A esquerda teve de aprender a lidar com a alegria da militância. Quando perguntaram a Sartre por que ele, o mais famoso filósofo francês vivo, militava em maio de 1968 com estudantes maoistas, ele simplesmente respondeu (com sotaque mineiro): “Uai, são meus amigos!“
Antes, o positivismo economicista do marxismo vulgar era a fonte de prática política reformista, passiva e triste: ao privilegiar o papel dos “fatos” econômicos em detrimento da vontade e da ação política coletiva, a militância de esquerda era levada ao imobilismo fatalista. Em sua Teoria do Estado e da Revolução Socialista, Antônio Gramsci, já como dirigente do recém-fundado PCI, refletiu sobre a experiência que levou o movimento fascista, movimento reacionário nacionalista, a conquistar base política em massa popular, crescer e chegar ao Poder. Gramsci incorporou à doutrina da esquerda democrática a ideia de que as superestruturas ideológicas, em vez de aparecerem como simples reflexos passivos da infraestrutura, tem sua autonomia ampliada, passando mesmo a ocupar o posto de determinante central.
A geração de militantes de esquerda pós-68, assim como a da Guerra Civil espanhola, incorporou a alegria em sua atividade de propaganda. Os grafites de maio de 68 em Paris (veja acima) eram muito bem humorados!
Desde quando criamos os núcleos de base para fundar o Partido dos Trabalhadores, em janeiro de 1980, tínhamos o entusiasmo da volta dos exilados com ideias europeias, inclusive as do Partido Verde alemão, que, na época, era vanguarda político-cultural. Realizamos a campanha eleitoral de 1982, de maneira multicolorida, financiada por dinheiro arrecadado em festas à fantasia. Eu era o DJ delas na Zona Sul do Rio. Fizemos passeata na av. Rio Branco para distribuir flores no Dia das Mulheres e a primeira manifestação anti-nuclear em Angra dos Reis. Desfraldamos as bandeiras de luta com “temas malditos” (até hoje): feminismo, inclusive a liberdade de dispor do próprio corpo (aborto), anti-racismo, anti-homofobia, ecologia, etc.
Hoje, aqueles que se perguntam por que o PT tem a preferência de quase um em cada três brasileiros, i.é, 29%, vale a pena refletir sobre a ideia de ter “companheiros”, na alegria e na tristeza.
Cristian Klein é jornalista formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e tem mestrado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Atualmente, conclui o doutorado na área pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp-Uerj). Ele publicou artigo (Valor, 28/03/13) provocativo de reflexão a respeito desse assunto: a relação entre a alegria e a militância política. Reproduzo-o abaixo.
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