Filosofia Moderna

bertrand-russell Por Que Repetir Erros Antigos

O último trecho de Bertrand Russel, “A filosofia entre a religião e a ciência.”

“A Filosofia moderna começa com Descartes, cuja certeza fundamental é a existência de si mesmo e de seus pensamentos, dos quais o mundo exterior deve ser inferido. Isso constitui apenas a primeira fase de um desenvolvimento que, passando por Berkeley e Kant, chega a Fichte, para quem tudo era apenas uma emanação do eu. Isso era uma loucura, e, partindo desse extremo, a Filosofia tem procurado, desde então, evadir-se para o mundo do senso comum cotidiano.

Com o subjetivismo na Filosofia, o anarquismo anda de mãos dadas com a Política. Já no tempo de Lutero, discípulos inoportunos e não reconhecidos haviam desenvolvido a doutrina do anabatismo, a qual, durante algum tempo, dominou a cidade de Wünster. Os anabatistas repudiavam toda lei, pois afirmavam que o homem bom seria guiado, em todos os momentos, pelo Espírito Santo, que não pode ser preso a fórmulas. Partindo dessas premissas, chegam ao comunismo e à promiscuidade sexual.

Foram, pois, exterminados, após uma resistência heroica. Mas sua doutrina, em formas mais atenuadas, se estendem pela Holanda, Inglaterra e Estados Unidos; historicamente, é a origem do “quakerismo“. Continuar a ler

Luta pelo Estado Laico

bertrand-russell

Mais um trecho de Bertrand Russel, “A filosofia entre a religião e a ciência.”

A tentativa teutônica de preservar pelo menos uma independência parcial da Igreja manifestou-se não apenas na política, mas, também, na arte, no romance, no cavalheirismo e na guerra. Manifestou-se muito pouco no mundo intelectual, pois o ensino se achava quase inteiramente nas mãos do clero.

A Filosofia explícita da Idade Média não é um espelho exato da época, mas apenas do pensamento de um grupo. Entre os eclesiásticos, porém, principalmente entre os frades franciscanos, havia alguns que, por várias razões, estavam em desacordo com o Papa.

Na Itália, ademais, a cultura estendeu-se aos leigos alguns séculos antes de se estender até ao norte dos Alpes. Frederico II, que procurou fundar uma nova religião, representa o extremo da cultura antipapista; Tomás de Aquino, que nasceu no reino de Nápoles, onde o poder de Frederico era supremo, continua sendo até hoje o expoente clássico da filosofia papal. Dante, cerca de cinquenta anos mais tarde, conseguiu chegar a uma síntese, oferecendo a única exposição equilibrada de todo o mundo ideológico medieval.

Depois de Dante, tanto por motivos políticos como intelectuais, a síntese filosófica medieval se desmoronou. Teve ela, enquanto durou, uma qualidade de ordem e perfeição de miniatura: qualquer coisa de que esse sistema se ocupasse, era colocada com precisão em relação com o que constituía o seu cosmo bastante limitado. Continuar a ler

História da Filosofia entre a Teologia e a Ciência

Bertrand

Mais um trecho de Bertrand Russel, “A filosofia entre a religião e a ciência.”

A Filosofia, ao contrário do que ocorreu com a Teologia, surgiu, na Grécia, no século VI antes de Cristo. Depois de seguir o seu curso na Antiguidade, em seu primeiro período, foi de novo submersa pela Teologia, quando surgiu o Cristianismo e Roma se desmoronou.

Seu segundo período importante, do século XI ao século XIV, foi dominado pela Igreja Católica, com exceção de alguns poucos e grandes rebeldes, como, por exemplo, o imperador Frederico II (1195-1250). Este período terminou com as perturbações que culminaram na Reforma.

O terceiro período, desde o século XVII até hoje, é dominado, mais do que os períodos que o precederam, pela Ciência. As crenças religiosas tradicionais não justificadas foram sendo modificadas sempre que a Ciência torna imperativo tal passo. Poucos filósofos deste período são ortodoxos do ponto de vista católico, e o Estado secular adquire mais importância em suas especulações do que a Igreja. Continuar a ler

Debate sobre a Hipótese da Estagnação Secular

Taxa de Rendimento do Capital e Taxa de Crescimento da Renda 0-2100

Já postei neste modesto blog post a respeito do Debate Contemporâneo sobre Crescimento Econômico. A realidade histórica, segundo demonstra o gráfico acima, elaborado por Thomas Piketty, é que o padrão mundial de crescimento da renda per capita é baixo e em 2050 o “crescimento fora-da-curva do capitalismo” findará. As fases após a Revolução Industrial e a II Guerra Mundial foram exceções, assim com as fases de indústria nascente e urbanização, seja no Brasil, seja nos Países Asiáticos. Depois dessas mudanças estruturais, a opção por estabilização conjuntural leva a um stop-and-go estagnante, ou seja, crescimento vegetativo.

Para verificar a parcialidade do debate econômico, basta ver que os autodenominados economistas ortodoxos não reconhecem essa contribuição de um economista “heterodoxo” para retomar o debate sobre crescimento econômico em longo prazo. Com viés de autovalidação, só citam seus próprios pares! Aliás, é uma atitude contumaz: temas “heterodoxos” são incorporados pela “ortodoxia” sem os créditos devidos…

Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV e professor do IE/UFRJ. Publicou artigo-resenha (Valor, 05/09/14) sobre a “Hipótese da Estagnação Secular“. Só cita autores ortodoxos e/ou conservadores. No mesmo dia e jornal, André Lara Resende, assessor hedgeado no swap “livre-natureza/livre-mercado” de Marina Silva, publicou outro artigo sobre o tema, onde reconhece a inegável contribuição de Thomas Piketty, no entanto, o “neoclassiza”. Mais uma vez, os conservadores desejam monopolizar a “leitura do mundo”.  Reproduzo-os abaixo, na ordem respectiva de citação, para o leitor avaliar se eles “tropicalizam a ideia de baixo crescimento” como um fenômeno mundial que se reflete também na economia brasileira… Continuar a ler

Determinismo Histórico

revolucion_bolchevique

Publiquei neste modesto blog dois posts a respeito da Transição entre Modos de Produção e da Oscilação entre Civilização Ocidental e Civilização Oriental. Neste último, eu interpretei as séries temporais de longo prazo (milênios) que Thomas Piketty apresentou em seu livro “O Capital do Século XXI” e lancei uma provocação: o Capitalismo Liberal já era! Tem deadline para seu encerramento: em meados deste século (2050)! Viva o Capitalismo de Estado ou o Socialismo de Mercado!

Considerando as ascensões e as quedas de outras civilizações, que tiveram ciclos “meio” milenares, a dedução do “determinismo histórico” (sic) é o seguinte:

  1. República Romana (550aC-44aC)
  2. Império Romano Ocidental (44aC-476dC); ambos: Civilização Ocidental I
  3. Império Bizantino (476-1453)
  4. Império Chinês I (Dinastia Ming 1368-Guerras do Ópio Anglo-Chinesa: 1839-1842 e 1856-1860); ambos: Civilização Oriental I
  5. Império Anglo-Saxão ou Euro-Americano (1492-2050) ou Civilização Ocidental II
  6. Império Chinês II (1979-…) ou Civilização Ocidental II

Evidentemente, essa periodização foi mera provocação para reflexão e/ou debate: uma hipótese para ser falseada com pesquisa de dados, coleta de informações e reunião de argumentos. Continuar a ler

A História é A Mesma, Os Historiadores Mudam…

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Como um país altamente civilizado, que se vangloriava da sua superioridade moral e cultural, considerando-se a “terra de escritores e pensadores, pode chegar ao extremo barbarismo fanático? Os historiadores encaram os fatos da História da Alemanha (leia: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/07/09/historia-da-alemanha/) de maneira variável.

Uma explicação foi que havia uma longa tradição de um nacionalismo agressivo, antissemitismo, autoritarismo, veneração do herói e uma obediência subserviente à autoridade que tornou algo como o nacional-socialismo (nazismo) praticamente inevitável.

Outra é que o que pareceu, retrospectivamente, inevitável foi resultado de um número quase infinito de variáveis fortuitas. Por exemplo, a ascensão de Hitler no Congresso de Nuremberg de 1934. O pesado ônus do passado resultou em uma surpreendente ausência de resistência a um regime que desprezava todas as tradições positivas das ideias de cidadania surgidas em 1789 com a Revolução Francesa. Continuar a ler

Brasil na Primeira Guerra Mundial: Adeus à Europa

Adeus à Europa

Rodrigo Vizeu (FSP, 29/06/14) informa que, em 1890, o futuro fundador da Academia Brasileira de Letras, José Veríssimo, afirmava: “Estou convencido de que a Europa manterá durante longos séculos, talvez para sempre, sua supremacia”. Em 1917, Mário de Andrade expôs descrença na civilização europeia na coletânea “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”.

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi central para essa inflexão, levando a América Latina, com o Brasil incluído, a enfim buscar sua própria identidade. Ao mesmo tempo, passou a se influenciar mais pelos Estados Unidos.

A tese é do livro “Adeus à Europa“, do historiador francês Olivier Compagnon, da Universidade Sorbonne-Nouvelle (Paris 3), a ser publicado no Brasil em agosto de 2014. Continuar a ler