A História é A Mesma, Os Historiadores Mudam…

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Como um país altamente civilizado, que se vangloriava da sua superioridade moral e cultural, considerando-se a “terra de escritores e pensadores, pode chegar ao extremo barbarismo fanático? Os historiadores encaram os fatos da História da Alemanha (leia: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/07/09/historia-da-alemanha/) de maneira variável.

Uma explicação foi que havia uma longa tradição de um nacionalismo agressivo, antissemitismo, autoritarismo, veneração do herói e uma obediência subserviente à autoridade que tornou algo como o nacional-socialismo (nazismo) praticamente inevitável.

Outra é que o que pareceu, retrospectivamente, inevitável foi resultado de um número quase infinito de variáveis fortuitas. Por exemplo, a ascensão de Hitler no Congresso de Nuremberg de 1934. O pesado ônus do passado resultou em uma surpreendente ausência de resistência a um regime que desprezava todas as tradições positivas das ideias de cidadania surgidas em 1789 com a Revolução Francesa. Continuar a ler

Brasil na Primeira Guerra Mundial: Adeus à Europa

Adeus à Europa

Rodrigo Vizeu (FSP, 29/06/14) informa que, em 1890, o futuro fundador da Academia Brasileira de Letras, José Veríssimo, afirmava: “Estou convencido de que a Europa manterá durante longos séculos, talvez para sempre, sua supremacia”. Em 1917, Mário de Andrade expôs descrença na civilização europeia na coletânea “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”.

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi central para essa inflexão, levando a América Latina, com o Brasil incluído, a enfim buscar sua própria identidade. Ao mesmo tempo, passou a se influenciar mais pelos Estados Unidos.

A tese é do livro “Adeus à Europa“, do historiador francês Olivier Compagnon, da Universidade Sorbonne-Nouvelle (Paris 3), a ser publicado no Brasil em agosto de 2014. Continuar a ler

História Contrafactual: E Se?

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Sylvia Colombo (FSP, 29/06/14) entrevistou Richard Ned Lebow, que acaba de lançar “Archduke Franz Ferdinand Lives!” (Palgrave Machmillan, importado), um trabalho de “história contrafactual“, popularmente chamada de “história do what if‘” (e se?), em voga no mercado editorial desde os anos 90.

No livro, Lebow desenha um mundo em que Francisco Ferdinando tivesse sobrevivido ao assassinato. O arquiduque teria sido, então, coroado imperador dois anos depois, em 1916, com a morte de seu tio, Francisco José. Nesse cenário, os impérios Otomano e Austro-Húngaro ficariam de pé. Não haveria Primeira Guerra nem a Segunda. Adolf Hitler poderia ter sido apenas um vendedor de remédios alternativos; Richard Nixon, um apresentador de TV religioso, enquanto os EUA teriam tido como presidente Joseph Patrick Kennedy (o irmão mais velho de John F. Kennedy, que foi morto na Segunda Guerra).

Quando o historiador Richard Ned Lebow era ainda um bebê, sua mãe o entregou a um policial francês, pouco antes de os pais serem levados ao campo de concentração nazista de Auschwitz.

Esse gesto, rápido e pontual, foi definitivo para determinar sua sorte naquele distante ano de 1942. Estudar a importância de fatos (ou acasos) aparentemente isolados e pontuais virou, então, uma obsessão para o hoje historiador e professor do King’s College (Reino Unido) e do Dartmouth College (EUA).

Leia, abaixo, os principais trechos da interessante entrevista.

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História da Alemanha

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Entre 800 e 70 a.C., as tribos germânicas no norte migraram para território celta, avançando até os rios Oder e Reno e para o que é hoje a Alemanha meridional. Por volta de 58 a.C., os romanos, por meio de uma sucessão de campanhas militares, tornaram o Reno a fronteira nordeste do Império Romano, o que levou à romanização da margem esquerda do rio e a incorporação das sociedades celtas centro-europeias ao Império. A Germânia até o Reno e o Danúbio permaneceram fora do Império Romano.

A partir de 90 d.C., os romanos construíram o Limes, uma linha defensiva de 550 quilômetros do Reno até o Danúbio, planejada para conter as incursões germânicas na fronteira, bem como uma série de fortificações. Em cerca de 260, os germanos finalmente romperam o Limes e a fronteira do Danúbio.

No século IV, o avanço dos hunos Europa adentro deu início a um período chamado de Grandes Migrações, que mudou completamente o mapa do continente europeu. Ao unificar os francos e conquistar a Gália, o rei merovíngio Clóvis tornou-se o fundador do Reino Franco. Em 496, os francos derrotaram os alamanos, aceitaram a fé católica e passaram a ser apoiados pela Igreja. As províncias romanas ao norte dos Alpes já eram cristãs desde o século IV, e centros cristãos foram mantidos mesmo após a queda do Império Romano do Ocidente.

De 772 a 814, o Rei Carlos Magno estendeu o Império Carolíngio até a Itália setentrional e os territórios de todos os povos germânicos, inclusive os saxões e os bávaros. Em 800, a sua autoridade na Europa Ocidental foi confirmada com a sua sagração como imperador, em Roma, estabelecendo-se, assim, o que viria a chamar-se Sacro Império Romano-Germânico. O reino franco foi dividido em condados e suas fronteiras eram protegidas por marcas. Continuar a ler

O Islamismo e As Mulheres

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O fundamentalismo muçulmano defende a separação entre os sexos na esfera pública. A proximidade é considerada como um perigo permanente à virtude dos fiéis de ambos os sexos, pois os expõe às tentações que seguem naturalmente da sua natureza como seres sexuados. É preciso, em consequência, eliminar ao máximo todas as situações que podem provocar “tentação”.

Prostitutas foram apedrejadas ou fuziladas tanto no Irã sob Khomeini quanto no Afeganistão dos Talebã. Quaisquer expressões de sensualidade, como namoros ou maquiagem, são reprimidas pela polícia moral. Continuar a ler

Discriminações Islâmicas Contra As Mulheres

 

Imagens da semana 204 - MDigAo longo da história do islã, três grupos foram excluídos da igualdade que, em princípio, regeria as relações entre os fieis: escravos, não muçulmanos e mulheres. Sendo que as escravas mulheres serviam unicamente ao prazer do homem, em concubinato indicado por juristas islâmicos como alternativa ao vício. Os descendentes de tais laços eram muitas vezes alforriados e contribuíram para o processo de mestiçagem no Oriente Médio.

O número de escravas que um homem podia ter era em princípio ilimitado, ao contrário do casamento com mulheres livres, restrito a quatro esposas ao mesmo tempo. Estas se distinguiam das escravas por sinais exteriores de respeitabilidade como o véu.

As mulheres no mundo muçulmano constituem objetos de fascínio para o Ocidente: ontem, a fantasia da sensual criatura do harém; hoje, vítima de opressão, velada e genitalmente mutilada. Ambas as imagens representam um Oriente estereotipado. Ambas, segundo Peter Demant (O Mundo Muçulmano, Editora Contexto, 2013: 148), são “exageros que não descrevem a realidade social da esmagadora maioria das muçulmanas, correspondendo apenas a fragmentos da realidade. Continuar a ler

Islamismo: Estado Religioso

Mundo Muçulmano

O islã abrange todas as esferas da vida. É uma religião ao mesmo tempo em que é uma comunidade e um modo de viver dentro de uma tradição que regulariza todos os aspectos da vida, desde as diversas etapas de desenvolvimento, passando pela educação familiar e comunal, até a relação entre homens e mulheres, governo, comércio, finanças, justiça, filosofia, etc.

O submisso encontra tudo ordenado em um sistema jurídico-religioso total. Tal complexidade levou à emergência de uma classe prestigiosa de legistas-intérpretes especializados. Dada a onipresença da religião na vida cotidiana, o islã se torna o principal elemento formativo da identidade coletiva das populações subjugadas a ele.

Em consequência, não há diferenciação entre religião e política: Estado e Igreja se confundem. O islã inclui em seu bojo muito mais do que um corpo de crenças, ritual, normas, consolação, etc. Correspondências na maneira de viver criam semelhanças entre as mais distantes sociedades muçulmanas. Continuar a ler

Islamismo: relação com Cristianismo

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O cristianismo é o segundo elo da revolução cultural-ideológica monoteísta que influenciaria o islã não menos que o judaísmo. O ano 33 d.C. é a data convencional da crucificação de Jesus de Nazaré, reformador radical judeu, pelo exército de ocupação romano e com conivência da elite religiosa em Jerusalém. Para seus seguidores, Jesus foi considerado o Messias, o ungido (cristo em grego) e, posteriormente, na teologia de Paulo de Tarso, uma das três expressões da própria divindade. Esta visão conduziu, fatalmente, à ruptura com o judaísmo oficial.

A Igreja cristã primitiva abandonou rituais e costumes judaicos, facilitando em muito a conversão à nova fé para não judeus. O Estado romano dispensava-se de providenciar serviços sociais propriamente ditos. Para pelo menos 80% da população do imenso Império a vida era reduzida a trabalho, sofrimento, violência. A vida dos escravos era extremamente breve, quase sempre inferior a 25 anos. Diante desse quadro, os cristãos procuraram oportunidades que pudessem melhorar a vida das pessoas no submundo romano.

Dentro de alguns séculos, o cristianismo se tornaria a principal religião do Império Romano, apesar das perseguições iniciais. Em 330, o imperador Constantino reconheceu a nova religião. Cinquenta anos depois, todas as outras religiões seriam proscritas. Continuar a ler

Islamismo: relação com Judaísmo

Ramadã submissão

Superficialmente, o islã parece ser uma religião simples, como tantas outras que se popularizaram, com dogmas claros, obrigações e proibições. Os deveres do fiel se resumem aos cinco pilares do islã:

  1. Shahada (ou testemunho): a confissão – o politeísmo é o maior pecado – que efetua a conversão na fé que aceita um deus único e Maomé como seu profeta exclusivo.
  2. Salat: a reza (recitação de veneração e não pedido de benefícios a deus) que se faz cinco vezes por dia e, na sexta-feira, a oração comunal na mesquita.
  3. Zakat: a esmola, correspondente ao dízimo cristão: todos os crentes são obrigados a entregar uma parcela da renda para fins sociais dentro da coletividade islâmica.
  4. Ramadan: é o mês de jejum, entendido como purificação e ascese para deus, desde o nascer até o pôr do sol, quando acaba a abstenção de relações sexuais, comida e bebida, inclusive água, e se iniciam as confraternizações que duram toda a noite e a madrugada.
  5. Hajj: é a peregrinação a Meca – da mesma forma que Jesus, Maomé se viu inicialmente como reformador do judaísmo e adotou Jerusalém com cidade sagrada, porém, rejeitado pelos judeus, Maomé a substituiu por Meca e, em segundo lugar, Medina, ambas cidades sagradas na Arábia Saudita. Jerusalém mantém a posição de terceira cidade sagrada do Islã, ainda que seja mencionada no Alcorão apenas uma vez…

É notável a semelhança das imposições monoteístas anteriores, o judaísmo e o cristianismo, com a crença e o ritual básicos do islã que, aliás, se considera a continuação e o aperfeiçoamento daquelas. Maomé se integra assim na extensa linhagem de profetas “enviados por deus ao homem”. Continuar a ler

Islã no Tempo

Ramadã muçulmano

O surgimento do islã tem data e local demarcados: começo do século VII, na Península Árabe. Séculos antes, no mesmo lugar ocorreu a revolução monoteísta – a fé em um deus único, introduzida pelo judaísmo e pelo cristianismo –, tradição que talvez tenha facilitado a recepção da nova crença.

A Arábia vivia então à margem das duas superpotências do Oriente Médio da época: a Pérsia (que se tornou o Iraque após 1930) e o Império Bizantino. Este, cuja capital era Constantinopla (hoje Istambul na Turquia), surgira com a divisão do Império Romano em dois, o do Ocidente e o do Oriente, na década de 330 d.C. Essa estrutura bizantina absolutista sobreviveu mais de mil anos, até a conquista turca em 1453. Continuar a ler

Impérios Muçulmanos

Planeta Islamita

Os consecutivos impérios árabes e muçulmanos expandiram a fé muçulmana, a língua árabe e padrões culturais comuns. Hoje, perto de 95% da população do Oriente Médio é muçulmana. No entanto, quando o islã ali chegou, possivelmente 95% era cristã. A diminuição do cristianismo na zona de seu nascimento gerou um conflito duradouro entre essas duas religiões rivais.

Nos últimos duzentos anos, a influência do cristianismo também diminuiu na Europa, mas a relação antagônica com o Oriente Médio só se exacerbou por fatores econômicos e geopolíticos. Os Estados muçulmanos do Oriente Médio se enfraqueceram; mas a região cresceu em importância estratégicaafinal, muito do petróleo do mundo está lá – e tornou-se espaço privilegiado para as rivalidades com e entre as potências europeias.

A justaposição de tantos fatores – religiosos, estratégicos e econômicos – explica por que o Oriente Médio capta tanta atenção de políticos, jornalistas e da opinião pública internacional. As populações muçulmanas procuram reconquistar sua posição, outrora influente, no planeta. Continuar a ler

Mundo Muçulmano

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O objetivo do livro de Peter Demant (O Mundo Muçulmano, Editora Contexto, 2013) é proporcionar ao leitor brasileiro uma ideia geral da civilização do islã e tornar compreensível como e por que parcelas significativas do mundo muçulmano vêm se radicalizando, politizando sua religião e agredindo o Ocidente. Essa violência, sob a perspectiva dos fundamentalistas, constitui apenas uma merecida e justificável resposta às agressões recebidas.

O futuro da humanidade dependerá, em ampla medida, do êxito ou do fracasso coletivo em lidar com a dificuldade da coexistência entre as diferenças. E poucas diversidades colocam-nos um desafio mais urgente do que o fundamentalismo muçulmano.

Demant acredita que possamos evitar o anunciado “choque das civilizações” entre o Ocidente e o islã, uma guerra na qual todos nós sofreremos, desde que ambos os lados façam as concessões e os esforços necessários. A primeira tarefa, imprescindível, é exercitar a compreensão. Ao Ocidente, cabe entender como a riqueza histórica do mundo muçulmano se vincula à sua ira atual – e como o próprio mundo ocidental é cúmplice, de certa forma, da crise contemporânea do islã. Um entendimento da dinâmica interna do mundo muçulmano, assim como de sua interação com os povos vizinhos, constitui o primeiro passo para desenhar políticas mais compassivas, e mais efetivas, frente a ele. Continuar a ler