Origem do Conhecimento: Intelectualismo, Apriorismo e Posicionamento Crítico

Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, afirma que racionalismo e empirismo são opostos. Onde existem opostos, porém, geralmente também não faltam tentativas de fazer a mediação entre eles. Uma tentativa de mediação entre racionalismo e empirismo é encontrada na orientação epistemológica que podemos chamar de intelectualismo.

Se para o racionalismo o pensamento é a fonte e o fundamento do conhecimento, e para o empirismo essa fonte e fundamento é a experiência, o intelectualismo considera que ambas participam na formação do conhecimento.

Como o racionalismo, o intelectualismo sustenta a existência de juízos necessários ao pensamento e com validade universal concernentes não apenas aos objetos ideais (isso os principais representantes do empirismo também admitem), mas também aos objetos reais. Mas enquanto o racionalismo considera os elementos desses juízos, os conceitos, como um patrimônio a priori de nossa razão, o intelectualismo deriva esses elementos da experiência.

Como o nome já diz (inrelligere, deinrus legere, ler dentro), segundo o intelectualismo, a consciência cognitiva lê na experiência, retira seus conceitos da experiência.

Porém, o empirista quer dizer que no entendimento, no pensamento, não está contido nada de novo, nada que seja diferente dos dados da experiência. O intelectualismo afirma exatamente o oposto. Para ele, além das representações intuitivas sensíveis, existem também conceitos.

Como conteúdos não-intuitivos da consciência, os conceitos são essencialmente distintos das representações sensíveis, embora mantenham com elas uma relação genética, na medida em que são obtidos a partir dos conteúdos da experiência. Assim, experiência e pensamento constituem conjuntamente o fundamento do conhecimento humano.

Esse ponto de vista foi desenvolvido já na Antiguidade. Seu fundador foi Aristóteles. Com ele, racionalismo e empirismo chegam, de certo modo, a uma síntese.

Johannes Hessen, no livro “Teoria do Conhecimento”, conta que a história da Filosofia apresenta ainda uma segunda tentativa de mediação entre racionalismo e empirismo: o apriorismo.

O apriorismo também considera tanto a experiência quanto o pensamento como fontes do conhecimento. Apesar disso, a determinação das relações entre experiência e pensamento toma, aqui, uma direção diametralmente oposta à do intelectualismo.

Segundo o apriorismo, nosso conhecimento apresenta, como o nome dessa tendência já diz, elementos que são a priori independentes da experiência. Essa também era decerto a opinião do racionalismo. Enquanto este, porém, considerava os fatores a priori como conteúdos, como conceitos completos, esses fatores são, para o apriorismo, de natureza formal. Eles não são conteúdos do conhecimento, mas, formas do conhecimento. Essas formas recebem seu conteúdo da experiência. Aqui, o apriorismo separa-se do racionalismo e aproxima-se do empirismo.

Os fatores apriorísticos assemelham-se, num certo sentido, a recipientes vazios que a experiência vai enchendo com conteúdos concretos. O princípio que governa o apriorismo diz o seguinte: “conceitos sem intuições são vazios; intuições sem conceitos são cegas”.

À primeira vista, essa proposição parece concordar com o axioma fundamental do intelectualismo aristotélico-escolástico. E, de fato, ambos concordam no que diz respeito à existência de um fator racional e de um fator empírico no conhecimento humano.

Mas eles determinam as relações entre esses dois fatores de maneiras muito diferentes. O intelectualismo deriva o fator racional do fator empírico. Todos os conceitos provêm, segundo ele, da experiência.

O apriorismo recusa terminantemente tal derivação. O fator a priori não provém, segundo ele, da experiência, mas do pensamento, da razão. A razão leva, por assim dizer, as formas a priori até o material da experiência e determina, dessa forma, os objetos do conhecimento. O pensamento não se comporta receptiva e passivamente em face da experiência como no intelectualismo, mas espontânea e ativamente.

O fundador desse apriorismo é Kant. Toda sua filosofia foi governada pela tendência a mediar entre o racionalismo de Leibniz e Wolff e o empirismo de Locke e Hume. E ele o fez afirmando que o material do conhecimento provém da experiência, enquanto a forma provém do pensamento.

Se às observações criticas feitas na apresentação do racionalismo e do empirismo quisermos acrescentar, como complemento, um posicionamento de princípio frente às duas orientações, deveremos manter o problema psicológico rigorosamente separado do lógico. Se nos fixamos no primeiro, considerando o racionalismo e o empirismo como respostas à questão sobre a origem psicológica do conhecimento humano, então ambos são falsos.

O empirismo, que deriva da experiência todo o conteúdo do conhecimento e que, portanto, só reconhece os conteúdos intuitivos de consciência, é refutado pelos resultados da moderna Psicologia do Pensamento. A Psicologia tem mostrado que, além dos conteúdos intuitivos de consciência, há outros não-intuitivos e que, além dos conteúdos sensoriais, há outros que são intelectuais.

Ela evidenciou que os conteúdos de pensamento, os conceitos, são algo especificamente distinto das percepções e representações e formam uma classe especial de conteúdos de consciência. Mostrou, além disso, que, mesmo nas percepções mais simples, já está contido um pensamento e que, portanto, não somente a experiência, mas também o pensamento participa da sua produção. Com isso, o empirismo (psicologicamente entendido) é refutado.

Mas o racionalismo também não se sustenta no confronto com a Psicologia. Com efeito, a Psicologia desconhece conceitos inatos ou nascidos de fontes transcendentes. Muito pelo contrário, ela mostra que a formação de conceitos é condicionada pela experiência e que, portanto, o surgimento dos conceitos envolve não apenas o pensamento, mas também a experiência.

Assim, se o racionalismo deriva tudo do pensamento e o empirismo deriva tudo da experiência, devemos contrapor a ambos os resultados da Psicologia que apontam para uma mescla de conteúdos intuitivos e não-intuitivos na consciência, para uma atuação conjunta de fatores racionais e empíricos no conhecimento humano.

Se considerarmos o racionalismo e o empirismo sob o ponto de vista do problema lógico e virmos neles duas soluções para a questão sobre a validade do conhecimento humano, chegaremos a resultados semelhantes. Tampouco agora poderemos dar razão quer ao racionalismo, quer ao empirismo. Mais precisamente deveremos distinguir entre:

  1. o conhecimento das ciências ideais e
  2. o conhecimento das ciências reais.

A própria história dos dois pontos de vista já nos conduz a tal distinção. Vimos que os racionalistas provêm, em sua maioria, da Matemática, uma ciência ideal, ao passo que os empiristas provêm da Ciência da Natureza, uma ciência real. Vimos também que eles estariam cobertos de razão se restringissem suas doutrinas epistemológicas ao campo do conhecimento que cada um tem em mente.

O racionalista ensina que nosso conhecimento tem seu fundamento de valor na razão, que a validade de nossos juízos está assentada no pensamento, ensinamento que se ajusta perfeitamente às ciências ideais. Quando eu considero uma proposição da Lógica (o princípio de contradição, por exemplo) ou da Matemática (por exemplo, a proposição “o todo é maior do que a parte”), não preciso de modo algum consultar a experiência para conhecer sua verdade. Basta comparar os conceitos contidos em cada uma delas para reconhecer a verdade dessas proposições. Essas proposições, portanto, têm uma validade completamente independente da experiência, ou, para utilizar a expressão técnica, são a priori. Leibniz chama-as de verdades de razão.

As coisas passam-se de modo completamente diverso no domínio das ciências reais, isto é, as ciências naturais e as ciências do espírito. No interior desse domínio, vale de fato a tese empirista segundo a qual nosso conhecimento se baseia na experiência, nossos juízos encontram na experiência seu fundamento de verdade.

Evidências mostram que tanto a experiência quanto o pensamento tomam parte na produção do conhecimento. Ora, é exatamente essa a doutrina tanto do intelectualismo quanto do apriorismo. Ambos afirmam que nosso conhecimento apresenta tanto fatores racionais quanto empíricos.

Para nos posicionarmos criticamente no debate entre realismo e idealismo, o idealismo não consegue mostrar que o realismo seja contraditório e, em função disso, inadmissível. Por outro lado, o realismo também não consegue derrotar definitivamente seu adversário. Ele não pode fazer com que prevaleçam razões logicamente necessárias, mas apenas razões prováveis.

Parece, portanto, que o conflito mais geral entre idealismo e realismo não tem como ser resolvido. E é realmente isso o que ocorre se (e na medida em que) lançamos mão apenas de um método racional.

Nem o realismo nem o idealismo deixam-se provar ou refutar por meios puramente racionais. Uma decisão só parece ser possível nesse caso por vias irracionais. O realismo volitivo mostra-nos esta via. Frente ao idealismo, que pretende fazer do homem um ser puramente intelectual, ele destaca o aspecto volitivo e enfatiza que o homem é, antes de mais nada, um ser que quer e que age.

Quando o homem, querendo e se esforçando, encontra resistências, vivencia imediatamente a realidade nessas resistências. Desse modo, nossa convicção acerca da realidade do mundo exterior não se baseia em uma conclusão lógica, mas em uma vivência imediata.

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