Ranking Universitário Folha 2016

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Pela primeira vez desde que o RUF (Ranking Universitário Folha) foi criado, a USP perde a liderança na lista de universidades brasileiras e também na de cursos.

O ranking, que existe há cinco anos, classifica nesta edição 195 universidades, identificadas por Estado, natureza administrativa, tamanho e idade. O caderno da Folha de S.Paulo (19/09/2016) traz também 40 rankings das instituições de ensino superior com os cursos de maior demanda nacional, como por exemplo Medicina e Design.

Com 97,46 pontos – 0,43 a mais que a USP –, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ultrapassa a estadual paulista na avaliação de universidades.

O RUF é calculado a partir de cinco indicadores: pesquisa, ensino, mercado, inovação e internacionalização.

É a USP que lidera o indicador que avalia a qualidade da pesquisa científica das universidades no RUF, seguida da Unicamp e da UFRJ.

A USP zera em um dos componentes do indicador do ensino que vale dois pontos, e que se baseia na nota do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes). A universidade não participa da prova. Se tivesse a mesma nota da UFRJ (3,17) no Enade, a USP voltaria ao topo do ranking.

A USP também perdeu a liderança nos rankings de cursos do RUF. Ocupa o 1º lugar em nove carreiras, como jornalismo e relações internacionais – contra 29 em 2015.

A Unicamp é campeã nos rankings de cursos, à frente de 14 deles, entre os quais o de Economia (abaixo).

“Os cães ladram, a caravana passa… Su. Sorry, periferia. Ademã, que eu vou em frente!”

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Casta Universitária: 14% dos Adultos entre 25 e 64 anos

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Dados do relatório anual “Education at a Glance” (Um olhar sobre a educação) — Brazil-Education-at-a-glance-2016-OECD-Indicators –, que reúne estatísticas de 35 países do grupo, além de Rússia e Brasil, são usados pelos parceiros no programa de Indicadores dos Sistemas Educacionais Nacionais (ou INES), responsável pela construção de indicadores educacionais comparáveis internacionalmente. O relatório contempla também Argentina, China, Colômbia, Costa Rica, Índia, Indonésia, Lituânia, Arábia Saudita e África do Sul.

O acesso ao ensino superior no Brasil é baixo até mesmo em relação a outros países da América Latina. Só 14% entre 25 e 64 anos haviam concluído o ensino superior no Brasil em 2015, média consideravelmente menor que a de 35% dos países da OCDE). Mais baixo também que a média de países latinos que têm o dado disponível, de acordo com a OCDE: Chile (21%), Colômbia (22%), Costa Rica (23%), e México (16%).

A população total no Brasil está atingindo 206,5 milhões. Desconsiderando as crianças, são 22% jovens de 10 a 14 anos, 70% adultos de 15 a 64 anos e 8% de idosos com mais de 65 anos.

Um estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa em parceria com o Ibope inteligência revelou que 27% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem interpretar textos básicos ou realizar operações matemáticas simples. Para realizar o levantamento, o instituto fez um teste com duas mil pessoas, avaliando situações de leitura, escrita e uso da matemática no cotidiano.

Na avaliação da OCDE, o baixo alcance da educação superior no Brasil explica, pelo menos parcialmente, por que o retorno da educação sobre a renda é um dos mais altos do mundo entre os países que divulgam o dado. Um trabalhador com bacharelado no Brasil, por exemplo, ganha mais que o dobro de um que tenha concluído apenas o ensino médio. Quem completa mestrado ou doutorado, por exemplo, ganha mais de quatro vezes mais que aqueles que concluíram até o ensino médio.

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Progresso Através de Revoluções e Verdade

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As ciências progrediram aos trancos e barrancos. Para muita gente, o avanço científico é a própria epítome do progresso. Imaginem se a vida política ou moral pudesse ser assim! O conhecimento científico é cumulativo, vai construindo sobre prévias marcas de nível para escalar novos picos.

Ian Hacking, em sua introdução ao livro A Estrutura das Revoluções Científicas (12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013 – original de 1962), essa é exatamente a imagem de Kuhn da ciência normal. Ela é verdadeiramente cumulativa, mas uma revolução destrói a continuidade. Muitas coisas que uma ciência mais antiga fazia bem podem ser esquecidas quando um novo conjunto de problemas é colocado por um novo paradigma.

Isso constitui, de fato, uma espécie não problemática de incomensurabilidade. Após uma revolução pode haver um deslocamento substancial nos tópicos estudados de modo que a nova ciência não se endereça a todos os velhos tópicos. Ela pode modificar ou abandonar muitos dos conceitos que, um dia, foram apropriados.

Onde fica então o progresso? Ian Hacking havia pensado a respeito de uma Ciência que progredia em direção da verdade em seu domínio. Kuhn não desafia essa concepção de uma ciência normal. Sua análise é uma explicação original de como, exatamente, a ciência normal é uma instituição social que progride de modo veloz em seus próprios termos. As revoluções, entretanto, são diferentes, e elas são essenciais para um diferente tipo de progresso.

Uma revolução modifica o domínio, modifica até (de acordo com Kuhn) a própria linguagem em que falamos acerca de algum aspecto da natureza. De qualquer modo ela deflete para uma nova porção da natureza a estudar. Continue reading “Progresso Através de Revoluções e Verdade”

Incomensurabilidade

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Nunca se fez uma “tempestade em copo d’água” a respeito dos diferentes mundos, porém um assunto intimamente relacionado desencadeou um “tufão de debates”. Houve uma imensa luta filosófica acerca da questão de se saber em que medida sucessivas teorias científicas – pré e pós-revolução – poderiam ser comparadas umas com as outras.

Ian Hacking, em sua introdução ao livro A Estrutura das Revoluções Científicas (12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013 – original de 1962), acha que talvez a controvérsia à respeito da incomensurabilidade pudesse ter ocorrido somente no cenário estabelecido pelo empirismo lógico, a ortodoxia que era corrente na Filosofia da Ciência quando Kuhn estava redigindo A Estrutura.

É uma paródia simplista de uma linha de pensamento que é carregadamente linguística, ou seja, enfocada em significados. Ian Hacking não afirma que alguém tenha dito algo de um modo tão simplório, mas o que diz capta a ideia.

Pensava-se que os nomes das coisas observáveis por você poderiam ser aprendidos quando apontados. Mas como ficariam as entidades teóricas, como os elétrons, que não podem ser apontadas? Elas obtêm seu significado, pensava-se, unicamente do contexto da teoria em que ocorrem.

Daí por que uma mudança na teoria deve acarretar uma mudança no significado. Daí por que uma teoria pode significar algo diferente da mesma sequência de palavras no contexto de outra teoria. Se uma teoria diz que a sentença é verdadeira e a outra diz que é falsa, não há contradição, pois a sentença expressa diferentes enunciações nas duas teorias e elas não podem ser comparadas.

Assim, Kuhn foi acusado, em algumas instâncias, de negar a própria racionalidade da ciência. Em outras, ele foi saudado como o profeta do novo relativismo. Ambos os pensamentos são absurdos, e Kuhn aborda essas questões diretamente. Continue reading “Incomensurabilidade”

Anomalia, Crise e Mudanças de Concepção de Mundo

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O título completo dessa seção é “A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas”. O capítulo 6 apresenta um título paralelo: “As Crises e a Emergência das Teorias Científicas”. Esses pareamentos singulares são necessários para integrar a explicação de Ciência de Thomas S. Kuhn em “A Estrutura das Revoluções Científicas.”.

A ciência normal não visa à novidade, mas a clarear o status quo. Ela tende a descobrir o que espera descobrir. A descoberta não surge quando algo caminha corretamente, mas quando alguma coisa se desvia; uma inovação que vai contra o que é esperado. Em resumo, o que parece ser uma anomalia.

O “a” em anomalia é o a que significa “não”, como em “amoral” ou “ateísta”. O nome provém da palavra “lei” em grego. Anomalias são contrárias às regularidades do tipo leis, e, de modo mais geral, contrárias às expectativas.

Karl Popper, já convertera a refutação no cerne de sua filosofia. Thomas Kuhn esforçou-se especialmente em dizer que raramente existe algo como simples refutação. Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à ordem estabelecida. Continue reading “Anomalia, Crise e Mudanças de Concepção de Mundo”

Paradigma

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Segundo o ensaio de Ian Hacking, que se tornou a introdução ao livro A Estrutura das Revoluções Científicas (12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013 – original de 1962) o paradigma é um conceito requer especial atenção. Há duas razões para tanto.

Em primeiro lugar, Kuhn mudou por conta própria o valor corrente da palavra paradigma de modo que um novo leitor pode atribuir conotações muito diferentes ao vocabulário em relação às disponíveis ao autor em 1962.

Em segundo, como o próprio Kuhn declarou claramente em seu pós-escrito: “O paradigma, enquanto exemplo compartilhado, é o aspecto central daquilo que atualmente me parece ser o elemento mais novo e menos compreendido deste livro” (p. 296). Na mesma página, sugere o termo exemplo como um substituto de paradigma.

Em outro ensaio escrito pouco tempo antes do pós-escrito, admitiu ter “perdido o controle do vocábulo”. No correr da vida, ele o abandonou. Mas nós, os leitores da Estrutura, cinquenta anos após a sua publicação, e depois que um bocado de poeira se assentou, Ian Hacking espera, podemos restaurá-la felizmente à proeminência. Continue reading “Paradigma”

Estrutura e Revolução 

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Estrutura e Revolução foram dois termos corretamente colocados no título do livro A Estrutura das Revoluções Científicas. Thomas Kuhn pensava não só que há revoluções científicas, mas também que elas têm uma estrutura. Ele explicou essa estrutura com grande cuidado, atribuindo um nome útil a cada nó da estrutura.

Ele tinha o dom do aforismo. Suas denominações adquiriram um status excepcional, pois embora fossem algumas vezes enigmáticas, parte delas pertence hoje ao inglês coloquial. Eis a sequência:

  1. ciência normal (caps. 2-3, ele não os chamou de capítulos, pois concebia a Estrutura mais como um esboço de livro do que um livro propriamente);
  2. resolução de quebra-cabeças (cap. 3);
  3. paradigma (cap. 4), uma palavra que, quando ele a usou, era não comum, porém que se tornou banal depois de Kuhn (para não mencionar “mudança de paradigma“);
  4. anomalia (cap. 5);
  5. crise (caps. 6-7); e
  6. revolução (cap. 8), estabelecendo um novo paradigma.

Tal é a estrutura das revoluções científicas:

  1. ciência normal com um paradigma e dedicação para solucionar quebra-cabeças;
  2. seguida de sérias anomalias, que conduzem para uma crise; e
  3. finalmente resolução da crise por meio de um novo paradigma.

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