Jogo de Alianças entre Castas e Golpe contra Domínio Irrestrito

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Decretado o fim do governo social-desenvolvimentista pelos golpistas neoliberais, a resistência democrática passa a ser defensiva na tentativa de evitar a regressão das conquistas de direitos (civis, políticos, sociais e econômicos) do período de mobilidade social. Sendo assim, há o reconhecimento implícito que houve, de fato, algo de novo na sociedade brasileira entre 2003 e 2014. Na verdade, no primeiro ano (2015) do segundo mandato da Presidenta reeleita, democraticamente, quando se adotou o ajuste fiscal neoliberal com tratamento de choque tarifário e sinalização de depressão econômica, a Era Social-desenvolvimentista findou.

Fim da hegemonia de uma casta, seja por crise econômica, seja por guerra ou revolução, ocorre em simultâneo como uma crise ideológica, onde se parte para “mudanças” a qualquer custo. A ordem social desmorona quando o governante passa a acreditar que está fracassando e, sob pressão, adota o programa de adversário, indo contra o ideário de sua base de apoio político-eleitoral.

A Era Social-desenvolvimentista (2003-2014) representou, a la socialdemocracia europeia, a aliança entre a casta de trabalhadores e a de sábios-criativos, com apoio da casta de “comerciantes-brandos”: empresários e financistas com tolerância política e liberalismo cultural. O apoio da casta dos sábios-tecnocratas oscila de acordo com “o governo de plantão”, pois cada administrador técnico concursado, seja do Poder Executivo, seja do Poder Judiciário, sabe que “os governos passam, mas ele fica”. Os valores predominantes, nessa Era, foram solidariedade, coletivismo, regulação e igualitarismo social.

A nova Era Neoliberal em gestação se ergue sobre uma aliança golpista entre as castas dos “comerciantes firmes”, ou seja, empresários nacionais e pequeno-burgueses sob pressão da concorrência internacional que passam a sobrevalorizar disciplina fiscal (corte de gastos e impostos), regras e autoridade, com as castas de governantes oligárquicos (herdeiros de aristocratas e/ou proprietários rurais) e de guerreiros (PF, MP, TCU, etc.). Os valores  culturais divulgados pela grande mídia são livre-mercado, competitividade, meritocracia e individualismo. Os intelectuais direitistas insistem no discurso da competência, eficácia e eficiência dos próprios pares: autoengano somado à validação ilusória…

Os grupos sociais, vistos como castas, não são só organismos que buscam
o interesse próprio e a vantagem econômica. Também constituem encarnações de ideias e estilos de vida, que procuram impor às outras. Quando tentam impor domínio irrestrito de seus valores, as ordens sociais tornam-se menos inclusivas e as alianças das castas excluídas ganham maioria em nova eleição ou partem para o golpe de Estado, seja parlamentarista, seja militar.

Então, se a Dilma representou a presunção arrogante típica dos especialistas da casta dos sábios-tecnocratas, Lula liderou a casta dos trabalhadores com forte espírito comunitário ou corporativista, que excluem “os de fora” em seu culto à personalidade e na indicação política para o aparelhamento do Estado. Porém, a casta dos guerreiros atiça guerras e processos judiciais intermináveis por honra e vingança, e adota discurso de ódio que incentiva a intolerância extremista contra os adversários. E a casta dos mercadores, se deixada livre de regulação, logo provocará a instabilidade econômica e a elevação das desigualdades sociais.

À luz dessa reflexão sociopolítica, leia e avalie o seguinte Editorial do PIG (Valor, 20/05/16) ainda em campanha política para decretar o fim definitivo do PT. Personaliza uma instituição. Fazer autocrítica ou mea culpa deve ser por parte de dirigentes que cometeram o crime de buscar financiar o PT como os demais partidos e não por parte de uma instituição partidária com milhares de militantes e simpatizantes inocentes. Isso também não exclue continuar a fazer a crítica à deslealdade dos adversários, muitos ex-aliados. Introjetar toda a culpa é típico de uma cultura cristã que crê na redenção pelo auto sacrifício.

“Com alguns de seus dirigentes históricos presos ou ameaçados de ir para a cadeia, sob suspeita de roubar recursos da Petrobras, políticos e ex-ministros sob a mira da Polícia Federal, o PT enfrenta uma enorme crise de identidade. Não sairá dela sem uma renovação dos métodos de atuação de sua direção, dos quadros dirigentes e sem diagnóstico realista sobre os motivos que o levaram à decadência quase terminal. Afastada a presidente Dilma Rousseff, o diretório nacional da legenda continua tergiversando sobre os motivos de sua agonia e se recusa a encarar publicamente a parte de responsabilidade do partido em um dos maiores escândalos de corrupção da história.

Após perder o predomínio nas ruas, o partido deverá levar uma sova nas urnas em outubro, da qual a debandada dos atuais prefeitos da legenda dão uma ideia aproximada. Seu desgaste é profundo e foi captado em pesquisa feita entre os eleitores de Dilma pelo “think tank” da legenda, a Fundação Perseu Abramo. Nela o partido é visto como direitista, desmoralizado, desonesto e corrupto (“O Estado de S. Paulo”, 12 de maio). Mais: entre eleitores do PT, 46% defenderam sua extinção.

Único partido de esquerda com ampla base popular construído na história do Brasil, o PT entrou por último na teia de tenebrosas transações que sempre moveu as engrenagens do poder político, mas conseguiu ficar com a auréola de principal responsável pela corrupção sistêmica no país. Seguiu o caminho de organizações semelhantes em outras partes do mundo, embora a rapidez com que abandonou programas e princípios para envolver-se com em ações ilegais chama a atenção – apenas 13 anos.

Enquanto o PT continuou, quando chegou ao poder em 2003, a fazer reverência formal ao ideário da esquerda, seu maior líder, Luiz Inácio Lula da Silva, foi plenamente ortodoxo na política econômica, seguindo linhas básicas do governo de Fernando Henrique, ao qual se opôs tenazmente. A diferença foi a centralidade dada à política social, com resultados positivos importantes na redistribuição de renda, na ampliação do mercado interno e no ideal de igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. As conquistas obtidas ao longo de uma década, porém, estão sob risco, depois que erros de política econômica jogaram o país em uma profunda recessão.

O sucesso econômico dos primeiros quatro anos de Lula no Planalto deixaram em segundo plano o retrocesso político representado pela formação de coalizões sem princípios, incluindo com o que de pior existia na política tradicional. Para manutenção e ampliação dessa base extensa, o partido atravessou as fronteiras legais e enredou- se na corrupção que acabaria por derrubá-lo.

Como boa parte dos líderes carismáticos, Lula não formou sucessores e deixou de lado os políticos que fizeram com ele uma caminhada de três décadas. Na hora de escolher um candidato à Presidência em 2010, optou pela ex- brizolista Dilma Rousseff, que havia ingressado no PT há pouco tempo, quando ele estava perto de chegar ao poder. As correntes majoritárias do partido incensaram mais uma vez a sabedoria infalível do chefe, em um erro de avaliação que se revelaria o maior de Lula e que seria avassalador para o partido.

A análise preliminar do que deu errado pelo Diretório Nacional é digna de burocratas que querem se manter no poder, e nada tem a propor a não ser mais do mesmo, enquanto buscam culpados em outro lugar. Na relação dos conspiradores estão a ameaça “imperialista”, a mídia monopolizada e a direita capitalista. Um dos sinais de que não haverá autocrítica séria é a atribuição do “papel crucial para a escalada golpista” à Lava-Jato. O PT nunca se explicou cabalmente e a fundo sobre evidências amplas crescentes de corrupção e busca de enriquecimento próprio por alguns de seus membros, nem sobre a sinistra linha de continuidade de objetivos entre mensalão e petrolão. É possível que muitos de seus dirigentes acreditem que houve erros pela “causa”, mas se não arrumarem explicações melhores o destino do PT é a cisão, com os remanescentes estacionados em uma legenda que já não se distingue há tempos das demais.

O PT não acabou, Lula é ainda um dos candidatos favoritos em 2018 e a legenda pode se camuflar em uma “frente de esquerda” para tentar voltar ao poder. Mas sem dizer a si próprio, sem subterfúgios, o que deu errado, o PT não tem mais futuro.”

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