Mito V do Debate Econômico Pré-Eleitoral: “Infalibilidade Tecnocrática”

Variação anual do PIB 2009-2013 das 10 Maiores Economias Entre as 10 maiores economias — só tem sentido comparar economias de portes semelhantes não dependentes de desempenho exportador de uma ou de poucas commodities –, o Brasil foi a terceira em taxa de crescimento econômico médio anual desde a explosão da maior crise mundial desde a de 1929, ficando abaixo somente da China (8,8% aa) e Índia (6,5% aa). Os BRIC ficaram “fora-da-curva” por causa das dimensões de seus mercados internos, da atuação anticíclica de seus bancos públicos e da não independência de seus Bancos Centrais. Estes não se omitiram na regulação da “exuberância irracional” prévia à crise.

Entretanto, a “autonomia operacional” do Banco Central do Brasil levou à adoção de um stop-and-go que freiou a retomada e a sustentação do crescimento econômico em nome da prioridade absoluta concedida à estabilização conjuntural da taxa de inflação. A tecnocracia autônoma assustou-se em todos os anos de elevação do crescimento do PIB (2004, 2008 e 2010), abortando-o com a elevação da taxa de juros básica Selic e/ou “a macroeconomia prudencial”.

Crescimento anual do PIB 1994-2014De fato, com esse stop-and-go, desde 2005, o BCB manteve a taxa de inflação (IPCA) abaixo do teto do regime de meta inflacionária. São inéditos 10 anos seguidos de controle inflacionário abaixo de 6,5% aa. É totalmente falso o terrorismo econômico pré-eleitoral!

Evolução anual do IPCA 1995-2014 Os defensores da Independência do Banco Central cultivam um “mito fundador” da doutrina novoclássica / neoliberal: a infalibilidade da equipe tecnocrata de plantão em sua diretoria! Justamente pela possibilidade de cometerem equívocos em seu arbítrio da taxa de juros básica que o guru monetarista, Milton Friedman era contra essa “tese”. Preferia que se tornasse uma artigo constitucional a única regra da política monetária: seguir a programação monetária de modo que só validasse o aumento do produto real e não a elevação apenas nominal do PIB.

Infalibilidade é o dogma segundo o qual o papa, para os católicos, e a Igreja, para os não católicos, são infalíveis, não se enganam em questões de fé ou de moral, quando em exercício solene de seus ministérios. Miriam Leitão, na minha entrevista à Globo News, surpreendeu-se quando eu comentei as “barbeiragens” cometidas mesmo durante a autonomia operacional do Banco Central concedida no Governo Lula e no Governo Dilma. Acho que a surpresa maior foi ela se deparar com um simpatizante petista que não considerou dogmático, “tipo tudo que meu governo fez eu aprovo” ou “o que Keynes disse eu concordo”. Pelo contrário, não abro mão de meu pensamento criativo individual e desdenho o parasitismo do suposto “pensamento coletivo ou oficial”.

A liberdade de pensamento e expressão deve ser praticada para ser mantida. No caso, eu citei exemplos de que não há infabilidade tecnocrática, “barbeiragens” foram cometidas pela Diretoria do Banco Central em diferentes governos. Daí o risco da concessão da independência ao Banco Central. Continuar a ler

Sobre Autonomia da Política Monetária

banco central independente - apito para adversário

Metodologicamente, nunca se deve reduzir um fenômeno macrossocial a um monocausal. Pelo vício da nossa formação doutrinária, alguns economistas se especializam em analisar apenas aspectos microeconômicos, outros, macroeconômicos, assim como focalizar apenas os fatores domésticos ou só salientar o contexto internacional.

Acho que o bom analista econômico deve ponderar todos os fatores. Evidentemente, é necessário dimensionar –“ciência é medição”– e analisar cada um deles. Dependendo do setor de atividade, por exemplo, importador ou exportador, um ou outro fator afeta mais.

Um problema é que a mídia — pelo espaço e tempo reduzidos (e de acesso caro), respectivamente, no jornal e na TV — reduz tudo a uma “declaração de princípios”. E o debate público se empobrece, p.ex., face ao debate acadêmico.

Em um debate na Globo News http://globosatplay.globo.com/globonews/v/3655046/ ), tentei explicar para um público maior, provavelmente não acadêmico, o que seria o efeito da adoção de um Banco Central Independente (BCI) através de uma metáfora, pensando no jogo de futebol ocorrido na véspera. Disse: “seria o equivalente a entregar o apito do jogo entre o Flamengo e o São Paulo ao técnico deste time paulistano. Ninguém duvida de sua competência técnica, mas todos os adversários duvidam de sua neutralidade ou imparcialidade. Técnicos não são neutros!

Caso isso ocorresse, ele teria marcado dois pênaltis contra o Mengão: um porque o atacante do São Paulo tropeçou nas próprias pernas, outro em que a bola bateu na mão do zagueiro do time carioca, involuntariamente, dois metros fora da área. Aí o caro leitor/expectador poderia contra-argumentar: “isso de fato ocorreu!” Então, eu acentuaria: “o que prova minha tese de que nenhum técnico, nem o juiz, é neutro!

Em outras palavras, o julgamento por parte de técnicos alocados em um BCI seguiria só determinada doutrina — no caso, de quem deu-lhes mandatos, p.ex., de 8 anos, indo além do próprio mandato do Presidente da República (re)eleito. Para o programa de um governo eleito democraticamente ser o seguido, ele não pode ser contraditado por uma equipe de técnicos oposicionistas. Senão seria como essa arbitragem (elevação da taxa de juros) só beneficiasse os rentistas (“coxinhas do São Paulo” — desculpem-me a ironia) e prejudicasse os trabalhadores (“toda a torcida brasileira do Flamengo”) com desemprego… Continuar a ler

Vote em Dilma por Razões Objetivas

Brasil de Lula a Dilma

As eleições deste ano são decisivas: o Brasil não pode retroceder ao passado do neoliberalismo e do elitismo, representado por uma candidatura de oposição que alardeia ter o mesmo propósito privatizante do governo de FHC, ou atrasar com a outra candidatura. O programa de Marina Silva traduz-se em aumento dos juros, redução dos serviços públicos e do número de servidores públicos, devido ao corte de gastos sociais. A proposta de dar independência ao Banco Central cria um Quarto Poder não eleito: é um golpe tecnocrático! Com isso, fatalmente, os programas sociais, o emprego, o crédito e o salário serão prejudicados. Compare essas propostas oposicionistas com o que já foi realizado na área socioeconômica desde 2003 e o que está em andamento para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros.

Se você gosta de tomar decisão racional, leia os seguintes documentos e vote na Dilma!

DownloadO Brasil de Lula e Dilma – agosto de 2014

VINTE ANOS DE ECONOMIA BRASILEIRA 1994-2014 – VERSÃO AMPLIADA

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Eleitores Indecisos: Vejam A Sabatina de O Globo À Presidenta Dilma

Eu não tinha assistido ao vivo a sabatina da Presidenta Dilma Rousseff realizada pelos jornalistas de O Globo no Palácio do Planalto. Sugiro aos eleitores ainda indecisos a assistirem e examinarem, conscientemente, o domínio dos assuntos estratégicos e a capacidade política e técnica de negociar no Congresso Nacional com visão de estadista. Fornece um quadro amplo das negociações que foram necessárias para colocar os investimentos em energia, infraestrutura e logística em andamento. Apresenta o que mudará caso ganhe um segundo mandato: nova equipe econômica, atendimento de médicos especializados e exames em lugares remotos, maior escala ao MCMV e ao Pronatec, etc. Dilma cede aos bons argumentos alheios, busca conciliar o possível, mas não abre mão de questões como Estado Laico e criminalização da homofobia, temas que sua adversária, Marina Silva, tem de decidir se segue a Constituição ou a seus pastores evangélicos.

Sabatina de jornalistas oposicionistas é um formato muito melhor para avaliar a competência dos candidatos do que o debate televiso em que os candidatos têm um minuto para falar, replicar e treplicar. Nesta situação só se destacam frases-feitas e declarações de princípios. Nele, não há tempo para um pensamento articulado e analítico, com início-meio-e-fim como o da Dilma. Destacam-se mais “gracinhas” e/ou declarações exóticas ou dogmáticas de “livres-atiradores” inconsequentes.

É possível assistir também em: O Globo: Sabatina à Dilma Rousseff

Dica: com iPhone ou iPad e AppleTV, jogue a imagem na TV, via AirPlay, para ver em tela maior.

Ex-Futuro Ministro da Fazenda: De Quem Nos Salvamos

E agora JoséDenise Neumann e Catherine Vieira (Valor, 18/09/14) continuam entrevistando economistas da oposição. Até agora não foi publicada nenhuma entrevista de página inteira com um economista claramente identificado com o PT e a candidatura da Presidenta Dilma Rousseff. Afirmam que o pedido do Valor para que a campanha Dilma Rousseff (PT) indique seu porta-voz econômico ainda não foi atendido. Óbvio, ela própria porta sua voz! Entrevistem-na.

Senão, não será publicado nenhum contraponto ao discurso oficial do “Quarto-Poder, A Imprensa”. Ressalve-se que esta será destronada desse Poder não eleito caso o Banco Central se torne independente…

Curiosa é a solidariedade dos tucanos nessa altura da campanha. Declaram: “Nem tudo está perdido…” Armínio Fraga necessita reafirmar que é “100% Aécio” e garantir que não considera a possibilidade de compor um eventual governo de Marina Silva (PSB). Não é escandaloso ser indiferente, para os gurus da Marina, o Ministro da Fazenda se tornar o nomeado pelo candidato concorrente?! Continuar a ler

À Procura da Felicidade Liberal

Ultraliberal GianettiDenise Neumann e Catherine Vieira (Valor, 06/09/14) apresentam o economista-filósofo Eduardo Giannetti como um dos principais conselheiros de Marina Silva, candidata do PSB à Presidência da República. Em eventual vitória da sua candidata, ele afirma que:

  1. a opção para fazer o ajuste econômico será pela via mais dura,
  2. os compromissos sociais assumidos no programa vão depender do equilíbrio fiscal e
  3. a indústria pode se preparar para uma operação “desmame”.

Embora evite detalhar como seria feito o ajuste econômico – e se ele incluiria o trivial neoliberal com aumento de juros e corte de despesas sociais para elevar o superávit primário –, Giannetti admite que “ele não será simples”. Não lhe é perguntado nada sobre os projetos em longo prazo em andamento. E nada de desenvolvimento lhe diz a respeito…

Antes de iniciar a entrevista, Giannetti avisa que não é “o” porta-voz econômico da campanha, mas um conselheiro e um dos formuladores do programa. Só?

Dito isso, lança mais uma frase-feita tipo sabedoria de autoajuda. “Não tenho a menor dúvida de que há um custo de fazer o ajuste, mas ele certamente é menor do que o custo de não fazê-lo”, disse. Porém, em todas suas experiências históricas — desde o Chile de Pinochet até a Inglaterra de Thatcher , isso sem falar na transição da URSS para a nova Rússia –, a Doutrina do Choque Ultraliberal provocou uma calamidade social.

Questionado se os compromissos assumidos no programa não são conflitantes com a perna fiscal do tripé macroeconômico, foi muito claro. “Os compromissos serão cumpridos à medida que as condições viabilizarem, sem prejuízo do equilíbrio fiscal.” Em outras palavras, dane-se o social e o ambiental, viva o arrocho fiscal!

Ao falar sobre a formação de um eventual governo Marina, ele deixou claro que “a nova política” também será abandonada logo, pois a campanha espera adesões tucanas desde já.

Ele repetiu que não se vê como ministro da Fazenda. Perguntado se técnicos do PSDB podem ter cargos no governo, disse que sim, e fez referência espontânea, sem citar nomes, aos quadros técnicos do PT do primeiro mandato de Lula, “que são de extraordinária qualidade”. Faziam parte daquele grupo Joaquim Levy, Marcos Lisboa e Bernard Appy, entre outros – entre os quais o modesto blogueiro que aqui escreve assim como outros desenvolvimentistas, especialmente, alocados nos bancos públicos. Mas, certamente para ele, “meu tipo de gente não tem a qualidade ideológica que ele aprecia…” snif, snif…

Leia, a seguir, trechos da entrevista. Continuar a ler

Diga-me com quem andas e eu te direi quem és!

Palocci e Marcos Lisboa

Diga-me com quem andas e dir-te-ei [que língua, a nossa!] quem és”. Millor Fernandes comentou sobre essa sentença: “Pois é, Judas andava com Cristo, Cristo andava com Judas…” Digo eu hoje: “Pois é, Marina anda com ultraliberais, que receberam um ‘passa-fora moleque’ do Presidente do PSB, na campanha, e no futuro, certamente, trairão o ideário de Marina…”

Ideário é o conjunto das ideias principais de um autor, de uma doutrina, movimento, partido, etc. No caso, qual é o programa de ação, o conjunto de aspirações, o espírito dessa agremiação de origem socialista? Vejo mais social-desenvolvimentismo ambientalista no PT do que na “colcha-de-retalhos” que é o Programa de Governo do PSB feito por várias mãos de ideologias distintas e sujeito a contínuas revisões por parte da candidata evangélica de acordo com as pressões dos pastores.

Então, para elaborar um cenário econômico do que, de fato, poderá ocorrer caso a Marina vença a eleição e os ideólogos ultraliberais recebam “carta-branca” para “darem as cartas” e preencherem o vácuo de ideias econômicas consistentes no programa anunciado, analisaremos em uma série de posts entrevistas recentes de alguns “gurus econômicos” da Marina e/ou Aécio. Continuar a ler