Hereges Moderados X Ortodoxos Radicais

Heresia significa escolha, opção, e é um termo com origem no termo grego haíresis. Heresia é quando alguém tem um pensamento diferente de um sistema ou de uma religião, sendo assim quem pratica heresia, é considerado um herege.

Uma heresia econômica é uma doutrina que se opõe frontalmente aos dogmas da Igreja neoclássica. Fora do contexto da religião, uma heresia também pode ser um absurdo ou contrassenso. A heresia acontece quando qualquer indivíduo ou um grupo resolve ir contra uma religião, em especial aquelas que são muito rígidas.

Hoje, a FGV-SP é dirigida por um ex-desenvolvimentista que virou conservador, adequando-a ao mainstream. Há ainda (poucos) dissidentes liderados pelo admirável Professor Luiz Carlos Bresser Pereira e seus fiéis discípulos Nelson Marconi e Paulo Gala.

Como “ninguém é perfeito”, infelizmente, a corrente novo-desenvolvimentista prega um choque cambial como panaceia contra a desindustrialização corrente. Eu sou crítico dessa receita contra “a doença holandesa”, por causa de seus efeitos colaterais: choque cambial-choque inflacionário-conflito distributivo-choque salarial-choque no custo de insumos importados-espiral preço-salário-anulação de eventuais efeitos competitivos benéficos à indústria brasileira.

Eu opto pelo caminho aventado pelo Paulo Gala no último capítulo de sua importante obra de divulgação “Complexidade Econômica: Uma Nova Perspectiva para entender a antiga questão da Riqueza das Nações“: investimentos em capital humano, educação voltada para tecnologia, know-how tácito e conhecimento produtivo, investimento público em sistema nacional de inovações. Enfim, ele propõe uma política industrial para o século XXI, de modo a construir complexidade que leva a instituições propícias à diminuição da desigualdade social.

Estevão Taiar (Valor, 17/11/17) entrevistou economistas “heterodoxos” da FGV-SP para fazer contraponto com os “ortodoxos” da FGV-RJ. Além dessa minha crítica à corrente novo-desenvolvimentista, eu não aprecio a crítica leviana à política econômica implementada por colegas deles, ambos professores da FGV-SP: Guido Mantega e Márcio Holland. Parece que aceitaram essa pauta imposta pelo entrevistador sem reagir criticamente.

Quaisquer erros que tenham sido cometidos durante os governos petistas não eximem o Brasil de buscar o fortalecimento de sua indústria, dizem economistas mais alinhados com a heterodoxia. Para esses analistas, a indústria tem papel fundamental no desenvolvimento econômico de qualquer país. Continue reading “Hereges Moderados X Ortodoxos Radicais”

Ortodoxia: Troca de Causa por Efeito sem Demonstração Empírica

Para os neoliberais, a tendência do balanço comercial brasileiro está muito adequada às livres forças do mercado: elevam-se as exportações de produtos agrícolas, petróleo e minérios em relação às exportações da manufaturas (queda de 51% para 39%), em contrapartida, elevam-se relativamente as importações de manufaturas (de 69% para 77%), mesmo que ambas venham caindo em termos absolutos desde 2014. Pecado mortal, para os seguidores do dogma da Teoria das Vantagens Comparativas, é propor um processo industrial de substituição de importações. Isso exigiria planejamento, intervencionismo e incentivos fiscais e creditícios. Tudo isso é coisa do demônio desenvolvimentista!

Sérgio Lamucci (Valor, 17/11/17) informa que o sucesso da indústria tende a ser consequência e não a causa do desenvolvimento, conforme avaliam economistas de perfil ortodoxo. Para eles, basta serem adotadas políticas adequadas, que deem prioridade à educação básica, melhorem a infraestrutura, aperfeiçoem o ambiente de negócios e permitam a abertura e o fechamento mais ágil de empresas, e partir daí o laissez-faire. Dotado disso, o livre-mercado propiciará a produtividade da economia ganhar um impulso importante, do qual a indústria tende a se beneficiar. Portanto, não há a necessidade de subsídios e proteções para o segmento industrial, porque quebraria a isonomia neoliberal: tratar desiguais com igualdade de oportunidades.

Medidas para aumentar a taxa de poupança e abrir a economia também ajudariam nesse processo. Acham que poupança depende de força de vontade individual, cujo incentivo é a retirada do Estado de bem-estar social brasileiro que promete aposentadorias impagáveis. Quanto a escancarar a economia brasileira para a livre entrada de capital estrangeiro, os ortodoxos não se importam com a desnacionalização, afinal o credo norte-americando aprendido por eles, nos States, é que “tudo que é bom para os Estados Unidos é adequado fazer no Brasil”. Continue reading “Ortodoxia: Troca de Causa por Efeito sem Demonstração Empírica”

Retomada do Debate: Descendentes do Eugênio Gudin X Crias do Roberto Simonsen

Sergio Lamucci e Estevão Taiar (Valor, 17/11/17) avaliam que, em meio à recuperação da economia brasileira, reacendeu-se o debate sobre o papel da indústria no crescimento do país. Enquanto os heterodoxos consideram o setor  industrial como fundamental para o desenvolvimento, os ortodoxos avaliam que o sucesso do segmento tende a se consequência desse processo, e não a causa.

Primeiramente, é simplória e inadequada a classificação usual de “ortodoxos” e “heterodoxos” na medida que coloca aqueles como seguidores dos cânones da Ciência Econômica (com maiúsculas) ou, como eles próprios denominam, “linha-principal” — preferindo, é claro, para demonstrar erudito cosmopolitismo, a expressão “mainstream“. Quem é dissidente desse credo dogmático, é afastado do debate público na mídia brasileira, isolado no gueto da rede social, quando não a “caça às bruxas” o queima profissionalmente como fosse uma ameaça de contaminação de seus discípulos. Ao sectarismo — daqueles com espírito de seita — sempre se opôs o espírito de tolerância.

Ora, contra esses fundamentalistas, o argumento é que os pilares fundamentais da nossa profissão estão na Economia Política dos séculos XVIII e XIX: uma visão multidisciplinar (avant la lettre) de filósofo que estudava sentimentos morais (Psicologia Comportamental), auto interesses (em conflito ou conciliação via mecanismo de mercado), Finanças Domésticas e Públicas. O neoclassicismo, inspirado na Física newtoniana, sustentado em mecanismos de causa-e-efeito, forças contrapostas levando ao equilíbrio inercial, é o reducionismo do individualismo metodológico. Foi implantado na formação de economistas como uma pressuposta “especialização científica” do nosso conhecimento, já que é passível de formulação e exposição matemática.

Esse debate histórico não foi ultrapassado em Terrae Brasilis. Os tupiniquins o reproduzem de tempos em tempos sob diferentes epítetos: Currency School X Banking School; metalistas X papelistas; neoclássicos X keynesianos; agrários X industrialistas; monetaristas X estruturalistas; novoclássicos X novoskeynesianos; racionalistas X comportamentalistas; dedutivos-racionais X históricos-indutivos; individualistas X holistas; mercadores X estatizantes; direita X esquerda. Continue reading “Retomada do Debate: Descendentes do Eugênio Gudin X Crias do Roberto Simonsen”

Estratégia Social-Desenvolvimentista de Inclusão Social de Consumidores no Mercado Interno Brasileiro

 Embora a maioria dos gastos dos consumidores ocorra nas regiões mais ricas do mundo, o número de consumidores tem se espalhado um pouco mais uniformemente entre regiões industriais e em desenvolvimento. A existência de um consumidor classe global foi contabilizada por considerar inclusas nos mercados internos as pessoas que recebiam renda anual de US$ 7.000 por paridade de poder de compra – uma medida de renda ajustada para representar o poder de compra em moeda local. Esta era, aproximadamente, o nível da linha de pobreza oficial na Europa Ocidental. Esta classe global de consumidores totalizava cerca de 1,7 bilhão de pessoas, ou seja, mais de um quarto das pessoas no mundo em 2002. (Ver tabela 1-2.)

Essa classe global de consumidores varia amplamente em níveis de riqueza, mas seus membros são tipicamente usuários de televisores, telefones, e Internet, juntamente com a cultura e as ideias que esses produtos transmitem.

Quase metade dessa classe global de consumidores vivia em países em desenvolvimento, com a China e a Índia somando mais de 20% do total global. (Ver tabela 1-3). A classe de consumidores combinada desses dois países somava 362 milhões de pessoas e já era maior do que esta classe em toda a Europa Ocidental, embora o habitante chinês ou indiano, naturalmente, consumia, em média per capita, substancialmente menos do que a média do europeu. Continue reading “Estratégia Social-Desenvolvimentista de Inclusão Social de Consumidores no Mercado Interno Brasileiro”

Energia Eólica: 51% da Geração no Nordeste

Daniela Chiaretti (Valor, 19/10/17) informa que, durante um dia, até as 18h, a energia hidráulica responde por 62,5% da geração do Brasil, as térmicas, por 24%, e eólicas, 9,6%, segundo dados do ONS, o Operador Nacional do Sistema Elétrico. O acumulado à mesma hora, no Nordeste, revela uma surpresa: são as eólicas as responsáveis por mais da metade da geração (51%) na região, seguidas pelas térmicas (32%) enquanto a energia hídrica aparecia com modestos 14%.

Este perfil energético único no país, provocado pela forte seca que deprime os reservatórios pelo quinto ano consecutivo e pela forte entrada de projetos eólicos na região, chamou a atenção da direção da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que observa que o Nordeste tornou-se um laboratório de introdução de energias renováveis na matriz brasileira.

“O Nordeste tornou-se um espelho do futuro do Brasil”, disse Luiz Augusto Barroso, presidente da EPE, durante o workshop “O Futuro do Setor Elétrico – segurança e flexibilidade nos contextos de Brasil e Alemanha“, no Rio. Continue reading “Energia Eólica: 51% da Geração no Nordeste”

Oportunismo Político Apressado: Tentativa e Erro em favor de Banco Central Independente

Os economistas pró livre-mercado que se apossaram de cargos no governo temeroso, logo após o golpe semi parlamentarista, sem nenhum pudor face ao atentado contra a democracia, agora se apressam para implementar o programa neoliberal derrotado em quatro eleições sucessivas, após o fracasso social da Era Neoliberal (1988-2002).  Percebendo o governo temeroso natimorto, a pressa é para tentar colar a proposta do Banco Central Independente.

Claudia Safatle (Valor, 15/09/17) mostra, porém, que o Congresso Nacional e o Banco Central têm visões totalmente diferentes sobre a autonomia operacional do BC e dificilmente haverá avanços nessa área no curto prazo. Os golpistas parlamentares não pretendem ceder autonomia, mesmo que seja relativa, ao Quarto Poder não eleito: o poder dos técnicos, i.é, os tecnocratas indicados por O Mercado.

Eles deveriam fazer o contrário: estatizar o Banco Central do Brasil, exigindo que seus dirigentes sejam todos servidores públicos, inclusive os professores das Universidades Públicas desenvolvimentistas! Impor-lhes quarentena de 4 anos, antes de poderem trabalhar para O Mercado, fazendo tráfego de influências. Exigir a coordenação da política monetária de juros com a política de crédito, a política fiscal, a política cambial e a política de controle de entrada/saída de capital. Aí sim o BCB se transformar-se-ia em uma instituição inclusiva e não extrativista que atua em favor do enriquecimento financeiro de uma minoria.

A aprovação de uma lei conferindo-lhe autonomia ainda maior é parte da agenda de prioridades dos tecnocratas oportunistas do BCB e tem sido uma das medidas defendidas com afinco pelos seus presidentes, vindos de O Mercado, há mais de uma década. Em 2002, quando Lula já eleito convidou Henrique Meirelles (ex-presidente do Bank of Boston) para ocupar o comando do Banco Central, o hoje ministro da Fazenda colocou a autonomia como uma das principais questões do seu mandato. Não foi possível votá-la até hoje. Continue reading “Oportunismo Político Apressado: Tentativa e Erro em favor de Banco Central Independente”

Economicismo ou Politicismo

Economicismo é quando o analista acha que a conjuntura econômica determina a escolha política. Politicismo é vice-versa, ou seja, a redução de tudo à política.

Cabe indagar: uma decisão “técnica” – tipo “certo ou errado” –  pode ser tomada por maioria de votos?!  Se não é por consenso técnico, é uma decisão política, isto é, por ação coletiva, atendendo a certos interesses (por exemplo, do capital) e não a outros (por exclusão, do trabalho).

A decisão “política” é neutra, imparcial, sábia?  Por suas filiações teóricas monolíticas, os membros do COPOM têm controvérsias analíticas entre si?  Não sofrem do viés heurístico da auto validação ilusória, pois só conversam com “gente que pensa igual”? Isso não os leva a cometer erros de avaliação?

Pela ausência de “mandato dual”, em que as decisões do Banco Central do Brasil seriam orientadas tanto para o combate à inflação como ao desemprego, não há “conflito de interesses” por parte dos fixadores da taxa de juros básica? Eles não deveriam se dizer “impedidos” de elevar os juros sem limite, beneficiando sua própria renda do capital financeiro?

A política econômica não é apenas a aplicação da teoria econômica. Ela requer que se ultrapassem as fronteiras estreitas da área econômica e que se leve em consideração, igualmente, a esfera da política e dos conflitos de interesses sociais.

A política econômica bem-sucedida existe apenas quando se combinam as ações econômicas e as ações políticas.  As experiências das sociedades democráticas de tipo ocidental resultam em Teoria da Política Econômica Democrática. Continue reading “Economicismo ou Politicismo”