Batalha da Praça da Sé ou A Revoada das Galinhas Verdes

integralistas

Lira Neto, no livro “Getúlio 1930-1945 – do Governo Provisório À Ditadura do Estado Novo” (Vol. II, São Paulo; Companhia das Letras, 2012), narra um episódio da História do Brasil cujos detalhes eu desconhecia. Reproduzo-o abaixo, para demonstrar como o despreparo da Polícia Militar – e da sociedade política – era total para lidar com os nascentes movimentos totalitários, seja com inteligência preventiva, seja com repressão não-violenta para evitar confrontos mortais.

“Depois de jurar fidelidade a seu fundador e líder supremo — o jornalista e escritor Plínio Salgado —, milhares de filiados à Associação Integralista Brasileira (AIB) deixaram a sede da entidade, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, e saíram em marcha com suas características camisas verde-musgo pelas ruas do centro de São Paulo, rumo à praça da Sé. Da avenida Paulista até a rua Riachuelo, já nas imediações da catedral, a massa humana se estendia por uma extensão de quase dois quilômetros. Nas bandeiras e flâmulas que os integralistas empunhavam, assim como nas braçadeiras dos respectivos uniformes, distinguia-se a letra grega sigma (∑) grafada em negro, símbolo da organização. O rufar dos tambores e o passo em estilo militar conferiam aspecto marcial ao desfile, efeito reforçado pela saudação do braço direito em riste, variante dos inconfundíveis cumprimentos nazifascistas.

Anauê!”, saudavam-se os integralistas, repetindo a interjeição indígena que, segundo traduziam, significava “Você é meu irmão!”, referência à “grande família dos camisas-verdes”.

Os organizadores da concentração popular da AIB trabalhavam com a expectativa de reunir, naquela tarde, 10 mil associados. A “Marcha dos Dez Mil” representaria uma grande demonstração de força política e de controle do espaço público justamente na data em que se completava o segundo aniversário do “Manifesto de outubro”, documento lançado em 1932 por Plínio Salgado e que propugnava a busca pelo Estado Integral — antítese do estado liberal —, livre de todo e qualquer princípio de divisão, sem partidos políticos, lutas de classes e regionalismos.

“Pretendemos insuflar energia aos moços, arrancá-los da descrença, da apatia, do ceticismo, da tristeza em que vivem; ensinar-lhes a lição da coragem, incutindo-lhes a certeza do valor que cada um tem dentro de si, como filho do Brasil e da América”, dizia o manifesto, redigido em tom ufanista. “Para isso, combateremos os irônicos, os blasés, os desiludidos, os descrentes, porque nesta hora juramos não descansar um instante, enquanto não morrermos ou vencermos, porque conosco morrerá ou vencerá uma Pátria”.

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Desde que o jornal integralista A Offensiva estampara as primeiras convocações para o evento na praça da Sé, esquerdistas dos mais variados matizes idealizaram uma contramanifestação, combinada propositalmente para o mesmo “dia, horário e local. “És amigo da liberdade? Queres que o Brasil marche para a paz e o progresso? Repugna-te o crime e a bandalheira? És amante da arte, da ciência e da filosofia? Pois, então, guerra ao integralismo com todas as tuas energias”, incitava um panfleto da Federação Operária de São Paulo, de orientação anarquista. “Todos os homens de brio devem comparecer à praça da Sé, no dia 7 de outubro, para impedir o desfile dos bárbaros”.

Diante da perspectiva de confronto, os integralistas divulgaram nota oficial para avisar aos adversários que, por medida de precaução, uma “tropa de choque formada por quinhentos homens admiravelmente disciplinados e eficientes”, provenientes das fileiras cariocas da entidade, estaria em São Paulo para “manter a ordem” a qualquer custo. “Integralistas, armai-vos!”, dizia um anúncio da AIB, em mensagem nada subliminar, a pretexto de divulgar o lançamento do livro Brasil, país dos banqueiros, escrito por um de seus ideólogos mais proeminentes, o escritor cearense Gustavo Barroso — ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e antissemita assumido, tradutor para o português de Os protocolos dos sábios de Sião, obra que denunciava um complô mundial organizado pelos judeus para conquistar o mundo.”

[FNC: veja o mal que provoca a ignorância sobre detalhes da História do Brasil: eu não sabia que existia tal livro fascista “Brasil, país dos banqueiros” e publiquei meu livro intitulado “Brasil dos Bancos”. Além da ignorância, há uma sutileza na escolha por mim desse título que narro no final da Introdução do próprio livro.

“Tinha dúvida entre Bancos do Brasil ou Brasil dos Bancos. A conjunção coordenativa “ou”, que serve para ligar as palavras, pode ser lida de diversas maneiras. Uma, indicando alternância ou exclusão, tipo “é uma coisa ou é a outra coisa”. Mas, poderia refletir também dúvida, incerteza, por exemplo, “não sei se os bancos são do país ou se o país é dos bancos”. Alternativamente, ser empregada como ênfase antes de cada termo ou frase da alternativa como fosse, por exemplo: “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!” Enfim, cabe também ser lida como uma conjunção explicativa ou uma outra maneira de dizer algo. Essa é provocação que o título afinal adotado faz ao leitor: ao final da leitura do livro, decifrar seu significado!” Este significado é decifrado pelo leitor que perceberá como o Brasil da era dos bancos se modernizou após o deslanche do processo urbano-industrial e a implantação plena do capitalismo financeiro.

No último capítulo, escrevi sobre a correlação de palavras: “O Brasil dos bancos não pode ser apenas o Brasil dos brancos! Esta talvez seja a grande lição da história bancária brasileira: todo banco que se volta, exclusivamente, ao atendimento da “elite branca” (…) torna sua presença insignificante, para o povo brasileiro, embora o banqueiro possa ser muito bem-sucedido em termos pessoais, principalmente, vendendo seu banco para estrangeiros. Embranquece, enriquece, desaparece… da construção da Nação!”]

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O embate entre esquerdistas e integralistas, previamente anunciado, foi fatal. As primeiras escaramuças ocorreram quando os pelotões dos seguidores de Plínio Salgado adentraram a praça da Sé em fila tripla e desfilaram em frente ao Palacete Santa Helena, prédio de fachada art déco que era um símbolo da moderna arquitetura paulista e abrigava ateliês de artistas plásticos e sedes de vários sindicatos operários.

Morra o fascismo!”, gritou um sindicalista, provocando o princípio de balbúrdia generalizada.

Manifestantes de ambos os lados trocaram socos, safanões e bengaladas. Os cavalarianos da Força Pública, postados estrategicamente nos quatro cantos do logradouro, receberam ordens para entrar em ação. Houve corre-corre e, segundo a versão publicada pelos principais jornais da cidade, um indivíduo em fuga, na tentativa de escapar das patas dos cavalos, teria tropeçado numa metralhadora da polícia colocada sobre um tripé ao lado do oitão da catedral. Ao despencar no solo, a arma começara a disparar sozinha, atingindo três guardas civis, matando um deles de modo instantâneo. O soldado encarregado pela metralhadora pulou então sobre ela e, segurando-a pelo cano, fez com que o resto dos projéteis se perdessem no ar.

O pipocar involuntário da metralha foi como um chamado à luta”, recordaria o jornalista, médico, escritor e militante esquerdista Eduardo Maffei, que em suas memórias do episódio admitiria qual era o alvo preferencial dos contra-manifestantes:

Plínio Salgado deveria morrer”, resumiu.

anti-integralismo

Por isso, mal a metralhadora silenciou, ouviram-se novos tiros. Os contramanifestantes tentavam tomar a praça à força e, mesmo debaixo do fogo aberto, proferiram discursos e gritaram palavras de ordem contra os adversários:

Anauê, Anauê, prepara as pernas pra correr!

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De súbito, uma chuva de balas partiu do alto de um dos prédios situados em torno do logradouro — e desabou sobre a aglomeração de integralistas, que procuravam se abrigar como podiam e, entre uma correria e outra, revidavam com disparos de revólver, embora nem sempre conseguissem identificar a origem exata do ataque.

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Depois de dez ou quinze minutos de tiroteio, houve rápida trégua. Os camisas-verdes se reagruparam então defronte à catedral, tremulando suas bandeiras e cantando hinos cívicos, em sinal de resistência. Mais uma vez, porém, irrompeu a fuzilaria, dessa feita de diversas procedências. O fogo mais pesado, constatou-se, partia das janelas dos edifícios situados na esquina da Barão de Paranapiacaba, da sobreloja da confeitaria A Preferida e do próprio Palacete Santa Helena. Ainda sem visualizar perfeitamente os atiradores, os integralistas responderam mais uma vez com tiros a esmo, disparados contra as fachadas dos três prédios.

Postos no centro do fogo cruzado, os soldados da Força Pública e os milicianos da guarda civil também começaram a atirar, sem alvo definido. “É fácil de se imaginar o quadro dantesco que se estabeleceu na grande praça. Deitados no chão, rastejando, os camisas-verdes atiravam ou fugiam. Populares, apanhados no meio do furacão de balas, também corriam à doida, tropeçando, tombando”, descreveu a Folha da Manhã. “Aqui e ali, caía alguém, ficava rígido ou estrebuchava, nas vazões da agonia”.

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O saldo final da tragédia foi de seis mortos e pelo menos cinquenta feridos. Os detalhes do embate que passaria à história nacional como a “Batalha da Praça da Sé” seriam reconstituídos em diferentes versões, de acordo com a posição ideológica dos narradores. Cada lado em disputa tratou de fazer sua crônica parcial do episódio — e de eleger seus respectivos mártires. “Não houve batalha nenhuma, mas tocaia suja, com os agressores bem protegidos, alvejando do alto das janelas moços inermes e desprevenidos”, denunciou Miguel Reale, então estudante de direito, secretário da AIB e futuro catedrático da Faculdade do Largo São Francisco. [Pai do Miguel Reale Jr., golpista até hoje, quando se aliou a uma advogada direitista e um ex-esquerdista arrependido, para cumprirem o “papel sujo” de retomar os golpes de Estado no Brasil.]

As esquerdas, ao contrário, comemoraram o fato como uma vitória histórica sobre o fascismo e apelidaram o confronto de “A revoada das galinhas verdes”, alusão à correria dos inimigos durante o tiroteio. Muitos, no afã da fuga, despiram as características camisas integralistas e as abandonaram no chão da praça, depois recolhidas como troféus de guerra. O marxista Jornal do Povo, que assim como A Manhã era dirigido pelo Barão de Itararé, abriu foto enorme na primeira página, com cinco colunas de largura debaixo da seguinte manchete: um integralista não corre… voa. Na legenda, lia-se a descrição: “A debandada integralista foi na mais perfeita desordem. Vê-se à esquerda um galinha-verde atrás do poste e, no centro da praça, vários outros acocorados. A retirada dos 10 mil… Salve-se quem puder!”.

Nas hostes integralistas, dois militantes mortos durante o embate, receberam honras póstumas e foram imortalizados como heróis pela AIB. Do lado dos contramanifestantes, um acadêmico de direito de 22 anos, integrante da Juventude Comunista, fulminado por um tiro na nuca, foi transformado em ícone da luta antifascista. Ninguém reivindicou para si, contudo, a memória e os cadáveres dos três guardas civis, tidos como truculentos perseguidores do movimento operário, que morreram no mesmo episódio.”

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