Venda de 80% da área de Aviação Comercial da EMBRAER à BOEING

Stella Fontes, Camila Maia, Rodrigo Rocha e Ivan Ryngelblum (Valor, 11/07/18) informam: após meses de negociação, Embraer e Boeing assinaram, no dia 5 de julho de 2018, o memorando de entendimentos com as linhas gerais para constituição de uma nova empresa. Na prática, representa a venda de 80% da área de aviação comercial da fabricante brasileira de aeronaves para a gigante americana. Pela participação de 80% na nova entidade, a Boeing pagará US$ 3,8 bilhões, ou R$ 14,9 bilhões ao câmbio atual, deixando a Embraer com os negócios de aviação executiva, serviços e defesa, além da fatia remanescente de 20%.

Com o acordo, cuja versão definitiva será elaborada até o fim de 2019, após aval de órgãos antitruste em diferentes países, a Boeing garante a liderança global em aviação comercial com portfólio de aeronaves de 70 a 450 assentos. Hoje, a Embraer é líder no mercado de jatos de até 150 assentos e a americana, nos segmentos de grandes aviões. A junção forma uma uma empresa expoente global. Pergunta-chave não respondida ainda: qual é a consequência macroeconômica e/ou macrossocial dessa desnacionalização do centro de decisões dessa nova empresa?

O executivo responsável pela associação com um parceiro estratégico como a Boeing argumenta “trazer benefícios para todos: para a Embraer, para funcionários, para o Brasil, para as exportações“. Mas ele não prova isso com apresentação de evidências empíricas quanto aos três últimos itens.

“É a garantia de sustentabilidade da empresa”, ressaltou. Globalmente, o setor aeroespacial está se reorganizando e os grandes fabricantes buscam somar forças para fazer frente à concorrência, reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de produtos. A operação vem em resposta a essas mudanças. Com a globalização se perde soberania sobre decisões geradoras de emprego.

“A Embraer está em seu melhor momento em aviação comercial e executiva, mas tem de olhar para a frente e entender a dinâmica”, afirmou o executivo. O argumento microeconômico é claro: se associar para não sucumbir face à concentração e centralização do capital.

Em termos macroeconômicos, significará a subordinação maior ao ciclo internacional? Haverá desemprego massivo dos engenheiros e demais funcionários da Embraer? O país não perderá a empresa mais inovadora e maior exportadora de produtos complexos com alta intensidade tecnológica?

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Dilemas da Regra de Ouro

Felipe Salto é diretor executivo da Instituição Fiscal Independente, do Senado Federal (IFI); Gabriel Barros e Rodrigo Orair são diretores da IFI; Daniel Couri é analista da IFI. Publicaram artigo (Valor, 11/05/18) para divulgar  estudo especial do IFI (download no fim do artigo).

“A regra de ouro das contas públicas é simples: o Estado só pode se endividar para financiar investimentos. Logo, seu orçamento corrente, que cobre gastos de custeio, salários e juros da dívida, deve estar no mínimo equilibrado. Sempre que ocorrer um déficit corrente, ele terá de ser financiado por meio de dívida, violando a regra.

No Brasil, desde a Constituição de 1988, adotamos uma variante da regra de
ouro, que ao longo do tempo se distanciou dos seus princípios originários,
conforme mostramos no Estudo Especial “Regra de ouro no Brasil: balanço e desafios”, da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, dos mesmos

Nele, discutimos a experiência brasileira com a regra de ouro e destacamos duas peculiaridades que a afastam da configuração clássica consagrada na teoria econômica. Em primeiro lugar, o conceito adotado no Brasil para despesas de capital é mais amplo do que os investimentos, abarcando despesas financeiras como a atualização monetária do principal da dívida pública (inflação aplicada sobre o estoque da dívida) e as concessões de financiamentos estudantis e a setores produtivos. Além disso, o Tesouro Nacional dispõe de um volume elevado de receitas financeiras: as que recebe do Banco Central ou de seus devedores, como os governos subnacionais e o BNDES.

Trocando em miúdos, as singularidades brasileiras produzem dois fatos inusitados.

  1. O primeiro é que a regra pode ser cumprida mesmo com endividamento crescente e investimentos públicos deprimidos.
  2. O segundo é que a regra à brasileira não exige equilíbrio no orçamento corrente.

Na realidade, fixa-se um teto de déficit dado pelo volume de receitas e despesas financeiras. De outra forma, significa dizer que a variação da dívida, líquida das receitas financeiras, tem de ser menor ou igual ao conjunto das despesas de capital, inclusive as financeiras. Continue reading “Dilemas da Regra de Ouro”

Prioridades para um Novo Governo Desenvolvimentista

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP Roberto Zagha foi professor assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Eles escrevem bons artigos desenvolvimentistas, fugindo do lugar-comum neoliberal contumaz na imprensa brasileira. Desta vez (Valor, 24/04/18) defenderam quatro prioridades para um novo governo.

“Em janeiro 2019 um novo governo tomará as rédeas de uma economia com renda per capita 9% abaixo do seu nível de 2014 e desemprego em dois dígitos. Inflação e juros baixos, excelentes notícias, serão insuficientes para tirar o país do fundo do poço. As perspectivas continuarão desanimadoras: o PIB per capita de 2014 será atingido em 2023. As projeções do Ministério da Fazenda e da OCDE para os próximos 40 anos são de que a renda per capita do brasileiro terá um distanciamento cada vez maior em relação à dos países avançados.

Não é acidente. Por várias décadas o governo descuidou do crescimento. Em anos recentes, ignorou tanto a teoria econômica como a experiência de outros países e se convenceu que o controle do gasto público é em si uma estratégia de crescimento. Introduziu a Emenda Constitucional “do teto”, pouco pragmática, e investiu capital político em reformas tangencialmente relacionadas ao crescimento (previdência e mercado do trabalho). Fundamentalmente, ignorou que problemas fiscais não podem ser resolvidos sem crescimento.

A aposta não deu certo. O resultado tem sido queda do PIB e uma dívida pública descontrolada: 57% do PIB em janeiro de 2015, 74% em janeiro de 2018, e 93% previstos para 2021. Continue reading “Prioridades para um Novo Governo Desenvolvimentista”

Apoio Popular a Estado Desenvolvimentista

Ricardo Mendonça (Valor, 08/05/18) informa sobre pesquisa de opinião:

  • A economia do país deve ser regulada mais pelo Estado do que pelo mercado.
  • O Estado deve ser dono das empresas mais importantes do país.
  • Ser também o responsável pelo bem-estar da população e pela redução das variadas manifestações de desigualdade.
  • Sem margem para dúvida, tem de garantir as aposentadorias aos mais velhos e ser o principal provedor dos serviços de saúde e educação.

Em síntese, essa é a opinião média do brasileiro a respeito do papel do Estado na economia e na sociedade, mostra pesquisa quantitativa nacional feita em março de 2018 pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT). O estudo mostra valorização e desejo de um Estado grande, forte, presente e interventor.

O levantamento foi feito entre os dias 15 e 23 de março com 2,5 mil entrevistas domiciliares em 179 municípios de 25 Estados e do Distrito Federal (exceção foi o Amapá). A margem de erro do estudo é de dois pontos para mais ou para menos.

Na apuração, os entrevistados eram convidados a estabelecer valor numa escala de 1 a 10 em diversos temas. As notas inicias eram associadas à maior presença do Estado nas questões propostas. As notas maiores, à maior participação do setor privado. Continue reading “Apoio Popular a Estado Desenvolvimentista”

Programa Social-Desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores

Sérgio Lamucci (Valor, 15/05/18) informa: a recuperação do crescimento e do emprego é a prioridade emergencial para economistas que participam das discussões para o programa de governo do PT, envolvendo ideias como o uso do excedente das reservas internacionais para estimular o investimento e a renegociação de dívidas de empresas e famílias.

Na visão de Marcio Pochmann, um dos coordenadores do plano de governo do partido, e de Ricardo Carneiro, da Unicamp, a retomada será o principal fator para ajudar a resolver a situação fiscal no curto prazo, ainda que não o único. Uma reforma da Previdência mais ampla em 2019 não faz parte das propostas desses economistas, uma divergência em relação às ideias do ex-ministro Nelson Barbosa, que participa de algumas reuniões e dá sugestões.

À diferença do que ocorre com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que apontaram Persio Arida e Paulo Guedes como seus coordenadores do programa econômico, o PT ainda tem um grupo grande de economistas discutindo como será o plano de seu candidato. O partido insiste na candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, líder disparado em todas as pesquisas eleitorais, mais do dobro do segundo colocado da extrema-direita. Continue reading “Programa Social-Desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores”

4a. Revolução Industrial Chinesa

A CARTA IEDI 827 analisa o planejamento chinês para a 4a. Revolução Industrial. Enquanto, os neoliberais defendem aqui sua crença ideológica iluminista pré-1a. Revolução Industrial inglesa: os múltiplos auto interesses individualistas serão conduzido pelo laissez faire – laissez passer para uma ordem espontânea equilibrada! Mesmo com o brutal desequilíbrio social, resultante da concentração de renda e riqueza, um bando de crentes idiotas, pois não têm consciência do mal que fazem a si e aos outros, segue essa doutrina!

A indústria mundial está à beira da próxima revolução tecnológica. A combinação de máquinas inteligentes, comunicação moderna, big data e computação em nuvem está criando uma mudança disruptiva na produção industrial. As expressões “Manufatura Inteligente”, “Indústria 4.0” e “Internet Industrial” são rótulos diferentes para a próxima transformação. Governos e indústrias em todo o mundo reconhecem que este novo paradigma tecnológico irá reformular a dinâmica e as regras da concorrência mundial. A corrida para a produção industrial avançada poderá decidir o destino das grandes corporações e até mesmo o desenvolvimento global de economias inteiras.

Este trabalho analisa a estratégia da China neste ambiente de disrupção tecnológica que, para o governo chinês, surge como uma excelente oportunidade para equiparar o país tecnologicamente e economicamente aos países industrializados. Para isso, foi utilizada a versão em inglês do documento oficial Made in China 2025, publicada em julho de 2015, pelo Conselho de Estado da China. Essas informações oficiais foram complementadas pelas análises produzidas pelos pesquisadores do think tank alemão Merics – (WÜBBEKE, Jost e outros. Made in China 2025: The making of a high-tech superpower and consequences for industrial countries), pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos (Made in China 2025: Global ambitions build on local protection) e pela OCDE (QIAN Dai. China and the next production revolution. In: OECD – The Next Production Revolution: Implications for governments and business. 

Na avaliação do Conselho de Estado chinês, após décadas de rápido crescimento, a escala de produção industrial da China tornou-se a maior do mundo. O sistema de produção industrial, abrangente e independente, da China tornou-se a pedra angular do desenvolvimento econômico e social do país, e uma força importante da economia mundial. Em 2014, a produção industrial da China representou 19% do valor adicionado da indústria mundial e 35,9% do Produto Interno Bruto (PIB), liderando o mundo pelo quinto ano consecutivo. Além disso, as últimas décadas, os principais setores de exportação da China registraram aumento no valor agregado doméstico nas exportações brutas. Continue reading “4a. Revolução Industrial Chinesa”

Candidato Entreguista da Principal Riqueza Brasileira

O candidato de O Mercado rentista, o “picolé-de-chuchu” (passivo-e-omisso) já derrotado em 2006, segundo Vandson Lima (Valor, 08/02/18), afirmou que vários setores da Petrobras serão privatizados caso ele vença a disputa pelo Palácio do Planalto.

Mesmo a privatização total da Petrobras não está descartada pelo tucano, que se disse “totalmente favorável” à ideia de se desfazer de empresas em áreas que considera a participação do Estado desnecessária. Ele citou, nominalmente, Empresa Brasil de Comunicação (EBC); a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás); e a Empresa de Planejamento e Logística (EPL) como candidatas ao repasse ao setor privado em sua gestão.

“Muitos setores da Petrobras podem ser privatizados. Inúmeras áreas que não são o core, o centro objetivo da empresa, tudo [isso] pode ser privatizado. Se tivermos um bom marco regulatório, até pode, no futuro, privatizar tudo“, afirmou Alckmin em Brasília, ao participar de reunião com representantes de diversos setores da indústria na sede do Sinduscon local.

[Fernando Nogueira da Costa: curiosamente, “o uso do cachimbo faz a boca torta”. Agora, em tese, sem caixa-dois, ele não poderia apelar para o financiamento eleitoral de O Mercado. Portanto, não necessitaria prometer que entregaria de graça o patrimônio público nacional! Aliás, um presidente da República não pode tratar a coisa pública como posse privada, prometendo vender tudo!]

A equipe que trabalha em seu plano de governo, inclusive, já trabalha em propostas sobre o tema. “Distribuição, por exemplo [que é lucrativa para compensar as pesquisas realizadas pela empresa estatal], não precisa ser da Petrobras. Tem 147 empresas estatais, precisa olhar uma a uma”. Ele ressalvou, contudo que a “Petrobras hoje está muito bem gerida pelo [presidente] Pedro Parente”. [Detalhe: o tucano demonstra sua parcialidade pró-grã tucanato.]

Questionado sobre a mudança de posição ao defender as privatizações agora, ao contrário do que fez na campanha presidencial em 2006, quando chegou até a vestir uma jaqueta com as marcas da Petrobras, Correios, Caixa e Banco do Brasil para assegurar que não ia vendê-las à iniciativa privada, Alckmin lembrou que, à época, sofreu com acusações do PT. “Lula dizia que eu ia privatizar o Banco do Brasil, o que era mentira. Não pretendia na época e não pretendo agora”, apontou.

Em seguida, o suspeito declara em “ato-falho”: “Quando fui vice-governador do Mario Covas, comandei o processo de privatizações em São Paulo. Petrobras não é primeiro ou único caso. Temos uma equipe estudando isso, modelos de concessão e PPP“.

É este o candidato alternativo ao de extrema direita no segundo turno da eleição presidencial?! Jamais, não passará!

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