BNDES sucateado, Mercado de Capitais em espera da explosão da “Bolha”… e Governo inerte

Com todos os tropeços dos cenários macroeconômico, fiscal, político e institucional do país, nos últimos anos, o mercado de capitais mostrou resistência em se deslanchar. Houve lançamentos maiores de debêntures pela tendência de queda dos juros até 2019, mas como crash em março de 2020 com marcação-a-mercado secundário fez os Fundos de Crédito Privado “micarem”. Com Grande Depressão e queda de arrecadação fiscal, a divisão política impede a pauta econômica neoliberal avançar.

Se não bastasse tudo isso, uma pandemia global, as emissões de ações primárias, quando as empresas pegam dinheiro para investir nos projetos, só atingiram R$ 65,5 bilhões no ano passado. Essa cifra, somada a outros R$ 52,3 bilhões em ofertas secundárias, para o bolso de quem vendeu, resultou no melhor ano do histórico para as ofertas públicas de ações.

Esses dados retratam apenas o quanto as empresas obtiveram com a emissão de ações. Outros cerca de R$ 250 bilhões foram captados com operações de dívida, por diferentes títulos de renda fixa.

Os números de desembolsos do BNDES em todo o ano não são ainda conhecidos, mas o ritmo visto até setembro de 2020 já sinaliza o volume ficar próximo do nível dos últimos dois anos. Muito mais modestos face aos altos valores vistos no início da década passada (ver gráfico acima).

Para fins de comparação, o coordenador do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec – Fipe), Carlos Antonio Rocca, calculou os montantes todos para os 12 meses encerrados em setembro. Neste retrato, é possível observar que só a captação primária por meio de ações já praticamente se iguala aos montantes desembolsados pelo banco de fomento. É um marco.

Todas as mudanças de direcionamento pelas quais o BNDES vem passando desde o fim da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e os subsídios que esta embutia certamente influenciaram de maneira importante esse cenário. Mas não resta dúvida de a taxa básica de juro em níveis antes inimagináveis foi a grande protagonista da recente euforia no mercado de ações.

Sem poder mais se fiar no conforto de juros de dois dígitos, ou próximos disso, nos títulos públicos federais, o investidor foi maciçamente para a renda variável, elevando o número de CPFs na bolsa de cerca de 800 mil em 2018 para os atuais 3,2 milhões. Mesmo as fortes quedas impostas pelos temores com o início da pandemia não afastaram as pessoas físicas.

Esse cenário sugere que existe recurso disponível para financiar o investimento produtivo no país. Ainda assim, a taxa de investimento, que despencou no nível dos 20% do PIB no fim de 2013 para cerca de 15% em fins de 2017 tenta uma malsucedida reação desde então e continua em pífios 16% ao longo dos trimestres. É possível que seja necessário mais tempo para que se note os efeitos da expansão do mercado de capitais. Há quem acredite que para estimular de fato a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) ainda é preciso mobilizar o investimento público e uma política que envolva incentivo e BNDES.

De toda forma, nesse novo desenho, o banco deve cumprir um papel importante, lembra Rocca, do Cemec, que é o de financiar aquelas empresas que não conseguem acessar o mercado, em geral as micro e pequenas. Os diretores do banco ressaltaram o nível de desembolso não ser um indicador único, mas há também o público atingido e o papel social que o banco pretende cumprir. O BNDES tem sido ativo no mercado de capitais por meio da venda intensa de participações e das discussões de questões de governança.

Os recursos captados no mercado e no banco parecem ter sido destinados a aquisições e ao financiamento de dívidas e capital de giro. Poucos discordam de as incertezas e tropeços têm atrapalhado muito a volta do investimento em projetos de mais longo prazo.

Se as perspectivas para o mercado de capitais não devem mudar neste ano, aqui o governo não parece se esforçar também para remover as incertezas a travarem o investimento. Há espécie de sina ao qual o país parece se apegar, fazendo tudo errado em momento com o cenário interno e externo já tão negativo.

Há muito dinheiro disponível buscando ativos pelo mundo — e inflação de ativos. Por aqui, há cenários distintos para a atividade, mas mesmo no quadro mais otimista para o PIB deste ano, o nível para o qual a Selic poderia ir ainda não seria suficiente para desestimular o investimento em bolsa.

Um estudo feito pelo Credit Suisse com ações de empresas que fizeram IPOs (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações) entre 2012 e 2020 mostra que esses papéis têm gerado bons retornos para o investidor no longo prazo.

Olhando a performance média da safra dos papéis que vieram a mercado em cada um desses anos até dezembro de 2020, apenas em 2015 o resultado ficou negativo, em 27%. Naquele ano, houve apenas um IPO, da Par Corretora, hoje WIZ.

Os melhores desempenhos foram nas safras de 2012, com alta de 208% dos papéis; e de 2018, com valorização de 299%. Em 2012 chegaram à bolsa Unicasa, BTG Pactual e Locamerica. Esta última empresa hoje é a Unidas, com papel que acumula a maior valorização desde o IPO, 825%. A performance positiva também é puxada pelas ações do BTG, que valorizam 165%.

Em 2018, foram seis operações, com destaque para Notre Dame Intermédica (353%), Hapvida (226%) e Banco Inter (763%).

O período englobado pelo estudo do Credit Suisse soma R$ 150 bilhões distribuídos em 87 operações – estão incluídos 9 ofertas feitas por empresas brasileiras em bolsas americanas e 15 “re-IPOs”, operações em que as empresas já eram listadas, mas ganharam mais liquidez e atenção dos investidores após uma nova venda de ações. Conforme a amostra, 20 empresas têm alta acima de 50%, e apenas 3 foram deslistadas: Biotoscana, CPFL Renováveis e Netshoes.

No período estudado, o volume mais expressivo de ofertas está em 2020, com 34 operações. Elas giraram R$ 48,6 bilhões, ou seja, 2020 respondeu pelo mesmo número de operações dos três anos anteriores somados, embora o volume financeiro entre 2017 a 2019 tenha sido 43% maior. No ano passado, o tamanho médio das ofertas foi de R$ 1,43 bilhão, menor desde 2016.

Rede D’Or fez um dos maiores IPOs do país. Movimentou R$ 11,39 bilhões e contou com 55% da demanda do investidor local. A maior oferta desse intervalo foi BB Seguridade, em 2013, de R$ 11,475 bilhões, sendo 58% dos papéis adquiridos por estrangeiros.

No passado, sempre quando havia uma apresentação sobre novo projeto nas empresas, sabia-se de cor qual a primeira linha do primeiro slide: “Tomar 85% dos recursos no BNDES”. “Estamos vendo uma modificação desse cenário, por conta do fortalecimento do mercado de capitais”, diz um iludido, tipo “me engana que eu gosto”.

A política de desinvestimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) faz parte de um “redirecionamento estratégico” neoliberal terá continuidade, depois da derrota eleitoral do capitão no próximo ano?! As vendas de ações realizadas em 2020 tiveram lucro contábil e contribuíram para o resultado positivo do banco até o terceiro trimestre. O mesmo cenário deve se repetir nos últimos três meses do ano passado por causa da venda de ações da Suzano, disse a diretora de finanças do banco. Os neoliberais só vão para o governo com a finalidade de vender patrimônio público para os ex-parceiros e destruir o Estado brasileiro!

“A carteira do BNDES era muito concentrada, com 90% dos recursos aplicados em cinco empresas, sendo três delas estatais. Na última operação de grande porte, o BNDES levantou R$ 6,91 bilhões após a venda de ações da Suzano, em outubro.

O processo decisório de redução da carteira de participações é longo. Nenhum banco de desenvolvimento do mundo tem uma carteira de ações como a do BNDES.

Os desembolsos do banco, por sua vez, devem ficar em linha em 2021 com os do ano passado. Em 2020 o valor superou R$ 60 bilhões, com uma demanda maior no contexto da crise. Desde a introdução da TLP [Taxa de Longo Prazo] há uma tendência de desaceleração maior de contratações .

Sem a aguardada retomada econômica, a expectativa seria o BNDES continuar a ter um “importante papel contracíclico no mercado”. A instituição encerrou 2020 com a maior parte das medidas emergenciais implementadas, com impacto acima de R$ 150 bilhões.

Há expectativa de retomada de discussão de valores a serem devolvidos antecipadamente ao Tesouro em 2021. A decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), de estabelecer cronograma de devoluções, oferece mais transparência e previsibilidade para o mercado.

Houve uma liquidação antecipada na casa de R$ 100 bilhões em 2019. Em 2020, em função do período de crise, se negociou interrupção desse processo e já havia expectativa de retomada de uma discussão de valor a ser devolvido em 2021. Serão considerados fatores como liquidez do banco e desembolsos futuros. Os neoliberais correm para sucatear o BNDES antes da bolha dos mercados de ativo explodir em crise sistêmica mundial!

As sequências impressionantes de altas nos preços das ações e as especulações desenfreadas de investidores amadores se aventurando no mercado estão deixando os investidores veteranos preocupações com uma bolha de ativos, destacadamente ao inflar cotações sem justificativas em bons fundamentos micro, setoriais e macros. Poderá superar tudo o que foi visto no último século XX!

Após uma recuperação dramática do crash provocado pelo coronavírus em março do ano passado, os principais índices de ações derrubaram uma série de recordes nos primeiros dias de 2021. O bitcoin, a mais especulativa de todas as apostas, atingiu novos patamares. Ações populares como as da Tesla continuam desafiando os esforços de uma avaliação sóbria.

Os investidores estão com a impressão errada de o risco “simplesmente ter desaparecido” do mercado, comparando-os a sapos que lentamente estão sendo atraídos para a fervura. O rali ocorre desde 2009 como uma “bolha épica” caracterizada pela “sobrevalorização extrema”.

Gestores de fundos estão sob alerta para uma possível retirada. Calcular o fim dessa bolha é difícil. Ela pode durar mais do que se pensa. Os especuladores tendem a ficar mais cautelosos, mesmo com juros zerados.

Mas com os mercados surfando uma onda sem precedentes de apoio monetário e fiscal, os rendimentos dos bônus estão perto de patamares recorde de baixa e os investidores – tanto institucionais como de varejo – estão com muito dinheiro, aproveitando padrões grotescos nas ações que poderão persistir por algum tempo.

Há uma lista de indicadores de bolha, colocando o rali das ações com “potencial de crescimento” nos EUA no mesmo contexto do ciclo de altas e quedas das ações japonesas na década de 80, da alta e queda mais abrupta das ações pontocom no fim da década de 90 e das ações de commodities na primeira década dos anos 2000.

As características comuns incluem juros baixos, avaliações das ações que superam as expectativas de lucros, participação desenfreada de pequenos investidores e acelerações rápidas nos ganhos com ações. Em todos esses pontos, as atuais condições de mercado parecem alarmantes. A ASR observa que mais de 10% das ações do índice Standard & Poor’s 500 (S&P 500) estão 40% ou mais acima de suas medidas dos últimos 200 dias – um fenômeno visto apenas quatro vezes nos últimos 35 anos.

Os ralis podem muito bem estar apenas começando, se as taxas de juros permanecerem baixas e os gestores de fundos sentirem pressão para “subir nesse trem”. Há um risco à carreira no medo de perder uma oportunidade. As pessoas auto iludem e acham uma maneira de racionalizar qualquer bolha. Elas precisam se explicar para um diretor de investimentos ou para um comitê de investimentos, porque ficaram para trás.

Alguns apontam para a explosão de negócios por investidores amadores e inexperientes como uma preocupação especial. Esses investidores, vistos como “mãos fracas” descuidadas por gestores profissionais, além de intolerantes a perdas e rápido demais na desistência de apostas, estão em ascensão depois que as quarentenas impostas pela covid-19 os encorajaram a partir para os negócios isentos de comissões oferecidos por startups como Robinhood.

Nos EUA, os americanos estão se voltando para as ações porque os cassinos estão fechados e muitos esportes estão paralisados. Grande parte dos investimentos dessas pessoas estão em ações de “hipercrescimento” [potencial muito grande de alta] como as de fabricantes de veículos elétricos. Não há teto de avaliação para essas empresas.

Mas mesmo com todos esses sinais de alerta os investidores ensaiam uma fuga das ações. Em parte isso ocorre porque a alta dos negócios da parte dos pequenos investidores pode ser menos problemático do que parece. Ao contrário de episódios anteriores de exuberância de negócios por pequenos investidores, analistas e gestores de fundos suspeitam a atual onda pode ser mais robusta e menos propensa a causar grandes perdas para as famílias.

É importante lembrar como os pequenos investidores estão financiando essas compras. Há uma diferença com a bolha de 2015 na China, onde um aumento do financiamento de margens levou à disparada das ações, antes de um crash brutal.

Agora, as poupanças das famílias estão elevadas. As pessoas desenvolveram caixa. A situação não parece ser uma bolha, mas é… Há muitas ações caras para sofrer uma correção.

Os investidores profissionais não estão demonstrando a mesma atitude entusiasmada com a tomada de riscos: em vez disso, continuam sendo precavidos contra o risco de um revés do mercado. O índice de volatilidade Vix, um reflexo do “hedging” (proteção) contra grandes oscilações, encontra-se acima dos 23 pontos, comparado a uma média de longo prazo de pouco menos de 20. No começo de 2020, o índice estava em 14 pontos.

O fato de as pessoas ainda estarem nervosas o suficiente com a volatilidade futura sugere elas não estão ainda exaustas. As semelhanças com sacudidas anteriores do mercado são grandes. Pode haver uma retirada hoje inimaginável do apoio dos bancos centrais, ou um estouro da inflação capaz de abalar os mercados de bônus. Na realidade, muitos investidores concordam ser difícil imaginar o que poderia causar uma grande reversão dos ativos.

Os clarins da bolha não estão reconhecendo os motivos de as ações estarem tão caras. Em 2021 os mercados vão subir porque os lucros vão aumentar e o excesso de liquidez continua em alta. Estamos em crescimento estrutural do capital por causa do aumento da taxa de poupança e, além disso, por causa do afrouxamento quantitativo. Nunca tivemos isso antes. Levará pelo menos uma década para isso se desfazer?!

Enquanto tudo isso acontece, o governo neoliberal fica inerte, apenas torcendo pela completa destruição do Estado, quando terá dada como cumprida sua missão ideológica…

1 thought on “BNDES sucateado, Mercado de Capitais em espera da explosão da “Bolha”… e Governo inerte

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Nada a se opor ao mercado de capitais. Mas se o Brasil dispõe, além de recursos orçamentários para investimentos (menores que 0,5% do PIB), de Bancos públicos que podem financiar empreendimentos de infraestrutura e produção de interesse nacional, por que sacar dinheiro deles para fechar as contas públicas, em que somente o dispêndio com juros e amortizações é ilimitado?
    Seria o caso de o governo capitalizar o BNDES, não o contrário. Mas parece preferir atrelar o Brasil à boa vontade do capital de fora, com poucas chances de sucesso no médio prazo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s