Conduzir para não ser Conduzido

Para dar fundamentos à minha crítica da literatura de denúncia da “financeirização”, reuni uma coletânea de estudos sobre Finanças em um livro digital, cujo título é o deste artigo. Aqui, desejo analisar por qual razão misteriosa essa ideia me ocorre quando leio essa denúncia, recorrentemente realizada por meus companheiros esquerdistas. 

Non Ducor Duco é uma expressão em latim com significado de “não sou conduzido, conduzo”. O lema está presente no brasão da cidade de São Paulo.

Penso: é necessária a Educação Financeira para entender – e usar em próprio proveito – esse fenômeno típico de uma fase do ciclo de endividamento, quando a taxa de acumulação de riqueza financeira se descola da taxa de crescimento da renda. Em geral, ocorre durante a fase de desalavancagem financeira, depois de uma expansão-boom-crash-depressão. 

Passada aquela, estamos vivenciando a fase de “empurrar corda”, quando a política monetária fica inoperante. Quando o investimento público produtivo arrastar os gastos privados, virá a normalização. Conduziremos em vez de sermos conduzidos

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Crítica à Ideia de “Financeirização”

A “financeirização” é definida, por autores denunciantes do pressuposto fenômeno, como “um padrão sistêmico de acumulação de riqueza, correspondente a uma certa etapa histórica do capitalismo”. Nela, o capital financeiro constitui a forma de capital preponderante, exercendo dominância financeira sobre as variáveis econômicas.

Pressuposto é o que se supõe antecipadamente. É aquilo imaginado ou pensado sobre determinada situação antes de ter conhecimento profundo sobre ela. Não pode ser apresentado como indiscutível para o ouvinte, não permitindo contestações ao falante.

A “financeirização” é uma ideia possível de ser presumida, mas não é verdadeira. Sempre a lógica financeira racionalizou todas as decisões econômicas porque levam em conta o custo de oportunidade: o deixado de ganhar ao optar por um em lugar de outro.

Ou trazer a valor presente os estimados fluxos de renda futuros de investimentos alternativos para decidir por qual deles optar. Ou diversificar as formas de manutenção de riqueza em ativos para compensar eventuais perdas com ganho. Ou acompanhar um valor médio ponderado de mercado ao invés de tentar superá-lo sistematicamente.

Todas essas ideias brotam de uma racionalidade econômico-financeira. Mas as Finanças Comportamentais demonstram elas nem sempre serem usadas em situações de stress emocional em tomadas de decisões.

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Conduzir para não ser Conduzido: Crítica à Ideia de “Financeirização”

Reuni, em uma coletânea de estudos sobre Finanças, uma série de Textos para Discussão do IE-UNICAMP de minha autoria, publicados há mais de uma década. Além desse material, talvez desconhecido pelos leitores atuais, apresentei outros artigos-resenhas e reflexões recentes, críticas à literatura de denúncia da “financeirização”. 

No primeiro capítulo, fiz uma abordagem da Economia Normativa Religiosa – “o que deveria ser” de acordo com o Catolicismo Anti-Usura, o Protestantismo Ascético e as Finanças Islâmicas. O conceito de “poupança” tinha sido abandonado por nós, classificados como “economistas heterodoxos”, até se registrar, de fato, um corte de gastos em consumo, durante a pandemia, quando a taxa de juro real estava “zerada”. 

Antes, esse conceito era apropriado apenas à abstração teórica do capitalismo liberal de mercado. Os autores neoclássicos o idealizaram. Na realidade concreta, era substituído pelo conceito de funding, adotado por economistas pós-keynesianos, devido a ele ser mais adequado ao entendimento da economia de endividamento contemporânea. Crédito é mais relevante, para o crescimento da renda e do emprego, em lugar de poupança.

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Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais

Uma equipe internacional de cerca de cinquenta pesquisadores estudou os casos, em cinquenta democracias, de comportamento eleitoral em função da renda, herança, nível de educação, origens étnicas e religião. Pela primeira vez a questão é abordada de forma tão sistemática em um período tão longo (1948-2020). 

A hipótese testada e defendida no livro “Clivages Politique Et Social Inequalities”, (editado por Amory Gethin, Clara Martínez-Toledano e Thomas Piketty, Seuil; abril de 2021) é no Ocidente desenvolvido (Estados Unidos e Europa), a estruturação do voto por classe social ter desaparecido. Nesse processo, a esquerda teria se tornado a opção preferencial dos graduados em Ensino Superior.

Baixe um resumo com extratos traduzidos com clique em:

Thomas Piketty e outros. Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais Continuar a ler

Democracia e Politização da Desigualdade no Brasil: 1989-2018

Download do Capítulo:

GETHIN e MORGAN. Democracia e Politização da Desigualdade no Brasil: 1989-2018

Uma equipe internacional com cerca de cinquenta pesquisadores começou a estudar o comportamento eleitoral em função da renda, herança, nível de educação, origens étnicas e religião (“Clivages politique et social inequalities”, editado por Amory Gethin, Clara Martínez-Toledano e Thomas Piketty, Seuil, abril 2021). Pela primeira vez a questão é abordada de forma tão sistemática, em um período tão longo (1948-2020) e em cinquenta democracias.

No Ocidente, a estruturação do voto por classe social desapareceu. Nesse processo, a esquerda tornou-se a opção dos graduados em Ensino Superior. Por isso, o economista Thomas Piketty a chama de “a esquerda brâmane” como referência à casta dos sábios.

O Brasil é um caso à parte, estudado no capítulo 14 do citado livro. Dada sua importância, traduzi o capítulo escrito por Amory  Gethin  &  Marc  Morgan. Eles analisam a transformação das clivagens eleitorais no Brasil desde 1989, usando uma nova montagem de pesquisas eleitorais.

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Finanças Comportamentais para Trabalhadores

Com finalidade didática, traduzi extratos do livro Behavioral Finance for Private Banking, publicado em plena crise financeira de 2008. Sua 2a. Edição foi lançada em 2018.

A 2ª. Edição deste livro se beneficia de percepções de novas áreas de pesquisa, como Finanças Culturais, Neurofinanças e Fintech. Porém, traduzi apenas pequenos extratos mais interessantes para a leitura complementar de meus alunos.

Complementei o aprendizado e a aplicação dos leitores sobre Finanças Comportamentais ao apresentar informações sobre a realidade atual das finanças familiares no Brasil. Para tanto, utilizei da análise comparativa da última Pesquisa de Orçamentos Familiares com as anteriores, realizada pelo meu ex-professor de Econometria no mestrado em Economia na UNICAMP: Rodolfo Hoffmann. 

Ele e a coautora Daniela Verzola Vaz deram especial ênfase à contribuição das parcelas da renda familiar não normalmente investigadas ou cuja estimação depende de aproximações na PNAD, como a renda não monetária, a variação patrimonial, as aposentadorias e pensões de funcionários públicos e as transferências de programas sociais federais. Conhecer a contribuição desses componentes para a desigualdade da renda pode amparar os professores de Educação Financeira para ajudar a elaboração de planos de mobilidade social para seus alunos: os trabalhadores brasileiros.

Fernando Nogueira da Costa – Finanças Comportamentais para Trabalhadores.

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Castas e Párias

Com finalidade educacional, fiz uma tradução de extratos de um livro publicado no ano passado, nos EUA, sobre Castas [Caste], indicado na resposta a uma pergunta feita por mim à Lilia Schwarz: devemos rever a história do Brasil à luz das castas? Ela concordou. Fiz isso em Fernando Nogueira da Costa – Complexidade Brasileira: Abordagem Multidisciplinar. Sugiro a leitura do livro de autoria Isabel Wilkerson, cujas ideias centrais são resumidas abaixo, pois ele faz pensar a mistura entre sistema de castas e racismo, lá e aqui.

Fernando Nogueira da Costa. Castas e Párias. Blog Cidadania & Cultura. março de 2021

Coloquei como conclusão meu resumo do debate com outros textos contemporâneos, apresentados na coletânea, sobre políticas públicas para a superação da pobreza. Compartilho abaixo o artigo-resenha (publicado no dia 23/03/21 no GGN).

Esse foi o gesto racista, realizado pelo assessor internacional de Bolsonaro, Filipe Martins, durante audiência do chanceler Araújo no Senado Federal. É crime de racismo propagandear esse símbolo de intolerância supremacista branca da extrema direita nos Estados Unidos e no mundo.

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Cartilha de Finanças Pessoais

Neste semestre letivo, 80 alunos matricularam na disciplina eletiva oferecida por mim para os alunos da graduação do IE-UNICAMP. Ela é intitulada Finanças Comportamentais Para Planejamento Financeiro Pessoal.

Sua ementa busca propiciar Educação Financeira. Na primeira parte, analisa as evidências empíricas brasileiras sobre distribuição das rendas do trabalho, do capital produtivo, do capital financeiro, do capital imobiliário, além da concentração da riqueza no Brasil. Na segunda parte, apresenta o neuromarketing e as prevenções contra impulsos emocionais para consumir, as neurofinanças ou psicologia dos investidores, as finanças comportamentais. Na última parte, ensina o planejamento financeiro da vida pessoal e/ou familiar, o planejamento financeiro da aposentadoria, e conclui com o debate sobre economia da felicidade ou da boa vida.

Coloco à disposição de todos interessados um guia-didático (ou “livro-texto”) para o seguir:

Fernando Nogueira da Costa. Cartilha de Finanças Pessoais. Blog Cidadania & Cultura; março de 2021

O grande diferencial em relação à literatura de auto-ajuda financeira, encontrada nas livrarias (e com preços bem cobrados), além da vantagem de eu o colocar para download de graça, é seu método científico. Não apela para a motivação emocional, mas sim para fatos e dados para cada leitor refletir, racional e objetivamente, sobre o planejamento de sua vida financeira futura.

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Por Uma Teoria Alternativa da Moeda

O monopólio da emissão de moeda nacional é, junto com o das armas, sustentáculo da soberania do Estado sobre seu território. Ambos monopólios estatais reúnem o poder econômico e o poder militar. 

A casta dos mercadores e a casta dos guerreiros-militares, desde o passado, se aliam para configurar uma oligarquia governante. Com a emergência da organização dos trabalhadores assalariados, seja sindical, seja partidária, e depois a formação de uma massa de trabalhadores intelectuais universitários, há a divulgação de ideias socialistas contra o capitalismo explorador da força do trabalho. 

A socialdemocracia europeia, após a II Guerra, e a norte-americana, no New Deal, após a Grande Depressão dos anos 30, foi reformista e civilizadora. Com um Estado de Bem-Estar Social obteve os melhores Índices de Desenvolvimento Humano. Aqui, no Brasil, o social-desenvolvimentismo (2003-2014) teve de se contrapor ao neoliberalismo da socialdemocracia à brasileira, projeto só de intelectuais, sem trabalhadores.

No mundo das ideias, sempre houve questionamento de ideias, mesmo feito no ostracismo, durante os estados-de-guerra ou de emergência, sob regimes tirânicos. por Meios de comunicação midiáticos costumam sabotar a divulgação das ideias de vanguarda, críticas ao pensamento dominante. Mas, de tempos em tempos, elas emergem e chegam à opinião especializada bem-formada.

Daí a tarefa da inteligência é sua divulgação didática para a formação da opinião pública. Pratica um debate plural, onde cada participante se posiciona com base em sua razão. 

Na Espanha da ditadura fascista de Franco havia uma figura ressentida por ser um militar mutilado, José Millán-Astray, cujo lema era “Viva la Muerte!” Além de celebrar a morte, condenava a razão. Clamou: “Abaixo a inteligência, viva a morte!”. Parece o capitão…

A inteligência está do lado da academia do saber, a truculência está do lado da academia militar e fisiológica. Parece haver uma relação inversamente proporcional entre músculo e cérebro! Os “bombados” estão do lado da morte! Estamos, pelo contrário, do lado da vida!

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História dos Bancos até 1837

Quinze séculos depois de a China ter inventado o papel-moeda, a natureza do dinheiro está novamente mudando de maneira fundamental. Naquela época, na dinastia Tang (ano 618 a 907), o papel-moeda era pouco mais além de uma Nota Promissória.

yuan digital está sendo lançado. Ele não é apenas um meio de troca e uma unidade de conta. Com a ambição de se tornar uma reserva de valor, em uma economia em transformação para se tornar a maior potência mundial, é uma defesa contra a invasão de moedas digitais estrangeiras, emitidas por big-techsprivadas, como o diem (ex-libra) do grupo liderado pelo Facebook. A mídia pró-livre mercado e contra o Estado nacional critica o e-yuan como fosse apenas uma ferramenta para facilitar a vigilância em massa sobre a população chinesa.

A leitura do livro clássico, Fernando Nogueira da Costa – Tradução Comentada do livro de Richard Hildreth. História dos Bancos. março de 2021. (clique para download) dá uma perspectiva histórica para entender o debate sobre a Free Banking Era e as moedas privadas, ocorrido desde o século XIX, quando se experimentava os primeiros passos para a constituição de um verdadeiro Estado nacional. Este daria suporte à sua soberania – e não se submeteria a O Mercado – com apoio em dois pilares: 

1.         monopólio das armas; 

2.         monopólio da emissão da moeda nacional oficial. 

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Bancões e Banquetas: Leia a Pesquisa

No passado, jornal no dia seguinte só servia para “embrulhar peixe”. Aí, os peixeiros inovadores, para provar o peixe ser fresco, passaram a embrulhar com o jornal do dia!

Hoje, jornais impressos estão deixando de ser lidos. E os digitais só têm suas manchetes lidas com vista-d’olhos em smartphones ou tablets. Mas seus arquivos digitais servem como fontes primárias preciosas para qualquer pesquisador da história recente!

Nos anos 70, pesquisei as fontes primárias impressas, para escrever minha dissertação de mestrado – “Bancos em Minas Gerais (1889-1964)”, em bibliotecas públicas e privadas de bancos, arquivos públicos, coleção completa da Revista Bancária Brasileira – RBB, fundada em 1933. Tudo em papel. Exigia viagens e hospedagens para levantar as fontes impressas, xerocar, calcular e escrever à mão.

Nos anos 80, fui convidado a estudar o caso Banespa. Em 1986, ele comemorava 60 anos desde quando foi estadualizado. Passou de Banque de Crédit Hypothécaire et Agricole de l’état de São Paulo, société anonyme brésilienne, constituée le 14 juin 1909, pour une durée de 30 ans (consultei esses dados agora no Dr. Google), para Banco do Estado de São Paulo. Obtive livre acesso aos seus arquivos de documentos impressos. Infelizmente, não apreciaram minha história analítica – e não laudatória. Sorte a minha: virou minha tese de Doutoramento. 

Escrevi essa tese, rapidamente, em um Apple II. O computador doméstico teve sua produção iniciada em 1977. Tornou-se mais acessível durante a década de 1980. 

Na virada dos anos 90 para os 2000, comecei a escrever artigos para a Folha de S.Paulo sobre o processo de privatização dos bancos estaduais e a ameaça pairando sobre os bancos públicos federais. Em sua defesa, os sindicalistas de todos esses bancos me convidaram para palestras e consultorias. Por isso, indicaram-me para ser nomeado vice-presidente da Caixa (2003- ½ 2007). 

Tive a surpresa (e alegria) de reler alguns desses artigos agora na web. Encontrei-os quando pesquisei os arquivos digitais da Folha e Valor para organizar um novo livro para a atualização da história bancária do Brasil no período recente (2008-2020). Não tem finalidade comercial, propõe-se apenas à divulgação gratuita de conhecimentos.

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Aprendizagem e Ensino de Economia: Baixe o Livro

Temos de refletir sobre a prática de Ensino Remoto, realizado durante a pandemia, de maneira demorada. Depois de pensar, cismar, meditar, poderemos projetar metas, ações, planos, enfim, combinar uma estratégia para compartilharmos e adotarmos boas práticas didáticas.

A Maldição do Conhecimento é, depois de aprender, esquecer a dificuldade inicial de aprender. Em função desse fenômeno de perda de empatia com os iniciantes, estes, se desejosos de obterem uma verdadeira aprendizagem, devem se engajar de maneira ativa na aquisição do conhecimento, focalizando seu desafio intelectual. 

Para ir atrás desse conhecimento, de maneira proativa, em condições normais sem pandemia ou distanciamento social, o estudante poderia conversar com colegas a respeito do desafio. Quem aprendeu, recentemente, ainda tem na memória o passo-a-passo de seu aprendizado. É mais capaz de transmiti-lo ao seu colega em linguagem coloquial ou geracional.

Infelizmente, essa parte representativa de 1/5 da abordagem 70:20:10 – 70% de autodidatismo, 20% de conversas com colegas e 10% de dicas do professor – se perdeu no atual Ensino Remoto. Os estudantes reclamam da falta de conexões interpessoais com os colegas, devido ao distanciamento social.

EaD (Educação à Distância) não pode ser igual à Educação Presencial, com a única diferença de ser via Google Meet, Moodle ou Zoom. É necessário resumir os longos conteúdos, expostos anteriormente em cerca de duas horas, em aulas-sintéticas de apenas vinte minutos. São inteiramente suficientes para motivação de estudo posterior por conta própria dos alunos.

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