A Ética do Capitalismo e o Espírito do Protestantismo: Desmitificação da Poupança

ateismo-matematico

Dado o declínio religioso na Europa, onde o ateísmo tende a superar o cristianismo, seja o protestantismo no norte europeu, seja o catolicismo no sul-mediterrâneo, Niall Ferguson (Civilização; 2012: 316) lança as seguintes perguntas:

  1. Será que, como próprio Max Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo corrompeu o ascetismo original dos devotos?
  2. O que no desenvolvimento econômico foi hostil à fé religiosa?
  3. Foi a transformação do papel da mulher e a degradação da estrutura familiar, que também parece explicar a diminuição do tamanho das famílias e o declínio demográfico do Ocidente, a explicação para a descrença?
  4. Ou foi o conhecimento científico – a “desmitificação do mundo”, especialmente, pela Teoria da Evolução de Darwin – que falseou a história bíblica da criação divina?
  5. Foi a melhoria na expectativa de vida que tornou a vida após a morte um destino mais distante e menos alarmante?
  6. Foi o Estado de Bem-Estar Social, “um pastor secular”, cuidando da população do berço ao túmulo?
  7. Ou será que o cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura moderna?

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Não Mapeado: Big Data Como Uma Lente Sobre a Cultura Humana

Uncharted

Jean-Baptiste Michel nasceu em 1982, na França, filho de pai francês e mãe mauritana. Formou-se em Matemática e em Ciência da Computação em Paris, em 2005, vivendo na França até os 25 anos. Concluiu mestrado em Matemática Aplicada e PhD em biologia em Harvard. Trabalhou no Google, e hoje mora em Nova York. Dirige a Quantified Labs (http://www.quantifiedlabs.com/), que criou em parceria com Thomas Annicq. Cocriador do https://books.google.com/ngrams/info (click no link) e do livro “Uncharted

Rodolfo Lucena (FSP, 007/04/14) informa que ele busca criar uma superlente digital capaz de bisbilhotar a produção intelectual dos últimos dois séculos. Essa é a história contada em “Uncharted: Big Data as a Lens on Human Culture” (“Não Mapeado: Big Data Como uma Lente Sobre a Cultura Humana“), escrito pela dupla de cientistas Erez Aiden e Jean-Baptiste Michel.

Ambos são pesquisadores com interesses em múltiplas áreas. Aiden tem doutorados em Matemática e Engenharia Biomédica, além de mestrado em História. Michel abandonou a academia e comanda sua própria empresa, que constrói aplicações com grandes quantidades de dados — tem mestrado em matemática e doutorado em biologia.

Os dois se conheceram em Harvard e descobriram o interesse comum de trabalhar com “big data“. O objeto do estudo foi o Google Books, “uma biblioteca digital cujo objetivo era abranger todos os livros escritos”. Resultado: o Ngram Viewer, apresentado em dezembro de 2010, buscador capaz de determinar a incidência de um termo e comparar seus registros em milhões de livros.

Em “Uncharted“, lançado em dezembro, Aiden e Michel comentam várias aplicações divertidas da ferramenta (https://books.google.com/ngrams/info).

Nesta entrevista, Michel conta mais sobre o trabalho. Continuar a ler

Tabu: Falar sobre Dinheiro Pessoal

Dinheiro cidadão do mundo

Depois de anos como profissional teórico de Economia, quando voltei de minha prática como VP de Finanças e Mercado de Capitais, tendo cuidado das Finanças da Caixa (~ R$ 125 bi em 2007), ou seja, de seus recursos próprios, percebi que nem eu nem meus colegas acadêmicos cuidamos ou falamos de nossas Finanças Pessoais! Somos todos Macroeconomistas! Dinheiro é coisa suja! Tratamos apenas de O Capital!

Entrando na fase pré-aposentadoria, percebi como as Finanças Pessoais, sobre as quais com quem eu conversava me pedia aconselhamento, eram fundamentais para o futuro das famílias dos trabalhadores. Os imprevidentes seriam idiotas, no sentido estrito de que não teriam consciência do mal que fazem aos outros (familiares) e a si próprio!

Então, resolvi estudar Neuroeconomia e/ou Finanças Comportamentais. Depois de dar diversos cursos a respeito, no IE-UNICAMP, passei compartilhar aqui neste modesto blog meus modestíssimos conhecimentos. Mas a audiência me mostra que é relevante continuar. É a forma que encontrei para retornar à sociedade o que aprendi incentivado por Ensino Público gratuito, ou seja, que ela pagou para mim, pois, afinal, “não existe almoço de graça”…

Li um pequeno artigo da Chris Taylor (Valor, 02/04/14) que acho interessante compartilhar, pois revela que, mesmo nos EUA, a terra onde tudo — inclusive as virtudes pessoais — é precificado, também falar sobre dinheiro próprio ainda é um tabu. Enquanto isso, “o povo” adora falar do dinheiro dos outros, especialmente, das celebridades descerebradas. Parece-me que o argumento defensivo de que “é por causa da segurança pessoal” é meia-verdade. Será que é por causa da herança cristã antiusura? Reproduzo o artigo abaixo.

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Anti-Heróis: Homens Difíceis

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Por que presenciamos o sucesso de anti-heróis? Anti-herói é o termo que designa o personagem caracterizado por atitudes referentes ao contexto do conto contemporâneo, mas que não possuem vocação heróica ou que realizam a justiça por motivos egoístas, pessoais, vingança, por vaidade ou por quaisquer gêneros que não sejam altruístas, ou seja, é o antônimo da ideia que se tem de herói. A maioria dos anti-heróis da ficção são mais populares que os heróis.

Isabelle Moreira Lima (FSP, 30/03/14) comenta que “criaturas infelizes, moralmente incorretas e complicadas. Aquele tipo de gente que você não teria coragem de convidar para a sua casa. Para o escritor e jornalista Brett Martin, foram personagens com essas características que mudaram a história da televisão para sempre”.

No livro “Homens Difíceis“, lançado neste mês no Brasil, o autor fala sobre a primeira fase da nova era de ouro da TV. O período vai de 1997, com a série “Oz“, sobre uma prisão de segurança máxima, a 2013, com “Breaking Bad“, sobre um professor que se transforma em chefão do tráfico.

Martin afirma que o segredo desses personagens era serem profundamente humanos. Enfrentavam “batalhas cotidianas que os espectadores reconheciam”, ainda que polígamos (“Big Love“) ou serial killers (“Dexter“).

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Pacto Social Pela Saúde (por Dráuzio Varella)

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O custo da saúde está pela hora da morte. O preço dos medicamentos recém-descobertos e das novas tecnologias deixa para trás os valores da inflação.

Repassar integralmente esses custos para o SUS ou para os usuários dos planos de saúde é inviável. Sem repassá-los, no entanto, o sistema corre risco de desabar, dilema que só não aflige os países que negam a seus habitantes o acesso à saúde pública.

Aqui, como na Europa, Japão e Estados Unidos, a reorganização da assistência médica tem papel central nas reivindicações populares e na agenda dos governantes.

O Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que teve a ousadia de declarar a saúde como direito do cidadão e dever do Estado. Pena terem os constituintes de 1988 esquecido de mencionar de onde viriam os recursos para tal generosidade.

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CADE contra Cartel do Cimento

CADE contra Cartel do Cimento

Como se construiu um ambiente mais competitivo na economia norte-americana? Para enfrentar a “era do capitalismo-bandido dos barões-ladrões”, tipificada por trustees e carteis, a Sociedade Civil e a Sociedade Política dos EUA tiveram de se organizar e lutar. Entre 1898 e 1902, ocorreu a primeira onda de fusões de empresas do mundo chamada de “Era dos Barões Ladrões” devido à forte ação monopolística. Isto provocou o crash financeiro de 1904 após o qual veio um forte movimento regulador com legislação antitruste e quebra dos monopólios (Standard Oil, DuPont etc.). A toda poderosa Standard Oil, que dominava as áreas de refino e distribuição de combustível, no mercado mundial, foi dividida em 34 empresas. Em 1907, Andrew Carnegie e John D. Rockefeller II (magnatas do aço e do petróleo), com seus negócios afetados, foram procurar novos investimentos.

Juliano Basile (Valor, 02/04/14) informa que as punições às empresas envolvidas no caso conhecido como “cartel do cimento” podem ultrapassar os R$ 3,1 bilhões em multas propostas pela maioria dos integrantes do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), pois o Ministério Público Federal está entrando com ações de reparação e apenas numa delas, que foi proposta no Rio Grande do Norte, pede pena de R$ 5,6 bilhões. Somados os valores das multas do Cade com o da ação do MPF resultam em R$ 8,7 bilhões.

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Exploração Eleitoreira do Episódio de Compra da Refinaria de Pasadena pela Petrobras

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Recebi mensagem de ex-companheiro com o seguinte teor: “O que mais me surpreendeu nesse escândalo da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras foi o fato de todo o Conselho, presidido pela Dilma, ter aprovado uma transação internacional de 360 milhões de dólares SEM LER O CONTRATO, ou SEM PEDIR PARA UM ASSESSOR LER O CONTRATO!  Eles se contentaram com um resumo de 2 páginas e meia!”

Respondi-lhe:

Prezado Companheiro,

evidentemente, o episódio está tendo uso eleitoreiro neste período de pré-campanha em que a oposição se dedica só a desconstruir a imagem pública da candidata da situação.

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