Critérios da Boa e da Má Leitura

AArtee(aMagia)deLerPara classificar as etapas de uma leitura séria temos que esclarecer os critérios do melhor e do pior. Que critérios são esses?

O primeiro critério refere-se ao quando dizemos que um homem lê melhor do que outro quando o critério de ler refere-se a um assunto mais difícil. Muitas vezes medimos a aptidão de um homem pela dificuldade do trabalho que ele pode realizar. A agudeza de tal medida depende, sem dúvida, da precisão independente com que classificamos os trabalhos conforme sua dificuldade crescente.

Estaríamos em um circulo vicioso se disséssemos, por exemplo, que o livro mais difícil é aquele que só o melhor leitor domina. Isto é verdade, mas não ajuda. Para se compreender por que uns livros são mais difíceis do que outros, temos de saber o que eles exigem da habilidade do leitor. Por outras palavras, a dificuldade do assunto de leitura é sinal evidente e objetivo dos graus de habilidade em ler, mas não nos diz que diferença existe no tocante à habilidade do leitor.

Entretanto, o primeiro critério tem certa aplicação, pois quanto mais difícil e um livro, tanto menos leitores terá em qualquer época. Ha certa dose de verdade nisso, porque geralmente, à medida em que se sobe na escala da perfeição em uma habilidade, o número de peritos diminui: quanto mais alto se está, mais raros são eles. Assim, ao contar as cabeças, teremos a noção precisa da dificuldade de uma leitura qualquer. Continuar a ler

Ensinar: Dar Senha Para Aprender a Aprender Por Conta Própria

arte-de-lerPodemos ter ocupações que não nos obriguem a ler o tempo todo, sem deixar de admitir que esse tempo seria amenizado, em seus momentos de folga, por alguma instruçãoa que adquirimos, por nós mesmos, através da leitura. Nossa profissão pode exigir a leitura de determinado assunto técnico, ao correr do trabalho. Não importa se a leitura é para aprender ou para ganhar dinheiro. Pode ser bem ou mal feita.

Como alunos do colégio – e candidatos, talvez, a um diploma superior – compreendemos que o que nos estão dando é empanturramento e não, educação. Há muitos alunos que, ao se licenciarem, reconhecem ter levado quatro anos ouvindo e se descartando das lições nos exames. A destreza que se atinge nesse processo não depende das matérias, mas da personalidade do professor. Se o aluno se lembra razoavelmente do que lhe foi ensinado nas aulas e nos compêndios e se conhece as manias do professor, passa de ano, sem gastar energias. Mas deixa passar, também, a educação…

Podemos ensinar em uma escola, um colégio ou uma universidade. Como professores, torna-se obrigatório que saibamos que não lemos bem. Que não só nossos alunos são incapazes de o fazer; nós, também, não vamos muito além deles. Continuar a ler

Arte de Ler (por Mortimer J. Adler)

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Há várias espécies de leitura e vários graus de habilidade em ler. Não é contradição afirmar que este livro de Mortimer J. Adler, “A Arte de Ler”, é para os que querem ler melhor ou ler de um modo diferente do que lhes é habitual.

Então, para quem não foi ele escrito? O autor pode responder, simplesmente, à pergunta falando nos dois casos extremos. Há os que não sabem ler de todo: as crianças, os imbecis e outros inocentes. E há os que talvez sejam mestres na arte de ler – fazem qualquer espécie de leitura tão bem quanto é humanamente possível.

Muitos autores não achariam nada melhor do que escrever para tais mestres. Mas um livro como este, que trata da arte de ler propriamente dita, e que procura ajudar seus leitores a lerem melhor, não pretende exigir a atenção dos experientes. Continuar a ler

Por Que Ler?

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Ninguém deveria ser obrigado a “gostar de ler”. Nada desestimula mais a se aproximar de um livro do que tais pressões. Que cada um seja livre para preferir os trabalhos manuais, os esportes ou o jogo à leitura e/ou à escrita. Estamos, nesse caso, no campo dos “lazeres”, socialmente construído, onde as inclinações pessoais prevalecem. Todavia, cada um deveria poder ter a experiência de que a apropriação da cultura escrita é desejável, e de que ela é possível, por pelo menos três motivos. Continuar a ler

Como Resistir à Adversidade Lendo e Escrevendo

A Arte de Ler

Michèle Petit dá lições sobre “A arte de ler: ou como resistir à adversidade”. É melhor iniciar lendo textos que não fazem referência direta ou explícita à situação dos leitores. Os protagonistas dos textos escritos para pobres lerem não podem ser pobres! Livros que só falam de infelicidade e desgraças, empregando um léxico cru, próximo do que utilizam esses pobres, são proximidade demais. Diante de tanta desolação, os pobres interrompem a leitura.

Quando são iniciados nos diferentes gêneros literários, a rejeição ao realismo é explicitamente formulada. O realismo já sabem o que é, e não lhes agrada. Porém, se a rejeição ao realismo parece amplamente compartilhada quando este não permite nenhum distanciamento, nenhum exílio, nenhuma saída, em certos contextos, combinado a outros escritos de ficção, contribui para uma formalização do que foi dolorosamente vivido.

Em contextos de crise, a leitura de um conto, de uma lenda, de um poema, de um livro ilustrado pode permitir falar as coisas de outra maneira, a uma certa distância — particularmente no caso daqueles que viveram uma guerra, uma catástrofe, um trauma. Um pouco por toda a parte, reconhece-se a importância da mediação de um texto estético reconhecido, compartilhado, de modo a objetivar a história pessoal, a circunscrevê-la do exterior. É necessário destacar a força da metáfora, do desvio mediante o distanciamento temporal ou geográfico. Continuar a ler

Educação Superior nos Estados Unidos: História e Estrutura

Reginaldo de Moraes

Eleonora Lucena (FSP, 21/03/14) resenha o livro “Educação Superior nos Estados Unidos: História e Estrutura” (Editora Unesp), que percorre as metamorfoses do sistema desde a colônia. A obra mostra como os norte-americanos transformaram um modelo elitista e privado em outro flexível e majoritariamente público.

Massificar, descentralizar, popularizar. Esses devem ser os objetivos do ensino superior no Brasil, na visão de Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes, 64, professor de Ciência Política da Unicamp. Sua análise foi consolidada com a pesquisa sobre os modelos de educação em vários países.

Doutor em filosofia e autor de “O Peso do Estado na Pátria do Mercado” (2013), Moraes afirma que o dinheiro público foi decisivo para essa evolução. “Em lugar nenhum do mundo o ensino superior se paga”, diz.

Leia a entrevista a seguir. Continuar a ler

Aprender a Aprender com a Web

Ronaldo Lemos (FSP, 10/02/15) publicou um artigo interessante com dicas para aprender com a internet, que é a proposta deste modesto blog Cidadania & Cultura há cinco anos. Compartilho-o abaixo com os links.

“Se não caiu a ficha, está na hora de cair: a maior parte do conhecimento teórico e prático já produzido pela humanidade está disponível na internet, de graça e abertamente. Quem tiver a curiosidade e a energia necessárias pode tomar nas mãos os caminhos do próprio aprendizado. Esse é um desafio para o sistema educacional: a missão da escola nos dias de hoje passa a ser ensinar a aprender dentro desse novo contexto em que vivemos.

Quem viu o documentário acima sobre Aaron Swartz (“O Menino da Internet“), disponível também de graça e abertamente no YouTube, deve se lembrar da cena em que ele, com poucos anos de idade, aprende a ler sozinho. Em depoimento para a câmera, seus pais dizem: “Aaron aprendeu muito cedo a aprender“. Apesar de nunca ter completado a faculdade, circulava entre professores das melhores universidades e conversava com eles como igual.

[O filme narra a história do jovem Aaron Swartz (1986-2013), um jovem programador norte-americano que acreditava na mudança radical do mundo através da internet e da computação. Durante toda a sua vida, Aaron usou a programação computacional como uma forma de nos ajudar a resolver problemas e tornar o mundo um lugar mais democrático, justo e eficiente. Em uma destas tentativas, Aaron irá usar a rede do MIT (Massachusetts Institute of Technology) para realizar o download massivo de milhões de artigos acadêmicos de uma base de dados privada chamada JSTOR. Nesse meio-tempo, o Ministério Público dos Estados Unidos irá conduzir um processo criminal contra Aaron, que termina por levá-lo ao suicídio.]

Swartz aprendeu no mesmo lugar — a internet — tanto a programar quanto a ler clássicos da filosofia política (como Henry David Thoreau, um dos seus favoritos). Qualquer um pode seguir seu caminho. Continuar a ler