Meta Estratégica: Retomar Crescimento da Renda e do Emprego

Carlos Luque é professor da FEA­-USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA­-USP. Roberto Zagha foi professor assistente na FEA­USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Publicaram artigo (Valor, 14/02/19) sobre a meta estratégica sob o ponto de vista racional (não deste governo ideológico): retomar o crescimento da renda e do emprego.

Porém, esse autores se colocam na corrente de pensamento novo-desenvolvimentista ao apoiarem a estratégia de exportação de manufaturados via política cambial, i.é, uma moeda nacional desvalorizada. “Comme il faut“, não analisam a consequência inflacionária dessa maxidesvalorização cambial sobre o poder aquisitivo da população. Não se importam com o mercado interno ao optarem pelo “modelo asiático”, agora anacrônico — e “fora-do-lugar”!

“Uma vez que se começa a pensar no crescimento econômico, é difícil pensar em qualquer outra coisa… As consequências para o bem-estar social são simplesmente extraordinárias”. As palavras de Robert Lucas (prêmio Nobel de Economia, 1995) nos lembram da importância de recolocar o crescimento econômico como o objetivo central das políticas econômicas do país e de ter uma estratégia para torná-lo realidade. Infelizmente, esta estratégia não é ainda visível.

Os dois primeiros gráficos ilustram o atraso crescente da economia brasileira. Eles indicam o quanto o Brasil se distanciou de economias “da fronteira” como os Estados Unidos e economias emergentes. O último mostra o número de anos necessários para que a renda per capita do brasileiro alcance a do americano a diferentes taxas de crescimento.

O desempenho da Coreia, China, Cingapura e Malásia mostra o que é possível. Economias com rendas per capita mais baixas podem crescer a taxas mais rápidas do que as economias avançadas. Em economias avançadas o crescimento depende de inovações tecnológicas muito mais do que em economias em desenvolvimento, onde a acumulação de capital, incorporação de tecnologias já desenvolvidas e a incorporação do trabalho nos setores modernos da economias são fundamentais.

Economias avançadas dependem de um tipo diferente de progresso tecnológico baseado em novas formas de produção ou produtos novos. Embora todas as tecnologias sejam uma combinação de inovação e adaptação ou imitação, as economias avançadas na fronteira tecnológica são mais dependentes de inovações.

Economias em desenvolvimento dependem mais de adaptação e incorporação de tecnologias pré-existentes, o que lhes permite crescer a taxas maiores. Isto não significa que economias em vias de desenvolvimento não tenham setores na fronteira tecnológica. A agricultura e a indústria aeronáutica no Brasil, a indústria farmacêutica na Índia, semicondutores, inteligência artificial e painéis solares na China são alguns exemplos. Mas estes são exceções, não a regra. Continuar a ler

Fim do Social-desenvolvimentismo e do Estado de Bem-Estar Social em 2014

Bruno Villas Bôas (Valor, 27/02/19) informa: a redução do desemprego e a inflação comportada não foram suficientes para colocar a distribuição da renda do trabalho em uma rota positiva: a disparidade salarial de ricos e pobres cresceu pelo quarto ano seguido em 2018, mostram cálculos da FGV Social. O bem-estar social bateu no fundo-do-poço… e teve leve repique.

O índice de Gini da renda domiciliar per capita do trabalho foi de 0,590 em 2018 – o índice varia de um a zero, sendo zero a perfeita distribuição da renda. Trata-se de uma piora de 0,8% em relação ao ano anterior. Em 2017, a piora havia sido de 1%, vindo de pioras de 0,18% em 2015 e de 1,9% em 2016.

Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o indicador chegou a dar sinais positivos em alguns trimestres nesses últimos dois anos, mas a tendência de piora do indicador não foi interrompida ao longo do período.

Os cálculos mostram o melhor momento do indicador de desigualdade ter sido no fim de 2014 — ano final do social-desenvolvimentismo –, antes da piora do mercado de trabalho. Com a crise e seus reflexos sobre emprego e salários, a desigualdade cresceu no anos seguintes, especialmente em 2016 — ano do golpe. Continuar a ler

Debate sobre Distopia Brasileira

Meu post sobre a Distopia Brasileira despertou um debate profícuo com um leitor deste modesto blog pessoal, aqui já citado: Fábio Camargo. Dado o interesse de suas reflexões, solicitei sua autorização para postar nossas trocas de ideias a respeito do Brasil.

Professor Fernando,

Boa noite. Li seu artigo, Distopia Brasileira. Acolho suas ilações acerca do nosso futuro. Entendo que, olhando desde 2023, não é realista vermos mudança de tendência nem retomada na curva do desenvolvimento. Lá, no mais provável cenário, encontrar-nos-emos ainda atrelados aos interesses dos produtores de commodities e dos rentistas.

Todavia, eu, sinceramente, tenho minhas dúvidas quanto a consecução desse cenário. Não por divergir de sua projeção das consequências da política econômica em curso, muito pelo contrário. Mas por acreditar ou melhor dizendo, por esperar que esse governo que se avizinha não conseguirá ir em frente com o desastre, ao menos antes que ultrapasse o ponto de não retorno, the red line. Claro, exceto se a estupidez da classe média e do empresariado nacional supere minha percepção.

Tenho a expectativa de vermos, antes do fim de 2019, uma reversão na disposição em apoiar o governo e o modelo que defende ou pensa que defende porque não estou muito certo se alguém por lá sabe o que faz, quanto mais o que pensa. Já falamos sobre isso. Essa é uma variável não controlável e, portanto, imponderável. É o que nos impede de situar qualquer análise em ambiente de risco e que mantém nossas tentativas de análise na incerteza. Continuar a ler

Fatores Determinantes da Cotação do Petróleo e Exportação da Petrobras

David Sheppard e Anjli Raval (Financial Times, 12/11/18) informam: os preços do petróleo oscilaram violentamente nos últimos 30 dias, na expectativa da entrada em vigor das sanções dos Estados Unidos contra o Irã. Mas quais são os principais fatores a impulsionar as flutuações dos preços, e o que está para vir?

Da carência à abundância? Apenas um mês atrás, o petróleo bruto tipo Brent alcançou sua maior alta dos últimos quatro anos, ao superar os US$ 86 o barril, diante da preocupação dos operadores com a possibilidade de as iminentes sanções dos EUA sobre o Irã criarem desabastecimento.

Desde então, no entanto, os preços caíram 20%, em vista da reavaliação da situação pelo mercado. No dia 09/11/18, o barril fechou a US$ 70,18, com queda de 0,66%.

A produção de petróleo dos EUA subiu de maneira mais acelerada que o previsto, enquanto a Arábia Saudita, o maior exportador mundial, elevou a produção para níveis próximos ao seu maior patamar já registrado.

A Rússia e outros países também começaram a extrair o combustível, em grande medida à vontade, enquanto os EUA promoveram isenções limitadas das sanções para grandes compradores de petróleo iraniano a fim de ajudar a manter os preços sob controle.

Ao que parece, o mercado ficou, de repente, muito mais relaxado com relação à disponibilidade de petróleo bruto, e os preços, correspondentemente, perderam impulso. Mas alguns operadores estão advertindo que pode ser prematuro argumentar que o mercado de petróleo deixou seus problemas para trás. Continuar a ler

Cenário Promissor para o Plano Lula com Haddad

Jonathan Wheatley, um dos principais colunistas e jornalistas cobrindo mercados emergentes para o Financial Times, jornal econômico acompanhado por grande parte de O Mercado (e ex-correspondente no Brasil), afirmou em podcast (20/09/18) no jornal.

“Fernando Haddad é um moderado que governou São Paulo por quatro anos, foi fiscalmente responsável e adotou ideias progressistas para transporte público que foram apoiadas pela classe média alta. Mas vem de um partido que se radicalizou muito por causa do impeachment e, economicamente, o partido quer levar o país para onde estava oito anos atrás, com Lula, um governo de grandes gastos dependente do boom das commodities, Vai ser difícil para um governo Haddad lidar com as pressões do PT e do Congresso, que certamente será hostil ao PT. Sera um equilíbrio difícil, não sei se ele tem experiência para isso.”

Os estrangeiros formadores da opinião especializada de economistas neoliberais enxergam tudo de bom ocorrido no governo Lula tenha sido “obra e graça da sorte”, isto é, ter sido “um governo de grandes gastos dependente do boom das commodities“. Mito, mentira, ignorância. Confira acima o menor fluxo de comércio exterior em relação ao PIB do Brasil, demonstrando a maior importância relativa do mercado interno, para seu desenvolvimento, e abaixo o superávit primário de 2003 a 2013:

O cenário a partir de 2019 é otimista com o retorno de governo social-desenvolvimentista mesmo porque a taxa de inflação e a taxa de juros estarão muito menores do que estavam no início de 2003. Com políticas sociais ativas, política de crédito e investimento público, maiores gastos públicos compensados com o fim de subsídios e desonerações fiscais em benefício apenas de empresas sem contrapartida de investimentos e recebedores de lucros e dividendos, haverá retomada do mercado interno com o crescimento da renda e do emprego.

Quanto à solidez das contas externas do Brasil, nos 12 meses até agosto de 2018, o déficit em conta corrente ficou em US$ 15,5 bilhões, o que corresponde a 0,8% do PIB. É mais que o piso de 0,44% do PIB nos 12 meses até janeiro, mas está longe de ser um número alarmante. Continuar a ler

Condições Reclamadas para Retomada do Investimento Privado em Infraestrutura

Fernando Exman (Valor, 07/08/18) informa: a redução do impacto da variação cambial nos financiamentos é a principal recomendação feita por profissionais da área de infraestrutura ouvidos pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e reunidas em um estudo inédito sobre os desafios para a ampliação de investimentos no setor.

A sugestão faz parte de uma lista de 32 recomendações detalhadas no
relatório de conjuntura da SAE intitulado “Desafios ao aumento do
investimento privado em infraestrutura no Brasil“. O objetivo do órgão foi abrir um canal de diálogo com o setor privado a fim de:

  1. aprimorar as políticas públicas e
  2. atrair novos agentes para atuar no segmento.

Hoje, o Brasil necessita de um volume de recursos significativo e é preciso criar novas parcerias com investidores. Quais? Nacionais ou estrangeiros? Eles trarão recursos para aumentar a qualidade dos serviços prestados ao cidadão? Continuar a ler

20 Anos de Economia Brasileira – Atualização até 2017

Esta é a quinta edição dos Vinte Anos de Economia Brasileira, incorporando agora os dados relativos a 2017. Como já ocorreu na edição anterior, não foi possível atualizar todas as séries, especialmente na área social, onde algumas informações relevantes foram descontinuadas. Gerson Gomes e Carlos Antônio Silva da Cruz esperam essas lacunas serem sanadas no futuro, preservando o objetivo central desta publicação: contribuir para um debate qualificado sobre os problemas e alternativas de desenvolvimento do País. 

Download:  VINTE ANOS DE ECONOMIA BRASILEIRA – ATUALIZADO ATÉ 2017