Ensino de Economia: aprendendo a lidar com o mundo real desde o início dos cursos

A revista The Economists (Sep 21st 201) reconhece que os economistas podem ser vistos como um grupo arrogante. Mas uma década de trauma teve um efeito de castigo. Eles estão repensando ideias antigas, fazendo novas perguntas e, de vez em quando, acolhem os hereges de volta à linha principal. A mudança, no entanto, foi lenta para alcançar o currículo econômico da universidade.

Muitas instituições ainda bombeiam os alunos através de cursos introdutórios não sustentados pela história econômica recente ou as deficiências de O Mercado que ilumina. Alguns poucos reformadores estão trabalhando para corrigir isso: é uma grande ideia, embora atrasada. Revolucionar o modo como a economia é ensinada deve produzir estudantes mais capazes de entender o mundo moderno. Ainda melhor, deveria melhorar a própria economia.

Pode ser uma triste ciência, mas a Economia é popular no campus. Isso representa mais de 10% dos diplomas concedidos em universidades de elite a cada ano, em uma estimativa [não no Brasil, que forma cerca de 6.000 economistas por ano], e muitos outros alunos fazem uma disciplina introdutória como parte de seus requisitos de educação geral. Continue reading “Ensino de Economia: aprendendo a lidar com o mundo real desde o início dos cursos”

Educação no Brasil versus na OCDE

Ligia Guimarães (Valor, 13/09/17) informa que a rotina do professor brasileiro envolve salários mais baixos e salas mais cheias quando comparada a outros países. Apesar disso, a escolha pela carreira de professor entre os jovens brasileiros que se formam no ensino superior é maior que a média verificada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico ou Econômico (OCDE).

No Brasil, o índice de alunos que abandonam o ensino médio é o dobro da média do bloco. Quem consegue se formar, no entanto, tem empregabilidade e recompensa salarial maiores na comparação internacional.

Há dualidade também no investimento em educação:

  1. o gasto representa % do Produto Interno Bruto (PIB) maior que a dos países da OCDE;
  2. o investimento por aluno brasileiro, no entanto, ainda está bem abaixo ao da média dos países do bloco.

Essas contradições da educação brasileira estão expostas no relatório “Education at a Glance 2017”, divulgado pela OCDE. Ele reúne dados sobre a educação nos 35 países que compõem o bloco, mais parceiros como Brasil e Rússia.

Education at a Glance 2017 – download:

Um Novo Modo de Ensinar Economia

 

John Cassidy (The New Yorker, 11/09/17) informa que, com o início de novo ano letivo, na América do Norte, há uma boa notícia para os estudantes ingressantes em curso de Economia – e qualquer outra pessoa que queira aprender sobre questões como a desigualdade, a globalização e as formas mais eficientes de enfrentar a mudança climática. Um grupo de economistas de ambos os lados do Atlântico, fazendo parte de um projeto chamado Core Econ, organizou um novo currículo de Introdução à Economia, que é moderno, abrangente e disponível gratuitamente online (clique para download no link verde).

Nos Estados Unidos, muitas faculdades encorajam os estudantes da Econ 101 a comprar (ou alugar) livros didáticos caros, que podem custar até trezentos dólares, ou mesmo mais para algumas edições de capa dura. O currículo básico inclui um longo e-book intitulado “The Economy“, slides de conferência e questionários para testar a compreensão. Alguns dos materiais já foram utilizados com sucesso em faculdades como University College London e Sciences Po, em Paris.

O projeto é um esforço colaborativo que surgiu após a crise financeira mundial de 2008-2009 e a Grande Recessão, quando muitos estudantes (e professores) se queixaram de que os livros didáticos existentes não faziam um bom trabalho para explicar o que estava acontecendo. Em muitos países, grupos de estudantes exigiram uma revisão do modo como a Economia era ensinada, com menos ênfase nas doutrinas do mercado livre e mais ênfase nos problemas do mundo real.

You can find an interactive version of this figure athttp://tinyco.re/7434364.

https://jackblun.github.io/Globalinc/html/fig_1980.html

Na Figura acima, por exemplo, o Core Econ mostra a distribuição de renda entre e dentro dos países em 2014. A altura de cada barra no gráfico varia ao longo de dois eixos. O primeiro eixo de variação, da esquerda para a direita da figura, é uma classificação de países de acordo com a renda interna bruta per capita dos mais pobres à esquerda (Libéria), aos mais ricos à direita (Cingapura). O segundo eixo, de frente para trás da figura, mostra a distribuição de renda da camada pobre até a rica em cada país.

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Impressões sobre XXII Congresso Brasileiro de Economistas

Estive no XXII Congresso Brasileiro de Economia, realizado em Belo Horizonte de 6 a 9 de setembro. Assisti e participei do debate com os palestrantes em três mesas: Ensino de Economia e Futuro da Ciência Econômica, A Economia Brasileira na Perspectiva do Jornalismo Econômico, Economia Brasileira e Internacional: Cenários e Perspectivas. Fui palestrante e debatedor na mesa final sobre Política Macroeconômica e a Retomada do Crescimento. Além desses debates, assisti as apresentações em comemoração aos 200 anos da publicação da obra Princípios de Economia Política e Tributação de autoria de David Ricardo e 150 Anos da Publicação do Volume 1 de O Capital por Karl Marx.

Elogiado pelos participantes pela programação e qualidade dos debates promovidos, o CBE também se destacou pela presença expressiva de estudantes. Ao todo, quase 1.200 pessoas de 26 estados estiveram no Minas Centro, em Belo Horizonte, prestigiando a programação do evento.

Um estudo de autoria do professor Roberto Macedo (ex-FEA-USP), publicado na revista Economistas do COFECON em março de 2016, analisa os microdados do Censo de 2010. Considerando o maior nível de instrução, identifica 234.287 graduados, 18.341 mestres e 5.410 doutores na área de Economia. Entre os graduados, 59.346 são presumivelmente aposentados ou desempregados. A participação dos mestres e doutores é maior e crescente nas faixas etárias mais jovens.

Segundo os dados da DataViva sobre o Ensino Superior de Economia no Brasil, o curso de Economia é o 37º em número de matrículas no Brasil. A universidade que possui mais alunos é Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com 1,64 mil estudantes. No total, o curso de Economia possui 49,4 mil alunos matriculados em todo o país. Nos últimos seis anos (2010 a 2015), foram 36,6 mil concluintes, ou seja, a média de 6,1 mil / ano. Se essa fosse a média nos últimos 35 anos (e todos os concluintes exercessem a profissão), estariam na vida profissional ativa cerca de 213,4 mil economistas. Em 2015, número de alunos matriculados atingiu 50,4 mil, o número de ingressantes, 12,6 mil, e o número de concluintes, 6,23 mil. Para comparação, nesse ano, o IE-UNICAMP tinha 547 matriculados e teve 91 concluintes com idade média de 22 anos.

Pelo segundo ano consecutivo o Instituto de Economia da Unicamp foi premiado pelo Conselho Federal de Economia (Cofecon) como destaque acadêmico do ano. Abaixo meu colega Paulo Fracalanza (diretor do IE-UNICAMP) e meu ex-colega (VP da Caixa) Paulo Bretas (presidente do CORECON-MG).

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Educação Universitária e FIES

Aloizio Mercadante é economista, professor licenciado da PUC-SP e Unicamp, foi deputado federal e senador pelo PT-SP, ministro-chefe da Casa Civil, ministro da Educação e ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação. Reproduzo abaixo seu artigo (Valor, 11/08/17) pela importância dos dados e informações fornecidos ao leitor, quase um balanço de sua gestão à frente do MEC face ao desmanche atual.

“O Brasil possui um desenvolvimento capitalista tardio e uma educação retardatária, marcada pelo passado colonial e a escravidão. As primeiras faculdades só foram fundadas com a chegada da Corte portuguesa. Apenas em 1920, com 75% da população analfabeta, foi implantada a primeira universidade.

O atraso histórico na educação explica uma parte das nossas dificuldades de
ingresso na sociedade do conhecimento. Em 2002, o país tinha 16505 cursos
de graduação e 3,4 milhões de matrículas de educação superior. Em 2015, eram 32878 cursos e 8,5 milhões de estudantes. Foi o período de maior expansão da educação universitária da história do Brasil, tanto da rede federal, quanto da pós- graduação e dos institutos federais. Continue reading “Educação Universitária e FIES”

Aprendizagem 70:20:10 ou Abordagem dos “3 Es”: Experiência, Exposição e Educação

Letícia Arcoverde (Valor, 20/07/17) informa que, quando constantes mudanças de curso são demandadas das empresas, a principal solução para o treinamento dos funcionários não será a tecnologia – embora ela possa, naturalmente, ajudar. Na opinião do especialista em educação corporativa Charles Jennings, a abordagem de ensino mais adequada para um mundo volátil e incerto pode ser tão simples quanto juntar um grupo de pessoas em uma sala com algumas pizzas.

Jennings é fundador do Instituto 70:20:10, organização que promove o modelo de aprendizado de mesmo nome, adotado hoje por diversas empresas ao redor do mundo. Com origem nos anos 90, elaborado por professores da escola de negócios Center for Creative Leadership, a abordagem defende que a maior parte do aprendizado de uma pessoa — a que acontece 70% do tempo — deve ocorrer na prática.

Em 20% do tempo restante, ela acontece por meio da troca de experiências com os outros. Leia mais:  Aprendizagem Ativa

Só na menor parte do tempo, 10%, deve se dar por meio do ensino formal, com instrutores ou professores.

Os seres humanos são máquinas de esquecer. A natureza do cérebro humano faz com que ele só retenha informações aprendidas no contexto em que elas serão usadas“, justifica Jennings.

O modelo também é conhecido como a abordagem dos “3 Es”, designando

  1. experiência,
  2. exposição e
  3. educação. Continue reading “Aprendizagem 70:20:10 ou Abordagem dos “3 Es”: Experiência, Exposição e Educação”

Concentração de Renda devido à Desigualdade Educacional

A renda média de pessoas com diploma universitário é pelo menos duas vezes maior quando comparado ao grupo daqueles que interromperam os estudos no ensino médio. Na faixa etária de 30 a 39 anos, o rendimento mensal das pessoas com ensino médio é de R$ 1,8 mil. Esse salário salta para R$ 4,7 mil quando se tem uma diploma de ensino superior, segundo informações do estudo “Valor Análise Setorial – Ensino Superior“, que foi lançado e custa R$ 3.400,00.

A renda dobra já nos primeiros anos da faculdade ou logo após a conclusão do curso. A grande diferença de salário entre as pessoas com e sem diploma universitário se mantém até a aposentadoria. Entre 50 e 64 anos, o rendimento das pessoas que se formaram atinge R$ 7 mil, quase três maior comparada com a de R$ 2,4 mil de quem só tem o segundo grau médio concluído.

Segundo o Ministério da Educação (MEC) havia, em 2015, pouco mais de 6,6 milhões de universitários em instituições privadas e públicas no país. No entanto, apenas 34,6% da população com idade entre 18 e 24 anos têm diploma de ensino superior. Os percentuais mudam de acordo com a classe social:

  • No grupo dos 25% mais ricos, 85% deles têm ensino superior.
  • No grupo dos 25% mais pobres, somente 12,3% têm diploma universitário.

Há uma demanda potencial de 10,341 milhões de alunos, sendo 2,2 milhões de estudantes que frequentam o ensino médio e mais 8,1 milhões com o ensino médio concluído.

Observa-se a formação de analistas e/ou estrategistas em Ciência Política, Ciências Sociais e Economia, predominantemente, em Universidades Públicas. Já a formação de gestores, advogados, gerenciamento e administração — talvez por ser ensinada por “homens práticos” e com custo mais barato — se dá em Privadas.

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