas respectivamente subdivididas por porte, natureza de atividades econômico-financeiras, e ocupações, renda e riqueza.

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Novo Sistema de Registro de Recebíveis de Cartões

Mariana Ribeiro (Valor, 07/06/22) informa: os benefícios do novo sistema de registro de recebíveis de cartão, que completa um ano hoje, já são notórios, afirma o diretor de regulação do Banco Central (BC), Otávio Damaso. Apesar dos problemas iniciais, o sistema já está sendo bem-sucedido no incentivo a novos modelos de negócios e que os ajustes necessários daqui para frente são pontuais e, em muitos casos, ligados a inovações que não estavam inicialmente no radar do regulador.

Daqui para frente, a expectativa é que o mercado se desenvolva e continuem surgindo novas empresas, com diferentes propostas de uso para os recebíveis dos lojistas. O diretor lembra que quando regulamentou as fintechs de crédito, o Banco Central não conseguiu prever todos os modelos que seriam criados. Com os recebíveis, espera acontecer a mesma coisa. Ele cria condições e cabe ao mercado inovar.

A entrada em vigor do sistema foi importante em um cenário em que ainda vigorava a chamada trava bancária (prática por meio do qual, para a concessão de crédito, os bancos retêm todo o fluxo de recebíveis de cartões do varejista), mas novos entrantes já colocavam em xeque o formato. Sem um modelo adequado para o registro, ao invés de aumento da competição, as mudanças pelas quais passava o mercado trariam ainda mais insegurança ao lojista.

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