Parasita

Esta resenha escrita por Pedro Butcher (Valor 08/11/2019) contém spoiler. Porém, eu a reproduzo abaixo para quem já assistiu o inusual filme — mistura de gêneros com comentários sociais críticos — e como recomendação de assistir para quem ainda não teve a oportunidade de assisti-lo.

“Vivemos um tempo de extremos, não muito apropriado às sutilezas. Se polarizações demandam paciência para manter a sanidade, exigem, também, um posicionamento. É preciso saber de que lado se está.

Um ambiente assim representa um desafio especial para quem trabalha com cinema. Não deixa de ser extremamente significativo que, em 2019, o circuito comercial tenha recebido três filmes com respostas à altura para os desafios de tempos extremos: o brasileiro “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; o americano “Coringa”, de Todd Philips, e, agora, o coreano “Parasita”, de Bong Joon-ho.

São trabalhos que não podem ser propriamente chamados de sutis, mas que, dentro de um quadro que exige uma tomada de posição evidente, as sutilezas se fazem ver de outras maneiras.

“Bacurau”, “Coringa” e “Parasita” são “diretos” e “simples” no que querem dizer e, ao mesmo tempo, complexos em suas estruturas. Em alguns momentos, chegam a causar espanto detalhes que os filmes trazem em comum, como certos traços de comportamento de personagens, a importância que os objetos ganham na narrativa, o uso pontual da música e, no caso dos filmes brasileiro e coreano, as referências aos EUA. Todos são também atualíssimos, mas recorrendo a um fazer cinematográfico que remete a outra época (os anos 70, em especial).

O mais forte elo entre os filmes é uma visão política que aborda, de maneiras distintas, a luta de classes. Em “Parasita”, tudo começa quando o jovem filho de uma família pobre consegue trabalho como professor particular de uma jovem filha de família rica. A família pobre, cujos pais estão desempregados e os filhos estão fora da universidade por falta de dinheiro, aos poucos passa a fazer parte do corpo de empregados da família rica. Continuar a ler

Origens dos EUA, o Coringa e o Ocaso da Supremacia Branca (por Franklin Frederick)

«Nas raízes do capitalismo encontram-se não apenas a escravidão e a supremacia branca, mas também o ‘ethos’ do gangster.» (Gerald Horne)

O filme ‘Coringa’ apresenta um fenômeno contemporâneo presente em vários países, mas que só pode ser compreendido em sua complexidade através da história das origens dos EUA.

O historiador Afro-Americano Gerald Horne argumenta no livro ‘The Counter- Revolution of 1776: Slave Resistance and the origins of the United States of America’ que o movimento pela independência dos EUA nasceu, por um lado, do receio das classes ricas da colônia de um crescente movimento abolicionista na metrópole, a Inglaterra, que poderia acabar com a base de sua riqueza – os escravos. Por outro lado, a Inglaterra também impedia o avanço dos colonos para o oeste, que deveria permanecer como território indígena. Para Horne, a guerra pela independência dos EUA  foi em parte uma ‘contra-revolução’ liderada pelos ‘pais fundadores’ com o objetivo de preservar o seu direito de escravizar outros povos, sobretudo africanos, e de continuar a expandir a jovem nação para o oeste, roubando mais terras dos povos indígenas onde implantar mais trabalho escravo.

Em um outro livro, ‘The Apocalypse of Settler Colonialism: The Roots of Slavery, White Supremacy and Capitalism in 17th Century North America and the Caribbean’, Horne resumiu assim este processo:

«(…) em 1776, eles (os pais fundadores ou a elite econômica da colônia) deram o último golpe e exibiram o seu novo patriotismo ao expulsar Londres (o poder colonial) das colônias ao sul do Canadá, convencendo os iludidos e ingênuos – até hoje – de que esta pura manobra para se apossar de terras, escravos e lucro tenha sido de alguma maneira um grande salto adiante para a humanidade.»

Neste contexto ocorreu um outro processo de relevância fundamental para os dias de hoje: o nascimento do poderio militar dos EUA. O exército dos EUA teve sua origem na guerra pela independência contra os britânicos, que foi também uma guerra contra a imensa maioria de escravos africanos que se aliaram ao Império Britânico – que prometeu a sua liberdade – e contra os muitos povos indígenas que também se aliaram aos britânicos – conscientes do que viria à seguir para eles assim que a nova república se tornasse independente. E com efeito, logo após a vitória contra os britânicos e a paz estabelecida, o recém criado exército dos EUA  engajou-se em sua nova tarefa: a guerra genocida contra os povos indígenas para garantir a expansão territorial da nova república. Continuar a ler

Alegoria a um Populista de Direita

Confira cenas do filme ‘Silvio e os Outros’

Agora, quando estamos convivendo novamente com a cultura brega de um populista de direita ocupante do cargo maior da República, vale assistir o filme do cineasta italiano Paolo Sorrentino com espécie de alegoria à biografia do ex-primeiro-ministro e magnata das telecomunicações Silvio Berlusconi.

Silvio e os Outros”  é o título no Brasil para o original franco-italiano: “Loro“.

Suas festas “bunga-bunga”, com multidões de prostitutas  seminuas, parecem moldadas para as sequências em câmera lenta de hedonismo e exuberância visual pelas quais o diretor ganhou fama com “A Grande Beleza”, vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2014.

Originalmente dividido em duas partes, foram reunidas em 151 minutos (2:30 h) na cópia disponível na web. Cobre o período entre 2006 e 2010, um ano antes de Berlusconi renunciar ao segundo mandato como primeiro-ministro.

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Todos sabem: ex-emprego e ex-amor

Todos sabem: o maior problema brasileiro no presente não é a reforma da Previdência Social. Este será um grande problema no futuro. O maior desafio atual é a retomada do crescimento da renda e do emprego. Mas a respeito disso o governo do capitão-miliciano não toma nenhuma providência. É obsessivo com a previdência – e “o PT”.

Todos sabem: a taxa de desocupação (12,4%) no trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2019 representa uma enorme população desocupada (13,1 milhões). Em média, 1/5 das famílias brasileiras têm problema com desemprego de um de seus três membros, provavelmente, a do chefe de família.

Todos sabem: a idade média da população e a estagnação econômica do país dificultam a recolocação profissional. O tempo passa e cada vez mais o desempregado vê também amigos, vizinhos ou parentes sem emprego. Bate o desespero. É um melodrama social.

Todos sabem: o gasto público deve substituir o gasto privado quando as expectativas empresariais estão pessimistas, mesmo incorrendo em maior déficit e endividamento público. A retomada do crescimento do PIB, puxado pelo investimento estatal, reverte essas expectativas e, mais adiante, eleva a arrecadação fiscal e as folhas de pagamento, aumentando também as contribuições previdenciárias.

Todos sabem: fazer ajuste fiscal com base em corte de gastos públicos e corte de salários é um equívoco. Em visão imediata, corta custos, mas ao mesmo tempo corta a demanda agregada. Este sofisma da composição revela mais uma vez: “o que é bom para as partes nem sempre é positivo para o todo”. A lógica individual não é a mesma do coletivo. Continuar a ler

Vice

Uma resenha do filme “Vice” (concorrente a 8 prêmios Oscar, inclusive como melhor filme e melhor ator principal) da Folha de S.Paulo critica o diretor Adam McKay (“A Grande Aposta” em 2015) porque ele teria ficado “obcecado em desancar a direita americana, valendo-se de certa estridência e, não raro, de algum maniqueísmo”.

Ora, ora, ora, os fatos ainda estão na memória recente. Caberia ao crítico apenas dizer se foram falseados ou não nesse filme interpretativo de fatos reais. Dick Cheney foi o 46º vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo George W. Bush, filho de ex-presidente, de janeiro de 2001 a janeiro de 2009. Ele foi a figura-chave na imperial política externa americana no período.

A partir de mentiras, aproveitando-se do clima de comoção pelo ataque às “duas torres gêmeas”, em NYC, estimulou uma “Guerra ao Terror” contra o Iraque. O impacto nas cotações do petróleo era favorável aos seus apoiadores. Elaborou os falsos argumentos sobre uma pressuposta conexão entre o regime de Saddam Hussein e a Al-Qaeda, assim como a existência de armas de destruição em massa no Iraque.

Desde 11 de setembro de 2001, os EUA tentaram impor essa estratégia de vingança ao resto do mundo, mas só conseguiu apoio do submisso primeiro-ministro inglês Tony Blair. Em março de 2003, ele decidiu em conjunto com o presidente norte-americano George W. Bush atacar o Iraque. Enviou tropas britânicas, conjuntamente com os militares norte-americanos, para depor Saddam Hussein.

O filme mostra filmes e fotos da época das invasões do Afeganistão e do Iraque, mostrando o bombardeio indiscriminado a civis, assim como a tortura humilhante de suspeitos na base de Guantánamo. Cheney aprovou e defendeu tal política. Continuar a ler

O Abraço da Serpente

Assisti no aplicativo Telecine este filme argentino-colombiano-venezuelano, totalmente original, cujos protagonistas são nativos da América pré-colombiana. INDICADO AO OSCAR 2016: FILME ESTRANGEIRO. Passa-se na Amazônia colombiana. O último sobrevivente de uma tribo trabalha com dois exploradores estrangeiros ao longo de 40 anos. Juntos, supostamente, eles buscam “uma rara planta medicinal”.

Karamakate, outrora um poderoso xamã da Amazônia, é o último sobrevivente de seu povo. Vive em isolamento voluntário nas profundezas da selva.

Os anos de solidão absoluta o tornam vazio, privado de emoções e memórias. Sua vida sofre uma reviravolta quando chega ao seu esconderijo remoto Evan, um etnobotânico alemão em busca da Yakruna, uma poderosa planta capaz de ensinar a sonhar.

O xamã decide acompanhar o estrangeiro em sua busca. Juntos embarcam em uma viagem ao coração da selva amazônica, onde passado, presente e futuro se confundem, fazendo-o aos poucos recuperar suas memórias. Essas lembranças trazem uma dor profunda capaz de libertar Karamakate quando ele transmitir o conhecimento ancestral que antes parecia destinado a perder-se para sempre.

Com essa narrativa on the road (em canoa por afluentes amazônicos) o filme com belíssima fotografia preto-e-branco vai fazendo comentários sobre a cultura de posse dos brancos e desapropriação da cultura nativa. O contexto é o da Guerra Mundial quando o extrativismo estrangeiro da borracha levava a escravidão ou a morte aos nativos

Em tempos de assassinato coletivo em plena Igreja Católica e assédio sexual, estupro, crime com base no constrangimento a relações sexuais por meio de violência ou grave ameaça religiosa, violação, ou qualquer ato libidinoso contra a vontade da vítima, em nome de João de Deus, recomendo a reflexão.

Veja emO Abraço da Serpente

Filme Extraordinário e Belíssimo: Loving Vincent

Assisti, ontem à noite, um filme extraordinário. Pela inovação estética, eu o coloco ao lado do filme chinês Eu não sou Madame Bovary  como um dos (poucos) filmes que me impressionaram, emocionalmente, no período recente.  É uma animação realizada a partir de pinturas sobre filmagem! Os quadros de Van Gogh ganham vida, isto é, movimentação!

“Loving Vincent” reúne cerca de 65 mil pinturas inspiradas no mestre holandês. A história se baseia nas centenas de cartas escritas por Van Gogh ao seu irmão Theo e retrata o último ano de vida do pintor, os problemas psíquicos seguidos de seu suicídio.

Download do filmeTorrent de Loving Vincent

Legenda:  Legenda de Loving Vincent

Pouca gente sabe, mas a música Vincent (Starry, Starry Night), escrita por Don McLean nos anos 70, que é tocada no fim do filme, é um atributo a Vincent Van Gogh. O título da canção refere-se ao quadro “Starry Night” (Noite Estrelada), uma das mais famosas pinturas do artista holandês, e descreve diferentes quadros do pintor. O compositor escreveu a letra após a leitura da biografia de Van Gogh.

Na tela, Van Gogh retratou a vista que tinha à noite da janela de seu quarto, durante seu confinamento no Hospital Psiquiátrico Saint-Paul de Mausolée Asylun. Ao contrário de muitas outras de suas obras, “Noite Estrelada” foi pintada de memória, durante o dia.

Starry Night” serviu de inspiração para Don McLean compor a canção que homenageia Vincent Van Gogh. Continuar a ler