Direito à Resposta na Imprensa Partidarizada

Guilherme Mello: Professor do IE-Unicamp (Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas), coordenador do programa de pós-graduação em desenvolvimento econômico do IE-UNICAMP e coordenador do Núcleo de Economia ligado a Fundação Perseu Abramo

Eduardo Fagnani: Professor colaborador do Instituto de Economia da Unicamp

Aloizio Mercadante: Doutor em economia, é presidente da Fundação Perseu Abramo, ex-deputado e senador (PT-SP), ex-ministro de Ciência e Tecnologia e da Educação e ex-chefe da Casa Civil da Presidência (Dilma Rousseff)

“No final de semana, a Folha publicou o artigo “Lula presidente?”, do economista Rodrigo Zeidan, no qual o autor comenta a possibilidade de sucesso de um novo governo Lula e deixa claro que prefere uma suposta “terceira via”. Na conclusão, diz que o saldo dos governos petistas foi negativo e acusa a esquerda de incompetência.

Cada cidadão brasileiro tem o direito de ter suas preferências políticas. Mas isso não autoriza a distorcer os dados e a história para forçar a realidade e se enquadrar nas suas preferências ideológicas. Assim só se criam narrativas fantasiosas que tantas vezes enganam o cidadão eleitor.

Não há dados que sustentem a surrada narrativa de que o sucesso do estilo de desenvolvimento distributivista dos governos petistas tenha sido um sucesso apenas no primeiro governo Lula. Para ‘demonstrar’ seus desejos, o autor ignora completamente a rápida superação da crise de 2008-2009, a saída do mapa da fome, a contínua redução da pobreza, da miséria e do desemprego, todas conquistas posteriores a 2007.

Luiz Inácio Lula da Silva – Ueslei Marcelino – 08.out.2021/Reuters

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Cadeias Globais de Valor e Investimentos Estrangeiros Diretos

Daniel Rittner (Valor, 06/10/21) resenhou um estudo importante sobre CGV (Cadeias Globais de Valor) e IED (Investimentos Estrangeiros Diretos). Na década de 1990, o comércio exterior de bens e serviços se organizou em torno das cadeias globais de valor. Trata-se de um arranjo produtivo com elevado grau de fragmentação, em que distintas atividades e etapas do processo industrial ficam espalhadas por vários países ou regiões.

Cadeia de valor, em outras palavras, é o “caminho” da produção que um determinado bem percorre até chegar nas mãos do destinatário final. Esse caminho possui uma série de fases que se conectam: pesquisa e desenvolvimento, compra de insumos, fabricação, distribuição, venda, pós-venda (treinamento e manutenção).

Pegue-se o exemplo de um aparelho de telefone celular: ele pode ter seu projeto concebido no Vale do Silício, reunir peças fabricadas no Leste Europeu e baterias com lítio explorado na Bolívia, incorporar softwares desenvolvidos no Canadá e em Portugal, ser montado na China e concentrar a assistência ao cliente num call center na Índia.

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Plano Biden + Volta Lula = Plano Social-Desenvolvimentista para Retomada do Crescimento

Fábio Graner (Valor, 01/10/21) avalia: após a maior expansão de gastos da história para fazer frente à pandemia de covid-19 em 2020, o governo brasileiro tem voltado para a trajetória de austeridade fiscal prometida na campanha eleitoral de 2018. Não são poucas as vezes que se ouve as principais autoridades da Economia destacarem que o gasto público federal já neste ano deverá, em relação ao tamanho da produção do país, ficar abaixo do que foi legado pelo antecessor de Jair Bolsonaro e que essa tendência deve se acentuar em 2022, mesmo com as eleições.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, o novo presidente Joe Biden anunciou um ambicioso programa econômico, no qual não só amplia o gasto público e a coordenação estatal em diversas áreas (investimentos, inovação e políticas de saúde, educação e geração de empregos), mas também, para financiar essas ações, reverte a tendência de redução de impostos aplicada pelo seu antecessor.

Apelidada de “Bidenomics”, a estratégia do sucessor de Donald Trump, em seu primeiro ano à frente da Casa Branca, rompe com a doutrina econômica liberal e a ambição de um Estado mínimo. A iniciativa foi recebida com grande entusiasmo na parcela dos economistas brasileiros com uma visão mais desenvolvimentista (que defende a atuação mais incisiva do Estado) e/ou ligada à esquerda política, mesmo com os ajustes e a redução de seu escopo impostos pelo Congresso americano.

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Balanço do ocorrido nos cinco anos seguintes ao Golpe de 2016

César Locatelli e José Celso Cardoso Jr. publicaram muito bom balanço do ocorrido nos cinco anos seguintes ao Golpe de 2016: https://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia-Politica%2FEconomia-brasileira-pos-golpe-5-anos-de-retrocesso%2F7%2F51491&fbclid=IwAR0RsomeBfz5BbY51GNBqwNTQ0VKEAPEytGWTITsjb309hs4kpDotBAyvJw

“Passados 5 anos do afastamento de Dilma, e quase 6 anos da publicação do projeto “Ponte para o Futuro”, é preciso avaliar se os pretensos objetivos do plano foram alcançados. “A presente crise fiscal e, principalmente econômica, com retração do PIB, alta inflação, juros muito elevados, desemprego crescente, paralisação dos investimentos produtivos e a completa ausência de horizontes estão obrigando a sociedade a encarar de frente o seu destino”, apontava o plano.

Certamente já se passou tempo suficiente para, ao menos, vermos sinais de progresso nas “políticas sociais que combatam efetivamente a pobreza e criem oportunidades para todos”. Bem como no encaminhamento das soluções para os problemas apontados: “crise fiscal e, principalmente econômica”, “retração do PIB”, “a alta inflação”, “os juros elevados”, “o desemprego crescente”, “paralisação dos investimentos” e, sobretudo, “a completa ausência de horizontes”.

Na avaliação, publicada na Carta Maior, os coautores advertem: “não será, contudo, definitiva, dado que o processo continua em curso e ainda pode piorar muito. Tampouco, será extensa, foram pinçados poucos tópicos julgados exemplares”.

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Energia Hidrelétrica X Eólica ou Solar

O Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, com governos estaduais e usuários do rio entre seus integrantes, criticou duramente as mudanças de vazão nas usinas hidrelétricas do Velho Chico a fim de ampliar o fornecimento de energia do Nordeste para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste.

Uma das ações tomadas nesta semana pelo Ministério de Minas e Energia, que acabou sendo ofuscada pelo aumento da bandeira tarifária e pelo bônus dado aos consumidores para uma redução voluntária da demanda, foi liberar mais água das usinas hidrelétricas no curso do São Francisco.

Com isso, o objetivo do governo é gerar mais energia na região Nordeste e transferir esse excedente para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, onde está a pior situação dos reservatórios no país.

Para o comitê, no entanto, essa estratégia pode trazer de volta a ameaça de colapso hídrico vivenciada pela bacia há poucos anos e colocar em risco a segurança no abastecimento de 2022 em diante.

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Produtividade do Trabalho e Crescimento Econômico

Por Luque, Silber, Luna e Zagha (Valor, 15/08/21)

A estagnação da produtividade do trabalho no Brasil é notória. Tem sido o tema de uma variedade de artigos acadêmicos e estudos por instituições nacionais e internacionais. Dois estudos recentes da OCDE resumem bem as conclusões sobre o assunto. Eles mostram que produtividade do trabalhador brasileiro cresce a taxas modestas, bem menores do que em outros países. O resultado é que em 2019 a produtividade do trabalhador brasileiro era 73% mais baixa do que a dos países mais avançados da OECD. Esses estudos identificam quatro causas dessa baixa produtividade.

1. Proteção às empresas menos produtivas. Em cada setor da economia brasileira se encontram firmas com produtividade comparável às das mais avançadas do mundo. Mas elas coexistem com um grande número de firmas muito menos produtivas. As firmas mais competitivas crescem pouco porque as menos competitivas são protegidas por incentivos fiscais (Simples, tributação reduzida para firmas com receita menor do que R$ 478 milhões, guerras fiscais entre Estados) e regulatórios.

2. Ensino de baixa qualidade. O Brasil realizou em poucas décadas a façanha de universalizar a educação primária, e expandir a secundária. Mas a qualidade da educação é bem inferior à de outros países, o que afeta a produtividade do trabalho.

3. O custo Brasil. Burocracia, lentidão da Justiça, regulações e um sistema tributário fragmentado, insegurança jurídica, inclusive na área fiscal, seriam uma terceira causa da baixa produtividade do trabalho no Brasil.

4. Barreiras à importação. O Brasil tem entre as tarifas mais altas do mundo, assim como barreiras não tarifárias, em particular sobre bens de capital e insumos intermediários, que isolam o país da competição externa e dos benefícios do comercio internacional.

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Análise Neoliberal dos Benefícios Tributários

Cristiano Romero (Valor, 05/08/21) continua sua investida contras “os privilegiados”, isto é, “os outros”. Sua análise é a típica neoliberal: tudo é culpa de O Governo, jamais de O Mercado. Confira abaixo.

“Há um consenso no debate nacional de que a economia brasileira padece de grave desequilíbrio fiscal, uma vez que o Estado, considerando-se todos os entes da Federação, gasta muito mais do que arrecada. Quando isso acontece, e no caso deste país a que se chama de Brasil o déficit das finanças públicas é estrutural, a dívida pública não para de crescer e, se a tendência não muda em algum momento, o prêmio (a taxa de juros) cobrado pelo mercado para financiar o governo escala às alturas, provocando três efeitos indigestos. Ei-los:

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Investimentos no Brasil: Cortina de Fumaça da SPE

A expressão cortina-de-fumaça é usada como alusão a técnicas utilizadas por estrategistas militares para esconder suas forças ou veículos por trás de uma nuvem de fumaça, seja ela natural ou produzida artificialmente, para enganar e confundir o inimigo, dando-lhes a oportunidade para empregar uma manobra de contra ataque ou retirada. O recurso também é utilizado por ilusionistas para desorientar o público, desviando sua atenção do momento da execução do truque. Por exemplo, o uso do recurso, mostrado na foto abaixo, faria o inimigo morrer de rir1

A atual equipe econômica instalada no ministério da Economia se especializou em vender ideologia ou “cortina-de-fumaça”. Confira a propaganda enganosa do “discurso oficial” da SPE: só serve para empresários do tipo “me engane que eu gosto”…

O investimento lidera a recuperação da economia após a crise gerada pela pandemia de covid-19, mesmo com a menor participação do setor público, diz a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia. A retomada, acrescenta, está acontecendo a taxas mais altas que nas crises anteriores e o investimento puxa esse processo “a despeito da redução da participação do setor público”, com menores níveis de consumo e investimento estatal.

A secretaria neoliberal, sempre preocupada em criticar a Era Social-Desenvolvimentista, afirma: se até 2013 o investimento era, em grande parte, financiado por recursos públicos, hoje isso se dá majoritariamente via setor privado. “Não se deve comparar taxas de investimento, que naquela época eram mais altas que hoje, mas sim, a qualidade desse investimento, que é melhor atualmente”, diz em nota informativa divulgada no dia 27/07/21.

Para a SPE, o importante não é “quantidade” de FBCF, mas sim a “qualidade”: se for realizada pelo setor privado pode ser muito diminuta! Deveriam devolver os diplomas de economistas!

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Investimentos do BCB com Reservas Cambiais

Depois de obter a maior rentabilidade em 12 anos, o Banco Central fez alguns ajustes na estratégia de investimento dos US$ 353,448 bilhões em reservas internacionais para se preparar para o ambiente de alta de juros e de inflação internacionais e para se adequar às mudanças no passivo externo do país.

O prazo médio dos investimentos foi reduzido de 2,78 anos para 2,54 anos ao longo de 2020, deixando as reservas internacionais um pouco menos expostas a uma alta na curva de juros de prazos mais longos.

O BC aumentou ainda a sua exposição ao ouro, que passou de 1,2% para 1,94% das reservas no primeiro semestre deste ano. O metal costuma ser usado por investidores como proteção contra os riscos de alta da inflação em países desenvolvidos.

Também diversificou um pouco a aplicação por tipo de moeda. Aumentaram de perto de 1,21% para 1,7% os investimentos em ativos em “outras moedas”, ou seja, fora do grupo das cinco (dólar, euro, libra, iene e yuan) que compõem a cesta de direitos especiais de saque (DES) do Fundo Monetário Internacional (FMI).

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Volta do Efeito Orloff: risco de estagnação secular também no Brasil

Efeito Orloff tornou-se uma expressão popular inspirada em um comercial de televisão sobre uma bebida aparentemente sem causar efeitos de ressaca. Nesse comercial, um personagem apresentava-se bem disposto a ele próprio (depois de ter bebido), dizendo: “Eu sou você amanha”.

O Efeito Orloff é aplicado nos casos brasileiro e argentino, indicando o acontecido na Argentina (Plano Austral e falência do mesmo) aconteceria um pouco depois no Brasil (Plano Cruzado e fracasso do mesmo). Hoje indica a estagnação secular da economia brasileira, tal como o retrocesso histórico da economia argentina, de um país rico a um país decadente.

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FIB X PIB: Felicidade Interna Brasileira Já Era…

Delano Franco (Valor, 09/07/21) avalia: muito se tem falado sobre a tendência ESG na última década – o abandono, ou ao menos relativização, da ideia de que a melhor forma de uma empresa contribuir para o bem-estar da sociedade é maximizar lucros dentro da lei. Um tema macro correlato, menos abordado no dia a dia da imprensa, mas que deverá ter impacto importante no debate e nas decisões de política econômica nas próximas décadas, é o questionamento sobre se a primazia do PIB como medida de sucesso econômico de um país.

Como comparar, por exemplo, distintos perfis de crescimento com relação a qualidade de vida, coesão social, bem-estar e preservação do meio ambiente?

O PIB é uma estatística engenhosa, inventada nos anos 30, nos EUA, pelo economista bielorrusso Simon Kuznets, que busca comprimir em um único número o fluxo de circulação de bens e serviços em um determinado período.

Os questionamentos sobre o PIB podem tipicamente ser divididos em dois tipos.

O primeiro trata das dificuldades em se medir apropriadamente alguns tipos de atividade. O chamaremos de críticas à precisão do PIB.

O segundo questiona se o fluxo agregado de produção é algo sobre o qual deveríamos primordialmente nos preocupar. A este chamaremos de críticas ao propósito do PIB. Ao passo que este naturalmente envolve um debate mais filosófico, aquele em geral se foca em aspectos técnicos.

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Trabalhadores arcam com Sequência de Aumentos: Desemprego-Exploração-Produtividade

Lucianne Carneiro e Gabriel Vasconcelos (Valor, 14/06/21) informam algo sabido por economistas heterodoxos há muito. Eles se pasmavam com a ignorância dos colegas ortodoxos: a produtividade é uma constatação ex-post — e não resultante da decisão ex-ante de capacitação profissional.

Agora, finalmente, a força dos fatos se impõe contra a ideologia conservadora, relacionada ao individualismo, dos economistas ortodoxos. Quando cai o nível de emprego, aumenta a produtividade, porque os restantes buscam garantir o emprego e submetem à super-exploração. Basta as horas trabalhadas por dia no Home Office sem tempo sequer para almoçar! Trabalham 12 horas por dia: 9:00-21:00!

Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) levantou algumas respostas para um aspecto para o qual os pesquisadores da área do trabalho não conseguiam explicar por não verem a relação VP/N (valor de produção / número de empregados) ser simplesmente calculada ex-post. Por que a produtividade da economia brasileira aumentou durante a pandemia quando houve grande queda do produto real (-4,1% em 2020)?

A análise aponta esse aumento de VP/N refletir uma mudança na composição da população ocupada em períodos de crise: a saída dos trabalhadores menos qualificados e a permanência de um contingente maior daqueles com mais instrução e experiência mais produtivos. Os trabalhadores intelectuais fazem o trabalho manual dos dispensados?!

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