O que a Economia pode aprender com as Humanidades

Meu colega Miguel Bacic me enviou a sugestão de leitura:

Los economistas deberían tener la sensibilidad de Tolstói
Por Roger Lowenstein (Especial para The Washington Post)

https://www.infobae.com/america/wapo/2017/12/09/los-economistas-deberian-tener-la-sensibilidad-de-tolstoi/

Obs: esse site é um lixo, porém, algumas vezes tem referência interessante.

Livro comentado  https://press.princeton.edu/titles/10957.html

Gary Saul Morson & Morton Schapiro. Cents and Sensibility What Economics Can Learn from the Humanities.

Reproduzo o artigo traduzido abaixo. Continue reading “O que a Economia pode aprender com as Humanidades”

Métodos de Análise Econômica – Parte III

Nas seguidas experiências didáticas, dentro do curso sobre Métodos de Análise Econômica, acrescentamos a economia aplicada e o uso de indicadores macroeconômicos. Antes já tínhamos apresentado a estratégia social-desenvolvimentista com a política social ativa e os investimentos em economia do petróleo.

Fizemos reflexões sobre a história do financiamento do desenvolvimento da economia brasileira para avaliar o potencial do capital de origem trabalhista no capitalismo de estado neocorporativista no Brasil. Contrapusemos o conceito de funding (composição passiva de financiamento) à ideia ortodoxa de necessidade de poupança prévia ao investimento.

Enfrentamos o debate com a ortodoxia sobre poupança: por que é tão baixa na economia brasileira? Ora, desde que ela se tornou rastejante, pelos curtos voos-de-galinha, abatidos em plena decolagem pela política de stop-and-go da Autoridade Monetária, o ritmo de crescimento da renda não supera muito a evolução do padrão de consumo dos brasileiros tão diversos entre si. É simples assim.

Mas creio que o curso ficou mais “redondo” quando o tornei mais prático, focalizando métodos e instrumentos de análise de conjuntura econômica através de indicadores de instituições nacionais e multilaterais. Baseie-me na experiência que obtive quando, no início de minha carreira profissional (1978-1985), trabalhei por sete anos no IBGE, para transmitir meu conhecimento de fontes de informações e uso de banco de dados. Continue reading “Métodos de Análise Econômica – Parte III”

Métodos de Análise Econômica – Parte II

O Ensino de Ciência Econômica, depois de sua depuração, ocorrida ao longo do século XX, afastou-se das Ciências Humanas e Sociais Afins. Foi uma vã tentativa de ganhar status científico com seu uso da linguagem matemática das Ciências Exatas. Separou-se em Microeconomia e Macroeconomia. A primeira trata das decisões dos agentes econômicos, a segunda, da resultante sistêmica dessas diversas decisões. Porém, hoje, necessita reconstituir-se e transitar da formação de profissionais especialistas para a de generalistas, retomando a metodologia interdisciplinar inicial.

Está sendo retomado o caráter multidisciplinar do conhecimento dos primórdios da Economia Política ao se empenhar em conhecer o comportamento humano na tomada de decisões econômicas de comprar, vender ou investir. Áreas distintas da Ciência estão somando esforços e recursos para estruturar a área de pesquisa destinada a cumprir essa tarefa: a Neuroeconomia.

Meu objetivo, na segunda vez que ofereci a disciplina Métodos de Análise Econômica, foi debater essa evolução científica. Queria que os alunos entendessem como as teorias econômicas ortodoxas se desdobraram a partir de uma metodologia abstrato-dedutiva. Sempre foram questionadas pela rival metodologia histórico-indutiva. Hoje, a fronteira dos economistas é o reconhecimento da complexidade interdisciplinar de seu objeto. Discuti com os estudantes o método didático propício a aprender tal complexidade, buscando o interesse desta geração nativa digital.

Analisamos os métodos de partição da realidade – O Todo – em alguns conceitos e teorias básicos, pela ordem, da Política, da Sociologia e da Psicologia. Conhecemos as metodologias das Ciências Afins à Ciência Econômica com a verificação da possibilidade de reincorporá-las (ou não), ao final, em uma análise multidisciplinar, macrossocial, sistêmica e estruturalmente complexa, com fundamentos em Psicologia Econômico-Comportamental, Sociologia Econômica e Darwinismo Econômico. Continue reading “Métodos de Análise Econômica – Parte II”

Métodos de Análise Econômica – Parte I

O portal do IE-UNICAMP pode ser aproveitado também como um espaço de compartilhamento de experiências didáticas entre seus professores, socializando o conhecimento a respeito com todos os colegas lusófonos. Nesse sentido, neste post, quero narrar meu aprendizado no curso de Métodos de Análise Econômica na graduação desse Instituto.

Sim, aprendizado, pois tenho comigo que o bom curso é aquele em que a gente, isto é, o professor aprende junto aos alunos. Aliás, desconfio que prossigo dando aulas por causa desse fator motivacional: eu aprendo o que ensino, antes e durante o curso, com as leituras prévias e as interações com os estudantes. Em síntese, o melhor método de aprendizagem é ensinar! Por isso as más línguas (práticas) dizem que, “quem sabe, faz, quem não sabe, ensina”

Fui convidado a oferecer essa disciplina obrigatória no último semestre na grade da graduação do IE-UNICAMP em 2013. Já acumulei cinco anos de experiência. Cansei da repetição? Não, pois em cada ano incorporei alguma inovação, seja no conteúdo, seja na forma de o ministrar.

Quando me convidou, a coordenadora da graduação me disse que sob esse título se propunha um curso similar ao outrora chamado Política e Planejamento Econômico. Ora, pensei cá comigo, planejamento perdeu mesmo o prestígio a ponto de deixar de nomear uma disciplina para futuros economistas… Continue reading “Métodos de Análise Econômica – Parte I”

Parecer do Banco Mundial sob Encomenda: Privatização do Ensino Superior

"A universidade pública com esse perfil sócio-econômico atrapalha muito o negócio dessas instituições privadas", disse a reitora da Unifesp

Os idiotas, que não têm dimensão do mal que fazem a si e aos outros brasileiros, encomendaram a técnicos do Banco Mundial, ignorantes e de má fé, um parecer que prega o fim do Ensino Superior gratuito no Brasil. Apelam para aquele velho argumento entreguista — o que é supostamente bom para os EUA, acesso à educação superior apenas para a elite que pode pagar (e bolsistas-esportistas), é o adequado para o Brasil — para justificar uma reserva de mercado, atendendo ao lobby do ensino privado. Neste situam-se, p.ex., economistas que são professores na FGV e no INSPER, cujas mensalidades só pessoas situadas no 1% mais rico do País conseguem pagar.

Rebeca Letieri (JB, 26/11/2017) publicou reportagem sobre mais um ataque dos golpistas neoliberais, que não ganham eleições democráticas no País, a uma conquista social que, progressivamente melhorará a distribuição de renda: a massificação do Ensino Superior. Quando se alterar a relação trabalho intelectual criativo / trabalho manual alienante, como ocorreu em outros países, o leque salarial não ficará tão aberto.

“O que está em jogo é um duplo assalto: a desfiguração do ensino superior público brasileiro, onde se produz ciência nesse país, e a transformação em um sistema totalmente comandado pelos grandes monopólios das universidades privadas lucrativas”, enfatizou o professor de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), Wilson Mesquita de Almeida. Ele está falando do recém-lançado relatório do Banco Mundial, que sugere a adoção de um sistema semelhante ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) nas universidades públicas, com o fim da gratuidade e criação de bolsas para quem não pode pagar.

O Fies é o programa do Ministério da Educação (MEC) que financia cursos superiores não gratuitos e com avaliação positiva no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Passará a ser um produto financeiro interessante para os bancos privados: crédito educativo consignado — ou “escravidão por dívida”, no início da vida profissional, até o pobre graduado obter a alforria.

O relatório foi encomendado ao Banco Mundial pelo ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy — ex-economista do FMI, doutor em economia pela Universidade de Chicago (1992), mestre em economia (e professor) pela Fundação Getúlio Vargas (1987) e graduado em Engenharia Naval pela Universidade Federal do Rio de Janeiro  — e entregue ao atual ministro Henrique Meirelles, e do Planejamento, Dyogo Oliveira, no dia 21 de novembro de 2017. O documento analisa oito áreas do gasto público no Brasil, e afirma que, nas últimas duas décadas, ele aumentou de forma “consistente”, colocando em risco a sustentabilidade fiscal do país. A preocupação, em última instância, é o governo cortar gastos sociais para garantir o pagamento dos juros disparatados aos abonados. Continue reading “Parecer do Banco Mundial sob Encomenda: Privatização do Ensino Superior”

Aprendizagem Proativa

No meu curso de graduação, na FACE-UFMG, eu já criticava o método didático puramente expositivo adotado por professores. Quando tomei conhecimento do Método Paulo Freire, elevou minha consciência a respeito do método “bancário”, aquele que faz depósitos na mente do aluno para tentar sacar nas provas de memorização. O educador Paulo Freire desenvolveu um método para a alfabetização de adultos que alfabetizou 300 cortadores de cana-de-açúcar em apenas 45 dias. O processo educativo se deu em apenas quarenta horas de aula e sem cartilha.

Freire criticava o sistema tradicional de alfabetização, o qual utilizava a cartilha como ferramenta central da didática para o ensino da leitura e da escrita. As cartilhas ensinavam pelo método da repetição de palavras soltas ou de frases criadas de forma forçosa ou fonética, por exemplo, “Ivo (ou Eva) viu a uva”.

As etapas do Método Paulo Freire são três:

  • Primeira, investigação, é a busca conjunta do professor e do aluno das palavras e temas mais significativos da vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da comunidade onde ele vive.
  • Segunda, tematização: é o momento da tomada de consciência do mundo, através da análise dos significados sociais dos temas e palavras.
  • Finalmente, problematização: etapa em que o professor desafia e inspira o aluno a superar a visão acrítica do mundo, adotando uma postura consciente frente a ele.

Na minha primeira experiência docente, no primeiro semestre do meu curso de Mestrado, fui como professor-convidado a Poços de Caldas. O sucesso foi tão grande junto aos alunos rebeldes e o fracasso tão retumbante junto aos conservadores que fui logo convidado a nunca mais voltar à Poços de Caldas! Continue reading “Aprendizagem Proativa”

Ensino de Economia: aprendendo a lidar com o mundo real desde o início dos cursos

A revista The Economists (Sep 21st 201) reconhece que os economistas podem ser vistos como um grupo arrogante. Mas uma década de trauma teve um efeito de castigo. Eles estão repensando ideias antigas, fazendo novas perguntas e, de vez em quando, acolhem os hereges de volta à linha principal. A mudança, no entanto, foi lenta para alcançar o currículo econômico da universidade.

Muitas instituições ainda bombeiam os alunos através de cursos introdutórios não sustentados pela história econômica recente ou as deficiências de O Mercado que ilumina. Alguns poucos reformadores estão trabalhando para corrigir isso: é uma grande ideia, embora atrasada. Revolucionar o modo como a economia é ensinada deve produzir estudantes mais capazes de entender o mundo moderno. Ainda melhor, deveria melhorar a própria economia.

Pode ser uma triste ciência, mas a Economia é popular no campus. Isso representa mais de 10% dos diplomas concedidos em universidades de elite a cada ano, em uma estimativa [não no Brasil, que forma cerca de 6.000 economistas por ano], e muitos outros alunos fazem uma disciplina introdutória como parte de seus requisitos de educação geral. Continue reading “Ensino de Economia: aprendendo a lidar com o mundo real desde o início dos cursos”