Dica para Cinéfilo: “Eu não sou Madame Bovary”

Eu curto muito todos os filmes realistas sobre a China contemporânea do diretor chinês Jia Zhangke. Ele é geralmente considerado como a figura de proa da “sexta geração” do cinema chinês, grupo que inclui também os realizadores Wang Xiaoshuai e Zhang Yuan.

Os primeiros filmes de Zhang Ke, uma triologia inspirada na sua província natal Shanxi, foram feitos fora dos apoios estatais chineses, e são, por isso, considerados filmes independentes. A partir de 2004, o prestígio de Zhang Ke aumentou, tendo lhe sido permitido filmar o seu quarto filme, em inglês The World, com apoio do Estado.

Os filmes de Jia Zhang Ke têm recebido louvor crítico e obtido reconhecimento internacional, o mais notável dos quais o prémio máximo no Festival de Veneza para o filme Still Life, de 2006. Tem sido descrito por alguns críticos e cineastas como possivelmente “o cineasta em atividade mais importante do mundo”. Em 2015, foi lançado Jia Zhang Ke: Um Homem de Fenyang, documentário sobre a vida e a obra cinematográfica do chinês através do olhar do cineasta brasileiro Walter Salles.

Eu não conhecia o trabalho de Feng Xiaogang, nascido em 1958 em Pequim (China) — foi uma descoberta para mim eu assistir ontem seu filme “Eu não sou Madame Bovary”. Ele é diretor de cinema, roteirista e ator chinês. Ele é bem conhecido na China como sendo um cineasta comercial altamente bem-sucedido, cujos filmes de comédia vão consistentemente bem nas bilheterias, embora o Feng tenha ido além desse gênero, passando a fazer recentemente também filmes de drama ou drama de época. Continue reading “Dica para Cinéfilo: “Eu não sou Madame Bovary””

Mulheres como Protagonistas

Recebi um convite interessante de Davi Carvalho, o designer/coordenador do novo Portal do IE-UNICAMP — visite-o: Portal do IE-UNICAMP. Escreverei, mensalmente, um artigo sobre minha experiência docente de reunir Cinema, Literatura e Música para ensinar Economia. Reproduzo o primeiro abaixo.

“Depois de oferecer quatro vezes uma disciplina eletiva no curso de graduação do IE-UNICAMP sob o título Economia no Cinema, em que focalizei o desenvolvimento mundial, ofereci no 1o. semestre de 2017 um curso denominado “Economia no Cinema: Cidadania e Cultura Brasileira”. Seu objetivo foi debater respostas apresentadas pelo cinema nacional e pela MPBE – Música Popular Brasileira sobre Economia à pergunta-chave: que país é este?

Os alunos e eu discutimos a dependência da trajetória brasileira, configurada através das interações entre diversos componentes de um sistema complexo, destacadamente, os direitos da cidadania (civis, políticos, sociais, econômicos e das minorias), conquistados ao longo da História do Brasil. Infelizmente, os deveres educacionais, culturais e comportamentais éticos e democráticos de todos os cidadãos ficaram relegados a segundo plano. Propiciarão essas interações a emergência de uma democracia socioeconômica e política?

O método didático adotado foi debater se as ideias abordadas pelos filmes ou por músicas são representativas (ou não) de distintas interpretações sobre o Brasil, aprendidas por leituras prévias da historiografia brasileira clássica, ou se são expressões de sentimentos populares a respeito de temas econômicos. Assim, estimulados por empatia, os estudantes obtiveram a apropriação intelectual dos temas apresentados. Continue reading “Mulheres como Protagonistas”

O Que Você Faria? El Método

Assisti o extraordinário filme-teatral, O Que Você Faria? / El Método, há dez anos, no cinema localizado no aeroporto de Brasília, quando ainda lá trabalhava. Já o revi e comentei com turma de alunos, pois se trata de uma experiência que a maioria dos recém-formados enfrentará: um método de seleção de pessoal pelo RH (Recursos Humanos) de empresas ou, no politicamente correto, “gestão de pessoas”

Sete executivos disputam uma vaga em uma empresa em Madri (Espanha). No mesmo dia, uma reunião do G-8 faz com que as ruas da capital espanhola sejam ocupadas por violentos manifestantes. Mesmo assim, os candidatos participam da seleção, cujas provas são elaboradas baseadas no chamado Método Grönholm. Fechados em uma sala, os candidatos têm de descobrir quem é o agente da empresa infiltrado entre eles, entre outras provações.

Seu roteiro é baseado em uma peça teatral, então, tudo praticamente se desenrola em um único ambiente. O confronto de ideias é intrigante!

Veja acima o longa metragem (1h52min).

Título no Brasil: O Que Você Faria?
Título Original: El Método
País de Origem: Argentina / Espanha / Itália
Gênero: Drama
Classificação etária: 14 anos
Tempo de Duração: 117 minutos
Ano de Lançamento: 2005
Estreia no Brasil: 18/08/2006
Estúdio/Distrib.: Art Films
Direção: Marcelo Piñeyro

Jornalismo Investigativo no Cinema

Reportagens no Cinema

Elaine Guerini (Valor, 02/09/16) conta que, quando filmava “Se Beber, Não Case! Parte II” (2011), em Bangcoc, o cineasta Todd Phillips recebeu um artigo que seria publicado na revista “Rolling Stone“. Escrito por Guy Lawson, a reportagem “Arms and the Dudes” (As Armas e os Caras) contava a trajetória de dois negociantes inexperientes que fizeram fortuna com contrato assinado com o Pentágono para fornecimento de armas na Guerra do Iraque. “Percebi na hora que o caso precisaria ser retratado nas telas. Contando, ninguém acreditaria”, diz o diretor americano.

Batizada de “Cães de Guerra“, a adaptação dos eventos ocorridos em 2007 reforça uma tendência da indústria de cinema em procurar tramas no jornalismo. “Mark Gordon, o produtor que me enviou o artigo da ‘Rolling Stone’, é um caçador de histórias. Não sei como ele consegue ler as reportagens antes de chegarem às bancas”, diz Phillips, ao Valor, em Las Vegas.

Cães de Guerra” encabeça uma nova leva de filmes hollywoodianos inspirados em textos jornalísticos. A prática já resultou em produções de sucesso, como “Argo” (2012), vencedor do Oscar de melhor filme, “O Informante” (1999), “Os Gritos do Silêncio” (1984) e “Um Dia de Cão” (1975), indicados ao prêmio máximo da Academia (veja quadro acima com as principais produções).

A demanda por histórias “de impacto, emocionantes e provocadoras” encorajou a dupla de jornalistas americanos Joshua Davis e Joshuah Bearman a criar uma revista digital. Concebida como plataforma para histórias reais com potencial de adaptação, “Epic” foi lançada em 2013, após a consagração de “Argo” – dirigido por Ben Affleck, o filme foi inspirado em artigo escrito por Bearman. A operação para resgatar clandestinamente seis diplomatas americanos de Teerã, durante a Revolução Islâmica (1979), foi narrada no texto “The Great Escape” (A Grande Fuga), publicado na “Wired“, em 2007.

“A ‘Epic‘ foi a maneira que encontramos de apoiar o jornalismo investigativo“, diz Joshua Davis. Mais de 25 artigos da dupla já ganharam adaptações. “Todas as histórias podem ser lidas gratuitamente no nosso site [http://epicmagazine.com], para o qual não vendemos assinaturas ou mesmo espaço publicitário. Para o cinema, nosso acervo é visto em primeira mão pelo estúdio da Fox. Para TV, temos acordo com o canal A&E.”

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Melhores Séries Adultas da TV

Atualmente, em conversa de classe média, checamos uns com outros quais séries de TV cada qual assistiu ou está assistindo.

Já assisti tantas que minha memória periférica (para nomes) costuma falhar quando tento lembrar das melhores. Resolvi agora pesquisar na web e sistematizar para minha memória sistêmica (para temas entrelaçados).

O site Oficina da Net lista as 10 melhores séries disponíveis na Netflix, segundo nota do IMDb. Utiliza a avaliação do IMDb como parâmetro, por ele ser um dos maiores sites do mundo sobre cinema e produções televisivas, onde milhares de usuários e críticos dão notas ao que estão assistindo.

Mas a definição de “melhor” é muito subjetiva. Das séries de TV que já assisti com temas adultos, envolvendo política, geopolítica e costumes sociais de época,  poucas das que eu recomendo estão na avaliação do IMDb que apresento depois de minha lista abaixo.

Dica: veja na Netflix – Séries – TV Britânica Continue reading “Melhores Séries Adultas da TV”

Era do Aquarius

E quem me ofende, humilhando, pisando,

Pensando que eu vou aturar…

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida,

Duvida que eu vá revidar…

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

A “geração 68” é composta pelos filhos do baby-boom do pós-guerra. No Estados Unidos, foi a primeira geração a conquistar o direito à massificação do Ensino Superior. A casta dos guerreiros – os oficiais da II Guerra Mundial – foi recompensada com o ensino público gratuito. Mas a aliança das castas dos sábios-tecnocratas e dos trabalhadores contra essa casta dos guerreiros se fez valer: depois do warfare-state veio o wellfare-state.

O Estado de Bem-Estar da Europa, lá conquistado pela aliança de lideranças sindicalistas com lideranças políticas socialdemocratas, passou a ser um modelo (“sonho”) almejado pela juventude das Américas. Parte era crítica ao “reformismo” e desejava “pular etapa”, saltando diretamente para a revolução socialista: Cuba é aqui! Outra parte percebeu que a defesa da democracia é o maior valor face ao totalitarismo ou autoritarismo.

A “geração hippie” foi um protesto pacifista contra a sociedade materialista-consumista e a nova convocação para “a morte pela pátria”, nos anos 60, pela casta dos guerreiros, desta vez aliada com a casta dos sábios-tecnocratas. Esta golpeou, como é praxe, a aliança anterior.

Dessa ruptura, no entanto, nasceu a dissidência de uma casta de trabalhadores criativos na indústria de informática – a geração Apple – que almejava não o fim da sociedade do consumo, mas sim o respeito ao direito dos consumidores a comprar produtos úteis. Criou a rede social de inter-relacionamentos mundiais. Na casta dos comerciantes também há dissidentes, que com tolerância e liberalismo cultural, podem se aliar às castas dos trabalhadores com ceticismo face ao livre-mercado e sábios-pregadores não conservadores que buscam autonomia e autoexpressão.

Para entender a geração censurada, nos anos 1964-1984, tem de se perceber como ela se expressava através de letras de músicas brasileiras e o som do rock internacional. Sua trilha-sonora é fundamental. Simbólica daquela geração foi a ópera-rock Hair. Quem viveu os anos 70 não se esquece da gravação de Aquarius/Let’s The Sunshine In pelo grupo The Fifth Dimension. Cantavam:

Harmonia e compreensão

Simpatia e confiança em abundância

Não mais falsidade ou escárnio

Visões de sonhos vivos e dourados

Revelação do cristal místico

E a verdadeira libertação da mente

Aquarius!

Aquarius!

Quando mudava o ritmo e a letra para Let’s The Sunshine In, sentia-se um frio na espinha, tremor na pele e quase lágrimas nos olhos…

Oh, deixe-o brilhar, c’mon

Agora todo mundo só canta junto

Deixe o sol entrar

Abra seu coração e deixe-o nele brilhar

Quando você estiver sozinho, deixe-o brilhar

Tem que abrir seu coração e deixá-lo nele brilhar

E quando você sente como se tivesse sido maltratado

E seus amigos se afastam

Basta abrir o seu coração e deixá-lo nele brilhar

aquarius1

Minha leitura do imperdível filme de Kleber Mendonça – Aquarius –, aliás seu segundo longa-metragem e na mesma trilha do brilhante primeiro (“O Som ao Redor”), é que ele não só é um retrato social do Brasil contemporâneo, mas também é uma amostra da superação do conflito de gerações pelo verdadeiro conflito de interesses reais entre as castas brasileiras. Continue reading “Era do Aquarius”

Jogo do Dinheiro

Meu passatempo ontem foi assistir o filme “Jogo do Dinheiro” [Money Monster; 2016], estrelado por George Clooney e Julia Roberts e com direção de Jodie Foster. George Clooney interpreta um midiático conselheiro de Finanças Pessoais, Lee Gates, o “mago das finanças” do programa Money Monster, que dá aconselhamentos levianos em busca de um pouco mais de audiência. Patty Fenn, a diretora de TV interpretada por Julia Roberts é a sua consciência, colocando-se entre o apresentador e Kyle Budwell (Jack O’Connell), o desesperado investidor “homem-comum” que invade o cenário com uma arma em mãos e dois coletes recheados de bombas. O verdadeiro alvo é Walt Camby (Dominic West), magnata que acaba de perder US$ 800 milhões em função de uma suposta falha nos algoritmos de sua estratégia de investimentos.

Ninguém sabe bem do que se tratam os algoritmos, mas os investidores amadores não se acautelam, ainda mais sob o impulso de alguma “celebridade descerebrada”, dando “os argumentos de autoridade” para aqueles que necessitam de alguma justificativa para confirmar decisões já tomadas, inspiradas apenas na pura ganância. Alguns ganharam alguma coisa – ou conhecem alguém que também deu sorte em aposta de renda variável – e seguem a tendência. O comportamento de manada dá a valorização para algum dado ativo. Com oferta delimitada, sua cotação sobe e transforma-se em profecia auto-realizada!

Na hora da perda, os pobres investidores reclamam. Por que não na hora do ganho?

Bem, a moral da história, para investidores das castas brasileiras, é que “somos felizes e sabemos”! Nada melhor do que capitalizar nossos investimentos financeiros em renda pós fixada com o maior juro real do mundo sem risco ! Continue reading “Jogo do Dinheiro”