Trabalho na Era da Automação

Laura Tyson, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente dos EUA, é professora da Haas School of Business da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e assessora sênior do Rock Creek Group. Publicou excelente artigo (Valor, 12/05/17) sobre a nova onda de automação.

Os avanços em inteligência artificial e robótica estão provocando uma nova onda de automação, com máquinas que combinam ou superam os seres humanos numa rapidamente crescente gama de tarefas, inclusive algumas que exigem capacidades cognitivas complexas e educação de nível superior. Esse processo superou as expectativas dos especialistas; não é de surpreender que seus possíveis efeitos negativos sobre a quantidade e a qualidade do emprego levantaram sérias preocupações.

Ouvindo o governo do presidente Donald Trump, poderíamos pensar que o comércio continua a ser o principal motivo para a perda de empregos de manufatura nos EUA. O secretário do Tesouro de Trump, Steven Mnuchin, declarou que o possível deslocamento tecnológico dos trabalhadores “sequer está na tela do radar [do governo]”.

Entre os economistas, porém, o consenso é de que cerca de 80% da perda de empregos na indústria de transformação americana nas últimas três décadas foi resultado de mudanças tecnológicas que poupam mão de obra e incrementam a produtividade, ficando o comércio em distante segundo lugar. A questão, então, é se estamos rumando para:

  1. um futuro de desemprego, em que a tecnologia deixa muita gente desempregada, ou
  2. um “bom futuro sem empregos“, no qual um número crescente de trabalhadores não pode mais auferir uma renda de classe média, independentemente de educação e habilidades.

A resposta pode ser: um pouco de cada coisa. O estudo mais recente sobre o tema descobriu que, de 1990 a 2007, a penetração de robôs industriais prejudicou tanto o emprego como os salários. Continue reading “Trabalho na Era da Automação”

Manifesto Trabalhista

Recebi uma mensagem do admirável Professor Ladislau Dowbor. Dada sua utilidade para nossa reflexão, eu a compartilho abaixo. Entretanto, desde já, advirto que penso que a esquerda deve mudar da velha tática de “combater o inimigo-do-povo”, encarnado na chamada “financeirização“, pois senão, lutando só contra esse tigre-de-papel, se tornará cada vez mais anacrônica, senão reacionária ao reagir contra o avanço da história. O capitalismo industrial não era melhor do que o capitalismo contemporâneo, denominado apressadamente de “capitalismo financeirizado“. 

A esquerda deveria dirigir seus esforços para a conquista de direitos e o exercício de deveres da cidadania. Assim, conseguirá a mudança social de modo-de-vida (e não apenas de modo-de-produção), por exemplo, diminuindo a jornada de trabalho semanal para 4 dias de 9 horas de trabalho alienante, com a manutenção dos salários e encargos trabalhistas, sobrarão 3 dias para o trabalho criativo!

Caros,

Nos últimos tempos têm aparecido trabalhos de fundo repensando o sistema. Queria aqui fazer um tipo de comentário de leitura sobre textos que têm em comum a convicção de que não se trata mais apenas do problema de Trump nos EUA, de Temer no Brasil, de Macri na Argentina, de Erdogan na Turquia, do Brexit na Inglaterra, do fato dos dois grandes partidos (socialista e republicano) que repartiram o poder na França não terem chegado, nem um nem outro, sequer ao segundo turno.

A Europa está se cobrindo de muros e cercas de arame farpado. Discute-se seriamente erguer um gigantesco muro de mais de mil quilómetros entre o México e os Estados Unidos. Os países mais poderosos estão se dotando de instrumentos sofisticados de invasão de privacidade e de controle das populações que assustam tanto pela amplitude da invasão como pela indiferença das populações.

E naturalmente o caos que se avoluma não diz respeito apenas à política e aos governos: os gigantes financeiros planetários geram um nível de desigualdade e de desmandos ambientais que tornam o mundo cada vez mais inseguro e o universo corporativo cada vez mais irresponsável. Continue reading “Manifesto Trabalhista”

Capitalismo de Estado Republicano contra Capitalismo Neoliberal de Livre-Mercado

O Instituto de Economia da UNICAMP recebeu o maior evento de Economia Política do Brasil. Mais de mil pessoas se inscreveram no XXII Encontro Nacional de Economia Política (ENEP) que aconteceu entre os dias 30 de maio e 02 de junho. Nos debates de trabalhos de pesquisa de dados e uso analítico de teorias e conceitos para pensar “fora-da-caixa” do mainstream neoliberal, que monopoliza todo o espaço na mídia brasileira, novos ângulos das mais importantes questões nacionais foram apresentados.

No Grupo de Trabalho sobre Economia Política e Macroeconomia, em debate plural e livre, deu-se um passo adiante da Economia Positiva – o que é – para se esboçar propostas de Economia Normativa – o que deveria ser. Partiu-se do consenso social do “primeiramente, fora Temer” para as trocas de ideias sobre um possível programa eleitoral à espera de um candidato de oposição. Mas, desta vez, com a vantagem de usar as lições negativas da experiência social-desenvolvimentista brasileira para superá-las, retomando tudo o que foi positivo, por exemplo, uma política social ativa.

A linha-de-partida é a verificação que sem maioria qualificada no Congresso Nacional não se conseguirá a reversão da PEC dos gastos fiscais que pretende imobilizar quaisquer experiências de atuação anticíclica do Estado brasileiro contra a atual Grande Depressão econômica. Na verdade, esta é a prioridade número um: retomar um crescimento sustentado da renda e do emprego. Ao eleitorado com 14 milhões de desempregados, cujo multiplicador afeta pelo menos 60% dos domicílios brasileiros, interessa antes-de-tudo isso. O programa econômico se dedicará, prioritariamente, a lhes oferecer ocupações e não a cortar direitos trabalhistas como age o atual governo golpista sustentado pela dupla PMDB-PSDB e partidos satélites conservadores. Continue reading “Capitalismo de Estado Republicano contra Capitalismo Neoliberal de Livre-Mercado”

Tortura de Números para O Brasileiro Confessar Amor pelo Livre-Mercado!

Professores da EPGE-FGV, como Pedro Cavalcanti Ferreira, Renato Fragelli Cardoso e Armando Castelar, continuam sua campanha canhestra em busca de “erradicação do mal pela raiz”, para eles, retirar o Estado da cena brasileira! Os sábios neoliberais não hesitam em torturar números, torcer ideologicamente e distorcer a história brasileira em suas costumeiras panfletagens no jornal onde escrevem sob encomenda para seu público-alvo — a casta dos mercadores.

Dizem, por exemplo, que no estertor do regime militar ditatorial, sob decisões de políticas econômicas tomadas por Delfim Neto, “em 1980, estagnação não era um destino inescapável. Foi uma escolha. Tome-se o exemplo de dois países que, no pós-guerra, eram semelhantes ao Brasil: Chile e Coreia do Sul. A figura acima apresenta as trajetórias dos produtos por trabalhador desses dois países, do Brasil e de um Brasil imaginário, denominado “BrasilQDC” – o Brasil que poderia ter dado certo.

Em 1950, o Chile era cerca de 60% mais produtivo que o Brasil, mas foi alcançado pelo Brasil no começo dos anos 1980. Hoje, entretanto, o produto por trabalhador chileno é quase o dobro do brasileiro. Até o início dos anos 1980, a Coreia do Sul era mais pobre e menos produtiva que o Brasil, mas hoje sua produtividade média é uma vez e meia a brasileira. O Brasil ficou muito para trás.

[Curiosamente, entrou no ranking dos dez maiores PIBs mundiais ao contrário dos outros citados países.]

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Assimetria da Política Monetária de Juros

“Política monetária é como mola, serve para puxar, mas para impulsionar não é de grande valia”.

“Política monetária é como corda: você laça o touro, mas se ele se volta contra você, ela não serve para retrocedê-lo”.

“Controlar a economia com a política monetária é o mesmo que segurar um tigre por seu rabo”.

“Enxugar a liquidez da economia é o mesmo que enxugar gelo”.

“Você pode levar o cavalo à fonte, mas não pode obrigá-lo a beber, assim como pode dar liquidez à economia, mas não consegue expandi-la”.

O que há de comum entre essas metáforas? Todas tratam do papel assimétrico exercido pela política monetária e creditícia, no controle e na criação de liquidez, para o sistema econômico. Essa política, no sentido contracionista, sem dúvida, tem o significado de contrair a liquidez real, se, efetivamente, limita a capacidade de criação de poder de compra ex-nihilo pelos bancos. Mas a política monetária e creditícia expansionista pode não expandir a liquidez do sistema, se não forem acompanhadas de decisões de gastos dos agentes econômicos.

O Brasil experimentou recentemente juro real muito menor que o vislumbrado pelos “economistas videntes” agora e, nem por isso, assistiu a um ciclo consistente de crescimento. Em 2012, no mais profundo ciclo de alívio monetário do país, o juro real ficou perto de 2%. No ano seguinte, o PIB cresceu 3%. Mas esse movimento não se sustentou por causa da seca (quebra de oferta) e do golpismo alarmista: em 2014, a economia avançou apenas 0,40%, com juro real perto de 4%. Com sua elevação, para algo em torno de 8% aa, mostrou contração de 3,77% em 2015 e repetiu a queda em 2016, acumulando -7,2% em dois anos.

Esse episódio confirma que juros baixos não contratam, necessariamente, crescimento, embora juros altos contraiam a economia. A combinação de inflação sem controle e baixa confiança na política monetária e, principalmente, na fiscal é dado como explicação macroeconômica ortodoxa — O Estado e não O Mercado é sempre a causa perversa — para a incapacidade da atividade de responder ao estímulo monetário. Isto é “meia-verdade” se não se observa as expectativas microeconômicas relacionadas a fatores objetivos como grau de endividamento, queda de vendas e lucros, capacidade produtiva ociosa, carência de inovação tecnológica, etc.

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Decisão de Investimento: Exigência de Estabilidade Regulatória, Institucional e Política

Quando eu estava na Diretoria Executiva da FEBRABAN, entre 2003 e 2007, representando a Caixa Econômica Federal, escutei de um grande banqueiro brasileiro:  — “Que diferença! Eu já não aguentava mais aquele lenga-lenga do Pedro Malan… Eu quero é isto: o governo me diga claramente o que pode e o que não pode. E que não mude as regras durante o jogo. Senão, caso eu tenha prejuízo, não terei como me justificar perante meus acionistas estrangeiros”.

No entanto, voltou o reformismo neoliberal pró ativo, ou melhor dito, pró mercado. Desta feita, usa o oportunismo de maneira mais apressada, pois sabe que será apeado do Poder Executivo na próxima eleição presidencial. O que ele cria é apenas instabilidade regulatória, institucional e econômica.

Victória Mantoan e Fernanda Pires (Valor, 05/05/17) informam que, enquanto o governo temeroso testa modelos para impulsionar os investimentos em infraestrutura com atração do capital estrangeiro, investidores e especialistas têm um consenso sobre o ponto mais sensível na tomada de decisão para entrar ou não em um projeto do setor no Brasil: estabilidade regulatória. Tanto em âmbito federal como nos Estados.

Outras questões, como alternativas de financiamento, mecanismos de seguro cambial, alocação de risco, ainda que sejam consideradas importantes, aparecem depois da regulação.

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Necessidade de Infraestrutura e Indiferença Passiva Governamental: Queda do Investimento Público

Roberto Rockmann (Valor, 05/05/17) avalia que, para reduzir as deficiências na área de infraestrutura, a saída para o Brasil e outros países da América Latina não é gastar mais na área, mas investir melhor e nos setores certos. Os países da América Latina, incluindo o Brasil, investem 2,8% do PIB em infraestrutura, menos que os 7,7% do Sudeste Asiático ou dos 6,9% do Oriente Médio.

A crise fiscal terá impacto sobre a região, em que um terço do financiamento à infraestrutura é oriundo de entidades públicas e metade dos contratos com o setor privado exige garantias de entes estatais. A restrição nos orçamentos torna difícil enxergar um acréscimo dos investimentos em infraestrutura acima de 3% do PIB nos próximos anos na região. Aqui não há iniciativa privada!

Para reduzir o déficit de infraestrutura, será preciso seguir duas estratégias:

  1. assegurar que o gasto seja bem orientado e
  2. que ele seja eficiente.

Essas duas conclusões são lugares-comuns típicos de estudo do Banco Mundial, no caso, o “Repensando a infraestrutura na América Latina e Caribe”, divulgado no dia 4 de maio de 2017 em São Paulo durante o seminário “Infraestrutura na América Latina e no Caribe – Experiência e lições de políticas para o futuro“.

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