Inovações Financeiras: operações online em tempo real

Daniel Rittner (Valor, 24/10/17) informa que, na China, um aplicativo de pagamento por celular faz 600 milhões de transações por dia.

“Insira o cartão no sentido apontado pelo adesivo sobre a máquina”, avisa a placa no museu histórico de Shenzhen – uma sonolenta vila de pescadores miseráveis nos anos 1970, hoje transformada em espécie de Vale do Silício asiático, com mais de 10 milhões de habitantes.

A relíquia é um caixa eletrônico e o cartaz explica, em cinco passos, como sacar dinheiro. Em boa parte da China, diante de um equipamento como esse, é justo dizer que crianças e adolescentes talvez não enxerguem utilidade.

O mundo usa cada vez menos papel-moeda, mas a viagem para o futuro empreendida pelos chineses é feita sem escalas. Dá um salto nos cartões de débito e de crédito – sinônimos de inclusão bancária no Ocidente. De lojas de grife nos grandes aeroportos até pequenas mercearias nos bairros residenciais, eles já adotaram o uso massivo do celular como sistema de pagamento corrente.

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Interações entre os Componentes Regionais do Sistema Bancário Nacional

Fui convidado para o Seminário Internacional Geografia e Finanças que ocorreu em abril de 2016 no Departamento de Geografia da USP. Seus participantes colaboraram com o envio de um artigo para compor o Dossiê abaixo.

Curiosamente, a revista do CEDEPLAR-FACE-UFMG, em faculdade que me formei, rejeitou meu artigo, alegando que “ele não tinha base teórica”!

Ora, usei teorias que o parecerista, provavelmente, desconhece:

  • Economia Institucionalista, para análise do papel das Instituições Financeiras Públicas Federais contrapondo-se à concentração regional do crédito,
  • Economia Evolucionária, para reconhecer que “a história importa” e impõe uma concentração regional da captação de recursos no centro financeiro (SP), e
  • Economia da Complexidade, para verificar a emergência do Sistema Financeiro Nacional a partir das interações desses seus componentes regionais.

Na verdade, desconfio — como “bom mineiro” conhecedor das práticas nepotistas da minha terra e corporativistas da minha profissão — que o parecerista usou do corporativismo em sua avaliação, simplesmente, porque falseei com dados a hipótese levantada por seus colegas pós-keynesianos. Eles prognosticaram uma progressiva concentração regional do crédito porque generalizaram um conceito equivocado para todos os bancos, independentemente de serem privados ou públicos: preferência por liquidez e/ou aversão ao risco de conceder crédito na periferia. Não se atentaram para as diferenças entre o SFN e o de onde está teoria foi inspirada: lá, economia de mercado de capitais, aqui, economia de endividamento bancário com crédito público.

Mas esse veto ao método científico acabou sendo bom porque a revista da GEOUSP é muito mais ranqueada… 🙂

GEOUSP: Espaço e Tempo (Online)

Revista dos Programas de Pós-Graduação em Geografia Humana e Geografia Física do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – Brasil
ISSN: 2179-0892

v. 21, n. 2 (2017): Dossiê Geografia Econômica

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Enxergando Ativos Podres Sem Ver Os Podres Poderes

Editorial do Valor (24/10/17), em campanha contra os bancos públicos — “a bola-da-vez” é a Caixa — e pró Mercado, avalia que, quando divulgou o mais recente Relatório de Estabilidade Financeira (REF), o Banco Central traçou um panorama razoavelmente otimista do sistema bancário, após superar com louvor o choque de 17 de maio, quando a divulgação da gravação da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista exigiu um reforço de margens de R$ 30 bilhões nos mercados em um único dia.

A solvência não apresenta risco para a estabilidade financeira, de acordo com o relatório; e os índices de capitalização e de alavancagem estão robustos o suficiente para a transição para as regras prudenciais de Basileia 3. A liquidez está elevada e o retorno sobre o patrimônio líquido aumentou, para o patamar de 12% ao ano, beneficiado pela redução nas despesas de provisão e pela queda dos custos de captação propiciada pela redução de juros.

A realidade mostrou nuances alguns dias depois, quando ganhou evidência o aperto em que a Caixa Econômica Federal se encontra. O banco teria pisado no freio do crédito porque precisa elevar o capital para atender as regras de capitalização previstas pelo Acordo de Basileia para o próximo ano. Para complicar, os ativos problemáticos na carteira de pessoa física caíram ou estabilizaram em todas as modalidades exceto na de crédito imobiliário, que registrou também o aumento das reestruturações.

Uma das saídas seria emitir R$ 10 bilhões em “bônus perpétuos”, título de crédito sem vencimento, que frequentemente paga taxas de juros mais altas, junto ao FGTS. A operação exige sinal verde do conselho curador do fundo. Há quem diga que isso não é suficiente e que a Caixa precisaria de pelo menos o dobro. Daí uma possível negociação para a venda de parte da carteira para o BNDES.

O BNDES, por sua vez, também enfrenta seus percalços. Embora ainda detenha baixos índices de inadimplência em sua carteira na comparação com os outros bancos, não escapa dos créditos problemáticos. Continue reading “Enxergando Ativos Podres Sem Ver Os Podres Poderes”

“Embonecamento” de Balanços de Bancos

Fabio Graner, Fábio Pupo e Marta Watanabe (Valor, 25/10/17) informam que operações “fora da normalidade” na área de câmbio e em provisões de crédito feitas pelos bancos impactaram negativamente o recolhimento por estimativa do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) neste ano e, por isso, foram alvo de ações de fiscalização por parte da Receita Federal nos últimos meses.

Esse aperto nos grandes contribuintes do setor financeiro, na visão do Fisco, já gerou impactos positivos no desempenho da tributação sobre o lucro nos últimos dois meses. Em setembro, por exemplo, o recolhimento de IRPJ e CSLL por estimativa mensal cresceu 10,7% ante igual período do ano passado (para R$ 7,3 bilhões), com o aumento sendo puxados pelas instituições financeiras, cuja expansão foi de 18,1% (para R$ 2,4 bilhões). O recolhimento das demais empresas cresceu a um ritmo menor de 7,4% (para R$ 4,9 bilhões).

Apesar da melhora recente, a tributação sobre lucros por estimativa mensal segue no território negativo quando considerado o acumulado do ano, com queda de 1,8% na comparação com um ano antes (para R$ 72,4 bilhões). O setor financeiro é o grande responsável pelo desempenho ao registrar retração de 9,5% (para R$ 27,1 bilhões). Enquanto isso, as demais empresas computam aumento de 3,42% (para R$ 45,3 bilhões) na arrecadação federal. Continue reading ““Embonecamento” de Balanços de Bancos”

Uso da Caixa para Política Pública X Corrupção do Peemedebismo

Alex Ribeiro (Valor, 24/10/17) em vez de “colocar o dedo na ferida”, isto é, apurar a corrupção dos prepostos do chefe do “quadrilhão” do peemedebismo, que os nomeou para VP da Caixa, partidariamente, prefere mais uma vez criminalizar a política de crédito desenvolvimentista, anticíclica, que levou à queda da taxa de desemprego no Brasil até 2014, época de crise mundial.

Levianamente, diagnostica que “a falta de capital na Caixa Econômica Federal para cumprir os requisitos prudenciais do Acordo de Basileia 3 é resultado de políticas adotadas nos governos Lula e Dilma, incluindo a chamada contabilidade criativa para produzir superávits primários a partir de operações financeiras e o forte aumento da carteira de crédito do banco como instrumento de política anticíclica na crise mundial de 2008 e para ganhar participação de mercado”.

[Fernando Nogueira da Costa: Apesar de comentários mentirosos de gente de O Mercado, que pauta os jornalistas econômicos brasileiros, de que “o banco público teria feito maus negócios e acumulado esqueletos nos últimos anos”, até o momento a inadimplência da instituição permanece contida, mesmo com a recessão. A taxa de inadimplência recuou de 3,2% para 2,51% entre junho de 2016 e de 2017. Mas nesta Era Obscura da Pós-Verdade o que importa não são os fatos e os dados, mas sim as falsas versões e os argumentos estapafúrdios.]

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Necessidade de Reforma do Modelo Brasileiro de Cartões de Pagamento

A missão social dos bancos, enquanto concessões públicas para operar com recursos de terceiros, seria cumprir três funções básicas.

  • Primeira, viabilizar o sistema de pagamentos eletrônicos, inclusive do varejo.
  • Segunda, oferecer rendimento, segurança e liquidez aos investimentos de seus clientes.
  • Terceira, financiar atividades com crédito preferencialmente farto e barato. Com isso o sistema multiplicaria a moeda bancária.

Na Era Social-Desenvolvimentista, iniciou-se uma fase na história bancária brasileira caracterizada pelo acesso popular à cidadania financeira, isto é, a bancos e crédito. A “bancarização” avançou no Brasil, chegando a 72,4% em 2008, quando era menos da metade disso na Era Neoliberal. O processo teve continuidade até atingir 90,4% da população brasileira com mais de 15 anos em 2016. Estavam registrados, no Banco Central, 144 milhões de CPFs ativos (e únicos) dessas pessoas consideradas adultas.

No último dia de agosto de 2017, a estatística de relacionamentos com clientes do sistema financeiro nacional mostrava 150,2 milhões de CPFs ativos. Considerando também os 8,3 milhões com relacionamentos inativos praticamente abrangia toda a população adulta. CNPJs ativos eram 10,4 milhões e inativos, 4,5 milhões.

Os bancos constituintes do “big five – Banco do Brasil (35,9 milhões), Bradesco (23,1 milhões), Itaú (21,9 milhões), Caixa (19,2 milhões) e Santander (9,2 milhões) – somam 109,5 milhões de correntistas que escolhem, corretamente, “grandes bancos demais para falir”. São quase ¾ do total de clientes do sistema financeiro nacional. Mas considerando a quantidade de clientes registrados no SCR – Sistema de Informações de Crédito do Banco Central os números e percentuais por banco diferem, pois do total de 126,4 milhões, em março de 2017, Bradesco tinha 22%, Itaú 20%, Caixa 12%, BB 9% e Santander 8%. Têm um Market-share próximo daquele dos correntistas: 71%. Continue reading “Necessidade de Reforma do Modelo Brasileiro de Cartões de Pagamento”