Seminários para Debate de um Projeto Nacional

Cristian Klein e Francisco Góes (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 26/04/19) escreveram reportagem sobre um Seminários para Debate de um Projeto Nacional.

Brasil acima de tudo” está no bordão repisado pelo presidente da República, mas é uma casa de shows no bairro do Catete, no Rio, que tem se transformado, semanalmente, no QG da defesa de um projeto nacional — distante do ideário da nova direita bolsonarista. Em meio à onda conservadora, políticos, artistas, acadêmicos e diplomatas, reunidos no Casarão Ameno Resedá, estão se dedicando a debater o país em 36 seminários. Até dezembro de 2019, pretendem apontar rumos para a nação que, em três anos, completará o bicentenário da Independência.

É com esse marco histórico em mente que o professor e consultor Darc Costa, de 70 anos, presidente do Instituto Brasilidade, decidiu reunir um time de especialistas em diversas áreas – da infraestrutura e energia, passando por música, cinema e arquitetura, à política externa – para achar respostas ao dilema da questão nacional. Mais uma vez, a empreitada é em parceria com o amigo e economista Carlos Lessa, com quem fundou o instituto e de quem foi vice-presidente na gestão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre 2003 e 2004.

Estudioso de questões estratégicas, Darc Costa tem como principal preocupação a retomada de um projeto nacional que, afirma, o Brasil perdeu a partir dos anos 80, mas cuja articulação depende agora de um ex-capitão do Exército. Em sua visão, Jair Bolsonaro representa uma ruptura ao predomínio do pensamento liberal paulista, vigente desde a redemocratização de 1985 e que já havia dado as cartas na República Velha, entre 1889 e 1930. “Só que Bolsonaro não tem escopo teórico para conduzir o processo. Não tem a formação, por exemplo, de um general Mourão [vice-presidente], que demonstra ser muito mais sólida”, compara.

Costa afirma que apenas quando o Brasil reconstruir o seu projeto de país, como houve entre as décadas de 30 e 80, é que haverá solução para grandes problemas, como o crescimento e a redução da desigualdade social. Cita a importância do marechal Mário Travassos (1891-1973), que escreveu quando ainda era capitão, em 1935, o livro “Projeção Continental do Brasil”, que “lastreou toda a política externa do Brasil durante cinco décadas, a partir da era Vargas”.

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Gráfico Dinâmico: Top 10 Maiores PIBs de 1960-2017

Confira no gráfico dinâmico acima a ascensão e a queda recente do PIB do Brasil (barra amarela). Países entram em decadência e/ou regressão histórica. Basta adotar o neoliberalismo. Os maiores crescimentos do PIB brasileiro foram durante governos desenvolvimentistas.

Observe também o da China tinha o mesmo tamanho do PIB do Brasil no início da série temporal. O Capitalismo de Estado lá desenvolveu o país. Aqui os neoliberais privatizaram e/ou desmancharam o Estado desenvolvimentista. O país ficou para trás.

Meta Estratégica: Retomar Crescimento da Renda e do Emprego

Carlos Luque é professor da FEA­-USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA­-USP. Roberto Zagha foi professor assistente na FEA­USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Publicaram artigo (Valor, 14/02/19) sobre a meta estratégica sob o ponto de vista racional (não deste governo ideológico): retomar o crescimento da renda e do emprego.

Porém, esse autores se colocam na corrente de pensamento novo-desenvolvimentista ao apoiarem a estratégia de exportação de manufaturados via política cambial, i.é, uma moeda nacional desvalorizada. “Comme il faut“, não analisam a consequência inflacionária dessa maxidesvalorização cambial sobre o poder aquisitivo da população. Não se importam com o mercado interno ao optarem pelo “modelo asiático”, agora anacrônico — e “fora-do-lugar”!

“Uma vez que se começa a pensar no crescimento econômico, é difícil pensar em qualquer outra coisa… As consequências para o bem-estar social são simplesmente extraordinárias”. As palavras de Robert Lucas (prêmio Nobel de Economia, 1995) nos lembram da importância de recolocar o crescimento econômico como o objetivo central das políticas econômicas do país e de ter uma estratégia para torná-lo realidade. Infelizmente, esta estratégia não é ainda visível.

Os dois primeiros gráficos ilustram o atraso crescente da economia brasileira. Eles indicam o quanto o Brasil se distanciou de economias “da fronteira” como os Estados Unidos e economias emergentes. O último mostra o número de anos necessários para que a renda per capita do brasileiro alcance a do americano a diferentes taxas de crescimento.

O desempenho da Coreia, China, Cingapura e Malásia mostra o que é possível. Economias com rendas per capita mais baixas podem crescer a taxas mais rápidas do que as economias avançadas. Em economias avançadas o crescimento depende de inovações tecnológicas muito mais do que em economias em desenvolvimento, onde a acumulação de capital, incorporação de tecnologias já desenvolvidas e a incorporação do trabalho nos setores modernos da economias são fundamentais.

Economias avançadas dependem de um tipo diferente de progresso tecnológico baseado em novas formas de produção ou produtos novos. Embora todas as tecnologias sejam uma combinação de inovação e adaptação ou imitação, as economias avançadas na fronteira tecnológica são mais dependentes de inovações.

Economias em desenvolvimento dependem mais de adaptação e incorporação de tecnologias pré-existentes, o que lhes permite crescer a taxas maiores. Isto não significa que economias em vias de desenvolvimento não tenham setores na fronteira tecnológica. A agricultura e a indústria aeronáutica no Brasil, a indústria farmacêutica na Índia, semicondutores, inteligência artificial e painéis solares na China são alguns exemplos. Mas estes são exceções, não a regra. Continuar a ler

Fim do Social-desenvolvimentismo e do Estado de Bem-Estar Social em 2014

Bruno Villas Bôas (Valor, 27/02/19) informa: a redução do desemprego e a inflação comportada não foram suficientes para colocar a distribuição da renda do trabalho em uma rota positiva: a disparidade salarial de ricos e pobres cresceu pelo quarto ano seguido em 2018, mostram cálculos da FGV Social. O bem-estar social bateu no fundo-do-poço… e teve leve repique.

O índice de Gini da renda domiciliar per capita do trabalho foi de 0,590 em 2018 – o índice varia de um a zero, sendo zero a perfeita distribuição da renda. Trata-se de uma piora de 0,8% em relação ao ano anterior. Em 2017, a piora havia sido de 1%, vindo de pioras de 0,18% em 2015 e de 1,9% em 2016.

Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o indicador chegou a dar sinais positivos em alguns trimestres nesses últimos dois anos, mas a tendência de piora do indicador não foi interrompida ao longo do período.

Os cálculos mostram o melhor momento do indicador de desigualdade ter sido no fim de 2014 — ano final do social-desenvolvimentismo –, antes da piora do mercado de trabalho. Com a crise e seus reflexos sobre emprego e salários, a desigualdade cresceu no anos seguintes, especialmente em 2016 — ano do golpe. Continuar a ler

Debate sobre Distopia Brasileira

Meu post sobre a Distopia Brasileira despertou um debate profícuo com um leitor deste modesto blog pessoal, aqui já citado: Fábio Camargo. Dado o interesse de suas reflexões, solicitei sua autorização para postar nossas trocas de ideias a respeito do Brasil.

Professor Fernando,

Boa noite. Li seu artigo, Distopia Brasileira. Acolho suas ilações acerca do nosso futuro. Entendo que, olhando desde 2023, não é realista vermos mudança de tendência nem retomada na curva do desenvolvimento. Lá, no mais provável cenário, encontrar-nos-emos ainda atrelados aos interesses dos produtores de commodities e dos rentistas.

Todavia, eu, sinceramente, tenho minhas dúvidas quanto a consecução desse cenário. Não por divergir de sua projeção das consequências da política econômica em curso, muito pelo contrário. Mas por acreditar ou melhor dizendo, por esperar que esse governo que se avizinha não conseguirá ir em frente com o desastre, ao menos antes que ultrapasse o ponto de não retorno, the red line. Claro, exceto se a estupidez da classe média e do empresariado nacional supere minha percepção.

Tenho a expectativa de vermos, antes do fim de 2019, uma reversão na disposição em apoiar o governo e o modelo que defende ou pensa que defende porque não estou muito certo se alguém por lá sabe o que faz, quanto mais o que pensa. Já falamos sobre isso. Essa é uma variável não controlável e, portanto, imponderável. É o que nos impede de situar qualquer análise em ambiente de risco e que mantém nossas tentativas de análise na incerteza. Continuar a ler

Fatores Determinantes da Cotação do Petróleo e Exportação da Petrobras

David Sheppard e Anjli Raval (Financial Times, 12/11/18) informam: os preços do petróleo oscilaram violentamente nos últimos 30 dias, na expectativa da entrada em vigor das sanções dos Estados Unidos contra o Irã. Mas quais são os principais fatores a impulsionar as flutuações dos preços, e o que está para vir?

Da carência à abundância? Apenas um mês atrás, o petróleo bruto tipo Brent alcançou sua maior alta dos últimos quatro anos, ao superar os US$ 86 o barril, diante da preocupação dos operadores com a possibilidade de as iminentes sanções dos EUA sobre o Irã criarem desabastecimento.

Desde então, no entanto, os preços caíram 20%, em vista da reavaliação da situação pelo mercado. No dia 09/11/18, o barril fechou a US$ 70,18, com queda de 0,66%.

A produção de petróleo dos EUA subiu de maneira mais acelerada que o previsto, enquanto a Arábia Saudita, o maior exportador mundial, elevou a produção para níveis próximos ao seu maior patamar já registrado.

A Rússia e outros países também começaram a extrair o combustível, em grande medida à vontade, enquanto os EUA promoveram isenções limitadas das sanções para grandes compradores de petróleo iraniano a fim de ajudar a manter os preços sob controle.

Ao que parece, o mercado ficou, de repente, muito mais relaxado com relação à disponibilidade de petróleo bruto, e os preços, correspondentemente, perderam impulso. Mas alguns operadores estão advertindo que pode ser prematuro argumentar que o mercado de petróleo deixou seus problemas para trás. Continuar a ler