Concentração Bancária 2006-2014

Níveis de Concentração Bancária jun 2006-jun 2014

Por que a concentração bancária é alta no Brasil? Para facilitar a vida dos analistas do sistema bancário, gente como eu! Analiso uma “amostra representativa” de apenas 4 bancos e já estou falando sobre 3/4 do sistema! Analiso mais 1/2 dúzia e digo a respeito de 90% do sistema! :)

E essa atividade de analista de banco está cada vez mais fácil. Depois da crise de 2008, eu, você, nós e nossos conhecidos, todos são clientes do BB e/ou da Caixa e/ou do Itaú e/ou do Bradesco. Fora as “viúvas” do Real e do Banespa, que persistem no Santander, quem mais você conhece que não prefere “banco grande demais para falir”?

Para o monitoramento sistemático dos níveis de concentração do segmento bancário do Sistema Financeiro Nacional, o Banco Central do Brasil utiliza o Índice de Herfindahl-Hirschman (IHH) e a Razão de Concentração dos quatro maiores (RC4) e dos dez maiores participantes (RC10) nos ativos totais, nas operações de crédito e nos depósitos totais do segmento. Continuar a ler

Celso Furtado: 10 Anos Depois

Celso Furtado - Foto Eduardo Simões

Rosa Freire d’Aguiar, viúva do Celso Furtado, narra seus últimos momentos. E descreve o esforço que todos nós, seus herdeiros intelectuais e políticos, fizemos para preservar seu grandioso legado.

20 de novembro de 2004: era um sábado, final da manhã. Celso queria ver o documentário “Sob a névoa da guerra”, em que Robert McNamara relembra seus tempos de ex-presidente do Banco Mundial e ex-secretário de Defesa americano. Tínhamos perdido o filme em Paris, desde então premiado com o Oscar de melhor documentário. Eu ia à locadora pegar o dvd e, na volta, passaria pela feirinha da Arcoverde para comprar salmão e quem sabe uma pamonha. Antes, resolvi fazer um café. Quando entrava na cozinha percebi que Celso, em pé e levemente debruçado sobre a mesa de jantar, lendo as manchetes do jornal do dia, fez um movimento para trás. Recuei, o segurei pelo braço: “Cuidado, você vai cair.” Caiu. Parada cardíaca. Nada a fazer.

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Intolerância Religiosa dos Reis Católicos: Exílios dos Judeus

Europa em 1492

A Reconquista dos antigos territórios muçulmanos de al-Andalus constituiu uma catástrofe para os judeus da Ibéria. No Estado islâmico, as três religiões – judaísmo, cristianismo e islamismo – conviveram em relativa harmonia por mais de seiscentos anos. Os judeus, em particular, viveram na Espanha uma renascença cultural e espiritual e não sofreram os pogroms que atormentavam seu povo no restante da Europa.

Contudo, à medida que avançava pela península, conquistando mais e mais territórios ao Islã, o exército dos Reis Católicos levava junto seu antissemitismo. Em 1378 e 1391, os cristãos atacaram as comunidades judaicas de Aragão e Castela, arrastaram seus moradores até a pia batismal e, ameaçando matá-los, obrigaram-nos a converter-se ao cristianismo. Continuar a ler

Judeus: Precursores do Espírito Moderno entre 1492 e 1700

1492 Caravelas

Karen Armstrong inicia o primeiro capítulo do livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo (Tradução: Hildegard Feist. São Paulo; Companhia das Letras; 2001), contando a história dos judeus como precursores da modernidade entre 1492 e 1700.

Em 1492, ocorreram na Espanha três acontecimentos muito importantes. Tais fatos, extraordinários na visão da época, hoje nos parecem característicos da nova sociedade que, no final do século XV e no decorrer dos dois séculos seguintes, surgia, lenta e penosamente, na Europa ocidental. Como nossa cultura ocidental moderna se desenvolveu nesse período, o ano de 1492 também esclarece parte de nossas preocupações e de nossos dilemas.

O primeiro fato ocorreu em 2 de janeiro, quando os exércitos de Fernando e Isabel, os Reis Católicos, cujo casamento acabara de unir os antigos reinos ibéricos de Aragão e Castela, conquistaram a cidade-estado de Granada. A multidão viu com profunda emoção o estandarte cristão hasteado nos muros da cidade, e, quando a notícia se difundiu, os sinos repicaram triunfalmente cm toda a Europa, pois Granada era a último baluarte islâmico no seio da cristandade. As cruzadas contra o Islã fracassaram, porém os muçulmanos foram expulsos da Europa. Em 1499, os muçulmanos que viviam na Espanha puderam escolher entre a conversão ao cristianismo e a deportação. Depois disso a Europa cristã (católica e protestante) não se sentiu ameaçada por eles durante alguns séculos.

O segundo acontecimento desse ano extraordinário deu-se em 31 de março, quando Fernando e Isabel assinaram o Edito da Expulsão, que baniria os judeus da Espanha, aos quais também se apresentou a possibilidade de optar pelo batismo ou pelo desterro. Muitos deles eram muitos apegados a “al-Andalus” (nome árabe do antigo reino islâmico) que se converteram à fé cristã e permaneceram na Espanha. Entretanto, cerca de 80 mil judeus partiram para Portugal e 50 mil fugiram para o novo Império Otomano, onde tiveram calorosa acolhida.

O terceiro fato refere-se a uma das figuras presentes na ocupação cristã de Granada. Em agosto, Cristóvão Colombo, protegido de Fernando e Isabel, zarpou da Espanha com o objetivo de encontrar uma nova rota comercial para a índia e descobriu a América. Continuar a ler

Conferência: Regulação Financeira Pós-crise

logo_celsofurtado

O Centro Celso Furtado tem organizado Conferências para a Petrobras (um de seus sócios patronos) sobre temas solicitados pela Área de Estratégia da empresa. Este ano já realizou duas conferências. Uma com Luiz Carlos Prado e a outra com Márcio Pochmann, ambos sócios do Centro. A próxima conferência, para a qual fui convidado para ser o conferencista, tem o seguinte briefing:

Regulação financeira pós-crise

Diante da liberdade dos fluxos de capitais, os países, principalmente os em desenvolvimento, têm sofrido com a forte volatilidade de suas moedas, bem como com os impactos sobre a condução da política econômica. Tendo em vista esses aspectos, pergunta-se:

  • é o regime de metas de inflação instrumento adequado para a condução da política monetária?
  • que tipos de instrumentos são compatíveis com uma política econômica alternativa?
  • a experiência de Bancos Centrais que têm mandatos mais abertos (inflação, mas também emprego e atividade econômica), a exemplo do Fed, pode vir a ser adotada no Brasil?

A referida conferência é para um seleto grupo de aproximadamente 30 executivos da Petrobras.

Download da conferência: FERNANDO COSTA – PETROBRAS – CICEF – Regulação Pós-Crise 19.11.2014 

Fundamentalismo X Modernização

Homofobia

Karen Armstrong conclui a apresentação do livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo (Tradução: Hildegard Feist. São Paulo; Companhia das Letras; 2001), dizendo que, no século XVIII (Era da Razão, do Iluminismo e das Revoluções Burguesas: Industrial Inglesa, Americana e Francesa), europeus e americanos alcançaram tamanho sucesso no campo da ciência e da tecnologia que começaram a ver o logos como o único meio de se chegar á verdade e o mythos como falso e supersticioso.

Também é verdade que o mundo novo que estavam construindo contradizia a dinâmica da antiga espiritualidade mítica. A experiência religiosa no mundo moderno mudou, e, considerando verdadeiro unicamente o racionalismo científico, um número cada vez maior de indivíduos com frequência tem tentado transformar em logos o mythos de sua fé. Os fundamentalistas vêm fazendo a mesma tentativa. Essa confusão tem gerado mais problemas. Continuar a ler

Mythos e Logos: Dois Modos de Pensar, Falar e Adquirir Conhecimento

Em nome de DeusTendemos a achar que nossos ancestrais eram (mais ou menos) como nós, porém, na verdade, possuíam uma vida espiritual diferente da nossa. Tinham dois modos de pensar, falar e adquirir conhecimento, aos quais os estudiosos, segundo Karen Armstrong, no livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo (Tradução: Hildegard Feist. São Paulo; Companhia das Letras; 2001), deram os nomes de:

  1. mythos e
  2. logos.

Ambos os modos eram essenciais, visto como métodos complementares de se chegar à verdade, e cada um tinha sua área especial de competência. Continuar a ler