Correlação Causal entre Juros

Correlação é a relação estatística entre duas variáveis, mas nem sempre implica em causalidade. Remete a uma falácia lógica, denominada cum hoc ergo propter hoc, do latim, “com isto, logo por causa disto”.

Há a possibilidade de haver uma causa em comum para ambas, ou seja, as duas variáveis em questão não terem nenhuma relação de causa, e a sua aparente conexão ser só uma coincidência. Em função de um terceiro elemento, é chamada de “correlação espúria”.

Uma variação comum é a falácia post hoc ergo propter hoc (depois disto, logo por causa disto). Muito comum no jornalismo superficial, a relação causal é presumida porque simplesmente uma coisa acontece antes de outra coisa, daí se deduz equivocadamente a segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira.

As Notas para a Imprensa, divulgadas mensalmente pelo Banco Central do Brasil, apresentam a evolução das Estatísticas Monetárias e de Crédito. Elaborei uma tabela síntese (veja acima) onde se observa uma correlação entre a taxa de juro do crédito rotativo, isto é, um empréstimo de emergência concedido por um mês ao comprador com cartão de crédito inadimplente no pagamento da fatura, e o Índice do Custo do Crédito para Pessoas Físicas.

Esta é a taxa de juro média ponderada de todas as operações de crédito com as Pessoas Físicas. No fim de 2021, a únicas exageradas eram a do cheque especial (128% aa) e as dos cartões de crédito: rotativo (350% aa) e parcelado (159% aa). As demais eram mais “civilizadas”.

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Diagnóstico e Terapia Econômico-Financeira

A Professora Maria da Conceição Tavares me ensinou: – Fernando, nunca diga nada sobre a economia brasileira sem apresentar evidências empíricas! Senão, dirão ser ideologia…

Necessitamos obter uma visão macrossistêmica das redes de interconexões. Assim, veremos os vínculos e/ou as interações entre os principais componentes da economia, por meio dos quais os riscos em um subsistema (pagamentos, gestão de dinheiro ou financiamento) podem afetar o sistema econômico-financeiro complexo, emergente de interações dele com os demais.

Ao compararmos as taxas de variações do PIB real entre Argentina, Brasil, China e Estados Unidos, nas duas primeiras décadas do século XXI, observamos os dois países periféricos terem feito uma disputa à parte em termos de depressões econômicas, ou seja, quedas absolutas do PIB. Em 21 anos, a Argentina “goleou” o Brasil de 10 X 3. As ocorridas no Brasil foram em 2015 (-3,5%), 2016 (-3,3%) e 2020 (-4,06%.

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Funcionalidade do Sistema Bancário

Download do Relatório de Pesquisa:

Fernando Nogueira da Costa – Bancos Financiamento e Missão Social – junho 2022

Fui convidado para participar de um Seminário Internacional para debater o tema “O papel do financiamento na retomada do crescimento da economia brasileira”. Será realizado no dia 21 de junho de 2022, terça-feira, no auditório Freitas Nobre, Anexo IV da Câmara dos Deputados. O evento será realizado das 9h30 às 18h30, subdividido em mesas temáticas e será transmitido ao vivo pela TV Câmara: www.camara.leg.br.

Comporei a mesa “Bancos comerciais no financiamento do setor produtivo e missão social” (17:00-18:30), para fazer comentários em 15 minutos sobre o dito por representantes dos “big five” bancos comerciais brasileiros. Faço aqui um resumo do possível de falar brevemente, “colocando o dedo-na-ferida”.

Para começar a análise de um sistema complexo emergente de interações entre três subsistemas (de pagamentos, de gestão de dinheiro e de financiamento) é necessário partir de uma visão holista, isto é, do todo. Inseridos na economia global estão seus múltiplos agentes econômicos – governo e Banco Central, sistema financeiro nacional, Pessoas Jurídicas e Pessoas Físicas –, estas últimas respectivamente subdivididas por porte, natureza de atividades econômico-financeiras, e ocupações, renda e riqueza.

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Novo Sistema de Registro de Recebíveis de Cartões

Mariana Ribeiro (Valor, 07/06/22) informa: os benefícios do novo sistema de registro de recebíveis de cartão, que completa um ano hoje, já são notórios, afirma o diretor de regulação do Banco Central (BC), Otávio Damaso. Apesar dos problemas iniciais, o sistema já está sendo bem-sucedido no incentivo a novos modelos de negócios e que os ajustes necessários daqui para frente são pontuais e, em muitos casos, ligados a inovações que não estavam inicialmente no radar do regulador.

Daqui para frente, a expectativa é que o mercado se desenvolva e continuem surgindo novas empresas, com diferentes propostas de uso para os recebíveis dos lojistas. O diretor lembra que quando regulamentou as fintechs de crédito, o Banco Central não conseguiu prever todos os modelos que seriam criados. Com os recebíveis, espera acontecer a mesma coisa. Ele cria condições e cabe ao mercado inovar.

A entrada em vigor do sistema foi importante em um cenário em que ainda vigorava a chamada trava bancária (prática por meio do qual, para a concessão de crédito, os bancos retêm todo o fluxo de recebíveis de cartões do varejista), mas novos entrantes já colocavam em xeque o formato. Sem um modelo adequado para o registro, ao invés de aumento da competição, as mudanças pelas quais passava o mercado trariam ainda mais insegurança ao lojista.

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Migração para Cartão Virtual por Motivo de Segurança

Álvaro Campos (Valor, 07/06/22) informa: o Itaú é líder no mercado de cartões de crédito no Brasil, com mais de 38,2 milhões de unidades e quase 30% do volume processado. Agora quer capitanear uma mudança significativa na relação do brasileiro com esse instrumento.

O banco vai lançar uma campanha de marketing para incentivar os clientes a aderirem aos cartões virtuais e outras formas de pagamentos digitais, aposentando o plástico. O cartão físico continuará disponível para quem quiser, mas o foco é estimular o consumidor a abraçar de vez essas novas formas de pagamento, consideradas mais fáceis, rápidas e seguras – e que ganharam impulso na pandemia.

Segundo o Itaú, o número de transações realizadas com cartões virtuais cresceu 296% até o momento em 2022, na comparação com o mesmo período de 2021, com uma alta no faturamento de 190%. Além disso, no primeiro trimestre do ano, o valor transacionado utilizando pagamento por aproximação cresceu 375%, considerando as carteiras digitais, como Apple Pay, Google Pay e Samsung Pay, além do pagamento com cartão físico com tecnologia NFC.

Desde 2015, o Itaú oferece a opção de cartão virtual para seus clientesaquele número gerado cada vez que se faz uma compra on-line – e em 2021 lançou a modalidade de cartão virtual recorrente, voltado para pagamentos de serviços contínuos, como assinaturas, serviços de transporte e delivery.

Agora todos os modelos de celular já possuem a tecnologia NFC e todas as “maquininhas” de cartão também já aceitam esse tipo de operação por aproximação. A ideia é que o cliente concentre pagamentos no smartphone.

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Banquetas não são Bancões

Os bancos de médio porte já sofrem mais que os grandes no atual ciclo de aumento da inadimplência. Com uma carteira menos diversificada, uma postura muitas vezes agressiva para atrair clientes e uma estrutura de funding mais cara, essas instituições tendem a vweuma deterioração mais acentuada na qualidade dos seus ativos em cenários macroeconômicos adversos, como o atual, com inflação e juros elevados e endividamento das famílias perto de níveis recordes.

Dez bancos médios – BV, Daycoval, Banrisul, ABC Brasil, Pan, Inter, Bmg, BNB, Mercantil e Pine – mostram crédito forte, margem crescendo pouco e alguns sinais de piora na qualidade dos ativos. Todas essas instituições são classificadas pelo Banco Central (BC) nas categorias S2 e S3 da escala que define as instituições financeiras conforme o tipo e a complexidade.

No agregado, a carteira de crédito dessas instituições cresceu 14,75% na comparação com março do ano passado, para R$ 301,2 bilhões. O ritmo superou o dos cinco grandes bancos do país (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa), cujo estoque ampliado de empréstimos e financiamentos que avançou 13,46%, para R$ 4,161 trilhões. A margem financeira dos médios, no entanto, cresceu em um ritmo bem inferior, de 3,1%, somando R$ 8,4 bilhões.

Diversos deles cresceram em linhas com maior risco/retorno, como cartão e crédito pessoal, incluindo BV, Pan e Inter. Outros têm carteiras muito concentradas em produtos mais seguros, como consignado ou crédito para médias e grandes empresas, o que acontece em Mercantil e Pine, respectivamente.

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La Banca Brasileira: Baixe o Relatório de Pesquisa Empírica

Capa La Banca

Para participar de uma discussão sobre lucratividade dos bancos da América Latina, em um programa no Canal do IE/UFRJ sobre Sistema Financeiro Nacional, eu me atualizei com os dados recentes. Escrevi um relatório de pesquisa (download no fim deste artigo). Ele discute o livro de Sérgio Paez e Guillermo Oglietti, La Mano Visible de la Banca Invisible: Renta y Lucro Extraordinário de las Finanzas em America Latina, lançado na Argentina em 2021.

Confirmei, nesse relatório de pesquisa empírica, minha suspeita de a maior fonte de lucro dos big six bancos, no Brasil, estar no carregamento de títulos de dívida pública por Tesourarias. A DPMFi em dezembro de 2021 atingiu R$ 5,4 trilhões. Os “mais ricos”, desde sempre preferem o risco soberano para receber juros em lugar de sofrer o aumento da carga tributária progressiva.

Para essa demonstração, extrai do Resultado de Intermediação Financeira (RBIF), dado pela diferença entre Receitas (RIF) e Despesas (DIF) de Intermediação Financeira, as Rendas de Operações com Títulos e Valores Mobiliários (RTVM), bem como Rendas de Operações com Instrumentos Financeiros Derivativos (RDER) e Resultado de Operações de Câmbio (ROC).

Esse Resultado Bruto de Intermediação Financeira strictu sensu do BBBICS (Brasil-Bradesco-BNDES-Itaú-Caixa-Santander), descontado das operações típicas das Tesourarias dos bancos, isto é, aplicações de recursos próprios, surpreendentemente, deu negativo, quando subtrai nas Despesas também a Provisão para Créditos de Difícil Liquidação (PLCD). Dedução: caso se confirmasse essa perda total, as operações de crédito seriam deficitárias para os seis maiores bancos do Brasil!

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Fintechs X Bancos: “Tamanho não é Documento”?

Larissa Garcia (Valor, 16/05/22) informa: o intenso processo de inovação tecnológica e financeira, vivido nos últimos anos, criou um terreno fértil para a digitalização de serviços e produtos financeiros. Nesse contexto, depois de seis anos em queda, o número de instituições financeiras voltou a crescer em 2019, movimento que ganhou tração em meio à pandemia de covid-19. Em fevereiro deste ano, último dado divulgado pelo Banco Central (BC), o país tinha 649 bancosfintechs financeiras, 15% a mais que em 2019.

O crescimento foi puxado pelo “boom” de fintechs e bancos digitais. As instituições de pagamento, por exemplo, mais que dobraram no período e passaram de 19 em 2019 para 43 em fevereiro deste ano. Já as sociedades de crédito direto (SCD) e de empréstimo entre pessoas — que são fintechs de crédito — passaram de 15 para 78 no mesmo período, alta de 420%. Esse aumento reverte a tendência observada entre 2013 e 2018, quando o setor encolheu. No período, o número de instituições financeiras caiu 11%.

O número de bancos, no entanto, permaneceu estável e atingiu o menor número em 2018, com 171. Em fevereiro de 2022, eram 177, mesma quantidade registrada em 2013 e nos últimos dois anos. Ao incluir cooperativas e administradoras de consórcio, o total de participantes do sistema financeiro sobe para 1.648, alta de 1,16% na comparação com 2019.

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Lucratividade dos Bancos no Brasil

Fui convidado para participar de uma discussão sobre lucratividade dos bancos da América Latina, em um programa no Canal do IE/UFRJ sobre Sistema Financeiro Nacional. Tem como pano de fundo o lançamento do livro La Mano Visible de la Banca Invisible: Renta y Lucro Extraordinário de las Finanzas em America Latina (Buenos Aires; Mármol / Izquierdo Editores; 2021).

Os coautores, Sergio Martin Paez e Guillermo Celso Oglietti, afirmam: “a exploração financeira na América Latina, uma antiga fonte de extração de rendas, durante a globalização financeira, adquiriu nível preocupante por seus efeitos negativos sobre o desenvolvimento e o bem-estar regional e por a acumulação de capital vir associada à de um poder político ameaçador das democracias latino-americanas” (2021: 197).

Pelo contrário, parece-me os bancos públicos brasileiros terem sido responsáveis, em grande medida, por tirar parcialmente o atraso histórico do desenvolvimento socioeconômico no Brasil. Foi incluído entre os grandes países emergentes, restrito ao grupo dos BRIC (Brasil-Rússia-Índia-China), antes da volta da Velha Matriz Neoliberal.

Quanto ao poder político ameaçador das democracias, não adoto o economicismo, isto é, a economia determinando diretamente a política. O risco é o populismo de direita, emergente em diversos países, em contexto de crise econômica de âmbito mundial, com o fim do boom de commodities em 2011, mas sem ser determinado por ela.

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Pagamentos em Tempo Real

Mariana Ribeiro (Valor, 26/04/22) informa: a esteira do crescimento do Pix, o Brasil foi o quarto país que mais realizou transações em tempo real no ano passado, um avanço de quatro posições frente a2020. Foram 8,7 bilhões de transações, que representaram 5% das operações feitas no país, de acordo com relatório global da ACI Worldwide, companhia de software para pagamentos. A expectativa é que essa participação continue subindo e chegue a 34% em 2026.

A primeira colocação é ocupada pela Índia, com 48,6 bilhões de transações, seguida por China (18,5 bilhões) e Tailândia (9,7 bilhões). Além do Brasil, o “top 10” é formado ainda por Coreia do Sul, Nigéria, Reino Unido, Estados Unidos, Japão e México.

Ao todo, foram analisados 53 países, que juntos realizaram 118,3 bilhões de transações instantâneas, crescimento de 64,5% sobre o ano anterior. De acordo com o estudo, feito em parceria com a GlobalData e o Centro de Pesquisa Econômica e Empresarial (Cebr), esse número pode chegar a 427,7 bilhões em 2026.

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Prudência dos Clientes: Escolha de Banco Grande Demais Para Não Quebrar

Fernando Canzian (FSP, 07/05/22) publicou reportagem sobre concentração bancária, efeito da preferência dos clientes por “banco grande demais para não quebrar”. Consulta economistas para repetir platitudes sobre o assunto.

Nenhum pondera o efeito do modelo de cartões de crédito, onde a inadimplência no crédito rotativo, provocado por endividamento imprudente (e “forçado” pelos preços à vista e a prazo sem diferenciação), leva a um juro absurdo. Por isso, a taxa de juro média ponderada é elevada, não só nos “big five” bancos como também nos demais, fenômeno não mostrado na reportagem.

Dois anos após o ministro Paulo Guedes (Economia) criticar os “200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos”, a concentração no mercado financeiro segue elevada no Brasil, apesar de mudanças recentes na área.

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