O Lugar da Lógica na Filosofia

Desidério Murcho, no livro “O Lugar da Lógica na Filosofia”, afirma haver “uma incompreensão da natureza da Lógica e do seu lugar na filosofia. Este livro procura clarificar e remover algumas incompreensões frequentes acerca de ambas, as quais dificultam o seu ensino e estudo. Não pretende, contudo, ensinar Lógica — para isso há outros livros bons.”

Um professor competente tem de saber muito mais em relação à ementa obrigatória de ensinar em uma disciplina.

  • Só assim pode responder adequadamente aos desafios levantados pelos estudantes.
  • Só assim tem um domínio seguro das matérias mais simples porque lhes conhece os fundamentos e as ramificações.
  • Só assim tem a autonomia intelectual para escolher as matérias importantes e deixar as acessórias.

“A argumentação é um instrumento sem o qual não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os nossos objetivos”.

Quando argumentamos podemos enganar-nos. Podemos argumentar bem ou mal. É por isso que a Lógica é importante. A Lógica permite-nos fazer o seguinte:

  1. Distinguir os argumentos corretos dos incorretos;
  2. Compreender por que razão uns são corretos e outros não; e
  3. Aprender a argumentar corretamente.

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Pós-Modernismo na Universidade

Na coletânea de ensaios e entrevistas “A ideologia da Competência” de Marilena Chaui (organizador André Rocha. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014. Escritos de Marilena Chaui: 3), a filósofa analisa o pós-modernismo. Ele corresponde a uma forma de vida determinada pela insegurança e violência institucionalizada pelo mercado.

Essa forma de vida possui quatro traços principais:

(1) a insegurança, que leva a aplicar recursos no mercado de futuros e de seguros;

(2) a dispersão, que leva a procurar uma autoridade política forte, com perfil despótico;

(3) o medo, que leva ao reforço de antigas instituições, sobretudo a família, e ao retorno das formas místicas e autoritárias ou fundamentalistas de religião;

(4) o sentimento do efêmero e da destruição da memória objetiva dos espaços, levando ao reforço de suportes subjetivos da memória (diários, biografias, fotografias, objetos).

A peculiaridade pós-moderna, isto é, a paixão pelo efêmero e pelas imagens, depende de uma mudança sofrida no setor da circulação das mercadorias e do consumo. De fato, as novas tecnologias deram origem a um tipo novo de publicidade e marketing no qual não se vendem e compram mercadorias, mas os signos delas, isto é, vendem-se e compram-se imagens que, por serem efêmeras, precisam ser substituídas rapidamente. Dessa maneira, o paradigma do consumo é dado pelo mercado da moda, veloz, efêmero e descartável.

Porque é parte da ideologia neoliberal ou da nova forma da acumulação do capital, o pós-modernismo relega à condição de mitos eurocêntricos totalitários os conceitos que fundaram e orientaram a modernidade:

  1. as ideias de racionalidade, universalidade,
  2. o contraponto entre necessidade e contingência,
  3. os problemas da relação entre subjetividade e objetividade,
  4. a história como dotada de sentido imanente,
  5. a diferença entre natureza e cultura, etc.

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Ideologia Neoliberal e Universidade

Na coletânea de ensaios e entrevista “A ideologia da Competência” de Marilena Chaui (organizador André Rocha. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014. Escritos de Marilena Chaui: 3), a filósofa publica outro ensaio sobre a Universidade.

Chauí chama de neoliberalismoa corrente de pensamento nascida de um grupo de economistas, cientistas políticos e filósofos, entre os quais Popper e Lippman. Em 1947, reuniu-se em Mont Saint Pèlerin, na Suíça, à volta do austríaco Hayek e do norte-americano Milton Friedman. Esse grupo opunha-se encarniçadamente ao surgimento do Estado de Bem-Estar de estilo keynesiano e social-democrata e contra a política norte-americana do New Deal.

Navegando contra a corrente das décadas de 1950 e 1960, esse grupo elaborou um detalhado projeto econômico e político no qual atacava o chamado Estado-Providência com seus encargos sociais e com a função de regulador das atividades do mercado, afirmando esse tipo de Estado destruir a liberdade dos cidadãos e a competição, sem as quais não há prosperidade. Essas ideias permaneceram como letra morta até a crise capitalista do início dos anos 1970, quando o capitalismo conheceu, pela primeira vez, um tipo de situação imprevisível, isto é, baixas taxas de crescimento econômico e altas taxas de inflação: a estagflação.

O grupo de Hayek, Friedman e Popper passou a ser ouvido com respeito porque oferecia a suposta explicação para a crise: esta, diziam eles, fora causada pelo “pelo poder excessivo dos sindicatos e dos movimentos operários. Estes haviam pressionado por aumentos salariais e exigido o aumento dos encargos sociais do Estado. Teriam, dessa maneira, destruído os níveis de lucro requeridos pelas empresas e desencadeado os processos inflacionários incontroláveis. Continue reading “Ideologia Neoliberal e Universidade”

Perfil da Universidade

Na coletânea de ensaios e entrevista “A ideologia da Competência” de Marilena Chaui (organizador André Rocha. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014. Escritos de Marilena Chaui: 3), a filósofa examina as ideias norteadoras da reforma do ensino, em geral, e da universidade, em particular.

Percebe três delas nunca terem sido abandonadas nos sucessivos remanejamentos educacionais. Foram sempre mantidas aquelas ideias vinculantes da educação à segurança nacional, ao desenvolvimento econômico nacional e à integração nacional, ou seja, os três pilares sustentáculos da ditadura política em termos ideológicos.

Enquanto a ideia de segurança deixa nítida a dimensão política da escola, sendo frequentemente substituída, nos ensinos fundamental e médio, pelas de civismo e brasilidade, enquanto no ensino superior surge como discussão de problemas brasileiros, as outras duas ideias assinalam a dimensão econômica da educação. Assim, a noção de segurança terá um papel ideológico definido, enquanto as de desenvolvimento econômico e de integração determinarão a forma, o conteúdo, a duração, a quantidade e a qualidadede todo o processo educacional, do primeiro grau à universidade.

Se, outrora, a escola foi o lugar privilegiado para a reprodução da estrutura de classes, das relações de poder e da ideologia dominante, e se, na concepção liberal, a escola superior se distinguia das demais por serum bem cultural das elites dirigentes, hoje, com a reforma do ensino, a educação é encarada como adestramento de mão de obra para o mercado.

Concebida com o capital, é um investimento e, portanto, deve gerar lucro social. Donde a ênfase nos cursos profissionalizantes do ensino médio e nas licenciaturas curtas ou longas em ciências, estudos sociais e comunicação e expressão, no caso das universidades.

Além de evidenciar as determinações econômicas da educação, as ideias de desenvolvimento econômico nacional e de integração nacional possuem uma finalidade ideológica, isto é, legitimar perante a sociedade a concepção do ensino e da escola como capital. Continue reading “Perfil da Universidade”

Universidade Administrada

Na coletânea de ensaios e entrevista “A ideologia da Competência” de Marilena Chaui (organizador André Rocha. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014. Escritos de Marilena Chaui: 3), a filósofa critica também o molde contemporâneo da Universidade. Edito o ensaio abaixo.

Analisando os movimentos estudantis de 1968 na Europa, muitos deles viram o fim da ilusão liberal, amplamente compartilhada pela esquerda, da educação como igual direito de todos e da seleção meritocrática, baseada na aptidão e no talento individuais.

Por imposição econômica se elevou ao aumento do tempo de escolarização. O propósito foi manter boa parte da mão de obra fora do mercado, estabilizando salários e empregos.

Por imposição das transformações na divisão social do trabalho e no processo de trabalho, ampliaram-se os quadros técnico-administrativos.

Então, a universidade europeia “se democratizou”, abrindo suas portas para um número crescente de alunos que anteriormente teriam completado a escolaridade no liceu. Essa “democratização” acionou um conjunto de contradições que jaziam implícitas e vieram à tona em 1968. Continue reading “Universidade Administrada”

Ideologia da Competência

Marilena Chaui teve seu clássico ensaio “A ideologia da competência”, publicado na coletânea também sob o mesmo título (organizador: André Rocha. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014. Escritos de Marilena Chaui: 3). Trata-se de uma versão revista e ampliada do texto originalmente publicado em: O que é ideologia (São Paulo: Editora Brasiliense, 1981). Edito-o em seguida.

A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) indicadores aos membros de uma sociedade de:

  1. o que devem pensar e como devem pensar,
  2. o que devem valorizar e como devem valorizar,
  3. o que devem sentir e como devem sentir,
  4. o que devem fazer e como devem fazer.

Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador. Sua função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes a partir das divisões na esfera da produção econômica.

Pelo contrário, a função da ideologia é ocultar:

  1. a divisão social das classes,
  2. a exploração econômica,
  3. a dominação política e
  4. a exclusão cultural.

A ideologia oferece aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, fundada em referenciais identificadores, como a Humanidade, a Liberdade, a Justiça, a Igualdade, a Nação. Como salienta Marx, o primeiro a analisar o fenômeno ideológico, a ideologia é a difusão para o todo da sociedade das ideias e dos valores da classe dominante como se tais ideias e valores fossem universais e aceitos como tais por todas as classes. Continue reading “Ideologia da Competência”

Democracia, Populismo e Nacionalismo

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”, diz a ideia mestra da democracia é ela constituir uma espécie de autogestão coletiva– o tal do governo do povo, para o povo e pelo povo.

“Não se pode, por outro lado, desprezar os riscos de um entrosamento muito profundo entre governantes e a população. O mais óbvio é o populismo, no qual se sacrificam objetivos de longo prazo em troca de aprovações momentâneas, geralmente programadas para coincidir com eleições. Embarcar nesse tipo de lógica compromete a racionalidade econômica de um governo, que se torna incapaz de definir prioridades e passa a perseguir metas inconciliáveis, gerando pequenos e grandes desastres.

Isso significa que a democracia é uma miragem? A pergunta é capciosa.”

Hélio Schwartsman pensa ela funcionar, mas não porque maiorias sejam portadoras da verdade. A democracia vem dando certo porque consegue canalizar os conflitos sociais para formas não violentas de disputa. Tem ainda o dom de fazer com as visões mais extremadas do espectro político se anularem pelo voto, deixando a decisão para os setores moderados. [Esta hipótese sem comprovação por evidências talvez seja falsa.] Ela também transforma a sociedade em um grande experimento cujos atores podem aprender com seus erros.”

Percebe-se também em Hélio Schwartsman a expressão do atávico medo da elite intelectual paulistana em relação ao chamado por ela de “populismo”. O argumento esnobe contra qualquer coisa favorável ao povo é clássico na retórica reacionária. Continue reading “Democracia, Populismo e Nacionalismo”