Estudantes da Classe C: Antes do Golpe, Cidadãos; Depois, Excluídos…

Estudantes

Na entrevista de Renato Meirelles, presidente do Data Popular, postada em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2016/04/01/analise-objetiva-com-base-em-dados-de-pesquisa-qual-e-o-sentimento-popular/, ele diz: “O discurso das passeatas está longe de ser o discurso majoritário. Todas as pesquisas do Data Popular, quantitativas e qualitativas, mostram as pessoas insatisfeitas com a ineficiência do Estado, mas querem a existência do Estado. Por uma razão simples: são elas que usam a escola pública, o serviço público. Graças à presença do Estado que o Brasil tem 9 milhões de universitários a mais nos últimos dez anos. Isso não se deu pela iniciativa privada, mas pelo Prouni e pelo Fies.”

Dos 40,8 milhões de brasileiros que concluíram o ensino médio, somente 47% pretendem fazer uma faculdade, segundo pesquisa feita pelo Instituto Data Popular a pedido do Semesp, sindicato das instituições privadas de ensino superior. A maioria não pretende fazer curso superior — crise econômica, medo de perder o emprego e falta de financiamento estudantil estão entre as razões.

Beyh Koike (Valor, 29/03/16) divulgou a pesquisa nacional, feita em novembro de 2015, que ouviu 2,8 mil universitários e outros 800 alunos do ensino médio para traçar um panorama dos estudantes da classe C, chamada de “nova classe média”. Foi considerada renda per capita entre R$ 340 e R$ 1,2 mil, que equivale à renda familiar entre R$ 1.360 e R$ 4.800, ou seja, entre 1,5 e 5,5 salários mínimos.

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Analfabetismo Funcional X Educação Financeira

Educação e Orçamento Doméstico

Há mais de 15 anos, organizei um Curso de Extensão em Economia Financeira na UNICAMP. Depois de minha licença (5 anos) para cuidar de Finanças e Mercado de Capitais na Caixa Econômica Federal, retornei com uma visão de Economia Aplicada a respeito das necessidades mais práticas dos alunos já formados em curso superior. Eles buscam aprender e entender tanto o jargão econômico quanto as melhores práticas em decisões financeiras, sejam corporativas, sejam pessoais.

Parto da hipótese de que se todos os estudantes, desde a Educação Fundamental, tivessem acesso à Educação Financeira, suas famílias sofreriam menos danos em sua qualidade de vida, devido à má administração do orçamento doméstico. O acesso à cidadania financeira é um direito e o conhecimento de Finanças Pessoais é um dever por parte de todos!

Camilla Veras Mota (Valor, 28/03/16) informa que o aumento do desemprego, a inflação em nível ainda elevado e os demais desdobramentos da recessão não são os únicos elementos que pesam sobre a renda das famílias. Pesquisa conduzida recentemente pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela Ação Educativa mostra que quase um terço dos tomadores de decisões financeiras nos domicílios brasileiros são analfabetos funcionais – e, assim, mais vulneráveis a situações de inadimplência ou de descontrole do endividamento.

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Aprendizagem Ativa

Aproximando-se do início de novo semestre letivo, onde ministrarei o curso “Economia no Cinema” com mais algumas inovações, tanto temáticas (Itália, Japão, África, Oriente Médio, Islamismo, Terrorismo, Economia do Petróleo, etc.), quanto metodológicas (uso de palestras da TED, estudo dos alunos prévio à aula, método socrático de perguntar para instigar as respostas, debates coletivos imediatos sobre o conteúdo da apresentação audio-visual, etc.), cabe uma reflexão sobre Aprendizagem Ativa. Para isso, reproduzo abaixo o post encontrado no site do meu colega da Unicamp, especialista em Educação:  Ricardo Gudwin’s Home Page.

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Fim da Escola Tradicional: Construindo Ambientes de Aprendizado Auto-Organizados

Sugata Mitra, educador indiano, colocou em sua Palestra TED uma questão fundamental: qual será o futuro do aprendizado?

Veja acima ou leia abaixo suas interessantes reflexões a respeito.

“Eu tenho um plano, mas para que eu possa contar que plano é esse, preciso contar uma pequena história pra vocês, que vai preparar o terreno.

Eu tentei analisar de onde o tipo de aprendizado que temos nas escolas veio. você pode olhar para o passado, mas se analisarmos a escolarização como ela é hoje, é bem fácil descobrir de onde ela veio. Veio, cerca de 300 anos atrás, do último e maior dos impérios deste planeta: o Império Britânico. 

Imagine tentar comandar o show, tentar comandar o planeta inteiro, sem computadores, sem telefones, com informações escritas à mão em papel, e viajando em navios. Mas os Vitorianos realmente o fizeram. O que eles fizeram foi incrível. Eles criaram um computador global feito de pessoas. Ele ainda está conosco hoje. É a chamada máquina administrativa burocrática.

Para que essa máquina siga funcionando, você precisa de muitas e muitas pessoas. Eles fizeram outra máquina para produzir essas pessoas: a escola. As escolas produziriam as pessoas que depois se tornariam parte da máquina administrativa burocrática. Elas deveriam ser idênticas umas às outras.

E deveriam saber três coisas:

  1. ter uma boa caligrafia, pois a informação é escrita à mão;
  2. saber ler; e
  3. ser capazes de fazer multiplicação, divisão, adição e subtração de cabeça.

Deveriam ser idênticas ao ponto de você poder selecionar uma da Nova Zelândia e enviá-la ao Canadá, onde ela seria imediatamente funcional.

Os Vitorianos eram grandes engenheiros. Eles criaram um sistema tão robusto que ainda está conosco hoje, continuamente produzindo pessoas idênticas para uma máquina que não existe mais. O império se foi, então, o que estamos fazendo com esse modelo que produz essas pessoas idênticas, e o que vamos em seguida, se algum dia fizermos algo diferente com isso? Continue reading “Fim da Escola Tradicional: Construindo Ambientes de Aprendizado Auto-Organizados”

Acesso à Escola

Acesso à Escola

Eduardo Belo (Valor, 20/01/16) informa que o acesso à educação básica (4 a 17 anos) cresceu de 89,5%, em 2005, para 93,6%, em 2014, conforme levantamento realizado pela organização Todos pela Educação (TPE) com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). O maior avanço foi na pré-escola (4 e 5 anos): de 72,5% para 89,1%.

Segundo o levantamento, ao frequentar a pré-escola a criança torna-se mais apta a receber os conteúdos posteriores, ou seja, melhora seu rendimento escolar. “Há evidência de que as crianças que frequentam uma educação infantil de qualidade têm um percurso escolar com mais aprendizagem e uma vida adulta com muito mais oportunidades”, afirmou Priscila Cruz, presidente-executiva do TPE. “Investir nas crianças, portanto, é a melhor estratégia para superarmos a desigualdade que é ainda muito alta e persistente no país.”

O levantamento teve como objetivo monitorar a meta 1 do movimento: toda a criança e jovem de 4 a 17 anos na escola. O resultado mostra que a meta chegou a 95,9% da população nessa faixa etária, contra 95,4% em 2013. O país fechou 2014 com 44,3 pessoas nessa faixa, das quais 2,8 milhões (6,2%) não frequentavam a escola. Em 2005 havia 5 milhões de brasileiros de 4 a 17 anos fora da escola.

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Querelle des écoles

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Querelle des écoles” é uma expressão francesa que debocha da discussão entre escolas de pensamento como mero diletantismo de acadêmicos. “École”, em francês, designa também os partidários de um movimento, de uma doutrina. “Faire école” significa ter discípulos, adeptos.

Quando lemos uma reportagem a respeito de Qual é o legado de Keynes? (Valor, 19/02/16), pelas entrevistas concedidas por representantes da nova geração de acadêmicos, parece que a uma disputa fratricida se reduziu o debate entre economistas brasileiros. Cada qual defende sua escola “com unhas e dentes” tal como partidários sectários. Pior, os colonizados, culturalmente, defendem sua filiação norte-americana…

Analisem essa amostra. Bernardo Guimarães, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV), avalia o governo Dilma como fosse tocado por póskeynesianos! Querendo se afastar da defenestrada “Nova Matriz Macroeconômica”, esquece que Guido Mantega e Márcio Holland, respectivamente, ministro e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, são seus colegas, isto é, professores de sua Escola, berço do Novo-Desenvolvimentismo. Eles implementaram, aliás, com relativo sucesso, a principal receita dessa corrente: uma maxidepreciação da moeda nacional sem mudar o patamar inflacionário. Em 2015, depois que saíram, o gradualismo foi abandonado e o tratamento de choque neoliberal o elevou.

Para Guimarães, as interpretações heterodoxas de Keynes deixaram de ser aceitas na comunidade internacional na década de 70. “Aí chego ao Brasil e aqui tem um pessoal que se define como ‘pós-keynesiano’. E isso é uma parcela muito grande das pessoas que estão nas universidades federais e na Unicamp. Não tenho problema com isso. Só que tem uma tensão muito grande na academia brasileira porque é preciso avaliar os departamentos e os recursos são escassos.”

Fica claro que, por trás da feroz crítica aos “concorrentes”, está o mercenarismo, ou seja, a qualidade, o caráter ou a atitude de quem age, trabalha ou serve apenas por interesse financeiro. Nos últimos 30 anos, a ética profissional do mundo acadêmico americano foi deteriorada, convertendo-se em atividades do tipo “pay to play” (pague para participar) ou apresente seu parecer por encomenda – paga naturalmente. Os PhDeuses trouxeram também essa bugiganga para os tapuias. Continue reading “Querelle des écoles”

FIES: Crônica da Inadimplência Anunciada

Atrasos no FIES

Nos anos 80-90, havia um crédito estudantil do governo, o CREDUC, cuja inadimplência era de quase 90%. A Caixa teve que “encaixar” o prejuízo de R$ 1,8 bilhão em seu balanço, após 2003, como uma “herança maldita” da Era Neoliberal.

A partir de então, seu Conselho Diretor (CD) se recusou a conceder novos créditos sem o próprio banco — e não a Faculdade — fazer a avaliação de risco dos potenciais clientes. Na época, a única garantia exigida era o fiador — uma pessoa física. Os juízes costumavam dar ganho de causa aos inadimplentes, porque, “coitados, educação gratuita era um direito de todos os cidadãos brasileiros”. Esqueciam que os devedores assinavam contratos, voluntariamente, em que assumiam o dever de amortizá-los.

A postura prudente da direção da Caixa provocou um impasse junto ao MEC, até os membros resistentes do seu CD serem demitidos em meados de 2007. 

No acumulado de 2010 a 2014, foram concedidos 1,9 milhão de empréstimos do FIES. Para efeito de comparação, entre 1999 e 2009, foram 564 mil. Virou um ótimo negócio para O Mercado. Dadas as altas rentabilidades, com recebimento das mensalidades garantido pela concessões dos empréstimos, e baixo custo de “cursos cuspe-e-giz”, para a concessão em massa de diplomas de Ensino Superior (sic), empresas que exploram a mercantilização do ensino abriram o capital na bolsa de valores. Foi tal o sucesso da empreitada que se atraiu capital estrangeiro a rodo. Até que, como o antigo CD da Caixa antevia, o dinheiro público secou e o programa de crédito estudantil novamente “micou”… 

Beth Koike e Bruno Peres (Valor, 12/01/16) informam que a taxa de inadimplência nos contratos do Fies firmados após 2010 deve ficar na casa dos 25% a partir do próximo ano, segundo estimativas do Morgan Stanley e da Hoper, consultoria especializada em Educação. Esse percentual é próximo dos números da Controladoria Geral da União (CGU), que apurou uma inadimplência de 23,6% nos financiamentos com atraso de mais de 360 dias.

O ministro da Educação, Aloísio Mercadante, disse que “os atrasos de pagamento são nos financiamentos concedidos antes de 2010”. Na época, a garantia exigida era o fiador e, portanto, não há impactos relevantes no FGEDUC, fundo criado para cobrir calotes dos contratos de Fies fechados após essa data.

Segundo a CGU, dos 315 mil empréstimos estudantis em fase de amortização, 146 mil estão com pagamentos atrasados. “Aquilo ali é inadimplência do modelo anterior, que nós identificamos e mudamos. No modelo anterior, as pessoas obrigatoriamente tinham avalista. A responsabilidade é da pessoa física, não entra no Fundo Garantidor. Daquele volume, só 3,4% são do novo Fies, que está ligado ao FGEDUC. Portanto é uma inadimplência baixíssima em relação a todo crédito do país”, afirmou Mercadante.

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