Luta pelo Estado Laico

bertrand-russell

Mais um trecho de Bertrand Russel, “A filosofia entre a religião e a ciência.”

A tentativa teutônica de preservar pelo menos uma independência parcial da Igreja manifestou-se não apenas na política, mas, também, na arte, no romance, no cavalheirismo e na guerra. Manifestou-se muito pouco no mundo intelectual, pois o ensino se achava quase inteiramente nas mãos do clero.

A Filosofia explícita da Idade Média não é um espelho exato da época, mas apenas do pensamento de um grupo. Entre os eclesiásticos, porém, principalmente entre os frades franciscanos, havia alguns que, por várias razões, estavam em desacordo com o Papa.

Na Itália, ademais, a cultura estendeu-se aos leigos alguns séculos antes de se estender até ao norte dos Alpes. Frederico II, que procurou fundar uma nova religião, representa o extremo da cultura antipapista; Tomás de Aquino, que nasceu no reino de Nápoles, onde o poder de Frederico era supremo, continua sendo até hoje o expoente clássico da filosofia papal. Dante, cerca de cinquenta anos mais tarde, conseguiu chegar a uma síntese, oferecendo a única exposição equilibrada de todo o mundo ideológico medieval.

Depois de Dante, tanto por motivos políticos como intelectuais, a síntese filosófica medieval se desmoronou. Teve ela, enquanto durou, uma qualidade de ordem e perfeição de miniatura: qualquer coisa de que esse sistema se ocupasse, era colocada com precisão em relação com o que constituía o seu cosmo bastante limitado. Continuar a ler

História da Filosofia entre a Teologia e a Ciência

Bertrand

Mais um trecho de Bertrand Russel, “A filosofia entre a religião e a ciência.”

A Filosofia, ao contrário do que ocorreu com a Teologia, surgiu, na Grécia, no século VI antes de Cristo. Depois de seguir o seu curso na Antiguidade, em seu primeiro período, foi de novo submersa pela Teologia, quando surgiu o Cristianismo e Roma se desmoronou.

Seu segundo período importante, do século XI ao século XIV, foi dominado pela Igreja Católica, com exceção de alguns poucos e grandes rebeldes, como, por exemplo, o imperador Frederico II (1195-1250). Este período terminou com as perturbações que culminaram na Reforma.

O terceiro período, desde o século XVII até hoje, é dominado, mais do que os períodos que o precederam, pela Ciência. As crenças religiosas tradicionais não justificadas foram sendo modificadas sempre que a Ciência torna imperativo tal passo. Poucos filósofos deste período são ortodoxos do ponto de vista católico, e o Estado secular adquire mais importância em suas especulações do que a Igreja. Continuar a ler

Debate sobre a Hipótese da Estagnação Secular

Taxa de Rendimento do Capital e Taxa de Crescimento da Renda 0-2100

Já postei neste modesto blog post a respeito do Debate Contemporâneo sobre Crescimento Econômico. A realidade histórica, segundo demonstra o gráfico acima, elaborado por Thomas Piketty, é que o padrão mundial de crescimento da renda per capita é baixo e em 2050 o “crescimento fora-da-curva do capitalismo” findará. As fases após a Revolução Industrial e a II Guerra Mundial foram exceções, assim com as fases de indústria nascente e urbanização, seja no Brasil, seja nos Países Asiáticos. Depois dessas mudanças estruturais, a opção por estabilização conjuntural leva a um stop-and-go estagnante, ou seja, crescimento vegetativo.

Para verificar a parcialidade do debate econômico, basta ver que os autodenominados economistas ortodoxos não reconhecem essa contribuição de um economista “heterodoxo” para retomar o debate sobre crescimento econômico em longo prazo. Com viés de autovalidação, só citam seus próprios pares! Aliás, é uma atitude contumaz: temas “heterodoxos” são incorporados pela “ortodoxia” sem os créditos devidos…

Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV e professor do IE/UFRJ. Publicou artigo-resenha (Valor, 05/09/14) sobre a “Hipótese da Estagnação Secular“. Só cita autores ortodoxos e/ou conservadores. No mesmo dia e jornal, André Lara Resende, assessor hedgeado no swap “livre-natureza/livre-mercado” de Marina Silva, publicou outro artigo sobre o tema, onde reconhece a inegável contribuição de Thomas Piketty, no entanto, o “neoclassiza”. Mais uma vez, os conservadores desejam monopolizar a “leitura do mundo”.  Reproduzo-os abaixo, na ordem respectiva de citação, para o leitor avaliar se eles “tropicalizam a ideia de baixo crescimento” como um fenômeno mundial que se reflete também na economia brasileira… Continuar a ler

Determinismo Histórico

revolucion_bolchevique

Publiquei neste modesto blog dois posts a respeito da Transição entre Modos de Produção e da Oscilação entre Civilização Ocidental e Civilização Oriental. Neste último, eu interpretei as séries temporais de longo prazo (milênios) que Thomas Piketty apresentou em seu livro “O Capital do Século XXI” e lancei uma provocação: o Capitalismo Liberal já era! Tem deadline para seu encerramento: em meados deste século (2050)! Viva o Capitalismo de Estado ou o Socialismo de Mercado!

Considerando as ascensões e as quedas de outras civilizações, que tiveram ciclos “meio” milenares, a dedução do “determinismo histórico” (sic) é o seguinte:

  1. República Romana (550aC-44aC)
  2. Império Romano Ocidental (44aC-476dC); ambos: Civilização Ocidental I
  3. Império Bizantino (476-1453)
  4. Império Chinês I (Dinastia Ming 1368-Guerras do Ópio Anglo-Chinesa: 1839-1842 e 1856-1860); ambos: Civilização Oriental I
  5. Império Anglo-Saxão ou Euro-Americano (1492-2050) ou Civilização Ocidental II
  6. Império Chinês II (1979-…) ou Civilização Ocidental II

Evidentemente, essa periodização foi mera provocação para reflexão e/ou debate: uma hipótese para ser falseada com pesquisa de dados, coleta de informações e reunião de argumentos. Continuar a ler

A História é A Mesma, Os Historiadores Mudam…

Deutschland_Besatzungszonen_1945.svg

Como um país altamente civilizado, que se vangloriava da sua superioridade moral e cultural, considerando-se a “terra de escritores e pensadores, pode chegar ao extremo barbarismo fanático? Os historiadores encaram os fatos da História da Alemanha (leia: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/07/09/historia-da-alemanha/) de maneira variável.

Uma explicação foi que havia uma longa tradição de um nacionalismo agressivo, antissemitismo, autoritarismo, veneração do herói e uma obediência subserviente à autoridade que tornou algo como o nacional-socialismo (nazismo) praticamente inevitável.

Outra é que o que pareceu, retrospectivamente, inevitável foi resultado de um número quase infinito de variáveis fortuitas. Por exemplo, a ascensão de Hitler no Congresso de Nuremberg de 1934. O pesado ônus do passado resultou em uma surpreendente ausência de resistência a um regime que desprezava todas as tradições positivas das ideias de cidadania surgidas em 1789 com a Revolução Francesa. Continuar a ler

Brasil na Primeira Guerra Mundial: Adeus à Europa

Adeus à Europa

Rodrigo Vizeu (FSP, 29/06/14) informa que, em 1890, o futuro fundador da Academia Brasileira de Letras, José Veríssimo, afirmava: “Estou convencido de que a Europa manterá durante longos séculos, talvez para sempre, sua supremacia”. Em 1917, Mário de Andrade expôs descrença na civilização europeia na coletânea “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”.

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi central para essa inflexão, levando a América Latina, com o Brasil incluído, a enfim buscar sua própria identidade. Ao mesmo tempo, passou a se influenciar mais pelos Estados Unidos.

A tese é do livro “Adeus à Europa“, do historiador francês Olivier Compagnon, da Universidade Sorbonne-Nouvelle (Paris 3), a ser publicado no Brasil em agosto de 2014. Continuar a ler

História Contrafactual: E Se?

Atentado de Sarajevo 28juillet1914

Sylvia Colombo (FSP, 29/06/14) entrevistou Richard Ned Lebow, que acaba de lançar “Archduke Franz Ferdinand Lives!” (Palgrave Machmillan, importado), um trabalho de “história contrafactual“, popularmente chamada de “história do what if‘” (e se?), em voga no mercado editorial desde os anos 90.

No livro, Lebow desenha um mundo em que Francisco Ferdinando tivesse sobrevivido ao assassinato. O arquiduque teria sido, então, coroado imperador dois anos depois, em 1916, com a morte de seu tio, Francisco José. Nesse cenário, os impérios Otomano e Austro-Húngaro ficariam de pé. Não haveria Primeira Guerra nem a Segunda. Adolf Hitler poderia ter sido apenas um vendedor de remédios alternativos; Richard Nixon, um apresentador de TV religioso, enquanto os EUA teriam tido como presidente Joseph Patrick Kennedy (o irmão mais velho de John F. Kennedy, que foi morto na Segunda Guerra).

Quando o historiador Richard Ned Lebow era ainda um bebê, sua mãe o entregou a um policial francês, pouco antes de os pais serem levados ao campo de concentração nazista de Auschwitz.

Esse gesto, rápido e pontual, foi definitivo para determinar sua sorte naquele distante ano de 1942. Estudar a importância de fatos (ou acasos) aparentemente isolados e pontuais virou, então, uma obsessão para o hoje historiador e professor do King’s College (Reino Unido) e do Dartmouth College (EUA).

Leia, abaixo, os principais trechos da interessante entrevista.

Continuar a ler