Superação do Problema da Pobreza Extrema X Panfletagem Antipetista

Fome na África

Neste ano, deixei de assinar a versão impressa da Folha de S.Paulo, que assinava desde o início dos anos 80, porque não suportava mais ler a panfletagem direitista de seus colunistas. Leio a versão digital, no iPad, porque é mais rápido ler apenas as notícias, não desviando minha atenção para as manchetes escandalosas com denúncias vazias. Percebi que meu humor melhorou.

Ainda mantive a assinatura do jornal Valor Econômico, achando que, devido a seu público-alvo ser mais restrito, ele teria maior responsabilidade em evitar a veiculação de panfletos eleitorais e/ou discursos de ódio antipetista. Ledo engano. Hoje, tive mais uma péssima experiência de verificar a rápida perda de sua credibilidade — e que mais adiante significará a não renovação de sua assinatura.

Há uma boa notícia (escondida em um pequeno canto inferior de página interna) que deveria estar em manchete, pois era a principal meta simbólica do programa de governo eleito em 2003: Programa Fome-Zero. Lembro-me que, antes, eu dava aula explicando aos meus alunos a diferença entre pobres e indigentes: estes brasileiros não tinham renda nem para se alimentar, diariamente, atendendo as necessidades mínimas nutricionais.

Cristiano Zaia (Valor, 17/09/14) informou que “o Brasil reduziu a proporção de cidadãos que passam fome para 1,7% da população, ou 3,4 milhões de habitantes em 2014. Com isso, o país superou o problema da pobreza extrema. A avaliação é do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo“, divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Na classificação da entidade, nações com menos de 5% da população com fome superaram a pobreza em termos estruturais.

Segundo a entidade, o Brasil é um dos países de maior destaque entre o grupo de 63 nações em desenvolvimento que atingiram a meta de reduzir à metade a proporção de pessoas subnutridas até 2015. Continuar a ler

Entrevista à Revista Caros Amigos

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A repórter Laís Modelli enviou-me por e-mail uma entrevista para esboçar um perfil da Presidenta Dilma quando era estudante no Doutoramento do IE-UNICAMP. Perguntou-me:

Por que o senhor aceitou orientar o projeto de doutorado da Dilma?

Respondi: “Eu não fui convidado para ser orientador da Dilma. Ela apenas foi minha aluna no curso Economia Monetária e Financeira que eu ministrava na pós-graduação.”

No entanto, na edição nas bancas da Caros Amigos (n. 210, setembro de 2014, Ano XVIII, página 26), aparece na reportagem “A Linhagem dos Candidatos: História de vida e militância de Dilma, Marina e Aécio revelam a que mestre servem” duas vezes que sou ex-orientador do Doutorado da candidata. Feito o reparo, reproduzo abaixo minha entrevista completa. Continuar a ler

Impotência de Bancos Centrais Independentes

Ciclos Mundiais de 7 Anos

Afinal, o que significa a opção atual da Marina Silva pela proposta anacrônica da Independência do Banco Central? 

Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia e ex vice-presidente do Banco Mundial, se opõe à autonomia dos bancos centrais porque esses “tomam decisões que afetam todos os aspectos da sociedade, incluindo as taxas de crescimento econômico e do desemprego. Porque existem trade-offs, essas decisões só podem ser feitas como parte de um processo político” (Stiglitz, 2003).

Assinala que os “trabalhadores, que têm muito a perder se o banco central persegue uma política [monetária] excessivamente rígida, não têm um lugar na mesa. Mas os mercados financeiros – que não têm muito a perder com o desemprego, mas são afetados pela inflação – são tipicamente bem representados”.

Por fim, observa que “China, Índia e Brasil enfrentaram com mais êxito que diversos países centrais a crise econômica internacional porque evitaram conceder autonomia a seus bancos centrais” (THE TIMES OF INDIA, 2013).

Confira:

STIGLITZ, J. Big Lies about Central Banking. Disponível em http://timesofindia.indiatimes.com/business/india-business/Stiglitz-against-central-bank-independence/articleshow/17878411.cms

THE TIMES OF INDIA. Stiglitz against central bank independence. Disponível em http://timesofindia.indiatimes.com/business/india-business/Stiglitz-against-central-bank-independence/articleshow/17878411.cms

Jon Hilsenrath (WSJ, 22/08/14) informa que as principais autoridades dos bancos centrais do mundo todo têm de confrontar uma economia global que mais uma vez desaponta, tornando-as relutantes em alguns pontos e incapazes em outros de fechar as torneiras de dinheiro fácil empregado desde 2008 para impulsionar o crescimento.

As autoridades do Federal Reserve Bank, o banco central americano, — confusas com uma combinação de baixo crescimento econômico e uma taxa elevada de contratação pelas empresas — estão esperando por mais evidências de que a melhora do mercado de trabalho continuará antes de decidirem elevar os juros de curto prazo.

Em outros países, as autoridades estão discutindo se devem fazer mais, não menos. A China — a segunda maior economia mundial, depois dos EUA — tem tido dificuldades para atingir a meta de crescimento do governo e alguns analistas estão prevendo cortes nos juros. O Japão, a terceira maior economia, segue titubeante depois do governo elevar os impostos sobre bens de consumo e o Banco do Japão segue adiante com seu programa de compra de títulos de dívida destinado a impulsionar o crescimento. A Alemanha, no quarto lugar, registrou contração no segundo trimestre e o Banco Central Europeu faz experimentos no terreno de juros negativos. A economia britânica é talvez a de melhor desempenho do mundo desenvolvido atualmente, mas o líder de seu banco central reluta em elevar os juros de curto prazo. Continuar a ler

Mito IV do Debate Econômico Pré-Eleitoral: “Pleno-Emprego”

 

Projeção da População Brasileira 2000-2050Projeção da Taxa de Crescimento da População Brasileira 2001-2050Comportamento das variáveis do mercado de trabalho

Os economistas oposicionistas, baseados apenas em pontos de estragulamentos na contratação de mão-de-obra especializada em alguns setores de atividade, p.ex., construção civil, especialmente de engenheiros, passaram a levantar a hipótese de que a economia brasileira atingiu o pleno-emprego, buscando criar o ambiente favorável para uma política de ajuste recessivo. “Esta é uma situação que não há como escapar”, dizem. Com a elevação do desemprego, os custos salariais das empresas abaixariam por causa da perda de poder de barganha dos sindicatos.

Porém, a verdade é nem-nem: nem a economia está em pleno-emprego, nem necessita de ajuste fiscal-monetário recessivo! O que ocorre é uma mudança estrutural demográfica, assunto que os hiper-especialistas desconhecem…

Camilla Veras Mota (Valor, 10/09/14) informa que o aumento da taxa de desemprego previsto desde o ano passado pelo mercado tem contornado as expectativas e deve chegar com quase um ano de “atraso”. Para Sonia Rocha, pesquisadora do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), mais do que os sinais visíveis de esgotamento do mercado de trabalho, já é possível enxergar quais segmentos da população deverão pressionar o indicador nos próximos meses.

No estudo “Demografia e Mercado de Trabalho: o que Explica o Declínio da Desocupação no Brasil?“, as mulheres e os jovens “nem-nem” – aqueles que não estudam nem trabalham – aparecem entre os grupos cuja participação no mercado de trabalho caiu de maneira mais significativa entre 2005 e 2012. Quando a desaceleração do aumento da renda comprometer o pagamento das despesas das famílias, diz, eles serão os primeiros a voltar em busca de uma vaga.  Continuar a ler

Carta Aberta do Instituto de Economia da UNICAMP

cropped-unicamp_entrada-i.jpgA propósito dos agressivos ataques dos gurus econômicos da Marina (ler em Debate Tacanho e Fundamentalismo do Livre-Mercado + Fundamentalismo Religioso = Deus nos Acuda!) ao IE-UNICAMP — isso sem falar na desqualificação ignorante lançada ao Celso Furtado –, a resposta institucional é sóbria. Por eles serem persona non grata, isto é, “pessoas não bem-vindas”, essa resposta representa um “tapa-de-luva”: demonstra seus erros de avaliação e com educação e elegância possibilita eles reverem seus conceitos. Reproduzo abaixo a carta-aberta do IE-UNICAMP.

O Instituto de Economia da Unicamp vem a público reiterar seu compromisso com o Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil. Defendemos e exercitamos a qualidade e pluralidade do debate acadêmico e político e refutamos todas as agressões infundadas e levianas à nossa instituição por motivações ideológicas, partidárias e eleitorais. Continuar a ler

Fundo de Pensão Fechado X Aberto (PGBL ou VGBL)

PGBL x Outros Fundos

Sérgio Tauhata (Valor, 16/07/14) avalia que, pelo fato de partilharem a mesma natureza complementar em relação à Previdência oficial concedida pelo INSS, os sistemas fechado e aberto podem confundir os participantes. O primeiro engloba os chamados fundos de pensão. São planos criados por empresas e voltados exclusivamente aos funcionários. Em geral, o modelo engloba, além dos aportes dos contribuintes, uma contrapartida do empregador, que varia de 50% a até 150% de cada salário ao longo do período de investimento.

No caso do regime aberto, qualquer pessoa pode aderir a um dos planos, conhecidos como PGBLs e VGBLs, oferecidos por bancos e seguradoras – empresas também por recorrer ao produto para oferecer aos funcionários. Nesse sistema, na contratação por pessoa física, os recursos são aportados apenas pelos participantes. No fim da acumulação, a pessoa pode usar os valores poupados para:

  1. comprar uma renda,
  2. reinvestir em outros produtos ou
  3. simplesmente sacar o dinheiro.

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