Cobertor Curto e Conflito Distributivo

Marcos Nobre

Marcos Nobre é professor do Departamento de Filosofia da UNICAMP e pesquisador do CEBRAP e do CNPq. Graduou-se em Ciências Sociais pela USP, onde obteve também o grau de mestre e o título de doutor em Filosofia. Realizou seu pós-doutorado na Universidade Johann Wolfgang Goethe, de Frankfurt, Alemanha. Assisti sua palestra na CPFL Cultura, em Campinas, no dia 14 de novembro de 2014.

Fui atraído por sua reputação e pela temática apresentada no folder de divulgação. “Nenhuma campanha recente foi parecida com a que vivemos em 2014. O que parece inédito não foram os temas e abordagens dos candidatos, mas a postura de grande parte dos eleitores e da sociedade: radicalismo, polarização, agressividade, fanatismo. Expressões desses sentimentos foram o medo do futuro, a insegurança no presente, a dificuldade de aceitar novos comportamentos no campo da sexualidade e dos costumes, a maior demanda por extensão e melhoria da qualidade de serviços públicos, a falta de confiança nos partidos políticos e sindicatos, os conflitos abertos nas ruas e nas redes sociais. A polarização PT e PSDB no campo da política é insuficiente para explicar o antagonismo que se estabeleceu na sociedade. Vivemos uma espécie de Fla X Flu em que a paixão pelos times de futebol deu espaço a visões de mundo excludentes, em que se nega ou se tenta reduzir ao mínimo o espaço para o diferente, agora não mais o meu adversário e sim meu inimigo – um adversário que, como no jogo, precisa ser eliminado.”

A pergunta-chave lançada ao debate foi: o que, afinal, aconteceu em junho de 2013? “É muito comum ouvir que junho de 2013 ‘não deu em nada’, especialmente em um ano de eleições. É comum ouvir que a fatura das manifestações de 2013 não chegou a 2014. Afinal, os alvos dos protestos de ontem foram reeleitos hoje, com algumas exceções. O que aconteceu com as bandeiras como a desmilitarização da polícia ou a tarifa zero para transporte público? Os candidatos anunciaram (ou demitiram) seus ministros da fazenda, mas nada acenaram para os movimentos sociais. Isso tem que ver com a alta abstenção observada no primeiro turno? De que maneira o fosso entre representantes e representados se alargou? Junho de 2013 vai continuar produzindo uma infinidade de questões como essas. As respostas a elas são sempre provisórias, mas podem e devem ser procuradas.” Continuar a ler

Renato Janine Ribeiro Alerta o PSDB para “Não Chocar o Ovo da Serpente”

Ovo da Serpente

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Reproduzo seu artigo (Valor, 03/11/14) que aponta o risco da volta das “vivandeiras dos quarteis”, ou seja, as “viúvas do Golpe (e da Ditadura) Militar de 1964″ que abusam da liberdade de expressão para atentar contra a própria democracia.

“Considero melhor, para quem analisa a política, a postura crítica à engajada. Como cidadãos, é claro que cada um de nós tem seu preferido. E qualquer pessoa, inclusive os políticos, adora elogios. Mas isto não nos deve impedir de apontar problemas até em nosso candidato. Se a crítica será recebida como construtiva ou destrutiva, isso não depende só de quem a escreve, mas também, talvez sobretudo, de quem a lê. Na última coluna, apontei problemas que vejo no segundo mandato de Dilma Rousseff. Hoje, discutirei o PSDB.

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Contra-Reforma Política

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Fabiano Maisonnnave (FSP, 31/10/14) informa que houve manifestações duras contra a reforma política durante palestra do cientista político Fabiano Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), proferida no dia 28/10/14, durante reunião anual da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais).

A possibilidade de criar um desastre institucional é muito grande. Não há nenhuma percepção da gravidade que é mexer nessas discussões com esse açodamento, com essa radicalidade”, afirmou Santos, tido como um dos principais estudiosos do Legislativo no país.

Reforma política não tem nenhuma relação com um problema substantivo da vida das pessoas. É um erro cabal do governo puxar esse assunto, um desastre”, disse o pesquisador sobre o tema priorizado pela presidente reeleita, Dilma Rousseff (PT).

De acordo com ele, não há chance de a sigla conseguir aprovação no Congresso dos pontos que considera importantes, como financiamento de campanha exclusivamente público. “Existe o sonho dourado do PT e existe algo que o Congresso não fará, que é o sonho dourado do PT.” Continuar a ler

Manifestações em Junho de 2013 e o Surgimento de uma Nova Direita

 

Dialogando com a Repressão

Eleonora Lucena (FSP, 31/10/14) informa sobre a análise do filósofo Paulo Eduardo Arantes, professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo), no final da tarde da quarta-feira (29/10/14), em palestra sobre as manifestações de junho de 2013 no 16º Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação de Filosofia, que acontece nesta semana em Campos do Jordão (SP).

O “surto de impaciência” revelado pelas manifestações de junho de 2013 “provocou um surto simétrico e antagônico que é o surgimento de uma nova direita, um dos fenômenos mais importantes do Brasil contemporâneo. Uma direita não convencional, que não está contemplada pelos esquemas tradicionais da política”.

Ele compara o que acontece aqui com a dinâmica nos Estados Unidos. “A direita norte-americana não está mais interessada em constituir maiorias de governo. Está interessada em impedir que aconteçam governos. Não quer constituir políticas no Legislativo e ignora o voto do eleitor médio. Ela não precisa de voto porque está sendo financiada diretamente pelas grandes corporações”, afirma.

Por isso, seus integrantes podem “se dar ao luxo de ter posições nítidas e inegociáveis. E partem para cima, tornando impossível qualquer mudança de status quo. Há uma direita no Brasil que está indo nessa direção“, diz o filósofo. Continuar a ler

16º Encontro Nacional da Anpof (Associação Nacional de Pós-Graduação de Filosofia)

Vitória da Dilma

Eleonora de Lucena (FSP, 30/10/14) informa que Marcos Nobre, doutor em filosofia pela Unicamp, participou na noite da terça-feira (28) de debate sobre eleições no 16º encontro nacional da Anpof (Associação Nacional de Pós-Graduação de Filosofia) que ocorreu nesta semana em Campos do Jordão (SP). Para ele, “as revoltas de junho abriram um horizonte que parecia fechado, e essas eleições já são expressão de que alguma coisa mudou no sistema político”.

A eleição acirrou a luta de classes. Estamos num momento em que a democracia brasileira tem que se decidir se vai se aprofundar ou se vai continuar patinando. As instituições até agora funcionaram para bloquear a diminuição da desigualdade no país. É a ideia de que todo mundo tem que andar em bloco para que todos fiquem mais ou menos onde estão.”

Para Marcos Nobre, as eleições foram “uma guerra em torno da grade de classes do país”: o que está em jogo é a manutenção ou não dessa grade.

Uma das coisas mais extraordinárias de 2014 “é que a direita trocou os blindados do Exército por blindados privados — esses carros enormes, que parecem militares, e que têm o adesivo do Aécio”.

Sua fala arrancou aplausos e risos da plateia (mais de 350 pessoas) que lotou a sala. Continuar a ler

38º Encontro da Associação Nacional dos Pesquisadores em Ciências Sociais (Anpocs) em Caxambu (MG)

Membros-do-mst comemoram vitória da Dilma

Vanessa Jurgenfeld (Valor, 29/10/14) informa que uma pesquisa apresentada durante o 38º encontro anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) discutiu a relação entre voto e o desempenho econômico. A pesquisa analisou eleições presidenciais em um grupo de países da América Latina, Leste Europeu e Rússia. No caso do Brasil, foram selecionadas as eleições de 2006 e de 2010. O estudo, feito por Luciana Fernandes Veiga, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Ednaldo Ribeiro, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), utilizando dados econômicos do Banco Mundial, mostrou que a inflação é a principal variável explicativa, mais importante que o crescimento econômico ou do que a taxa de desemprego na decisão do voto. Esse ciclo político explicaria a freada na economia, em 2013-14, pela elevação da taxa de juros de 7,25% aa para 11% aa focalizando o controle da inflação.

De acordo com o estudo, existe uma proeminência da inflação sobre as demais variáveis. Isto é, quanto maior a inflação, menor a chance de o eleitor votar no partido mandatário. E vice-versa. São aspectos secundários tanto a taxa de crescimento econômico (quanto maior o crescimento, maior é a chance de votar no mandatário) quanto o desemprego (quanto maior a taxa de desemprego menor a chance de voto no partido mandatário). Continuar a ler

Polarização Regional, Social e Ideológica nos Segundos Turnos de Eleição Presidencial no Brasil, EUA e França

Segundo Turno no Brasil-EUA-França

Pensei que já tinha compartilhado todas as publicações de Mapas Eleitorais de 2014, inclusive em 7 Desmitificações da Eleição de 2014, até que fui surpreendido pela comparação internacional acima. É incrível a semelhança dos resultados dos segundos turnos das eleições presidenciais no Brasil, nos EUA e na França, não? Por que isso? Não sei se a Ciência Política tem alguma teoria explicativa do fenômeno. Será que os segundos turnos, em época de crise mundial, produzem sempre essa polarização 1/2 a 1/2? Racha ideologicamente a sociedade? Para cada “gauche” há um “droite” igual e contrário? Luta de classes ainda existe? Desigualdade regional se expressa em votos?

Quem chamou a atenção para esses mapas foi Alberto Carlos Almeida, sociólogo, diretor do Instituto Análise e autor de “A Cabeça do Brasileiro“. Publicou (Valor-Eu&Fim-de-Semana, 31/10/14), como é costumeiro, um interessante artigo, no caso, intitulado “Dores do Parto de Uma Nova Sociedade”. Reproduzo-o abaixo com a ressalva que discordo do seu elogio a Roberto DaMatta. Ele teve uma participação lamentável nesta última eleição: “unfriend” nele! :) Continuar a ler