O Terceiro Chimpanzé: A Evolução e o Futuro do Ser Humano I

O biogeógrafo norte-americano, Jared Diamond, busca padrões na história humana. O pesquisador da Universidade da Califórnia em Los Angeles deseja transformar a história humana em ciência com apoio da biologia evolutiva, da linguística e da arqueologia.

Em seu extraordinário livroArmas, Germes e Aços: Os Destinos das Sociedades Humanas” (Editora Record, 2001, original de 1997), ele faz inventário dos fatores de civilizações “vencedoras”, “colonizadoras” ou “dominadoras”. Em síntese ligeira, seria o ambiente, tanto ecológico (território vasto, biodiversidade e menor variação climática), quanto o cultural, e não uma suposta superioridade racial. O pastoreio, que possibilitou a domesticação de uns poucos animais, dotou esses povos de anti-corpos contra germes que outras sociedades, por exemplo, os nativos das Américas, não possuíam. O avanço científico propiciou armas e aço.

O biogeógrafo se voltou para as raízes do declínio de civilizações “perdedoras” em seu grande livroColapso”, publicado em 2005. Trata das grandes civilizações que desapareceram por causa de desastres ambientais causados por elas mesmas. É risco que se aproxima cada vez mais do mundo moderno, caso nada seja feito. Dessa forma, a arqueologia é a forma de aprender sobre desastres ecológicos e de tentar evitá-los no futuro.

Há 10 mil anos, o sucesso dependia de ter plantas e animais selvagens em seu território que pudessem ser domesticados. O Iraque, por exemplo, se tornou o líder mundial em agricultura, escrita e tecnologia. Lá era o local onde viviam os ancestrais selvagens do trigo, das vacas, das ovelhas e das cabras. Ele e muitos outros países entraram em declínio por causa de danos ambientais. Hoje, o Iraque é área frágil, na agropecuária, porque houve muitos danos ao ambiente por causa da derrubada de florestas e também por causa da salinização. Por outro lado, a globalização, baseada na energia do petróleo o transformou em centro de disputa territorial.

A argumentação de “Armas, Germes e Aço” em termos dos eixos continentais e do número de espécies domesticáveis explica o desenvolvimento em grandes áreas continentais. Em áreas menores, os fatores culturais e as escolhas dos indivíduos se tornam importantes. As histórias da América do Norte e da América do Sul se desenrolaram de maneira diferente. Há tanto razões geográficas quanto razões culturais. São razões culturais, por exemplo, o fato que a América do Sul foi colonizada por monarquias absolutistas de Portugal e da Espanha, não por refugiados religiosos da Inglaterra.

Mas, geograficamente, a América do Norte é diferente da América do Sul. A América do Sul inclui enormes áreas tropicais, e a América do Norte não. A América do Norte é continente maior inserido na zona temperada. Logo, parte da explicação é o clima: as áreas da zona temperada são mais produtivas para a agricultura e têm menos problemas com doenças. Isso sugere que a geografia é importante mesmo em escala menor.

Em seu livro, “O Terceiro Chimpanzé” (original de 1992, mas publicado em 2010 no Brasil), a meu ver bom, mas inferior aos dois outros, Diamond faz descrição das extinções em massa causadas pelo homem no fim da Era do Gelo. Ele chama de “ato de insensatez suicida” as espécies inteligentes tentar primeiro o caminho do conflito.

Por exemplo,  a espécie extremamente inteligente, Homo sapiens, massacrou outros membros de sua própria espécie, quando os ingleses chegaram à América do Norte e quando os portugueses chegaram ao Brasil. Em vez de procurar os nativos americanos e negociarem, eles os exterminaram, infectaram e tomaram suas terras. Fizeram o que ainda estamos fazendo com macacos, chimpanzés e outros seres humanos.

É possível transformar a história em algo que seja, em média, uma ciência preditiva? Diamond diz “em média”, porque as pessoas dizem, de forma bastante correta, que ninguém jamais será capaz de prever a história. Isso é verdadeiro, porque o que uma pessoa faz pode fazer a diferença e é difícil de prever. O que ele acha possível de prever em geral é que países do Terceiro Mundo podem ver o que acontece no Primeiro Mundo e decidir: querem isso para si? Eles tentarão consegui-lo com seus habitantes emigrando para os países do Primeiro Mundo? Tentando construir pacificamente suas economias? Ou tentando construí-las de maneira bélica, por exemplo, se voltando para o terrorismo? Na média, Diamond acha que se pode predizer algum tipo de grande padrão.

Sentimos necessidade intelectual de compreender de onde viemos e para onde vamos. Todas as sociedades humanas tem profunda curiosidade de entender suas origens e respondem a esse desejo com a sua própria história da Criação, desde a explicação bíblica de Adão e Eva, que religiosamente satisfaz à maioria da população cristã, até a Lenda dos Três Chimpanzés. Esta é a história científica da nossa era.

Ela deixa claro em que lugar nos situamos no reino animal. Somos primatas, o grupo de mamíferos que inclui os macacos e os primatas antropoides: gibões, orangotangos, gorilas e chimpanzés. Somos mais similares a estes do que a aqueles, confinados aos Sudeste Asiático. Os gorilas e chimpanzés existentes e os fósseis humanos estão confinados à África.

O DNA resolveu problema no qual a anatomia falhou: as relações entre humanos, gorilas e chimpanzés. Os humanos diferem dos chimpanzés comuns e dos pigmeus em cerca de 1,6% do nosso DNA, portanto, compartilham 98,4%. Os gorilas diferem um pouco mais de nós, em cerca de 2,3%. Logo, devem ter divergido da nossa árvore genealógica antes de nos separarmos dos chimpanzés comuns e dos pigmeus. Os nossos parentes mais próximos são os chimpanzés, não os gorilas.

A capacidade de falar, que os humanos tem, mas não os chimpanzés, certamente depende de diferenças nos genes que especificam a anatomia das cordas vocais e as conexões cerebrais. Entretanto, as diferenças comportamentais entre um humano e outro estão sujeitas a enormes influências ambientais, e o papel dos genes nestas diferenças individuais é muito controverso.

Uma distinção fundamental entre os animais, inclusive os primatas antropoides, e os humanos se pauta pelo nosso código de ética e as nossas ações. Ele faz uma distinção absolutamente arbitrária entre os humanos e todas as demais espécies. Diferentes restrições éticas deveriam se aplicar às pesquisas com diferentes espécies. As necessidades de pesquisa não tem sido a única ameaça às populações de chimpanzés selvagens. A destruição do hábitat e a captura para zoológicos também representam grandes ameaças.

O Grande Salto Para a Frente na Europa, com o aparecimento de gente anatomicamente moderna que trouxe arte e instrumentos, comércio e progresso, provavelmente, resultou de salto similar, ocorrido antes no Oriente Próximo e na África ao longo de algumas dezenas de milhares de anos. Contudo, mesmo algumas dezenas de milênios são uma porção insignificante (menos de 1%) da nossa longa história separada da história dos primatas antropoides. Nesses saltos, nos tornamos humanos. Só foram necessárias mais umas dezenas de milênios para domesticarmos animais, desenvolvermos a agricultura e a metalurgia e criarmos a escrita. Aquilo foi só um pequeno passo em direção aos monumentos da civilização que distinguem os humanos dos animais.

Leia mais:

O Terceiro Chimpanzé: A Evolução e O Futuro do Ser Humano II

O Terceiro Chimpanzé: A Evolução e O Futuro do Ser Humano III

Evolução Humana por Milo Manara

10 thoughts on “O Terceiro Chimpanzé: A Evolução e o Futuro do Ser Humano I

  1. Boa tarde. Sou Psicóloga-Psicanalista e estudo a mente humana deste 1998. Alguns humanos não interagem, apenas emitem sons porque não foram inseridos no mundo da linguagem. Será que os chimpanzes não falam porque não foram inseridos também no mundo da linguagem?

    • Prezada Maria Aparecida,
      pela leitura que fiz do livro de Jared Diamond, a questão não é só do ambiente (“mundo da linguagem”), mas também da evolução biológica, isto é, da seleção natural dos aptos à linguagem oral. Mas eu não sou especialista…
      Att.

    • Sra. Maria Aparecida,
      Não sou especialista no assunto, mas acho que não. Pois os chimpanzés de circo são praticamente inseridos num ambiente de linguagem humana; onde são treinados para parecerem ser os mais inteligentes possíveis. No entanto, não falam nada, apenas emitem sons. Porém, temos que especificar aqui o que chamamos de linguagem… Se é a forma com que nós, seres humanos, nos comunicamos: não. Os chimpanzés e demais animais não falam. Mas os animais tem as suas próprias formas de comunicação entre eles; eles tem as suas próprias ‘linguagens’.
      Mas confesso que fiquei curioso sobre os tais humanos que a senhora falou que não interagem, mas apenas emitem ‘sons’…
      Pode falar mais sobre eles? Onde a senhora os teria encontrado? E por que eles não interagiriam por meio desses tais sons, emitodos por eles?

  2. ESTAVA FAZENDO UMA PESQUISA DE ESCOLA,INFELISMENTE NAO ACHEI O QUE QUERIA.
    ESTAVA PROCURANDO DIFERENSAS ENTRE O SER HUMANO EO CHIMPANZÉ´.

      • …2% do DNA, e mais um monte de características físicas aparentes (e não aparentes), e psicológicas, não é João Victor?!

  3. Diferentemente de outros animais, inclusive o chimpanzé, somos capazes de contar histórias, assim repassando o conhecimento adquirido.

    • Beto, esses 2% do dna são responsaveis por essas caracteristicas fisicas aparentes que você cita, bem como tamanho do cerebro, ossos e musculatura e a falta de pelos em grande parte do corpo Ruan o que você tentou dizer é a memória oral correto? que é diferente da escrita… a cultura oral ou uma especie de senso comum bem primitivo existe em grupos de primatas como os chimpazes comuns e os pigmeus nossos parentes mais proximos possuem habilidades e uma linguagem propria de sinais, cultura oral essa que é extremamente fragil considerando que por natureza não exista registro dela e em uma geração ela se extingue, agora me assusta muito uma suposta psicologa-psicanalista se perguntar porque chimpanzes inseridos em grupos de humanos não desenvolvem a fala, pelo simples fato anatomico de que sua laringe e cordas vocais não possuem musculatura especifica para a verbalização de som mais agudos, mais suaves, como vogais… um chimpanzé soaria como uma sucessão de consoantes, isso sem mencionar os milhares de anos em que o homo sapiens aperfeiçoou o sistema de linguagem atraves da evolução do cortex cerebral e de complicadas sinapses.

  4. Nossa amiga psicóloga fez uma pergunta que muitos já fizeram no passado, será que seu eu treinasse um chimpanzé pra falar ele falaria, fizeram o teste e tudo, e a resposta foi NÃO, porque eles não possuem os aparatos biológicos para tal, tem um video no youtube sobre esse experimento, o chimpanzé parecia emitir alguns sons que se pareciam com a fala humana, mas obviamente que não eram, a linguagem evoluiu juntamente com o homem e é uma característica que acompanhou o desenvolvimento de nosso cérebro auxiliado pela necessidade de sobrevivência, cérebros grandes nos permitiriam pensar e falar, muito embora muitos homens de hoje sejam privados dessas duas faculdades, a de falar principalmente, a de pensar me refiro em metáfora a aquelas pessoas que são munidos dessa faculdade mas parecem não fazer diferença se não as tivesse, pois pouco fazem uso delas, infelizmente.

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