Queda do Spread, Elevação do Endividamento Familiar e Queda do Poder Aquisitivo: Configuração Conjuntural

A margem cobrada pelos bancos nas operações de crédito recuou, em maio deste ano, ao menor patamar para o mês desde 2013. O chamado spread bancário médio, diferença entre a taxa praticada pelas instituições financeiras nas concessões de empréstimos e a taxa de captação de recursos, ficou em 14,5 pontos percentuais no dado mais recente, refletindo uma combinação entre fatores estruturais e outros mais ligados à pandemia.

O Banco Central (BC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) veem avanços em alguns itens componentes do spread. No entanto, parte da queda é explicada por medidas temporárias – no ano passado, foram criadas linhas emergenciais, com taxas subsidiadas pelo Tesouro Nacional, para ajudar as empresas a enfrentar a crise da covid-19. Portanto, o fim dessas operações e o ciclo de alta da Selic tendem a pressionar o spread novamente para cima, segundo economistas.

O “efeito benigno” gerado pela aprovação do cadastro positivo – histórico financeiro de pessoas físicas e jurídicas, como atrasos ou não pagamento de empréstimos e contas. Com base nessas informações, os clientes ganham notas, nas quais as instituições financeiras se apoiam para decidir quanto cobrar pelo crédito.

Houve também a contração “significativa” da inadimplência nos últimos anos. O Mercado atingiu um grau maior de “maturidade” e houve uma melhoria na qualidade do crédito, “com maior predominância de linhas mais seguras e de mais longo prazo”.

Em maio de 2013, o spread estava em 13,8 pontos percentuais, número inferior ao de maio deste ano. Naquele momento, a então presidente Dilma Rousseff (PT) havia determinado aos bancos públicos baixarem as taxas cobradas dos tomadores de empréstimos, diminuindo assim a margem média. Mas a medida não foi sustentável por causa da elevação do custo de captação com o aumento da Selic, devido à quebra de oferta e inflação de alimentos. Nos anos seguintes, tanto os juros quanto o spread subiram novamente.

No acumulado de 12 meses até maio deste ano, o spread médio acumula queda de 2,1 ponto percentual. Em relação ao pico registrado em maio de 2016, o recuo é de 7,8 pontos percentuais.

O BC também cita os efeitos do cadastro positivo para explicar a queda da diferença entre as taxas. De acordo com números divulgados no último Relatório de Economia Bancária (REB), no caso do crédito pessoal não consignado o spread caiu em média 10,4% na comparação entre os usuários que tinham pontuação no cadastro positivo e aqueles que não tinham. No caso dos tomadores que tiveram melhora em sua nota no período, o recuo foi ainda maior, de 15,9%. O intervalo considerado nas comparações é de agosto a dezembro de 2020.

Lei aprovada em 2019 estabeleceu a inclusão automática dos dados dos clientes bancários no cadastro positivo. Se quiserem retirar esses dados, empresas e pessoas físicas precisam solicitar formalmente.

Até então, o sistema funcionava de forma oposta: os tomadores de empréstimos precisavam pedir para ser incluídos no cadastro. A mudança foi defendida pelo BC na ocasião justamente como maneira de diminuir os spreads bancários.

Houve também o impacto de ações adotadas pelo Ministério da Economia e pelo BC no ano passado. Entre elas, estão linhas de crédito direcionado, com taxas de juros mais baixas; repactuação de operações e concessão de carência, o que levou a inadimplência para mínimas históricas, na casa dos 2,1%. Há muito efeito das medidas contracíclicas influenciando os dados.

Movimentos na taxa básica não necessariamente afetam o spread. No entanto, pode haver contágio por duas razões.

Primeira, a alta na Selic eleva também o custo de captação dos bancos. Se estes aproveitam para aumentar os juros na ponta e proporção maior que a elevação da taxa básica, o spread aumenta.

A segunda forma é indireta: se a elevação da Selic “esfria” a recuperação da atividade econômica, pode levar a uma piora da inadimplência. Este é um dos componentes do spread. A alta da Selic pode assim ter impacto no spread, caso a inadimplência suba por causa do aperto monetário.

O novo ciclo de alta dos juros no país acende um alerta para os possíveis impactos sobre o orçamento das famílias brasileiras, cujo comprometimento da renda com dívidas encontra-se em níveis recordes. Para alguns economistas, a combinação pode trazer um freio ao consumo e um foco maior em honrar compromissos já contratados.

Outros ponderam: mesmo com a trajetória da Selic ascendente, o patamar alcançado seria historicamente baixo para o Brasil, afastando grandes preocupações em relação à inadimplência.

O longo período de afrouxamento na política monetária pelo Banco Central, levando a Selic de 14,25% ao ano em meados de 2016 para 2% no início de 2021, foi acompanhado por redução significativa das taxas de juros médias em operações de crédito ao consumidor (de 42% ao ano para 23%) e aumento do endividamento nos lares (de 25% do PIB para 30%). 

Como percentual da renda anual das famílias o estoque de endividamento passou de 44,3% em abril de 2017 para 58% em março deste ano, segundo dados do BC. Já o comprometimento da renda mensal com o serviço da dívida foi de 26,6% em janeiro de 2018 para 30,4% em março de 2021.

O aumento do endividamento foi maior do que o do comprometimento da renda ao longo dos últimos anos por causa da redução dos juros no período e do alongamento do prazo de pagamento dos empréstimos, principalmente devido ao avanço do crédito imobiliário. A expansão do endividamento, porém, tem limites.

Há esse indicativo de que o comprometimento de renda varia em um intervalo estreito e chegamos a uma máxima. Quanto uma família pode comprometer com pagamento de dívidas? Não dá para ser 50%…

O recém iniciado ciclo de alta da Selic deve chegar a algo a 7,5% até o fim do ano. Poderá adicionar impacto relevante a esse cenário. Apesar de ser, para o Brasil, uma taxa historicamente baixa, irá resultar em aumento das taxas de juros ao consumidor em momento de elevado endividamento.

As famílias terão, então, de ajustar o orçamento doméstico para reduzir a fatia da renda comprometida. Elas devem reduzir gastos, optar por pagar dívidas e evitar contrair novo endividamento.

O reflexo tende a ser uma redução no consumo das famílias. Mas não dá para afirmar se vai significar queda da demanda agregada total e do PIB.

O nível de comprometimento de renda das famílias está “relativamente controlado”. Pelo indicador da Tendências, que considera a massa do trabalho habitual e inclui também o saldo de cartão de crédito sem juros, o comprometimento das famílias com dívidas avançou 1,3 ponto percentual em abril, ante igual mês de 2020, para 22,9%. Já o endividamento subiu 5 pontos percentuais, para 48,2%.

Não tem nada muito explosivo até por causa dos próprios juros. O cenário é de elevação, mas não para aqueles níveis máximos anteriores. Há ainda medidas recentes que contribuem para aumentar a competição bancária, como o Pix.

A pressão sobre o comprometimento das famílias com dívidas acompanha um cenário mais fraco da massa de renda ampliada. Sentiu a ausência do auxílio emergencial no primeiro trimestre -, aumento dos juros, spreads bancários (diferença entre o custo de captação e empréstimo) anteciparam a alta da Selic, bem como a expansão do crédito às famílias.

Esse crédito continua crescendo, inclusive, com aumento de modalidades emergenciais, como cheque especial e cartão de crédito rotativo. Eles têm juros mais altos e pressionam ainda mais o comprometimento de renda.

Surgem alguns pontos de incerteza. A esticada na inflação, por exemplo, também faz as famílias recorrerem mais ao “crédito emergencial”. Pode limitar um pouco o consumo, mas não de forma a frear o crescimento. A Tendências projeta o comprometimento de renda médio das famílias subir 0,8 ponto percentual neste ano, ante a média de 2020, para 22,7%.

A evolução da atividade parece um indicador mais relevante para a trajetória de endividamento das famílias em vez do ciclo de alta dos juros. Entre 2004 e 2012, tínhamos uma taxa real de juros bem elevada e mesmo assim o endividamento cresceu. O mais complicado, na verdade, é uma recuperação lenta do emprego.

Se a Selic for a 7,25% ao ano, seria um patamar baixo para o padrão histórico. O que será importante acompanhar são os spreads bancários. O BC atuou muito nos últimos anos para diminuir o spread bancário. Ele caiu e está estável nesse momento.

Não há sinais de grande piora na inadimplência. A fatia de 30% no comprometimento de renda das famílias é o limite considerado saudável. Se começar a apontar para cima, preocupa, mas no momento não existe essa indicação. 

1 thought on “Queda do Spread, Elevação do Endividamento Familiar e Queda do Poder Aquisitivo: Configuração Conjuntural

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Mesmo com a queda do spread bancário, motivada também pelas medidas contracíclicas à crise pandêmica, um em cada sete reais da poupança popular depositada nos bancos é absorvida pelo rentismo improdutivo.
    Não obstante o recuo das margens no negócio de intermediação financeira, o aumento de quase 30% de famílias endividadas – de 44% a 58% – cria uma base maior para uma taxa ligeiramente menor, explicando os fabulosos resultados bancários em meio a uma crise que custos ao Brasil centenas de milhares de vidas e milhões de postos de trabalho.

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