Relação entre o Estado e o Desenvolvimento Econômico Americano

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O esplêndido trabalho de pesquisa de Nicholas Miller Trebat, Departamento de Guerra e Desenvolvimento Americano 1776-1860 Tese de Nicholas Trebat UFRJ, defendida como tese de doutoramento no IE-UFRJ se propõe a reunir as diversas análises existentes sobre a atuação federal no período anterior à Guerra Civil e inseri-los na discussão sobre a relação entre o Estado e o desenvolvimento econômico americano. No tocante à literatura revisionista, é importante salientar que o trabalho não visa contra-argumentar que o governo federal teve impacto mais importante que os governos locais antes de 1860, nem que o poder federal neste período constituiu um “leviatã” afetando todos os setores econômicos de forma contundente. No entanto, busca ilustrar que o impacto econômico de pelo menos uma instituição federal neste período — o Departamento de Guerra — foi substancial.

Exército americano conquista o OestePor que analisar especificamente as Forças Armadas? O leitor notará que quase todos os estudos mencionados sobre o impacto federal na economia americana são ao mesmo tempo análises da atuação do impacto das instituições militares. Há uma explicação simples para isso: a federação estadunidense até 1850 era essencialmente uma união militar, contexto refletido na participação expressiva dos gastos militares nos gastos primários totais do governo federal. Esta participação ficou em torno de 70% em média entre 1792 a 1860, alcançando níveis excepcionalmente elevados (acima de 90%) em períodos de guerra. Portanto, se o governo federal teve algum impacto na economia americana no período examinado, não seria uma surpresa se fosse através do Departamento de Guerra.

O primeiro passo na formação do estado americano foi a Guerra de Independência (1775-1783), que exigiu a criação do Exército Continental e uma entidade legislativa, chamado o Congresso Continental, para coordenar os esforços de guerra entre as treze colônias, até antão pouco integradas economicamente. Conflitos, ou a ameaça de conflitos, continuaram estimulando a centralização estatal nos primeiros anos da república. Como Trebat discute, levantes populares internos contra o sistema tributário e monetário, resistência indígena à expansão americana e a ameaça da presença inglesa e espanhola no continente norte-americano induziram o o processo de centralização de poder estatal nos EUA a partir de 1789, ano em que que foram abolidos os Artigos da Confederação, uma carta constitucional descentralizadora que não exigiu a unificação dos mercados nem das moedas, cada estado se reservando o direito de emitir papel-moeda próprio. Os Artigos foram substituídos pela Constituição que estabeleceu tarifas nacionais de importação e reservou ao governo central o direito à cunhagem.

Estas considerações nos ajudam a entender porque o governo central no período examinado era basicamente uma organização militar: foram as necessidades militares que levaram à centralização de poder nos EUA e a própria formação inicial do estado. Logo, era de esperar que o governo central assumisse nas primeiras décadas da República funções predominantemente militares.

O interesse de Trebat nas instituições militares também deriva das inúmeras experiências de influência militar em atividades privadas no século 20, como no caso do desenvolvimento de rádio, aviões, o computador e, mais recentemente, a internet e robótica. Por isso, é interessante investigar possíveis antecedentes históricos do impacto militar, não só em termos de inovações técnicas, mas em um sentido mais amplo, permitindo fazer observações mais abrangentes sobre a relação entre o estado e o desenvolvimento econômico americano.

O argumento básico da tese de Trebat é que o Departamento de Guerra teve papel fundamental na criação das “pré-condições” para a industrialização americana. “Pré-condições” se referem a uma série de atributos — como abundância de recursos naturais, elevada capacidade técnica da população, geografia favorável ao comércio externo e estruturas políticas e sociais favoráveis ao progresso técnico — que possibilitam fases posteriores de rápido crescimento industrial.

Este trabalho de pesquisa de Nicholas Miller Trebat consiste em três estudos de caso do impacto militar na economia americana até 1860. Ele resume as características da economia americana no limiar da Revolução (1775-1783), apontando para os setores dinâmicos e para o considerável grau de estratificação socioeconômica que existia nas colônias americanas. Discute também o mercado de terras no final do período colonial e os incentivos que este criava para a expansão territorial. Discorre sobre os intensos conflitos de classe que marcaram a sociedade nos anos 1780, e os reflexos destes no movimento constitucionalista e na criação das Forças Armadas modernas. Foram os poderes concedidos ao governo federal pela Constituição de 1789 que permitiu que o Departamento de Guerra obtivesse os recursos e a autonomia necessários para influenciar o rumo da economia americana no período anterior à Guerra Civil.

O Trebat descreve as origens da industrialização americana, sobretudo a evolução do setor manufatureiro concentrado nas regiões Nordeste e, em menor medida, Meio-Oeste. Discute o progresso técnico no setor de máquinas-ferramentas até 1860 e o seu papel na elevada produtividade manufatureira observada já a partir de 1840. Analisa o papel macroecônomico das regiões Sudeste e Meio-Oeste, apontando para o papel do setor agrícola e das exportações no crescimento destas regiões e na sustentação das taxas de crescimento a nível nacional. A última seção discute a evolução do sistema de transporte. Conclui essa parte com um breve resumo do debate em torno do impacto econômico das ferrovias e o papel do estado na construção da malha no período anterior à Guerra Civil.

Em seguida, examina o papel do exército nacional na expansão territorial estadunidense entre 1790 e 1840. O objetivo central é de ilustrar que a colonização branca das áreas além das montanhas Apalaches no Sudeste e Meio-Oeste foi fruto de conquistas militares do exército nacional contra tribos indígenas contando com o apoio de interesses ingleses e espanhóis. Como dito, autores como Douglas North e David Landes descrevem o processo de ocupação destas regiões como se fosse liderado por famílias de colonos-fazendeiros, assim ignorando o esforço do exército federal para remover as populações indígenas residindo nos estados modernos de Ohio, Indiana, Illinois, Alabama Mississippi, e Geórgia. Argumentaremos que elites proprietárias da costa leste, buscando aumentar a receita do governo federal e lucrar com a ocupação das terras ao oeste, tiveram papel importante na colonização destes estados.

O segundo estudo de caso, abordado por Trebat, analisa o papel dos arsenais federais no desenvolvimento das máquinas-ferramentas e técnicas produtivas características da tecnologia intercambiável. Ilustra os vínculos tecnológicos entre a indústria armamentista, criada nos EUA a partir dos arsenais de Springfield e Harper’s Ferry, e a indústria automobilística do início do século 20.

Ele analisa também o papel do Departamento de Guerra no crescimento da indústria ferroviária no período anterior à Guerra Civil. A partir de 1827, o Departamento de Guerra enviou engenheiros militares para efetuar levantamentos topográficos e trabalhar na construção e administração de ferrovias. Argumenta que a contribuição mais importante das instituições militares à construção, operação e administração das ferrovias americanas foi através da academia militar de West Point, principal escola de engenharia do país até 1860.

Em relação à administração ferroviária, aponta para evidências sugerindo que as ferrovias, e o big business americano de maneira geral, foram significativamente influenciados pelo modelo organizacional militar desenvolvido pelo Departamento de Guerra a partir de 1815.

Conclui com uma breve reflexão sobre as implicações dos seus argumentos para o estudo da relação entre o Estado e o desenvolvimento americano.

Linha Férrea para Oeste

3 thoughts on “Relação entre o Estado e o Desenvolvimento Econômico Americano

  1. Excelente resenha sobre a brilhante tese de Nicholas Trebat. Leitura obrigatória para alunos de Economia que se interessem pela formação da economia norte-americana e o papel que teve o Estado nesse processo, desfazendo as teses do senso comum que pensam se tratar de um exemplo de estado liberal. Parabéns Trebat!!!

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